Pular para conteúdo
17.2.20

Tudo o que há

Uma névoa sem forma
flutuava num espaço sem espaço;
e, no tempo do sonho
fez-se a luz, e lá havia alguém:
“Isto sou Eu”

Esta foi a primeira reflexão.

Então Eu tive medo de estar só
por toda eternidade;
e, no sonho do tempo
aglutinou-se a escuridão, é lá estava Eu:
“Não posso, não posso ser somente um!”

Esta foi a primeira dor.

E assim, Eu chorei,
e tenho chorado desde então;
mas, quando vi que de minhas lágrimas
nascia uma espiral de seres
e tempo e espaço e energia e matéria,
passei a contemplar aquilo que Eu mesmo
havia imaginado:
“Vida, vida e mais vida, é o que Eu desejo!”

Esta foi a primeira iluminação.

Eis que da pedra ao arcanjo,
do mais Abaixo ao mais Alto,
tudo o que há sou Eu,
tudo o que há é este momento
em que todas as minhas lágrimas perdidas
retornam como cocriadoras –
a sua vontade já é a nossa Vontade.

Mas, quando Eu decidir cerrar novamente os olhos,
tudo isso terá fim.


raph'20

***

» Parte da série "Mito da criação"

Crédito da imagem: Martin Pugh

Marcadores: , , ,

18.3.17

Ante tamanha beleza

E antes de tudo o mais
olhou ao redor,
e não tendo visto
nada além de si,
proclamou: "Eu sou";
e este foi o primeiro nome.

No princípio não era o verbo,
era o inefável, o inominável,
o infinito que o antecede,
a eternidade,
o que é, foi e será:
"Eu sou"

Depois, vieram muitos outros nomes,
e deuses e titãs
e anjos e demônios
e homens e animais...
mas, até este dia, e todos os dias,
não há noite em que não se lembrem
daquele que antes de tudo os imaginou
(isto ocorre pouco antes de fecharem os olhos);
e então tudo é sonho,
tudo bruma e escuridão.

Até que surge a manhã seguinte,
e quando eles despertam
e olham ao redor,
ante tamanha beleza,
todos brevemente se esquecem
da angústia da separação;
e então tudo ainda é sonho,
tudo luz difusa sob um véu
de ilusão.

Sim, é justamente assim que tem sido,
e será para sempre!

Eu gostaria de poder explicar melhor,
mas tudo isso por aqui, todas as palavras,
ainda que impressas em sangue,
são tão somente as cascas que restaram
dos frutos que só podem ser colhidos
das árvores proibidas...
para saber mais é preciso queimar,
é preciso arder sob o véu,
é preciso morrer para si,
e renascer
na imensidão.


raph'17

***

» Parte da série "Mito da criação"

Crédito da imagem: Katerina Plotnikova

Marcadores: , , , ,

11.8.13

O que virá adiante

O que é este zumbido,
sussurro gotejante,
algo estranho vindo
de antes do ouvido?
Uma sensação de vida,
vida verdejante
e líquida, a escorrer tal qual
córrego sinuoso,
sempre em busca
do que haverá mais adiante...

O que ele quer lhe confessar?
O que somos nós,
de onde viemos e onde tudo isso
vai desaguar?
Ora, se ventos sussurrantes
acaso pudessem sussurrar,
é isso que lhe diriam:
“Onde finda a poderosa ventania,
há um eco no horizonte,
e tal som é como a doce brisa
da primavera. Nada no mundo
pode realmente deixar de existir,
desde que haja nalgum dia
sido brisa ou ventania
no coração a amar e seguir”.

Os ventos trazem a chuva
que se oferece em êxtase para o barro.
Assim nascem de infindáveis sementes
os braços de madeira da Terra...
Você não vê o que eles desejam
com toda a ânsia da Vida por si mesma?
Querem abraçar o Céu!

O que iniciou toda essa história ancestral?
De sussurros e brisas e ventos
e córregos de amor líquido
descendo em cascatas sem igual?
Disso não sabemos...

O que sabemos é que tais questões
nascerem de mentes que surgiram de sementes.
Há toda uma mitologia que se canta em canções
de deuses, heróis, duendes e arcanjos.
Em cada mente ainda corre o líquido
que flui da Fonte aos borbotões
rumo ao Grande Oceano.

Mas agora chega de tantas indagações.
Já lhe dissemos muito, e em todo caso
a linguagem só faz represar
toda esta mitologia líquida
nos córregos eternos do ser.

Basta de pensar.
Faça silêncio,
e apenas se deixe desaguar
rumo a eternidade...

Meu amigo, meu amor, meu semelhante,
você mal faz ideia do que virá adiante!


raph’13

***

» Parte da série "Mito da criação"

Crédito da imagem: Google Image Search

Marcadores: , , , ,

2.7.12

Onde vivem os deuses

Deus não se demonstra
Não está aqui ou ali
Não disse isto ou aquilo
Deus é uma experiência
Um pensamento antes da linguagem
Pois que não é uma palavra
Nem um conceito, nem uma ideia, nem uma filosofia...
Deus não é nada que possamos defender com palavras, com cascas de sentimento...
Deus é o puro sentimento
Deus não é o puro sentimento
Deus apenas é

“Ele passou por aqui” – diz-nos a testemunha
Passou pela alma, tal qual leve brisa a escorar pelo ombro...
“Onde foi agora?”
Para todo lugar
Para nenhum lugar

O agnóstico tem razão ao dizer que não podemos compreender a Deus, nem a existência de Deus...
Assim como os poetas não podem compreender a poesia, o amor...
O amor é como um pássaro fugidio
A sombra de uma nuvem – um leve acinzentado pairando pela paisagem
O animal fantástico, a Fênix!
Há muitos poetas-caçadores que tentaram captura-la, mas nenhum deles jamais trouxe a prova...
Nenhuma pena da Fênix para contar a história
Apenas a experiência
O deslumbre e o espanto
De observar a mais bela das aves a voar...
Mas, e onde estaria agora, para onde teria voado?

A ave do amor voou para além do horizonte da linguagem
A fronteira entre a sua terra e a terra do pensamento
Parece-nos intransponível...

Somente os poetas-loucos souberam construir essa tal ponte
Entre a razão e o amor
Em seus pensamentos há uma luz que brilha ainda antes que possam dizer:
“Estou pensando”
E então dizem o que não podem dizer:
“Estou pensando no amor”
“Estou pensando em Deus”

Há essa ponte entre duas terras:
A terra onde tudo está separado em pequenas caixas, como segredos hermeticamente fechados;
E a terra onde tudo jaz junto, unido, conectado...

O amor é a ponte
O amor é uma fonte
Deus está a aguardar na outra margem
Deus não está a aguardar na outra margem
Deus é uma experiência


raph’12

***

» Parte da série "Mito da criação"

Crédito da foto: Peter Adams/JAI/Corbis (Angkor Wat, Camboja)

Marcadores: , , , , , , ,

15.4.12

A inefável definição

Porque sabemos que o ser decidiu ser,
Igualmente, sabemos que o não ser não há,
Ou jamais foi, ou será.
Que haja algo, e não nada:
Eis o primeiro e único milagre;
E que torna todos os outros, tão somente
Algo perfeitamente natural.

E, sendo o Uno, ao mesmo tempo
E necessariamente: parte e todo de si,
Eis que o Uno é uno somente em si mesmo,
No repouso perfeito que não admite movimento.
Pois que todo movimento é alguma divisão,
Alguma irradiação do Uno em partes de si,
Quando o Uno se torna o inverso de si mesmo:
O Universo.

Porque sabemos que existem partes,
Igualmente, sabemos que há movimento.
Por outro lado, porque sabemos que existem essências
– As ideias elas mesmas de si mesmas –
Sabemos que em meio ao movimento, existe o repouso,
E é exatamente neste breve repouso
Que capturamos as partes em movimento
E as admiramos brevemente em toda sua glória;
E finalmente, dizemos:
Eis uma genuína parte do Infinito, em repouso.

Porém, como tudo está para nós em movimento,
Até mesmo o espaço e o tempo, entrelaçados,
A bailar com os ventos do Infinito,
Quando vemos algo repousar, e dizemos:
Eis algo!
Tal algo já não é mais o que fora,
Nem jamais o será outra vez...
E tal paradoxo dos paradoxos, filho do primeiro,
Só pode ser mesmo reconciliado com este precioso
Momento em nossa mente:
O momento em que fotografamos o Uno,
Em toda sua inefável definição...

Nós: os fotógrafos do Infinito.


raph’12

***

» Parte da série "Mito da criação"

Bibliografia recomendada: O Caibalion (3 iniciados, ed. Cultrix/Pensamento); Ética (Espinosa; ed. Autêntica); Da Natureza e sua permanência (Parmênides, Edições Loyola, também transcrito neste blog); Parmênides (Platão; Edições Loyola); O universo elegante (Brian Greene; ed. Cia. das Letras).

Crédito da foto: Stock4B/Corbis

Marcadores: , , , , ,

14.7.10

Mito da criação

Na eternidade existia o Ser, aquele que simplesmente é.
Percebendo o Ser que nada mais poderia haver ali além dele próprio, o Ser pensou: “que se faça a luz!”
E irradiou-se da eternidade para a ante-sala de seu Reino.
E, tendo preenchido todo o Reino, o Ser soube que era bom.

Movimentando-se em sua ante-sala, o Ser refletia sobre si mesmo.
E, a cada reflexão, um universo brotava de sua mente.
E assim, nesse movimento, universos iam e vinham de sua fronte, como num piscar de olhos.
E, tendo percebido que cada universo continha uma nova história, o Ser soube que era bom.

Seu plano para cada universo era cuidadosamente elaborado em sua mente, entre os momentos em que apenas refletia sobre si mesmo...
Cada universo tinha uma substância, e essa substância os preenchia por completo – cada estrela, planeta e partícula.
E para que houvesse movimento, o Ser permitiu que a substância fosse maleável.
E para que os seres conscientes que brotassem pudessem renascer quantas vezes fossem necessárias, o Ser permitiu que a maleabilidade da substância construísse uma sequência de eventos na consciência dos seres.
E para que tudo não fosse determinado, o Ser permitiu que um átimo dessa maleabilidade ficasse a cargo dos pensamentos e da vontade dos próprios seres conscientes.

Tendo erigido o infinito em seu próprio Reino, o Ser decidiu aventurar-se em seus próprios pensamentos.
E desde então tem sido testemunha do nascer e morrer dos sóis, do raro alvorecer de vidas em algumas de suas pedras, e até do surgimento de seres conscientes.
E tem observado todas as conquistas e desgraças, todas as juras de amor e todos os olhares indiferentes, e mesmo o início e o fim dos grandes impérios...
E tendo visto tudo isso, jubilou-se mesmo foi com o conhecimento que os seres elaboraram sobre o próprio Ser – pois que lembravam seus momentos de auto-reflexão.

Dizem os iniciados que vez por outra o viram, escondido no tronco oco de uma árvore ou atrás de uma nuvem... As vezes mesmo mais distante, navegando entre as estrelas...
E dizem eles ainda que alguns perguntaram seu nome, e ele simplesmente disse:
“Eu sou”.


raph'10

***

» Este conto iniciou a série "Mito da criação" - obrigado, Nath :)

Crédito da foto: jkairvar

Marcadores: , , , , , ,