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23.2.17

Sócrates e a discordância construtiva

Texto por José Francisco Botelho em A Odisseia da Filosofia (Ed. Abril). Os comentários ao final são meus.

Dialética é uma dessas palavras escutadas com frequência, mas cujo sentido geralmente fica embotado pela fora do hábito e o peso do jargão. Na Antiguidade, contudo, ela tinha um significado claro: era a utilização do diálogo como ferramenta filosófica.

Para entender de que forma Sócrates transformou a história da dialética, vamos fazer uma recapitulação rápida – pois o sentido das coisas fica mais claro quando elas são comparadas com o que veio antes e depois. No início do século 5 a.C., Zenão de Eleia criou a dialética erística: um tipo de discurso em que o filósofo antecipa os contra-argumentos de seus adversários e utiliza-os para defender sua própria tese. No caso de Zenão, o debate era apenas imaginário: a palavra final ficava sempre com o autor da obra.

Depois, veio o diálogo sofístico, que era praticado face a face, entre dois interlocutores reais. Os sofistas não estavam interessados em descobrir grandes verdades; utilizavam o diálogo como ferramenta retórica, para vencer debates e influenciar a opinião do público. Aí entra o toque particular de Sócrates: para ele, o diálogo era um método de buscar a verdade por meio de perguntas e respostas. Ao contrário dos sofistas, ele partia do princípio de que a mente humana pode, sim, captar a realidade final das coisas – desde que assuma a sua ignorância de antemão.

Para os sofistas, o mais importante na filosofia era o uso persuasivo da linguagem – a verdade seria apenas uma questão de perspectiva e o que realmente importava era a habilidade em defender qualquer ponto de vista. Já Sócrates acreditava que a linguagem era uma ferramenta, e não um fim em si mesma. E, enquanto Zenão de Eleia usava a dialética com o objetivo de defender um ponto de vista decidido de antemão, os diálogos socráticos têm final aberto. Sócrates alimentava a dúvida, para que a verdade não fosse sufocada pelo peso das ideias falsas.

A teoria está explicada; mas, na prática, como funcionava o diálogo socrático? Sócrates geralmente começava lançando perguntas aparentemente simples sobre assuntos supostamente básicos: O que é o amor? O que é virtude? O que é educação? Em seguida, analisava cada resposta de forma implacável, questionando cada palavra e cada conceito usado por seus interlocutores – mas (e isso é muito importante) o questionamento socrático era sempre feito em tom amigável, sem arrogância, em uma tentativa de construir o conhecimento de forma partilhada, coletiva.

Existe no método socrático uma provocação atualíssima, que parece feita sob medida para o nosso século, cheio de som, fúria e desrazão. A arte do diálogo, conforme praticada por Sócrates nas tardes e noites de Atenas, era ao mesmo tempo implacável e civil. Implacável porque colocava em cheque todas as certezas herdadas, sem pruridos. Civil porque, se demolia ideias humanas, fazia-o em nome da humanidade, com o intuito de tornar possível uma sabedoria sem pés de barro.

A dialética de Sócrates não servia para defender posições arraigadas; lançava-se, cortesmente, contra todas elas. Partia do princípio de que a verdade absoluta não é monopólio de nenhum dos interlocutores; mas, contrapondo-se as aparentes verdades individuais, podia-se abrir caminho para uma visão mais clara e sólida das coisas. Em outras palavras: para Sócrates, a discordância não era uma força negativa, mas construtiva. Dois mil e quatrocentos anos se passaram e ainda estamos por assimilar essa lição.

Aqueles que ousassem embarcar na afável demolição socrática acabavam com uma impressão inquietante, mas potencialmente salutar: a de que todas as suas certezas eram relativas e, portanto, precisavam ser revistas. O objetivo de Sócrates era, exatamente, lançar o interlocutor em uma espécie de vazio – mas um vazio onde novas reflexões poderiam surgir, desimpedidas, em livre fluxo. “O alvo do método socrático”, escreve Richard Robinson em Plato’s Earlier Dialectic, “é arrancar os homens de sua sonolência dogmática e despertá-los para a verdadeira curiosidade intelectual”.

Como exemplo, vamos dar uma olhada no diálogo Laques, de Platão [ou seja, uma conversa entre Laques e Sócrates]:

“Laques, você acha que a coragem é algo bom ou reprovável?”

“Algo bom, certamente.”

“E quanto à tolice? É também uma coisa boa?”

“De forma alguma, Sócrates. A tolice é reprovável.”

“Imaginemos agora dois homens. Um sabe mergulhar, o outro nunca entrou na água. Ambos são desafiados a fazer um mergulho até o fundo do mar. Ambos aceitam o desafio, com grande perseverança de espírito. Qual dos dois é o mais corajoso?”

“O que não sabe mergulhar, é claro.”

“Contudo, qual dos dois é o mais tolo? O que tem o devido conhecimento técnico das artes do mergulho, ou o que se enfia na água sem mal saber nadar?”

“O mais tolo, nesse caso, é o mergulhador inexperiente.”

“Você havia me dito que a coragem é algo bom, enquanto a tolice é reprovável. Mas agora chegamos à conclusão de que, nesse caso, o mais corajoso não é o mais perseverante, e sim o mais tolo.”

“É fato, Sócrates.”

“Você continua achando que sua definição está correta?”

“De forma alguma. Eu estava errado. Que coisa estranha, Sócrates! Parece que não consigo expressar em palavras o que parecia claro em meu pensamento; sinto que sei o que é a coragem, mas, se tento defini-la, ela me passa a perna e foge de mim.”

“Ora, meu caro Laques, sejamos então como o bom caçador, que jamais desiste de perseguir sua presa. Tenhamos perseverança de espírito. Avante!”

Nesse lapidar diálogo socrático, o filósofo não estava sugerindo que a coragem fosse algo inútil ou estúpido – afinal de contas, ele próprio dera mostras exemplares de bravura no campo de batalha [Sócrates foi soldado ateniense em sua juventude]. O que Sócrates demonstrou é que, na maior parte das vezes, não sabemos direito sobre o que estamos falando – mesmo quando falamos de assuntos aparentemente elementares.

E assim, de interlocutor em interlocutor, Sócrates ia demolindo certezas: tornou-se, em suas próprias palavras, um “vagabundo loquaz”, andando por Atenas a fazer perguntas e mais perguntas a quem se dispusesse a respondê-las. Sua amistosa impertinência conquistou muitos seguidores entre os jovens atenienses. Além de Platão, o encantamento socrático também seduziu Alcibíades, seu companheiro de batalhas.

No Banquete, o jovem guerreiro descreve desta forma o efeito de Sócrates sobre a mente dos ouvintes entusiastas: “Quando escuramos Sócrates, pensamos inicialmente que seus discursos são ridículos: pois, no exterior, estão cobertos por frases e palavras absurdas. Mas, quando olhamos mais a fundo, descobrimos que as palavras de Sócrates são as únicas que realmente fazem sentido”.


Comentários
Pode parecer simples resumir as três vertentes da dialética, e ainda explicar a essência do diálogo socrático em poucos parágrafos. Mas passa longe de ser: outros que se meteram a tentar explicar a vasta história da filosofia ocidental precisaram de muito mais palavras. José Francisco Botelho, escritor e tradutor do sul do Brasil, é um mestre em passar esse tipo de conhecimento filosófico adiante. Eu o conheci inicialmente lendo seus memoráveis artigos para a revista Vida Simples. Depois o encontrei também como colunista da Veja. Mas foi neste livro, encontrado ao acaso numa banca de jornal, que pude compreender toda a extensão da sua habilidade para resumir conceitos grandiosos em parágrafos muito fáceis de serem lidos.

Outros autores precisaram de muitas centenas de páginas para explicar de forma aprofundada a história da filosofia no Ocidente. José precisou de menos de 300. Mas todo o seu cuidado em usar tais páginas da melhor forma possível é claro e evidente ao longo da obra. Se você quer conhecer mais sobre a filosofia, não existe introdução melhor e mais eficiente do que A Odisseia da Filosofia, que ainda pode estar dando bobeira numa banca ou livraria a poucos metros da sua casa. Não perca essa oportunidade!

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Crédito da imagem: Louis J.Lebrun (Socrates speaks)

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