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25.4.12

Imaginando dragões

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

Outro dia estava vendo na TV a cabo um programa sobre novas empresas no ramo da tecnologia e inovação, e conheci a Quirky, que é basicamente uma comunidade online de gente criativa, com ideias para novos produtos. Você envia uma ideia por 10 dólares e, duas vezes por mês, as ideias mais votadas pela comunidade passam a ser desenvolvidas pela Quirky, até que virem produtos reais, físicos, e 30% das vendas vão para o criador.

Mas o que me chamou a atenção foi o depoimento do sujeito que criou o Click and Cook [1]. Há certa altura ele disse mais ou menos assim: “Sim o dinheiro é legal, mas o que mais me emociona é o fato desse produto, que agora está aqui na minha frente, e que posso pegar com a mão, ter saído da minha cabeça”... Nós realmente temos essa estranha dificuldade em notar que tudo o que há por aí, construído pelos homo sapiens – arranha-céus, trens bala, semáforos, espátulas, etc. –, saiu nalgum dia da cabeça de um, ou vários, de nós. Ainda assim, é sempre emocionante ver quando alguém percebe isso: “pensei alguma coisa, e agora é real!” Há que se perguntar: e quando, afinal, um pensamento não foi real?

Por exemplo, na era da informática, muitas e muitas coisas foram criadas, mas não passam de bits trafegando por hard disks. Na verdade, toda a internet é algo que não se pega com a mão: mas existe, e foi criado por nós. Alguns homens criam coisas “físicas”, hardwares; Outros criam coisas “virtuais”, softwares. Um programa de computador, por exemplo, é uma série de comandos e algoritmos que lidam com a interação do usuário para lhe trazer novos comandos e algoritmos de acordo com o que ele deseja: apenas um clique no botão de “buscar” do Google, e quantos e quantos anos de inovação e criatividade não se escondem por detrás do processo que retorna milhões de resultados [2], quantos e quantos pensamentos que saíram nalgum dia da cabeça dos homo sapiens.

Mas você deve estar se perguntando o que isso tudo tem de estranho. A princípio nada de aparente, mas eu achei por bem lhe trazer essa pequena introdução para falar sobre dragões imaginários, que é o que farei a partir de agora...

Como já havia dito nesta série, minha primeira festa estranha ocorreu provavelmente enquanto rolava poliedros regulares sobre uma mesa e decidia o resultado do que meu herói havia realizado no jogo de RPG [3]. Aquela altura os mitos e toda a simbologia diluída não me diziam nada de muito profundo, embora certamente fosse divertido jogar e, de todos os personagens a disposição, eu sempre tenha me interessado um pouco mais pelo Mago. Assim foi que, nalgum jogo da adolescência que já não me lembro mais, criei um novo mago que, por acaso, tinha um familiar, uma espécie de animal de estimação mágico que o auxiliava de vez em quando.

Eu nem gostava de ter de controlar mais de um personagem além do meu próprio (o Mago), mas estava na regra, e além do mais era algo que os magos ganhavam de graça, sem gastar pontos de personagem ou de experiência no jogo. Então rolei os dados e consultei a tabela do livro de regras e – minha nossa! – caiu na linha do faerie dragon, o que é mais ou menos um dragão fada pequenino, do tamanho de um lagarto de estimação (daqueles que sobem no nosso ombro), mas com belíssimas asas de fadas. Eu resolvi que seria melhor assumir aquele familiar com convicção, e tentar torná-lo algo mais assustador – assim sofreria menos gozações dos amigos que jogavam comigo.

Foi chamado de Amigo de Mago, e logo nas primeiras aventuras (jogos narrados pelo mestre do jogo, onde eu era um dos personagens com o meu mago) se mostrou bem mais útil do que havia imaginado a princípio, principalmente enquanto meu mago era alguém ainda inexperiente, e sem muitas possibilidades de torrar inimigos com bolas de fogo. Pode-se dizer que o Amigo de Mago era, no mínimo, uma distração muito útil para desviar a atenção dos inimigos. Acabei gostando e, ao longo de todos os magos que interpretei na minha vida de jogador de RPG, sempre que as regras permitiam eu trazia aquele dragão fada de volta a vida...

Mas os anos se passaram, eu me casei e mudei de cidade, e os jogos de RPG tradicionais ficaram cada vez mais raros, e minha vida no RPG foi se tornando cada vez mais eletrônica, e menos pessoal. Meus magos e seus dragões de estimação foram se tornando, cada vez mais, apenas memórias alegres da adolescência e dos meus vinte e poucos anos.

Foi então que comecei a desenvolver minha mediunidade em um centro espírita ecumênico [4] da cidade onde hoje resido, e aproveitei a oportunidade para colocar em prática (mental) alguns exercícios descritos de forma bastante didática por Franz Bardon em seu Magia Pratica. Quando estamos “preparando o ambiente (mental)” para que possamos entrar em contato com espíritos, costumeiramente tentamos “limpar a mente” de pensamentos ruins, estressantes, e imaginamos cenários naturais, como planícies ensolaradas de grama verdejante, algumas árvores e flores, uma cachoeira ao longe que deságua num rio que passa próximo, pássaros planando com a brisa no céu, etc. [5]

Isso tudo é imaginado em meditação, com os olhos fechados e a luz do ambiente bastante fraca. Muitas vezes, com a prática, tais imagens já surgem sem muito esforço, como se a mente já estivesse acostumada a tal programação... Na medida em que fui prosseguindo em meu desenvolvimento, pude notar que, efetivamente, a minha planície era cada vez mais verde e ensolarada, cada vez mais “real”. O que isso significa, na prática, é que estava ficando cada vez mais simples para mim entrar em estados de consciência compatíveis com aqueles adequados para a boa prática da mediunidade. Até que um dia, me deparei com um ambiente “carregado” de alguma influência negativa – era como se alguns espíritos desgostosos estivessem querendo invadir (mentalmente) o meu jardim, e me desconcentrar. Foi precisamente nesse momento que ele apareceu, o Amigo de Mago!

Como um pensamento, uma programação mental antiga e quase esquecida, mas que nunca deixou de ser querida para mim, o pequeno dragão fada, com suas asas cintilantes a refletir o brilho do sol, passou por mim como um zangão e, rodopiando a minha volta, afastou aqueles espíritos desgostosos, ou pensamentos ruins, como num “passe de mágica”. E, depois, ele se foi, voou para longe, como se jamais tivesse estado ali...

Era exatamente como nos antigos jogos de RPG: quando era necessário sua ajuda, o Amigo de Mago aparecia. Mas, na maior parte do tempo, ele ficava em segundo plano nas histórias... Foi então que me toquei: aquilo era real, pois todo pensamento é real. Afinal, como postulam alguns físicos modernos, tudo é informação, até mesmo um pensamento.

O pequeno dragão fada nada mais era do que uma programação mental antiga que, surpreendentemente, havia “ficado lá”, no terreno fértil da imaginação e, até mesmo devido a isso, ressurgiu em toda a sua glória exatamente quando este terreno estava novamente a ser remexido, em minha meditação com a construção de elaboradas imagens mentais.

Seria o Amigo de Mago um ser sentiente? Infelizmente, acredito que não. Por minha própria experiência com tal pensamento, se trata mais de uma programação mental que foi alimentada ao longo do tempo (mesmo sem que eu tivesse a plena consciência disso) para realizar tarefas (mentais) específicas, mas não seria como o meu gato que, apesar de não poder falar comigo, tem seu próprio ânimo felino.

Seria isso tudo “apenas coisa da minha cabeça”? Sem dúvida. Mas, se me permite dizer: eu sei muito bem a diferença entre a realidade e a fantasia, ou entre a realidade física, hardware, e a realidade psicológica, imaginativa, software. Porém, do mesmo modo, eu também desconfio que muitos pensamentos heroicos da imaginação humana já desbravaram a aventura mítica que separa essas duas dimensões da realidade, e há muitas e muitas ideias que hoje estão bem aqui, neste mundo que reflete a luz, e que percebemos com os olhos. Sejam sistemas de espátulas ou miniaturas de dragões fada, eles venceram, eles se materializaram bem diante de nós.

***

[1] Um engenhoso sistema de espátulas onde você pode trocar de espátula rapidamente, mantendo o mesmo cabo. Bem talvez fique mais simples de entender vendo no site.

[2] A busca por “pensamento”, por exemplo, traz mais de 33 milhões de resultados em menos de meio segundo (na banda larga).

[3] Role Playing Game, ou Jogo de Interpretação de Personagens. Este que se joga com dados e fichas de papel e um mestre do jogo, coisa do século passado... (brincadeira, ainda se joga assim neste século também).

[4] Quero dizer: um centro espírita que não é estritamente “kardecista”, e também tem práticas de umbanda sagrada, assim como de doutrinas espiritualistas orientais. Alguns médiuns chegam a incorporar com perda total ou parcial da consciência, mas não é o meu caso.

[5] Claro que, a nível de magia, essas imagens mentais também evocam os 4 elementos e também por isso são importantes – embora provavelmente boa parte dos espíritas não se dê conta disso.

***

Crédito das imagens: [topo] Samwise; [ao longo] Google Images (draco lizard – prova que a imaginação da Natureza ainda é muito superior a nossa)

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4 comentários:

Anonymous Samuel Otemi disse...

Cara muito bom.Essas programações tem diversas funções, ser veículo para intuição e as vezes um programação mais pesada se manifestando como um símbolo
que algo está errado.
Uma visão por exemplo é esses tipo de programação, mais "manifesta" indicando um preenchimento de um desequilibro "marco temporal"ou problema atual se for primeiro caso a mensagem pode ser do futuro, o segundo é mais um aviso ou outra função.
Eu fico impressionado, tipo no filme mente brilhante, como um esquizofrênico e capaz de criar uma realidade e da vida literalmente a personagens e todo um mundo dentro de sua mente.Ou como cada personagem tem uma função especifica para desenvolver aspectos de sua personalidade e carência interna.
As vezes pensamos não faz sentido estou ficando louco mais ser louco e a incompreensão e a duvida e sem esses vácuo sem essas programações é impossível ter a plenitude entendimento de nós mesmos.
Talvez essa seja a chave compreensão e tempo, nem sempre é possível entender na hora que o mundo dos pensamentos se manifesta.Mas ao compreendermos tudo toma um significado e lugar.

25/4/12 15:21  
Blogger raph disse...

Obrigado Samuel,

Acho que a mente, quando começa a lidar com seu próprio inconsciente, ou com informações "de fora" que, não obstante, lhe chegam num contexto ou, num "território" puramente mental, é forçada a realizar algumas associações de símbolos e significados que podem a princípio parecer absurdos e até infantis, mas que, quando são devidamente compreendidos, passam a fazer todo o sentido :)

Abs!
raph

25/4/12 16:26  
Blogger Juliano disse...

Muito bom esse texto, obrigado por compartilhar.

Eu não fazia idéia que uma programação mental poderia agir assim.

Esses dias eu escutava o Exu Capa Preta no canal do Jefferson Viscardi no Youtube e ele explicou que podemos gerar e fortalecer uma forma pensamento de dragão na porta, assim quem não gosta de dragão não gostará de ficar no ambiente.

Abraço

10/1/14 08:05  
Blogger raph disse...

Heh, são as famosas carrancas né?

Eu acho que aqui em casa acabei criando (ou criaram por mim) uma carranca de um sapo de jardim, aqueles de barro, que fica perto da porta... Eu só não sei como exatamente isso foi feito, são intuições que me aparecem... Um belo dia olhei pro sapo e pensei, "puxa, esse sapo é uma carranca agora".

Eu na verdade só passei a acreditar (de leve) mesmo quando uma pessoa ficou assustadíssima com o sapo (ele é todo bonitinho, tipo de desenho animado), e era uma pessoa que de repente precisava tomar um susto da carranca mesmo :p

Abs
raph

10/1/14 10:49  

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