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28.11.23

Mas o que exatamente eu sou?

René Descartes foi um dos grandes pensadores modernos, tanto que é considerado por alguns como “o fundador da filosofia moderna”, e por outros como “o pai da matemática moderna”. E, de fato, ele foi tão ou mais importante para a ciência e a matemática quanto o foi para a filosofia em si. Entretanto, se formos analisar hoje pelo que Descartes é mais lembrado, será difícil escapar da sua célebre afirmação:

Penso, logo existo.

Tal frase, cuja tradução do latim original – cogito ergo sum – seria melhor definida como “Penso, logo sou”, surgiu em um livro que a princípio era quase que um prefácio para outras obras mais científicas, intitulado Discurso sobre o Método. Nesta obra, escrita em 1637 e publicada originalmente na Holanda, pois nessa época o pensador francês residia por lá, Descartes propõe um modelo quase matemático para conduzir o pensamento humano, uma vez que a matemática tem por característica a certeza, a ausência de dúvidas. De acordo com o próprio autor, parte da inspiração de seu método (descrito nesse tratado) veio de três sonhos ocorridos na noite de 10 para 11 de novembro de 1619: em tais sonhos lhe surgiu “a ideia de um método universal para encontrar a verdade”.

E o método de Descartes entrou para a história, ao ponto de se confundir com as bases do próprio método científico como veio a ser conhecido de lá para cá. Mas o que me interessa discutir aqui é a tal frase, o “penso, logo sou”. Como exatamente ele chegou nela?

Ora, Descartes estava preocupado com a validade das evidências que poderiam comprovar as verdades da nossa existência. Se devemos questionar tudo, por que devemos confiar nas informações que colhemos da natureza, já que tudo passa pela interpretação dos nossos cinco sentidos?

Tudo o que olhamos, cheiramos, escutamos, tocamos ou saboreamos só pode ser analisado pela consciência quando passa pelos nossos ouvidos, olhos, boca, tato e nariz. E, para piorar, essa interpretação é pessoal e intransferível. Como confiar que todas as pessoas perceberiam esses estímulos da mesma forma, permitindo que uma verdade se tornasse válida para todos?

O francês concluiu que nós só temos a capacidade de duvidar dos nossos sentidos (isto é, pensar) porque estamos vivos para receber esses estímulos. Ter a convicção da nossa existência seria a única coisa da qual não podemos duvidar. Eis as suas palavras, traduzidas do original:

“[...] ao analisar com atenção o que eu era, e vendo que podia presumir que não possuía corpo algum e que não havia mundo algum, ou lugar onde eu existisse, mas que nem por isso podia supor que não existia; e que, ao contrário, pelo fato mesmo de eu pensar em duvidar da verdade das outras coisas, resultava com bastante evidência e certeza que eu existia; ao passo que, se somente tivesse parado de pensar, apesar de que tudo o mais que alguma vez imaginara fosse verdadeiro, já não teria razão alguma de acreditar que eu tivesse existido; compreendi, então, que eu era uma substância cuja essência ou natureza consiste apenas no pensar, e que, para ser, não necessita de lugar algum, nem depende de qualquer coisa material. De maneira que esse eu, ou seja, a alma, por causa da qual sou o que sou, é completamente distinta do corpo e, também, que é mais fácil de conhecer do que ele, e, mesmo que este nada fosse, ela não deixaria de ser tudo o que é.

Depois disso, considerei o que é necessário a uma proposição para ser verdadeira e correta; pois, já que encontrara uma que eu sabia ser exatamente assim, pensei que devia saber também em que consiste essa certeza. [Assim, percebi] que nada há no eu penso, logo sou que me dê a certeza de que digo a verdade, salvo que vejo muito claramente que, para pensar, é preciso existir.”

Ou seja, ainda que tudo o que percebemos com os sentidos desde que nos entendemos por gente for algum tipo de ilusão, e ainda que não possamos obter uma certeza derradeira e absoluta sobre basicamente nenhuma verdade, ainda assim não podemos negar que existimos, que estamos aqui pensando sobre a existência. Descartes havia encontrado a única certeza genuína da filosofia, a única que não pode ser questionada. E vejam que, ainda assim, o fato de existirmos não significa que tenhamos sequer a certeza sobre a nossa própria vontade, ou liberdade de agir; porém, fato é que algo existe, e não nada.

Agora, me desculpem, mas nesse momento não posso deixar de sorrir ante tamanha ironia, isto é: que um dos tratados que servem de alicerce para o próprio método científico, que um dos pilares da racionalidade moderna seja mais lembrado justamente por sua afirmação mais mística, mais espiritual, ainda que a imensa maioria dos que esbarraram nela não tenha percebido sua profundidade abissal.

Sim, pois muitos se comportam diante dela como aqueles que estavam se preparando para a sua primeira aula de mergulho na praia mas, ao ver a placa informando “Perigo, correnteza forte”, preferiram se abster de mergulhar. Tivessem mergulhado, a primeira coisa que teriam de se deparar era com a continuação até mesmo óbvia da preposição de Descartes:

Penso, logo sou. Mas o que exatamente eu sou?

Então cairiam de cabeça no misticismo, ou seja, na tentativa de conceber a verdadeira natureza do que existe, do que é. E poderia falar aqui de Parmênides, dos estoicos, de Plotino ou Benedito Espinosa, mas será mais fácil se deixarmos a filosofia de lado e recorrermos à poesia, mais precisamente a poesia de Jalal ud-Din Rumi, um poeta sufi (o misticismo do Islam) que viveu no século XIII. Eis o que ele soube nos dizer sobre o tema:

Na verdade nós somos uma só alma, eu e você. Nos mostramos e escondemos, você em mim, eu em você.

Eis o sentido profundo da nossa relação: é que entre você e eu não existe nem eu nem você.

Os poemas de Rumi eram um eterno diálogo entre ele e Allah, ou Deus. Mas a ideia principal, a que permeia toda a sua obra, e também a de todo místico genuíno, é justamente esta: “entre eu e você, não existe nem eu nem você”. O que existe é o que é, sempre foi e será, justamente porque existe, porque não é nada. Mas isto não se entende com palavras.

Afinal, se fosse necessário pensar através de alguma espécie de linguagem, por mais rudimentar que fosse, então não existiríamos enquanto recém-nascidos, e só passaríamos a existir a partir de dado momento desta vida. Ocorre que mesmo tal ideia é absurda nesse contexto: “passar a existir”. Não faz o menor sentido. Mas isto também não se entende com palavras.

E, mesmo no ápice de sua racionalidade, o próprio Descartes intuiu a mesma coisa, embora talvez não tenha conseguido se expressar através de um conceito cristão. Pois o pensador francês ainda defende a existência de Deus poucas páginas após o trecho que eu trouxe acima. E, para tal, ele se vale de uma lógica que muitos consideram até mesmo infantil: ele afirmou basicamente que o fato de concebermos a ideia da perfeição e do infinito, mesmo sendo imperfeitos e finitos, era a prova da existência de Deus.

Faltou a Descartes justamente ir um pouco além, e mergulhar nos mares abissais do Grande Mistério. Nós não “concebemos” Deus, nós somos Deus. Nós somos o que existe.

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Crédito das imagens: [topo] Corbis (Descartes); [ao longo] Cristofer Maximilian/unsplash.

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10.8.23

Voltei ao Conhecimentos da Humanidade para falar de Rumi

Voltei a participar do canal Conhecimentos da Humanidade para falar de Rumi, do sufismo, e de minha jornada pessoal na Ordem Sufi Naqshbandi. Há outras lives onde falo do mesmo tema, mas ainda que você tenha visto alguma, saiba que esta é bem especial, pois nela ficará sabendo de certos detalhes de minha jornada com o sufismo que eu nunca falei em lugar nenhum (e nem o Bruno). Assista abaixo:

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29.12.22

As traduções de Rumi

Neste vídeo Raph traz o conteúdo de sua palestra proferida no evento Primavera de Rumi, realizado em Outubro (2022) no Farol do Saber Khalil Gibran, em Curitiba. Trata-se de um breve resumo da história da poesia de Rumi e suas traduções para o inglês e o português. Também são abordadas algumas polêmicas acerca da supressão arbitrária de menções a Maomé nas traduções inglesas, principalmente as de Coleman Barks. Assista abaixo:

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


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28.10.21

"Rumi - A dança da alma" grátis para quem tem Amazon Prime

Nosso e-book "Rumi - A dança da alma", com poemas de Rumi selecionados e traduzidos por Rafael Arrais, acaba de voltar ao Prime Reading da Amazon. Pelos próximos 4 meses, ele estará gratuito para quem assina o Amazon Prime:

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22.7.21

Raph fala sobre Rumi e o sufismo no canal Escola Mazalot

Bem-vindos a primeira Live do canal Textos para Reflexão! Nesta Live, transmitida conjuntamente com o canal Escola Mazalot, fui o convidado do apresentador Gustavo Tirelli. Tive a oportunidade de falar sobre o início do meu caminho espiritual, de como conheci a poesia de Rumi e, através da publicação de traduções da sua obra, acabei eu mesmo me tornando um praticante do sama, a dança do giro sufi, e me iniciando na Ordem Sufi Naqshbandi. Espero que gostem:

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21.7.21

Raph fala sobre Rumi e o sufismo no canal Consciência Próspera

No dia 20/07/2021 fui convidado a falar sobre Rumi e o sufismo no canal Consciência Próspera. Trata-se de um programa de entrevistas capitaneado pelo educador e escritor Samuel Souza de Paula. Desde 2010 ele já entrevistou mais de 700 espiritualistas de diversos ramos e vertentes, de Monja Coen a Marcelo Del Debbio.

Tive a oportunidade de falar sobre o início do meu caminho espiritual, de como conheci a poesia de Rumi e, através da publicação de traduções da sua obra, acabei eu mesmo me tornando um praticante do sama, a dança do giro sufi, e me iniciando na Ordem Sufi Naqshbandi. Espero que gostem:

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14.7.21

Lançamento: Rumi - Além das ideias de certo e errado

As Edições Textos para Reflexão enfim retornam à poesia!

Em Rumi - Além das ideias de certo e errado, Rafael Arrais volta a traduzir e comentar a vasta obra poética do grande expoente do sufismo, o misticismo do Islã. Dando continuidade ao que foi iniciado em outro livro, A dança da alma, o tradutor, que hoje também é praticante do sufismo, se aprofunda ainda mais nos abismos poéticos de Rumi.

Um ebook já disponível para o Amazon Kindle; e na versão impressa, tanto na Amazon quanto no Clube de Autores:

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Alguns poemas de Jalal ud-Din Rumi, Shams de Tabriz e Rabia Basri que estão no livro já foram postados aqui no blog, vejam:

» Poemas de Rumi
» Poemas de Shams de Tabriz
» Poemas de Rabia Basri

***

Leiam também Rumi - A dança da alma:

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5.7.21

Poemas de Rumi

Jalal ud-Din Rumi foi um místico sufi do século XIII que, após ter cruzado seu caminho com um andarilho chamado Shams de Tabriz, passou a compor poemas de imensa profundidade espiritual, que o fizeram conhecido em todo o mundo – inclusive no Ocidente. Essa história já foi relatada aqui no blog, em um post intitulado O encontro de dois oceanos.

Aqui trago apenas alguns dos seus poemas traduzidos de versões inglesas. Eles farão parte do meu próximo livro sobre Rumi, intitulado Rumi – Além das ideias de certo e errado (veja a capa ao final):

 

[Eu e você]

Na verdade nós somos uma só alma,
eu e você.
Nos mostramos e escondemos,
você em mim,
eu em você.

Eis o sentido profundo da nossa relação:
é que entre você e eu
não existe nem eu
nem você.

 

[Um momento de felicidade]

Este é um momento de felicidade,
eu e você sentados na varanda:
duas formas, dois rostos,
uma só alma,
você e eu.

A beleza das flores
e o canto dos pássaros
nos ofertam a água da vida
quando entramos neste jardim,
eu e você.

As estrelas do céu vêm nos ver,
e mostramos a elas a lua,
você e eu.

Eu e você,
unidos em êxtase e alegria,
libertos do juízo e da razão,
você e eu.

Os beija-flores do Paraíso bicam açúcar
enquanto nós rimos,
eu e você.

Ainda mais mágico,
estamos aqui ao mesmo tempo
no Iraque, na Pérsia,
você e eu:
numa forma aqui na Terra,
e noutra forma, no Paraíso.

E na Terra do Açúcar,
uma só alma,
eu e você.

 

[Morri como mineral]

Morri como mineral,
e tornei-me planta.
Morri como planta,
e surgi como animal.
Morri como animal,
e sou humano...

Ó caminhantes,
por que tanto medo?
O que perdemos ao morrer?

Eu sei que morrerei de novo,
como humano, até que possa enfim
voar com os anjos, abençoado.

E mesmo como anjo, terei de morrer.
Todos perecem, exceto Allah...

Quando eu tiver sacrificado
minha alma de anjo,
me tornarei o que a mente
sequer pode conceber!

Ah! Que seja!
Que eu não exista!
Pois a não-existência proclama,
como um órgão,
que retornaremos ao Amado.

[O néctar]

Qualquer alma que tenha bebido o néctar do seu amor
foi elevada aos céus.

Eu bebi o líquido da vida e entrei em êxtase.
Veio a morte, me farejou de pertinho,
mas foi o seu perfume que ela sentiu.
Desse dia em diante, a morte perdeu suas esperanças em mim.

 

[O segredo]

O amor não tem nada o que ver
com os cinco sentidos ou as seis direções;
o seu único objetivo é experimentar
a atração exercida pelo Amado.

Depois, quem sabe, Allah permitirá
que os segredos sejam revelados.
Então, os segredos serão contados com a mesma eloquência
das metáforas mais confusas.

É que o segredo não partilha sua intimidade
com ninguém mais, ninguém
além do conhecedor do segredo.
Aos ouvidos de um descrente
o segredo não é segredo algum.

 

Veja mais poemas em nosso próximo livro sobre Rumi, que deve ser lançado EM BREVE (em e-book e versão impressa):

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Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Rumi); [ao longo] Hossein Irandoust; Rafael Arrais e svklimkin/unsplash license (capa do livro).

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9.6.21

Poemas de Shams de Tabriz

Shams de Tabriz foi um místico sufi andarilho que eventualmente cruzou seu caminho com Jalal ud-Din Rumi, e o influenciou diretamente em seu caminho na poesia. Essa história já foi relatada aqui no blog, em um post intitulado O encontro de dois oceanos.

Aqui trago apenas alguns dos seus textos, selecionados, traduzidos do inglês e adaptados à métrica poética por mim mesmo. Eles farão parte do meu próximo livro sobre Rumi, intitulado Rumi – Além das ideias de certo e errado (veja a capa ao final):

 

[O Ancestral]

A verdade é o Ancestral,
o ser que não tem início.

Onde aquele que foi criado
poderá encontrar o incriado?
Como poderá compreender?
Como poderá saber onde reside
a Alma de todas as coisas?

 

[A face de Allah]

Se olhar a sua volta, poderá encontrar a face de Allah em cada pequena coisa.
Ele não se esconde numa igreja, mesquita ou sinagoga, mas se espalha sobre tudo que há.

Ninguém vive após vê-lo face a face.
Ninguém morre após vê-lo face a face.
Aquele que o encontra, permanece com ele
na Eternidade.

 

[Eternidade]

O passado é uma interpretação. O futuro, uma ilusão.
O mundo não se move pelo tempo como numa linha reta,
do passado ao futuro;
na realidade é o tempo que flui através de nós,
em infindáveis espirais de percepção.

Eternidade não significa tempo infinito,
mas simplesmente a ausência de tempo.
Se você deseja viver a iluminação eterna,
tire de sua mente o passado e o futuro,
e viva este momento.

[Céu e Inferno]

Não busque pelo Céu
nem tema o Inferno no futuro:
ambos já estão aqui presentes.

Sempre que conseguimos amar sem expectativas,
sem barganhas ou negociações,
nós já estamos no Céu.

Sempre que deixamos o ódio nos dominar,
e colocamos barreiras entre nossos corações,
nós já estamos no Inferno.

 

[Santidade]

Eles dizem que eu sou um santo.
Eu respondo: “Que seja, mas o que isso me traz de felicidade?”

Se eu me orgulhasse da santidade,
já não seria santo.
Mas se alguém observa com atenção
os princípios do Corão e os ditos do Profeta,
ele já estará envolto em santidade.

Assim, eu faço parte da santidade do santo,
do amor do Amado,
e sigo sempre constante em meu caminho.

 

Veja mais poemas de Shams de Tabriz em nosso próximo livro sobre Rumi, que deve ser lançado até o final de 2021 (em e-book e versão impressa):

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Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Mausoléu de Shams em Khoy, no Irã); [ao longo] Google Image Search; Rafael Arrais e svklimkin/unsplash license (capa do livro).

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4.6.21

Poemas de Rabia

Rabia Basri foi uma santa dos primórdios do sufismo, o misticismo do Islã. Sua poesia avassaladora influenciou diretamente grandes místicos sufis que lhe sucederam, como Farid ud-Din Attar e Jalal ud-Din Rumi. Eu conto mais sobre as lendas da sua vida em outro artigo.

Aqui trago apenas alguns dos seus poemas, que farão parte do meu próximo livro sobre Rumi, intitulado Rumi – Além das ideias de certo e errado (veja a capa ao final):

 

[Se eu lhe adorar pelo medo do Inferno]

Se eu lhe adorar pelo medo do Inferno,
me queime no Inferno;
se eu lhe adorar pelo anseio do Paraíso,
me expulse do Paraíso;
mas se eu lhe adorar pelo que você é,
não esconda de mim a sua face!

 

[Minha paz]

Irmãos, minha paz é minha solitude.
Meu Amado está a sós comigo nessa paz,
ele sempre esteve.

Em todas as terras e mundos,
jamais encontrei nada
que fosse equivalente ao seu amor:
este amor que arrasta as montanhas
das areias do meu deserto.

Se eu fosse morrer de desejo,
e meu Amado ainda não estivesse satisfeito,
o meu desespero seria eterno.

Abandonar tudo o que ele criou,
mas agarrar firme em minhas mãos
a prova derradeira de que ele sempre me amou:
é esse o nome e o destino da minha busca.

 

[A porteira]

Eu tenho todas as qualificações para trabalhar como porteira, e essas são as razões:

O que está dentro de mim, eu não deixo sair.
O que está fora de mim, eu não deixo entrar.

E se alguém adentra meu território,
logo mais sai outra vez.
Eu não lhe digo respeito, ele não me diz respeito;
pois eu sou uma Porteira do Coração,
não um bocado de argila molhada.

[Outra noite se vai]

Ó Amado, outra noite se vai,
outro dia se eleva.
Me diga se minha conduta foi boa esta noite,
para que eu possa estar em paz;
ou se foi mais um dia perdido,
para que eu possa chorar o que foi perdido.

Eu juro que desde o primeiro dia
em que você me trouxe de volta à vida,
desde que tornou-se meu Amado,
eu não dormi outra vez.

E ainda que você me enxote da sua porta,
eu juro que jamais iremos nos separar de novo,
pois em meu coração você arde,
em meu coração você vive
para sempre.

 

[Em minha alma]

Em minha alma
há um templo, um santuário, uma mesquita, uma igreja
onde eu me ajoelho.

A oração deveria nos levar a um altar
onde não existem
nem muros nem nomes.

Acaso não há uma região do amor
onde o altar real sequer é iluminado pelas velas,
onde o êxtase derrama-se em si mesmo
e se perde,
onde as asas estão plenamente vivas,
mas já não possuem nem mente
nem corpo?

Em minha alma
há um templo, um santuário, uma mesquita, uma igreja
que se dissolvem...

Neste momento
onde eu me ajoelho
todas as construções se dissolvem,
tudo se dissolve
em Allah.

 

Veja mais poemas de Rabia em nosso próximo livro sobre Rumi, que deve ser lançado até o final de 2021 (em e-book e versão impressa):

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Crédito das imagens: [topo] Light in Babylon (Michal Elia Kamal); [ao longo] Lance Gerber/Desert X Al Ula; Rafael Arrais e svklimkin/unsplash license (capa do livro).

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26.11.20

Bate-papo Mayhem: Rumi, o Sufismo e os poetas da alma, com Raph

Oi pessoal. Recentemente fui novamente convidado a participar do programa Bate-papo Mayhem, apresentado pelo meu amigo Marcelo Del Debbio. Desta vez eu falei sobre os mistérios da poesia, da sua relação com a magia, e também sobre Rumi, Shams, Rabia Basri e o misticismo sufi:

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29.10.19

Rumi, Shams e o Segredo de Allah

Neste vídeo falaremos sobre o grande encontro místico entre o poeta sufi Jalal ud-Din Rumi e o andarilho misterioso Shams de Tabriz, que ficou conhecido na tradição do sufismo, o misticismo islâmico, como o encontro de dois oceanos. Ao final, recito um poema de Rumi.

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22.10.19

O encontro de dois oceanos

Conta a lenda que no dia 28 de novembro de 1244 em Konya, na atual Turquia, numa região que era então conhecida como Rum (ou Sultanato de Rum), o grande teólogo islâmico Jalal ud-Din Rumi, herdeiro espiritual da tradição do próprio pai, Baha’ud Din Walad, ensinava a cerca de uma ou duas dúzias de discípulos às margens de um pequeno lago da região, sob o sol da tardinha persa.

Do próprio pai, Rumi aprendeu teologia e os cânones da literatura clássica árabe. De um dos discípulos do pai, por cerca de uma década aprendeu todos os segredos do chamado “conhecimento inspirado”, a fonte para se trilhar a via mística. No entanto, aquela altura, já perto dos 40 anos, ele era mais conhecido como um mestre da filosofia, da poesia clássica, da teologia, da jurisprudência e da moral – muito mais um propagador de conhecimentos, sejam intelectuais ou espirituais, do que propriamente um místico. Isso estava para mudar naquele dia...

Vindo pela estrada que beirava a margem do lago onde estavam, surgiu um andarilho de idade relativamente avançada, envolto num manto negro de feltro ordinário, com sapatos um tanto desgastados, que aparentava carregar consigo o pouco que necessitava para cruzar grandes distâncias a pé. Seu olhar era ao mesmo tempo atraente, magnético, inquisitivo e assustador, de modo que antes que ele abrisse a boca, a aula já havia sido interrompida. Quando ele falou, apontando para a pilha de livros ao lado de Rumi, tinha a atenção de todos os presentes:

“O que há nesses papeis?”

“Aqui só há palavras,” – respondeu Rumi – “em que podem lhe interessar?”

O andarilho, que agora mais de perto se via claramente tratar-se de um sufi (isto é, uma espécie de místico asceta nômade), simplesmente caminhou até ao lado de Rumi, apanhou a pilha de livros e, num rompante repentino de aparente insanidade, atirou tudo nas águas do lago!

Rumi levantou-se, furioso, e o repreendeu:

“Você faz ideia do que fez? Alguns desses livros continham manuscritos importantes de meu pai, que não se encontram copiados em nenhum outro lugar!”

Então, para espanto de todos os presentes, que o testemunharam à posteridade, o sufi se encaminhou até a beirada do lago e, entoando uma espécie de cântico meditativo, de alguma forma fez com que os ventos soprassem em sua direção, trazendo todos os livros de volta para a margem. Ele os recolheu e levou de volta a Rumi. Para a surpresa geral, estavam perfeitamente secos.

“Qual é o segredo envolvido nisso?” – indagou o teólogo.

“Aqui só há êxtase espiritual,” – respondeu o sufi – “em que pode lhe interessar?”

Antes que pudesse refletir sobre a enigmática resposta, Rumi constatou que os manuscritos do pai estavam em branco:

“Ei! Mas as palavras de meu pai sumiram; faça com que elas retornem, feiticeiro!”

“Jalal ud-Din, deixa para trás as palavras de seu pai, elas já tiveram a sua utilidade. Agora é hora de escrever as suas próprias palavras.”

“Como sabe meu nome?”

“Meu antigo mestre, em Tabriz, me disse que em Konya vivia um grande conhecedor da nossa religião islâmica, que já havia cruzado seu caminho com Farid ud-Din Attar e Ibn Arabi, e que hoje vivia enjaulado numa gaiola de palavras. Então eu, que também sou conhecido como parinda [o pássaro, ou o voador] resolvi vir até aqui para libertar outro pássaro.”

Desde esse dia, enquanto ambos estiveram livres para tal, Jalal ud-Din Rumi e aquele sufi andarilho, chamado Shams de Tabriz, jamais deixaram de dialogar sobre Allah, sobre o amor, sobre a via mística, enfim: sobre tudo o que não se encontra nas palavras e nos livros. Tal conjunção de almas ficou conhecida na tradição do sufismo como “o encontro de dois oceanos”.

Shams se recusava a dar maiores detalhes da sua história de vida. Uns dizem que a sua família era ismaelita, uma vertente dissidente e minoritária do Islã, e costumavam se passar por loucos ou tolos, talvez de modo a não levantar maiores suspeitas sobre suas práticas religiosas heterodoxas. Outros afirmam que ele era originalmente um membro da tribo dos Hashishins da Síria, liderada pelo lendário Alaodin, “O Velho da Montanha”, cujas práticas religiosas admitiam variadas formas de estados alterados de consciência, principalmente através da dança. Ora, mais tarde, privado da companhia de Shams, Rumi iria desenvolver um método de dança mística rodopiante conhecida como sama, que mais tarde seria aperfeiçoada pelo seu filho mais velho – talvez ele a tenha aprendido de Shams, ou talvez tenha sido indiretamente influenciado por ele.

Fato é que, uma vez privados das aulas de seu mestre, que agora passava seus dias e suas noites na companhia inseparável daquele estranho andarilho místico, dialogando sobre assuntos que não se liam em nenhum livro, os discípulos de Rumi tramaram para afastá-los. Na primeira vez em que Shams deixou Konya na surdina, temendo causar maiores problemas naquela comunidade, Rumi iniciou a sua jornada pela poesia mística, motivo principal por ser celebrado até hoje, no mundo árabe e fora dele. Desesperado ante a ausência do amigo, Rumi começou a lhe endereçar belíssimas cartas em formato poético, até o dia em que conseguiu convencê-lo a retornar de Damasco, onde havia residido durante a sua ausência.

Ante tal insistência, no entanto, os discípulos resolveram assassinar Shams, e enterrá-lo num poço da região. Com a ausência derradeira do amigo, Rumi começa a dançar em transe, recitando os poemas que o imortalizaram, todos eles cuidadosamente anotados pelos seus discípulos (quiçá alguns deles os próprios assassinos de Shams)...

Não importa, os dias e as noites em que eles passaram juntos estão hoje marcados na Eternidade, pois poucas vezes se viu na história humana dois místicos que se complementassem tão bem um ao outro: Rumi, o teólogo ortodoxo que, não obstante, dissolveu-se inteiramente nas profundidades do Amor; e Shams, o santo andarilho de origens incertas e nebulosas, cuja estatura espiritual ofuscava a todos, como o Sol.

Quando [finalmente] encontrei Rumi, a primeira condição foi de que não me apresentasse como um mestre. Allah ainda não criou o homem que possa ser como um mestre para ele. Eu tampouco estou em condições de ser o discípulo de alguém, já estou muito além dessa etapa. (Shams de Tabriz, Maqalat, 33)

Eu tinha em Tabriz um mestre espiritual, Abu-Bakr, e foi dele que obtive todas as santidades. No entanto, havia em mim algo que meu mestre não pôde ver; de fato, ninguém era capaz de vê-lo. Mas Rumi o viu.
Eu era água estagnada, fervendo e entornando-me sobre mim mesmo e já começando a cheirar mal, até que a existência de Rumi me encontrou; então aquela água começou a correr e continua correndo doce, fresca, saborosa. (Shams de Tabriz, Maqalat, 245-246)

***

O amor não é condescendência,
nem livros ou qualquer marca em papel,
nem o que uma pessoa diz para a outra.

O amor é uma árvore
com seus galhos se elevando ao Alto,
suas raízes se aprofundando na Eternidade
e nenhum tronco!

Você o viu?
A mente é cega para ele.
Seu desejo é incapaz de observá-lo.
A saudade que sente desse amor
vem do seu interior.

Quando se tornar o Amigo,
sua saudade será como o náufrago no oceano
agarrado a um pedaço de madeira...

Eventualmente, madeira, homem e oceano
se tornam um ser ondulante:
Shams de Tabriz, o segredo de Allah.

(Jalal ud-Din Rumi)

***

Crédito das imagens: Google Image Search

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19.11.18

Nenhum mestre chama a si mesmo de mestre

Estive recentemente num encontro de espiritualistas em São Paulo, nele havia alguns mestres que subiram num palco para falar aos demais. Um deles representava a Ordem Sufi Naqshbandi no Brasil, que é parte do misticismo islâmico. Ao se dirigir a plateia, onde certamente havia mais discípulos do que mestres, ele tratou de nos trazer uma reflexão muito relevante, logo de início:

“Como pode um aprendiz falar de tesouros que ele ainda não possui?”.

Sheikh Ahmed Shakir ainda não se considera um mestre, e provavelmente tem razão. Mas, ainda que fosse um mestre, ele jamais chamaria a si mesmo de mestre. É precisamente assim que somos capazes de julgar, se é que isso é possível, quem é mestre, e quem diz ser mestre (e não é).

O atual mestre da Ordem Naqshbandi vive no Chipre, uma ilha ao sul da Turquia. Segundo Ahmed, quando um mestre sufi está prestes a morrer, ele transfere a incumbência de “mestre da ordem” para um de seus discípulos. Se isto não ocorrer, a ordem inteira se encerra, como já ocorreu com a Ordem Mevlevi, fundada por seguidores do grande poeta do séc. XIII, Jalal ud-Din Rumi, e também inventor do sama, a dança dos sufis (ou dervixes) rodopiantes. Em meados do século XX, o último mestre dos Mevlevi foi morto devido a perseguições políticas, sem transferir a incumbência a ninguém, e os seus discípulos em grande parte “migraram” para a Naqshbandi, que ainda tinha um mestre vivo. Por isso hoje a Ordem Naqshbandi é a representante do conhecimento esotérico, oculto, da dança inventada por Rumi. Os demais a praticam de forma essencialmente artística, não mais puramente espiritual.

Ahmed também nos explicou que uma linhagem de mestres tem origem num profeta. Profetas reais são raríssimos, e usualmente fundam religiões. Maomé foi o último profeta, segundo se crê no islamismo, e há uma linhagem contínua, uma “linhagem dourada”, desde Maomé até o atual mestre da Ordem Naqshbandi. Quem sabe Ahmed seja o próximo.

Mas não importa, nenhum mestre chamaria a si mesmo de mestre, ao menos não para um total desconhecido. Ainda que carregue consigo segredos imemoriais, poderes quase sobrenaturais, conhecimentos ocultíssimos, um mestre se faz mestre por reconhecer que sempre haverá muitos discípulos no Caminho, e ele mesmo talvez jamais deixe de ser um...

Se não crê em mim, basta analisar o que disse Issa, ou Jesus Cristo (Issa é o seu nome islâmico), considerado por muitos como “o mestre dos mestres”:

Dia virá em que farão tudo isso que eu tenho feito, e ainda muito mais (trecho de João 14:12)

Ora, se um dia faremos tudo o que fez o mestre, significa que um dia todos seremos mestres. Mas, então, o mestre ainda seria mestre?

É assim que percebemos duas coisas muito importantes: (1) que todo mestre só é mestre em relação ao seu discípulo; e (2) que todo mestre deseja ardentemente que o seu discípulo também se torne mestre um dia.

Assim sendo, um mestre jamais chamaria a si mesmo de mestre, jamais se apresentaria a um total desconhecido dessa forma, pois o objetivo dele não é reinar acima de uma turba de discípulos ou não discípulos ignorantes, mas antes torná-los melhores, quiçá tão “mestres” quanto ele próprio, ou ainda mais sábios!

E se o Sheikh Ahmed ainda não aceita ser chamado de mestre, sequer na presença de discípulos, no mesmo encontro em São Paulo havia um mestre de fato, já mais velho e com um fiel grupo de discípulos em todo o mundo:

Atma Nambi Guruji nasceu em um pequeno vilarejo no sul da Índia, estado de Tamil Nadu, onde cresceu de uma forma simples, em meio às plantações de arroz. Seus pais nunca lhe impuseram religião alguma, permitindo seu crescimento com a liberdade que uma criança merece e precisa. Atmaji, como é chamado pelos discípulos, teve seu primeiro mestre aos 10 anos de idade, um brâmane que comandava as cerimônias e rituais do templo de Shiva em sua vila. Seu desenvolvimento com esse mestre estendeu-se até seus vinte e poucos anos, período em que aprendeu bem a língua inglesa e o Bakit Yoga – a Yoga da Devoção.

O restante da história do Atmaji vocês poderão conferir no vídeo ao final do artigo, mas antes de encerrarmos, cabe contar uma anedota sobre ele. Todo ano Atmaji vem ao Brasil dar palestras (ou satsangs) no Rio, em São Paulo, e em Campo Grande/MS, onde eu moro. Numa dessas palestras havia todo um marketing por detrás, com banners online e cartazes, o anunciando como “um grande sábio indiano”. Isso não é feito com nenhum tipo de má intenção, o valor arrecadado nas palestras é quase simbólico, e o valor total mal paga a viagem da Índia ao Brasil. Portanto, seria perfeitamente compreensível que Atmaji se portasse como um “grande mestre”, ainda que não se autointitulasse um.

Pois bem, mas eu nunca esquecerei do dia em que ele, adentrando o espaço de uma das palestras, deu de cara com um imenso cartaz onde ele aparecia como um “grande mestre”, quase um ser sobrenatural. Ele simplesmente olhou para aquilo e disse algo como: “this is bullshit, everyone can achieve illumination” (isso é besteira, qualquer um pode conquistar a iluminação).

E, na sequência, ele continuou a fazer o que tem feito há décadas, desde que ele mesmo atingiu a sua iluminação, na Índia: trazer convites aos demais, melhorar este mundo, formar novos mestres, um discípulo por vez.

Com vocês, um mestre do Caminho:

***

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (sufis dançando o sama); [ao longo] um amigo (eu, ao lado de Atmaji e Sheikh Ahmed, no VII Simpósio de Hermetismo, em São Paulo).

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10.4.18

As grandes questões do ocultismo (tomo II)

« continuando do tomo I

No caminho da mão esquerda nós tomamos a rota direta, que é muito mais extenuante, muito mais perigosa, e onde há maiores chances de uma queda (Zeena Schreck)


Bem, se eu já havia me metido numa enrascada ao tentar definir o que diabos é ocultismo, talvez neste momento tenha me colocado num problema ainda maior: o que são o caminho da mão esquerda e da mão direita, afinal de contas?

Se formos buscar nos canais tradicionais de informação – onde boa parte do ocultismo é entendida de forma tão superficial quanto um super-herói como Hércules (da Marvel), se comparado ao seu mito antigo – temos algo não muito diverso do maniqueísmo raso: “O caminho da mão esquerda é equiparado às maliciosas práticas da magia negra, enquanto o caminho da mão direita refere-se às práticas benéficas da magia branca”. Sim, isto se encontra na Wikipédia; não é a toa que tão poucos sabem o que é ocultismo...

Um dos problemas de se tentar definir o que é o chamado caminho da mão esquerda (Left Hand Path: LHP) e a sua “contraparte”, o caminho da mão direita (Right Hand Path: RHP), é que muitas vertentes ocultistas formaram opiniões diversas sobre eles. Há quem creia que só devemos falar em LHP; há quem diga que podemos falar em ambos, mas que não são exatamente opostos; há quem atribua características tão díspares para LHP e RHP, que fica quase impossível uma definição única. No entanto, há pelo menos uma espécie de “consenso geral”: o de que LHP vem de práticas espirituais heterodoxas, por vezes individuais; e o RHP, por sua vez, favorece as práticas ortodoxas, geralmente baseadas nos ensinamentos de uma coletividade eclesiástica.

Tudo teve início na Índia...
Talvez surpreenda a muitos ocultistas ocidentais, mas os termos LHP e RHP surgiram inicialmente na Índia, mais precisamente dentre os praticantes do tantra, que pode ser aqui brevemente resumido como o “ocultismo hindu” (na verdade ele é muito mais que isso; apenas não terei tempo para entrar no tema nesta série). No Oriente, o RHP, ou Dakshinachara, se refere a doutrinas e/ou grupos que seguem princípios éticos, morais e filosóficos mais rígidos e conservadores, com forte tendência ortodoxa; por sua vez, o LHP, ou Vamachara, se refere a doutrinas e/ou grupos com práticas heterodoxas em sua maioria, que reforçam e induzem o questionamento e a oposição moral, não adotando estruturas éticas e filosóficas complexas. É preciso lembrar, no entanto, que isso já é muito distante da dualidade infantil de “bem” e “mal”; ou de “magia branca” e “magia negra”.

Porém, se no ocultismo ocidental contemporâneo um praticante LHP pode dividir um mesmo auditório com um praticante RHP sem que necessariamente eles sejam facilmente identificados por sua aparência, vestimenta, acessórios, ou até pela forma de se expressar, na Índia, particularmente na Índia antiga, alguns seguidores do LHP eram instantaneamente percebidos por onde passavam (e ainda são, embora estejam praticamente extintos):

Os aghori são devotos de Kala Bhairava, uma manifestação do deus Shiva associada à aniquilação… do mal! Eles se submetem em sua rotina ritualística à necrofagia, caminham entre cadáveres e fazem utensílios com ossos humanos, justificando tal comportamento como uma prática não-dual, o contato com o verdadeiro Eu, transcendendo todos os tabus sociais. Apesar de não serem considerados “hindus” pelos indianos em geral, os aghori têm curandeiros reconhecidos por seus poderes ditos milagrosos. Devemos pensar na prática aghori como uma vacina, em que você se contamina com o que quer evitar, sendo que a diferença entre a imunização e a infecção está simplesmente na dose e na manipulação do agente. Os aghori provavelmente seriam percebidos por um turista ocidental desapercebido como mendigos imundos que se misturam com mortos... mas, é preciso lembrar que mesmo Jesus Cristo já abriu uma tumba, e fez um cadáver voltar à vida: “Lázaro, levanta-te e anda!”. Não sei se o Rabi da Galileia foi lá muito ortodoxo em suas práticas...

Outra possível compreensão da relação entre o ortodoxo e o heterodoxo que definem os caminhos é a relação entre a disciplina e a abstenção. Um praticante RHP vai preferir abster-se de alguns desejos tipicamente mundanos, como o sexo dito promíscuo ou o consumo excessivo de bebida alcoólica; já alguém da via LHP pode, justamente, buscar ativamente tais práticas, para colocar a sua própria disciplina em xeque. Ou seja: ao invés de evitar o “perigo”, ele irá buscá-lo conscientemente, como alguém que se vê maduro o suficiente para ser testado, para testar a si mesmo, em seus apegos e excessos mundanos. É por isso que alguns dizem que o LHP é um caminho mais direto, porém bem mais perigoso.

Por muito tempo o ocultismo ocidental não esteve muito distante dessa antiga definição hindu para os dois caminhos. Ainda no tempo de Éliphas Lévi, que muitos consideram o maior ocultista do séc. XIX, a chamada “Alta Magia”, que lida com os seres do Alto, com os espíritos etéreos e com o intelecto, esteve associada à ortodoxia cristã e ao RHP. Assim, ainda que nem sempre tenha estado tão claro, se pressupunha que havia uma “Baixa Magia”, para lidar com os seres da Terra, com os espíritos densos e com a intuição – esta, portanto, estaria ligada ao LHP. Até hoje, de fato, podemos encontrar classificações parecidas nos cultos e religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda.

No entanto, com a abertura e divulgação de parte do chamado conhecimento oculto para a população leiga e os não-iniciados em geral, um movimento que atravessou o séc. XX (com grande auxílio de Aleister Crowley) e culminou na era da internet, muitas tradições se intercruzaram e, de uma imensa salada mista de conceitos e interpretações, se acabou chegando, ironicamente, a uma ideia um tanto simples para se compreender os caminhos: expansão e restrição.

Desde o yin e yang oriental já se fala nisso: uma parte da natureza que é ativa e expansiva (yang), e a sua contraparte, passiva e restritiva (yin). Na Árvore da Vida da kabbalah, há o pilar direito, expansivo, e o pilar esquerdo, restritivo. Neste caso, a associação dos lados aos caminhos é natural: o RHP seria o pilar expansivo (direito), enquanto o LHP ficaria do lado restritivo (esquerdo). Tal visão “natural” dos caminhos parece ter agradado muita gente, e em geral se tornou quase que um consenso adicional à antiga interpretação que, como já vimos, veio desde o tantra hindu. É preciso atentar para um detalhe, no entanto: todo yang traz em si um pouco de yin, e todo yin traz um pouco de yang. Com isto em mente, penso que podemos aplicar o LHP e o RHP ao caminho espiritual de cada um de nós (um caminho que, invariavelmente, perpassa muitas vidas)...

Ovelhas pastoreadas e ovelhas desgarradas
A imensa maioria das crianças não guarda senão uma vaga intuição acerca das vidas anteriores. Muitas podem carregar traumas relacionados às inúmeras guerras religiosas de nossa história, mas eles não costumam vir à tona até que chegue a adolescência com sua rebeldia. Assim, a suposta “tábula rasa” de nossa mente precisa ser preenchida com conhecimento, e na maior parte do mundo o lado espiritual é contemplado pela ortodoxia eclesiástica em voga na região em que nascemos. Nos tornamos, enfim, ovelhas pastoreadas pelo ensinamento religioso tradicional, e por seus representantes.

Isto se dá por um imenso movimento de expansão em nossa mente, que passa boa parte da infância sendo inundada, martelada por todo tipo de conhecimento religioso, mais ou menos dogmático, a depender da sorte que tivemos, isto é: do país e da família em que nascemos. Quando iniciamos a formação de nossa personalidade adulta, entretanto, muitas vezes antigos traumas, ou antigas preferências pela heterodoxia, costumam vir à tona. É assim que muitas ovelhas se desgarram de seus rebanhos, se tornando “a ovelha negra da família”.

Esta sempre foi à essência do ateísmo: não necessariamente descrer em Deus, mas ser avesso às tradições, se recusar a praticar a religião estabelecida, não seguir o rumo da multidão, por vezes se isolar não somente em seu próprio pensamento, mas abdicar da sociedade como um todo. Claro que nos dias atuais, numa era hiperconectada, tal isolamento é cada vez mais raro – mas, estranho de se pensar: todo livre-pensador, todo fundador de novas doutrinas e religiões, necessariamente teve o seu momento de eremita, o seu tempo no LHP. Foi necessário restringir a expansão para encontrar as suas próprias ideias.

O próprio cristianismo surgiu de um homem assim. Cristo jamais teria se dignado a perambular pela Galileia com seu punhado de ovelhas desgarradas, falando tanto a homens quanto a mulheres, tanto a nobres quanto humildes, praticando os “milagres” mais estranhos (ao ponto de precisar ser “calado” pela tradição), se não fosse ele mesmo um fiel seguidor do LHP.

No entanto, a partir da consolidação e da imensa vitória do cristianismo enquanto doutrina, todas as discussões da Igreja primitiva foram sendo decididas, todos os dogmas foram sendo estabelecidos sobre as heresias, e de um ensinamento simples e profundo, “Amai ao próximo como a ti mesmo, e a Deus acima de todas as coisas”, toda uma construção se ergueu, com suas virtudes e seus vícios, para se consolidar em uma nova tradição. É desta forma que a maior parte dos santos católicos seguiram o RHP, evangelizando os ensinamentos de um andarilho exótico, maltrapilho, que fazia os mortos se levantarem e afirmava que podia ser consumido, ele próprio, através do pão e do vinho. Não há nada mais heterodoxo que isso.

O mago e o místico
Numa visão geral, todo mago está geralmente ligado a uma via não tradicional, não eclesiástica, enquanto todo místico surge do próprio seio das comunidades religiosas... mas, será que é sempre assim? No ocultismo, não é possível nos atermos a visões binárias, ao “bem” e ao “mal”, ao “branco” e ao “negro”. Assim como todo yin traz sua parcela de yang, e vice versa, o mesmo pode ocorrer aqui.

Por exemplo, em seu aspecto de “realização da vontade”, o mago é muito mais ativo, muito mais expansivo, muito mais associado à coluna direita da Árvore, e não à esquerda. Da mesma forma, em sua “contemplação de Deus”, o místico é muito mais passivo, estando ligado à coluna esquerda, e não à direita.

Por outro lado, quando “expande seu coração” para abarcar a tudo e a todos, o místico se porta de forma incomparavelmente mais expansiva que o mago, que em geral “se restringe ao seu próprio grimório”, ao seu próprio vocabulário, a sua própria linguagem mágica, abdicando de maiores explorações pelas egrégoras alheias.

Quanto à ortodoxia e à heterodoxia, podem ocorrer inversões ainda mais curiosas: o já citado Éliphas Lévi foi um mago grandioso que, em geral, esteve muito ligado à tradição católica; já em pleno século XIII, em meio ao islamismo tradicional, surgiu um místico sufi, Jalal ud-Din Rumi, que passou boa parte de seus dias simplesmente rodopiando e recitando poemas aos seus discípulos. Perto de Lévi, Rumi seria considerado um lunático.

É assim que todo mago e todo místico têm sua fase LHP e sua fase RHP, e por vezes eles conseguem seguir precisamente pelo meio, tomando o rumo direto, o rumo que salta um Abismo ainda mais infernal do que qualquer noite negra da alma. Há que se perguntar, após tantas elucubrações, por que afinal tanta gente se arrisca por tantos e tantos perigos? Por que seguem pelo RHP ou pelo LHP? Aonde se quer chegar com tudo isso?

Creio eu que todos nós, os ocultistas, buscamos por um campo...


Além das ideias de certo e errado,
há um campo. Eu lhe encontrarei lá.

Quando a alma se deita naquela grama,
o mundo está preenchido demais para que falemos dele.
Ideias, linguagem, e mesmo a frase “cada um”
não fazem mais nenhum sentido.

(Rumi)

» No tomo III: a Verdadeira Vontade.

***

Fontes consultadas
O tema deste tomo é bastante complexo e certamente vai muito além dos meus parcos conhecimentos na área; tal texto jamais teria sido possível sem o inestimável auxílio do artigo O Caminho Sinistro (por XLR), do episódio 19 do Vortex Caoscast – Mão Esquerda para Destros, e das contribuições de Gabriel Leite Bueno, Maes Hughes e Dan Cruz (dentre outros) no grupo do Vortex no Facebook.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search/Geoglyphiks.com [ao longo] Reuters (Aghori de Varanasi, Índia); a1samurai @ DeviantArt.

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17.11.17

Rumi e o misticismo islâmico

Após ter acompanhado seu nascimento e crescimento desde o início, é com muita honra que hoje prosseguimos com a parceria deste blog com o canal Conhecimentos da Humanidade no YouTube, apresentado por Bruno Lanaro e Leo Lousada.

Neste segundo roteiro, me vali da minha experiência com o estudo e a tradução dos poemas de Rumi para traçar uma espécie de apresentação poética da sua vida e obra. Não é de forma alguma um mergulho profundo na sua poesia oceânica, mas antes um breve passeio de barco por um riacho que, para aqueles que se sentirem tocados no coração, pode de fato levar até o mar da Alma:

» Veja também nosso livro com traduções dos seus poemas: Rumi – A dança da alma

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24.4.17

Entre eu e você

O texto abaixo foi retirado de uma de minhas respostas dentro de um debate entre pensadores e espiritualistas.

Não sei se alguns aqui já devem saber, mas até alguns anos atrás eu costumava dizer que:

Minha religião é meu pensamento
Minha vida é minha Bíblia
Minha igreja é meu coração
Deus é meu amor

Um dia (já não lembro quando), alguém "corrigiu" o último trecho (já não lembro quem, mas sei que foi o comentário de uma mulher, na internet), de modo que passou a ficar:

Deus é nosso amor

Para mim, de fato fez toda a diferença do mundo. No momento em que li dessa forma, percebi o quanto o erro estava associado ao meu próprio ego. É óbvio que o amor divino não é "meu", nem "seu", nem "dele", ele é "nosso", necessariamente!

Há uma belíssima passagem dos poemas de Jalal ud-Din Rumi, o poeta sufi persa do séc. XIII, que fala assim:

Além das ideias de certo e errado,
há um campo. Eu lhe encontrarei lá.

Quando a alma se deita naquela grama,
o mundo está preenchido demais para que falemos dele.
Ideias, linguagem, e mesmo a frase “cada um”
não fazem mais nenhum sentido.

É desse tipo de amor divino que estou falando quando digo que "Deus é nosso amor". Não uma fonte de amor que transborda de algum canto do Cosmos e nos alcança como uma chuva permanente, mas a própria chuva, e o solo que ela rega, e a vida que cresce deste solo, e os mortos que o solo sepulta, e tudo, tudo o que há ou foi ou será.

Há este conflito entre perceber a Deus como um ser pessoal ou impessoal, o interessante é que há milênios atrás o próprio Bhagavad Gita falava precisamente disto no início do Cap. 12 (a tradução é minha, a partir da versão inglesa de Sir Edwin Arnold; no diálogo Arjuna representa o homem e Krishna, o ser divino):

Arjuna perguntou: Daqueles devotos que desejam alcançar o seu refúgio, qual deles são os melhores yogis, os que meditam e se conectam ao seu aspecto pessoal e manifesto, ou aqueles que focam a sua mente em seu aspecto universal e sem forma definida? (12.01)

Lorde Krishna disse: Considero os melhores yogis aqueles que me amam como um aspecto pessoal, com intimidade e familiaridade, pois esses terão maior facilidade em me imaginar ao seu lado. (12.02)

No entanto, aqueles que me amam como o absoluto, inefável, onipresente, indiviso, manifestado não somente numa pessoa, mas em todo o universo, infinito e eterno, o uno em tudo, se eles mantêm o seu ânimo inabalado em todas as circunstâncias da vida, se respeitam todos os seres e colaboram para o bem estar da sua vizinhança, se são capazes de compreender que a minha substância preenche a tudo o que há, foi ou virá a ser, eles também alcançarão o meu refúgio, ó príncipe. (12.03-04)

O caminho para a autorrealização é muito mais árduo para aqueles que me imaginam como o absoluto e sem forma definida, pois que a concepção do que é eterno e infinito é algo muito complexo para uma mente finita que viaja junto ao fluxo do tempo. (12.05)

Mas aqueles que me imaginam em meu aspecto pessoal, me amam e adoram, dedicam a mim todas as ações de suas vidas, e sempre meditam em mim como o seu alvo mais elevado, eles me alcançarão mais facilmente, ó Arjuma, e eu os salvarei do oceano das mortes e renascimentos. (12.06-07)

Assim, ignorando o conselho do próprio Krishna, eu mesmo optei por me arriscar a me religar não com uma divindade pessoal, mas com tudo o que existe, pois que não há neste vasto universo nenhum canto fundo o suficiente onde Ele não se encontre, nem espaço vazio e escuro o suficiente onde Ele não esteja, mesmo que oculto em flutuações quânticas.

No fim das contas, creio que o objetivo da união mística é precisamente este: de estar ao lado de Deus em todos os momentos, onde quer que esteja, e com quem esteja, pois como disse o poeta sufi enquanto rodopiava naquele campo precioso, eterno:

Entre eu e você não existe nem eu, nem você.

***

Crédito da imagem: Oleg Oprisco

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20.9.16

Palestra: Poetas da Alma

Depois de muita insistência de amigos de todos os cantos, eu finalmente vou dar a minha primeira palestra pública...

O título será Poetas da Alma, e embora todos os verdadeiros poetas sejam naturalmente poetas da alma, darei um destaque maior a história e a poesia dos meus quatro preferidos: Fernando Pessoa, Khalil Gibran, Rabindranath Tagore e Jalal ud-Din Rumi. Para quem já acompanha este blog há tempos, eles já devem ser velhos conhecidos. Para quem não acompanha, será uma grande oportunidade de conhecer poetas grandiosos.

O local será em Campo Grande/MS, onde moro, num espaço espiritualista recém-inaugurado chamado SuryAmar. Para quem não puder ir, prometo que irei compartilhar todos os slides usados na palestra, mas ainda não posso confirmar se ela será filmada. Vejam as informações completas do evento abaixo:


Poetas da Alma, com Rafael Arrais
Seja você a poesia do Natal de uma criança

Dia 09 de Dezembro de 2016, das 19 às 21h
SuryAmar Espaço Integral do Ser
Rua Enoch Vieira de Almeida, 149 | Campo Grande/MS
Inscrições: (67) 99223.8570  

O valor do convite é a doação de 2 brinquedos para ambos os sexos que serão doados para caridade.


***

Atualização: Gratidão aos que compareceram! Segundo um dos espectadores, foi um verdadeiro "banho na alma". Me senti realizado, pois era essa mesmo a ideia: que ela fosse mais uma experiência poética do que uma palestra acadêmica.

Para quem não pôde ir, seguem abaixo os links com **todos** os slides da palestra e algumas fotos do evento:

Vejam os slides da palestra Vejam as fotos da palestra

 

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29.7.16

O Estado Anti-Islâmico

O termo Islã deriva de uma antiga palavra árabe que significa “submissão”. Num contexto místico-religioso, é claro que estamos falando de uma “submissão a Deus” e, dessa forma, fica subentendido que todos os verdadeiros islâmicos, os realmente religiosos e místicos, buscam a Deus dentro de si e em tudo o que há. A sua guerra é interna, e a única conquista que desejam é o amor divino.

O Estado Islâmico, dessa forma, está mais para Anti-Islâmico; eles não se submetem de fato a alguma divindade que lhes habita a alma, mas tanto o inverso disto: esperam que o mundo inteiro se submeta as suas regras, ao seu califado sombrio.

Eles basicamente entenderam a religião pelo inverso, mas isto não ocorreu da noite para o dia, e nem é exclusividade do islamismo, ou mesmo de doutrinas religiosas desvirtuadas. Como sabemos, os homens se dedicam a se matar uns aos outros há tempos e pelas mais variadas razões, e ainda que por vezes tentem justificar sua carnificina usando o nome de Deus, na prática eles fazem guerras pelo mesmo motivo de sempre, a mesma ignorância antiga e persistente: por estarem submissos aos territórios, as riquezas e ao poder mundano.

Para os que buscam “evangelizar” o terror, “Deus” é apenas uma palavra, uma desculpa. Como não conseguem se submeter ao Deus que lhes habita, como o evitam a todo custo e a todos os momentos, como temem se abandonar no amor, e aniquilar os seus próprios egos, eles buscam justificar sua própria ignorância da religião subvertendo o sentido de tudo: o caminho então já não é buscar a Deus em mim, mas ter certeza de que todos creiam na mesma doutrina que eu creio, nem que para isso eu precise recorrer a violência extrema, ao caos e ao medo.

Apesar de muitas doutrinas religiosas e ideologias políticas terem a sua cota de sangue pela história humana, é inegável o fato de que hoje, no início deste novo século, foi o islamismo quem pariu a cria mais nefasta e perigosa. E quem deve admitir isto são primeiramente os próprios islâmicos, uma vez que são eles os que mais sofrem com o chamado Estado Islâmico: os países que fazem fronteira com suas bordas no Iraque e na Síria, em sua maioria de muçulmanos, são aqueles que mais sofreram atentados, os que mais tiveram baixas em combates militares, e os que mais receberam refugiados.

No entanto, como vinha dizendo, tal organização pseudo-religiosa não surgiu do dia para a noite. O Estado Islâmico é uma cria do wahabismo, e o wahabismo não teria chegado onde chegou não fosse pela condescendência da Arábia Saudita.

Fica mais fácil explicar contanto uma triste história:

Era manhã em Karbala, uma cidade próxima de Bagdá, e o mercado local estava cheio quando todos ouviram gritos. Um grupo de homens vestidos de preto, levando espadas e bandeiras negras, invadiu o mercado matando crianças, mulheres, idosos e adultos; indistintamente e sem pena. Eles continuaram com a matança avançando pelas ruas até tomar o controle de toda a cidade. Alguns afirmam que, apenas neste dia, cerca de 4 mil pessoas morreram.

Os homens vestidos de preto que organizaram tal ataque não eram do Estado Islâmico. O massacre ocorreu há mais de 200 anos e o grupo era comandando por um dos primeiros governantes da Arábia Saudita, que havia acabado de fundar um novo movimento religioso ultraortodoxo e radical dentro do Islã, o wahabismo.

Segundo o professor Bernard Haykel, de Princeton, especialista em teologia islâmica [1], "o wahabismo sempre foi descrito popularmente como a mãe de todos os movimentos fundamentalistas”.  “No entanto” – ele prossegue –, “para encontrar a inspiração ideológica destes movimentos é preciso voltar ao salafismo jihadista".

O salafismo remonta ao século 19 e uma de suas figuras mais influentes foi um homem chamado Muhammad ibn Abd al Wahhab, um pregador nascido em um lugar remoto da Península Árabe em torno de 1703. Segundo Haykel, "ele acreditava que os muçulmanos tinham se distanciado da verdadeira mensagem do Islã, e ficou horrorizado com o que via em Meca, o lugar sagrado para os muçulmanos, com os nobres vestidos de forma extravagante, fumando haxixe e escutando música".

Wahhab era um fundamentalista que queria "purificar" o Islã, crendo que para tal bastaria que todos se voltassem aos princípios básicos da fé. E assim, gradualmente, suas ideias foram se espalhando... Mas é claro que nem todos estavam de acordo e, como era de se esperar, ele acabou expulso do vilarejo onde morava.

Após peregrinar sem rumo, eventualmente encontrou abrigo junto ao homem que governava uma pequena cidade vizinha, Muhammad Ibn Saud, com quem fechou um acordo em 1744. Com este acordo, foram firmadas as bases para a formação de toda a região: Saud se comprometeu a apoiar Wahhab política e militarmente e, em troca, Wahhab conferiria a Saud uma “legitimidade religiosa”.

Juntos, eles tomaram o controle de muitas cidades no entorno. Saud reinava e Wahhab pregava e colocava em prática o que acreditava ser “o islamismo puro”. Segundo Haykel, “eles tinham listas de todos os membros da comunidade e assim garantiam que todos eles iam à mesquita cinco vezes ao dia para orar. Era uma imposição da fé que aplicavam quase como justiceiros, uma versão intolerante da fé que no Islã tradicional não existe".

A aliança entre Wahhab e Saud continuou conquistando territórios. Pelo final do século 18 eles já controlavam quase toda a Península Árabe. Desta forma foi estabelecida a união histórica entre a Arábia Saudita e o wahabismo. Portanto, não deveria causar espanto que muitas das execuções transmitidas online pelo Estado Islâmico sejam muito parecidas com as execuções oficiais da Arábia Saudita: não poderia ser de outra forma, pois que ambos os estados, o oficial e o terrorista, de certa forma seguem a uma mesma lei sombria.

Nos dias de hoje há um debate acirrado entre os especialistas sobre se realmente Wahhab pregava a violência ou se suas ideias foram manipuladas por Saud e pelos descendentes e partidários que vieram depois dele, e eventualmente fundaram a Arábia Saudita em 1932, mas seja como for, fato é que a ignorância do verdadeiro Islã venceu, e o que restou foi somente o dogma e a violência, sem muito espaço para nada que lembre, nem de longe, alguma espécie de misticismo.

Decerto não ajudou em nada o Reino dos Saud estar situado bem em cima  das maiores reservas de petróleo e gás natural do mundo. Somente tanta riqueza farta, afinal de contas, pode explicar como a sua monarquia sobreviveu até o nosso século, e como ainda conseguem se manter aliados do Ocidente e dos EUA, que convenientemente se esquecem de que os maiores grupos terroristas da nossa época basicamente não existiriam não fosse pela “vista grossa” que os governantes sauditas fizeram e ainda fazem em relação ao wahabismo.

Claro que estou resumindo bastante a história. Sempre vale lembrar que há séculos persiste o conflito entre duas vertentes do Islã: os sunitas e os xiitas [2]. No atual jogo de xadrez do Oriente Médio, a maior nação xiita é o Irã, enquanto que a maior nação sunita é a própria Arábia Saudita. Dessa forma, uma vez o wahabismo sendo uma vertente radical do sunismo, também foi sempre conveniente para os governantes árabes “fingirem que não estavam vendo” grupos radicais surgindo aqui e ali, dentro de seu próprio território, uma vez que eles eram a promessa de muito trabalho para os seus inimigos iranianos.

Mas certamente ninguém imaginou que a ignorância e a violência chegariam aos níveis atuais. Claro, é bem provável que o mar de refugiados batendo a porta da Europa tenha causado mais problemas para as “boas relações” do Ocidente com os sauditas do que propriamente os anos e anos de extermínios no Iraque, na Síria e no Curdistão, mas fato é que ainda hoje há muita gente que lucra com o Estado Islâmico. Afinal, eles ainda têm de encontrar compradores para sua produção de petróleo nos poços que vieram a conquistar; e, da mesma forma, alguém tem de estar lhes vendendo armamento de guerra. Quem será? Interessa ao Ocidente saber? Vocês me digam...

O Estado Islâmico é um câncer e uma mancha cada vez mais sombria na luz do verdadeiro Islã. Mas é chegada a hora de enfrentá-los de verdade, pois temos visto que apenas o discurso não tem dado tão certo.

E, no entanto, por mais bombas que joguem em suas cabeças, nada me parece tão letal para a sua doutrina do que estas palavras, as palavras de um poeta do século 13, um poeta que também foi um religioso islâmico, e é lembrado até hoje. O wahabismo é incapaz de sobreviver à poesia de Jalal ud-Din Rumi:

O que eu posso fazer, ó muçulmanos? Eu não me conheço mais. Não sou cristão ou judeu. Nem um islâmico, nem um mago. Não venho nem do Oriente nem do Ocidente. Nem do continente, nem do mar. Tampouco do Manancial da Natureza, ou dos céus circundantes. Nem da terra, nem da água, nem do ar, nem do fogo.

Não venho do trono, nem do solo. Nem da existência, nem do ser. Nem da Índia, nem da China, Bulgária ou Saqseen; nem do reino do Iraque ou de Khorasan; nem deste mundo nem do próximo: nem céu nem inferno. Nem de Adão nem de Eva. Nem dos jardins do Paraíso nem do Éden.

Meu lugar é sem lugar, minhas pegadas não deixam rastros. Nem corpo nem alma: tudo que há é a vida do meu Amado.

Eu afastei toda dualidade: eu vi dois mundos como um. Eu desejo Um, eu conheço Um, eu vejo Um, eu clamo: “Um”.

***

[1] Trechos retirados de artigo da BBC.

[2] A história remonta a uma cisma ocorrida ainda no século 7, 30 anos após a morte de Maomé, quando após o assassinato do atual califa (governante religioso), um grupo (os xiitas) defendeu que um primo de Maomé deveria ser o novo califa, enquanto outro (os sunitas) defendeu que tal cargo caberia a um amigo de Maomé, que no entanto não era seu parente de sangue. Os sunitas venceram a disputa e, ainda hoje, são o grupo majoritário, com cerca de 84% dos islâmicos do globo.

***

Para quem quiser se aprofundar no tema, indico o livro Estado Anti-Islâmico da jornalista brasileira e muçulmana Chadia Kobeissi (obs.: este artigo foi publicado anteriormente ao lançamento do livro, o título similar é somente uma feliz coincidência).

Crédito da imagem: Google Image Search/khamenei.ir (uma comparação entre as execuções na Arábia Saudita e no Estado Islâmico)

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19.7.16

Para ser feliz, parte final

« continuando da parte 3

Tenho uma amiga que, de tanto andar pelos caminhos do mundo, acabou assumindo para si a difícil tarefa de tentar elucidar qual é, afinal, o caminho da felicidade. Em seu programa para o canal de TV a cabo Multishow ela já entrevistou artistas, filósofos e espiritualistas em geral. Eventualmente chegou a conversar com Matthieu Ricard, o célebre “homem mais feliz do mundo”, segundo estudos neurológicos conduzidos pela Universidade de Wisconsin. Ricard, apesar de ser filho de um renomado filósofo francês e Ph.D. em genética molecular, eventualmente se tornou um monge budista e hoje reside no Nepal, apesar de também rondar pelo mundo todo. Para ele, a espiritualidade é indissociável da felicidade:

Espiritualidade significa lidar com a mente. Pode-se dizer que o treinamento da mente é um tipo de espiritualidade. A religião se vale de técnicas para alterar a mente, mas no fim tudo depende do jeito como você lida consigo mesmo e com o mundo à sua volta... Acho que a compaixão e a empatia são qualidades humanas básicas que todos podem e devem cultivar para se tornarem pessoas melhores, independente se possuem ou não uma religião. Afinal, essas qualidades são muito mais fundamentais que a religião em si [1].

Assim, ficamos sabendo que a espiritualidade que surge da compaixão para com os outros seres é, quem sabe, uma fonte de quietude da mente, de profunda tranquilidade. Mas, e daí? Seria isso, somente isso, o que determina a sua felicidade?

Obviamente, não há absolutamente nada que Ricard possa falar que irá nos descrever exatamente “como é ser o homem mais feliz do mundo”. De fato, suas palavras seriam incapazes sequer de demonstrar “como é ser feliz”, ou ainda, “como ele está feliz no dia de hoje”. As palavras, afinal, são tão somente cascas de sentimentos, e a minha amiga estaria em maus lençóis se quisesse mesmo determinar precisa e cientificamente o que é a felicidade. Felizmente, ela já se contenta em estar no caminho que leva para lá...

Isso me lembra da corredeira que desemboca no mar, após um longo caminho, conforme vínhamos falando. E, se eu já admiti que palavras são nada mais que cascas, minha única esperança de encerrar esta série com alguma dignidade é convidar meus amigos poetas para o meu auxílio, pois que eles sim souberam imprimir em suas cascas alguma parte deste fruto eterno e sem nome [2]:

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Quando nos deixamos escorrer juntamente com o rio da Vontade, esta Vontade muito maior do que quaisquer desejos que tivemos ou possamos vir a ter, há um enorme perigo para o ego, e uma enorme promessa de genuíno contentamento para a alma. Que, para encarar o perigo e o abismo do mar, é preciso se abandonar de si, para se reencontrar no céu.

E ninguém disse que seria fácil, mas a cada passo dado, logo se nota que o horizonte a frente é muito maior e mais ensolarado, até que enfim chegamos na praia, na margem do mar que espelha o Tudo, onde brincam as criancinhas:

Na praia dos mundos sem fim as crianças se encontram, com muitas danças e algazarras.
Elas constroem suas casas com areia e brincam com as conchas vazias.
Com as folhas secas elas tecem seus barquinhos e os colocam, sorridentes, para flutuar na vastidão do mar.

As crianças brincam na praia dos mundos.
Elas não sabem nadar, e tampouco arremessar as redes.
Pescadores de pérolas mergulham atrás de pérolas, mercadores navegam em seus barcos, enquanto as crianças catam pequeninas pedras, e depois as espalham novamente.
Elas não buscam por tesouros ocultos, e tampouco sabem arremessar as redes.

Na praia dos mundos sem fim as crianças se encontram.
A tempestade ronda pelo céu sem trilhas, os navios naufragam pelo mar sem rotas, a morte está à solta, e as crianças brincam.
Na praia dos mundos sem fim ocorre o grande encontro de todas as crianças.

E é até estranho de se pensar, mas no fundo toda a criança nasce um ser iluminado, sem saber que é um ser iluminado.

Da mesma forma, é bem possível que um ser iluminado nada mais seja do que uma criança que sabe que é um ser iluminado.

Todos esses santos que foram e que voltaram, e que hoje brincam por todos os cantos, sem rumo que não o de dentro, são talvez aqueles mais indicados para nos dizer o que devemos fazer para sermos felizes... Mas isso não quer dizer que seremos plenamente capazes de compreendê-los:

E agora vocês perguntam em seus corações, “Como poderemos distinguir o que é bom no prazer do que não é bom?”.
Dirijam-se aos seus campos e jardins, e deverão aprender que o prazer da abelha é sugar o mel da flor,
Mas que é também um prazer para a flor ofertar do seu mel a abelha.
Pois para a abelha uma flor é uma fonte de vida,
E para a flor uma abelha é uma mensageira de amor,
E para ambas, abelha e flor, a doação e o recebimento do prazer são uma necessidade e um êxtase.

Povo de Orphalese, busquem ao prazer como o fazem as flores e as abelhas.

Uma necessidade, e um êxtase... No fim das contas, a felicidade é aquilo que ocorre quando não estamos pensando nela...

Quando não estamos pensando em mais nada...

Quando a alma consegue cerrar a cortina do palco da mente, e contemplar a imensidão, em silêncio:

É primavera, e tudo lá fora germina, até mesmo o enorme cipreste.
Nós não devemos abandonar este lugar.
Próximo a borda do copo em que ambos bebemos, leem-se as palavras,
“Minha vida não me pertence.”

Se alguém viesse tocar alguma música, teria de ser uma doce canção.
Nós estamos a beber vinho, mas não através dos lábios.
Nós estamos a sonhar, mas não em nossas camas.
Esfregue o copo em sua testa.
Este dia se encontra além da vida e da morte.

Desista de desejar o que os demais possuem.
Nesta via estará seguro.
“Onde, onde estarei seguro?”, você pergunta.

Este não é um dia para se fazer perguntas, este não é um dia de algum calendário. Este dia é a consciência de si mesmo.
Este dia é o amante, o pão, e a gentileza, ainda mais manifestos do que os lábios poderiam dizer.

Pensamentos tomam forma através das palavras, mas a luz desta manhã vai além, ela é ainda mais antiga do que os pensamentos e a imaginação.

Esses dois estão tão sedentos... Mas é isto o que confere suavidade a água. Suas bocas estão secas, e eles estão exaustos.
O restante deste poema está demasiadamente embaçado para que eles consigam prosseguir na leitura.

Para ser feliz, afinal, é preciso ler muito e conhecer muito, para então abandonar toda leitura e todo conhecimento...

***

[1] Livremente transcrito da entrevista para o episódio 06 da primeira temporada de No caminho da felicidade, com Susanna Queiroz.

[2] Na sequência, trechos (sempre em itálico) da poesia dos quatro grandes poetas da Alma: Fernando Pessoa, Rabindranath Tagore, Khalil Gibran e Jalal ud-Din Rumi. Onde coube, a tradução foi de Rafael Arrais.

Crédito das imagens: [topo] matthieuricard.org/Divulgação; [ao longo] Joel Robinson

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