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15.4.12

A inefável definição

Porque sabemos que o ser decidiu ser,
Igualmente, sabemos que o não ser não há,
Ou jamais foi, ou será.
Que haja algo, e não nada:
Eis o primeiro e único milagre;
E que torna todos os outros, tão somente
Algo perfeitamente natural.

E, sendo o Uno, ao mesmo tempo
E necessariamente: parte e todo de si,
Eis que o Uno é uno somente em si mesmo,
No repouso perfeito que não admite movimento.
Pois que todo movimento é alguma divisão,
Alguma irradiação do Uno em partes de si,
Quando o Uno se torna o inverso de si mesmo:
O Universo.

Porque sabemos que existem partes,
Igualmente, sabemos que há movimento.
Por outro lado, porque sabemos que existem essências
– As ideias elas mesmas de si mesmas –
Sabemos que em meio ao movimento, existe o repouso,
E é exatamente neste breve repouso
Que capturamos as partes em movimento
E as admiramos brevemente em toda sua glória;
E finalmente, dizemos:
Eis uma genuína parte do Infinito, em repouso.

Porém, como tudo está para nós em movimento,
Até mesmo o espaço e o tempo, entrelaçados,
A bailar com os ventos do Infinito,
Quando vemos algo repousar, e dizemos:
Eis algo!
Tal algo já não é mais o que fora,
Nem jamais o será outra vez...
E tal paradoxo dos paradoxos, filho do primeiro,
Só pode ser mesmo reconciliado com este precioso
Momento em nossa mente:
O momento em que fotografamos o Uno,
Em toda sua inefável definição...

Nós: os fotógrafos do Infinito.


raph’12

***

» Parte da série "Mito da criação"

Bibliografia recomendada: O Caibalion (3 iniciados, ed. Cultrix/Pensamento); Ética (Espinosa; ed. Autêntica); Da Natureza e sua permanência (Parmênides, Edições Loyola, também transcrito neste blog); Parmênides (Platão; Edições Loyola); O universo elegante (Brian Greene; ed. Cia. das Letras).

Crédito da foto: Stock4B/Corbis

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4 comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Muito bonito e bem feito. Adorei principalmente a frase "Quando o Uno se torna o inverso de si mesmo:
O Universo". Como já conversamos algumas vezes, o paradoxo que alguns colocam entre o Nada e o Tudo, ser ou não-ser, é bem melhor definido entre o infinito atemporal e Imanifestado e o que é manifestado, pois não há Nada no sentido de nulidade absoluta. O que a maioria dos místicos que usaram o termo Nada, Não-Ser ou algo análogo, quis dizer, quando se pesquisa mais a fundo, usaram no sentido de potencialidade oculta no Imanifesto, do qual a manifestação surge como brisas ou pensamentos curiosos. Temos o Todo no sentido de somatório da manifestação, mas na verdade há aquele Todo mais completo, totalmente Absoluto, que abarca a tudo e cujo universo deve lhe parecer apenas como um pensamento curioso... Ver o Uno, o Absoluto, etc, apenas como o universo, o somatório das manifestações, ao meu ver, é ainda algo muito restrito e reduzido...

15/4/12 19:18  
Blogger raph disse...

Exato. É por isso que o primeiro paradoxo: Tudo vindo do Nada, na realidade é apenas um pensamento que ainda não fora desenvolvido em toda sua plenitude.

E, quando o é, ele é reconciliado, pois não existe exatamente um paradoxo aí: o Nada não existe, existe apenas o Tudo em repouso, e o Tudo em movimento. O Uno :)

Abs
raph

16/4/12 09:42  
Blogger raph disse...

Essa ideia do universo como "o inverso, ou o outro verso, do Uno" na realidade não é minha, mas de um amigo ocultista e físico que conheci em debates no Orkut. Eu não faço ideia se ele retirou isso de ainda outra fonte, mas eu não encontrei outra fonte para esse insight, que não a dele. Talvez venha do neo-platonismo, não sei.

16/4/12 09:45  
Anonymous Anônimo disse...

Foi uma sacada genial... Apesar dos pesares, ainda gosto de usar o termo Nada, mas que confunde as pessoas falar de um nada que não é nulo, mas é o Todo em potencialidade, o Imanifestado, realmente confunde. Geralmente não falo tanto do Uno, dessa forma, porque a maioria entende o Uno como o somatório da manifestação. Ele resolveu a questão semantica tratando o tal Nada, Zero do Tarot e da kabballah, ou não-ser metafórico como o Uno (pois não é um não-ser, mas a potencialidade de ser qualquer coisa, vide até mesmo o significado que restou do único arcano maior nos jogos de azar, o joker ou outra versão do louco: ele não é numerado mas tem a potencialidade de qualquer carta em qualquer jogo... é só colocar ele no lugar, manifestando-o no jogo, que ele pode ser o que vc quiser) e a totalidade da manifestação, o um, como o seu inverso... Adorei a ideia... As vezes, quando escrevo "Nada", fica difícil explicar que o nada não é nulo, exceto para quem tem em mente as obras de Crowley... dificuldades de achar termos para tentar dizer o que é tão grandioso que não cabe mesmo em conceitos...
abraços

16/4/12 17:52  

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