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18.4.16

Anjos Fósseis, por Alan Moore (parte 3)

« continuando da parte 2 (ler do início)

Por Alan Moore. Tradução de Daniel Lopes, revisão e comentários de Rafael Arrais.

Em termos culturais ocultistas, vida nova é equivalente a novas ideias. Girinos conceituais, recém-nascidos e se contorcendo, possivelmente venenosos, essas pestes de cores vivas devem ser estimuladas em nosso novo ecossistema imaterial, para que este floresça e permaneça saudável. Vamos atrair as pequenas ideias vibrantes, de brilho neon porém sutis, e as grandes ideias mais resistentes que se alimentam delas. Se tivermos sorte, o frenesi alimentar poderá chamar atenção dos grandes paradigmas raptores que atropelam tudo e sacodem a terra. Noções ferozes, da minúscula bactéria ao incrivelmente grande e feio, confinados sem supervisão em uma luta por sobrevivência gloriosa e sangrenta, uma espetacular operação cataclísmica Darwiniana.

As doutrinas mancas se encontram incapazes de superar o primoroso argumento assassino cheio de dentes. Dogmas mastodontes, anciões decaindo na cadeia alimentar, se envergando e desfalecendo sob seu próprio peso para fazer uma refeição, para que então carniceiros vendedores de memorabilia, moscas zombeteiras de salas de bate-papo venham de qualquer lugar depositar seus ovos. Trufas meméticas crescendo sobre o musgo e esterco de Aeons em decomposição. Revelações vivas brotando como London Rocket [planta, nome científico: Sisymbrium irio] selvagem, crescendo abandonadas em um campo minado. Arcádia Pânica, chifruda, assassina e saltitante. Seleção sobrenatural. Os mais fortes e bem adaptados teoremas estão propícios a proliferar e prosperar, o resto é sushi. Isto é com certeza uma Thelema Hardcore em ação, além de representar um autentico e produtivo Chaos Old-skool que poderá aquecer os corações de qualquer Thanateiróide. É difícil ver como a magia enquanto campo de conhecimento possa trazer outra coisa de tão vigorosa aplicação de processo evolutivo se não benefícios.

Por um lado, ao aceitar um meio menos cultivado e refinado, onde a concorrência pode ser feroz e barulhenta, a magia estaria fazendo não mais do que se expor às mesmas condições no que diz respeito aos seus dois parentes mais bem aceitos socialmente: ciência e arte. A apresentação de uma nova teoria para explicar a ausência de massa no universo, ou apresentar alguma instalação conceitual para o prêmio Turner sem dúvidas de que sua obra vai ser submetida ao escrutínio mais intenso, fortemente hostil e possivelmente de um grupo rival. Cada partícula de pensamento que desempenhou um papel na construção do seu projeto vai ser desconstruída e examinada. Somente sem nenhuma falha encontrada o seu trabalho será acolhido no cânone cultural. Com toda a certeza cedo ou tarde seu projeto de estimação, sua teoria de estimação, será banalizada e vai acabar virando decoração de paredes manchadas das velhas e impiedosas arenas públicas. É assim que deve ser. Suas ideias provavelmente se transformam em acidente de percurso, mas o próprio campo é reforçado e aprimorado por essas tentativas incessantes. Ele avança e sofre mutações. Se o nosso objetivo é verdadeiramente o avanço do panorama da magia (e não o avanço de nós mesmos como instrutores), como alguém poderia se opor a tal processo?

A menos é claro que um avanço dessa natureza não seja o propósito real, o que nos traz de volta a pergunta feita anteriormente: o que exatamente estamos fazendo e por que estamos fazendo? Sem dúvida, alguns de nós estamos engajados na busca legítima pelo entendimento, mas isso nos leva de volta à questão do porquê. Temos a intenção de usar essa informação de alguma maneira, ou foi acumulada somente em benefício próprio, para nossa satisfação particular? Foi uma busca por reconhecimento, onde alguns poderiam ter alcançado mais facilmente em uma área como ocultismo, onde convenientemente não há padrões mensuráveis sob os quais podemos julgar uns aos outros? Ou será que nos inclinamos à definição de Crowley de que magia é realizar mudanças por meio da vontade, o que quer dizer alcançar alguma medida de poder sobre a realidade?

A última seria, um palpite, a que fornece o motivo que é mais popular atualmente. A ascensão da Magia do Caos na década de 1980 centrada em uma série de promessas de campanha, a mais notável delas a oferta de um sistema de magia baseado em resultados e que era prático e fácil de usar. O desenvolvimento único e altamente pessoal de Austin Spare, o Sigilo Mágico, foi nos dito ser facilmente adaptável para uso universal, fornecendo uma maneira simples e infalível de que o desejo do coração de alguém poderia ser fácil e imediatamente cumprido. Pondo de lado a questão “isso é real?” (e a dúvida subsequente: “se for, por que seus defensores ainda continuam suas rotinas diárias de trabalho, em um mundo progredindo em sentido contrário aos desejos dos corações de qualquer um, a cada semana que passa?”), talvez devêssemos nos perguntar se o prolongamento dessa atitude pragmática, causal para com o trabalho oculto, seja mesmo um uso digno de magia.

Sejamos honestos, a maior parte da feitiçaria causal tal como é praticada provavelmente é feita na esperança de realizar alguma mudança desejada em âmbito grosseiro e material. Em termos reais, isso provavelmente envolve pedidos de dinheiro (mesmo Dee ou Kelley não estavam pedindo aos anjos acima um trocado de vez em quando?), pedidos por alguma forma de gratificação emocional ou sexual, ou talvez, em algumas ocasiões, um pedido para que aqueles que nos menosprezaram ou nos ofenderam sejam punidos. Nessas circunstâncias, mesmo em um cenário não tão cínico onde o propósito da magia seria, por assim dizer, interceder por um amigo pela recuperação de uma doença, não podemos alcançar esses objetivos de forma muito mais efetiva e honesta apenas resolvendo essas coisas em plano material e não divino?

Se, por exemplo, é dinheiro que almejamos, por que não seguir o exemplo legítimo de Austin Spare (quase o único dentre os magos que parece ter visto o uso da magia para atrair riqueza como uma anátema) considerando tais preocupações? Se for dinheiro que queremos por que não podemos levantar magicamente nossas bundas gordas, magicamente trabalhar pelo menos uma vez na nossa sedentária vidinha mágica, e vemos se as moedas requisitadas não aparecem magicamente algum tempo depois em nossas contas bancárias? Se for o afeto de alguma paixão não correspondida o que estamos buscando, então a solução é ainda mais simples: jogar boa noite cinderela em sua bebida e estupra-la [1]. Afinal, a miséria moral do seu ato não será pior e pelo menos você não vai ter que mover meio mundo no transcendente pra fazer coisas como segura-la para você. Ou se há alguém que você genuinamente acredita merecer um castigo terrível então ponha na estante a sua clavícula menor de Salomão e vá direto telefonar pro Frankie-Navalha ou pro Big Stan. O capanga contratado ilustra bem a decisão ética se comparado ao uso de anjos caídos pra fazer aquele trabalho sujo (isso assumindo que ir até a casa do sujeito tirar satisfação, ou apenas, você sabe, superar isso e seguir em frente não sejam opções viáveis). Ou ainda mesmo o exemplo do amigo doente citado anteriormente: apenas faça uma visita. Apoie-o cedendo um pouco do seu tempo, seu dinheiro, seu amor, sua conversa. Cristo, envie um cartão com o desenho de um coelho triste na capa. Vocês dois se sentirão melhores com isso. Magia intencional ou causal pode muitas vezes parecer com obter a realização de um fim bastante comum sem fazer o trabalho comumente associado a ele. Poderíamos muito bem afirmar, citando Crowley, que nossas melhores e mais puras ações são aquelas realizadas “sem ânsia de resultado”.

Talvez sua outra famosa máxima, que advoga que buscamos “o objetivo da religião” utilizando “o método da ciência”, ainda que bem intencionada, talvez tenha levado a comunidade magística (tal como ela é) a esses erros fundamentais. Afinal de contas, o “objetivo da religião”, se observarmos a palavra latina “religare” (uma palavra de raiz semântica comum a outras palavras tais como “ligamento” e “ligadura”) parece insinuar que “todos fossem unidos em uma única crença”. Este impulso à evangelização e conversão deve, em qualquer aplicação no mundo real, chegar a um ponto onde aqueles vinculados a um segmento partirão pra cima daqueles ligados por outro. Neste ponto, inevitavelmente e historicamente, ambas as facções irão levar adiante sua traçada vontade em vincular uma à outra em sua única e verdadeira crença. E então nós massacramos os carolas, os crentes, os góis, os iídiches, os cafres e os cabeças de turbante. E quando isso historicamente e inevitavelmente não funcionar, nós nos sentamos e pensamos nas coisas por um século ou dois, damos um intervalo decente, e então fazemos tudo isso de novo, que nem antes. O objetivo da religião parece estar, enquanto algo claramente benigno, fora da estrada por uma milha ou duas, jogado para além do acostamento. A meta, aquilo que ela mirava, permanece intocável, e a única coisa atingida é Omagh ou Kabul, Hebron, Gaza, Manhattan, Baghdad, Kashmir, Deansgate, e por aí em diante, e em diante, pra sempre.

A noção de amarrar tudo que se encontra na raiz etimológica da religião é também encontrada, de forma reveladora, no agrupamento simbólico de varas amarradas, os fachos, que mais tarde daria origem ao termo fascismo. Fascismo, baseado em conceitos místicos tais como sangue e “volk” (povo em alemão), seria mais propriamente visto como religião que como instancia política, uma política embasada em alguma forma de razão, porém equivocada e brutal. A ideia de sermos unidos em uma única fé, uma única crença; que a união (e também, inevitavelmente, a uniformidade) faz a força, parece ser antitética à magia, que é sobretudo, decerto pessoal, subjetiva e pertinente ao individual, à responsabilidade por cada criatura sensível para alcançar seu próprio entendimento do sagrado e assim fazer as pazes com Deus, o universo e tudo o mais. Então, se podemos dizer que a religião encontra seu equivalente político próximo ao fascismo, não poderíamos dizer que a magia tenha uma simpatia natural com a anarquia, o oposto do fascismo (derivado dos termos an-archon, ou “sem líder”)? O que é claro nos leva de volta aos templos incendiados, líderes de ordens destituídos e despejados, a terra queimada e a abordagem de natureza selvagem e anárquica da magia, sugerido anteriormente.

A outra metade da máxima de Crowley, na qual ele propõe a metodologia da ciência também parece ter suas falhas, ainda que mais uma vez, seja bem intencionada. Baseando-se em resultados materiais, a ciência talvez seja o modelo que levou as artes mágicas ao beco sem saída causal descrito acima. Além disso, se aceitarmos os meios da ciência como um procedimento ideal dos quais podemos aspirar em nossos trabalhos de magia, não corremos o risco de adotar também uma mentalidade científica materialista no que diz respeito às várias diferentes forças que preocupam o ocultista? Um cientista que trabalha com eletricidade, por exemplo, irá justamente considerar a energia como moralmente neutra, uma força sem consciência que pode facilmente ser usada pra suprir um hospital, ou aquecer uma lâmpada de lava ou mesmo fritar um negro com idade mental de 9 anos no Texas. Magia, por outro lado, por experiência própria, não parece ser neutra em sua natureza moral, não parece algo sem consciência. Do contrário, como um agente, parece estar ciente de si e ser ativamente inteligente, viva, fora dos trilhos de alta tensão. Ao contrário da eletricidade, parece ter uma personalidade complexa, com características quase humanas, tais como, por exemplo, um aparente senso de humor. Ainda bem, levando em conta o desfile de idiotas de nariz empinado a quem a magia tem entretido e tolerado ao longo dos séculos. Magia, em suma, não parece estar lá apenas pra energizar sigilos que não passam de versões astrais de uma gambiarra ou aparato pra poupar trabalho. Diferente da eletricidade, ela parece ter em mente a sua própria agenda.

» Continua na parte 4

***

[1] Acredito que a intenção de Moore aqui tenha sido a de chocar mesmo. Ele está demonstrando como a magia é uma força que depende de nossa vontade e nossa moral, e como muitas vezes o que estamos realmente desejando ao buscar amores não correspondidos "a qualquer custo" não passa muito longe de um estupro, por mais que tentemos "disfarçar" o assunto em nossa própia mente. O mesmo parágrafo se encerra com uma noção bem mais elevada da magia.

Crédito da imagem: Montagem do Jovem Nerd (Alan Moore e capas do Promehtea ao fundo)

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1 comentários:

Blogger robson firmino cavalcante disse...

muito obrigado de novo, não esperava que fosse tão rápido. valeu Daniel e Rafael.

18/4/16 14:13  

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