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23.2.24

Lançamento: A Tábua de Esmeralda de Hermes

As Edições Textos para Reflexão retornam ao hermetismo!

A Tábua de Esmeralda foi um dos textos fundamentais que deram origem à alquimia, ao hermetismo e a boa parte do ocultismo e esoterismo que conhecemos hoje. Esta edição conta com tradução e comentários de Rafael Arrais e luxuosa introdução de Thiago Tamosauskas, alquimista praticante.

Já disponível em e-book na Amazon e também na versão impressa, pelo Clube de Autores:

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» Leia minha tradução da Tábua


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18.1.24

A Tábua de Esmeralda (traduzida por Rafael Arrais)

A Tábua de Esmeralda foi um dos textos fundamentais que deram origem à alquimia, ao hermetismo e a boa parte do ocultismo e esoterismo que conhecemos hoje. Também conhecida como Tábua Esmeraldina ou O Segredo de Hermes, trata-se de um texto antiquíssimo que influenciou tanto o Oriente como o Ocidente, e que se propõe a revelar a natureza do universo e suas transformações. Sua autoria remonta a Hermes Trismegisto, o lendário semideus greco-egípcio, também associado aos deuses Thoth, Hermes e Mercúrio. Sua origem exata é incerta, mas há indícios míticos e históricos que apontam para o Egito Antigo.

Em breve as Edições Textos para Reflexão vão lançar minha versão da Tábua de Esmeralda, traduzida e comentada, com introdução luxuosa de Thiago Tamosauskas (de onde foi retirado o parágrafo acima), alquimista praticante e autor do Principia Alchimica. Enquanto o e-book não sai (ele está sendo escrito nesse momento), trago aqui a minha tradução da Tábua, que no fim das contas é um texto bem curto mesmo:


A Tábua de Esmeralda

(1) É verdade, sem falsidade, certo e muito verdadeiro:
(2) O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está embaixo, para realizar os milagres de uma coisa só.
(3) E assim como todas as coisas vieram do Um, pela sua mediação, assim todas as coisas nasceram desta única coisa, por adaptação.
(4) O seu pai é o Sol, a sua mãe é a Lua, o Vento o embalou em seu ventre; a Terra é a sua ama de leite.
(5) A Origem de toda Telesma [1] do mundo está aí.
(6) Seu poder permanece intacto, se estiver voltado para a Terra.
(7) Você irá separar a terra do fogo, o sutil do denso, suavemente e com muito talento.
(8) Suba da Terra para o Céu, e desça novamente à Terra, e receba o poder das coisas superiores e inferiores.
(9) Desse modo você terá a glória do mundo inteiro.
(10) E todas as trevas se afastarão da sua presença.
(11) Aí está a força mais poderosa de todas: aquela que conquista todas as coisas sutis e penetra em tudo o que é sólido.
(12) Assim o mundo foi criado.
(13) Esta é a fonte das admiráveis adaptações que indiquei aqui.
(14) Por isso fui chamado de Hermes Trismegisto, pois possuo as três partes da filosofia de todo o mundo.
(15) O que eu tinha a dizer sobre a Obra Solar está completo.

(tradução por Rafael Arrais)


***

[1] O termo latino, telesma, veio do árabe ṭilasm, sendo este o idioma onde temos o registro mais antigo da Tábua (os originais se perderam). No árabe, ṭilasm significa "talismã" e/ou "enigma". Obviamente eu vou me aprofundar bastante em seu significado nos comentários do livro.

Crédito da imagem: uma gravura (de autoria desconhecida) do livro de Heinrich Khunrath, Amphitheatrum Sapientiae Aeternae, publicado em 1595; esta mesma imagem é usada na capa do nosso livro digital, a ser lançado em breve:

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17.6.22

Nossa vida nas cartas (parte final)

« continuando da parte 2

Nessa altura do campeonato, talvez já tenha ficado claro que o tarot pode servir para muitas coisas. Entretanto, de um ponto de vista estritamente prático, mundano, se algo serve para alguma coisa, é preciso saber qual é a sua função, real utilidade ou, para resumir em uma pergunta que já ouvi muitas vezes: “Afinal, o tarot funciona?”

Essa é uma boa pergunta. Ocorre que, em se tratando do tarot, ela também pode ter uma miríade infindável de respostas. Antes de prosseguirmos, no entanto, é preciso deixar claro que para aquele que não acredita no tarot, que não o conhece nem se sente minimamente inclinado a conhecer, é bastante óbvio que o tarot não funciona, e jamais irá funcionar.

Até mesmo os mais céticos dentre nós podem encontrar uma utilidade para o tarot: a apreciação artística. Se o tarot é encarado enquanto obra de arte, ele é tão funcional quanto uma pintura, uma escultura ou uma sessão de teatro. No que essas coisas podem funcionar, afinal, senão no sentido de tocar as teclas de nossa alma, de nos encaminhar a estados de consciência mais poéticos, mais espirituais, mais próximos das belezas da arte do que das mazelas da rotina mundana? E, se é assim para tais expressões artísticas, o mesmo se dá com o tarot. Nesse sentido, um cético pode colecionar baralhos de tarot pela mesma razão que coleciona graphic novels de super-heróis, por exemplo. E, se prefere ilustrações modernas às representações medievais de baralhos como o de Marselha, tanto melhor: de fato, a grande maioria dos baralhos atuais foi concebida há poucas décadas, e alguns deles são primorosamente ilustrados.

Então entra a questão da simbologia. Agora sabemos que as cartas espelham arquétipos, e que eles perduram, de alguma forma, por centenas ou milhares de representações diversas. Mas, isso não teria um limite? Um artista contemporâneo não precisaria saber minimamente sobre o que o tarot quer dizer para conceber um baralho capaz de reter ao menos uma parte da luz arquetípica? Ora, mas a beleza da coisa é que o tarot regula a si mesmo: baralhos que tentem falsificar ou tratar de forma demasiadamente superficial os Arcanos Maiores, ou mesmo os Menores, serão esquecidos bem mais facilmente do que outros.

Isso não quer dizer que o tarot não possa se atualizar. Na realidade, ele deve. Se nossa vida está nas cartas, elas devem espelhar de alguma forma o nosso tempo, e não se manterem fossilizadas no medievo. Peguemos a figura do Louco, por exemplo. Nem sempre ele teve esse nome. No Tarot de Marselha, o seu nome era Le Mat, o que provavelmente foi um erro de tradução ao francês do italiano Matto, que significa Louco (este baralho na verdade surgiu no norte da Itália). No entanto, até mesmo isso repercutiu na história: mat vem do árabe, e está relacionado à “morte”, ou ao “xeque-mate” no jogo de xadrez, quando o rei adversário está encurralado, e perdeu a partida. Ocorre que mesmo esse “final de partida” continua tendo tudo a ver com a ideia arquetípica do Louco: o aventureiro ou iniciado que se encontra no início de uma nova jornada. Isto é, perde-se ou ganha-se uma partida e inicia-se outra [1].

Pictoricamente, o Louco em Marselha é uma espécie de andarilho maltrapilho, que traz seus pertences embrulhados num pequeno saco atado na ponta de um bastão, e tem um cachorro rasgando parte de sua calça. Isso está mais próximo do “xeque-mate” da pobreza do medievo do que de outras representações mais modernas. No Tarot de Waite-Smith, por exemplo, criado mais ou menos na época do sonho de Jung, o Louco se parece com um viajante nobre, com roupas confortáveis e uma espécie de bolsa de couro no lugar do saco, enquanto atrás dele um belo cão branco saltita sem no entanto tentar mordê-lo. Ainda que o novo Louco continue se vestindo com roupas relativamente antigas para sua época, ele é claramente um filho dos ideais humanistas e espiritualistas do início do século XX, e já abandonou há tempos a pobreza de alguns dogmas dos séculos mais antigos.

Todavia, houve a introdução de um elemento novo: o abismo. O Louco se encaminha para ele, e o cão amigo talvez tente alertá-lo do perigo da jornada à frente, do caminho espiritual. Mas ele segue com fé e esperança de que, de alguma forma, “saltará” sobre o abismo. Um cético dos segredos do tarot certamente estaria mais seguro retornando com seu cão para casa. Em nosso Tarot da Reflexão, eu e meu amigo Roe Mesquita representamos um Louco místico, já iniciado, que simplesmente voa para fora da carta e arrasta seu cão pela coleira. Ele já passou por aquela colina muitas vezes, e sabe que ainda serão infindáveis jornadas no caminho. Nosso Louco é fruto de uma esperança renovada, quiçá ingênua, na espiritualidade de nosso próprio século.

Quem estará “mais certo”? Nós? Arthur Edward Waite e Pamela Smith? Ou os criadores do Tarot de Marselha, sejam eles quem forem? Todos, e ninguém. Tudo vai depender do que cada baralho é capaz de despertar na alma daquele que se utiliza dele. Seja como obra de arte. Seja como simbologia. Seja como oráculo.

E aqui retornamos ao início de tudo, a quando eu achava que o tarot era “somente” um oráculo divinatório. Ora, ele é decerto muito mais do que isso, como temos visto até aqui, mas isso não significa que ele deixe de ser oráculo. E, em sendo um oráculo, como ele pode funcionar? Aliás, o tarot funciona?

Meu amigo Marcelo Del Debbio descreve uma espécie de “exercício” para quem quer se conectar com o tarot: todos os dias pela manhã, retirar uma carta do baralho e colocá-la sobre uma mesa com a face voltada para baixo. Depois, ao fim do dia, ao chegar em casa do trabalho ou antes de ir dormir, desvirar a carta e refletir sobre o que o seu Arcano tem a ver com o que foi vivido naquele dia. A ideia é que, com o tempo, você se torne tão afinado com o tarot que já vai saber qual é a carta antes mesmo de desvirá-la. Eventualmente, você também poderá desvirar a carta logo cedo e prever como será o seu dia, de tão adaptado que estará ao seu tarot.

O cético poderá ficar boquiaberto ao perceber que isso, de alguma forma estranha, funciona. Afinal, o que diabos seria se conectar, se afinar ou se adaptar ao tarot? Ora, no espiritualismo em geral há vários nomes para isso, mas no Brasil nos acostumamos a usar o termo mediunidade.

Há inúmeras teorias acerca de como e porque a mediunidade pode funcionar, mas podemos resumir em, talvez, três grandes hipóteses:

A primeira postula que o nosso inconsciente é algo muito mais vasto que nossa experiência consciente, e assim ele guarda consigo uma imensidão de informações que, no dia a dia, são simplesmente filtradas de nossa consciência, do contrário a vida seria impossível. Pense na quantidade de informação que uma pessoa moderna, moradora de alguma metrópole e conectada as redes sociais, acessa de alguma forma todo santo dia. Decerto muita coisa é varrida para debaixo do tapete da consciência, rumo ao inconsciente. A mediunidade poderia ser uma forma de acessar pedacinhos específicos desse inconsciente. Isso explicaria como podemos nos autoconhecer melhor através do tarot, mas se formos considerar que o tarot também pode trazer respostas acerca da vida de outras pessoas, isso só poderia ser viável através do acesso ao inconsciente coletivo proposto por Jung.

A segunda hipótese diz respeito à ideia de um anjo da guarda, Eu Superior ou Sagrado Anjo Guardião, ou ainda, a entidades espirituais em geral, sejam elas espíritos desencarnados ou deuses. Através da mediunidade, todos poderíamos nos conectar e conversar de alguma forma com tais seres do chamado mundo astral, e o tarot nada mais seria do que uma dessas interfaces – assim como, por exemplo, o jogo de búzios no candomblé ou a psicografia no espiritismo. Tais entidades não necessariamente seriam externas: há teorias que afirmam que o Sagrado Anjo Guardião, por exemplo, é nós mesmos em algum futuro distante, onde saberíamos tudo o que se passou nos milhares de anos de caminho espiritual. Segundo essa teoria, nós usaríamos o tarot para fazer perguntas a nós mesmos no futuro. Dá um baita filme de ficção científica!

Finalmente, a terceira hipótese, de longe a mais metafísica, parte da ideia que veio do hermetismo e afirma basicamente que “o Todo é mente”. Simplificando bastante, isso quer dizer que quem ou o que criou o espaço-tempo está, sempre esteve e sempre estará presente nele. Ou seja, não haveria nada no cosmos fora ou mesmo longe deste Todo, que é tudo o que existe. E, como fomos criados “a sua imagem e semelhança” ou, para citar outro conceito hermético, “o que está em cima é como o que está embaixo”, este Todo é tão mente quanto a gente: nós fazemos parte dele, somos como personagens na sua história. Nesse sentido, enquanto o inconsciente coletivo de Jung seria, para nós, inconsciente, para o Todo ele seria pura consciência – consciência universal. E, sim, isso tudo quer dizer que nós usaríamos o tarot para fazer perguntas diretamente a Deus, ou como queira chamá-Lo.

Seja de que ponto de vista você observe o tarot, fato é que há que se ter certa humildade diante dele, afinal ninguém, absolutamente ninguém, pode dizer que o compreendeu inteiramente. Nossa vida está e sempre estará nas cartas, mas as cartas são lâminas espelhadas, não estão vivas: refletem a vida. Há quem use tais lâminas para objetivos mesquinhos e egóicos, e se cortam nelas, e sangram sem necessidade. Mas há quem compreenda que elas podem refletir a luz do Alto, e assim jogar luz na escuridão da inconsciência, e tornar nosso caminho como um todo mais prazeroso, mais iluminado e mais colorido. A luz foi criada para ser refletida, e ela tem muitas cores!

***

[1] Alguns podem dizer que isso teria mais a ver com o próprio Arcano da Morte. Ora, mas é preciso lembrar que o Louco se encontra espalhado por todos os outros Arcanos. Ou foi só um erro de tradução mesmo...

Bibliografia
Para esta série nos valemos de conhecimentos e trechos obtidos nos livros História do Tarô (Isabelle Nadolny; tradução Luciana Soares da Silva; Editora Pensamento), Tarot Hermético (Marcelo Del Debbio e Priscilla Martinelli; Daemon Editora) e O Homem e seus Símbolos (Carl G. Jung e colaboradores; tradução Maria Lúcia Pinho; Harper Collins), no portal Clube do Tarô (por Constantino K. Riemma e outros colaboradores) e nos cursos Os Mistérios do Tarot – Arcanos Maiores e Menores (Marcelo Del Debbio) e Tarot: Os Mitos Modernos e a Cultura Pop (Rodrigo Grola e Marcos Keller).

Crédito das imagens (com links da maioria dos tarots na Amazon): [topo] Jack Sephiroth/Heaven & Earth Tarot (a imagem traz o Louco, e este tarot é obviamente uma releitura do Tarot de Waite-Smith); [ao longo] Anônimo e Pamela Smith (a imagem traz o Louco no Tarot de Marselha e no Tarot de Waite-Smith); Roe Mesquita (a imagem traz o Louco no Tarot da Reflexão, do qual sou cocriador, mas não ilustrador); Jen Theodore/unsplash (na imagem, o Wild Unknown Tarot, de Kim Krans).

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15.3.22

Seria o Caibalion uma invenção moderna?

Neste vídeo vamos analisar se o "Caibalion" é uma obra que traz de fato conhecimentos da Antiguidade, ou se trata-se simplesmente de uma releitura moderna do hermetismo. Também abordaremos a história do hermetismo e tentaremos desvendar quem seriam, afinal, os Três Iniciados, os supostos autores do "Caibalion". Assista abaixo:

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9.3.22

O Caibalion é uma fraude?

Eu já não lembro mais o que exatamente me levou a adquirir o exemplar antigo do Caibalion que tenho na minha estante, mas certamente não foi pela beleza da capa, que é somente um símbolo semelhante a um meio círculo por cima de um fundo verde chapado. Poderia ser o título em si, mas duvido que soubesse do que se tratava “O Caibalion”. Quiçá fosse pelo “Três Iniciados” logo acima dele, mas acho que não: visualizando ela agora, posso apostar que foi pelo outro texto abaixo do título:

Estudo da filosofia hermética do antigo Egito e da Grécia

Até então eu nunca tinha lido nada de relevante sobre o antigo Egito, mas talvez as palavras “filosofia” e “Grécia” tenham me levado a um interesse maior, pois naquela época eu certamente já havia lido Platão. Em todo caso, uma vez que se pega o Caibalion numa estante de livraria e começa a folhear, fica difícil não ser seduzido – ao menos se você, como eu, se interessa por espiritualidade e mitologia. Também ajudou, é claro, o fato da edição da editora Pensamento ser bem em conta na época.

Isso possivelmente se passou no final do século passado, e de lá para cá eu não somente reli o Caibalion algumas vezes, como cheguei eu mesmo a traduzi-lo do inglês original. E, se eu sempre soube que era uma obra de autoria anônima, com o tempo alguns outros “mitos” em torno dela foram caindo: ela não foi escrita na Antiguidade, mas em 1908; seus autores, portanto, não eram sábios milenares, mas espiritualistas anônimos (ou nem tão anônimos, como veremos a seguir); e, finalmente, até mesmo os famosos “Sete Princípios Herméticos” não necessariamente advinham todos de textos herméticos mais antigos. Assim, uma dúvida desconfortável passou a transitar em minha mente:

O Caibalion é uma fraude?

Antes de respondermos a tal pergunta, é preciso considerar que atribuir antiguidade a uma doutrina ou filosofia, particularmente as que se conectam com o campo da religião, é uma prática muito comum na história da humanidade. Se formos nos ater estritamente à pesquisa acadêmica, o próprio hermetismo não é algo tão antigo quando se imagina, ao menos não antigo ao ponto de ter se originado no antigo Egito.

Segundo Mircea Eliade, um dos grandes estudiosos do campo em questão no século XX, “sob a denominação de hermetismo compreendemos a totalidade das crenças, ideias e práticas transmitidas na literatura hermética”. Depois, ele prossegue [1]:

“Trata-se de uma coletânea de textos de desigual valor, redigidos entre o século III a.C. e o século III d.C. Distinguem-se duas categorias: os escritos pertencentes ao hermetismo popular (astrologia, magia, ciências ocultas, alquimia) e a literatura hermética erudita, em primeiro lugar os 17 tratados, em grego, do Corpus Hermeticum.”

Eliade situa o hermetismo popular como algo mais antigo do que os tratados herméticos, que vieram a se tornar definitivamente populares somente no século II d.C. Ele também dá destaque a trajetória conturbada do hermetismo ao longo dos séculos:

“A transmissão do hermetismo constitui um capítulo apaixonante na história do esoterismo: efetuou-se através das literaturas siríaca e árabe, e sobretudo graças aos sabeus de Harran, na Mesopotâmia, que sobreviveram no Islã até o século XI. [...] No entanto, o verdadeiro “renascimento” do hermetismo na Europa ocidental teve início com a tradução do Corpus Hermeticum, empreendida por Marsílio Ficino por solicitação de Cosme de Médicis, e concluída em 1463.”

Assim, chegamos a duas datas importantes acerca do hermetismo: século II d.C., quando surgiu o Corpus Hermeticum no mundo grego, e 1464, quando ele foi redescoberto na Europa latinizada. Mas, e o Caibalion?

O Caibalion foi publicado pela primeira vez em 1908 na língua inglesa pela Yogi Society, ligada a um templo maçônico de Chicago, nos EUA. A obra é anônima, assinada somente pelo codinome ou pseudônimo “Três Iniciados”. No entanto, existem indícios de que o livro esteja ligado ao Movimento Novo Pensamento, que surgiu nos Estados Unidos no final do século XIX. Esse movimento era formado por filósofos, espiritualistas, escritores e pessoas que compartilhavam crenças e participavam de estudos metafísicos associados a temas diversos da espiritualidade e da parapsicologia.

Das diversas teorias ligadas à autoria do Caibalion a mais aceita é a de que o livro foi escrito pelo espiritualista americano William Walker Atksinson (mais conhecido como Yogi Ramacharaka, e também popular por usar diversos pseudônimos em suas obras) em parceria com outros estudiosos, como o maçom Paul Foster Case ou a teosofista Mabel Collins. Por exemplo, na própria introdução do Caibalion há uma citação em destaque do trecho de um poema de Edward Carpenter, e esse mesmo trecho aparece em um dos livros (oficiais) de Atkinson. Em todo caso, a verdade é que nunca saberemos ao certo quantos foram os colaboradores da obra, e quais os seus nomes, principalmente porque, sejam quem forem, simplesmente optaram pelo anonimato.

Ora, era isso que eu pensava até pouco tempo atrás: que os autores do Caibalion optaram pelo anonimato para exaltar a obra em si, e não para aumentar sua “aura de mistério”. Afinal de contas, se é óbvio que o Caibalion se trata de um extenso comentário acerca de alguns poucos trechos de obras herméticas mais antigas, fato é que ele traz alguns princípios muito conhecidos do hermetismo, como o famoso Princípio da Correspondência: “O que está em cima é como o que está embaixo; o que está embaixo é como o que está em cima”. E, se ele traz pelo menos um princípio que sabemos ser de fato antigo, ou pelo menos do século II d.C., é claro que os demais também são, certo?

Mais ou menos. Pois se isso fosse inteiramente verdade, teríamos de explicar como diabos algum sábio, ou grupo de sábios, chegou à conclusão que “Nada está parado; tudo se move; tudo vibra” (o Princípio da Vibração) muito antes do advento do microscópio ou da física de partículas!

Mesmo Demócrito, quando observou pequenas partículas de poeira dançando na brisa matinal em um faixo de luz solar, jamais chegou a afirmar que tudo, absolutamente tudo, vibra. Pois ele não tinha um microscópio para dizer que até mesmo um átomo, então pura construção teórica, vibra e nunca está parado. Isso só foi descoberto muito, muito tempo depois. Em 1908, quando o Caibalion foi publicado, era uma ideia da vanguarda científica.

Por muito tempo essa questão me inquietou, e por muito tempo eu considerei que ela era talvez a maior prova de que os sábios herméticos tinham de fato alcançado um conhecimento da natureza inexplicável em sua época. Talvez tivessem aprendido a alcançar estados alterados de consciência que lhes permitisse observar as menores partículas em vibração, e daí tivessem intuído que tudo, absolutamente tudo vibra, até mesmo o que parece estar parado e imóvel: uma pedra, um galho seco, a sua mão, uma igreja, uma ponte de concreto, até mesmo um continente inteiro. E, se de fato sabemos disso com certeza há cerca de 150 anos, tal conhecimento era inacessível aos sábios herméticos de outrora.

Tal questão foi resolvida recentemente, quando vi o depoimento de um amigo que já frequentou incontáveis ordens iniciáticas, desde as discretas as invisíveis, e garantiu que o chamado Princípio da Vibração foi uma invenção dos autores do Caibalion, que simplesmente nunca existiu nem no Corpus Hermeticum nem em qualquer outro texto ou tratado hermético. De fato, hoje não tenho razão alguma para duvidar dele, e sim da intenção real dos autores do Caibalion. Mas, afinal, o Caibalion é uma fraude?

Mais ou menos. É inegável que o Caibalion foi extremamente bem sucedido no que seus autores se propunham: tornar a divulgação do hermetismo algo mais simples, mais acessível ao público leigo e aos curiosos em geral. Afinal, quantos de nós não demos nossos primeiros passos no hermetismo, e até mesmo nas ciências ocultas em geral, graças ao Caibalion?

Dito isso, o fato de os autores do Caibalion terem se valido justamente de mistificações para auxiliar na divulgação de um conteúdo místico não deve ser ignorado por nenhum estudioso sério do hermetismo. Assim, podemos muito bem agradecer aos “Três Iniciados” por nos fazerem chegar ao Corpus Hermeticum e obras similares, mas jamais endeusá-los nem considerar tudo o que disseram, principalmente os seus “Sete Princípios Herméticos”, como alguma espécie de verdade absoluta. Assim somos obrigados a continuar pensando por nós mesmos, a prosseguir tateando no escuro da história oculta, sem usar atalhos perigosos para alcançar algum mítico “conhecimento superior”. Este sim seria o grande pecado do hermetista moderno.

***

[1] Trechos retirados de História das crenças e ideias religiosas, volume II, XXVI, 209. Tradução de Roberto Cortes de Lacerda.

Crédito das imagens: [topo] Editora Pensamento (capa do Caibalion – edição de capa verde); [ao longo] Gravura de autoria anônima, vista primeiramente (em preto e branco) em um livro de Camille Flammarion intitulado L’atmosphère: météorologie populaire (1888).

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11.2.22

Raph fala sobre Cabala e Sefirat ha Ômer no canal Consciência Próspera

No dia 10/02/2022 fui convidado a falar sobre Cabala e Sefirat ha Ômer no canal Consciência Próspera. Trata-se de um programa de entrevistas capitaneado pelo educador e escritor Samuel Souza de Paula. Desde 2010 ele já entrevistou mais de 700 espiritualistas de diversos ramos e vertentes, de Monja Coen a Marcelo Del Debbio.

Tive a oportunidade de falar sobre o início do meu caminho espiritual, de como cheguei a conhecer o Sefirat ha Ômer através do Del Debbio, e de como minha Contagem de 2014 acabou gerando um livro de poemas intitulado 49 noites antes da Colheita:

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13.9.21

Porque é importante conhecer a filosofia islâmica

O texto abaixo prefaciou o livro A Filosofia Islâmica: Pensadores Islâmicos de todos os tempos, de Thiago Tamosauskas, disponível na Amazon em e-book.


O italiano Cosme de Médici foi um dos homens mais importantes do Renascimento na Europa. Não foi pintor, nem escultor, nem escritor ou mesmo pensador, foi um banqueiro. Herdou do pai a fortuna, a saúde e o talento para os negócios. Além disso, governou Florença durante muitos anos, e ajudou a torná-la a capital da arte em todo o Ocidente. Isso tudo porque Cosme foi um homem rico que soube fazer bom uso de sua fortuna, quiçá o melhor uso: patrocinar as artes em geral.

Ele também amava livros, e como na sua época não existia internet, enviava diversos agentes pelo mundo afora para tentar encontrar tomos raros. Eram caçadores de cultura. Cosme estava particularmente interessado em obras gregas da Antiguidade, uma vez que mais ou menos após o advento do cristianismo, toda a Europa foi, século após século, se esquecendo do grego, e se apegando exclusivamente às obras em latim. Mas Cosme não estava numa busca às cegas, pois sabia exatamente para onde enviar seus agentes: o mundo árabe islâmico.

Ninguém questiona a importância das obras de Platão para o pensamento ocidental, mas quando Cosme cresceu, poucas eram as obras platônicas disponíveis em latim. Já ao leste, principalmente na junção com o Oriente Médio, a situação era outra. Os bizantinos que conheciam o grego podiam continuar a ler Platão no original. Dessa forma, os filósofos do mundo islâmico desfrutavam de um extraordinário grau de acesso à herança intelectual da antiguidade grega. Por exemplo, na Bagdá do século X, leitores árabes tinham o mesmo grau de acesso às obras platônicas quanto os leitores em inglês nos dias de hoje.

Isto foi graças a um movimento de tradução que se iniciou durante o califado Abássida, começando na segunda metade do século VIII. Patrocinado pelo próprio Califa, este movimento almejou importar a filosofia e a ciência grega para a cultura islâmica. O império deles tinha recursos para tal, não só financeiramente, mas culturalmente também. Desde a antiguidade tardia até a ascensão do Islã, o grego sobreviveu como língua de atividade intelectual entre cristãos, especialmente na Síria. Então, quando a aristocracia muçulmana decidiu ter a ciência e a filosofia gregas traduzidas para o árabe, foi para os cristãos que eles se voltaram. Foi um imenso desafio. Mas, já no tempo de Cosme, grandes obras de Platão, Aristóteles, Plotino, assim como o famoso Corpus Hermeticum, estavam não somente preservadas em seu original grego nos califados islâmicos, como traduzidas para o árabe e outras línguas da região.

Enquanto durante muitos séculos os europeus “se esqueceram” de tais ideias, no mundo islâmico elas eram conhecidas a fundo. Em boa medida, o chamado Renascimento foi mais uma redescoberta das ideias da antiguidade grega. Mas, se tais ideias puderam ser revisitadas, foi porque os islâmicos as salvaram da aniquilação. Quando os agentes de Cosme retornaram à Florença, ele logo deu a ordem para que todas as obras encontradas fossem traduzidas para o latim. E o resto é história: tais obras jamais voltaram a ser esquecidas pelo Ocidente.

Mas, estranho de se pensar: se foi o mundo árabe islâmico que preservou tais conhecimentos, será que também não existiram grandes pensadores do Islã? Será que eles se limitaram apenas a preservar tal conhecimento, sem terem dialogado com ele? E, se existiram grandes filósofos islâmicos, por que nós raramente ouvimos falar deles no Ocidente?

Não cabe a mim responder tais perguntas neste prefácio, mas a quem ficou curioso sobre o tema, o restante desta obra será de grande valia. O seu autor, Thiago Tamosauskas, tem se revelado um investigador incansável de escolas de pensamento mundo afora. Antes de falar da filosofia islâmica, ele também já se debruçou sobre a filosofia africana e a filosofia chinesa. Sua intenção, obviamente, não é descrever em minúcias cada uma das ideias dos pensadores islâmicos, mas antes dar uma introdução geral ao assunto, e deixar que cada leitor busque se aprofundar por conta própria no pensamento dos filósofos que mais chamaram a sua atenção – de preferência, lendo-os no original.

Uma grande vantagem do texto do Tamosauskas é que, ao contrário do seu sobrenome, ele é altamente legível e explicativo, às vezes com uma pitada de humor aqui e ali. Em suma: é algo que informa e diverte. Se tudo correr bem, logo logo você estará buscando pelos outros livros desta série, se é que já não os leu.


Rafael Arrais

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Crédito da imagem: Pintura de Osman Hamdi Bey (1902).

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30.6.20

Bate-papo Mayhem: As Sete Leis Herméticas, com Léo Lousada e Raph

Oi pessoal. Recentemente eu tive mais uma oportunidade de participar do programa Bate-Papo Mayhem, conduzido pelo meu amigo Marcelo Del Debbio. Dessa vez eu fui convidado para comentar o programa que teve o Léo Lousada, do canal Conhecimentos da Humanidade (no YouTube), falando sobre as sete leis do hermetismo. Assim, foi uma verdadeira conversa hermética entre irmãos:

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11.2.19

Espíritos são coisa da nossa cabeça? (Reflexões no YouTube)

Bem-vindos ao primeiro vídeo resposta do canal! Neste vídeo respondo a uma pergunta do Douglas Pinnheiro sobre entidades espirituais e outras coisas mais... Lembrando que por enquanto estarei criando vídeos resposta somente para as perguntas nos comentários do vídeo comemorativo de 1.000 inscritos no canal.

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14.1.19

Mulheres na filosofia (Reflexões no YouTube)

Achou que não tinha mulheres na filosofia antiga? Achou errado. Neste vídeo falaremos de três das grandes sábias da humanidade que conseguiram ter seus nomes lembrados mesmo após séculos de sociedades patriarcais. São elas: Temistocleia, a mestra do primeiro filósofo da história, Pitágoras de Samos; Hipátia de Alexandria, que ensinou diversos filósofos em sua época, incluindo Sinésio de Cirene, um dos bispos da igreja cristã; e, finalmente, Rabia Basri, a maior santa do sufismo, o misticismo islâmico.

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17.12.18

O hermetismo e a ciência moderna (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo veremos como as ideias de um deus ou homem ou grupo de sacerdotes da Antiguidade grega (ou egípcia) anteciparam em milênios descobertas científicas que só foram possíveis na chamada era da ciência moderna. Teria Hermes Trismegisto sido o primeiro cientista da história? Ao final, trago mais informações sobre a minha tradução do "Caibalion", o grande livro introdutório ao hermetismo.

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22.10.18

A Alquimia, com Caciano Camilo Compostela

Há muito a era moderna especula sobre o que diabos seria a Alquimia (além é claro de mãe da química). Fala-se em transmutar chumbo em ouro, mas seria isto algo real ou somente metafórico? Fala-se em um suposto Elixir da Longa Vida, mas se ele tem este nome, por que deveria conferir a vida eterna? Fala-se numa Pedra Filosofal, mas desde quando as pedras filosofam?

Para elucidar essas e outras questões recorrentes dos curiosos recém-chegados na trilha que leva a Alquimia real, o pessoal do podcast Papo na Encruza convidou Caciano Camilo Compostela, que além de ser um dos maiores entendidos do tema no país, é também um colunista deste blog. Ouçam com carinho e atenção, e quem sabe vocês também poderão tornar o seu próprio ser um laboratorium, isto é, um local de trabalho (labor) e oração (oratorium). Que toda alma, enfim, possa ser o seu próprio laboratório alquímico.

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27.7.18

Hermes, o Adivinho?

Alguns dizem que ele viveu na região de Ninus, no Egito antigo, nalgum ponto do tempo entre 2.500 a.C. e 1.500 a.C. Dizem que era legislador e filósofo, e teria escrito 36 livros sobre teologia e filosofia (que naquela época não eram tão separadas) e 6 sobre medicina, todos eles perdidos ao longo das invasões e saques e mudanças de impérios regionais. Alguns o confundem com deuses, uns o chamaram de Toth, mas ficou mais conhecido como Hermes. Hermes Trimegisto (ou Trismegisto, quem se importa), o Três Vezes Grande, fonte primária do que se convencionou chamar hermetismo.

Segundo Mircea Eliade em História das crenças e das ideias religiosas (vol. II), o hermetismo teria florescido entre os séculos III a.C. e III d.C. no mundo helênico e romano, primeiramente através da própria cultura popular e depois como filosofia profunda, onde ele situa a obra mais importante, o Corpus Hermeticum, escrito em grego. Eliade vê no hermetismo um imenso sincretismo de filosofias espirituais judaicas, egípcias, iranianas e até mesmo platônicas. É muito difícil, portanto, cravar que Hermes foi somente um homem, ou um deus, ou um grupo de sacerdotes escritores, ou que viveu somente no Egito etc. O que nos importa aqui são os famosos 7 Princípios Herméticos: teria Hermes, seja ele quem for, adivinhado em boa medida os avanços da ciência e do conhecimento modernos milênios atrás? Veremos...

I. “O Todo é Mente; o Universo é Mental.”
Se é verdade que não encontramos teorias científicas de muito destaque que associem o universo diretamente a uma mente, seria apressado afirmar que Hermes chutou em falso logo em seu primeiro princípio. Ocorre que a própria lógica da demonstração deste axioma nos remete ao próprio momento da Criação, e de como “uma substância não pode gerar a si mesma” (como resumiu Benedito Espinosa em sua Ética, muitos séculos depois): ou seja, para algo surgir sem depender de outro algo já existente, há que se ter uma criação mental.

Como já disse Carl Sagan em Cosmos, “se você quiser fazer uma torta de maçã a partir do zero, você deve primeiro inventar o universo”. É que a única forma de fazer tal torta sem depender da pré-existência dos seus ingredientes é imaginá-los, da mesma forma que imaginamos uma cadeira de madeira sem depender da pré-existência da madeira. Assim sendo, compreender o universo inteiro como uma criação mental nos leva necessariamente ao fato de ele ter tido um início no tempo.

Ora, o próprio termo “Big Bang” foi primeiramente cunhado de forma pejorativa pelo astrônomo inglês Fred Hoyle, que como quase todos os cientistas de sua época, defendiam que o universo provavelmente “esteve sempre lá”, mais ou menos do mesmo tamanho, e que não poderia, de forma alguma, estar se expandindo indefinidamente desde algum ponto no tempo onde seu diâmetro cabia na cabeça de um alfinete. Não ajudava, decerto, o fato da própria teoria do Big Bang haver sido proposta por um padre jesuíta belga, Georges Lamaître, que também calhava de se interessar por astronomia e cosmologia. Tudo aquilo parecia bíblico demais, mas no final das contas se comprovou realidade, e toda a astronomia moderna eventualmente se curvou aos fatos.

A diferença é que Hermes não disse que “no princípio Deus criou o céu e a terra”. Ele disse algo distinto: o Todo é o céu e a terra, o Todo é a imaginação divina. O Todo não criou o mundo e depois foi descansar, mas imaginou tudo que há a partir de si mesmo. O Todo simplesmente é.

II. “Assim acima como abaixo; assim abaixo como acima.”
Mais ou menos quando o hermetismo surgiu no mundo grego, já era válida a chamada “física aristotélica”, baseada nas ideias de Aristóteles sobre o Cosmos. Ela foi inicialmente tão respeitada que era quase intocável, mas eventualmente sofreu críticas e, somente muitos séculos depois, com o advento do telescópio e da ciência moderna, foi derrubada em definitivo.

Ora, há pelos menos dois princípios fundamentais da física aristotélica que batem de frente com o segundo axioma de Hermes. Segundo Aristóteles, objetos muito acima da superfície da Terra não são constituídos por matéria originalmente terrestre, comum, mas pelo chamado Éter ou Quintessência. Ele também defendia que o Sol e os planetas são esferas perfeitas que não se alteram. Bem, isso basicamente queria dizer que o Céu, ou tudo que havia para além da Terra, não seguia as mesmas leis físicas, tampouco era constituído da mesma matéria básica. Não foi isso que arriscou Hermes, seu princípio diz claramente que as mesmas leis que valem acima, no Céu, devem valer abaixo, na Terra; muito embora elas possam variar em grau, tal variação jamais será absoluta.

Hoje sabemos que somos formados pela poeira de estrelas, que os elementos pesados de nosso corpo foram todos forjados no núcleo estelar, e que nossa matéria é prima de toda a matéria do universo, seja em que ponto estiver no espaço e no tempo... Hermes não precisou de telescópio para acertar mais um chute. Um sujeito muito sortudo, eu diria!

III. “Nada se encontra parado; tudo se movimenta; tudo vibra.”
Quando Hermes elaborou tal axioma, o máximo que se podia observar do mundo atômico era o que se conseguia enxergar com olhos nus. Demócrito fala em átomos indivisíveis, e dizem que tal ideia veio da observação de poeira flutuando pelos raios de sol de alguma tardinha. Tudo bem, o filósofo grego não estava longe da verdade, mas como, como diabos Hermes pode ter tomado conhecimento de que tudo o que há de fato está em constante vibração, e jamais parado?

As ideias de Demócrito só vieram a ser revistas em meados do século XIX, sendo que a física de partículas e a mecânica quântica só surgiram para valer na ciência moderna no século passado. Hoje sabemos que no mundo atômico e subatômico, as partículas não somente estão vibrando incessantemente, como sequer podem ser medidas com grau completo de certeza quanto a sua posição e movimento: segundo o princípio da incerteza na física quântica, ou sabemos de uma informação, ou de outra.

Em seu estado mais fundamental, os elementos que constituem o Cosmos estão não somente em vibração eterna, como se movimentam de forma tão elusiva que sua posição no espaço é antes uma probabilidade do que uma certeza. Como já disse uma vez um físico muito simpático, “se você acha que entendeu alguma coisa sobre mecânica quântica, então é porque você não entendeu nada”.

No entanto, há milênios atrás, sem microscópio algum, o lazarento do Hermes acertava na mosca mais uma vez. O que será que ele fumava?

IV. “Tudo é Dual; tudo tem polos; tudo tem o seu par de opostos; igual e desigual são o mesmo; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se encontram; todas as verdades são nada mais que meias-verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados.”
Embora tenhamos chegado num dos axiomas que tratam mais de conceitos metafísicos do que físicos, é inegável que Hermes já falava em polaridade desde o mundo antigo.

Todo mundo que já teve de trocar as pilhas do seu controle remoto já viu que há em cada uma delas um polo positivo [+] e um negativo [-]. Tal conceito fundamental do eletromagnetismo é também um fruto dos avanços da ciência moderna. Assim, ainda que para nossa ciência atual não esteja tão claro que absolutamente tudo na natureza tenha dois polos, pelo menos nesse aspecto (eletromagnético) Hermes acertou, mais uma vez.

V. “Tudo flui, para fora e para dentro; tudo tem suas marés; tudo sobe e cai; a oscilação pendular se manifesta em tudo; a medida da oscilação à direita é a medida da oscilação à esquerda; o ritmo é a compensação.”
Novamente um axioma mais metafísico do que propriamente científico. No entanto, foi somente recentemente na história da ciência que desvendamos todos os segredos das marés, ou seja, as oscilações cíclicas no nível da água dos oceanos.

Na época de Hermes muita gente ainda deveria acreditar que os mares escoavam para o abismo no fim do mundo, que era compreendido como algo plano. Hermes não, o danado parece que ficava imaginando como seria o futuro, e chutou com felicidade de novo.

VI. “Toda Causa tem o seu Efeito; todo Efeito tem a sua Causa; tudo ocorre de acordo com a Lei; o Acaso é tão somente um nome para uma Lei não reconhecida; existem muitos planos de causalidade, mas nada escapa à Lei.”
Este talvez seja o axioma mais científico de Hermes. Parece simples para muitos de nós hoje imaginar que nenhum pedregulho sequer rola de uma encosta montanhosa sem uma causa física anterior, como chuvas torrenciais ou a lenta degradação da mata no entorno. Porém, numa época onde o pensamento mágico era ainda amplamente aceito, arriscar dizer que nada poderia simplesmente surgir ou ocorrer do nada, ao acaso, como num passe de mágica, ainda era algo revolucionário.

Ah sim, e ele acertou outra vez!

VII. “O Gênero está em tudo; tudo tem seu Princípio Masculino e Feminino; o Gênero se manifesta em todos os planos.”
A primeira vista este último axioma parece, de todos, o chute mais fácil de ter sido acertado naquela época. Afinal, bastava olhar para os homens e as mulheres, e os machos e as fêmeas no mundo animal, e elaborar uma teoria básica.

No entanto, Hermes parece ter se referido a algo mais profundo, algo com o que a psicologia só veio a esbarrar mais seriamente nos dias atuais: gênero não é sexo biológico, e sexo biológico não é gênero. Se há crianças que, desde bem novas, dizem “estarem presas no corpo errado”, é que enxergam a si mesmas antes pelos princípios, seja masculino ou feminino, que dominam sua alma, do que propriamente pelo corpo em que habitam.

A transexualidade é ainda um tabu tão grande que foi somente neste ano, 2018, que a Organização Mundial da Saúde (OMS) a retirou da lista de transtornos mentais. Hoje por todo o mundo civilizado se debate o que é gênero, e se existe mesmo alguém 100% macho ou fêmea, ou, se pelo contrário, se todos somos compostos por uma mescla de princípios ou energias masculinas e femininas.

Assim, há muita gente que nunca ouviu falar de hermetismo, que sequer acredita em alma ou reencarnação, que se debruça profundamente sobre tais questões de gênero; algo que, de certa forma, Hermes também antecipou há milênios...

Como pode ser tão sortudo?
Mas, como pode Hermes ter sido tão afortunado em tantos chutes? Ou será que ele dispunha de ferramentas que nós não dispomos, ou pelo menos ainda não identificamos em nós mesmos?

Teria Hermes adivinhado tudo isso por pura simpatia da Deusa Fortuna, ou teria ele descoberto tudo isso e muito mais contemplando aos espaços misteriosos de sua própria mente?

Essas são questões que merecem ser consideradas com carinho por todo estudante de hermetismo. Se Hermes foi algum deus, foi também outro sábio da sua época quem disse: “sois deuses, e dia virá em que farão tudo isso que eu tenho feito, e ainda muito mais”. Ora, se eles foram deuses, nós também somos da raça dos deuses. Nós também somos cocriadores nesta Criação. Nós também somos a imagem e a semelhança do Todo. Agora, basta navegar adentro...

Boa viagem, ó argonautas da mente!

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» Veja também a minha tradução do Caibalion, e o artigo O dia em que a terra parou, onde jogamos luz no papel que o hermetismo teve no próprio advento da chamada ciência moderna, com Copérnico e Galileu.
 
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27.4.18

As grandes questões do ocultismo (tomo final)

« continuando do tomo III


Imagine esta noite, há dez mil anos, fria e úmida, nalgum canto europeu onde tudo o que os homens sabiam acerca de outros homens se resumia a tribos que foram vistas de passagem pela margem da floresta, e que logo se esconderam dos olhares estranhos. Um mundo ancestral, onde vivíamos isolados, andarilhos vivendo da caça e da coleta, temerosos dos trovões e da raiva dos deuses. Conectados, em todos os momentos, à Natureza em nossa volta, ao ponto de nem precisar lhe dar um nome: a Natureza já era todo o mundo.

Alguns poucos dentre nós eram escolhidos, geralmente desde a infância, para serem os discípulos do xamã da tribo, aprendendo com ele todos os dias e todas as noites a se comunicar com os espíritos de antigos heróis e sábios tribais, assim como com os seres etéreos da natureza; e, de vez em quando, até mesmo com alguns dos seus deuses. Um xamã abandonava seu corpo, sua mortalha, para ir habitar do outro lado, e então o seu discípulo assumia o seu lugar, e logo escolheria outro para também um dia lhe substituir no futuro, pois que nenhuma tribo era capaz de sobreviver por muito tempo sem o auxílio daquele que se comunica com espíritos, que dá conselhos sobre as caçadas e conhece todos os segredos das ervas medicinais.

Imagine esta noite, ao redor da fogueira, onde o velho xamã canta (acompanhado de alguns tocadores de tambor) antigos poemas sobre caçadas épicas, tempos de fartura de frutos, e metamorfoses de seu próprio ser com diversos animais – vivenciadas em transe profundo, no único lugar onde todos os seres fantásticos, os espíritos, os deuses e demônios existem incontestavelmente: a mente humana.

Nessa era, quando todos os conhecimentos espirituais eram centrados na figura do xamã, a magia sequer tinha um nome. Por se tratar “de tudo o que tem relação com o espírito humano”, ela não precisava realmente ser rotulada, reduzida a uma palavra, um signo... no entanto, se um xamã fosse intimado a falar acerca da sua teologia, ele provavelmente responderia como um sacerdote xintoísta respondeu a Joseph Campbell: “nós não temos teologia, nós dançamos”.

Desde os primórdios da humanidade, a mente e o espírito sempre encontraram caminhos propícios para transbordar sua subjetividade no mundo objetivo, para de alguma forma estranha, tornar possível a migração de informações do mundo das ideias, do mundo interior, onde tudo é fluido, onde tudo pode ser simplesmente imaginado, até o mundo das coisas, até o mundo exterior, onde tudo tem corpo e forma, onde tudo tem o seu tempo de nascer, viver e morrer. Assim, sempre nos pareceu (e para a maioria de nós ainda parece) que este mundo dito objetivo é mais como uma passagem, um entrecruzamento de vias férreas, onde os trens de nossas vidas podem apitar uns para os outros, por breves períodos, até que precisem novamente zarpar para a próxima estação.

Lá no início de tudo, lá, muito antes da linguagem, a magia já brotava como uma espécie de noivado com a consciência. Através da magia, o que era somente imaginado pôde, passo a passo, ser transferido para o mundo lá fora. Na falta de um nome melhor, lhe chamamos A Arte...

Enclausurados no fundo das cavernas, com pouquíssima iluminação, se valendo de sangue animal e de tintas arcaicas, os xamãs gravaram no ventre da própria Terra imagens de suas caçadas, do que vivenciavam em seus transes, e da morte e renascimento em suas próprias iniciações, quando também eles vieram desvanecer no ventre da Mãe, para renascerem como filhos de Gaia, irmãos de todos os demais xamãs do mundo. E isto, que hoje chamamos de arte rupestre, nada mais foi do que o surgimento da pintura.

Muitos também aprenderam a talhar a pedra não somente para produzir pontas de lanças e flechas, como para trazer ao mundo das formas sólidas as figuras dos mais antigos deuses, sobretudo a Deusa Mãe, com suas formas fartas, garantidora da vida e da fertilidade da tribo. Assim surgiu a escultura.

Da música e da poesia nós já falamos, mas considere como ambas foram reunidas com danças e encenações, quando já não bastava mais somente contar uma história: era preciso reencená-la novamente, e quantas vezes fossem precisas, nas noites em que a tribo rememorava antigos acontecimentos dignos de nota. Muito tempo, e algumas civilizações depois, tais encenações passaram a ser independentes da religião em si, e foram chamadas de teatro pelos gregos antigos. Conforme a ópera e o próprio cinema não poderiam ter surgido sem o teatro, há que se considerar que todos eles ainda derivam, em última instância, da Arte.

Finalmente, foi inventada a escrita, e todas as histórias ancestrais puderam fluir da mente daqueles que as recitavam de memória para os símbolos que, se eram incapazes de trazer consigo todo o sentimento, toda emoção daqueles que um dia cantaram ao redor das fogueiras ancestrais, ao menos podiam registrar com exatidão inimaginável algo que se passava tão somente na mente do xamã. Milhares de anos depois, o próprio ocultismo iria se basear largamente na forma como certas palavras são recitadas, assim como no estilo com a qual elas eram guardadas nos livros e nos grimórios. A isso tudo nós também demos outro nome: literatura.

É bem verdade que os primeiros magi (magus, no singular) eram sacerdotes do zoroastrismo, que mais tarde vieram a ser rotulados de “praticantes de magia” pelos gregos, que ironicamente não viam o que eles faziam com bons olhos. Assim, quando a Arte recebeu o nome “magia”, foi mais por um acidente da história. É curioso como, mais ou menos desde essa época, tudo o que era realizado pelas religiões dos povos estrangeiros foi considerado “magia”, sobretudo como forma de diferenciação para com as práticas sagradas da religião oficial do próprio país. Até hoje é fácil se encontrar coisa parecida: “macumba é magia negra, mas as minhas simpatias, as minhas orações aos santos, isso é tudo coisa de Deus”.

Na realidade, como pudemos ver, desde o xamanismo antigo, a própria religião, a própria religação a Natureza, ao Cosmos e aos deuses, esteve indissociada da Arte. Religião também é, e sempre será, uma forma de magia (uma das mais antigas, por sinal).

Aliás, quando a então famosa pitonisa de Delfos, Temistocleia, iniciou Pitágoras em seus conhecimentos ocultos, ela ainda poderia ser rotulada como “religiosa”. Foi somente quando o próprio Pitágoras ganhou sua fama (basicamente evangelizando a sabedoria de sua mestra), que ele eventualmente foi chamado de “filósofo”: amante (filos) da sabedoria (sophia). Assim surgiu a filosofia no Ocidente, e também ela, obviamente, é filha da Arte.

Desde Demócrito os antigos “filósofos da Natureza” (título que, aliás, foi assumido por alguns desta estirpe até poucos séculos atrás) começaram a focar sua atenção também nos eventos que ocorrem lá fora, e investigaram tanto os átomos quanto as constelações. Eratóstenes já sabia que a Terra não era plana cerca de 2 séculos antes de Cristo, e chegou a calcular sua circunferência com precisão invejável. Mas foi alguma espécie de deus ou semideus, Hermes o Três Vezes Grande, quem antecipou em milênios a física de partículas e o estudo de outros sóis e outros mundos: pelo menos desde a antiga Grécia ele já havia arriscado dizer que “tudo vibra, e nada está parado”, e que as leis que regem o Alto são as mesmas que regem o que acontece por aqui.

Quando Nicolau Copérnico publicou o seu célebre Das revoluções das esferas celestes, algumas linhas abaixo da primeira ilustração do heliocentrismo estava descrita a sua maior inspiração: Hermes Trimegistus. Diz a “história oficial” que a Igreja mandou um de seus monges (Giordano Bruno) para a fogueira simplesmente por defender que a Terra girava em torno do Sol. Eles preferem ignorar o que realmente se passou, e como Bruno quis fundir o cristianismo com o hermetismo, criando uma nova religião cósmica. Tivesse tido sucesso, o mundo ocidental seria hoje muito, muito diferente...

Em todo caso, fato é que o que havia se iniciado lá em Demócrito hoje está plenamente consolidado na era moderna: a separação definitiva entre a Arte e a ciência, entre a alquimia e a química, entre a astrologia e a astronomia, entre o conselho xamânico e a psicanálise.

Diz o atual dogma científico que nada do que escapa ao puramente objetivo deve ser considerado pela ciência. Nem sempre foi assim, mas hoje a Academia prefere relegar o que pode ser chamado de “sobrenatural” as “esquisitices da mente” e ao efeito placebo. Que seja, que a magia seja a arte de se catalisar efeitos placebo. E, quanto à mente, bem, é justamente nela que se passa toda a nossa existência, seja ela “esquisita” ou “normal” (não sabemos o que é mais estranho).

Foi mais ou menos assim que a Arte se decompôs em inúmeras partes, infindáveis campos de estudo, incontáveis maneiras de se contemplar a Natureza. No entanto, se pudéssemos voltar atrás, e reconciliar toda a nossa sociedade de acordo com os preceitos arcaicos do xamanismo, ainda seríamos divididos entre caçadores e artistas. Ora, felizes aqueles que não necessitam caçar para sobreviver, e podem se dedicar plenamente a Arte, e a sua Grande Obra. Para isso, sim, meus irmãos, para isso vale a pena estar aqui, para isso vale a pena apontar nossos espelhos pequeninos para a luz do Alto, a luz que se encontra espalhada por tudo o que há, mas que ainda é invisível para quem se arrasta sonolento pela existência.

Acorde! Recorde que você é um homem, que veio de uma estrela, que está em uma estrela, que irá para outra estrela...

Imagine esta noite, há dez mil anos, com você sentado ao redor da fogueira. Imagine, sinta como a sua chama lhe aquece. Feche os olhos e veja: na sua frente, do outro lado da fogueira, está um xamã ancestral, também de olhos fechados. Ele abre os olhos, e lhe encara... de alguma forma, você sabe, você sempre esteve lá. Isto é Ars Magica.

Pouse suavemente. Os mensageiros orientam...


raph’18

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Crédito das imagens: [topo] TASS/Vladimir Smirnov (xamã siberiana); [ao longo] Sisse Brimberg/National Geographic (arte rupestre na caverna de Lascaux, França); Google Image Search (Angkor Wat).

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22.2.18

Ocultaria, o congresso das coisas que não existem

Não é lá muito simples definir o que é ocultismo, e muitas pessoas têm visões diversas do que ele venha a ser exatamente. Por isso mesmo, ao estudar o ocultismo, particularmente o ocultismo contemporâneo, é bom saber em que terreno se está pisando. Pois bem, eu creio que o pessoal do Ocultaria – o congresso das coisas que não existem têm bases sólidas e confiáveis, por isso estou aqui indicando este evento para quem puder ir (também estão disponíveis pacotes para assistir por vídeo).

Ele vai ocorrer em 21/07/2018, em São Paulo, não muito distante de onde costumam acontecer os Simpósios de Hermetismo, isto é, ali pela região no entorno da Av. Paulista (maiores detalhes no site). Aliás, o Ocultaria é quase como um Simpósio de Hermetismo feito por uma geração um pouco mais jovem, o que é algo extraordinário porque demonstra como esse tipo de conhecimento está fincando raízes cada vez mais sólidas aqui no Brasil.

Aliás, um dos palestrantes e apresentadores do Vortex Caoscast, o Rodrigo Vignoli, também é figurinha carimbada entre os frequentadores do Simpósio. Além dele, também falam o meu amigo Gelo e o Victor Vieira, que completam os pilares do Vortex; e, representando o canal do Nino Denani no YouTube, falam o próprio Nino e a Ana Lídia.

Portanto, se você quer conhecer um pouco mais de ocultismo, recomendo que assista alguns vídeos do Nino, depois ouça alguns podcasts do Vortex, e se lhe interessar, vá lá conferir tudo isso ao vivo:

Se inscreva no Ocultaria!


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10.1.18

Lançamento: O Caibalion

As Edições Textos para Reflexão desta vez trazem a você o grande clássico do hermetismo moderno, O Caibalion.

Escrita e publicada no início do século 20 por estudantes anônimos do hermetismo, esta obra introdutória traz preceitos e axiomas do antigo hermetismo, comentados e explicados para uma nova era e um novo público. Publicado originalmente em inglês, nos EUA, este Caibalion é mesmo um fruto de nosso tempo, porém ele se refere a outro Caibalion, bem mais antigo e oculto, que se perdeu nos anais da história, mas que se encontra preservado nas mentes e nas almas de todos aqueles que não deixaram morrer a chama. Acaso deseje se tornar um jogador no jogo de tabuleiro da vida, e não mais mera peça a ser movida pelas circunstâncias e influências externas, este pequeno livro cheio de luz pode ser o seu guia nas noites mais escuras.

Disponível em e-book e versão impressa :

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Se você mora fora do Brasil e deseja ter minha tradução impressa, também colocamos à venda uma versão impressa exclusiva na Amazon.com

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À seguir, trazemos um trecho do Cap. I – A Filosofia Hermética:

Nos primeiros tempos, havia uma compilação de algumas Doutrinas Herméticas Básicas, passadas de instrutor a estudante, que ficaram conhecidas como O Caibalion, cujo exato significado do termo esteve perdido por muitos séculos. Este ensinamento, entretanto, é conhecido por muitos seres ao qual ele foi derramado ao longo dos séculos, de lábios a ouvidos, sempre escoando pelo tempo. Até onde sabemos, os seus preceitos nunca foram escritos ou impressos. Se tratava de uma mera coleção de máximas, axiomas e preceitos, que soavam incompreensíveis aos estrangeiros das ordens, mas que eram prontamente assimilados pelos estudantes assim que o seu conteúdo era explicado e exemplificado pelos Iniciados aos seus Neófitos.

Tais ensinamentos constituíam de fato os princípios básicos da Arte da Alquimia Hermética, que, ao contrário da crença popular, se baseia no domínio das Forças Mentais, e não dos Elementos Materiais – portanto, a Alquimia não fala da transmutação de um tipo de metal em outro, mas da transmutação de um tipo de Vibração Mental em outra. As lendas acerca da Pedra Filosofal, que transformava qualquer metal comum em Ouro, falavam tão somente de uma alegoria relacionada à Filosofia Hermética, facilmente compreendida por quaisquer estudantes do verdadeiro Hermetismo.

Neste pequeno livro, cuja Primeira Lição é esta, nós convidamos nosso estudante a examinar os Ensinamentos Herméticos, conforme expostos no Caibalion e explicados por nós, humildes estudantes dos Ensinamentos (e que, apesar de carregarem o título de Iniciados, são tão somente estudantes prostrados aos pés de Hermes, o Mestre). Assim, nós lhe oferecemos muitas das máximas, dos axiomas e dos preceitos do Caibalion, acompanhados de explicações e comentários que acreditamos servir de auxílio para a compreensão do estudante moderno, particularmente porque o texto original se encontra propositalmente velado em muitos termos obscuros.

As máximas, axiomas e preceitos originais do Caibalion estarão sempre destacados em negrito no restante de nossa obra, e todos eles vêm diretamente dos lábios de Hermes. O restante do texto, sem destaque, pertence a nós. Esperamos que muitos dos estudantes aos quais nós hoje oferecemos esta pequena obra possam tirar tanto proveito do seu estudo e conhecimento quanto aqueles buscadores que já a seguiram através do Caminho do Adepto, ao longo dos muitos séculos que se passaram desde o tempo de Hermes Trimegisto, o Mestre dos Mestres, o Três Vezes Grande:

“Onde se encontram as pegadas do Mestre, os ouvidos daqueles preparados para os seus Ensinamentos se abrem completamente.” – O Caibalion

“Quando os ouvidos do estudante estão preparados para ouvir, logo vêm os lábios para preenchê-los de sabedoria.” – O Caibalion

Assim, conforme indicam os Ensinamentos, a divulgação desta obra se dará na medida em que os seus futuros estudantes se encontrarem em condições de compreendê-la, pois do contrário sequer lhe darão a atenção devida, e ela lhes passará desapercebida, como deve ser. E, segundo a mesma Lei, quando o pupilo estiver devidamente preparado para receber a verdade, então esta pequena obra dará um jeito de chegar ao seu conhecimento.

O Princípio Hermético de Causa e Efeito, em seu aspecto de Lei de Atração, tratará de juntar lábios e ouvidos – e muitos pupilos ainda hão de conhecer este livro.

Que Assim Seja!


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28.12.17

O Tudo e o Nada

Após ter acompanhado seu nascimento e crescimento desde o início, é com muita honra que hoje prosseguimos com a parceria deste blog com o canal Conhecimentos da Humanidade no YouTube, apresentado por Bruno Lanaro e Leo Lousada.

E desta vez, surpresa!, sou eu mesmo que apareço no vídeo. Logo após o Simpósio de Hermetismo deste ano (Novembro de 2017), tive o prazer de visitar a casa do Bruno e, ao ver o "set de filmagens" do canal, decidimos simplesmente ligar a câmera e falar sobre "alguma coisa". Claro que achei que a oportunidade era ideal para falar sobre o Tudo e o Nada, que os leitores do meu blog (e, principalmente, do meu livro Ad infinitum) sabem bem que se trata de um tema recorrente das minhas reflexões.

O meu objetivo, portanto, é mais estabelecer uma base de questionamentos filosóficos a partir da premissa inicial de que "existe algo e não nada" do que propriamente "evangelizar" alguma crença ou filosofia particular adiante. Assim sendo, o ideal é que vocês mesmos se questionem e busquem pelas próprias respostas, pois eu não tenho pretensão alguma de ditar regras de pensamento.

Feliz Ano Novo! (tudo vibra e nada está parado, inclusive este nosso planetinha)

» Saiba mais sobre o andamento da minha tradução do Caibalion

» Saiba mais sobre o meu livro: Ad infinitum

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20.12.17

Traduzindo o hermetismo, parte 2

Continuamos trazendo os trechos iniciais da tradução de Rafael Arrais do Caibalion, que em breve será publicado em e-book e livro impresso.

« continuando da parte 1

De lábio a ouvido as verdades foram sendo passadas através dos séculos para os poucos caminhantes em condições de recebê-las. Sempre houve poucos iniciados em cada geração, nos mais variados territórios do planeta, que mantiveram vivo o fogo sagrado dos Ensinamentos Herméticos, e eles sempre estiveram a postos para se valer de suas reluzentes lamparinas para reacender as lamparinas acanhadas do mundo profano, sempre que a chama da verdade ameaçava esmaecer por conta da negligência de seus cuidadores, ou quando os pavios ficavam embebidos em estranhas substâncias. Sempre houve um punhado de seres dispostos a cuidar fielmente do altar da Verdade, sobre o qual foi posta a Lamparina Perpétua da Sabedoria. Tais seres devotaram suas vidas para a obra de amor que o poeta soube definir tão bem nestas linhas [Nota do Tradutor: trechos do poema de Edward Carpenter em Towards Democracy]:

Ó, não deixes a chama morrer!
Mantida era após era em sua escura caverna,
e tão bem cuidada nos templos sagrados
pelos puros ministros do amor...
Não, não deixes a chama morrer!

Tais seres jamais buscaram a aprovação popular, tampouco numerosos seguidores. Eles são indiferentes a tais coisas, pois que bem sabem como são tão poucos aqueles que, em cada geração, estão preparados para a verdade, ou que pelo menos são capazes de reconhecê-la quando esta lhes é apresentada. Eles guardam “a carne para os adultos”, enquanto outros dão “o leite às crianças”. Eles reservam suas pérolas de sabedoria para os poucos eleitos que são capazes de reconhecê-las, e assim as utilizam no adorno de suas coroas, ao invés de jogá-las aos porcos vulgares e materiais, que iriam tão somente chafurdar na lama com elas, e as misturar com o seu desagradável alimento mental.

Mas tais iniciados no caminho nunca menosprezaram ou se esqueceram dos preceitos originais de Hermes, que tratam da transmissão da verdade para aqueles em condições de recebê-la, conforme nos diz o Caibalion: “Onde se encontram as pegadas do Mestre, os ouvidos daqueles preparados para os seus Ensinamentos se abrem completamente”; e, noutra parte: “Quando os ouvidos do estudante estão preparados para ouvir, logo vêm os lábios para preenchê-los de sabedoria”. Mas sua atitude costumeira sempre esteve em estrito acordo com outro aforismo hermético, também presente no Caibalion: “Os lábios da Sabedoria se encontram fechados, exceto aos ouvidos do Entendimento”.

Há aqueles que criticaram tal atitude por parte dos hermetistas, e que afirmaram que eles não manifestavam o verdadeiro espírito dos seus ensinamentos por conta de suas políticas de reclusão e reticência. Porém um rápido olhar pelo que se passou nas páginas da história irá revelar a devida sabedoria dos Mestres, que bem sabiam o quão inútil seria tentar ensinar abertamente num mundo que não estava preparado e tampouco desejoso de receber tais ensinamentos. Os hermetistas jamais buscaram se tornar mártires, tanto pelo contrário, somente se sentaram silenciosamente ao largo dos grandes acontecimentos profanos, com seus lábios fechados, esboçando um leve sorriso de piedade.

Enquanto isso, “os ignorantes se enfureciam contra eles”, se valendo de sua diversão costumeira de encaminhar para a morte e a tortura os honestos porém desencaminhados entusiastas que um dia imaginaram ser possível evangelizar a verdade para uma raça de bárbaros; a verdade que só poderia ser compreendida, é claro, por aqueles já avançados no caminho.

E este espírito de perseguição ainda vive até os dias atuais. Ainda há certos Ensinamentos Herméticos que, se forem divulgados abertamente, possivelmente farão com que caia sobre os seus instrutores um clamor de ódio e desprezo vindo da multidão: “Crucificai-os! Crucificai-os!”.

Nesta pequena obra nós buscamos lhes dar uma ideia dos ensinamentos fundamentais do Caibalion, nos esforçando para lhes trazer os Princípios que de fato funcionam, mas deixando que vocês mesmos os estudem e pratiquem com maior profundidade, ao invés de tentar detalhá-los apenas com palavras. Se você acaso é um estudante verdadeiro, certamente poderá compreender e aplicar tais Princípios no seu dia a dia – porém, se ainda não se tornou um, você deve buscar primeiramente desenvolver a si mesmo, do contrário os Ensinamentos Herméticos nada mais serão que “palavras, palavras, palavras” para você.

Os Três Iniciados

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Crédito da imagem: Marko Horvat/unsplash

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