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12.3.25

Lançamento: Hafiz - A gargalhada de Deus

As Edições Textos para Reflexão retornam à poesia sufi.

Mesmo tendo vivido no séc. XIV, Hafiz de Shiraz é até hoje um dos mais célebres poetas persas, cujos poemas capturaram os corações e as mentes de inúmeras pessoas ao longo dos séculos. Sua coleção de poemas acerca do amor rivaliza tão somente com Rumi em termos de popularidade e influência.

Após ter se aventurado a traduzir os poemas de Rumi e Omar Khayyam, era inevitável que Rafael Arrais chegasse a outro grande expoente da poesia mística do Islam. São pelo menos 60 poemas à espera de serem desvelados e degustados. Boa jornada!

A obra já está disponível na Amazon, em e-book, e também na versão impressa:

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» Leia o prefácio da edição


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26.11.24

Hafiz, aquele que fala do que nos transcende

O amor não tem limites, é eterno, é para sempre.

Hafiz acreditava no amor como a causa de todas as coisas.

Khwaja Shamsuddin Mohammad Hafiz Shirazi (c. 1315 – 1390), conhecido como Hafiz, é um dos mais célebres poetas persas, cujos poemas capturaram os corações e as mentes de inúmeras pessoas ao longo dos séculos. Sua coleção de poemas acerca do amor rivaliza tão somente com Jalal ud-Din Rumi em termos de popularidade e influência (Rumi foi um poeta místico do séc. XIII que viveu na atual Turquia).

A energia mística do amor e da paixão em seus poemas tem sido uma fonte de inspiração para muitos poetas, compositores e artistas em geral. A poesia de Hafiz é um precioso tesouro de riquezas simbólicas, mas também traz consigo uma paradoxal ambiguidade de imagens. Ele se vale de tais ferramentas para transmitir as emoções mais profundas da melhor maneira possível.

As odes de Hafiz, conhecidas como gazeis (ou gazals), são muitas vezes carregadas de emoções variadas, e revelam o poeta na sua busca por Allah (ou Deus) em sua própria alma.

Ó belo garçom,
traga a taça de vinho,
coloque-a em meus lábios.

A via do amor parecia fácil em seu início,
mas o que surgiu dela
foram as mais diversas provações.

Hafiz foi um escritor e cientista que viveu na cidade de Shiraz (no atual Irã) no séc. XIV, quando ela fazia parte do antigo reino persa. O nome de seu pai era Baha ud-Din Muhammad, um comerciante de carvão, mas ele morreu de forma trágica quando o poeta ainda era uma criança. Em sua adolescência, Hafiz foi aprendiz de padeiro e viveu uma vida cheia de dificuldades junto com a mãe. Com o tempo, no entanto, ele dominou todos os aspectos religiosos e científicos ao seu alcance, de modo que no início da fase adulta ele já era reconhecido como um grande expoente da literatura e das ciências em toda a região.

É interessante saber que ele havia memorizado por completo o Alcorão, o livro sagrado do Islam, e foi justamente por isso que lhe deram o nome de Hafiz, cuja tradução é “memorizador”.

Ele também era conhecido como Lesan Al-Ghayb, ou “aquele que fala sobre o oculto, o desconhecido, o que nos transcende” (séculos depois, o criador da série de ficção científica Duna, Frank Herbert, emprestou esse conceito para o personagem principal da trama). Hafiz parecia falar daquilo que existe além das palavras.

Um cavaleiro sombrio, o medo das ondas,
um redemoinho tão implacável!
Como pode o fardo tão leve das praias
saber da angústia em nossas profundezas?

A visão de mundo do poeta é inseparável do contexto do Islam medieval, assim como do gênero da poesia de amor persa, mas ainda assim é impossível defini-lo com exatidão. Hafiz é um místico que zomba dos místicos. Ele é conhecido como aquele que compreendeu o Alcorão com o coração, e mesmo assim não se cansa de fazer graça com a hipocrisia dos religiosos. Ele demonstra sua própria vocação espiritual, enquanto sua poesia está repleta de referências à intoxicação do vinho, algo que pode ser literal para alguns, e puramente simbólico para outros.

Vá, vá e cuide dos seus próprios assuntos.
Por que você me culpa?
Meu coração se rendeu ao amor,
o que você sabe sobre tal rendição?

O aspecto mais sublime da poesia de Hafiz é justamente a sua ambiguidade. Em seus poemas, os temas são organizados de forma tão intrincada que podem ter diferentes impactos na alma do leitor, de acordo com o seu estado emocional no ato da leitura.

Muitos dos seus poemas são até hoje usados como provérbios e ditados, sobretudo na região da antiga Pérsia, atual Irã. Já o seu senso travesso de ironia atraiu muitos poetas e compositores ocidentais ao longo dos séculos – incluindo Goethe, Brahms e Wagner.

O Divan (termo persa que significa literalmente “coleção de poemas”) de Hafiz contém 500 sonetos, 42 quadras e diversas odes que ele escreveu ao longo de meio século. Ele foi publicado em dezenas de variações, sendo improvável que qualquer uma delas possua de fato a totalidade de sua obra poética.

O seu túmulo está localizado ao norte de Shiraz, em um belo monumento cercado de bosques, onde a fragrância das flores se faz presente na maior parte do ano. Nos dias atuais, é uma das atrações turísticas mais importantes e visitadas do Irã.

Hafiz acreditava que o caminho para Allah residia nos mistérios do amor. Para ele, o amor não apenas criou este mundo, como é a resposta para todas as questões que afligem nossa alma.

Eu segui pelo meu próprio caminho no amor,
e hoje tenho uma má reputação.
Mas como poderia um segredo permanecer oculto,
se rodasse pelas línguas de todas as rodas de fofoca?

Se é a presença do Amado o que busca, Hafiz,
por que se importar com o que dirão de ti?
Permaneça junto Aquele que reside em seu coração,
deixe de lado os delírios de grandeza.

***

Após ter lançado dois livros com poemas de Rumi selecionados e traduzidos de versões inglesas, chegou a hora de mergulhar na poesia de Hafiz. Ao longo de 2025 estarei intercalando outras traduções com mais uma jornada no misticismo sufi. Assim que tiver mais notícias, trarei aqui no blog.

Rafael Arrais

***

Crédito das imagens: Mahmoud Farshchian (artista iraniano inspirado pela obra de Hafiz)

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5.1.24

A conversão

Ele chegou junto aos primeiros raios de sol da manhã, quando eu abria os portões da mesquita. Suas roupas eram surradas, mas de boa tecelagem; mais parecia alguém rico que havia passado por diversos apuros na estrada para o nosso vilarejo. Quando se aproximou e pude ver seus olhos, percebi que irradiavam um misto de angústia e alívio, como de alguém que tivesse perdido sua vida, mas que estava prestes a renascer. A barba era negra e volumosa, e seu porte físico lembrava o dos guerreiros do Sultão. Ele pareceria ameaçador, não fosse por uma intuição que me dizia “Escute o que esse homem tem a dizer”, e foi o que eu fiz.

Khalid era o seu nome. Ele me disse que desejava fazer a shahada, que estava pronto para se juntar ao Islam, mas que antes precisava me contar uma história, e saber se mesmo assim seria aceito por Allah. Esta foi a sua história:

“Há algumas noites eu ainda era um ladrão, e o único deus que eu conhecia era o deus da adaga. Nesse tempo, eu ainda ganhava a vida assaltando comerciantes desavisados que trafegavam pela entrada entre Tabriz e Coi. Foi assim que vi um deles sozinho, sentado próximo a uma fogueira na beira do lago ao sul dessa região. Era uma presa fácil, ou ao menos foi o que pensei.

Eu me esgueirei sorrateiro como um gato, passo a passo, e quando percebi que o homem não se virou, encostei a ponta da minha adaga na lateral do seu pescoço. O metal era frio, mas mesmo assim o homem não esboçou reação alguma. Após um breve momento, sem se virar, ele falou:

‘Não tenho o que você procura.’

‘Como você sabe que procuro alguma coisa?’ – respondi.

‘Porque é conhecida a intenção de quem se aproxima com a adaga antes de dizer Salam.’

‘Então você deve ter o que eu procuro!’ – insisti.

Não tenho nada além de mim. Nesta situação, já que você não percebeu que não tenho ouro, ou você é estúpido ou cego.’

Até então eu achava que aquele viajante estava somente tentando me enganar, mas quando ele se levantou e virou para mim, a sua face irradiava verdade. Não qualquer verdade, mas uma verdade que jamais soube que existia – até aquele momento. Ainda assim, ainda acreditava que continuava sendo um ladrão. Eis o que ele me disse:

‘Vejo que você não é cego. Mas agora tenho quase certeza da sua estupidez.’

‘E eu tenho quase certeza de que você quer morrer.’ – disse, tentando parecer firme, apontando minha adaga para ele, fingindo que ainda era um ladrão.

O viajante abriu os braços, mas tudo o que podia ver era a luz em seus olhos. Suas palavras eram como um feitiço, um bom feitiço:

‘Então me mate. Vamos. O que lhe impede?’

Eu estava congelado, petrificado. Jamais compreendi o que significava coragem até aquela noite. Seria mais fácil eu fugir dali correndo do que enfiar minha adaga naquele homem. Ainda assim, eu não conseguia sequer sair do lugar. Ele prosseguiu:

‘Aquilo que lhe prende é o fato de você não ter conseguido ver a reação que era esperada. Você é um bandido. Aquele que não quer lhe dar seus pertences puxa a própria adaga. Então, ele o mata, ou é morto, e você pega seus pertences. Mas nesta situação eu não tenho nem ouro nem adaga, e você está tentando entender tal situação. Porque você estava procurando, embora não soubesse o quê. E então você começa a perceber o que está procurando, e o que não consegue encontrar. É como se você fosse uma árvore, com seus galhos, com seus frutos, mas ignorante da própria raiz. Se você notar a raiz, não notará a semente. Se você notar a semente, não notará o solo, e tampouco notará que as pessoas foram criadas com esse solo. Então, deixe tudo ir de vez, deixe tudo ao seu redor e olhe para si mesmo.’

Eu tombei sobre meus joelhos, prostrado ante a realidade daquelas palavras. Era como se minha vida tivesse se iniciado naquele instante. Arremessei longe minha adaga, e disse:

‘Me perdoe.’

‘É você quem deve se perdoar. E, quando o fizer, busque uma mesquita e faça o juramento. Allah precisa de amigos como você.

‘Como eu? Um ladrão?’

‘Ambos sabemos que você já não é mais um ladrão. Ora, não foi Issa quem disse: O que acham vocês? Se alguém possui cem ovelhas, e uma delas se perde, não deixará as noventa e nove nos montes, indo procurar a que se perdeu? E, se conseguir encontrá-la, garanto que ele ficará mais contente com aquela ovelha do que com as noventa e nove que não se perderam. Não foi o que ele disse?’

‘Eu sou uma ovelha desgarrada? Sim, é isso o que eu fui, toda a minha vida estive perdido do rebanho.’

‘Você conheceu o caminho do pecado, do ouro fácil, do fio da adaga. Você foi cego e estúpido, mas algo dentro de você nunca desistiu de buscar. Pois eu lhe digo aqui e agora, meu amigo: Aquilo que você busca também está lhe buscando. Vá, encontre uma mesquita, seja um muçulmano.’

E aqui estou eu.”

Aquele homem estava pronto. Ele havia encontrado um wali, um amigo de Allah, alguém que tem o poder de acelerar a conversão daqueles que se encontram perdidos no mundo, mas que jamais desistiram de buscar.

Ele foi aceito na minha mesquita, declarou a sahada, e eventualmente se tornou o meu discípulo mais entusiasmado. Nós nunca soubemos exatamente quem foi o wali que ele encontrou acampando perto do lago, mas pela descrição – um homem vestido como mercador de tecidos – creio que há uma boa chance de ter sido o grande Shams, a luz de Tabriz, quando este se encaminhava para Konya.


raph’24

***

Comentário
Boa parte deste conto foi diretamente baseada em uma cena do primeiro episódio da segunda temporada da série de TV Rumi (2023), do canal turco Tabii, escrita por Ali Aydin e dirigida por Can Ulkay. A parábola da ovelha desgarrada pode ser encontrada em Mateus 18:12-14. Saiba mais sobre a sahada aqui.

Crédito da imagem: Google Image Search

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27.11.23

Lançamento: Mensagem Sufi de Liberdade Espiritual

As Edições Textos para Reflexão retornam ao sufismo com seu maior divulgador no Ocidente.

Hazrat Inayat Khan nasceu na Índia e desde o berço conviveu com a música e a poesia, eventualmente se tornando reconhecido no Ocidente tanto como músico quanto como místico sufi. Muitas de suas palestras foram compiladas por seus estudantes numa coleção de livros conhecida como A Mensagem Sufi: este é o primeiro deles.

A nova tradução de Rafael Arrais já está disponível na Amazon, em e-book:

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10.8.23

Voltei ao Conhecimentos da Humanidade para falar de Rumi

Voltei a participar do canal Conhecimentos da Humanidade para falar de Rumi, do sufismo, e de minha jornada pessoal na Ordem Sufi Naqshbandi. Há outras lives onde falo do mesmo tema, mas ainda que você tenha visto alguma, saiba que esta é bem especial, pois nela ficará sabendo de certos detalhes de minha jornada com o sufismo que eu nunca falei em lugar nenhum (e nem o Bruno). Assista abaixo:

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29.12.22

As traduções de Rumi

Neste vídeo Raph traz o conteúdo de sua palestra proferida no evento Primavera de Rumi, realizado em Outubro (2022) no Farol do Saber Khalil Gibran, em Curitiba. Trata-se de um breve resumo da história da poesia de Rumi e suas traduções para o inglês e o português. Também são abordadas algumas polêmicas acerca da supressão arbitrária de menções a Maomé nas traduções inglesas, principalmente as de Coleman Barks. Assista abaixo:

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


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18.4.22

Eu sou, eu era, e eu serei

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.

Assim se inicia o livro de João, parte do Novo Testamento bíblico. É muito comum que se use essa frase para associar a ideia de Deus com o vociferar, o verbalizar, o colocar em palavras, o que em última análise também está associado a causar alguma alteração no mundo lá fora, a expressar o que se sabe, o que se sente, em suma: a evangelizar, difundir a palavra sagrada.

Entretanto, é estranho de se pensar que a palavra mais sagrada das religiões abraâmicas (que remontam a Abraão) é um dos termos de significado mais complexo e, em geral, desconhecido da maioria dos seus seguidores. A inscrição mais antiga conhecida que contém o tetragrama YHWH é a Pedra Moabita, de cerca de 840 a.C., que celebrou a vitória de um rei moabita sobre um rei israelita. O tetragrama também foi encontrado em inscrições menos solenes de fragmentos de cerâmica um pouco mais recentes. Aparece, por exemplo, nas chamadas Cartas de Laquis, que contêm frases como “Que YHWH faça que meu senhor ouça hoje mesmo notícias de paz”.

Mas o que é YHWH afinal? Ele se refere as quatro letras do alfabeto hebraico que compõem o nome de seu Deus (escritas da direita para a esquerda): י (yod), ה (he), ו (vav, chamada também waw), e de novo ה (he). Em português (assim como em inglês e francês) a transliteração usual é YHWH, mas encontram-se também na forma YHVH (como em espanhol). Isso significa que os antigos hebreus vociferavam um som parecido com Iodhêvavhê quando se referiam ao seu Deus. Dito isso, até aqui não demos nenhum significado a YHWH muito diferente de dizer que “Deus” se escreve com um D, seguido de um E, um U e um S. Então precisamos repetir a pergunta: mas o que é YHWH afinal?

Para atingir o significado mais profundo de YHWH, a princípio não é necessário ser um cabalista com décadas de experiência mística, mas antes um especialista no... hebraico. Há um trecho do livro do Êxodo, no Antigo Testamento bíblico, que nos dá uma bela pista sobre o significado de YHWH para um hebreu:

Então disse Moisés a Deus: Eis que quando eu for aos filhos de Israel, e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós; e eles me disserem: Qual é o seu nome? Que lhes direi?
E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós.

(Êxodo 3:13,14)

Esse trecho corrobora a tese de alguns estudiosos do hebraico bíblico que afirma que Deus, ou YHWH, não é propriamente um substantivo, mas um VERBO! YHWH não somente é, como está sendo, foi e será: um verbo conjugado em todos os tempos existentes, um verbo que está na fonte do que existe, no princípio, mas também no fim de todas as coisas; e, igualmente, em todas as coisas em todos os tempos.

Há um ensinamento da tradição oral judaica, atribuído ao Rabino Akiva, em que o próprio Deus afirma:

Eu sou, eu era, e eu serei. Eu era antes do mundo ser criado, eu sou desde que o mundo foi criado, e eu serei aquele que estará no mundo vindouro.

Esse tipo de interpretação é poderoso porque não deixa nenhuma margem para que possamos considerar qualquer coisa, em qualquer tempo, como estando fora, ausente, ou até mesmo distante de Deus. De fato, não há como algo EXISTIR sem que isso implique a existência em si, e a existência em si é parte de Deus.

Assim, Deus sempre esteve mais próximo de você do que o seu próprio olho, e quando você respirou a primeira vez após vir ao mundo como um ser humano, o ar que respirou era Deus, assim como seus pulmões e a placenta que ainda o conectava a sua mãe. E, ainda que não possamos nos lembrar por certo onde estávamos antes do nascimento, muito antes da própria Terra se formar, muito antes dos primeiros elementos pesados serem forjados nos núcleos dos primeiros sóis, Deus já estava lá, porque não é possível se falar em existência sem usar o verbo existir: se um universo existe, se há algo que chamamos de espaço-tempo, então lá também está Deus.

Eu poderia decorar esse texto com mais infindáveis parágrafos acerca do que existe, poderia lembrar de Krishna e do Bhagavad Gita, ou do Tao no livreto de Lao Tse, ou até mesmo da Substância de Espinosa e outros conceitos mais metafísicos do neoplatonismo e do hermetismo, mas o que considero mais importante aqui não são as palavras, mas o verbo, o existir, o estar sendo, e isso é algo que vai muito além das palavras, meras cascas de sentimento.

Então abandone estas palavras, abra a janela e olhe para fora, esteja onde estiver, e simplesmente sinta que existe, abra seu coração e sua alma para o estar sendo, aqui e agora: lembre-se de que aquilo que busca também sempre esteve lhe buscando, mas deixe as palavras para depois...

raph

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Com agradecimentos a Caio Ribeiro Chagas pela exposição inicial do conceito de YHWH como verbo, no podcast Pele de Cordeiro sobre o Sefirat ha Ômer.

Crédito das imagens: [topo] Noah Holm/unsplash; [ao longo] Tanner Mardis/unsplash.

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18.3.22

Odes ao vinho (que não se colhe da videira)

Hoje Nixapur é uma cidade modesta situada no nordeste do Irã, mas há cerca de mil anos ela era uma das maiores cidades do mundo, sendo um ponto importante da famosa Rota da Seda. Na época, em meio aos impérios persas, nela nasceu e morreu um cientista, astrônomo e matemático chamado Omar Khayyam. Dizem que também foi poeta, e teria nos deixado centenas de poemas compostos por quatro versos – os rubaiyat, plural de rubai (poema em quarteto). Muitos séculos depois, tais versos foram transpostos ao inglês por um poeta de ascendência irlandesa chamado Edward FitzGerald, que foi o grande responsável por tornar o Rubaiyat de Omar Khayyam célebre em todo o Ocidente. Em suas versões portuguesas, o Rubaiyat recebeu o epíteto de “Odes ao vinho”, pelo simples fato da bebida ser muito celebrada em suas quadras. No entanto, até hoje persiste o debate acerca do significado desse vinho, e do Rubaiyat como um todo: uns dizem que se trata de vinho literal, e estes classificam a obra como agnóstica e hedonista; mas há tantos outros que afirmam que se trata do vinho “que não se colhe da videira”, de uma metáfora das experiências místicas do sufismo (o misticismo do Islã), e esses incluem a obra de Khayyam entre os grandes poemas místicos da humanidade.

Quem sabe o Rubaiyat possa ser lido das duas formas; talvez caiba somente a quem lê, a quem interpreta e mergulha na profundidade (ou superficialidade?) de seus versos, dizer, sentir do que eles se tratam. Um brinde a vida, e outro brinde a morte: bem-vindo ao Rubaiyat de Omar Khayyam.

O poeta que observava estrelas
Filho de um fabricante de tendas, Omar Khayyam nasceu em Nixapur por volta do ano 1040, e faleceu em 1123. Seu verdadeiro nome era Ghiyat ud-Din Abu Fat Omar Ibn Ibrahim al-Khayyam. Sua vida esteve conectada a personagens que também marcaram a história: Hassan Sabbah, o lendário “Velho da Montanha”, e Nizam al-Mulk, que foi vizir do sultão Alp Arslan.

Quando jovens, Hassan e Nizam foram atraídos a Nixapur pela fama do imã Novassak (na época, um ancião), buscando a sua instrução. Lá conheceram Khayyam, que já estudava matemática e astronomia, e entre eles nasceu uma duradoura amizade. Desta amizade veio uma espécie de pacto: quem primeiro fosse bem-sucedido financeiramente na vida deveria ajudar os outros dois.

Quem chegou lá primeiro foi Nizam, que foi um secretário e depois vizir do sultão Alp Arslan, o Leão. Logo, seus amigos foram lembrá-lo do pacto de Nixapur. O pedido de Hassan foi por um cargo na Corte; porém, ao se envolver em intrigas palacianas, logo caiu em desgraça, retirando-se às montanhas do sul do mar Cáspio, onde eventualmente veio a se tornar o lendário “Velho da Montanha”, o mestre da Ordem dos Assassinos.

Já o pedido de Khayyam foi consideravelmente mais modesto: uma espécie de pensão vitalícia para que pudesse voltar a Nixapur e se dedicar tão somente à matemática e à observação das estrelas. E sua pensão foi quantia suficiente para que pudesse passar o restante de seus dias entregue ao cultivo do estudo e da poesia. Cercou-se de amigos e com eles dedicou-se a aproveitar a vida. Dizem que seu maior prazer era simplesmente beber e conversar com amigos, sob a luz da lua, no terraço de sua casa, geralmente ao som de tocadores de alaúde e, volta e meia, apreciando a arte das dançarinas persas.

Envolto em tal atmosfera, Khayyam iniciou a composição dos seus famosos rubaiyat. Eram poemas que cantavam o amor, o vinho, a vida e a morte; às vezes, de um pessimismo aterrador, noutras tantas, de uma exaltada homenagem à existência.

Além de poeta, foi um celebrado homem de ciências. Escreveu um famoso tratado de álgebra, elaborou tabelas astronômicas e reformulou o calendário muçulmano, tendo recomendado a adoção do ano bissexto cinco séculos antes de tal ideia ser retomada no Ocidente, com a promulgação do Calendário Gregoriano.

Após sua morte, um de seus amigos mais jovens e discípulo, Kuajah Nizam, escreveu sobre ele o seguinte: “Nós costumávamos conversar com o mestre em um jardim. Um dia, ele nos disse: Vocês irão achar meu túmulo no local onde o vento do norte possa cobri-lo de rosas. Anos depois, ao retornar para Nixapur após uma longa ausência, me dirigi ao lugar que tinham me indicado como sendo o túmulo do meu mestre. Encontrei-o junto a um jardim. As árvores, exuberantes em plena primavera, inclinavam seus galhos por cima de um muro vizinho, enquanto uma brisa suave desfolhava suas flores. Ao cair, pétala por pétala, cobriam o túmulo de muitas cores...”

Uma releitura ocidental
Os rubaiyat persas seriam hoje algo solenemente ignorado no Ocidente, não fosse pelo fato do poeta Edward FitzGerald (1809 – 1883) ter tomado conhecimento da obra de Khayyam, vertendo-a para o inglês e publicado sua tradução em 1859.

Entretanto, FitzGerald não foi propriamente um tradutor, mas antes um adaptador. Alguns afirmam que sua obra poderia ser intitulada: “De como Omar Khayyam teria escrito Rubaiyat, acaso se chamasse Edward FitzGerald e vivesse na Inglaterra vitoriana”. Dito isso, não se pode negar o fato de que ele foi o grande responsável por tornar o erudito persa conhecido no Ocidente. À sua tradução, aliás, seguiram-se várias outras, tornando Rubaiyat um dos livros de poesia mais traduzidos e vendidos do século XX, merecendo inclusive diversas edições luxuosas, ilustradas por artistas renomados.

Em certo aspecto, Rubaiyat é um livro de poesia diferente de todos os demais: cada vez que uma nova edição é publicada, surge uma obra diversa. Isso se deve a alguns fatores: primeiro, o próprio Khayyam parece não ter somente composto os próprios rubaiyat, como colecionado muitos que circulavam em Nixapur na época; segundo, alguns rubaiyat podem ter sido introduzidos posteriormente a sua morte, provavelmente por poetas apócrifos que gostariam de ver seus versos eternizados sob a autoria de um cientista renomado; e, terceiro, no fim das contas a tradução da poesia persa para outra língua é quase sempre uma releitura.

Para além disso tudo, ainda resta a polêmica acerca do Rubaiyat ser ou não uma obra mística. Ora, no prefácio de sua tradução o próprio FitzGerald associou-a ao epicurismo, uma visão filosófica da vida mais focada nas pequenas alegrias e prazeres ditos “mundanos” do que em experiências religiosas. Farid ud-Din Attar (1145 – 1221), um célebre místico islâmico conterrâneo de Nixapur, disse certa vez que “Khayyam não era um místico, mas um livre-pensador”.

Entretanto, em 1867, J. Nicolas, o cônsul francês na Pérsia, realizou uma nova tradução do Rubaiyat, afirmando que o poeta era um sufi, e que suas quadras traziam, de forma alegórica, o pensamento e os ensinamentos desta vertente mística do Islã. Segundo esta visão, a taberna seria a mesquita; o vinho, a essência de Allah; o cálice, o mundo inteiro (por onde se espalha o vinho que não se colhe na videira); e a embriaguez em si, o êxtase místico, o contato direto com o amor divino.

A lição que fica é que o Rubaiyat será, sobretudo, aquilo que causar no coração de seus leitores. E, se você for mais um deles, então responda por si mesmo: do que, afinal, se trata o Rubaiyat de Omar Khayyam?

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O Rubaiyat de Omar Khayyam será o próximo lançamento das Edições Textos para Reflexão, na tradução de Rafael Arrais (a partir da versão inglesa de Edward FitzGerald), em um e-book ilustrado por diversos artistas cuja obra já entrou em domínio público (o que infelizmente não é o caso do tailandês Niroot Puttapipat, cuja arte ilustra este artigo).

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Crédito das imagens: Niroot Puttapipat

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13.9.21

Porque é importante conhecer a filosofia islâmica

O texto abaixo prefaciou o livro A Filosofia Islâmica: Pensadores Islâmicos de todos os tempos, de Thiago Tamosauskas, disponível na Amazon em e-book.


O italiano Cosme de Médici foi um dos homens mais importantes do Renascimento na Europa. Não foi pintor, nem escultor, nem escritor ou mesmo pensador, foi um banqueiro. Herdou do pai a fortuna, a saúde e o talento para os negócios. Além disso, governou Florença durante muitos anos, e ajudou a torná-la a capital da arte em todo o Ocidente. Isso tudo porque Cosme foi um homem rico que soube fazer bom uso de sua fortuna, quiçá o melhor uso: patrocinar as artes em geral.

Ele também amava livros, e como na sua época não existia internet, enviava diversos agentes pelo mundo afora para tentar encontrar tomos raros. Eram caçadores de cultura. Cosme estava particularmente interessado em obras gregas da Antiguidade, uma vez que mais ou menos após o advento do cristianismo, toda a Europa foi, século após século, se esquecendo do grego, e se apegando exclusivamente às obras em latim. Mas Cosme não estava numa busca às cegas, pois sabia exatamente para onde enviar seus agentes: o mundo árabe islâmico.

Ninguém questiona a importância das obras de Platão para o pensamento ocidental, mas quando Cosme cresceu, poucas eram as obras platônicas disponíveis em latim. Já ao leste, principalmente na junção com o Oriente Médio, a situação era outra. Os bizantinos que conheciam o grego podiam continuar a ler Platão no original. Dessa forma, os filósofos do mundo islâmico desfrutavam de um extraordinário grau de acesso à herança intelectual da antiguidade grega. Por exemplo, na Bagdá do século X, leitores árabes tinham o mesmo grau de acesso às obras platônicas quanto os leitores em inglês nos dias de hoje.

Isto foi graças a um movimento de tradução que se iniciou durante o califado Abássida, começando na segunda metade do século VIII. Patrocinado pelo próprio Califa, este movimento almejou importar a filosofia e a ciência grega para a cultura islâmica. O império deles tinha recursos para tal, não só financeiramente, mas culturalmente também. Desde a antiguidade tardia até a ascensão do Islã, o grego sobreviveu como língua de atividade intelectual entre cristãos, especialmente na Síria. Então, quando a aristocracia muçulmana decidiu ter a ciência e a filosofia gregas traduzidas para o árabe, foi para os cristãos que eles se voltaram. Foi um imenso desafio. Mas, já no tempo de Cosme, grandes obras de Platão, Aristóteles, Plotino, assim como o famoso Corpus Hermeticum, estavam não somente preservadas em seu original grego nos califados islâmicos, como traduzidas para o árabe e outras línguas da região.

Enquanto durante muitos séculos os europeus “se esqueceram” de tais ideias, no mundo islâmico elas eram conhecidas a fundo. Em boa medida, o chamado Renascimento foi mais uma redescoberta das ideias da antiguidade grega. Mas, se tais ideias puderam ser revisitadas, foi porque os islâmicos as salvaram da aniquilação. Quando os agentes de Cosme retornaram à Florença, ele logo deu a ordem para que todas as obras encontradas fossem traduzidas para o latim. E o resto é história: tais obras jamais voltaram a ser esquecidas pelo Ocidente.

Mas, estranho de se pensar: se foi o mundo árabe islâmico que preservou tais conhecimentos, será que também não existiram grandes pensadores do Islã? Será que eles se limitaram apenas a preservar tal conhecimento, sem terem dialogado com ele? E, se existiram grandes filósofos islâmicos, por que nós raramente ouvimos falar deles no Ocidente?

Não cabe a mim responder tais perguntas neste prefácio, mas a quem ficou curioso sobre o tema, o restante desta obra será de grande valia. O seu autor, Thiago Tamosauskas, tem se revelado um investigador incansável de escolas de pensamento mundo afora. Antes de falar da filosofia islâmica, ele também já se debruçou sobre a filosofia africana e a filosofia chinesa. Sua intenção, obviamente, não é descrever em minúcias cada uma das ideias dos pensadores islâmicos, mas antes dar uma introdução geral ao assunto, e deixar que cada leitor busque se aprofundar por conta própria no pensamento dos filósofos que mais chamaram a sua atenção – de preferência, lendo-os no original.

Uma grande vantagem do texto do Tamosauskas é que, ao contrário do seu sobrenome, ele é altamente legível e explicativo, às vezes com uma pitada de humor aqui e ali. Em suma: é algo que informa e diverte. Se tudo correr bem, logo logo você estará buscando pelos outros livros desta série, se é que já não os leu.


Rafael Arrais

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Crédito da imagem: Pintura de Osman Hamdi Bey (1902).

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14.7.21

Lançamento: Rumi - Além das ideias de certo e errado

As Edições Textos para Reflexão enfim retornam à poesia!

Em Rumi - Além das ideias de certo e errado, Rafael Arrais volta a traduzir e comentar a vasta obra poética do grande expoente do sufismo, o misticismo do Islã. Dando continuidade ao que foi iniciado em outro livro, A dança da alma, o tradutor, que hoje também é praticante do sufismo, se aprofunda ainda mais nos abismos poéticos de Rumi.

Um ebook já disponível para o Amazon Kindle; e na versão impressa, tanto na Amazon quanto no Clube de Autores:

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Alguns poemas de Jalal ud-Din Rumi, Shams de Tabriz e Rabia Basri que estão no livro já foram postados aqui no blog, vejam:

» Poemas de Rumi
» Poemas de Shams de Tabriz
» Poemas de Rabia Basri

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Leiam também Rumi - A dança da alma:

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5.7.21

Poemas de Rumi

Jalal ud-Din Rumi foi um místico sufi do século XIII que, após ter cruzado seu caminho com um andarilho chamado Shams de Tabriz, passou a compor poemas de imensa profundidade espiritual, que o fizeram conhecido em todo o mundo – inclusive no Ocidente. Essa história já foi relatada aqui no blog, em um post intitulado O encontro de dois oceanos.

Aqui trago apenas alguns dos seus poemas traduzidos de versões inglesas. Eles farão parte do meu próximo livro sobre Rumi, intitulado Rumi – Além das ideias de certo e errado (veja a capa ao final):

 

[Eu e você]

Na verdade nós somos uma só alma,
eu e você.
Nos mostramos e escondemos,
você em mim,
eu em você.

Eis o sentido profundo da nossa relação:
é que entre você e eu
não existe nem eu
nem você.

 

[Um momento de felicidade]

Este é um momento de felicidade,
eu e você sentados na varanda:
duas formas, dois rostos,
uma só alma,
você e eu.

A beleza das flores
e o canto dos pássaros
nos ofertam a água da vida
quando entramos neste jardim,
eu e você.

As estrelas do céu vêm nos ver,
e mostramos a elas a lua,
você e eu.

Eu e você,
unidos em êxtase e alegria,
libertos do juízo e da razão,
você e eu.

Os beija-flores do Paraíso bicam açúcar
enquanto nós rimos,
eu e você.

Ainda mais mágico,
estamos aqui ao mesmo tempo
no Iraque, na Pérsia,
você e eu:
numa forma aqui na Terra,
e noutra forma, no Paraíso.

E na Terra do Açúcar,
uma só alma,
eu e você.

 

[Morri como mineral]

Morri como mineral,
e tornei-me planta.
Morri como planta,
e surgi como animal.
Morri como animal,
e sou humano...

Ó caminhantes,
por que tanto medo?
O que perdemos ao morrer?

Eu sei que morrerei de novo,
como humano, até que possa enfim
voar com os anjos, abençoado.

E mesmo como anjo, terei de morrer.
Todos perecem, exceto Allah...

Quando eu tiver sacrificado
minha alma de anjo,
me tornarei o que a mente
sequer pode conceber!

Ah! Que seja!
Que eu não exista!
Pois a não-existência proclama,
como um órgão,
que retornaremos ao Amado.

[O néctar]

Qualquer alma que tenha bebido o néctar do seu amor
foi elevada aos céus.

Eu bebi o líquido da vida e entrei em êxtase.
Veio a morte, me farejou de pertinho,
mas foi o seu perfume que ela sentiu.
Desse dia em diante, a morte perdeu suas esperanças em mim.

 

[O segredo]

O amor não tem nada o que ver
com os cinco sentidos ou as seis direções;
o seu único objetivo é experimentar
a atração exercida pelo Amado.

Depois, quem sabe, Allah permitirá
que os segredos sejam revelados.
Então, os segredos serão contados com a mesma eloquência
das metáforas mais confusas.

É que o segredo não partilha sua intimidade
com ninguém mais, ninguém
além do conhecedor do segredo.
Aos ouvidos de um descrente
o segredo não é segredo algum.

 

Veja mais poemas em nosso próximo livro sobre Rumi, que deve ser lançado EM BREVE (em e-book e versão impressa):

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Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Rumi); [ao longo] Hossein Irandoust; Rafael Arrais e svklimkin/unsplash license (capa do livro).

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9.6.21

Poemas de Shams de Tabriz

Shams de Tabriz foi um místico sufi andarilho que eventualmente cruzou seu caminho com Jalal ud-Din Rumi, e o influenciou diretamente em seu caminho na poesia. Essa história já foi relatada aqui no blog, em um post intitulado O encontro de dois oceanos.

Aqui trago apenas alguns dos seus textos, selecionados, traduzidos do inglês e adaptados à métrica poética por mim mesmo. Eles farão parte do meu próximo livro sobre Rumi, intitulado Rumi – Além das ideias de certo e errado (veja a capa ao final):

 

[O Ancestral]

A verdade é o Ancestral,
o ser que não tem início.

Onde aquele que foi criado
poderá encontrar o incriado?
Como poderá compreender?
Como poderá saber onde reside
a Alma de todas as coisas?

 

[A face de Allah]

Se olhar a sua volta, poderá encontrar a face de Allah em cada pequena coisa.
Ele não se esconde numa igreja, mesquita ou sinagoga, mas se espalha sobre tudo que há.

Ninguém vive após vê-lo face a face.
Ninguém morre após vê-lo face a face.
Aquele que o encontra, permanece com ele
na Eternidade.

 

[Eternidade]

O passado é uma interpretação. O futuro, uma ilusão.
O mundo não se move pelo tempo como numa linha reta,
do passado ao futuro;
na realidade é o tempo que flui através de nós,
em infindáveis espirais de percepção.

Eternidade não significa tempo infinito,
mas simplesmente a ausência de tempo.
Se você deseja viver a iluminação eterna,
tire de sua mente o passado e o futuro,
e viva este momento.

[Céu e Inferno]

Não busque pelo Céu
nem tema o Inferno no futuro:
ambos já estão aqui presentes.

Sempre que conseguimos amar sem expectativas,
sem barganhas ou negociações,
nós já estamos no Céu.

Sempre que deixamos o ódio nos dominar,
e colocamos barreiras entre nossos corações,
nós já estamos no Inferno.

 

[Santidade]

Eles dizem que eu sou um santo.
Eu respondo: “Que seja, mas o que isso me traz de felicidade?”

Se eu me orgulhasse da santidade,
já não seria santo.
Mas se alguém observa com atenção
os princípios do Corão e os ditos do Profeta,
ele já estará envolto em santidade.

Assim, eu faço parte da santidade do santo,
do amor do Amado,
e sigo sempre constante em meu caminho.

 

Veja mais poemas de Shams de Tabriz em nosso próximo livro sobre Rumi, que deve ser lançado até o final de 2021 (em e-book e versão impressa):

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Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Mausoléu de Shams em Khoy, no Irã); [ao longo] Google Image Search; Rafael Arrais e svklimkin/unsplash license (capa do livro).

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4.6.21

Poemas de Rabia

Rabia Basri foi uma santa dos primórdios do sufismo, o misticismo do Islã. Sua poesia avassaladora influenciou diretamente grandes místicos sufis que lhe sucederam, como Farid ud-Din Attar e Jalal ud-Din Rumi. Eu conto mais sobre as lendas da sua vida em outro artigo.

Aqui trago apenas alguns dos seus poemas, que farão parte do meu próximo livro sobre Rumi, intitulado Rumi – Além das ideias de certo e errado (veja a capa ao final):

 

[Se eu lhe adorar pelo medo do Inferno]

Se eu lhe adorar pelo medo do Inferno,
me queime no Inferno;
se eu lhe adorar pelo anseio do Paraíso,
me expulse do Paraíso;
mas se eu lhe adorar pelo que você é,
não esconda de mim a sua face!

 

[Minha paz]

Irmãos, minha paz é minha solitude.
Meu Amado está a sós comigo nessa paz,
ele sempre esteve.

Em todas as terras e mundos,
jamais encontrei nada
que fosse equivalente ao seu amor:
este amor que arrasta as montanhas
das areias do meu deserto.

Se eu fosse morrer de desejo,
e meu Amado ainda não estivesse satisfeito,
o meu desespero seria eterno.

Abandonar tudo o que ele criou,
mas agarrar firme em minhas mãos
a prova derradeira de que ele sempre me amou:
é esse o nome e o destino da minha busca.

 

[A porteira]

Eu tenho todas as qualificações para trabalhar como porteira, e essas são as razões:

O que está dentro de mim, eu não deixo sair.
O que está fora de mim, eu não deixo entrar.

E se alguém adentra meu território,
logo mais sai outra vez.
Eu não lhe digo respeito, ele não me diz respeito;
pois eu sou uma Porteira do Coração,
não um bocado de argila molhada.

[Outra noite se vai]

Ó Amado, outra noite se vai,
outro dia se eleva.
Me diga se minha conduta foi boa esta noite,
para que eu possa estar em paz;
ou se foi mais um dia perdido,
para que eu possa chorar o que foi perdido.

Eu juro que desde o primeiro dia
em que você me trouxe de volta à vida,
desde que tornou-se meu Amado,
eu não dormi outra vez.

E ainda que você me enxote da sua porta,
eu juro que jamais iremos nos separar de novo,
pois em meu coração você arde,
em meu coração você vive
para sempre.

 

[Em minha alma]

Em minha alma
há um templo, um santuário, uma mesquita, uma igreja
onde eu me ajoelho.

A oração deveria nos levar a um altar
onde não existem
nem muros nem nomes.

Acaso não há uma região do amor
onde o altar real sequer é iluminado pelas velas,
onde o êxtase derrama-se em si mesmo
e se perde,
onde as asas estão plenamente vivas,
mas já não possuem nem mente
nem corpo?

Em minha alma
há um templo, um santuário, uma mesquita, uma igreja
que se dissolvem...

Neste momento
onde eu me ajoelho
todas as construções se dissolvem,
tudo se dissolve
em Allah.

 

Veja mais poemas de Rabia em nosso próximo livro sobre Rumi, que deve ser lançado até o final de 2021 (em e-book e versão impressa):

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Crédito das imagens: [topo] Light in Babylon (Michal Elia Kamal); [ao longo] Lance Gerber/Desert X Al Ula; Rafael Arrais e svklimkin/unsplash license (capa do livro).

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28.9.20

Rabia Basri, a santa dos primórdios do sufismo

Conta a lenda que no século VIII, num pequeno vilarejo próximo a atual Basra, cidade no extremo sul do Iraque, uma mulher foi vista circulando pela viela principal segurando um lampião numa mão e um vaso d’água na outra. Veio então um mercador e lhe perguntou o que diabos ela estava fazendo, uma vez que a mulher parecia enxergar algum outro mundo que os demais não podiam ver. Ela respondeu:

“Eu quero apagar as chamas do Inferno e botar fogo no Paraíso.”

O mercador, que felizmente não era lá tão religioso ao ponto de ficar transtornado com aquela resposta, ainda assim procurou saber o motivo dela, ao que a mulher a sua frente complementou:

“O Paraíso e o Inferno estão bloqueando meu caminho até Allah. Se eu devo adorá-Lo por temor do Inferno, que eu queime no Inferno. Se eu devo adorá-Lo pelas recompensas prometidas no Paraíso, que eu seja expulsa dele para sempre. Mas, se já não existirem nem Inferno nem Paraíso, então que eu possa adorá-Lo por quem Ele é, e que Ele não esconda mais de mim a sua face, e que já não haja nada mais além de Ishq-e Haqeeqi [amor verdadeiro].”

Ishq-e Haqeeqi, o amor real e verdadeiro, o amor de Allah, onde todos os místicos buscam mergulhar, é uma palavra árabe que define os primórdios do sufismo, o misticismo do Islã. A tal mulher da história é Rabia Basri, santa sufi que influenciou diretamente diversos místicos e poetas posteriores, desde Farid ud-Din Attar a Jalal ud-Din Rumi.

Muito pouco se sabe sobre ela, e muitos dos poemas a ela atribuídos podem muito bem ser da autoria de terceiros. Neste caso, as lendas em torno da sua existência – isto é, a sua mitologia – provavelmente contam mais do que a sua vida real. Mesmo o seu nome, Rabia Basri, significa algo trivial: algo como “a quarta (rabi’a) filha da família, residente de Basra”. No entanto, considerar que uma mulher pobre, camponesa, iletrada, que jamais deixou algo escrito, e que viveu nos primórdios do Islã, ainda assim possa ter influenciado de tal forma o sufismo, e sido reconhecida como santa ainda em vida, diz o tanto que Rabia foi especial.

Segundo o mito, sua família não teve condições de sobreviver intacta durante um longo período de secas e fome, de modo que Rabia eventualmente foi vendida como escrava. Então, ela fazia a faxina e ajudava a cuidar da casa do seu mestre, e todas as noites, sem exceção, rezava em meditação profunda. Desde cedo, ela buscava estar no amor de Allah (no “campo além das ideias de certo e errado”, como definiu Rumi, o célebre poeta sufi, séculos depois). Uma bela noite, seu mestre se dirigiu até seu quatro para espiá-la – quem sabe, pelo fato dela já estar mais crescidinha –; e percebeu, estupefato, que uma luz irradiava dela enquanto rezava a Allah. Na manhã seguinte, decidiu declará-la livre, possivelmente por temer alguma punição divina por manter uma santa em cativeiro.

Assim Rabia se tornou uma mística e asceta em pleno Islã do século VIII. Não há muitas informações confiáveis acerca de como se manteve solitária e supostamente virgem num brutal mundo de homens. Mas há uma outra história, um pouco mais confiável por ter sido contada por um sábio reconhecido de sua época, que pode jogar alguma luz sobre o tema.

Antes de chegarmos a ela, é preciso considerar um problema de datas. Hasan al-Basri foi um teólogo sufi que viveu boa parte da vida naquela mesma região. No entanto, ele nasceu em 642 e morreu no ano 728, ao passo que Rabia supostamente nasceu entre os anos 714 e 718 e morreu no ano 801. Quando Hasan encontrou-se com Rabia, certamente era um ancião no fim da vida; Rabia, porém, muito provavelmente já não era mais uma pré-adolescente. Assim, talvez ela tenha nascido pelo menos uma década antes das datas consideradas mais aceitas. Bem, pelo menos se considerarmos a história de Hasan verdadeira. Vamos a ela:

"Eu passei a noite inteira e a manhã seguinte com ela. Em nenhum momento passou pela minha mente que ali, em sua presença, eu era um homem, tampouco que ela era uma mulher. Quando a vi a primeira vez, eu percebi que meu espírito estava falido, que eu era como um mendigo; enquanto ela, ela era a pessoa mais rica que eu já havia encontrado."

O relato de Hasan se refere a uma noite em que se dirigiu a tenda de Rabia em busca de um genuíno diálogo entre místicos. É preciso ressaltar que um teólogo sufi como Hasan não fazia votos de celibato. Isso quer dizer, obviamente, que ele não tinha nenhuma obrigação de negar seus instintos sexuais. No entanto, quando passou uma noite só numa tenda com uma mulher muito mais jovem do que ele, “em nenhum momento passou por sua mente que ele era um homem e ela era uma mulher”. Talvez isso explique como Rabia passou a vida inteira solitária: nenhum pretendente, ante sua presença, parece ter conseguido levar adiante alguma proposta de casamento – ela já estava “casada” com Allah, era algo até mesmo óbvio.

Assim, Rabia passou toda a vida voltada para o convívio íntimo com Allah, em todos os momentos. Ao ponto de, ao morrer, perto dos oitenta e poucos anos de idade, ter em suas posses tão somente um tapete de junco, um manto, um jarro de cerâmica e um colchão que também lhe servia para rezar e meditar. Afinal, para ela, tudo parecia se dissolver em Allah, ela nunca precisou de nada além Dele:

Em minha alma
há um templo, um santuário, uma mesquita, uma igreja
onde eu me ajoelho.

A oração deveria nos levar a um altar
onde não existem
nem muros nem nomes.

Acaso não há uma região do amor
onde o altar real sequer é iluminado pelas velas,
onde o êxtase derrama-se em si mesmo
e se perde,
onde as asas estão plenamente vivas,
mas já não possuem nem mente
nem corpo?

Em minha alma
há um templo, um santuário, uma mesquita, uma igreja
que se dissolvem...

Neste momento
onde eu me ajoelho
todas as construções se dissolvem,
tudo se dissolve
em Allah... [1]

Quando Hasan faleceu, toda Basra se mobilizou em seu funeral. Afinal, tratava-se de um proeminente teólogo. Anos mais tarde, na morte de Rabia, provavelmente a comoção foi consideravelmente menor. Apesar de santa, Rabia era uma mulher, e a menos que fosse alguma rainha ou princesa, não havia motivos para realizar um funeral tão luxuoso para uma mulher. Foi o próprio Hasan quem disse, no entanto, que perto dela ele era “um mendigo”, e ela era “a pessoa mais rica que já havia encontrado”.

Os místicos sabem reconhecer a verdadeira riqueza. Ishq-e Haqeeqi, como somente ela soube (tentar) descrever:

Neste amor, não há nada se interpondo
entre um coração e outro.

O querer falar nasce da saudade,
a verdade acerca do real sabor da vida.
Aquele que o provou, sabe;
aquele que tenta explicá-lo, mente...

Como você poderia descrever a verdadeira forma de Algo
em cuja presença você se torna um borrão?
E em cujo Ser você ainda existe e perdura?
E que vive como um signo eterno para a sua jornada? [1]

***

[1] Poema atribuído a Rabia Basri (tradução de Rafael Arrais).

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] Wikipedia (representação de Rabia moendo grãos; retirada de um dicionário persa).

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29.10.19

Rumi, Shams e o Segredo de Allah

Neste vídeo falaremos sobre o grande encontro místico entre o poeta sufi Jalal ud-Din Rumi e o andarilho misterioso Shams de Tabriz, que ficou conhecido na tradição do sufismo, o misticismo islâmico, como o encontro de dois oceanos. Ao final, recito um poema de Rumi.

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22.10.19

O encontro de dois oceanos

Conta a lenda que no dia 28 de novembro de 1244 em Konya, na atual Turquia, numa região que era então conhecida como Rum (ou Sultanato de Rum), o grande teólogo islâmico Jalal ud-Din Rumi, herdeiro espiritual da tradição do próprio pai, Baha’ud Din Walad, ensinava a cerca de uma ou duas dúzias de discípulos às margens de um pequeno lago da região, sob o sol da tardinha persa.

Do próprio pai, Rumi aprendeu teologia e os cânones da literatura clássica árabe. De um dos discípulos do pai, por cerca de uma década aprendeu todos os segredos do chamado “conhecimento inspirado”, a fonte para se trilhar a via mística. No entanto, aquela altura, já perto dos 40 anos, ele era mais conhecido como um mestre da filosofia, da poesia clássica, da teologia, da jurisprudência e da moral – muito mais um propagador de conhecimentos, sejam intelectuais ou espirituais, do que propriamente um místico. Isso estava para mudar naquele dia...

Vindo pela estrada que beirava a margem do lago onde estavam, surgiu um andarilho de idade relativamente avançada, envolto num manto negro de feltro ordinário, com sapatos um tanto desgastados, que aparentava carregar consigo o pouco que necessitava para cruzar grandes distâncias a pé. Seu olhar era ao mesmo tempo atraente, magnético, inquisitivo e assustador, de modo que antes que ele abrisse a boca, a aula já havia sido interrompida. Quando ele falou, apontando para a pilha de livros ao lado de Rumi, tinha a atenção de todos os presentes:

“O que há nesses papeis?”

“Aqui só há palavras,” – respondeu Rumi – “em que podem lhe interessar?”

O andarilho, que agora mais de perto se via claramente tratar-se de um sufi (isto é, uma espécie de místico asceta nômade), simplesmente caminhou até ao lado de Rumi, apanhou a pilha de livros e, num rompante repentino de aparente insanidade, atirou tudo nas águas do lago!

Rumi levantou-se, furioso, e o repreendeu:

“Você faz ideia do que fez? Alguns desses livros continham manuscritos importantes de meu pai, que não se encontram copiados em nenhum outro lugar!”

Então, para espanto de todos os presentes, que o testemunharam à posteridade, o sufi se encaminhou até a beirada do lago e, entoando uma espécie de cântico meditativo, de alguma forma fez com que os ventos soprassem em sua direção, trazendo todos os livros de volta para a margem. Ele os recolheu e levou de volta a Rumi. Para a surpresa geral, estavam perfeitamente secos.

“Qual é o segredo envolvido nisso?” – indagou o teólogo.

“Aqui só há êxtase espiritual,” – respondeu o sufi – “em que pode lhe interessar?”

Antes que pudesse refletir sobre a enigmática resposta, Rumi constatou que os manuscritos do pai estavam em branco:

“Ei! Mas as palavras de meu pai sumiram; faça com que elas retornem, feiticeiro!”

“Jalal ud-Din, deixa para trás as palavras de seu pai, elas já tiveram a sua utilidade. Agora é hora de escrever as suas próprias palavras.”

“Como sabe meu nome?”

“Meu antigo mestre, em Tabriz, me disse que em Konya vivia um grande conhecedor da nossa religião islâmica, que já havia cruzado seu caminho com Farid ud-Din Attar e Ibn Arabi, e que hoje vivia enjaulado numa gaiola de palavras. Então eu, que também sou conhecido como parinda [o pássaro, ou o voador] resolvi vir até aqui para libertar outro pássaro.”

Desde esse dia, enquanto ambos estiveram livres para tal, Jalal ud-Din Rumi e aquele sufi andarilho, chamado Shams de Tabriz, jamais deixaram de dialogar sobre Allah, sobre o amor, sobre a via mística, enfim: sobre tudo o que não se encontra nas palavras e nos livros. Tal conjunção de almas ficou conhecida na tradição do sufismo como “o encontro de dois oceanos”.

Shams se recusava a dar maiores detalhes da sua história de vida. Uns dizem que a sua família era ismaelita, uma vertente dissidente e minoritária do Islã, e costumavam se passar por loucos ou tolos, talvez de modo a não levantar maiores suspeitas sobre suas práticas religiosas heterodoxas. Outros afirmam que ele era originalmente um membro da tribo dos Hashishins da Síria, liderada pelo lendário Alaodin, “O Velho da Montanha”, cujas práticas religiosas admitiam variadas formas de estados alterados de consciência, principalmente através da dança. Ora, mais tarde, privado da companhia de Shams, Rumi iria desenvolver um método de dança mística rodopiante conhecida como sama, que mais tarde seria aperfeiçoada pelo seu filho mais velho – talvez ele a tenha aprendido de Shams, ou talvez tenha sido indiretamente influenciado por ele.

Fato é que, uma vez privados das aulas de seu mestre, que agora passava seus dias e suas noites na companhia inseparável daquele estranho andarilho místico, dialogando sobre assuntos que não se liam em nenhum livro, os discípulos de Rumi tramaram para afastá-los. Na primeira vez em que Shams deixou Konya na surdina, temendo causar maiores problemas naquela comunidade, Rumi iniciou a sua jornada pela poesia mística, motivo principal por ser celebrado até hoje, no mundo árabe e fora dele. Desesperado ante a ausência do amigo, Rumi começou a lhe endereçar belíssimas cartas em formato poético, até o dia em que conseguiu convencê-lo a retornar de Damasco, onde havia residido durante a sua ausência.

Ante tal insistência, no entanto, os discípulos resolveram assassinar Shams, e enterrá-lo num poço da região. Com a ausência derradeira do amigo, Rumi começa a dançar em transe, recitando os poemas que o imortalizaram, todos eles cuidadosamente anotados pelos seus discípulos (quiçá alguns deles os próprios assassinos de Shams)...

Não importa, os dias e as noites em que eles passaram juntos estão hoje marcados na Eternidade, pois poucas vezes se viu na história humana dois místicos que se complementassem tão bem um ao outro: Rumi, o teólogo ortodoxo que, não obstante, dissolveu-se inteiramente nas profundidades do Amor; e Shams, o santo andarilho de origens incertas e nebulosas, cuja estatura espiritual ofuscava a todos, como o Sol.

Quando [finalmente] encontrei Rumi, a primeira condição foi de que não me apresentasse como um mestre. Allah ainda não criou o homem que possa ser como um mestre para ele. Eu tampouco estou em condições de ser o discípulo de alguém, já estou muito além dessa etapa. (Shams de Tabriz, Maqalat, 33)

Eu tinha em Tabriz um mestre espiritual, Abu-Bakr, e foi dele que obtive todas as santidades. No entanto, havia em mim algo que meu mestre não pôde ver; de fato, ninguém era capaz de vê-lo. Mas Rumi o viu.
Eu era água estagnada, fervendo e entornando-me sobre mim mesmo e já começando a cheirar mal, até que a existência de Rumi me encontrou; então aquela água começou a correr e continua correndo doce, fresca, saborosa. (Shams de Tabriz, Maqalat, 245-246)

***

O amor não é condescendência,
nem livros ou qualquer marca em papel,
nem o que uma pessoa diz para a outra.

O amor é uma árvore
com seus galhos se elevando ao Alto,
suas raízes se aprofundando na Eternidade
e nenhum tronco!

Você o viu?
A mente é cega para ele.
Seu desejo é incapaz de observá-lo.
A saudade que sente desse amor
vem do seu interior.

Quando se tornar o Amigo,
sua saudade será como o náufrago no oceano
agarrado a um pedaço de madeira...

Eventualmente, madeira, homem e oceano
se tornam um ser ondulante:
Shams de Tabriz, o segredo de Allah.

(Jalal ud-Din Rumi)

***

Crédito das imagens: Google Image Search

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28.3.19

As Canções de Kabir

Rabindranath Tagore foi o primeiro não ocidental a vencer o Prêmio Nobel de Literatura, em 1913, e também o único ser humano responsável pela composição do hino nacional de duas nações: Índia e Bangladesh. Tagore foi um dos maiores poetas do Oriente, e aquele que conferiu o título de “Mahatma” (grande alma) a Gandhi. Mas este artigo não quer tratar de Tagore ou de sua poesia, e sim da sua grande fonte de inspiração: um homem, um poeta, uma lenda conhecida simplesmente como Kabir (“Grande”, em árabe).

Pouco se sabe da sua história com exatidão além de que viveu a maior parte da vida na cidade de Varanasi, no nordeste da Índia, durante o século XV (e início do XVI). Varanasi, às margens do Ganges, é uma das principais cidades do hinduísmo, e uma das cidades continuamente habitadas mais antigas da humanidade, com pelo menos 3 mil anos.

Tendo nascido aproximadamente em 1440 nos arredores de Varanasi, e morrido aproximadamente em 1518 na cidade próxima de Mughar, Kabir passou toda a vida sob o domínio islâmico do Sultanato de Delhi (1206-1526), que no entanto era consideravelmente tolerante para com as práticas hindus. Apesar de possuir um nome árabe, Kabir sempre desdenhou dos rótulos religiosos e das castas sociais, tanto que é até hoje considerado islâmico e hindu ao mesmo tempo (o que, mesmo naquela época, já era algo incomum).

Muito bem, a partir deste ponto, a realidade se confunde com a lenda... Segundo a tradição, Kabir nasceu numa família que professava o hinduísmo, pertencente à casta dos brâmanes (a mais “elevada” delas, reservada aos sábios e sacerdotes). Porém, seu pai morreu cedo e a sua mãe, sem ter condições de educá-lo, o ofereceu em adoção. Kabir foi adotado e educado por um casal de muçulmanos relativamente pobres, o tecelão Niru e sua esposa Nima. Naquele tempo, como ainda hoje, a comunidade islâmica de Varanasi dominava a produção e o comércio de tecidos finos. Assim sendo, Kabir alcançou cedo a maestria na arte da tecelagem, e durante o restante da vida trabalhou com ela.

Quando seu pai adotivo morreu, Kabir assumiu o seu posto como tecelão e vendedor de tecidos, de onde tirava o pálido sustento dele e da mãe. Durante o trabalho, no entanto, entrava frequentemente em êxtase místico e, assim absorto noutros mundos, tecia peças fora da medida ou era facilmente roubado por ladrões quando as expunha no mercado. Era necessário que ele disciplinasse tal vocação espiritual, e foi assim que procurou ajuda no ashram de Ramananda, um dos maiores expoentes da bhakti yoga no hinduísmo da época.

Felizmente, Ramananda também foi um dos primeiros grandes mestres daquele tempo a aceitar discípulos de todas as castas e credos. Tomando contato com aquele jovem tecelão, não se importou que fosse pobre e vindo de família islâmica: viu, em seus olhos, toda a sua potência espiritual, e logo o acolheu.

Sob a generosa tutela deste grandioso mestre, Kabir em poucos anos veio a alcançar ele mesmo o status de santo e sábio, reconhecido por muitos discípulos e inúmeros admiradores (inclusive advindos do islamismo). Mas a lenda de Kabir vai além: mantida em sigilo por séculos, a informação de que ele também teria sido instruído por outro mestre foi revelada por Paramahansa Yogananda (1893-1953) em sua célebre autobiografia. Segundo nos revelou Yogananda já no século XX, Kabir também teria sido instruído por Bábaji, um lendário iogue de sua época (considerado por muitos hindus como “o maior dos iogues perfeitos”).

A conexão de Kabir com grandes místicos do seu século não termina aí. No siquismo se diz que Kabir também foi uma das inspirações do próprio guru Nanak (1469-1539). A poesia de Kabir também encontra paralelos evidentes tanto com o misticismo hindu (sobretudo a bhakti yoga) quanto com o sufismo, o misticismo islâmico.

Assim sendo, não surpreende que Tagore, não mais do que dois anos após alcançar o reconhecimento ocidental com o seu Nobel, tenha se dedicado a selecionar e traduzir poemas de Kabir para o inglês. Através desta obra, Songs of Kabir (As Canções de Kabir), o grande poeta de Varanasi foi finalmente conhecido no Ocidente.

Antes de lhes apresentar trechos deste livro, resta-nos ainda uma última lenda (ou anedota) por contar:

Quando Kabir morreu, tanto os hindus quanto os muçulmanos o reivindicaram como deles e houve uma disputa para cremar ou enterrar seu cadáver. Os hindus queriam cremá-lo conforme a sua tradição e os muçulmanos queriam enterrá-lo, seguindo seus costumes. Há uma história popular a respeito de sua morte, que é ensinada como evento histórico em muitas escolas indianas: ela conta que quando abriram o caixão para disputar o corpo, lá encontraram um livreto sobre sua filosofia desdenhando tanto as crenças hindus quanto as islâmicas, e um buquê com suas flores favoritas! O corpo do santo havia desaparecido e nunca jamais foi encontrado.

Agora sim, para encerrar, algumas canções de Kabir (na tradução de Rafael Arrais):

IV.

Não vá até o bosque!
Ó meu amigo, não vá!

Em seu corpo
existe o bosque, cheio de flores...
Tome o seu lugar
numa das milhares de pétalas da lótus,
e então contemple
a Beleza Infinita.


XIV.

O rio e suas ondas
fluem como um só:
qual a diferença entre eles?

Quando se eleva a onda,
ela é a água;
e quando ela rebenta,
ainda é a mesma água...
Diga-me, ó senhor,
onde está a diferença?

Se acaso a chamaram "onda",
não pode mais ser chamada "água"?

Nas mãos de Brama,
os mundos estão sendo contados
um a um, como as contas de um rosário:
contemple-o com os olhos da sabedoria.


XVI.

Entre os polos da consciência e da inconsciência,
lá a mente fez a sua oscilação:
neste movimento se sustentam todos os seres e todos os mundos,
e este pêndulo jamais deixa de oscilar.

Milhões de seres estão lá;
o sol e a lua e os seus cursos estão lá.
Passam-se milhões de anos,
e seu movimento persiste...

Tudo em fluxo!
O céu e a terra e o ar e a água,
e o próprio Lorde tomando forma:
foi esta a visão que fez de Kabir um servo.


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***

Bibliografia
The Songs of Kabir, trad. Rabindranath Tagore (diversas editoras); Kabir: 100 Poemas, trad. José Tadeu Arantes (Attar Editorial); Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] Joel L.

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9.10.18

Pedras preciosas

Irfan já não aguentava mais tanto calor. Secretamente, rezava para que Allah fizesse com que a noite se derramasse logo no Saara. Sempre ouvira falar daquela distinta linha de trem que cruzava o maior deserto do planeta, mas nunca achou que um dia poria os pés na Mauritânia. Mas trabalho é trabalho, e ele precisava representar a empresa de peças de mineração francesa, que tinha enorme interesse no desenvolvimento da colônia.

Pelo menos aquele país quase que inteiramente plano possibilitava que a linha férrea fosse reta, tão reta que o trem quase não chacolejava. Além da praga e da súplica contra o calor que ele ouvia em sua própria mente, dizendo para si mesmo, tudo o que havia a volta eram pequenas e breves conversas em árabe e berbere; quase nenhum francês podia ser ouvido – o que o convenceu a se resignar com a solidão da viagem. Recostou a cabeça na janela e, contemplando a linha do horizonte que separava o amarelo e o azul semi-infinitos, dormiu.

O que ele se lembrou, em seguida, foi de ter ouvido uma voz doce e suave, reverberando em sua cabeça: “Irfan, venha! Há pedras preciosas no deserto, venha pegá-las!”

Acordou de um pulo, e pôde ver que já era noite, e o calor havia arrefecido e cedido lugar a um friozinho até mesmo agradável. Mas estava escuro, muito escuro dentro do trem. Nenhuma luz funcionava. Viu que os outros passageiros estavam tão assustados quanto ele. Tentou ligar sua lanterna, sem sucesso. Parecia que toda a luz do mundo havia sido retirada, o que restava era um breu noturno, com a parca luminosidade de uma lua crescente.

Irfan, venha! Há pedras preciosas no deserto, venha pegá-las!”

Desta vez ouviu acordado, e poderia jurar que todos os demais passageiros no trem ouviam exatamente a mesma coisa, quiçá cada um em seu próprio idioma. Colocou de novo a cara no vidro da janela: lá fora era tão escuro que, houvesse mesmo pedras preciosas em meio a tanta areia, seria impossível saber de longe. Teria de sair do trem.

“Irfan, venha! Há pedras preciosas no deserto, venha pegá-las!”

O trem, inexplicavelmente, foi parando lentamente no meio do Saara. Não havia cidade alguma nas imediações, e o sistema de som tampouco funcionava. Parecia uma pane geral. Mas, por que tudo estava tão estranhamente escuro? E aquela voz, de onde teria vindo? Seria Allah?

Irfan foi interrompido pelo som da abertura da porta do vagão. Havia uma pessoa se aventurando no deserto! Ele observou que ela encheu os bolsos de areia e logo retornou... Que maluquice!

Logo, outros passageiros resolveram fazer o mesmo. Eram minoria no vagão, mas observando as silhuetas humanas contra a luz do luar, parecia óbvio que pessoas dos demais vagões também resolveram descer e apanhar areia. Irfan observou que no seu próprio vagão menos da metade havia descido. “Descer para pegar areia?” – pensou consigo mesmo – “E se o trem partir? Mas e se... e se não for somente areia?”

Resolveu descer. Afinal, não se cruza o deserto de trem toda hora. Pegou um punhado de areia nas mãos, mas estava escuro demais para perceber qualquer pedra preciosa ali. O jeito seria guardar nos bolsos para analisar na manhã seguinte...

Enquanto enchia os bolsos de areia, percebeu que havia um casal que trouxe suas próprias malas para fora do vagão, e estavam jogando a roupa toda fora. Achou aquilo tudo tão inusitado que foi falar com eles, tentando ver se entendiam francês.

“Sim meu senhor, eu e minha amada já viajamos pela Europa, conhecemos francês, inglês e até mesmo um pouco de alemão. Me chamo Asik, e esta é a bela Duniazade.”

“Mas por que estão se desfazendo das suas roupas?”

“Ora, você não escutou a voz? Se esta areia estiver cheia de pedras preciosas, o que seria toda a nossa bagagem perto de tamanha preciosidade? E, se tudo o que houver for somente areia, compramos roupas novas na próxima parada!”

Aquele homem pareceu tão louco que Irfan ficou por um momento atônito. Resolveu se despedir e retornar para seu assento no vagão. “Devo eu mesmo ser um pouco louco, afinal estou com os bolsos cheios de areia” – pensou, e logo dormiu novamente, quando o trem retornou ao movimento. Estava um clima agradável, e por isso dormiu com um sorriso, pois Allah havia atendido sua prece contra o calor.

Na manhã seguinte, acordou com gritos efusivos de comemoração.

“Ricos, estamos ricos!” – foi o que Irfan pôde compreender do árabe.

Logo, retirou o punhado de areia de um dos bolsos. Sob o brilho do sol, pôde ver esmeraldas verdejantes e grandiosos rubis. Allah é grande.


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***

Comentário
Ouvi este conto, de maneira bem mais resumida, da boca de um sheikh sufi da Ordem Naqshbandi.

A vida é como uma viagem de trem. Entre uma e outra parada, temos a oportunidade de colher pedras preciosas. Disse Isa (Jesus) no Evangelho de Tomé que “o Reino está espalhado pela Terra, mas os homens não o veem” – isto é, tudo o que um místico faz é desenvolver olhos para contemplar o Reino. As pedras preciosas não são esmeraldas e rubis reais, mais metáforas para o conhecimento de Allah, o autoconhecimento, a gnose do Amor.

Quando o trem para em meio ao deserto, e está estranhamente escuro, nem todos têm coragem de descer e seguir a voz em sua mente (ou coração). Já aqueles que estão dispostos a trocar as quinquilharias de suas bagagens por tais pedras espirituais, estes são ainda bem mais raros. Eles não somente contemplaram o Reino espiritual, como verdadeiramente se desapegaram do mundo.

O Reino espiritual e o mundo também podem ser uma coisa só. Tudo o que se modifica é a nossa maneira de enxergar. Ou, como bem resumiu Jalal ud-Din Rumi:

A alma é a fonte,
e as coisas criadas, os rios.
Enquanto a fonte jorra, correm os rios.
Tira da cabeça todo o pesar
e sorve aos borbotões a água deste rio.
Que a água não seca, ela não tem fim.

***

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Crédito da imagem: Google Image Search

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