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6.10.17

Blade Runner 2049: em busca do milagre (parte 1)

Este artigo pretende ser uma análise filosófica e espiritualista do filme Blade Runner 2049, aqui não irei me focar especificamente em aspectos técnicos ou artísticos (embora a direção de Denis Villeneuve seja belíssima), mas antes na minha própria análise pessoal da simbologia do filme. Obviamente, o texto a seguir contém spoilers que podem atrapalhar a experiência de se assistir a obra pela primeira vez. Assim sendo, se ainda não a viu, recomendo enormemente que vá assistir antes de prosseguir nesta leitura.

***

Aviso dado, prossigamos... Como devem saber, o filme é uma continuação do clássico cult de 1982, escrito por Hampton Fancher e David Peoples, e dirigido pelo grande Ridley Scott. A sequência atual é dirigida por um diretor muito promissor, Denis Villeneuve, e compartilha do mesmo Hampton Fancher no roteiro, desta vez com ajuda de Michael Green. Ambos os roteiros devem muito ao livro Do Androids Dream of Electric Sheep? (Será que Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?), escrito por Philip K. Dick, que acabou se tornando um escritor essencial da história da ficção científica justamente com a ajuda do sucesso alcançado pelo primeiro Blade Runner.

Ambos os filmes tratam de investigações policiais engendradas numa espécie de futuro distópico onde o consumismo exacerbado levou a humanidade a uma espécie de apocalipse da natureza. Ambos trazem cenários de metrópoles americanas sombrias e chuvosas cheias de imigrantes e androides convivendo em meio a um cenário abarrotado de anúncios que mais lembra uma “Tóquio que deu muito errado”. Outra questão central em ambas as obras é a desconfiança e a confusão entre o que é real, o que é humano e o que é artificial, em diversos sentidos.

Vamos passar agora para minha interpretação direta de algumas cenas e aspectos do filme:

O herói e o milagre
Na primeira cena do filme, K. está caçando um dos replicantes antigos que conseguiram se esconder da fiscalização. Como sabemos, o seu trabalho consiste em “desligar” todos esses androides da linhagem antiga, de modo a que permaneçam somente aqueles como o próprio K., inteiramente obedientes ao sistema governamental. Assim, temos uma característica primordial do filme revelada de início: K. sabe que é um replicante, e sabe que caça aqueles de sua própria “espécie”.
No entanto, já temos nesta cena uma diferença grande em relação ao primeiro filme: a ação se passa totalmente fora de Los Angeles, numa região onde há o cultivo sintético de alimentos. Dentre outras coisas que podem passar desapercebidas, há por exemplo um tronco morto de árvore e um pequeno ramo de planta encontrado no solo ao lado dela. Temos de considerar que, na distopia onde o filme ocorre, tanto madeira quanto plantas como aquela são algo extremamente raro de se ver. No contexto da cena, tais elementos soam mais como mensagens místicas que servem para despertar o herói em sua jornada. Sim, mesmo aqui temos uma Jornada do Herói [1] em curso, embora extremamente original.
Porém, o que realmente coloca “uma pulga atrás da orelha” de K. é a frase que o replicante lhe diz, pouco antes de entrar em luta corporal e acabar “desligado”. Algo como: “Você só faz o que lhe mandam fazer, mas é assim porque ainda não viu um milagre” [2].

O milagre muda tudo
Algum tempo depois, já no Departamento de Polícia, K. traz a sua chefa uma caixa encontrada enterrada perto da árvore, e nela há uma ossada aparentemente humana. O legista analisa os ossos e concluí que se tratava de uma mulher grávida que morreu durante um parto, provavelmente uma cesariana. É o próprio K., no entanto, que ao lado de sua chefa (uma humana, a chefa do Departamento) acaba operando o zoom do aparelho e descobrindo um código de série nos ossos, o que significa que a grávida em realidade era uma replicante da série antiga!
E isto muda tudo, não somente para a própria investigação policial, que passa a ser bem mais importante e sigilosa, como para o próprio K., que confirma que aquele tal “milagre” mencionado por sua vítima era, de fato, real.
Assim chegamos a uma importante passagem do filme, quando a chefa de K. determina que ele cace e mate a criança (agora já adulta) nascida daquela androide, e ele hesita por um momento... Quando sua chefa lhe pergunta qual o problema, ele responde: “É que nunca matei alguém nascido, suponho que os nascidos tenham alma”. Depois, pouco antes de sair da sala, a sua chefa complementa: “Não se preocupe, você tem se saído muito bem sem uma alma”.

O Demiurgo
É durante a investigação de K. que somos trazidos até uma cena na sede da corporação de Niander Wallace, o megaempresário responsável pela fabricação de alimentos sintéticos e pelas novas linhagens de replicantes (dentre eles, o próprio K.). Me pareceu que este personagem está diretamente associado à ideia de Demiurgo segundo algumas teorias gnósticas.
Este Demiurgo do mal seria o próprio criador do mundo material, responsável por nos manter seduzidos e ancorados em nossos próprios desejos materialistas, assim afastados do mundo espiritual. O conhecimento gnóstico seria justamente o caminho para nos elevarmos de volta ao mundo espiritual, de onde viemos originalmente. Uma outra forma de analisar tal dualidade seria simplesmente contrastar nossos pensamentos materialistas com os espirituais. Seja como for, fato é que Wallace, apesar de pouco aparecer no filme, representa a fonte (o empreendedor) de toda a materialidade, de toda a superficialidade, de toda a ilusão, presentes naquele mundo distópico.

A garota-holograma
Quando K. chega em sua casa somos apresentados pela primeira vez a Joi, uma espécie de Inteligência Artificial holográfica que lembra muito uma espécie de avanço tecnológico em relação as atuais bonecas sexuais japonesas. Claro que a relação amorosa deles não é física, uma vez que Joi só pode ser projetada como holograma. Isto, no entanto, é resolvido quando a própria Joi contrata (via internet?) uma garota de programa replicante para dançar e eventualmente transar com K.
Joi então se “sincroniza” com a replicante e o que se segue é talvez a cena mais antológica do filme, quando K. dança ao mesmo tempo com sua “garota fantasma” e com a prostituta. Aqui podemos fazer várias análises, desde a diferença entre a figura de nosso amor imaginário que fantasiamos em nossa própria mente em relação à pessoa real a qual nos relacionamos, até a própria dualidade “corpo-alma”; sendo que a alma, obviamente, seria a figura etérea de Joi.

Somos todos replicantes?
Joi também participa de outra cena consideravelmente profunda do filme, embora possa facilmente passar desapercebida: enquanto K. está analisando um por um os registros genéticos de pessoas nascidas na época do parto da criança que ele está caçando, Joi se questiona sobre a diferença entre seres construídos por bases orgânicas (citosina, adenina, guanina ou timina, isto é, o código genético) e seres de inteligência artificial, compostos por “zeros e uns”.
Aqui há uma questão importante, de fato: enquanto seres como Joi nada mais são do que sequências de programação de códigos inventados pelo ser humano, os androides ou replicantes do mundo de Philip K. Dick são feitos de intervenções humanas em um código pré-existente, que não foi criado pelo próprio homem. Assim sendo, é perfeitamente possível que a natureza ela mesma tenha interferido na própria evolução dos replicantes, permitindo que eles eventualmente passassem a gerar filhos (o milagre), uma vez que o ser humano jamais terá domínio completo de um código que não é inteiramente seu.
Isto também remonta a velha dúvida do primeiro filme, se Deckard era ou não um replicante. Ora, nesta nova versão o herói já sabe de antemão que é um replicante, mas a dúvida passa a ser outra, mais profunda: se replicantes podem gerar o milagre da vida, não seriam eles também portadores de uma alma? Não seria o próprio K., e todos os demais androides como ele, seres com direitos humanos?
Ao mesmo tempo em que refletimos sobre isso, podemos refletir sobre nossa própria vida no “mundo real”: não seríamos nós mesmos “replicantes”, no sentido de simplesmente replicarmos as mesmas tarefas, todo santo dia, pela vida toda, até aquele momento mágico em que finalmente descobrimos nossa própria alma? Não seria, este também, o milagre pelo qual todos nós buscamos?


» Na continuação, encerramos nossa análise falando de Pistis Sophia e de anjos terríveis (clique para acessar a parte final do artigo)

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Obs.: Não deixe de ver também esta profunda análise do Blade Runner original feita pelo meu amigo Acid (do blog Saindo da Matrix). Veja também a parte 1 e a parte 2 de sua análise da simbologia presente na obra.

[1] A Jornada do Herói (também chamado de “Monomito”) é um conceito de jornada cíclica presente em narrativas mitológicas, de acordo com o antropólogo Joseph Campbell. Você pode ver um excelente vídeo sobre o assunto no canal da Carol Moreira.

[2] A frase provavelmente é um pouco diferente, estou lembrando de cabeça. Mas a essência dela é a referência ao “milagre”.

Crédito das imagens: Blade Runner 2049/Divulgação

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