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11.10.13

Moávia e Iblis

Texto de Jalal ud-Din Rumi em "Masnavi” (Ed. Dervish) – trechos das págs. 112 e 113. Tradução de Monica Ulder Cromberg e Ana Maria Sarda. O comentário ao final é meu.


Moávia, o primeiro dos Califas Omaidas, estava certo dia dormindo em seu palácio, quando foi despertado por um estranho. Moávia perguntou-lhe quem era, e ele respondeu que era Iblis [1]. Moávia perguntou-lhe então por que ele o havia despertado, e Iblis respondeu que chegara a hora da oração, e ele temia que Moávia se atrasasse.

Moávia respondeu: “Não! Jamais poderia ter sido tua intenção guiar-me no caminho reto. Como posso confiar num ladrão como tu para cuidar de meus interesses?”

Iblis respondeu: “Lembra-te de que fui criado como anjo de luz, e que não posso abandonar totalmente minha ocupação original. Ainda que viajes para Roma ou Catai, continuarás amando tua terra natal.

Eu ainda conservo meu amor por Deus, que me alimentou em minha juventude; não, mesmo que eu me tenha rebelado contra Ele, isso foi só por ciúme (de Adão) e o ciúme provém do amor, não da negação de Deus. Joguei uma partida de xadrez com Deus, por vontade d'Ele, e, embora tenha levado um xeque-mate e me arruinado totalmente, em minha ruína ainda experimento as bênçãos de Deus”.

Moávia respondeu: “O que dizes não é digno de crédito. Tuas palavras são como os pios de um passarinheiro, que se assemelham às vozes dos pássaros, atraindo-os assim para a destruição. Causaste a destruição de centenas de mortais, como o povo de Noé, a tribo de Aad, a família de Lot, Nemrod, o Faraó, Abu Jahl, e assim por diante” [2].

Iblis retrucou: “Estás enganado se supões que sou eu a causa de todo o mal que mencionaste. Eu não sou Deus, para ser capaz de fazer do bem, mal, e do belo, feio. A misericórdia e a vingança são ambos atributos divinos, e geram o bem e o mal que se vê em todas as coisas terrenas. Não devo, portanto, ser culpado pela existência do mal, já que sou apenas um espelho que reflete o bem e o mal existentes nos objetos apresentados diante dele”.

Moávia então rezou a Deus para protegê-lo contra os sofismas de Iblis, e novamente pediu a Iblis para cessar sua argumentação e dizer claramente a razão pela qual o havia despertado. Iblis, em vez de responder, continuou a justificar-se, dizendo como era injusto que homens e mulheres o culpassem quando faziam algo errado, ao invés de culparem a seus próprios maus desejos.

Moávia, em resposta, recriminou-o por esconder a verdade, e finalmente o levou a confessar que a verdadeira razão pela qual o despertara era que, se ele tivesse dormido demais, e assim perdido a hora da oração, teria sentido grande remorso e dado muitos suspiros, e cada um desses suspiros, aos olhos de Deus, teria sido equivalente a mais de duzentas preces comuns.

***

Comentário
Como de costume, Rumi inunda alguns pequenos parágrafos com uma água rica em metáforas e camadas e camadas de interpretação filosófica.

Neste diálogo imaginário entre um religioso e o próprio Satã, o grande poeta da alma deixa muito claro, a quem tem olhos para ver, que Iblis não é somente um personagem da própria mente humana, mas um personagem extremamente necessário para o caminho de evolução espiritual, ou seja, de autoconhecimento.

Iblis “não é Deus, o único capaz de do bem, mal, e do belo, feio”, mas tão somente um espelho que reflete aos elementos postos diante dele. Ora, há muitos deuses que preferem manter tal espelho embrulhado e escondido no sótão de suas almas, atribuindo todos os infortúnios da existência a uma causa externa.

Porém, se é que existe um ser sobrenatural condenado a ser mal pela eternidade, sem jamais poder se arrepender, este seria antes um fantoche nas mãos do Criador, que afinal, também o criou.

Muito simples colocar todas as culpas do mundo num bode expiatório imaginário. Mais simples ainda afirmar que existem adoradores de tal ser por todos os cantos e, geralmente, em cargos de poder.

Difícil, complexo, angustiante, isto sim, é admitir que tal ser, longe de ser um fantoche divino, é antes um dos maiores presentes que Deus nos conferiu. Um espelho para a consciência; um espelho, também, para o inconsciente. Uma forma de avaliarmos, a cada passo deste caminho eterno, exatamente onde nos encontramos em relação ao animal do qual desejamos nos libertar, e ao ser angelical, o nosso “eu futuro”, que nos aguarda onde quer que seja o Céu.

Até que chegamos, e percebemos que o Céu era tudo, e o que mudou foi somente nossa visão. Tudo já é Deus, mas nossa joia interior ainda carece de uma limpeza, até que, polida e tornada cristalina, seja ela mesma o espelho para a luz do Alto.

Somente então o outro espelho, para a luz de Baixo, se tornará obsoleto. Somente então não necessitaremos mais de Iblis. Somente então saberemos: “eu também sou da raça dos deuses”.

***

[1] Iblis é um dos nomes de Satã (Shaitan) entre os islâmicos.

[2] Corão. XI, 63.

Crédito da imagem: Google Image Search

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