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28.9.13

Uma pergunta para Debora

Não há porque temermos o Lago de Enxofre
Debora, este mundo já é um inferno.
As guerras por restos fósseis,
as matanças e perseguições,
os estupros, as famílias divididas,
e mesmo as pequenas violências
do dia a dia...

Não existem “violências pequenas”.
E eu bem sei, Debora, o quanto
sua mente está cansada disso tudo;
tudo o que os “homens de bem”
fazem pela África e outros grotões
e tudo o que dizem ser
na TV: “Paladinos agindo
em nome de Deus!”

Mas a África não é “um grotão”.
É a casa de nossos ancestrais,
a nossa primeira casa.
Pise em suas terras com reverência,
dê graças por suas chuvas e rios,
pelas montanhas e as savanas,
e por todos os demais deuses.

O que falta, minha amiga,
para este inferno todo queimar
no fogo inefável do amor
até que se torne, novamente,
o Paraíso?

Antigamente, os deuses julgavam estranho
apenas ao que é estranho.
Não estavam tão preocupados
com a promiscuidade dos bonobos,
nem com o andar desengonçado dos elefantes
ou com a vaidade dos leões.

Quando o presidente em Washington
ofereceu uma quantia em dólares
ao Chefe Seattle, ele respondeu assim,
“Você deseja comprar nossa terra,
mas os homens não são donos da terra,
são parte dela.
Como podem comprar aos rios e as matas?
Esta é uma ideia estranha para nós.”
Foi o que eu quis dizer com
“Apenas ao que é estranho”.

Disso tudo você já sabe, Debora.
Que neste inferno de desejos desenfreados
não somos realmente proprietários de nada,
exceto do que há de mais precioso
e assustador...

Há muitos que tem preferido
viver anestesiados e alheios,
repetindo as orações das igrejas
e as fórmulas de sucesso
das celebridades.

Você que não é famosa neste mundo,
mas nos reinos de cima;
Você que tomou coragem
e se atirou nesse abismo infinito;
Você, ó grande dona
dos jardins da alma,
me diga:

Como conseguiu abraçar ao mundo todo
e realizar toda esta Alquimia
de dor e desespero
em sentido
e missão?


raph'13 (escrito na AE)

***

Crédito da imagem: Martin Bartsch Salvadores

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2 comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Lindo poema, como o trabalho dela! Queria ter um coração assim... Outro dia, aqui onde moro, fui passear em um bairro pobre, chamado Comércio. Como adoro pastel com caldo-de-cana, fui a um "boteco/lanchonete copo sujo" saborear a iguaria. Um pedinte chegou e me pediu dinheiro. Ofereci um lanche como o meu. Ele devorou antes de mim e foi pedir a outros fregueses. Quando eu estava pagando a conta, veio uma senhora idosa e também me pediu dinheiro, então deixei pago um lanche para ela. O homem veio até nós e disse com autoridade e total arrogância para que ela não pedisse mais nada ali, pois o ponto era dele. Tomado de raiva, virei para o homem e disse: "é por isso que vive assim! enquanto não aprender a dividir não vai sair da miséria!" e fui embora... Moral da história: quem é bom como a Débora é simplesmente bom, quem não é e tenta ser tem lá os seus perrengues para controlar e não estragar tudo... Estou tentando chegar lá, nas pessoas que sabem se doar sem esperar nada do outro...

29/9/13 17:40  
Blogger raph disse...

Obrigado pelo belo depoimento :)

É verdade, imagina estar numa zona de guerra e atender não somente os oprimidos, as estupradas, mas também os opressores e estupradores, quando necessário for...

É uma questão complexa. Mas acho que o que mais ajuda é compreender que ninguém pediu para ser doente. E toda doença um dia terá cura. Ou, ao menos, é o que esperamos.

Ah sim, eu também adoro caldo de cana!

Abs
raph

29/9/13 20:45  

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