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7.2.25

Financiamento coletivo de "Artemagia" junto aos "231 Portais de Iniciação"

Após muitos anos estudando e se dedicando integralmente ao tema, meus amigos Pri Martinelli e Marcelo Del Debbio estão lançando mais um financiamento coletivo de sucesso no Catarse (sim, ele mal foi lançado e já ultrapassou 100% da meta): "231 Portais de Iniciação - Os Estudos Avançados da Cabalá e dos Arcanos Maiores do Tarot".

Vocês podem ficar sabendo mais sobre a história toda lendo a própria página no site do Catarse. Mas o que interessa aqui é que eles estão lançando, juntamente com o projeto, o meu livro "Artemagia - uma reflexão sobre o Caminho", e também o excelente "Bruxaria - nascido em berço de palha", de outro grande amigo, André Correia.

Assim, é possível fazer a compra prévia de todos os livros e receber daqui a alguns meses, como em qualquer projeto de financiamento coletivo. Mas a vantagem é que, como ele foi financiado em poucas horas (literalmente), tudo indica que a versão final virá cheia de brindes extras. Não posso prometer, mas há grande chance do meu livro e o do André virem em capa dura, embora estejam no preço de capa comum.

Então não percam essa oportunidade de incentivar o mercado editorial nacional, e receber de volta um conhecimento inestimável:

catarse.me/231portais

obs.: Você pode apoiar este projeto até o dia 12/03/2025


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19.6.24

Oceânico, parte final

« continuando da parte 2


Aquele que tenha explicá-lo, mente

Para realizarmos qualquer coisa, mesmo a mais banal, como ir até a sorveteria tomar um sundae ou uma banana split, antes de mais nada precisamos ter a vontade de agir. Segundo Freud, todos nós temos uma espécie de reservatório de energia psíquica, isto é, uma quantidade de energia disponível para realizar nossas atividades. Freud também chamou essa energia de libido, uma espécie de energia sexual. Tal energia pode se manifestar diretamente na vida sexual em si, como no sexo ou nas fantasias eróticas, mas Freud acreditava que ela também serve como um impulso, uma pulsão, para a realização das mais diversas atividades, mesmo aquelas que julgamos ter pouca ou nenhuma relação com o sexo. Por exemplo, para ele a atividade artística é uma forma de sublimação da libido: ao invés de buscar a satisfação de seus impulsos estritamente sexuais, o artista “desvia” tal energia para a execução de todo tipo de atividade artística. E isso também é válido para a ciência, o trabalho em geral, e até mesmo a espiritualidade. Aliás, essa foi a principal divergência de Freud com Carl Gustav Jung, o jovem psiquiatra que era uma espécie de “discípulo predileto” do fundador da psicanálise.

Ao contrário de Freud, Jung acreditava que a energia psíquica tinha uma origem espiritual, e que poderia se manifestar de diversas formas nas ações humanas, incluindo aí a sexualidade. Mas Freud permaneceu irredutível em sua crença de que tal energia era primordialmente sexual, e que poderia até influenciar a espiritualidade, mas não o contrário. Os dois grandes nomes da psicologia do século XX divergiram justamente no que seria o fundamento da energia psíquica. Ainda assim, é preciso analisar com cuidado a divergência de Jung, pois não é que ele achasse que a sexualidade não tinha papel extremamente importante na vontade humana (e nesse aspecto ele não discordava de Freud), apenas ocorre que Jung não era tão avesso à espiritualidade em geral, e de alguma forma acreditava que a sexualidade por si só não era suficiente para abarcar toda a experiência religiosa, que ela não daria conta de explicar o tal sentimento oceânico (que ele provavelmente chamaria de misticismo).

Foi Jung quem popularizou os termos introversão e extroversão (ou “extraversão”, como ele escrevia) quando fundou seu corpus teórico e clínico, que chamou de psicologia analítica. A premissa básica é que os introvertidos buscam energia internamente, em solitude, enquanto os extrovertidos a obtêm da própria relação com as pessoas ao seu redor. No entanto, embora hoje em dia muitos de nós nos descrevamos como “extrovertidos” ou “introvertidos”, e vejamos esses traços como partes essenciais de nossa identidade, as definições de Jung não eram tão polarizadas. Na visão de Jung, precisávamos buscar essa energia tanto nas relações externas quanto dentro de nós mesmos para sermos pessoas plenas. Longe de definir “o que somos”, como algo escrito em pedra, Jung considerava a introversão e a extroversão como tipos de consciência que podemos experimentar de maneiras diferentes em situações distintas. Tanto a introversão quanto a extroversão podem dominar nosso comportamento, mas também podemos nos beneficiar da outra, não dominante. Aproveitando ambas as fontes de energia, podemos realmente expandir nossa experiência de vida.

Jung trouxe da alquimia antiga essa noção de que precisamos equilibrar as nossas caraterísticas internas, e tal noção também perpassa a sexualidade sagrada, a união e o equilíbrio dos polos feminino e masculino, algo que todos nós carregamos conosco, a todo momento. Mas, para explicar isso melhor, será bom recorrermos ao taoismo chinês:

Bem, o taoismo é uma filosofia espiritual bastante vasta, aqui bastará nos focarmos nos conceitos de yin e yang. Eles descrevem duas forças fundamentais, opostas e complementares, que podem ser encontradas em tudo o que há na natureza. O yin é o princípio feminino, a terra, a passividade, a escuridão e a restrição, enquanto o yang é o princípio masculino, o céu, a atividade, a luz e a expansão. Claro que citei apenas alguns exemplos de opostos complementares aqui, pois a lista é infindável. Seja como for, não há qualquer espécie de hierarquia entre os dois princípios. Por exemplo, se dizemos que yang é positivo, ele só é positivo quando comparado a yin, que será negativo. Essa analogia se assemelha a carga elétrica atribuída a prótons e elétrons, de modo que um não é “bom” por ser positivo, tampouco o outro será “mau” por ser negativo.

Segundo essa ideia, cada ser, objeto ou pensamento do universo possui um complemento do qual depende para a sua existência e que, por sua vez, também o traz dentro de si. Disso se tira que nada existe em estado absolutamente puro nem na absoluta passividade, mas sim em constante transformação. Há um símbolo que resume muito bem o yin e yang, e que muitos de vocês possivelmente já viram em algum lugar. Ele se chama taiji, e representa duas carpas vistas do alto, nadando em círculos num lago. Há uma carpa preta, de olho branco; e uma carpa branca, de olho preto. Ou seja, a carpa preta, yin, também tem um pouco de yang; e, da mesma forma, a carpa branca, yang, também carrega um pouco de yin consigo. E ainda temos um conceito essencial no símbolo em si: ambas as carpas jamais param de nadar, e do seu nado advém o equilíbrio e a harmonia de todas as coisas.

Com isso tudo em mente, será muito importante levar em consideração, daqui em diante, que na sexualidade sagrada, nos diversos rituais e práticas de magia sexual, sempre haverá uma conexão entre dois seres humanos, entre duas almas [1], e uma delas fará o papel ativo (yang), enquanto a outra assumirá o passivo (yin). Isso não significa que tais papeis não possam eventualmente se inverter. Tampouco significa, como alguns já devem ter percebido, que todo homem seja sempre ativo, e toda mulher, sempre passiva. Aliás, sequer podemos levar em consideração a própria orientação sexual de cada participante, pois um casal homossexual também terá aquele que se sente mais à vontade no papel de yang, e aquele que está mais próximo de yin. Ou, em outras palavras, no fundo no fundo somos todos alma.

Pois bem, eu sei que muitos gostariam de saber em detalhes como eram exatamente tais rituais sexuais milenares, o que era, o que é exatamente a magia sexual. O que eu posso dizer é que, de certa forma, a única coisa que separa a magia sexual de qualquer outro tipo de magia [2] é o contato íntimo entre os operadores de determinado ritual. Afinal, nada do que se faça com falos e orifícios deveria ser alguma novidade para um mago, de modo que o próprio ato sexual em si é mera parte de um processo, e não um fim em si mesmo.

Como em qualquer ato mágico, o sexo sagrado também busca uma alteração na consciência. Ao contrário de diversas outras técnicas, no entanto, como as que se valem do controle da respiração ou de encenações teatrais específicas, nesse tipo de magia há um momento de alteração radical do estado de consciência, que no mundo profano é chamado de orgasmo.

Ora, sejam ou não magos e sacerdotisas, todos os que já experimentaram ao menos um orgasmo sabem muito bem do que se trata, não é preciso descrever nada: o orgasmo é uma experiência. A questão é saber o que diabos exatamente é essa experiência. Há um termo em francês que também é sinônimo para orgasmo, la petite mort, a pequena morte. Ele compara o orgasmo à morte no sentido de que experimentamos uma alteração tão radical em nosso estado de consciência usual, que é como se tivéssemos “morrido por alguns instantes”. Mas é precisamente esse estado quase que alienígena de consciência, onde muitas vezes sequer temos noção do tempo e do espaço, que possibilita que a própria magia sexual ocorra de modo mais potente. Se quiser saber como é, poderia, por exemplo, nos momentos que antecedem um orgasmo, começar a pensar em natureza, em montanhas e florestas e riachos, em abundância de vida, na Deusa como ela é, ao invés de nádegas e falos.

Nos primórdios da humanidade a religião era matriarcal, a mulher era sagrada, e o seu corpo era um templo. No xamanismo ancestral, os ritos de iniciação eram realizados nas cavernas, pois suas entradas eram comparadas a vaginas, uma vez que o próprio interior da caverna era o ventre da Deusa. Pode parecer estranho pensar sobre isso hoje, mas até mesmo as catedrais góticas seguiram esse padrão simbólico, uma vez que a Igreja também era a “esposa” de Cristo. E, se até hoje bebemos simbolicamente o sangue de Jesus em certas cerimônias, não deveria causar grande surpresa que isso também tenha se originado em ritos muito, muito mais antigos.

No fim das contas, o sentimento oceânico de fato sempre esteve à nossa disposição. Não é sequer o caso de termos de buscá-lo lá fora, no topo de alguma montanha, no texto de algum grimório secreto, mas simplesmente de retirar as barreiras que nós mesmos erguemos contra ele, quiçá por ser tão avassalador, tão irracional, tão além das palavras. Delimitamos nosso ego quando deixamos de ser recém-nascidos na Criação, e experimentar o sentimento oceânico pode ser a via mais breve de retorno ao que sempre fomos.

Há uma wali (amiga de Allah), uma mística sufi que viveu no Oriente Médio, lá no século VIII, que soube descrever essa tal experiência de modo muito poético – quiçá o único modo com que ela possa, de fato, ser descrita:

Em Ishq-e Haqeeqi [3], não há nada se interpondo 
entre um coração e outro.

O querer falar nasce da saudade,
a verdade acerca do real sabor da vida.
Aquele que o provou, sabe;
aquele que tenta explicá-lo, mente...

Como você poderia descrever a verdadeira forma de Algo
em cuja presença você se torna um borrão?
E em cujo Ser você ainda existe e perdura?
E que vive como um signo eterno para a sua jornada?

(Rabia Basri)


***

[1] É claro que os adeptos da não monogamia também podem adentrar a sexualidade sagrada com três ou mais almas, de uma só vez. Apenas leve em consideração que cada alma adicional torna a operação exponencialmente mais complexa. Nada impede, entretanto, a simples alternância de casais dentro de uma relação não monogâmica.

[2] Se você crê que “magia” é o mesmo que “algo que não existe”, ou “algo que se faz contra Deus”, talvez não devesse sequer estar por aqui. Mas, se gostou do que leu até aqui e ficou curioso em descobrir o que é de fato magia, recomendo o meu livro Artemagia (Edições Textos para Reflexão).

[3] Ishq-e Haqeeqi, o amor divino, a experiência de união mística com Deus, algo que pode muito bem ser comparado ao sentimento oceânico. Você pode encontrar este e outros poemas de Rabia Basri no livro Rumi – Além das ideias de certo e errado (Edições Textos para Reflexão).

Crédito das imagens: [topo] cena do filme Um método perigoso (respectivamente, Jung e Freud); [ao longo] Google Image Search (taiji taoista); Dennis Mahlmeister (O Grande Rito).

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22.6.23

Lançamento: Artemagia

O Projeto Ars Magica chegou ao fim, e o seu título final é Artemagia: uma reflexão sobre o Caminho.

Em Artemagia, Rafael Arrais se vale da sua escrita poética e hipnotizante para nos trazer preciosas e profundas reflexões acerca do Caminho, o caminho espiritual, e tudo o que ele abarca: a Arte, a magia, a religião, a filosofia, a ciência, a espiritualidade, a chamada Verdadeira Vontade, o contato com anjos e demônios, as vias da mão direita e esquerda, o tarot etc. Se souber ler com o coração, você também será mudado para sempre por este livro.

Já disponível em e-book, na Amazon, e também na versão impressa:

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» Leia alguns trechos da obra


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31.1.23

Terra, fogo, água e ar (parte final)

« continuando da parte 4


Esta é uma verdade

Ainda antes que os homens fossem homens, espécies ancestrais de hominídeos conheceram o fogo. A primeira visão dele deve ter sido inesquecível, eterna: primeiro, mais um relâmpago no céu; depois, um trovão assustador ressoando pela terra inteira. Mas isso já era conhecido, a novidade é que havia logo ali, bem à frente, um arbusto em chamas. Uma sarça ardente e sagrada, queimando, abençoada com um pedacinho do sol.

Foi pela domesticação do fogo que os seres arcaicos aprenderam a caçar de modo mais eficiente e, principalmente, a cozinhar a carne caçada. Foi isso que possibilitou que as imensas quantidades de energia gastas na ingestão de carne crua pudessem ser canalizadas para o cérebro. O resultado disso foi o surgimento dos homens: nós somos os filhos e as filhas do fogo.

Desde que a chama não se apague, qualquer templo, qualquer concepção divina, qualquer nova religião poderá perdurar para sempre, atemporal como o fogo e o sol e a natureza. Em suas chamas, em incessante mutação, os xamãs de outrora tinham muitas visões, e delas extraíam conselhos para a sobrevivência da tribo. Eles filosofavam pelo fogo, se devotavam a ele de corpo e alma, para que seus irmãos pudessem prosperar na terra.

Até hoje não há artista, sensitivo ou pastor que saiba exatamente de onde vem sua intuição, aquela vontade antes do próprio querer, aquela voz que diz, “Será assim”, e para a qual eles respondem, “Que assim seja”.

Imersos na atemporalidade do fogo, tais guias da humanidade se assemelham aos primeiros contadores de histórias em torno da fogueira da aldeia. É pela palavra que eles encaminham seu rebanho, mas mesmo a palavra antes foi luz em suas almas. Luz vinda de onde? Luz feita do quê? Não importa, a luz foi criada para ser refletida, não explicada.

Somente eles aprenderam, de alguma forma que mal sabem explicar, a roubar o fogo dos deuses, e compartilhá-lo com os seres de baixo. Você pode achar que tal regalia coube somente aos grandes santos, profetas e gurus, mas infelizmente não foi assim: há também muita sombra e escuridão entre os arautos do fogo.

Pense nas atrocidades que já foram cometidas em nome daqueles que afirmavam falar em nome de algum deus, ou mesmo alguma ideologia infalível. Até mesmo os cientistas se tornaram submissos àqueles que dizem representar o seu deus, o deus-da-matéria-que-a-tudo-explica. Não é preciso dar detalhes: você sabe do que estou falando.

Aos que brincam com fogo, coube a maior das responsabilidades, que é evitar que ele consuma a tudo e a todos. Na escala correta, ele pode iluminar o templo do coração de muitas almas; na errada, ele pode destruir vilarejos, bibliotecas, templos alheios, países inteiros.

Somente a água pode equilibrar tal balança. É só com o exercício constante da empatia que aquele que se depara com as verdades universais poderá se abster de dizer, “Esta é a verdade”; e, no lugar, constatar, “Esta é uma verdade”.

Pois se o seu deus é algum senhor de exércitos, que demanda que todos se curvem à sua vontade ou desapareçam da terra, então que os deuses tenham piedade de nós. Mas, se o seu deus é como o sol que aquece a manhã, e jamais deixa de vencer a noite, e que não descansará até que toda a tribo se torne céu, então, meu irmão, minha irmã, bem-vindo, bem-vinda ao caminho.

***

Bibliografia
Kabbalah Hermética (Marcelo Del Debbio). Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Kimson Doan/unsplash.

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30.1.23

Terra, fogo, água e ar (parte 4)

« continuando da parte 3


As palavras mágicas

Imaginem a surpresa dos aldeões iletrados ao simplesmente observarem os escribas, os construtores e os magos em geral: gente que conseguia se comunicar somente pelo ar. Um construtor desconhecido chega num vilarejo e, ao apresentar um pedaço de papiro para outro construtor que nunca viu na vida, logo ambos parecem ser não somente colegas de longa data, como sabem exatamente o que irão construir a seguir, nos mínimos detalhes. Pura magia!

Era, então, a era da civilização humana. Os primórdios de um tempo em que nem todos precisavam sobreviver à duras penas, ao custo do trabalho braçal, do suor do corpo: havia também alguns poucos afortunados que, por conhecerem as palavras mágicas, por saberem lê-las em paredes, letreiros ou papéis, podiam se dar ao luxo de se dedicar somente ao ar, enquanto os analfabetos cuidavam da terra.

Decerto inúmeros sábios caminharam pelo mundo, mas foram somente os poetas, os filósofos e os escritores que foram lembrados pelas demais gerações, pois foram eles que dominaram a tecnologia primordial das brisas, o livro. Com o livro, seja sagrado ou não, eles eternizaram suas lendas, suas ideais mais iluminadas e sombrias, seus relatos mais fantasiosos e verdadeiros, sua visão de mundo, enfim, sua própria história. Pouco se sabe do que pensavam os xamãs ancestrais, os pajés e líderes de tribos selvagens, dentre outras coisas porque a eles jamais foi permitido contar sua própria história às gerações e aos povos futuros.

Sim, a história sempre foi escrita pelos vencedores, mas também havia dois tipos de conquistadores de terras: aqueles que davam pouco valor à cultura alheia, e aqueles que, de alguma forma, entendiam que todos os povos eram um só, que toda a humanidade deveria, mais dia menos dia, se entender, equalizar seus mitos de origem, mesclar seus deuses uns com os outros, ou seja: tornar-se uma só tribo, pois que o mundo é um só. Isso não significa aniquilar culturas, substituindo um deus pelo outro, pelo contrário: isso quer dizer que todos os deuses podem se irmanar, como os primeiros construtores, e para tal basta que sejam capazes de falar a mesma língua.

Porém, mesmo passados os tempos da guerra da fome e da morte, mesmo com o mundo se encaminhando para uma terra de cooperação, e não de matança e disputas inúteis, o ar ainda guardaria muitos perigos invisíveis em suas elucubrações infindáveis.

O homem redescobriria a ciência, e a chamaria de “moderna”, e começaria a declarar coisas sem sentido. Por exemplo: que a cor vermelha não existe, pois é somente um comprimento de onda eletromagnética; ou que dois amantes apaixonados jamais podem realmente se tocar, pois que os átomos se repelem entre si; ou ainda que a noite não é salpicada de deuses luminosos, que todas aquelas luzes são apenas sóis de outros sistemas, irradiando algo da mesma consistência que aquilo que sai de uma lamparina.

Ora, tais burocratas do conhecimento já não eram mais capazes de compreender toda a beleza da poesia romântica, nem todos os matizes das pinturas grandiosas, muito menos o que os antigos sentiam ao contemplar a noitinha, sem ter nenhum aparelho para registrar tamanha beleza que não seus próprios olhos.

Decerto eles mal sabiam que até mesmo os xamãs, os magos e os druidas tinham suas bibliotecas em plena floresta, e que sabiam “ler” cada filamento de uma planta, cada ranhura de uma casca de tronco, cada signo de uma flor. Que os sábios antigos também sabiam se mover pelo ar, sem, no entanto, ter de abandonar a terra. Com seus pés firmes, tal qual raízes, eles elevavam seus pensamentos aos céus, mas nenhuma tempestade era capaz de lhes levar embora.

Com suas facas, espadas e foices, eles sabiam quais galhos cortar, e quais preservar: quais dariam frutos saborosos, e quais estavam acometidos de ervas daninhas. Mas, acima de tudo, eles jamais abandonavam a terra, pois eram incapazes de esquecer a sua origem.

Nós só podemos contemplar o céu porque estamos aqui, bem posicionados, na terceira pedra do sol.

» Na sequência, os mistérios do fogo.


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Bibliografia
Kabbalah Hermética (Marcelo Del Debbio). Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] CHUTTERSNAP/unsplash.

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27.1.23

Terra, fogo, água e ar (parte 3)

« continuando da parte 2


Profundo, misterioso, infindável, inenarrável

Embora tenhamos perambulado por grande parte da terra, nenhuma grande civilização foi capaz de florescer longe da água. Mares primordiais, abarrotados de peixes, rios de água límpida descida do alto: nenhum Éden poderia existir sem eles. Acima de tudo, o que os antigos caçadores-coletores logo entenderam, é que água é sinônimo de vida.

Assim, tão logo descobriram a agricultura, também perceberam que não bastavam só as sementes e a terra, era preciso a fertilização das águas que caíam do céu. Se a terra era uma deusa de onde nasciam frutos infindáveis, eram os deuses do céu que garantiam a germinação.

Mesmo os grandes deuses montanhosos choravam, constantemente, emocionados com tantos milagres. Foi assim que muitos rios se tornaram sagrados, com suas águas correntes, filhas das grandes rochas; e há quem diga que alguns filósofos ancestrais foram capazes de atravessar as águas de uma deusa! Ora, nem mesmo Heráclito foi capaz de conceber tal maravilha.

E todas as águas correm rumo ao oceano, a grande divindade, e também a mais humilde delas: estando no nível menos elevado, recebe todos os afluentes das terras altas. A única associação que os primeiros nadadores-pensadores poderiam fazer era ao amor. Assim como o mar, o amor é profundo, misterioso, infindável, inenarrável.

Afinal, não há manual para o amor: o seu reino é alienígena, cheio de corais multicolores e correntes invisíveis e nefastas. Só o mergulhador que se arriscou em suas ondas pode saber de toda a maravilha e todo o perigo que há no mundo da água. Nada disso se ensina em cartilhas ou escolinhas de natação, tampouco nas grandes universidades ou nos laboratórios mais modernos.  

Estando além de qualquer capacidade lógica de catalogação, as ondas do amor quebram indistintamente sobre os nadadores iniciantes ou experientes. Mas há também os grandes sábios, em suas pranchas antigas, que aprenderam a observar o movimento das marés, e surfam acima de todas as mágoas e desentendimentos, jamais se apegando a esta ou aquela praia, pois sabem muito bem que ainda hão de atravessar muitas e muitas ilhas.

O grande perigo é crer que não precisaremos jamais aprender a nadar, que poderemos subir no pico mais elevado e viver em nossa caverna pequenina, tal qual eremitas, renunciantes do amor. É então que os deuses são forçados a enviar um verdadeiro dilúvio, para que todos sejam batizados, sem exceção.

Um dia, todos seremos como Noé, a pilotar nossa arca em meio à tempestade. E a única forma de se guiar pelas águas turbulentas é compreender que elas seguem sempre os desígnios do ar. Há ventos que vêm para causar naufrágios, é verdade, mas até mesmo esses podem ser bem aproveitados, se formos capazes de construir um mastro, e uma imensa vela, em nossa arca. Daí bastará usar a própria força do ar para nos levar para longe dos mares tumultuosos.

O amor é poderoso, inefável, capaz de nos carregar como náufragos para longe de toda e qualquer razão. Mas o amor tem muitos nomes, e é somente pela mesma razão que conseguiremos saber mais sobre eles. O amor é a lei dos mares, mas os mares ainda obedecem à vontade das brisas e dos vendavais. Não há grande navegador que tenha alcançado o Novo Mundo sem tal conhecimento.

Foi ao mar que os deuses deram o perigo e o abismo, mas também foi nele que espelharam o céu.

» Na sequência, as elucubrações do ar.


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Bibliografia
Kabbalah Hermética (Marcelo Del Debbio). Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search.

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26.1.23

Terra, fogo, água e ar (parte 2)

« continuando da parte 1


Tudo estava cheio de deuses

Para os antigos caçadores-coletores, a terra significava sobrevivência. Seja em que parte do mundo caminhassem, era dela que extraíam os frutos, plantas e raízes. Afora isso, havia os demais animais: alguns, presas fugidias; outros, feras selvagens, que tornavam caça os caçadores. Era a guerra da fome e da morte, onde tudo o que importava era atravessar mais um dia vivo; e, se possível, bem alimentado.

Se existia algum espaço para se pensar na vida e nos deuses, era na noite, onde dançavam e entoavam seus rituais em torno da fogueira do xamã da tribo, o único que tinha o privilégio de poder se dedicar inteiramente à vida, e não à sobrevivência. Naquele tempo, a vida era mágica, e tudo o que existia fazia parte do sopro divino. Não havia grandes lamentações acerca do passado, que era apenas ontem, nem angústia pelo futuro, que ainda não chegou a existir. Apenas o presente era concreto. O pão nosso de cada dia era de fato sagrado, de fato celebrado, pois não se sabia do amanhã.

Então, algum cientista pré-histórico percebeu que onde a tribo jogava as sementes dos frutos consumidos, por vezes surgiam novas árvores e novos frutos. Um grande espanto se sucedeu ante tamanho milagre tecnológico: para aquelas plantas já não havia aniquilação, e sim morte e renascimento. Elas poderiam crescer em qualquer solo fértil para sempre, e abastecer os antigos nômades de dias futuros, de um amanhã garantido. Era o começo da vida e o fim da sobrevivência.

Os deuses já não habitavam somente as estrelas distantes da noite, agora eles estavam aqui, na própria terra. As plantações eram sagradas, eram oferendas dos deuses da terra para os andarilhos cansados de perambular por vales e desfiladeiros. Tudo, em toda a volta de onde se assentaram para plantar, estava cheio de deuses. Não era mais preciso batalhar por mais um dia de comida: agora, era possível relaxar, e pensar na existência em si. Até hoje, os artistas, os poetas e os magos são devedores deste dia.

Este poderia ter sido o Éden prometido, se os homens não tivessem se cansado da contemplação dos deuses, se não tivessem chegado a acreditar que uma pedra era somente uma coisa sólida qualquer. Em sua ganância, eles ansiavam por pedras mais bonitas, e silos cada vez mais abarrotados de grãos. Eles descobriram que havia tribos que tinham mais coisas, mais riquezas, mais terras, e outras menos. Eles passaram a acreditar, enfim, que algum homem poderia ser dono dessas coisas.

Por isso, jamais houve paz, e sim mais e mais guerra. Não o embate sagrado do homem contra si mesmo, mas a estupidez das batalhas externas, pela conquista de mais e mais coisas que não significavam nada no fim das contas: eram apenas coisas. O homem já não vivia mais junto aos deuses, seu entusiasmo havia sumido, lentamente, de tal forma que ele já não se lembrava mais o que era estar entusiasmado, preenchido de sentido, cheio de espírito.

Mas não foram todos que padeceram da doença de crer que a terra era tudo o que há. Alguns conservaram a chama acesa, carregada cuidadosamente em tochas acesas nas fogueiras dos primeiros xamãs. Com o fogo, eles eram capazes de renovar inteiramente a natureza dos homens, em cerimônias de morte e renascimento, que ocorriam no refúgio das cavernas, escondidas da ignorância do mundo.

Rebatizados no ventre da terra, tais homens se tornavam irmãos pelo resto da existência. Foram tais guias que mantiveram a família dos deuses na memória dos homens, de modo que não pudessem se esquecer definitivamente de sua origem. Foram eles que não nos deixaram esquecer do caminho.

Era preciso o fogo para tornar a terra sagrada outra vez. E todos que aprenderam tais segredos se tornaram irmãos e irmãs: não somente amigos de deuses, mas da família, da linhagem divina.

Por isso todo xamã ancestral que é capaz de andar descalço pela terra, e sentir toda a imensidão da rocha, sem se desconectar dos deuses da noite, do sagrado que há acima, e abaixo, e por todos os lados, bate no coração e diz:

“Eu também sou da raça dos deuses.”


» Na sequência, as marés da água.

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Bibliografia
Kabbalah Hermética (Marcelo Del Debbio). Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Hikersbay Hikersbay/unsplash

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24.1.23

Terra, fogo, água e ar (parte 1)

Um convite para a caminhada

Tales de Mileto, possivelmente o primeiro grande filósofo do Ocidente, considerava a água a substância primordial, de onde se originaram todas as coisas. Já um de seus discípulos, Anaxímenes, afirmou que era o ar o princípio de todas as coisas. Parmênides de Eleia, nascido quando Tales já era idoso, defendia que a tal substância é imutável, e que suas transformações visíveis, tudo o que vemos no mundo a nossa volta, era mera ilusão. Heráclito de Éfeso, que viveu na mesma época, discordava totalmente, e dizia que “não podemos atravessar duas vezes o mesmo rio”, pois que tudo na natureza está em constante mudança.

Para um materialista atual, é muito difícil compreender o que todos esses pensadores da nossa antiguidade estavam realmente discutindo. Para a ciência moderna, os elementos são formados pelos diferentes tipos de átomos que formam as moléculas. A água, por exemplo, é composta por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio. Nos primeiros minutos após o big bang, o evento cósmico que originou o universo conhecido, havia de fato uma abundância de hidrogênio (e hélio), mas o oxigênio só surgiu centenas de milhões de anos depois. A terra e o ar podem ser formados por uma infinidade de materiais sólidos e gasosos, e o fogo sequer pode ser considerado “matéria”, uma vez que é o resultado de reações químicas.

Falta à visão moderna, obviamente, a concepção metafórica do mundo. Ora, é claro que Tales não supunha que o mundo inteiro era uma espécie de ilha surgida, de alguma forma estranha, de um oceano primordial infinito. A “água” a que o pensador antigo se referia não era somente a água que encontramos nos rios, ou que usamos para beber e tomar banho, mas uma ideia, um conceito. Para Tales, fazia mais sentido que todas as coisas tivessem se formado a partir de uma substância tão plástica quanto àquela que encontramos em um jarro de cerâmica – e que, se despejada, por exemplo, numa caneca de latão, assumirá imediatamente a nova forma.

O que os antigos compreendiam pelos quatro elementos – terra, fogo, água e ar – era essencialmente um conjunto de metáforas, usualmente associadas a ideias grandiosas, como substâncias primordiais ou deuses, mas igualmente a tipos psicológicos e qualidades e características puramente humanas. Nesse sentido, tais elementos ainda estão presentes no nosso dia a dia, em nossa linguagem e simbologia, quiçá com outros nomes, sem que percebamos.

Minha intenção aqui é, portanto, investigar a origem de tais associações simbólicas. Se puderem me acompanhar nessa viagem de pura imaginação, ela nos levará aos primórdios da civilização humana – da escrita, da religião, da filosofia etc. –, não importando realmente a região do planeta ou etnia específica. Dito isso, vale lembrar que inúmeros povos antigos chegaram a sistemas parecidos de quatro ou cinco elementos, por vezes se valendo de tipos diversos, como madeira, metal, vácuo ou éter. Minha intenção não é dar uma explicação definitiva para tudo isso, o que seria impossível, mas tão somente refletir sobre a terra, o fogo, a água e o ar.

Nossa viagem percorrerá cavernas iniciáticas, onde o fogo engravida a terra; mares calmos e raivosos, governados pelos espíritos do vento; pensamentos elevados, que necessitam de âncoras densas para permaneceram no mundo; e, finalmente, aos mistérios das chamas que caíram do céu.

Nada disso será acadêmico, no sentido de tentar explicar metáforas antigas, mas talvez uma experiência literária interessante. Se lhe interessa, vamos caminhar juntos por aí.


» Na sequência, a iniciação da terra.

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Bibliografia
Kabbalah Hermética (Marcelo Del Debbio). Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search.

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9.6.22

Lançamento: O Grande Arcano

As Edições Textos para Reflexão voltam a publicar Éliphas Lévi, o grande mago cristão do século XIX.

Escrito no final da vida, O Grande Arcano, também chamado de O Ocultismo Revelado, é o seu livro mais profundo, um genuíno testamento deixado para todos os buscadores e iniciados.

Um ebook já disponível para o Amazon Kindle e na Google Play:

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10.5.22

Raph fala sobre Dogma e Ritual da Alta Magia no Bate-papo Mayhem

Fui convidado mais uma vez para falar no Bate-papo Mayhem, desta vez sobre minha edição digital de Dogma e Ritual da Alta Magia, de Éliphas Lévi. Ao longo do programa, eu e os demais integrantes falamos sobre nossa experiência de leitura deste marco da magia cerimonial. Assista abaixo:

» Você encontra minha edição digital de Dogma e Ritual da Alta Magia aqui


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3.5.22

Para falar com anjos

O texto abaixo prefaciou o livro O Arbatel da Magia: A magia dos antigos, de Robson Bélli, disponível na Amazon em e-book.


Tanto o provável autor desta obra quanto o seu tradutor têm muito mais experiência com o mar profundo da magia. Eu, enquanto criança que brinca nos bancos de areia da beirada, posso tão somente servir de apresentador. Quiçá possa escrever, naquelas placas que alertam sobre o mar revolto:

CUIDADO. Não mergulhe sem temor a Deus.

“Temor a Deus” é um termo que vem sendo mal compreendido há tempos. Assim como o surfista de ondas gigantes não deixa de ter medo enquanto desliza por edifícios de água, o temor a Deus não significa medo paralisante, pânico, mas antes uma compreensão de que estamos lidando com coisas grandiosas, coisas antigas, coisas que estão na própria estrutura da realidade. Em suma, é antes uma sensação de respeito e reverência, quem sabe uma intranquilidade ante algo que vai além da nossa compreensão, do que o medo puro e simples, que nos impede sequer de molhar os calcanhares na beirinha.

O que quero dizer é que, no campo da magia, estar face a face com Deus ou seus emissários diretos, os anjos, equivale ao mergulho em águas profundas. Ninguém deveria ir até o fundo despreparado, tampouco por motivo fútil. Ninguém deveria esperar estar frente a frente com seres ancestrais com um pedido infantil nos lábios: “Quero meu amor de volta. Quero um carro zero. Quero poderes mágicos”. Que se peça ao menos a cura de algum mal: de preferência, do mal da ignorância.

Segundo o ocultista britânico Arthur Edward Waite, o autor do Arbatel de magia veterum alega ter aprendido magia diretamente de um anjo, e o nome deste anjo seria justamente Arbatel, ou Arbotel. Mas ainda que um anjo marinho emergisse das profundezas e nos deixasse um grimório como guia para o mergulho em águas profundas, somente a sua leitura não nos levaria muito longe. Seria preciso mergulhar, seria preciso praticar. O que posso fazer, portanto, é tentar tornar tal mergulho menos apavorante aos nadadores iniciantes:

Primeiro, não existe canto do cosmos em que você possa estar realmente distante ou “fora” de Deus. Seja no conforto de sua barraca suntuosa na praia, seja nas brincadeiras no raso, seja nas jornadas ao fundo, lá também estará Aquele Que É.

Segundo, em todo caso você já está, sempre esteve e estará sobre o efeito das forças divinas. Sejam anjos ou demônios, espíritos ou entidades. Afinal, eles são como a gravidade: ela não passou a existir somente porque algum cientista observou uma maçã caindo da árvore, ela sempre esteve lá, e nós tão somente tomamos consciência dela, e tentamos descrevê-la de forma racional.

Terceiro, tudo o que se faz com a mente e a imaginação humana é magia. Alguns já a chamaram de arte, de prática religiosa, até mesmo de ciência, mas no fundo tudo isso que imaginamos sempre foi magia.

Então, se você realmente deseja falar com anjos, se em seu coração arde a saudade do contato direto com o centro da realidade, saiba que aquilo que busca também já está lhe buscando – mas não pense que não vai precisar dos melhores guias na aventura que se segue: o Arbatel é um deles.


Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. (1 Coríntios 13:1)


Rafael Arrais

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Crédito da imagem: Cristian Palmer/unsplash

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25.2.22

Lançamento: Dogma e Ritual da Alta Magia

As Edições Textos para Reflexão trazem o grande clássico das ciências ocultas em uma edição digital memorável.

Dogma e Ritual da Alta Magia, de Éliphas Lévi, é uma das obras mais célebres no meio ocultista, de modo que até o século atual continua sendo considerada uma das introduções mais confiáveis à Cabala, ao Tarô, à prática da magia cerimonial e ao ocultismo em geral. Nossa edição possui mais de 40 ilustrações do próprio autor, prefácio de Arthur Edward Waite (cocriador do Tarô de Waite-Smith), fontes hebraicas dinâmicas (elas acompanham o tamanho do texto em geral) e guia de leitura - tudo isso pelo preço de um café!

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2.12.21

A vida de Éliphas Lévi

Prefácio de Dogma e Ritual da Alta Magia, por Arthur Edward Waite, retirado da sua tradução inglesa de 1896. Alguns trechos foram suprimidos em prol da fluidez da leitura e de um melhor entendimento do público leigo nos detalhes da história do ocultismo europeu.

Arthur Edward Waite (1857-1942) foi um célebre poeta, tradutor e ocultista estadunidense, que é mais conhecido por ter sido o cocriador do Tarot de Rider-Waite, ou Tarot de Waite-Smith.

Tradução ao português por Rafael Arrais.


ÉLIPHAS LÉVI ZAHED é o pseudônimo adotado por Alphonse Louis Constant em seus escritos acerca do ocultismo, e aparentemente se trata do equivalente hebraico do seu nome de batismo. O autor de Dogma e Ritual da Alta Magia (Dogme et Rituel de la Haute Magie no original, em francês) nasceu em circunstâncias humildes no ano de 1810, e era o filho de um sapateiro. Como demonstrou ter uma inteligência acima da média desde cedo, o padre da paróquia local desenvolveu um amável interesse pelo garoto, e o trouxe para a fundação de São Sulpício, onde ele recebeu educação gratuita, sendo encaminhado para a vida do sacerdócio. Ao que tudo indica, ele atravessou o período de estudos no seminário sem desapontar as expectativas que se formaram em torno dele. Além de grego e latim, ele provavelmente adquiriu um considerável conhecimento do hebraico; entretanto, seria um erro supor que qualquer uma de suas obras nos trouxe realizações linguísticas notáveis.

Ele entrou em ordens religiosas como noviço e, pouco a pouco, acabou se tornando um diácono, portanto vinculado a um voto de celibato perpétuo. Porém, não muito tempo depois disso ele foi expulso de São Sulpício por expressar opiniões contrárias aos ensinamentos da Igreja Católica. Os relatos existentes acerca de sua expulsão são nebulosos, e trazem elementos inverossímeis como, por exemplo, de que ele havia sido enviado por seus superiores eclesiásticos para discursar em igrejas de cidades afastadas, onde pregou com grande eloquência, mas em dados momentos se desviou da doutrina oficial da Igreja – no entanto, eu creio que não há precedentes para pregações de diáconos na Igreja Latina. O certo é que, para além da biografia que circulou por alguns anos na França, nós temos pouquíssimo material disponível sobre a vida de “Abbé” Constant.

Em todo caso, ele foi enviado de volta ao mundo lá fora, ainda com as limitações de seus votos religiosos, mas com sua carreira sacerdotal barrada. O que ele fez da vida, ou como sobreviveu ao longo dos anos seguintes, nos é desconhecido. Fato é que lá pelo ano de 1839 ele tinha adquirido alguns amigos no meio literário, incluindo Alphonse Esquiros, o autor esquecido de um romance fantástico intitulado O Mago; e Esquiros eventualmente o apresentou a Simon Ganneau, uma espécie de profeta naqueles tempos, que usava vestidos de mulher e morava em um sótão, de onde pregava um tipo de iluminismo político. Ele era, de fato, a reencarnação do rei Louis XVII, “de volta à Terra para cumprir um trabalho de regeneração”. Constant e Esquiros, que um dia visitara Ganneau por pura zombaria, foram seduzidos por sua eloquência, e tornaram-se seus discípulos. Alguns elementos do socialismo devem ter se mesclado com o iluminismo visionário de Ganneau, e tudo isso parece ter frutificado no cérebro de Constant, o que eventualmente deu origem a um livro, ou panfleto ideológico, intitulado A Bíblia da Liberdade (La Bible de la Liberte), para o qual só se dá alguma importância hoje em dia pelo fato de ter levado o autor a ser preso por seis meses. Há alguma razão para supormos que Esquiros teve uma parte tanto na escrita da obra quanto na punição de Constant.

Com o fim do período de encarceramento, Constant retornou destemido, ainda seguindo seu profeta, e iniciou uma espécie de missão apostólica pelas províncias francesas, falando diretamente ao povo, e sofrendo, conforme ele mesmo nos contou, uma perseguição dos invejosos. No entanto, o tal profeta desistiu de seguir com suas próprias profecias, presumivelmente por falta de uma audiência para a qual falar, e assim o discípulo retornou à Paris, onde, a despeito de seus votos como um diácono, ele teve um envolvimento amoroso com uma bela garota de dezesseis anos, chamada Marie-Noémi Cadiot. Com ela, ele eventualmente teve dois bebês, que infelizmente morreram ainda na tenra infância. Pouco depois de tais eventos trágicos, ela o abandonou. Dizem que, além de belíssima, ela foi muito talentosa, e mais tarde veio a se tornar uma escultora de renome.

Quando exatamente Alphonse Louis Constant se iniciou no estudo das ciências ocultas é algo incerto, como quase tudo em sua vida. A declaração dada no Dogma e Ritual da Alta Magia, de que no ano de 1825 ele entrou em um caminho fatídico que, através do sofrimento, o encaminhou ao conhecimento, não deve ser entendida no sentido de que sua iniciação ocorreu exatamente nesse período, que de fato se deu em sua adolescência. Ele obviamente se refere a sua entrada em São Suplício, o que, em certo sentido, o levou ao sofrimento, quiçá à ciência, e certamente lhe conduziu a uma boa educação. Todo o episódio com Ganneau o conectou a uma forma de transcendentalismo, ao menos na parte da alucinação, e pode ter tido algum impacto decisivo ou duradouro em sua mente. Dessa forma, o período em que Constant se devotou a fundo ao estudo do ocultismo muito provavelmente se deu entre a separação de sua mulher e a publicação de Dogma e Ritual da Alta Magia, em 1854.

Nesse interim ele também achou tempo para escrever o extenso Dicionário de Literatura Cristã (Dictionnaire de Littérature Chrétienne), que no entanto não faz nenhum tipo de menção às ciências ocultas – de fato, nele Constant veste a máscara da ortodoxia, e suas palavras estão perfeitamente alinhadas à Igreja em Roma. Em 1860, ele publicou História da Magia (Histoire de la Magie); no ano seguinte, veio A Chave dos Grandes Mistérios (La Clef des Grands Mystères). Em 1864 e 1865 chegaram, respectivamente, Fábulas e Símbolos (Fables et Symboles) e A Ciência dos Espíritos (La Science des Esprits).

Se em sua juventude Constant não dispunha de recursos suficientes, no restante de sua vida a sua situação financeira não teve melhora significativa. Seus livros nunca chegaram a ter grandes tiragens, mas lhe garantiam admiradores e alguns pupilos, de quem volta e meia ele recebeu remuneração por cursos de escrita ou aconselhamentos em geral. Ele costumava circular com vestes de mago medieval, o que pode ser perdoado pelo fato de ter sido um ocultista francês. Constant passou incólume pela guerra franco-prussiana, e eventualmente substituiu a crença no socialismo por uma espécie de “imperialismo transcendentalista”. Em 1875, sua vida contraditória se encerrou em meio ao trabalho na Igreja que por pouco não o expulsou de seu seio. Ele nos deixou diversos manuscritos, muitos dos quais se encontram em processo de publicação. Também há inúmeras cartas enviadas a seus pupilos, como é o caso do Barão Spedalieri, que preservou farta correspondência entre os dois – que, de certa maneira, é mais valiosa que muitos dos livros já publicados [Nota do Tradutor: essa correspondência hoje se encontra no livro Curso de Filosofia Oculta, publicado pela Editora Pensamento].

Nenhum divulgador moderno das ciências ocultas pode ser comparado a Éliphas Lévi. Já entre os antigos, apesar de muitos estarem em maior patamar, nenhum nos é tão interessante de ser estudado, pois ele representa o próprio espírito dos tempos modernos tentando reinterpretar, por vezes forçadamente, os oráculos da antiguidade. É óbvio que há nomes mais grandiosos, mas ninguém excede o fascínio que o mago francês trouxe para a literatura ocultista. Os demais são destinados aos especialistas e aos típicos estudantes sérios capazes de escavar significado em tomos quase incompreensíveis, enquanto nos livros de Lévi conseguimos apreciar de fato a leitura, da mesma forma que podemos apreciar poetas modernos. No texto de Lévi as concepções antigas são devidamente revisitadas e consideradas, mas de cada parágrafo emana um novo espírito primaveril.

Por outro lado, o período de estudo que veio a produzir Dogma e Ritual da Alta Magia como resultado literário não é indicado com exatidão na vida do autor, e tampouco considero que Lévi era capaz de realizar o tipo de estudo profundo e extensivo dos tomos antigos que pudesse produzir resultados mais historicamente consistentes. Assim, seu texto é ao mesmo tempo intenso e fascinante, mas sem muita profundidade de análise; esplêndido em suas generalizações, porém pobre em detalhes. Na realidade, como guia histórico, não pode sequer ser recomendado. Aliás, o seu História da Magia deixa isso muito evidente. Como um ensaio filosófico é admirável, e não há na literatura ocultista nada que chegue perto da sua excelência de escrita, mas ele está inundado de erros históricos. Dessa forma, podemos dizer que se trata de um trunfo literário, mas não de um livro erudito. Para falar a verdade, não creio que Lévi sequer se deu ao trabalho de ler as obras completas dos autores citados.

O seu método de estudo se aproxima mais do verbo francês parcourir (navegar) do que de outro verbo do seu idioma, approfondir (aprofundar). Ou seja, ele mais navega pela história oculta do que se aprofunda em seus detalhes. Assim, não me parece irracional afirmar que se Lévi tivesse sido deixado a sós, jamais teria avançado tanto nas ciências ocultas, pois sua vivacidade teria sido rapidamente apagada pelos horrores da pesquisa em si. Mas, de alguma forma, ele eventualmente encontrou algum círculo iniciático que encurtou enormemente suas necessidades de pesquisa, e o colocou no caminho certo. Aí está, portanto, a importância de Dogma e Ritual da Alta Magia. Ele carrega a voz da iniciação, embora disfarçada. De qual escola, não faz diferença, até mesmo porque nada pode ser dito a céu aberto nesse ramo. E, nesse caso, eu só posso pedir a meus leitores que confiem em mim em tal julgamento.

Lévi ainda estava no meio do caminho de ascensão nos graus iniciáticos quando publicou Dogma e Ritual da Alta Magia. E, se ele havia sido expulso de São Sulpício por ter se desviado em demasia de sua estrutura doutrinária, é provável que tenha sido expulso de sua ordem por haver exposto o que não devia ser exposto. Se foi assim, tais fatos explicariam, em primeiro lugar, a importância dessa obra, pois ela carrega um tipo de conhecimento que não deriva unicamente da leitura de livros de ciências ocultas; em segundo lugar, a falta de detalhamento da mesma, pois ela não é o resultado de um conhecimento completo e absoluto dos temas em questão; e, finalmente, eu penso que isso também evidencia o motivo de vermos tantas retratações e subterfúgios nos livros que se seguiram à sua publicação. Tendo avançado tanto no desvelar dos Mistérios, Lévi naturalmente tentou voltar atrás, e assim como ele se esforçou para seguir o modo de vida eclesiástico em sua adolescência, da mesma forma ele se empenhou em fazer as pazes com tal iniciação ao jogar areia nos olhos dos leitores de suas demais obras. Entretanto, ele falhou em ambos os casos.

Só me resta declarar, portanto, o que eu pessoalmente acredito ser a maior limitação de Lévi: o fato de ter sido um transcendentalista, mas não um místico. Além disso, ele era um cético quanto a qualquer tipo de comunicação com o mundo dos espíritos. Ele define o misticismo como a sombra que limita a luz do intelecto, e não perde oportunidades para destacar seu falso iluminismo, seus excessos e futilidades. Finalmente, não há via direta possível do homem para Deus em seu sistema, e as avenidas de Deus para o homem estão atravancadas por todo tipo de sacramento. Dessa forma, o homem deve se contentar apenas com a intelectualidade se deseja permanecer no reino da razão. A esfera da experiência material é onde deve residir todo o seu conhecimento – além dela, só nos resta confiar em presunções e analogias.

Eu suponho que essa não é a doutrina ensinada pela maioria das ciências ocultas, muito menos o resultado final da via iniciática, da “grande iniciação”. A ordem das coisas do mundo visível tem o seu complemento no invisível, e esse tipo de analogia nos leva a um melhor discernimento da realidade, de modo que todo o processo depende mais de um aprimoramento da nossa própria percepção do que de seguir alguma lei rígida que governa a manifestação de todas as coisas, visíveis e invisíveis. A iniciação nos leva aos primeiros degraus da escada para o mundo invisível, e nos instruí em como subi-la, mas efetivamente subir seus degraus depende inteiramente de nós. As vozes de alguns que nos precederam podem ser ouvidas acima, mas elas também pertencem aqueles que ainda estão subindo – pois que vão morrendo, pouco a pouco, dentre aqueles que alcançaram o Silêncio. E é para lá que nós também devemos ascender sós, lá onde a iniciação já não poderá nos auxiliar, lá na fronteira do limiar, de onde nenhum viajante retorna, e cuja luz só está envolta em mistérios para aqueles que se encontram abaixo.

LONDRES, Setembro de 1896.

***

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search [Éliphas Lévi]; [ao longo] Google Image Search [Igreja de São Sulpício, em Paris; Estátua de Baphomet, de acordo com a ilustração original de Lévi em Dogma e Ritual da Alta Magia].

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21.11.19

Lançamento: O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda

As Edições Textos para Reflexão publicam o livro mais conhecido do primeiro escritor a tratar da Umbanda em detalhes: Leal de Souza.

O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda, publicado originalmente em 1933, no Rio de Janeiro, continua sendo uma surpreendente fonte de informação acerca dos primórdios da primeira religião genuinamente brasileira (a despeito de alguns termos da língua portuguesa que caíram em desuso, e foram substituídos por sinônimos mais atuais em nossa edição).

Um ebook já disponível para Amazon Kindle e Kobo (estaremos tentando publicar também na versão impressa pela Amazon):

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Abaixo, segue uma amostra com o capítulo XVIII da obra:


XVIII. As Sete Linhas Brancas

A Linha Branca de Umbanda e Demanda compreende sete linhas:

A primeira, de Oxalá.
A segunda, de Ogum.
A terceira, de Oxóssi.
A quarta, de Xangô.
A quinta, de Iansã.
A sexta, de Iemanjá.
A sétima é a linha de santo, também chamada de Linha das Almas.

Essas designações significam, na Língua de Umbanda:

A primeira, Jesus, em sua invocação de Nosso Senhor do Bonfim.
A segunda, São Jorge.
A terceira, São Sebastião.
A quarta, São Jerônimo.
A quinta, Santa Bárbara.
A sexta, a Virgem Maria, em sua invocação de Nossa Senhora da Conceição.
A linha de santo é transversal, e mantém a sua unidade através das outras.

Cada linha tem o seu ponto emblemático e a sua cor simbólica:

A de Oxalá, a cor branca.
A de Ogum, a cor encarnada [ou avermelhada].
A de Oxóssi, a cor verde.
A de Xangô, a cor roxa.
A de Iansã, a cor amarela.
A de Iemanjá, a cor azul.

Oxalá é a linha dos trabalhadores humildes; tem a devoção dos espíritos de pretos de todas as regiões, qualquer que seja a linha de sua atividade; e é nas suas falanges, com Cosme e Damião, que em geral aparecem as entidades que se apresentam como crianças.
A linha de Ogum, que se caracteriza pela energia fluídica de seus componentes (caboclos e pretos da África, em sua maioria), contém em seus quadros as falanges guerreiras de Demanda.
A linha de Oxóssi, também de notável potência fluídica, com entidades frequentemente dotadas de brilhante saber, é, por excelência, a dos indígenas brasileiros.
A linha de Xangô pratica a caridade sob um critério de implacável justiça: quem não merece, não tem; quem faz, paga.
A linha de Iansã consta de desencarnados que na existência terrena eram devotados de Santa Bárbara.
A linha de Iemanjá é constituída dos trabalhadores do mar, espíritos das tribos litorâneas, de marujos, de pessoas que perecem afogadas no oceano.
A Linha de Santo é forma de pais de mesa, isto é, de médium de “cabeça cruzada”, assim chamados porque se submeteram a uma cerimônia pela qual assumiram o compromisso vitalício de emprestar o seu corpo, sempre que seja preciso, para o trabalho de um determinado espírito, e contraíram “obrigações” equivalentes a deveres rigorosos e realmente invioláveis, pois acarretam, quando esquecidos, penalidades duras e inevitáveis.
Os trabalhadores espirituais da Linha de Santo, caboclos ou negros, são egressos da Linha Negra, e tem duas missões essenciais na Linha Branca – preparam, em geral, os despachos propícios ao Povo da Encruzilhada, e procuram alcançar amigavelmente, de seus antigos companheiros [da Linha Negra], a suspensão de hostilidades contra os filhos e protegidos da Linha Branca. Por isso, nos trabalhos em que aparecem elementos da Linha de Santos disseminados pelas outras seis [linhas], estes ostentam, com as demais cores simbólicas, a preta, de Exu.
Na falange geral de cada linha figuram falanges especiais, como na de Oxóssi, a de Urubatan, e na de Ogum, a de Tranca-Rua, que são comparáveis as brigadas dentro das divisões de um exército.
Todas as falanges têm características próprias para que se reconheçam os seus trabalhadores quando incorporados. Não se confunde um caboclo da falange de Urubatan com outro de Araribóia, ou de qualquer outra legião.
As falanges dos nossos indígenas, com os seus agregados, formam o “povo das matas”; a dos marujos e espíritos da linha de Iemanjá, o “povo do mar”; os pretos africanos, o “povo da costa”; os baianos e demais negros do Brasil, o “povo da Bahia”.
As diversas falanges e linhas agem em harmonia, combinando os seus recursos para a eficácia da ação coletiva. Exemplo:

Muitas vezes, uma questãozinha mínima produz uma grande desgraça...

Uma mulatinha que era médium da magia negra, empregando-se em casa de gente opulenta, foi repreendida com severidade por ter reincidido na falta de abandonar o serviço para ir a esquina conversar com o namorado. Queixou-se ao dirigente do seu antro de magia, exagerando, sem dúvida, os agravos, ou supostos agravos recebidos, e arranjou contra os seus patrões um “despacho” de efeitos sinistros.
Em poucos meses, marido e mulher estavam desentendidos, um, com os negócios em descalabro, a outra, atacada de moléstia asquerosa da pele, que ninguém definia, nem curava. Vencido pelo sofrimento e sem esperança, o casal, aconselhado pela experiência de um amigo, foi a um centro da Linha Branca de Umbanda, onde, como sempre acontece, o guia, em meia hora, esclareceu-o sobre a origem de seus males, dizendo quem e onde fez o “despacho”, o que e por que mandou fazê-lo.
E, por causa desse rápido namoro de esquina, uma família gemeu na miséria, e a Linha Branca de Umbanda fez, no espaço, um de seus maiores esforços.
Ofertou-se as entidades causadoras de tantos danos um “despacho” igual ao que as lançou ao malefício; e, como o presente não surtiu resultado, por não ter sido aceito, os trabalhadores espirituais da Linha de Santo agiram, junto aos seus antigos companheiros de Encruzilhada, para alcançar o abandono pacífico dos perseguidos, mas foram informados que não se perdoava a ofensa à médiuns da Linha Negra.
Elementos da falange de Oxóssi teceram as redes de captura, e os secundaram, com o ímpeto costumeiro, a falange guerreira de Ogum; mas a resistência adversa, oposta por blocos fortíssimos de espíritos adestrados nas lutas fluídicas, obrigou a Linha Branca a tomar recursos extremos, trabalhando fora da cidade à margem de um rio.
Com a pólvora sacudiu-se o ar, produzindo-se formidáveis deslocamentos de fluidos; apelou-se, depois, para os meios magnéticos; e, por fim, as descargas elétricas fagulharam na limpidez puríssima da tarde.
Os trabalhadores de Iemanjá, com a água volatizada do oceano, auxiliados pelos de Iansã, lavaram os resíduos dos malefícios desfeitos e, enquanto os servos de Xangô encaminhavam os rebeldes submetidos, o casal se restaurava na saúde e na fortuna.


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6.11.19

Indicações de livros

Quando comecei este blog, há mais de uma década, jamais imaginei que ele poderia durar tanto, e que eu pudesse escrever tanto nele. Nesses anos todos os leitores assíduos, assim como os ocasionais, puderam ver como o meu caminho através da espiritualidade, da filosofia e da ciência foi se tornando mais e mais aprofundado. Isso, obviamente, não caiu do céu.

Não me entendam mal: como poeta, eu sei muito bem do valor da intuição e das ideias voadoras que volta e meia são capturadas em sua rede. Para isto, de fato, os livros não ajudam tanto. Mas, para todo o resto, os livros são o que há de mais precioso no auxílio do nosso caminho. Por isso eu resolvi, finalmente, trazer a vocês uma lista extensa e definitiva dos livros, sejam físicos ou digitais, que formam os alicerces do Textos para Reflexão.

Todas as listas se encontram hospedadas no site da Amazon. De lá vocês podem comprar e-books e ler através do app gratuito Kindle, ou comprar os livros impressos – muitos deles com frete grátis para quem tem o Amazon Prime (que pode ser assinado gratuitamente por 30 dias).

Mas não para por aí: se vocês comprarem qualquer um deles através dos links desta página (e somente dos links desta página), eu receberei uma parte da sua compra, e isso ajudará muito o blog, o canal e as Edições Textos para Reflexão.

Assim sendo, aqui vão os links para as listas com as minhas indicações de livros, tarots e e-books, separadas em categorias específicas para facilitar a navegação:

» Filosofia
De Platão a Byung-Chul Han, os livros de filosofia e da história da filosofia que foram essenciais em meu caminho.

» Literatura
De Tolkien a Alan Moore, as histórias e os quadrinhos que foram essenciais em meu caminho.

» Poesia
De Safo a Gibran, os poemas que foram essenciais em meu caminho.

» Espiritualidade, Mitologia e Magia
De Lao Tse a Joseph Campbell, os livros sagrados, ou nem tão sagrados, que foram essenciais em meu caminho.

» Baralhos de Tarot
Os melhores decks de tarot disponíveis.

» Ciência
De Darwin a Carl Sagan, os livros de ciência e divulgação científica que foram essenciais em meu caminho.

» Economia, História e Política
De Huizinga a Yuval Harari, os livros que me ajudaram a entender nossa história, e foram igualmente essenciais em meu caminho.

***

Obs (1).: Vale lembrar que eu receberei uma parcela de qualquer compra que fizerem na Amazon se vocês a acessarem usando qualquer um dos links desta página, mesmo que seja um smartphone, uma camiseta ou um produto de limpeza :)

Obs (2).: Se preferirem, podem deixar esta URL salva nos seus favoritos para acessarem mais tarde, sempre que forem fazer uma nova compra na Amazon (ela contém os mesmos links acima):

raph.com.br/tpr/amazon


Boa Leitura e Bom Caminho!
raph


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25.3.19

O Ritual das Cores

Neste vídeo finalmente praticaremos juntos um ritual mágico capaz de catalisar poderosos efeitos placebos de cura, mas não sem antes tentarmos compreender melhor o que diabos é um efeito placebo, e como um vencedor do prêmio nobel de Química, Linus Pauling, acabou criando o maior efeito placebo da história humana... Se você nunca praticou magia, esta é a sua chance de começar! (edição por Colossi Estúdio Gráfico)

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18.3.19

O que é magia?

Neste vídeo damos prosseguimento ao que já foi dito sobre a magia no canal, desta feita focando na definição de prática mágica dos tempos modernos, afinal o xamanismo já não é mais o mesmo após dezenas de milhares de anos! Assim, tentaremos uma vez mais desvendar os mistérios e segredos da Arte, com a ajuda de grandes magistas: Éliphas Lévi, Aleister Crowley e, não menos importante, Mr. Alan Moore... Também tentarei explicar algumas diferenças entre os sistemas mais tradicionais de magia e o sistema mais pop dos dias atuais: a magia do caos! Fiquem até o fim para ver minhas indicações de podcasts, canais no YouTube e livros sobre o tema.

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14.8.18

Amigo de Mago (Reflexões no YouTube)

Nesta primeira edição especial (Special Edition - SE) do Colossi Estúdio Gráfico em parceria com o nosso canal, iremos falar de dragões-fada imaginários, de sistemas modernos de espátulas e de servidores astrais, não necessariamente nessa ordem. Eu gostaria de poder falar mais, mas não quero dar maiores spoilers... Assistam por sua conta e risco!

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