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10.9.18

Princípio Antrópico: uma coincidência cósmica? (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo vamos entender o que diabos é Princípio Antrópico, e talvez cheguemos a conclusão de que ganhamos na loteria da vida todo santo dia, ou não. Até chegar lá, precisaremos explicar a teoria do Big Bang, as tretas entre defensores de uma visão de universo estático e eterno, e os que sempre defenderam os mitos de Criação. Pode uma árvore ser árvore sem nunca ter sido semente? Podem as leis da natureza evoluírem com o tempo? Se você ama a ciência, vai ficar arrepiado (em todos os sentidos)!

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12.11.16

Metafísico

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Meus amigos às vezes me dizem que eu sou um cara meio metafísico. Quase sempre eles têm toda a razão.

Não sei quando isso começou direito, provavelmente bem cedo. Por agora me lembro especificamente dos engarrafamentos em Copacabana, e eu na janela do 485, a caminho da faculdade de Artes no Fundão; ou seja, a uma boa hora de distância, quando tinha sorte!

Mas mesmo quando tinha azar e ficava preso muito tempo na Nossa Senhora, havia muito o que se observar pela janela, muito o que refletir – e a luz, como já devem saber, foi criada para ser refletida.

Ora, aqueles raios que me alcançavam numa esquina do Rio de Janeiro levavam menos tempo para viajar do Sol até ali do que eu levava para chegar na porta da aula de desenho. Todos os dias eles me venciam, e ricocheteavam na lente dos meus óculos e rumavam sabe-se lá para que outro canto do Cosmos.

Mesmo desenhando, é impossível explicar o que se sente ao compreender que nós mesmos também somos parte do que foi forjado no núcleo dos sóis, e catapultado a imensidão. Nós mesmos também somos hidrogênio, oxigênio, carbono, ferro e muitos outros elementos pesados das forjas estelares. Nós mesmos também vivemos mergulhados no oceano cósmico, e não aprendemos a nadar em suas profundezas somente por ter lido manuais de natação...

As palavras, as cascas de algum sentimento ancestral, escapam. Mesmo aos poetas mais loucamente cosmológicos, elas escapam!

Então estou tomando um delicioso chopp de trigo nalgum bar deste canto do hemisfério sul na terceira pedra do Sol, e tento fazer com que meus amigos percebam que nem a caneca em cima da mesa está perfeitamente parada, nem nós mesmos em nossas cadeiras, nem o planeta, nem mesmo a estrela por onde temos girado.

Desde o mais ínfimo átomo do trigo, tudo vibra e nada está parado. E em meio a conversas sobre resultados de partidas de futebol e eleições, não só o bairro da Lapa, como nossa galáxia inteira está a rodopiar junto a um aglomerado de bilhões e bilhões de sóis e seus mundos, rumo a onde quer que este Big Bang queira nos levar!

Enquanto vivemos esta vida entre dois séculos contados desde o nascimento de Cristo, as placas tectônicas se movem alguns bons milímetros, e algumas montanhas crescem um pouco, enquanto outras diminuem. Há árvores imensas e frondosas que nos viram nascer, e ainda verão muitas gerações de nossas famílias chegarem e partirem novamente.

Pasmado com tanta grandiosidade, posso muito bem concordar com Caeiro, há de fato metafísica suficiente em não pensar em nada...

E assim, de tanto não pensar, de tanto sentir, quem sabe eu também deixe de ser metafísico por um instante, quem sabe por breves momentos deste ir e vir incessante de sóis e átomos eu consiga deixar este observador de lado, para me espalhar por tudo o que há.

Não há misticismo maior do que romper tal casulo do ser, e voar assim, verdadeiramente liberto, seguindo a fragrância ancestral deste Amor que mantém a dança dos mundos: uma abelha seguindo o caminho do pólen, um pássaro rumando ao Monte Kaf, um louco saltando um abismo, um franciscano em busca de um bom pedaço de pedra para usar como tijolo em sua igrejinha, um físico maravilhado com a relação entre o espaço e o tempo, um poeta a escrever com sangue e lágrimas...

E depois voltar, da eternidade para a Lapa, e terminar o chopp, junto aos amigos. E olhar rapidamente para as estrelas, sem que percebam, e orar esta grande oração de uma palavra só, gratidão. É este, meus caros, o meu Evangelho!

Mas nada disso era para ser dito. Nada disso terá fim, tampouco teve um início...


raph’16

***

Crédito da imagem: Google Image Search/Holzweg

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11.10.15

Agora, sem as rodinhas!

Quando surgiu pela primeira vez na comunidade científica, a ideia de que todo o universo tivesse se originado de uma espécie de “átomo primordial” há bilhões de anos, e que vinha se expandindo desde então, pareceu tão absurda que um famoso astrônomo da época a chamou de Big Bang num programa de rádio da década de 1940.

A intenção de Fred Hoyle, o cientista britânico defensor da teoria do universo estacionário ou eterno, era ridicularizar a teoria do belga Georges Lamaître, aquele quem primeiro propôs a ideia de que o próprio espaço-tempo se encontrava em expansão. O fato de Lamaître, para além de físico e astrônomo, ser também um padre católico, certamente levou Hoyle a supor que ele estava se baseando mais nos dogmas do Gênesis do que em ciência genuína...

Mas hoje sabemos que a hipótese do Big Bang venceu a batalha contra o universo estacionário de Hoyle, e o que determinou a vitória foram os fatos: em 1966, já próximo da morte num leito de hospital, Lamaître foi comunicado que os astrônomos Arno Penzias e Robert Wilson haviam confirmado experimentalmente a existência da chamada radiação cósmica de fundo, uma espécie de “registro fóssil” em micro-ondas da época em que todo o universo era quente e denso, apenas cerca de 380 mil anos após o seu início.

Junto com outras evidências, como a de que as galáxias ainda hoje estão se afastando umas das outras, e a observação de uma imensa abundância de elementos leves no universo, hoje a teoria do Big Bang é de muito longe a hipótese mais aceita na comunidade científica, fazendo parte do chamado “modelo padrão”. Penzias e Wilson ganharam o Prêmio Nobel de Física de 1978 por sua descoberta. Se estivesse vivo, Lamaître certamente teria o seu Nobel garantido.

A ideia de um universo eterno, entretanto, era um conceito muito mais antigo do que o advento da própria astronomia moderna; um paradigma tão cristalizado na mente humana que eventualmente também se tornou quase que um dogma científico, ao ponto de ter tirado o sono até mesmo de Albert Einstein, que relutou o quanto pôde em admitir que o universo de fato se expandia. O célebre físico alemão chegou a dizer que este foi “o pior erro de sua carreira”.

Realmente não é fácil quebrar antigos paradigmas. Demócrito e outros filósofos atomistas da Grécia Antiga, por exemplo, acreditavam que os átomos eram eternos e imutáveis. Pitágoras e seus discípulos consideravam que todo o universo era ordenado por princípios imateriais eternos de harmonia e “verdades matemáticas”. Já Platão foi ainda mais longe, e generalizou a matemática transcendente pitagórica para uma visão mais ampla de Ideias arquetípicas e universais, que incluíam a Forma de cada objeto ou qualidade, como cavalos, seres humanos, cores e bondade. Segundo o grande filósofo grego, a própria realidade era composta por “sombras e reflexos das Formas transcendentais”.

Sempre foi complexo para a mente humana imaginar uma Natureza evolutiva, que não surgiu “pronta e acabada”, com todas as suas leis e variáveis imutáveis. E isso, é óbvio, se reflete também nas ideias científicas.

Ironicamente, o mesmo paradigma de universo estacionário com leis imutáveis gerou um baita problema para a visão ateísta do mundo... De acordo com o Princípio Antrópico, se as leis e constantes cosmológicas fossem ligeiramente diferentes após o Big Bang, não teria sido possível o surgimento de formas de vida baseadas em carbono, como nós aqui neste planetinha. Uma das respostas óbvias para tal enigma é que a própria Criação foi obra de alguma espécie de inteligência superior, ou seja, a ciência se vê forçada a retornar a hipótese de um Criador.

Para contornar esse “incômodo”, muitos cosmólogos preferem pensar que há inúmeros universos além do nosso, cada um deles com leis e constantes específicas. Nesses modelos de “multiverso”, o fato de calharmos de estarmos aqui, conscientes e maravilhados, se explica pela extraordinária sorte de fazermos parte de um dos bilhões e bilhões de universos que propiciou o surgimento da vida como a conhecemos. Segundo esses modelos, não faz o menor sentido reclamarmos de qualquer espécie de azar, pois a nossa sorte em estarmos aqui vivos é tão imensamente grande que equivale a uma chance estatística inferior a sermos atingidos por um raio a cada minuto durante toda a vida (e, nesse caso, também considerando as chances de sobrevivermos a todos eles).

Portanto, se as leis e constantes são imutáveis e tudo estava determinado desde o início dos tempos, tanto faz se calhamos de existir num dos universos que possibilitou a vida baseada em carbono, ou se este universo único foi criado conforme descrito no Gênesis, as chances estatísticas provavelmente se equivalem, e tudo passa a ser uma questão de “gosto pessoal” que defina qual aposta é menos absurda do que a outra.

No fundo, todas as teorias que postulam a existência de um multiverso possuem a crença comum na primazia da matemática sobre a realidade. Mesmo que existam muitos universos além do nosso, o que os sustenta, segundo tais ideias, são fórmulas matemáticas transcendentes, como por exemplo as que formam a espinha dorsal da teoria das cordas ou teoria M. Para resumir: tais teorias nada mais são do que uma espécie de pitagorismo ultrarradical.

Mas temos outra alterativa surpreendente, defendida pelo físico Rupert Sheldrake em seu monumental Ciência sem Dogmas. A opção ao pitagorismo é a evolução das regularidades da Natureza. Tais regularidades seriam mais semelhantes a hábitos adquiridos do que a leis imutáveis que estavam lá desde o início dos tempos, e ficariam mais fortes (ou “constantes”) pelo meio da repetição, da mesma forma que aprendemos a andar de bicicleta. Segundo Sheldrake, há um tipo de memória na Natureza, e o que acontece agora é influenciado direta ou indiretamente pelo que já ocorreu antes.

Hábitos ancestrais foram estabelecidos há bilhões de anos, e estão arraigados de tal forma na Natureza que se parecem mesmo com “leis imutáveis”. Dos fótons, prótons e elétrons surgiram as moléculas, depois as estrelas e as galáxias, então os planetas, os cristais, e ao menos aqui neste planetinha, as plantas e os seres humanos.

Entre as moléculas, por exemplo, a de hidrogênio é provavelmente a mais antiga – ela já existia antes da formação da primeira estrela. As “leis” e “constantes” associadas a esses padrões arcaicos de organização estão tão bem estabelecidas que atualmente já não apresentam nenhuma mudança detectável. Em contrapartida, algumas moléculas são novíssimas, como as centenas de compostos produzidos pela primeira vez por químicos de síntese em nosso próprio século. Nesse caso, os hábitos ainda estão se formando. O mesmo ocorre com novos padrões de comportamento em animais e novas habilidades humanas.

Se eliminarmos a biologia e nos mantivermos exclusivamente na física e na química, ainda assim esta teoria tem uma vantagem gritante se comparada às teorias que postulam um multiverso como forma de explicação ao Princípio Antrópico: ela fala de coisas que podem efetivamente serem observadas e testadas!

Na verdade, sabemos que os químicos que sintetizam novas substâncias muitas vezes têm grandes dificuldades de fazer com que elas se cristalizem. Às vezes leva muitos anos para os cristais surgirem pela primeira vez. Por exemplo, a turanose, um tipo de açúcar, durante décadas foi considerada um líquido, até que, na década de 1920, ocorreu a cristalização. Depois disso, esse açúcar formou cristais em todo o mundo [1].

O xilitol, álcool de açúcar usado como adoçante em gomas de mascar, foi preparado pela primeira vez em 1891 e considerado líquido até 1942, quando surgiram cristais pela primeira vez. O ponto de fusão desses cristais era de 61ºC. Depois de alguns anos surgiu outra forma de cristal, com ponto de fusão de 94ºC e, mais tarde, o primeiro tipo de cristal desapareceu da Natureza [2] (leia novamente este parágrafo se não compreendeu ainda o quão assombroso ele é)...

Nós tendemos a ver o universo sob o nosso ponto de vista, mas ironicamente postulamos que, ao contrário de nós mesmos, ele deveria ser como que um rio congelado, uma espécie de fórmula matemática supersimétrica, superelegante, transcendente e eternamente imutável. Dessa forma, tendemos a ver a Natureza como uma espécie de supercomputador programado desde o início dos tempos para obedecer às mesmas leis e constantes, sem a mísera variação. Entretanto, basta olhar a nossa volta, como uma árvore só pode existir após haver sido broto e, ainda antes, semente. Como os filhotes de passarinho devem ser alimentados por seus pais antes de criarem força nas asas e, eventualmente, se arremessarem aos céus. Como toda a metrópole tem o seu centro histórico e, dentro dele, o seu marco inicial.

Tudo evolui do simples para o complexo, e o grande destino da vida parece mesmo ser se organizar, de alguma forma extraordinária, em consciências capazes de observar o mundo – a Natureza vendo a si mesma, compreendendo a si mesma, se espantando consigo mesma.

E não podemos saber ainda, de fato, se há mesmo um Criador que pensou nisso tudo desde o início. Talvez, quem sabe, ele esteja aprendendo conosco. Talvez ele tenha preferido nos deixar livres para descobrir as coisas, tateando o Cosmos e evoluindo por nossa própria conta.

Como quando nossos pais nos levam ao parque para nos ensinar a andar de bicicleta. No começo, colocam rodinhas para que nos auxiliem a manter o equilíbrio. Talvez, quem sabe, todo o nosso passado mineral, vegetal e animal tenha sido como que um aprendizado com o auxílio das rodinhas...

Mas hoje, hoje despertamos, hoje somos seres conscientes encarando de volta a vastidão cósmica salpicada pelas mesmas fornalhas que fundiram os elementos de nosso corpo, habituadas há bilhões de anos a este caminho ancestral que vai do átomo primordial de Lamaître a um planetinha, quiçá bilhões e bilhões deles, plenos de vida, plenos de crianças a arriscar suas primeiras voltas de bicicleta.

Até o dia em que partiremos deste pequeno parquinho para os mundos e galáxias mais distantes, e quem sabe neste dia não poderemos olhar para o Alto e dizer:

“Olhem para nós! Agora, sem as rodinhas!”

***

[1] Crystals and Crystal Growing, por Allan Holden e Phyllis Singer (1961), pp. 80 e 81.

[2] Ibid., p. 81.

Crédito da imagem: Google Image Search/shutterstock

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6.9.13

Mundos Internos, Mundos Externos

Ver o mundo num grão de areia
e o céu numa flor da relva;
agarre ao infinito na palma de sua mão
e a eternidade, numa única hora.
- William Blake


Neste documentário lançado em 2012 e intitulado "Mundos Internos, Mundos Externos" (Inner Worlds, Outer Worlds), o canadense Daniel Schmidt (músico e professor de meditação) explora de maneira rica e visualmente atraente a conhecida sabedoria antiga – Védica e Hermética - que afirma o célebre “Assim em cima, assim embaixo”.

Reunindo conhecimento atual como a descoberta recente do Bóson de Higgs, trazendo conhecimentos ancestrais como dos Vedas, do Budismo e da Kaballah, passando por insights de cientistas como Nikola Tesla (“estudou com Swami Vivekananda”, um conhecido iogue indiano) e do matemático Benoit Mandelbrot, além de citar de passagem Heráclito, Einstein, Goethe, Richard Feynman e Kierkegaard, e buscando o cruzamento dessas fontes de conhecimento, "Mundos Internos, Mundos Externos" também apresenta com riqueza visual os caminhos que a ciência e a sabedoria antiga percorrem para entender o universo, como os padrões de fractais (de Mandelbrot) e dos sons na matéria física como areia e água (de Chladni) [via _dharmalog].

Para os que acompanham este blog de longa data, e particularmente para os que leram o meu livro, "Ad infinitum", este documentário soará estranhamente familiar, e isto apesar de ter um foco muito maior na visão oriental, particularmente a visão zen budista. Entretanto, como os que me leem há tempos devem saber, não há tanta diferença assim entre o "Bhagavad Gita" e as teorias de Eisntein, entre o Tao de Lao Tse e a Substância de Espinosa, entre o logos estoico e o Campo de Higgs - todos estão, afinal, observando ao mesmo Cosmos e, ao mesmo momento, ainda que não saibam, também a si próprios...

Para se contemplar em estado de relaxamento:

Parte 1 - Akasha

Parte 2 - A Espiral

» Parte 3 - A Serpente e a Lótus

» Parte Final - Além do Pensar

***

Crédito da imagem: Divulgação (Inner Worlds, Outer Worlds)

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1.3.13

O que é matéria e energia escura?

Texto de Cesar Grossmann para o site HypeScience. As notas ao final são minhas.


A matéria escura e a energia escura são soluções propostas para explicar alguns fenômenos gravitacionais, e, até onde sabemos, são coisas distintas.

Embora juntas respondam por mais de 95% do nosso universo, só sabemos de sua existência por meios indiretos, observando seus efeitos sobre o universo e tentando deduzir suas propriedades a partir deles.

Matéria escura
A matéria escura foi proposta nos anos 1930 por Fritz Zwicky para explicar a diferença entre a massa gravitacional e a massa luminosa de aglomerados de galáxias (Fritz Zwicky estava trabalhando com curvas de rotação de galáxias).

A massa gravitacional de um objeto é determinada pela medida da velocidade e raio da órbita de seus satélites, um processo igual à medição da massa do sol usando a velocidade e distância radial dos planetas.

A massa luminosa é determinada pela soma de toda luz e convertendo este número em uma estimativa de massa, baseado na nossa compreensão sobre como as estrelas brilham. Esta comparação de massa-para-luz indica que a energia na matéria luminosa contribui com menos de 1% da densidade média de energia do universo.

Certamente existe mais matéria nas galáxias que não emite luz, mas as evidências indicam que há um limite máximo para a matéria normal (aquela feita de átomos) presente no universo. Evidências vindo da medição da radiação cósmica de fundo, por exemplo, apontam que no máximo 5% da densidade de massa-energia do universo e 20% da massa dos aglomerados está na forma de átomos.

Mas do que é feita a matéria escura? Muitos físicos e astrônomos acham que a matéria escura é provavelmente uma nova partícula que ainda não foi detectada em aceleradores de partículas ou em raios cósmicos.

Para ser uma partícula de matéria escura, ela tem que ter bastante massa, provavelmente mais que um nêutron, e interagir muito fracamente com a matéria normal, de forma a dificilmente reagir produzindo luz.

O protótipo do candidato é algo parecido com um neutrino, só que todos os tipos de neutrinos conhecidos são muito leves e muito raros para explicar a matéria escura [1].

E como a matéria escura afeta o universo? Aparentemente, ela é responsável pelas estruturas que vemos no universo, como galáxias e aglomerados; é ela que “segura” estes objetos imensos, não deixando que se desfaçam.

Como curiosidade, a proposta de uma matéria escura na década de 1930 por Fritz Zwicky não foi levada a sério porque o suíço tinha entrado em atrito com muitos colegas na comunidade astronômica. Em 1962, a astrônoma Vera Rubin fez a mesma descoberta, que novamente não foi levada à sério, desta vez porque ela era uma mulher. Ela persistiu e conseguiu atenção da comunidade em 1978, com um estudo profundo de 11 galáxias, inclusive a nossa [2].

Energia escura
A energia escura tem sua origem nos trabalhos para entender a expansão acelerada do universo. Basicamente, a teoria atual não consegue explicar essa aceleração. Uma das especulações é que a aceleração é consequência de uma nova forma de matéria, apelidada “energia escura”, que também não foi detectada até agora.

É chamada de “escura” porque deve interagir muito fracamente com a matéria, como a matéria escura, e é chamada de energia porque uma das coisas de que estamos certos é que ela contribui com cerca de 70% da energia total do universo. Se descobrirmos o que é, podemos então trocar o nome para algo menos misterioso.

Com o estabelecimento do modelo cosmológico do Big Bang, acreditava-se que a expansão inicial de 13,7 bilhões de anos atrás estaria diminuindo com o tempo, mas duas equipes de pesquisadores independentes descobriram em 1998 que a expansão estava acelerando.

A aceleração é determinada pela medida dos tamanhos relativos do universo em diferentes eras. De uma forma específica, os astrônomos medem o redshift ou desvio para o vermelho do espectro e a distância da luminosidade de explosões estelares chamadas supernovas tipo 1a.

O tempo que a luz da supernova leva para chegar aos telescópios é descoberto examinando a distância da luminosidade, enquanto a mudança do tamanho do universo entre a explosão e a observação é determinada pelo desvio para o vermelho. Uma comparação destes tamanhos em uma sequência de tempo revela que o universo está crescendo cada vez mais rápido. Desde esta descoberta, os equipamentos ficaram mais sensíveis e os dados foram confirmados pela medição de outros fenômenos cosmológicos.

A teoria da relatividade prevê que a aceleração cósmica é determinada pela densidade média de energia e pressão de todas as formas de matéria e energia no universo. Só que as quantidades da matéria normal, da energia normal, e da matéria escura não respondem pela densidade de energia necessária para a aceleração – tem que ser outra coisa.

Uma das hipóteses mais aceitas é que o universo é preenchido por um mar de energia quântica de ponto zero, que exerce uma pressão negativa, como uma tensão, fazendo com que o espaço-tempo sofra uma repulsão gravitacional. É a chamada constante cosmológica, introduzida por Einsten em outro contexto (e referida por ele como seu maior erro) [3].

E como a energia escura afeta o universo atualmente? Ela é responsável pela aceleração cósmica, e equipes internacionais de astrônomos estão trabalhando para refinar a medida desta aceleração. Dela depende o julgamento da constante cosmológica de Einstein, uma possível compreensão da teoria fundamental da natureza (gravidade quântica e o estado quântico do universo), e o destino do universo (Big Chill ou Big Rip?).

Diferenças entre as duas
As duas, matéria escura e energia escura, possuem diferenças enormes. A matéria escura atrai e a energia escura repele, ou seja, a matéria escura é usada para explicar uma atração gravitacional maior que o esperado, enquanto a energia escura é usada para explicar uma atração gravitacional negativa [4].

Além disso, os efeitos da matéria escura se manifestam em uma escala de 10 megaparsecs (um megaparsec corresponde a 3,2 milhões de anos luz, aproximadamente) ou menor, enquanto que a energia escura parece que só se torna relevante em escala de 1.000 megaparsecs ou mais.

Finalmente, é importante questionar se os fenômenos da matéria escura e da energia escura podem ter uma explicação gravitacional. Talvez as leis da gravidade sejam diferentes do que desenhou a teoria de Einstein. Esta é uma possibilidade, só que até hoje a teoria da relatividade não falhou em nenhum teste. Além disto, novas imagens de aglomerados revelaram um comportamento que é inconsistente com teorias gravitacionais alternativas, como a MOND – ou seja, a matéria escura está ali.

Nossas melhores mentes estão trabalhando no problema e nossa melhor tecnologia está examinando o cosmos, e, por enquanto, não há outra explicação para os efeitos que observamos: a matéria escura e a energia escura são reais. A composição do universo atual, até onde sabemos, é de 4,2% matéria normal, 24% matéria escura e 71,6% energia escura [5]. [en.Wikipedia 1 2, Nasa Ask an Astronomer, How Stuff Works, Nasa Astrophysics, Dummies, National Radio Astronomy Observatory, Scientific American, Space.com, WMAP's Universe]

***

[1] Um "ser de neutrinos" seria improvável pois elementos leves são simples demais para a complexidade necessária a um ser vivo. Já um "ser de matéria escura", apesar de hipotético, não seria um absurdo lógico, pois a matéria escura é responsável pela maior parte da massa (ou pelo menos da atração gravitacional) do universo, logo pode ser tão candidata a formação de um ser vivo quanto a matéria comum, que interage com a luz.

[2] Conforme o usual: primeiro o ceticismo (e, muitas vezes, o preconceito), e então, somente muito tempo após, a aceitação. É assim, uma descoberta de cada vez, que mudamos nossos paradigmas e nossa visão do que vem a ser, afinal, o Cosmos.

[3] Até mesmo quando errou racionalmente, intuitivamente Einstein acertou em cheio...

[4] Há milênios atrás, Empédocles chamou a atração e repulsão cósmicas de "amor e ódio".

[5] Os materialistas eliminativos creem que a matéria já detectada é capaz de explicar a consciência e todos os demais mistérios da mente humana. Há que se ter um boa dose de fé para apostar tudo apenas nestes míseros 4% (do qual conhecemos uma parcela ínfima, em todo caso).

No geral, um resumo excelente de Cesar Grossmann, que merece ser compartilhado e divulgado entre cientistas e espiritualistas (ou, pelo menos, entre aqueles que leram e compreenderam a pergunta #82 do Livro dos Espíritos)...

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Crédito da imagem: HypeScience

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8.2.13

Empédocles: Amor e Ódio

Empédocles, um filósofo pré-socrático [1], acreditava que o Cosmos era regido por duas forças primordiais: o Amor unia a tudo, e o Ódio afastava. Difícil dizer hoje o porque de ele haver usado especificamente estes termos, mas talvez ele tenha percebido um parentesco entre as forças naturais, externas a alma, e as forças da própria alma.

Ora, hoje sabemos que o que Empédocles chamou de Amor, a ciência chamou de Gravidade. E a cosmologia atesta que o espaço-tempo continua a se expandir. Seria pelo Ódio que os agrupamentos de galáxias se afastam umas das outras? Acredito que Empédocles apenas lamentava pelo tanto de gente que nunca iria conhecer, pois que estavam afastados tanto no tempo quanto no espaço.

Mas há ainda uma espécie de pensamento que pode reconciliar a todos, tanto os unidos na Gravidade, quanto os afastados no Ódio... Não há substância que possa haver criado a si mesma a partir do nada, e portanto tudo o que há, galáxias, planetas, filósofos e amantes, etc, tudo é parte desta mesma substância incriada, que existe exatamente porque o nada inexiste.

Dentro dela, estamos todos navegando. Estamos todos profundamente conectados, uns com os outros, em nossa essência mas primordial. Hoje, mesmo a cosmologia poderia responder a Empédocles: "através dos átomos, todos estamos conectados - o Ódio era ilusão, o Amor venceu ao tempo e ao espaço".

***

[1] "O mundo evoluiu da água por processos naturais. Sobrevive aquele que está mais bem capacitado", concluiu cerca de 2460 anos antes de Darwin e Wallace. Conforme Wallace, porém, era reencarnacionista.

Crédito da imagem: Google Image Search

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24.10.12

Frases (12)

Mais frases que vieram com o vento, geralmente primeiro aparecem no meu twitter, depois aqui:

"As máscaras são trocadas, e nem sequer percebemos, até que temos uma fantasia totalmente nova posta diante do espelho. Somente o folião por detrás da fantasia, o dançarino, o poeta, o espírito, é quem permanece – este grande ser oculto."

"Muitas máscaras, muitas personalidades, uma essência, uma potencialidade aflorando - um pensamento de cada vez."

"Eu não acredito em idade, mas acredito em almas que, de alguma forma, conseguem permanecer jovens: 'Parabéns por mais um dia de juventude'."

"O tempo pode sim nos fazer esquecer das máscaras, mas não da Essência, que está aqui e agora, além de todo o tempo do mundo, e nossa potencialidade de perceber tal Essência jamais é esquecida."

"O tempo não prometeu cura, apenas tratamento. A alma, a mesma fonte da dor, e do amor, é aquela quem cura a si mesma."


"Para que o primeiro entre nós dissesse 'eu te amo', toda a linguagem humana teve de ser inventada."

"Se o amor é a sua própria recompensa, a falha no amor é uma chaga que sangra até que seja pacificada, harmonizada. Só o amor cura o desamor."

"Desde Demócrito, passando por Galileu e Einstein, não há um cientista que tenha comprovado que o amor existe."

"Buscamos a perfeição nas simetrias, mas se a própria Natureza fosse 100% simétrica, não estaríamos hoje aqui nos espantando com sua beleza."


"Nos vales da sombra e da morte, algo sussurra dentro da minha alma: 'prossiga, na alvorada estaremos face a face, e tudo lhe será revelado'."

"O Un(o)i(n)verso está acontecendo neste momento."

"Tornar-se, na Criação, um criador. No Amor, um amante. Na Magia, um artista. Na Mediunidade, um instrumento de paz. Na Sabedoria, o meio."

"As almas as vezes estão gêmeas, mas isto não dura, pois tudo flui, e nenhuma alma está parada."


"A mudança do mar é o que permite que a arte do surf se realize. Mas nenhum surfista pode surfar todas as ondas..."

"Sim sou contra a pena de morte. Porque? Muito branda."

"Não há nada mais secreto do que o pensamento livre."

"Talvez Deus não ame, talvez Deus seja o próprio Amor..."


"Para que filosofia? Apenas para não se existir automaticamente." (Cortella)

"Magnum miraculum est homo: O homem é um grande milagre." (Hermes)

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Crédito da imagem: Google Image Search (máscara funerária do Egito antigo, 18º dinastia)

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9.5.12

As lições da ciência

Quando eu debatia em comunidades online onde haviam embates homéricos entre céticos e espiritualistas, acabava por confundir a ambos quando tocava em assuntos científicos. Para os últimos, a ciência geralmente não despertava muito interesse, pois raramente a analisavam sob o ponto de vista espiritual; Para os primeiros, era tão estranho que um espiritualista estivesse citando Carl Sagan e Richard Feynman, que alguns pensavam se tratar de um cientista “brincando” de ser espiritualista – um “místico fake”. Obviamente, eles estavam mesmo confusos...

Podem nunca haver lhe contado na escola, mas nem sempre a espiritualidade esteve dissociada da ciência. Porém, nesta ciência de hoje, interpretada apenas como um conhecimento estritamente objetivo da realidade detectável, apenas um método sem nenhuma relação com qualquer espécie de ideologia ou filosofia, restou muito pouco da ciência antiga, a filosofia da Natureza, o conhecimento da physis.

Os sábios antigos chamavam Natureza à realidade primeira e fundamental de todas as coisas, a essência em torno da qual gira tudo o que é transitório: “A noite segue o dia. As estações do ano sucedem-se uma à outra. As plantas e os animais nascem, crescem e morrem. Diante desse espetáculo cotidiano da natureza, o homem manifesta sentimentos variados – medo, resignação, incompreensão, admiração e perplexidade. E são precisamente esses sentimentos que acabam por levá-lo à filosofia. O espanto inicial traduz-se em perguntas intrigantes: O que é essa physis, que apresenta tantas variações? Ela possui uma ordem ou é um caos sem nexo?”.

Eis que os cientistas nem sempre foram chamados de doutores. Também já atenderam por naturalistas, filósofos, sábios, alquimistas, astrólogos, druidas, ocultistas, etc. Portanto, imaginar que a vivência da ciência moderna deveria estar totalmente desconexa da espiritualidade é, antes de tudo, uma ignorância da história do pensamento humano. Uma ignorância de tantos e tantos que vieram antes de nós, e fizeram as mesmas perguntas ao céu noturno salpicado de estrelas. E, como o Cosmos não respondeu de volta tal qual um deus lendário, foram obrigados a arregaçar suas mangas e buscar pelas respostas eles mesmos. É precisamente da atitude desses cientistas – os de outrora e os de hoje – que podemos tirar preciosas lições:

A Natureza fala por si
Talvez a qualidade mais notável de todo verdadeiro cientista seja esse tal contentamento, esta real aceitação, este estoicismo perante o que a physis realmente é, e não o que gostaríamos que fosse. Feynman dizia que a imaginação da Natureza é muito, muito maior do que a nossa: ela jamais nos deixará relaxar. Sempre haverá, para o real buscador, mais uma galáxia oculta atrás de um grande conglomerado, mais uma partícula oculta nalgum nível de energia ainda indetectável pelo nosso mais avançado instrumento, mais uma lei natural oculta de nossa mais simples e elegante equação, mais um tanto do Cosmos que jamais alcançamos com nossa luz: não fomos capazes de ver sua escuridão antes que a luz fosse acesa.

Nós podemos estar errados
Outra lição é esta, tão simples, e tão essencial: podemos, sim, estar errados, e geralmente estamos. Os atomistas acreditavam que a matéria era feita de pequenas partes dos elementos que sustentavam todo o Cosmos – Hoje sabemos que átomos e quarks não são formados pelo fogo, ou a água, ou a terra, ou o ar [1]... Mas foram dos erros passados que vieram novos acertos; acertos esses que podem também se comprovar como erros no futuro. O que importa, portanto, é que hoje conhecemos um pouco mais da physis do que ontem, e amanhã conheceremos ainda um pouco mais do que hoje. Mas, decerto não existe um conhecimento infalível, uma verdade derradeira, ou pelo menos ainda estamos num nível de consciência muito distante dela. Admitir que podemos estar errados é o melhor caminho para que prossigamos adiante no fluxo deste rio sagrado, sem jamais ficarmos uma vez mais aprisionados, represados pelo dogma.

O conhecimento é uma conquista
Ainda que a Verdade pudesse realmente nos ser revelada em antigos livros escritos sob inspiração divina, não significa que tivemos a capacidade de interpretá-la. Ainda que a inspiração tenha sido uma ponte direta para os segredos mais ocultos do Cosmos, e ainda que a informação escrita tenha passada ilesa por séculos de guerras de interesses e traduções de cada época, ainda assim tudo o que temos são palavras, linguagem, símbolos de gramática que já provaram serem incapazes de traduzir tudo o que é sentido e experimentado em uma verdadeira experiência mística – por isso muitos grandes sábios jamais escreveram coisa alguma, pois eles sabiam que cascas de sentimento não fariam jus à sacralidade da experiência.
O conhecimento, portanto, é e sempre foi uma conquista. E muitos cientistas têm nos auxiliado em conhecer a physis de fora, mas nenhum, absolutamente nenhum deles, poderá realizar por nós uma conquista que foi profetizada e ofertada pelo próprio Deus: mergulhar em si mesma, isto apenas a própria alma poderá realizar.

De pé sobre o ombro de gigantes
Foi o próprio Isaac Newton quem confessou que se havia visto mais longe do que os demais, foi por ter estado em pé sobre o ombro dos gigantes de outrora. A beleza da ciência é que, desde que não tenha sido queimado por bárbaros ou eclesiásticos coléricos, seu conhecimento armazenado, em livros e outros artefatos, por toda a história da humanidade, está ainda situado nos alicerces da torre pela qual podemos observar o Cosmos cada vez mais de perto... Ao contrário do que disseram os supersticiosos, nenhum deus raivoso desceu dos céus para nos punir por nossa ousadia: continuaremos a construir torres de Babel e abrir tantas quantas foram às caixas de Pandora encontradas. Foi graças a Prometeu, que roubou o fogo dos deuses, que chegamos onde chegamos: ele foi apenas o primeiro gigante, o primeiro titã.
Mas, ao contrário do que o mito possa te levar a pensar, os deuses não se chatearam conosco – aquilo foi pura encenação. Puro teatro, para que pudéssemos assim, uns auxiliando aos outros, numa colaboração digna dos maiores exércitos do Céu, marchar para cada vez mais perto da montanha sagrada... E, quando lá chegarmos, quem sabe não possamos acender a pira do salão de Zeus, e realizarmos por lá uma grande festa – na qual mesmo os gigantes estarão convidados.

Não há elite
Na ciência genuína, todos tem a oportunidade de colaborar: não importa onde nasceram, sua cor de pele, seu sexo – desde que possam pensar, podem auxiliar nossa ciência.
Apesar de ainda haverem os “donos da verdade”, aqueles ignorantes que pensam poder determinar quem pode ou não pode falar em nome da ciência, a verdade é que não há elite na physis: assim como somente os peixes podem nos falar do mar profundo, somente os pássaros podem nos falar do céu, e os morcegos da escuridão das cavernas. Apenas assim, juntos, podemos ter alguma esperança de conhecer a Natureza sob todos os pontos de vista.

Até onde a luz pode chegar
Muitas das ideias mais místicas que fomos capazes de um dia conceber hoje estão sendo melhor desenvolvidas, e comprovadas, na cosmologia, e não mais na religião. Sabemos hoje que tudo o que há neste universo surgiu de uma singularidade, um ponto, um grão de milho que, nos primeiros momentos, englobava todo o espaço-tempo – e não havia nada “do lado de fora”, pois o tecido do espaço-tempo é tudo o que há. Sabemos também que a velocidade da luz tem um limite, e que provavelmente nada no universo o possa ultrapassar... A não ser o próprio tecido espaço-temporal, em seu berço de crescimento inflacionário, quando venceu a própria luz. Eis que, dessa forma, existem espaços deste universo que jamais poderão ser conhecidos, espaços onde nenhuma luz poderá um dia sair, ou chegar. Essa ideia de Infinito é suficientemente mística para você?

Poeira de estrelas
Ao observar o pequenino e pálido ponto azul, flutuando numa nuvem de gás sideral, parte de uma das fotos da sonda espacial Voyager I, Carl Sagan prontamente identificou: aquele ponto era a Terra, toda a Terra! Mas, a despeito da beleza de suas reflexões acerca desta imagem, há ainda algo mais belo e profundo sobre o que pensar: não apenas nosso planeta é apenas um grão de poeira na Via Láctea, nós mesmos somos formados por elementos pesados que só podem ser gerados nas fornalhas estelares. Nós somos, realmente, não somente os filhos das estrelas – nós somos formados por partes delas.
Atomicamente, somos formados pela mesma divina poeira que forma todas as outras substâncias cósmicas. Mergulhada no oceano, toda poeira é também uma parte do mar...

Conhecer a si mesmo
E foi exatamente aqui, este pequeno ponto azul em meio a escuridão infindável do oceano da noite, que despertamos pela primeira vez e dissemos: “nós aqui também existimos, também somos da raça dos deuses!”.
Não se sabe se existem outros como nós, mas provavelmente existem, e aos montes... Seja neste pequeno planeta, ou na infinidade de moradas da casa cósmica, nós parecemos ser um espécie de imagem espelhada, de semelhança, uma forma do Cosmos conhecer a si mesmo.
E, nesta tal aventura do conhecimento, nesta tal jornada para sondarmos a inconcebível natureza da Natureza, podemos navegar tanto acima quanto abaixo – tanto faz, uma parte é apenas o espelho da outra.


raph’12

***

[1] Pelo menos não da forma literal como tais elementos são compreendidos. Como símbolos, no entanto, foram, e ainda são, poderosos aliados para nossa compreensão da physis.

Crédito das imagens: [topo] APOD (telescópios em Atacama/Chile); [ao longo] APOD (lua cheia em Paris/França)

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15.4.12

A inefável definição

Porque sabemos que o ser decidiu ser,
Igualmente, sabemos que o não ser não há,
Ou jamais foi, ou será.
Que haja algo, e não nada:
Eis o primeiro e único milagre;
E que torna todos os outros, tão somente
Algo perfeitamente natural.

E, sendo o Uno, ao mesmo tempo
E necessariamente: parte e todo de si,
Eis que o Uno é uno somente em si mesmo,
No repouso perfeito que não admite movimento.
Pois que todo movimento é alguma divisão,
Alguma irradiação do Uno em partes de si,
Quando o Uno se torna o inverso de si mesmo:
O Universo.

Porque sabemos que existem partes,
Igualmente, sabemos que há movimento.
Por outro lado, porque sabemos que existem essências
– As ideias elas mesmas de si mesmas –
Sabemos que em meio ao movimento, existe o repouso,
E é exatamente neste breve repouso
Que capturamos as partes em movimento
E as admiramos brevemente em toda sua glória;
E finalmente, dizemos:
Eis uma genuína parte do Infinito, em repouso.

Porém, como tudo está para nós em movimento,
Até mesmo o espaço e o tempo, entrelaçados,
A bailar com os ventos do Infinito,
Quando vemos algo repousar, e dizemos:
Eis algo!
Tal algo já não é mais o que fora,
Nem jamais o será outra vez...
E tal paradoxo dos paradoxos, filho do primeiro,
Só pode ser mesmo reconciliado com este precioso
Momento em nossa mente:
O momento em que fotografamos o Uno,
Em toda sua inefável definição...

Nós: os fotógrafos do Infinito.


raph’12

***

» Parte da série "Mito da criação"

Bibliografia recomendada: O Caibalion (3 iniciados, ed. Cultrix/Pensamento); Ética (Espinosa; ed. Autêntica); Da Natureza e sua permanência (Parmênides, Edições Loyola, também transcrito neste blog); Parmênides (Platão; Edições Loyola); O universo elegante (Brian Greene; ed. Cia. das Letras).

Crédito da foto: Stock4B/Corbis

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6.1.12

Um átomo no universo

Eras sobre eras
antes que quaisquer olhos pudessem ver
ano após ano
trovejosamente batendo na praia como agora.
Para quem? Para que?

Num planeta morto
sem vida alguma para entreter.
Nunca a descansar
torturado pela energia
desgastado prodigiosamente pelo sol
derramado pelo espaço.
Um ácaro faz o mar bramir.

Fundo no oceano
todas as moléculas repetem
os padrões de uma outra
até que novas e complexas são formadas.
Elas fazem outras como elas
e uma nova dança se inicia.

Crescendo em tamanho e complexidade
coisas vivas
massas de átomos
DNA, proteína...
Dançando num padrão ainda mais intrincado.

Saindo do berço
para terra seca
aqui estão
de pé:
átomos com consciência;
matéria com curiosidade.

De pé a encarar o mar, refletindo:
Eu, um universo de átomos...
Um átomo no universo.

Poema sem título por Richard Feynman, prêmio Nobel de física de 1965 (traduzido do inglês por Rafael Arrais); Retirado de The Value of Science - an address to the National Academy of Sciences (1955).

» Veja também um vídeo deste poema (em inglês)

***

Crédito da foto: Shelley Gazin/Corbis (Feynman)

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31.8.11

A árvore da vida: criação

Em "A árvore da vida" (The tree of life) o diretor Terrence Malick nos traz uma inebriante experiência existencial. Podem gostar ou não do seu estilo de narrativa "trêmula e sussurrante", mas acredito que seja unanimidade a opnião de que as cenas da Natureza, em suas criações (e renovações) incessantes, sejam algumas das mais belas da história do cinema. Abaixo, temos algumas delas (veja com calma, saboreando-as):

O filme estreou nos cinemas brasileiros em Agosto de 2011


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12.8.11

O som do universo

Palestrando no TED, a cosmóloga Janna Levin, especialista em buracos negros, nos fala sobre como essas incríveis estruturas do espaço-tempo podem ser medidas não pela luz (já que não a emitem), mas pelas ondulações gravitacionais provocadas por sua presença no tecido do Cosmos... Particularmente nos casos em que dois buracos negros ensaiam sua gloriosa dança rumo a fusão mútua [1]:

Clique a direita do botão "play" para selecionar legendas em Português

***

[1] O que geralmente ocorre no centro de galáxias. Mais interessante ainda é uma outra teoria defendida por Levin, baseada no padrão de movimento entre um par de buracos negros: a de que os buracos negros podem ser partículas fundamentais, visto que tal movimento lembra em muito o movimento de partículas dentro de um átomo. "Assim acima, assim abaixo". Maiores detalhes neste documentário apresentado por Morgan Freeman (em inglês), a partir do minuto 21:00 aproximadamente.

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18.7.11

A odisséia da informação

Trecho do Projeto Ouroboros (a partir deste ponto irei revelar o nome de um segundo personagem, até então apenas "O.", agora Otávio)

(Otávio) Fico feliz que estejam seguindo meu raciocínio e concordem com a importância desse tipo de reflexão. Mas sigamos adiante: quando falamos em uma substância, pela definição usual, científica, estamos falando em qualquer tipo de matéria formada por átomos de elementos específicos em proporções específicas. Nesse sentido, substâncias possuem conjuntos específicos de propriedades e composições químicas, e se for conveniente dividi-las em dois grandes agrupamentos, estes certamente seriam de substâncias inorgânicas – como a água e os sais minerais –, e substâncias orgânicas, presentes nos seres vivos da Terra – como proteínas, carboidratos e vitaminas.
Tudo isso é bastante conhecido da ciência, da química e da biologia. No entanto, obviamente quando nos referimos a absolutamente todas as substâncias do Cosmos como irradiações da substância primeira, estaremos tratando o conceito de substância como algo infinitamente mais abrangente – capaz de definir não somente a matéria, como a energia, o pensamento, e certamente tudo aquilo que ainda escapa a nossa detecção; seja porque não interage com a luz, seja porque está além do alcance de nossos sentidos e aparelhos, seja porque se aproxime daquilo que chamamos de imaterial.
Felizmente não precisarei iniciar aqui uma nova discussão sobre a existência ou inexistência de qualquer coisa imaterial – para minha teoria, bastará nos atermos ao material, detectado ou não.
Entretanto, como o conceito de substância está, nos dias atuais, intimamente ligado a este significado de elementos materiais, creio que será mais proveitoso utilizar um novo conceito. Este “novo conceito”, em realidade, está longe de ser novo, e já é conhecido da humanidade há bastante tempo – a questão central está na interpretação que damos a ele. O que diriam vocês, portanto, se eu afirmar que tudo o que partiu da Causa Primeira e foi irradiado ao infinito do Cosmos é, tão somente e nada mais, informação?

(P.) Eu já ouvi falar disso antes, mas irei esperar que desenvolva melhor o tema para tecer minhas considerações...

(I.) Surpreso.
Ora, devo confessar que não faço idéia do que pensar neste momento. Apesar de, ao contrário de nosso amigo, nunca ter ouvido falar disso, irei igualmente aguardar seu desenvolvimento – inclusive para compreender e aprender sobre ele, se possível.

(Sofia) Alguns sábios antigos já falavam nisso, mas creio que será melhor esperar você terminar de expor o conceito de informação conforme nos trouxe agora...

(Otávio) Folgo em saber que pelo menos dois de vocês já ouviram falar no assunto. Talvez tenham chegado a ele por vias diferentes da minha, o que será ainda mais interessante para nosso debate.
Em todo caso, para desenvolver e aprofundar o assunto, primeiro precisarei lhes trazer uma definição usual para o termo “informação”.
Conforme já disse, este conceito é também bastante antigo, bem anterior a era moderna, a comunicação de massa e a computação, onde ele é comumente mais utilizado e associado. Informação é qualquer evento que afeta o estado de um sistema dinâmico. Bem, esta é uma definição mais moderna, mas igualmente válida para o prosseguimento de minha exposição – em todo caso, o termo “informação” vem do latim informatio, e em sua designação verbal significa dar forma a mente.
A mim me pareceu bastante interessante como ambos os significados, o moderno e o antigo, não somente parecem se complementar, como se casam muito bem com tudo o que discutimos até aqui sobre a Causa Primeira como uma criação mental, e sobre o Cosmos como um sistema cuja função é a evolução...
Ora, se o ato de informar é “dar forma a mente”, poderíamos agora dizer, inclusive, que o início do Cosmos nada mais foi do que a primeira informação divulgada, irradiada de algum lugar para o Todo. E, se a subseqüente sub-divisão desta substância primeira resultou nas infindáveis substâncias que compõem o Cosmos, então podemos igualmente afirmar que tudo o que tem ocorrido desde o início são informações: “eventos que alteram o estado do universo, um sistema dinâmico”.
Eu agora gostaria de dar voz a nossos amigos, P. e Sofia, pois tenho certeza que cada um terá mais a acrescentar a este assunto fascinante...

(P.) De fato, mesmo no meio científico moderno há físicos que chegaram a teorias bem parecidas com essa...
Apesar de ter chegado a sua conclusão dentro de uma teoria consideravelmente mais abrangente sobre a mecânica quântica – e que não convém expor aqui –, um físico americano [1] cunhou a curiosa expressão “o it que vem do bit”. Em suas próprias palavras:
Cada it – cada partícula, cada campo de força e até mesmo o próprio continuum espaço-tempo – deriva inteiramente sua função, seu significado, sua própria existência – mesmo que em alguns contextos indiretamente – de respostas induzidas por equipamento a perguntas sim ou não, escolhas binárias, bits. O it que vem do bit simboliza a idéia de que cada item do mundo físico tem no fundo – bem no fundo, na maioria dos casos – uma fonte e uma explicação imateriais; que aquilo que chamamos de realidade vem em última análise da colocação de perguntas sim-não, e do registro de respostas evocadas por equipamento; em resumo, que todas as coisas físicas são informacional-teóricas na origem [2].
Esse tipo de consideração metafísica demonstra como alguns físicos modernos não têm um pensamento tão distante de certos filósofos e espiritualistas, embora usem outros termos. A grande diferença, a meu ver, é que eles jamais se afastam muito das observações da ciência – e particularmente da cosmologia.
Apesar de partir do pressuposto de que todo o Cosmos nada mais é que uma espécie de supercomputador, a princípio não vejo nada de absurdo neste tipo de conclusão... Há muitas conclusões “mais absurdas” do que esta na ciência moderna, a começar pelas conclusões da própria física quântica, por exemplo.
Eu pessoalmente não concordo que a informação seja em essência imaterial, pois afinal de contas continua sendo “alguma coisa”; E é exatamente por isso que sua exposição tem me agradado, pois parece que por fim nos trará alguma “materialidade” a informação – ou seja, nada mais do que uma parte da substância primeira, que vem se dividindo e se irradiando ad infinitum, desde os primórdios do Cosmos.

(Otávio) Sorri em contentamento.
Que maravilha, vejo que nosso pensamento está agora bastante afinado. Agora nos resta ouvir o que nossa amiga tem a dizer – imagino que retornaremos uma vez mais a Grécia antiga, não?

***

[1] Conforme a nota existente no livro: Trata-se de John Wheeler. Para maiores detalhes sobre suas considerações acerca da mecânica quântica e da informação, consultar o livro “O universo inteligente”, de James Gardner. De sua expressão, não foram traduzidos os temos do inglês ao longo do texto, mas equivaleria a algo como “(o) isso que vem do bit”. Um bit de informação equivale a menor unidade computacional que pode ser medida, ela pode assumir somente dois valores, tais como “0” ou “1”, “verdadeiro” ou “falso”, etc. Não confundir com bytes, que são conjuntos de bits (normalmente, 8 bits).

[2] Conforme a nota existente no livro: O parágrafo inteiro foi retirado do livro “At home in the universe” (“Em casa no universo”), de John Wheeler.

***

Crédito da foto: Troy House/Corbis

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13.4.11

Mais programas para salvar sua semana

Parece que o pessoal gostou do meu post sobre 5 bons programas semanais da TV. Então, achei interessante lhes trazer mais 4 deles, dessa vez considerando mais a TV paga do que a TV aberta:

No Caminho (Multishow, segundas às 22:30h)
Lugares místicos e personagens comoventes cruzam a rota de Susanna Queiroz, que começou sua busca na Índia, um dos países mais misteriosos do mundo.  Na segunda temporada, a apresentadora faz o caminho saindo do Butão até Bangladesh.
É impressionante como Susanna vai ficando cada vez mais bela (por dentro, pois por fora já era desde o início) a cada programa, e a cada novo local sagrado que passa. O programa se torna interessante muito por conta da atitude da apresentadora de efetivamente conhecer as pessoas que lhes servem de guias (espirituais e/ou turísticos), além do fato de ela seguir por rotas “turísticas” bastante heterodoxas.

» Ver posts sobre o programa No Caminho no blog

Maravilhas do Sistema Solar (Discovery Brasil, sextas às 22h)
Este programa é bastante recente na Discovery, mas espero que tenha ainda muitas temporadas.
Em realidade, posso dizer com certa convicção que desde o Cosmos de Carl Sagan não encontro algum apresentador e divulgador de ciência tão promissor quanto o físico Brian Cox [1]... Neste programa espetacular, ele demonstra como os eventos físicos que ocorrem nos planetas do sistema solar, como os anéis de Saturno ou as violentas tempestades de Júpiter, podem ser explicados através da observação de eventos de menor escala que ocorrem dentro da nossa Terra – e demonstra como as leis da natureza nos conectam ao que ocorre a milhões de quilômetros de distância.

Mundos Perdidos com Les Stroud (Discovery Brasil, domingos às 13h)
Anteriormente Les Stroud tinha um programa sobre sobrevivência na África selvagem. Ao contrário de seu colega apresentador mais famoso, Bear Grylls do “A prova de tudo”, Les sempre contou apenas consigo mesmo para sobreviver – sem ajuda de equipe ou quem quer que seja.
Talvez por isso seu novo programa seja bem mais interessante: ao invés de demonstrar como sobreviver caçando animais selvagens, ele agora perambula pelas regiões ainda selvagens do globo em busca de culturas ancestrais, hoje muitas vezes à beira da extinção (ou assimilação pela cultura moderna).
Para os espiritualistas este programa se torna bem interessante na medida em que Les também se interessa por estudar e mesmo participar dos rituais de xamanismo dos povos selvagens que visita. É bastante esclarecedor perceber como tais povos ainda seguem os mesmos padrões básicos de ritualística, embora estejam isolados pelo espaço e pelo tempo...

Globo Ciência (Rede Globo, sextas às 6:25h – com reprises no Canal Futura)
Este programa é bastante antigo, e não haveria nenhuma razão especial para citá-lo nesta lista não fosse pelo roteiro bem atual, e pela apresentação bastante profissional de Alexandre Henderson (também é sempre legal ver um programa sobre um assunto “intelectual” sendo apresentado por um negro, coisa que é bastante rara na TV).
Acredito que este programa, em sua fase atual, deveria servir de base para outros programas similares e, sobretudo, mereceria um tempo maior e principalmente um horário mais acessível...

» Ver um dos episódios da fase atual no site da Globo

***

[1] Ele também é um "ex-músico", que já participou de algumas bandas de rock :)

Crédito da imagem: Divulgação dos programas listados.

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2.4.11

A fronteira estava em toda parte

Palavras de Carl Sagan em uma bela narrativa em movimento, criada por Reid Gower para a NASA, com trilha sonora de Michael Marantz e legendas pela equipe do blog Bule Voador.

Esta é uma série de episódios baseados em textos de Sagan:

» Ver parte 2 - "A vida procura pela vida"

» Ver parte 3 - "Uma fábula reconfortante"

» Saiba mais sobre o andamento de novos episódios

***

E com tantos e tantos sábios, gurus e místicos, foi justamente através de um agnóstico, de um cientista, que a natureza optou por falar de forma tão profunda...

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17.2.11

Reflexões sobre a evangelização, parte 3

continuando da parte 2

As bases filosóficas do agnosticismo foram assentadas no séc. XVIII por Kant e Hume. O termo, porém, foi cunhado pelo biólogo britânico Thomas Huxley em 1876 – ele definiu o agnóstico como aquele que acredita que a questão da existência de Deus não pode e talvez jamais possa ser resolvida.

O evangelho do agnóstico

“O Cosmos é tudo que existe, que existiu ou existirá” – Assim, com essa frase inesquecível, Carl Sagan inaugura o primeiro episódio da série de 13 documentários intitulada "Cosmos", veiculados na TV americana em 1980, e depois no restante do mundo. Ao pretender explicar ciência e cosmologia para o público leigo, Sagan acabou criando um épico que abrange também muitas questões existenciais, história, mitologia, religião e espiritualidade em geral.

Em alguma costa rochosa, em alguma praia do globo, Sagan observa as ondas, os pássaros, o vento, e algum tempo depois nos traz outra pérola em sua narrativa: “Recentemente, aventuramo-nos um pouco pelo raso (do Cosmos), talvez com água a cobrir-nos o tornozelo, e essa água nos pareceu convidativa. Alguma parte de nosso ser nos diz que essa é a nossa origem. Desejamos muito retornar, e podemos fazê-lo, pois o Cosmos também está dentro de nós. Somos feitos de matéria estelar, somos uma forma do próprio Cosmos conhecer a si mesmo.”

Sagan era profundo conhecedor de religiões e mitologia, além de cientista e cético, mas não era nem ateu nem teísta ou deísta, era puramente agnóstico. Seu evangelho era constituído de uma obra de divulgação científica totalmente voltada para tal espanto, tal deslumbramento, tal amor pela natureza e todo o Cosmos a sua volta. Essa era a boa notícia de Carl...

Para muitos teístas, o fato de existirem pessoas que não creem em um Deus pessoal, ou que pelo menos não tem certeza de sua existência, parece causar um certo desconforto. Não é raro perceber, em qualquer pessoa ligada a doutrinas eclesiásticas, uma tendência a classificar ateus, agnósticos, céticos, e às vezes simplesmente todo e qualquer cientista, como “gente sem fé”, perdida, afastada de Deus, e até mesmo imoral.

Mas a verdade é que, a despeito do aparente consenso dos eclesiásticos, a moralidade, o amor, não são exclusividade daqueles que oram todos os dias a Deus, que frequentam missas, que consultam algum manual da Verdade Absoluta frequentemente. Para o religioso superficial, isto que digo não levanta muitas questões – “Ora, mas é exatamente assim: uns são bons, outros maus, crer em Deus não faz de ninguém um santo”. Sim, isso faz sentido, mas a questão é mais profunda...

Se Deus existe – e para teístas e deístas ele certamente existe –, porque ele “permite” que algumas de suas criaturas vivam sem sequer crer nele?

Em outro produto da obra de Sagan, o livro de ficção “Contato”, que também deu origem a um excelente filme homônimo, é descrito um contato com inteligências extra-terrestres de uma forma verossímel e científica. Existe também um conflito entre as crenças de cientistas e religiosos – em dado momento, a protagonista do primeiro contato (no livro são vários contatos ao longo das décadas, no filme há apenas um), uma cientista agnóstica, nos traz uma importante indagação:

“Se Deus quisesse nos mandar uma mensagem e escrituras antigas fossem a única forma que pudesse imaginar, ele poderia ter feito um trabalho melhor. E ele dificilmente teria que se confinar a escrituras. Por que não há um monstruoso crucifixo orbitando a Terra? Por que a superfície da Lua não é coberta com os Dez Mandamentos? Por que Deus deveria ser tão claro na Bíblia e tão obscuro no mundo?”

Ao contrário do que muitos eclesiásticos possam imaginar, esta mensagem não denota um pensamento que diminua de alguma forma a importância da Bíblia, mas antes um pensamento que aumenta enormemente a amplitude do que há de sagrado no mundo – o reino é todo o Cosmos. E não poderia ser de outra forma...

Podemos encontrar neste mundo ateus, agnósticos, teístas e deístas, sim isso tudo é verdade. Mas será muito difícil encontrar algum ser que negue a existência de um sistema que rege todo o universo. Seja a crença nas leis fundamentais da natureza, seja a crença nos desígnios divinos, seja um misto de ambos, todos creem em algum sistema, cuja função pode ainda ser um mistério – mas que há de ser buscado, há de ser resolvido passo a passo, por todos nós, juntos!

Sim, nós realmente somos a forma do Cosmos conhecer a si mesmo. E pouco importa, na prática, se tal Cosmos é um ser pessoal, uma força cósmica ou até mesmo um acaso miraculoso – pois no fim, conforme postularam Kant e Hume, não compreendemos ainda muito bem nenhum deles, não podemos ainda resolver tal questão. Será que poderemos um dia?

Para resolvê-la, talvez não bastem apenas orações e experiências místicas, apenas meditação e autoconhecimento, mas também o estudo meticuloso, prático, objetivo, material, profundamente mundano, da natureza a nossa volta. Há muitos gigantes da história da ciência que, buscando talvez um deus barbudo senhor dos exércitos, acabou esbarrando em verdades muito mais profundas. Talvez buscando um reino confinado a um pequeno pedaço de rocha na periferia da uma de bilhões de galáxias, acabou esbarrando no infinito.

E, se mesmo hoje existem seres que buscam aos mistérios de Deus sem sequer crer nele, que se aventuram pelas entranhas dos átomos e quarks, pelo reino bizarro da mecânica quântica, pelos códigos ocultos do DNA, pelos quasares e sóis distantes, pelas singularidades de seções inimagináveis do espaço-tempo, deixem que busquem, pois de uma coisa teremos sempre a certeza: é impossível estar “fora” de Deus.

Talvez o trabalho deles seja tão importante para o mundo quanto os mandamentos dos evangelhos. O importante é encarar as boas novas não como enigmas solucionados, mas como o início de um caminho, subjetivo e objetivo, interior e exterior, que preenche toda nossa existência.

Amai sim, o próximo, e toda a vida, como a ti mesmo. Mas amai a coletividade da vida, amai os átomos que nos conectam a tudo e a todos em uma teia sem fim, amai ao Cosmos acima de todas as coisas.

***

Crédito das imagens: Divulgação (Cosmos de Carl Sagan).

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13.11.10

Isto não é o nada, parte 2

continuando da parte 1

Está na hora de eu dar minha opinião sobre tudo isso... Apesar de admirar o pensamento de todos os autores citados acima – incluindo dos que discordo –, penso que ainda há uma forma de resumir estas questões da unificação fundamental, do surgimento da vida e do paradoxo de ainda não termos encontrado nenhum sinal de vida inteligente neste Cosmos tão grande.

Este é o problema, o paradoxo, e também a solução – ele é grande, muito grande, talvez não muito diferente, na prática, do infinito. Quando os cientistas descobriram a radiação de fundo cósmica, uma das maiores comprovações experimentais da teoria do Big Bang, também se depararam com um grande problema: como explicar como ela era tão homogênea?

Isto foi resolvido pela teoria do físico Alan Guth. A sua idéia é que, na aurora do tempo, o espaço inflou com uma velocidade absurdamente grande. Dois pontos que, inicialmente, eram vizinhos, durante a expansão ultra-rápida se distanciaram mais rapidamente do que a velocidade da luz. Para que o mecanismo funcionasse e pudesse explicar a geometria cósmica e a homogeneidade da matéria, a expansão tinha de ser exponencialmente rápida. Por isso, sua teoria ficou conhecida como Inflação Cósmica. Atualmente esta teoria é aceita pela grande maioria dos cientistas.

Uma das conseqüências da Inflação é o conceito de horizonte cósmico... Sabemos que nada material viaja mais rápido do que a luz, entretanto, durante a Inflação, o próprio tecido do espaço-tempo “inflou” de forma mais rápida do que a luz! Isso significa que existe um horizonte até onde podemos enxergar o universo – e além dele há o “universo desconhecido”, além do alcance da luz do nosso lado, do nosso horizonte, como uma América que jamais poderá ser alcançada por Colombo.

Diante dessas informações, eu muitas vezes me pergunto, ou melhor, me vejo fazendo a seguinte pergunta aos cientistas: “Meus caros, que parte do infinito vocês não entenderam?”

Os cientistas procuram por agulhas no palheiro cósmico, e ao não encontrá-las ficam algo inquietos e angustiados... Para os que seguem a bíblia, como Heeren, isso só pode significar que Deus escolheu mesmo apenas aquele povo perdido num deserto da terceira pedra do Sol, na periferia de uma dentre trilhões de galáxias; Para os céticos desiludidos com a busca pela unificação na ciência, ou pela busca da “vida abundante” no Cosmos, isso só pode significar que somos um raríssimo acidente em meio a um universo caótico e hostil; Ainda para outros, talvez mais moderados, isso tão somente significa que o Cosmos é grande, realmente grande – mas quão grande?

É aí que o infinito entra para bagunçar com todas as teorias e crenças de tantas mentes brilhantes. O infinito não se equaciona, está além da matemática e talvez mesmo além de nossa racionalidade... Mesmo assim, ainda é possível tentar vislumbrá-lo pela lógica, tal qual arriscou o grande Benedito Espinosa.

Em sua “Ética” (Ed. Autêntica), Espinosa analisa a questão da criação, do “porque existe algo e não nada?”. Podem acusá-lo de ser mais um “sonhador da unidade fundamental de todas as coisas” – tal qual o faz Marcelo Gleiser com certa propriedade –, mas apenas acusar não basta: é preciso resolver a questão, é preciso encarar ao infinito face a face. E até hoje, que me desculpem os seguidores da bíblia e cientistas céticos, dentre todas as teorias acima citadas, somente ele avançou efetivamente nesta questão.

Se algo não surge do nada, nem mesmo flutuações quânticas no vácuo, nem mesmo um espaço vazio ou um pensamento, então há que existir algo de incriado, algo de eterno. Espinosa o chamou de Substância, “a Substância que não poderia criar a si mesma”... Ora, como sabemos que espaço e tempo estão intimamente conectados, falar em eternidade é falar em infinito.

Comparativamente, o núcleo de um átomo em relação à órbita de seus elétrons corresponderia a um pequeno inseto no centro de um estádio de futebol, uma mosca no meio do Maracanã. O resto é espaço vazio, ou preenchido por alguma parte dos 96% de matéria ou energia escura que não interagem com a luz e, portanto, jamais foram detectados pela ciência – postula-se sua existência pela observação do movimento das galáxias, na media em que falta bastante matéria para explicá-lo.

Seguindo nesse pensamento, sabemos que apenas em nosso horizonte cósmico existem mais estrelas (sóis como o nosso, cheias de planetas à volta) do que grãos de areia em todas as praias da Terra! E mesmo que nem uma única forma de vida exista em torno desses trilhões e trilhões de sóis, lembrem-se de que estamos falando apenas de nosso horizonte, de até onde nossa luz pode chegar. No “universo desconhecido” temos praticamente um infinito de possibilidades. É muito difícil afirmar qualquer coisa do tipo “não existe vida fora da Terra” ante à tal infinito.

Procuramos por agulhas num palheiro cósmico, mas não devemos esmorecer se a busca tem se mostrado árdua... Não devemos esmorecer ante o infinito, pois ele é tudo o que há, ele é a Substância que abarca a todos nós. Procuramos por versões conscientes dessa Substância, mas por vezes esquecemos que também somos formados por ela, que também estamos encharcados desse mar por todos os lados.

Por mais rara que seja a vida na Terra, ela não se compara à raridade da simples existência de tudo o que há. Como os 4% da matéria que interage com a luz, ou como a ínfima quantidade de elementos pesados que possibilitam a vida como a conhecemos em meio a um oceano de hélio e hidrogênio, somos tão raros quanto a própria Substância. E mesmo que sejamos poucos na Terra, nos confins de nosso horizonte cósmico e além, certamente seremos muitos – tantos quanto às estrelas em meio ao infinito.

Da próxima vez que se angustiarem com a escuridão da noite, com a idéia do nada e da morte vindoura, lembrem-se de que também temos tantos neurônios em nosso cérebro quanto estrelas no céu, lembrem-se de tudo isso que nos lembramos, e pensamos, e sentimos, e intuímos. Lembrem-se e afirmem para si mesmos:

Isto não é o nada.

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Crédito das imagens: Silent World, de Michael Kenna (os textos são meus)

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