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8.10.19

Malévola e Aurora

Neste vídeo voltamos a analisar um filme, desta vez o primeiro "Malévola", que faz uma releitura do conto da Bela Adormecida. Ao contrário da grande maioria das análises do YouTube, no entanto, esta se focará inteiramente na parte iniciática, espiritual, tão própria dos contos de fadas, e que de alguma forma se refletiu também nesta releitura. Afinal, qual é a relação mais profunda entre Malévola e Aurora? (edição por Colossi Estúdio Gráfico)

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29.10.18

Blade Runner 2049 e o Gnosticismo (Reflexões no YouTube)

Com mais uma edição primorosa do Colossi Estúdio Gráfico, inauguramos nossas análises de filmes em grande estilo! Blade Runner 2049 é não somente um grandioso espetáculo visual, como um dos filmes com mais camadas ocultas de interpretação que já chegaram ao "mainstream". Pode não parecer, mas Philip K. Dick, autor do livro que inspirou o primeiro Blade Runner, foi um profundo conhecedor e divulgador do gnosticismo. Assim, venham conosco criar olhos para ver o que possivelmente passou desapercebido da maior parte dos espectadores desta grande obra.

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16.3.18

Através do olhar de Maria Madalena

Ao contrário das outras poucas análises de filmes que já fiz por aqui, desta vez vou trazer a vocês um texto sem tantos spoilers, para que possam ler mesmo antes de ver o filme Maria Madalena (2018; direção de Garth Davis). Aliás, como poderão ver, não é bem um filme agradável para todos os públicos...


Uma coisa que posso contar é sobre a belíssima cena inicial do filme, justamente porque é a primeira coisa que irão ver. Nela, vemos uma mulher mergulhando nas profundezas do Mar da Galileia (na verdade um extenso lago perto de Tiberíades, onde provavelmente ficava a aldeia de Magdala) enquanto ouvimos uma parábola de Jesus descrita em Mateus 13:31-32:

O Reino dos céus é semelhante ao grão de mostarda que o homem, pegando nele, semeou no seu campo; o qual é, realmente, a menor de todas as sementes; mas, crescendo, é a maior das plantas, e faz-se uma árvore, de sorte que vêm as aves do céu, e se aninham nos seus ramos.

É interessante como, no restante do filme, todo o desenrolar se dá no sentido de nos explicar, não como palavras, mas sobretudo com imagens e profundas atuações, isto é, com cinema, o que poderia ser este tal Reino. E é nesse sentido que o filme não é para todos. Sua narrativa é mais mística e contemplativa do que cheia de ação e narrativas paralelas. Não há uma grande trama por ser desvendada (até mesmo porque todos já devem conhecer a história principal), não há maiores polêmicas em relação a Jesus e Maria (apesar da histeria usual dos ortodoxos com os trailers iniciais, uma espécie de “crítica preventiva”), nada disso: o filme trata do encontro com o Reino, e portanto não será mesmo do gosto de todos.

Aliás, em sua fotografia e figurino de época extremamente realistas, ele lembra muito A última tentação de Cristo (de Martin Scorsese). Neste sentido, nalguns momentos dos trechos iniciais no entorno da aldeia de Magdala e, mais ainda, nas cenas de Jerusalém (com o Templo de Salomão ainda de pé) vista de longe, a beleza do filme supera o antigo; ainda que, como cinema em si, esteja relativamente bem aquém do clássico de Scorsese.

Logo após a cena inicial no lago somos apresentados a Maria e sua vida em Magdala, uma pequena aldeia de pescadores. Logo fica muito claro, mesmo para quem ainda não sabia, que se trata de um roteiro escrito por mulheres (Helen Edmundson e Philippa Goslett): o retrato da função feminina nos lidos domésticos e do seu espaço limitado na vida religiosa da comunidade é claramente algo novo e intencional. Durante todo o restante do filme, aliás, o que vemos é a história de Jesus e seus apóstolos através do olhar de Maria Madalena. É assim que, muitas vezes, vemos os outros pelas costas enquanto caminham à frente (ela ficava geralmente atrás, para não chamar atenção) e cochichando pelos cantos (os apóstolos não se sentiam tão à vontade com ela, principalmente quando era a única mulher do grupo)... Vale lembrar, aliás, que em nenhum momento o filme comete o antigo erro de associar Maria a uma prostituta, algo que já foi inclusive corrigido pelo próprio Vaticano, que em 2016 a proclamou a apóstola dos apóstolos.

O primeiro apóstolo a se aproximar mais intimamente de Maria é Judas. É interessante e, ao mesmo tempo infeliz, a maneira como o caracterizam no filme. Judas já foi o tradicional traidor maléfico dos filmes mais ortodoxos, e o confidente belicista, o apóstolo mais próximo de Jesus na Última tentação (...) de Scorsese. Aqui, entretanto, ele é mais como um fanático religioso ingênuo, que tem altas expectativas acerca da chegada iminente do Reino. Não sei se ele foi pensado como uma crítica aos cristãos fanáticos de hoje em dia (o tipo de gente que acha que a ida da embaixada dos EUA para Jerusalém vai apressar a vinda do messias), mas o considero como o grande ponto fraco do filme, ainda que o ator seja em geral bem simpático.

Já a caracterização de Pedro vai muito além de ser um (excelente) ator negro (sim, havia negros naquela época); ele é basicamente neste filme o que Judas é, em boa parte, no filme de Scorsese: a “rocha firme” que mantém o grupo forte e unido, e aquele que protege Jesus nos momentos em que à força física se faz necessária. No entanto, as roteiristas trouxeram para o filme, como era de ser esperado, o famoso conflito entre Pedro e Maria que se passa no Evangelho de Maria, um dos chamados “apócrifos”:

Pedro [...] questionou sobre o Salvador: “Ele realmente falou com uma mulher sem o nosso conhecimento (e) não abertamente conosco? Vamos todos mudar de posição e ouvi-la? Ele preferiu a ela a nós?”

Então Maria lamentou e disse a Pedro, “Meu irmão Pedro, o que pensas? Tu crê que eu mesma inventei essas coisas no meu coração, ou que esteja mentindo sobre o Salvador?” Levi respondeu e disse a Pedro, “Pedro, tu sempre foste o exaltado. Agora eu te vejo te opondo a uma mulher como (a) adversários. Mas se o Salvador a fez digna, quem és tu de fato para rejeitá-la? Certamente o Salvador a conhece muito bem. Por isso ele a amava mais do que a nós. Vamos nos envergonhar e nos vestir do homem perfeito e recebê-lo em nós como ele nos comandou e pregar o evangelho, sem proclamar outra regra ou lei além daquilo que o Salvador disse.”

Este “ciúme” de Pedro em relação às conversas a sós entre Jesus e Maria é retratado no filme como teria de ser: não como a suspeita de uma possível relação amorosa (como personagens históricos, ambos provavelmente eram essênios e celibatários), mas como um entendimento de que ele simplesmente “estava perdendo tempo com uma mulher, que não poderia compreendê-lo”. Afinal, Maria era uma mulher, e o fato de ser tratada como um “igual intelectual” era, para aquela época e região do planeta, algo extremamente revolucionário (e que foi convenientemente esquecido por Paulo e muitos “doutores da Igreja” ao longo dos séculos).

O grande “pulo do gato” no roteiro, e onde ele é sem dúvida mais original, é justamente no andamento da relação entre Pedro e Maria, e como o próprio Jesus toma providências para que eles, ao menos, entendam e respeitem um ao outro. Jesus manda os dois, sós, para evangelizar numa aldeia que, talvez, ele já soubesse estar devastada pela fome. Fato é que, lá chegando, Pedro se recusa a batizar pessoas moribundas, que teriam no máximo alguns dias de vida. Já Maria, tal qual faria Madre Teresa de Calcutá muitos séculos depois, decide mesmo assim batizá-los e assisti-los em suas mortes. Pedro fica boquiaberto, e repete a palavra “misericórdia” algumas vezes, como se a tivesse compreendido pela primeira vez naquele dia, ao lado de Maria. É uma das cenas marcantes do filme.

Ao final, obviamente, eles ainda tomam rumos distintos: Pedro vai fundar sua Igreja de homens, e Maria vai evangelizar por todo o sul da Europa, onde eventualmente dará origem aos mitos das “virgens negras” (sim, para os padrões europeus da época, uma mulher vinda da Galileia poderia muito bem ser considerada negra – ainda que a atriz escolhida para o filme não o seja).

Já Jesus e Maria estão ambos fantásticos em suas atuações (Joaquin Phoenix e Rooney Mara, respectivamente). Jesus é, desde a cena inicial, o chamamento, o enigma que precisa ser decifrado por ela. Como esta relação é precisamente o que há de mais precioso no filme, eu prefiro não dar spoilers sobre ela. Há, porém, uma cena que inclusive aparece no trailer, em que Maria lhe pergunta enquanto estão ambos a sós nos montes galileus:

“É isso que se sente quando se é um com Deus?”

Ao que Jesus diz:

“Nunca me perguntaram como é a sensação.”

Mas isto não chega a ser respondido completamente em nenhum momento do filme, pois que isto não é para ser dito. E é precisamente assim que Maria Madalena deve ser visto: como uma experiência religiosa. Para os que têm olhos para ver, um belíssimo filme lhes aguarda nos cinemas.

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Crédito da imagem: Divulgação/Maria Madalena

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7.10.17

Blade Runner 2049: em busca do milagre (parte 2)

« continuando da parte 1

Este artigo pretende ser uma análise filosófica e espiritualista do filme Blade Runner 2049, aqui não irei me focar especificamente em aspectos técnicos ou artísticos (embora a direção de Denis Villeneuve seja belíssima), mas antes na minha própria análise pessoal da simbologia do filme. Obviamente, o texto a seguir contém spoilers que podem atrapalhar a experiência de se assistir a obra pela primeira vez. Assim sendo, se ainda não a viu, recomendo enormemente que vá assistir antes de prosseguir nesta leitura.

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Pistis Sophia
Ainda no gnosticismo, num dos evangelhos considerados apócrifos há uma referência a Pistia Sophia como “a Toda Progenitora”, ou seja, a criadora de todas as coisas da alma. Sophia, que também quer dizer “sabedoria”, é também muitas vezes vista como o aspecto feminino de Deus, ou a Alma ela mesma, isto é: a Alma do Mundo.
Segundo algumas vertentes gnósticas, é de Sophia que vieram todas as almas, mas infelizmente acabaram aprisionadas no mundo do Demiurgo, o mundo material, e o equivalente a Jornada do Herói de cada alma individual seria justamente, através da gnose espiritual, conseguir retornar para sua casa, a Grande Alma.
Ora, quando K. vai investigar o orfanato onde teria crescido a criança que procura, acaba tendo uma experiência de rememorar algo que supostamente havia sido implantado em seu cérebro de replicante: uma memória de quando era criança, sendo que ele teoricamente nunca havia sido criança. Ao encontrar o objeto que havia escondido na época de sua memória, um pequeno cavalo esculpido em madeira, no mesmo local, só que no mundo real, K. prontamente passa a considerar que ele mesmo poderia ser a criança, isto é, que ele próprio era o milagre que estava buscando.
Mas ele duvida, a memória poderia ser falsa ainda assim, e tudo poderia ser algum complô estranho. Assim, K. vai até a designer de memórias de Wallace: Dra. Ana Stelline, uma freelance que trabalha fornecendo as memórias infantis mais realistas possíveis para a nova linha de androides. Ao encontrá-la num galpão hermeticamente vedado, K. descobre que a designer havia nascido com uma doença grave (que lhe conferia baixa imunidade), e que havia passado boa parte da vida naquele galpão, isolada atrás de uma barreira de vidro. No entanto, naquele espaço puro, livre do peso e das doenças daquele mundo de chumbo, a designer, isto é, a própria Sophia, podia trabalhar livremente naquilo que sabia fazer melhor: criar belas memórias. Mesmo assim, memórias falsas.
Ocorre que K. pede a ela que analise sua própria memória, que não é exatamente uma memória feliz, e ela percebe que se trata de uma memória real, “pois memórias reais trazem sentimentos reais, e são facilmente identificáveis”. O estranho da cena toda é que, apesar de K. ficar transtornado com a confirmação de que sua memória era real, a própria designer parece ainda mais abalada que ele. Só saberemos o porquê na última cena do filme [1].

A terrível perfeição
Ainda segundo as antigas fontes gnósticas, uma das intepretações associa o Demiurgo a Samael, o Anjo da Morte, o Anjo Caído, o Deus Cego. O fato de Wallace ser inteiramente cego no filme apenas corrobora esta metáfora. Ora, Samael, tendo sido expulso do Céu, leva consigo sua hoste de “anjos perfeitos”, que assim atuam em seu nome. Obviamente que tais anjos são terríveis em sua perfeição, pois seguem as ordens do Demiurgo sem pestanejar, como seres sem alma, psicopatas. No filme, a personagem Luv é justamente um desses anjos, um anjo replicante, que segue o Deus Cego de forma dogmática.
Porém, tanto K. quanto Luv são fruto da nova linhagem de androides, e de certa forma ambos perseguem o mesmo milagre (a criança), ainda que por razões diversas. Outra questão interessante sobre ambos é que K., apesar de passar por fortes reações sentimentais em seu interior, praticamente não as demonstra; já Luv, que age sempre de maneira fria e calculista, por diversas vezes derrama lágrimas no filme, lágrimas que parecem tão artificiais quanto sua alma [2]. Impossível não reconhecer aqui, novamente, a dualidade entre nossos pensamentos materiais (Luv) e espirituais (K.); sim, pois como já disse Joseph Campbell, todos os mitos dizem respeito a nós mesmos.
A cena onde K. derrota Luv literalmente debaixo d’água é mais um simbolismo de nosso inconsciente: o pensamento materialista não foi extirpado de nós, continua lá no fundo, mas agora é nosso lado espiritual que surge do inconsciente para dar real significado a vida. O monstro terrível, angelical e sedutor, foi enfim domesticado – K. é o herói a assumir o timão de sua própria embarcação.

Deckard, o Ancião
Em sua longa investigação, K. acaba descobrindo que a mãe replicante era Rachel, a personagem pela qual Deckard, o Blade Runner do primeiro filme, se apaixona. Eventualmente K. parte para encontrar Deckard escondido num cassino abandonado numa zona de alta radiação, onde teoricamente não habitam humanos. Seguem-se algumas das cenas mais belas do cinema neste nosso século, e eles eventualmente se encontram. Inicialmente Deckard tenta se livrar de K., mas acaba sendo convencido de que ele viera para ajudar.
Nesta altura K. acredita que Deckard é seu pai, mas não chega a contar nada. Ainda que de forma brevíssima, Deckard assume o papel de Ancião ou de Mestre, aquele que aconselha o herói. Infelizmente, no entanto, não há muito tempo para que eles convivam, pois os lacaios de Wallace vêm em seu encalço e acabam sequestrando Deckard.
Noutra cena essencial do filme, Deckard se encontra aprisionado na sede da corporação de Wallace, e este lhe apresenta uma cópia supostamente exata de Rachel (ainda jovem, claro), tentando lhe seduzir para que ele pudesse contar onde diabos está a criança, o milagre. Obviamente, o grande objetivo do Demiurgo é exterminar a alma, e tornar o mundo puramente material. Interessante que os sonhos de ascensão ao Paraíso no mundo de Wallace correspondem às colônias humanas noutros planetas. Porém, são literalmente paraísos artificiais, uma vez que tudo o que Wallace consegue produzir é sintético. Mesmo os seus replicantes não passam de androides estéreis, ele jamais conseguiu fazê-los se reproduzir.
Ao observar a cópia de seu grande amor, no entanto, Deckard afirma para o Demiurgo: “não é ela, eu sei o que é real”. Ora, o que é real é justamente o amor, e o amor pertence à Pistis Sophia, não ao mundo do Demiurgo. Não importa o que ele faça, jamais terá poder para gerar amor, gerar vida real, seja ela humana ou replicante.

É preciso alma para amar
Noutra cena tocante do filme, K. anda pela cidade e, ao atravessar uma espécie de ponte de pedestres, se depara com uma projeção gigante de Joi, a garota-holograma. Ocorre que ele havia guardado a memória de sua própria Joi num aparelho que foi destruído pelos lacaios de Wallace. Assim sendo, a “sua Joi” havia se perdido para sempre, e ali ele via uma “Joi genérica”. E esta Joi o chama pelo mesmo nome usado pela anterior, de “Joe”. Ora, assim fica claro que a paixão entre K. e a sua Joi era mero fruto de uma programação. Não havia alma no seu aparelho de Inteligência Artificial, apenas ele poderia ter uma alma, e é preciso haver alma para haver amor.
Dessa forma, o que K. havia amado era tão somente um ser imaginário. Ao contrário de Deckard, que amou uma replicante com alma, e por isso gerou nela um filho, um milagre. Afinal, Deckard “sabia o que era real”, enquanto K. ainda teria de passar por muitas e muitas aventuras para descobrir.

O fim de uma Jornada é o início de outra
Finalmente, após haver descoberto que na realidade Deckard e Rachel haviam tido uma filha, não um filho, K. mesmo assim não se desvia nem por um momento de sua missão e acaba conseguindo, com muito custo, resgatar Deckard e levá-lo ao encontro de sua filha real.
Pouco antes de entrar no galpão onde ela reside, Deckard pergunta para K. se “está tudo bem”, e ele afirma que sim. Na sequência, K. se deita sobre as escadas e, após Deckard já haver entrado no recinto, ele parece apenas contemplar os flocos de neve caindo levemente do céu. Há uma profunda sensação de paz: o herói cumpriu sua Jornada, e está preparado para a próxima. No fundo, não importava se K. era ou não a criança, o milagre, mas sim se ele tinha ou não uma alma. K. parece ter chegado a conclusão de que, sim, tem uma alma, e daí em diante sua vida passa a ser de fato uma jornada espiritual, livre, na medida do possível, das seduções do Demiurgo. Não será uma vida desprovida de dor, é certo, mas pelo menos uma vida preenchida de sentido.
Já a última e belíssima cena do filme mostra Deckard, o Ancião, o Herói no Fim da Jornada, encontrado o milagre “em carne e osso” pela primeira vez. Sua filha era todo o tempo a própria designer de memórias dos androides de Wallace, a própria Pistis Sophia, a Alma do Mundo. É esta a iluminação, o sentido final de toda e qualquer jornada espiritual – a contemplação da Alma. E aqueles que já sabem disso, tornam-se nesta Criação, cocriadores, artistas do espírito. Este filme é só mais um exemplo disso.

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Obs.: Não deixe de ver também esta profunda análise do Blade Runner original feita pelo meu amigo Acid (do blog Saindo da Matrix). Veja também a parte 1 e a parte 2 de sua análise da simbologia presente na obra.

[1] Inclusive, a primeira cena do filme é justamente o Grande Olho da Alma se abrindo, o que remete ao próprio despertar do protagonista. Aliás, eu recomendo que revejam o filme considerando desde o início que tudo o que transcorre de iluminado, até o último floco de neve, é uma Criação da criança-milagre, Pistis Sophia. Só recomendo que levem algum lenço; isto é, se tiverem alma!

[2] Há outras interpretações menos focadas em mitologia que afirmam que Luv somente derrama lágrimas quando presencia a morte de outros replicantes, jamais de humanos (apesar de que ela parece se emocionar ao assassinar a chefa de K.). De fato, é uma possibilidade, talvez ela estivesse interiormente lutando contra si mesma para se libertar da programação de Wallace. Em todo caso, mesmo aqui continua valendo a interpretação de que K. consegue "desobedecer" a sua programação, enquanto Luv não, e me parece que este "livre-arbítrio" tem tudo a ver com a proximidade da alma, do amor, enfim, do lado mais espiritual da vida.

Nota final: o gnosticismo na obra de Philip K. Dick
Pode parecer estranho, mas Philip K. Dick foi um escritor de ficção científica profundamente ligado ao gnosticismo. Como não sou nenhum especialista em sua obra literária, indico a vocês este artigo de meu amigo Giordano Cimadon, da Sociedade Gnóstica Internacional; e também este texto escrito por Eduardo Pinheiro, um especialista em sua obra, para o blog Papo de Homem.

Crédito das imagens: Blade Runner 2049/Divulgação

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6.10.17

Blade Runner 2049: em busca do milagre (parte 1)

Este artigo pretende ser uma análise filosófica e espiritualista do filme Blade Runner 2049, aqui não irei me focar especificamente em aspectos técnicos ou artísticos (embora a direção de Denis Villeneuve seja belíssima), mas antes na minha própria análise pessoal da simbologia do filme. Obviamente, o texto a seguir contém spoilers que podem atrapalhar a experiência de se assistir a obra pela primeira vez. Assim sendo, se ainda não a viu, recomendo enormemente que vá assistir antes de prosseguir nesta leitura.

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Aviso dado, prossigamos... Como devem saber, o filme é uma continuação do clássico cult de 1982, escrito por Hampton Fancher e David Peoples, e dirigido pelo grande Ridley Scott. A sequência atual é dirigida por um diretor muito promissor, Denis Villeneuve, e compartilha do mesmo Hampton Fancher no roteiro, desta vez com ajuda de Michael Green. Ambos os roteiros devem muito ao livro Do Androids Dream of Electric Sheep? (Será que Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?), escrito por Philip K. Dick, que acabou se tornando um escritor essencial da história da ficção científica justamente com a ajuda do sucesso alcançado pelo primeiro Blade Runner.

Ambos os filmes tratam de investigações policiais engendradas numa espécie de futuro distópico onde o consumismo exacerbado levou a humanidade a uma espécie de apocalipse da natureza. Ambos trazem cenários de metrópoles americanas sombrias e chuvosas cheias de imigrantes e androides convivendo em meio a um cenário abarrotado de anúncios que mais lembra uma “Tóquio que deu muito errado”. Outra questão central em ambas as obras é a desconfiança e a confusão entre o que é real, o que é humano e o que é artificial, em diversos sentidos.

Vamos passar agora para minha interpretação direta de algumas cenas e aspectos do filme:

O herói e o milagre
Na primeira cena do filme, K. está caçando um dos replicantes antigos que conseguiram se esconder da fiscalização. Como sabemos, o seu trabalho consiste em “desligar” todos esses androides da linhagem antiga, de modo a que permaneçam somente aqueles como o próprio K., inteiramente obedientes ao sistema governamental. Assim, temos uma característica primordial do filme revelada de início: K. sabe que é um replicante, e sabe que caça aqueles de sua própria “espécie”.
No entanto, já temos nesta cena uma diferença grande em relação ao primeiro filme: a ação se passa totalmente fora de Los Angeles, numa região onde há o cultivo sintético de alimentos. Dentre outras coisas que podem passar desapercebidas, há por exemplo um tronco morto de árvore e um pequeno ramo de planta encontrado no solo ao lado dela. Temos de considerar que, na distopia onde o filme ocorre, tanto madeira quanto plantas como aquela são algo extremamente raro de se ver. No contexto da cena, tais elementos soam mais como mensagens místicas que servem para despertar o herói em sua jornada. Sim, mesmo aqui temos uma Jornada do Herói [1] em curso, embora extremamente original.
Porém, o que realmente coloca “uma pulga atrás da orelha” de K. é a frase que o replicante lhe diz, pouco antes de entrar em luta corporal e acabar “desligado”. Algo como: “Você só faz o que lhe mandam fazer, mas é assim porque ainda não viu um milagre” [2].

O milagre muda tudo
Algum tempo depois, já no Departamento de Polícia, K. traz a sua chefa uma caixa encontrada enterrada perto da árvore, e nela há uma ossada aparentemente humana. O legista analisa os ossos e concluí que se tratava de uma mulher grávida que morreu durante um parto, provavelmente uma cesariana. É o próprio K., no entanto, que ao lado de sua chefa (uma humana, a chefa do Departamento) acaba operando o zoom do aparelho e descobrindo um código de série nos ossos, o que significa que a grávida em realidade era uma replicante da série antiga!
E isto muda tudo, não somente para a própria investigação policial, que passa a ser bem mais importante e sigilosa, como para o próprio K., que confirma que aquele tal “milagre” mencionado por sua vítima era, de fato, real.
Assim chegamos a uma importante passagem do filme, quando a chefa de K. determina que ele cace e mate a criança (agora já adulta) nascida daquela androide, e ele hesita por um momento... Quando sua chefa lhe pergunta qual o problema, ele responde: “É que nunca matei alguém nascido, suponho que os nascidos tenham alma”. Depois, pouco antes de sair da sala, a sua chefa complementa: “Não se preocupe, você tem se saído muito bem sem uma alma”.

O Demiurgo
É durante a investigação de K. que somos trazidos até uma cena na sede da corporação de Niander Wallace, o megaempresário responsável pela fabricação de alimentos sintéticos e pelas novas linhagens de replicantes (dentre eles, o próprio K.). Me pareceu que este personagem está diretamente associado à ideia de Demiurgo segundo algumas teorias gnósticas.
Este Demiurgo do mal seria o próprio criador do mundo material, responsável por nos manter seduzidos e ancorados em nossos próprios desejos materialistas, assim afastados do mundo espiritual. O conhecimento gnóstico seria justamente o caminho para nos elevarmos de volta ao mundo espiritual, de onde viemos originalmente. Uma outra forma de analisar tal dualidade seria simplesmente contrastar nossos pensamentos materialistas com os espirituais. Seja como for, fato é que Wallace, apesar de pouco aparecer no filme, representa a fonte (o empreendedor) de toda a materialidade, de toda a superficialidade, de toda a ilusão, presentes naquele mundo distópico.

A garota-holograma
Quando K. chega em sua casa somos apresentados pela primeira vez a Joi, uma espécie de Inteligência Artificial holográfica que lembra muito uma espécie de avanço tecnológico em relação as atuais bonecas sexuais japonesas. Claro que a relação amorosa deles não é física, uma vez que Joi só pode ser projetada como holograma. Isto, no entanto, é resolvido quando a própria Joi contrata (via internet?) uma garota de programa replicante para dançar e eventualmente transar com K.
Joi então se “sincroniza” com a replicante e o que se segue é talvez a cena mais antológica do filme, quando K. dança ao mesmo tempo com sua “garota fantasma” e com a prostituta. Aqui podemos fazer várias análises, desde a diferença entre a figura de nosso amor imaginário que fantasiamos em nossa própria mente em relação à pessoa real a qual nos relacionamos, até a própria dualidade “corpo-alma”; sendo que a alma, obviamente, seria a figura etérea de Joi.

Somos todos replicantes?
Joi também participa de outra cena consideravelmente profunda do filme, embora possa facilmente passar desapercebida: enquanto K. está analisando um por um os registros genéticos de pessoas nascidas na época do parto da criança que ele está caçando, Joi se questiona sobre a diferença entre seres construídos por bases orgânicas (citosina, adenina, guanina ou timina, isto é, o código genético) e seres de inteligência artificial, compostos por “zeros e uns”.
Aqui há uma questão importante, de fato: enquanto seres como Joi nada mais são do que sequências de programação de códigos inventados pelo ser humano, os androides ou replicantes do mundo de Philip K. Dick são feitos de intervenções humanas em um código pré-existente, que não foi criado pelo próprio homem. Assim sendo, é perfeitamente possível que a natureza ela mesma tenha interferido na própria evolução dos replicantes, permitindo que eles eventualmente passassem a gerar filhos (o milagre), uma vez que o ser humano jamais terá domínio completo de um código que não é inteiramente seu.
Isto também remonta a velha dúvida do primeiro filme, se Deckard era ou não um replicante. Ora, nesta nova versão o herói já sabe de antemão que é um replicante, mas a dúvida passa a ser outra, mais profunda: se replicantes podem gerar o milagre da vida, não seriam eles também portadores de uma alma? Não seria o próprio K., e todos os demais androides como ele, seres com direitos humanos?
Ao mesmo tempo em que refletimos sobre isso, podemos refletir sobre nossa própria vida no “mundo real”: não seríamos nós mesmos “replicantes”, no sentido de simplesmente replicarmos as mesmas tarefas, todo santo dia, pela vida toda, até aquele momento mágico em que finalmente descobrimos nossa própria alma? Não seria, este também, o milagre pelo qual todos nós buscamos?


» Na continuação, encerramos nossa análise falando de Pistis Sophia e de anjos terríveis (clique para acessar a parte final do artigo)

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Obs.: Não deixe de ver também esta profunda análise do Blade Runner original feita pelo meu amigo Acid (do blog Saindo da Matrix). Veja também a parte 1 e a parte 2 de sua análise da simbologia presente na obra.

[1] A Jornada do Herói (também chamado de “Monomito”) é um conceito de jornada cíclica presente em narrativas mitológicas, de acordo com o antropólogo Joseph Campbell. Você pode ver um excelente vídeo sobre o assunto no canal da Carol Moreira.

[2] A frase provavelmente é um pouco diferente, estou lembrando de cabeça. Mas a essência dela é a referência ao “milagre”.

Crédito das imagens: Blade Runner 2049/Divulgação

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12.9.17

A importância do vazio

Nunca fui exatamente um grande fã de desenhos japoneses, mas isto durou até assistir ao filme que ganhou o Oscar de Melhor Animação em 2003, A Viagem de Chihiro. Desde então me tornei mais um dos fiéis seguidores do grandioso Hayao Miyazaki e do Studio Ghibli, a empresa que ele criou para transformar em desenho sua obra-prima dos quadrinhos, Nausicaä do Vale do Vento, que por acaso é também uma das melhores histórias em quadrinhos que li na vida (e li muitas, desde criança).

Após Nausicaä felizmente se seguiram muitas obras grandiosas, onde além de Chihiro, ainda se contam Meu Amigo Totoro, Princesa Mononoke, O Serviço de Entregas da Kiki e muitas outras, além dos desenhos da Ghibli que não contaram com a assinatura de Miyazaki na direção, mas que também seguem a mesma filosofia.

Há algo de profundamente misterioso em boa parte dos filmes da Ghibli, e nem sempre é fácil identificar do que exatamente se trata este "mistério". Sem dúvida, em muitos desenhos há menção a mitologia japonesa, principalmente ao xintoísmo e a sua crença de que espíritos habitam toda a parte da natureza. Há desenhos onde sonhos se tornam realidade, e onde a realidade é tão fantástica que mais parece um sonho. Ao mesmo tempo, há também uma perene conexão com a realidade humana, com nossa essência mais profunda, algo que Miyazaki herdou do Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry, do qual é fã confesso. Mas ainda nos faltam palavras para descrever melhor do que se trata...

Felizmente para nós, Max Valarezo e o pessoal do canal EntrePlanos no YouTube nos trazem um belo vídeo onde este "mistério" é, quem sabe, melhor vislumbrado. Com vocês, Ma, ou "a importância do vazio":

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Crédito da imagem: Studio Ghibli/Meu Amigo Totoro

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3.11.16

Estranho

“Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito.”

Foi em homenagem a esta frase de William Blake, o poeta inglês, que Aldous Huxley, seu conterrâneo de um século mais próximo ao nosso, deu o título ao seu clássico As portas da percepção, que por sua vez é o livro que Stan Lee está lendo em sua curtíssima aparição no novo filme da Marvel, Doutor Estranho.

Stephen Strange é um dos meus personagens favoritos nos quadrinhos da Casa das Ideias. Ele foi criado em 1963 por Lee e a lenda, Steve Dikto, que também foi cocriador de Peter Parker, o Homem-Aranha. Aliás, como veremos abaixo, há algum paralelo entre a origem e a motivação desses heróis, a despeito de sua diferença de idade.

Antes de prosseguir, no entanto, devo avisar que este artigo vai falar exatamente do novo filme de Estranho, e embora eu não vá falar de nada que já não esteja na origem do personagem nos quadrinhos, certamente o que virá a seguir trará alguns spoilers do filme, estejam avisados!

Spoilers ahead...

Não foi à toa que Lee apareceu com o livro de Huxley: toda a ideia por detrás do Doutor Estranho nasceu da brincadeira com a possibilidade da existência de incontáveis dimensões paralelas e outros planos de existência, ou de percepção da existência, bem aqui em nosso mundo e a nossa volta. Também não é por acaso que Lee está exclamando it’s hilarious! (isto é hilário!) em sua cena: talvez a sua grande qualidade seja exatamente essa, de não se levar tão a sério, tampouco as suas criações.

Aliás, é também isso que transparece nos filmes da Marvel Studios nos últimos anos, o que é muito bom por sinal, pois quadrinhos são entretenimento, e espera-se que eles sirvam mais para nos divertir e atiçar a imaginação do que para nos trazer reflexões acerca de como a existência é sombria, de como o mundo é ultraviolento, ou de como o nome de nossa mãe é algo sagrado.

Dito isso, não quer dizer que quadrinhos, ou filmes de quadrinhos, não possam trazer suas lições de moral, por mais que hoje elas sejam clichês algo antigos. É também dos anos 1960 a famosa reflexão que Peter Parker aprende a duras penas: com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Tudo bem, é um clichê antigo, mas ainda é perfeitamente válido. Quadrinhos são mitologia líquida, profanada, hilária, divertida, e assim está bom – em todo caso, nada disso conseguiu apagar por completo a luz dos contos de outrora (basta lembrar que ainda temos um Thor e um Hércules na Marvel).

No filme de Estranho, apesar de ser muito fiel aos quadrinhos, não há somente uma frase capaz de resumir a moral da história toda, como no Homem-Aranha, mas ainda podemos refletir acerca de muitos ensinamentos:

Um outro sentido para a vida
Strange é um neurocirurgião muito bem sucedido em Nova York, talvez o melhor do mundo. Ele tem memória fotográfica, grande inteligência e uma capacidade de concentração incomparável. Mas, no final das contas, tudo depende do que ele consegue realizar na mesa de cirurgia: é ali que realiza não somente o seu grande show, como até então o grande sentido de sua vida.

Fica muito claro, no entanto, que Strange não está ali propriamente para curar pessoas, e sim para manter o seu status de grande cirurgião. Não exatamente pela grande quantia de dinheiro que recebe, mas simplesmente pela fama. Já diziam os estoicos que não devemos basear nossa vida nas coisas que não dependem de nós, como o status e a fama, e é precisamente isso que Strange tem de aprender, não pela sabedoria (que não tinha até então), mas pela dor, esta grandiosa professora...

Ao acordar do grave acidente de carro onde quase perdeu a vida, ele parece mais preocupado com a situação de suas mãos do que com o resto do corpo. De fato, ali poderíamos quem sabe dizer que ele trocaria a cegueira de um olho, ou até uma perna, por ter suas mãos novamente intactas. Afinal, elas eram o seu principal instrumento de trabalho, e consequentemente de status – sem elas o sentido de vida que ele havia construído para si estava arruinado. Uma lição e tanto.

A arrogância não leva a lugar nenhum
A arrogância, ou ignorância das próprias limitações humanas, é também um grande fardo para o ignorante: enquanto tudo vai bem, há a enorme angústia e preocupação em poder se manter na costumeira posição de status, onde se pode dizer “você sabe com quem está falando?”; mas, assim que as coisas vão mal, o arrogante encontra enorme dificuldade em achar um caminho de saída, de resolução para a situação atual, pois que há muitas coisas neste mundo das quais não temos controle algum.

O acidente de carro, a fatalidade, pegou Strange de calças curtas. Neste momento, a arrogância não lhe serve mais para nada, mas é exatamente a dor gerada por esta falta de controle do próprio destino que o encaminha para uma via espiritual, ainda que a princípio pelas razões erradas. Fato é que, bem ou mal, foi a fatalidade que o levou ao Oriente, a esta milenar metáfora para o caminho da sabedoria. Teria sido melhor que chegasse lá pelo autoconhecimento, mas como dizem por aí: seja pelo amor ou pela dor, caminhamos sempre!

Me ensine!
Como tantos outros místicos e ocultistas do mundo real, Strange chega ao templo no Oriente (de fato, poderia ser em qualquer outro canto) profundamente cético acerca do mundo espiritual. Basta atentar para o que a cultura moderna, científico-materialista, fez do significado dos termos “místico” e “ocultista” para compreender que, na maior parte dos casos, o ceticismo é um estágio inicial perfeitamente natural para as mentes racionais. E, embora trabalhem sua percepção muitas vezes muito além desta racionalidade, em nenhum momento se disse que místicos e ocultistas deveriam ser irracionais.

Apesar de recorrer aos velhos clichês de sempre, no filme este embate entre a racionalidade cética e a racionalidade “mente aberta” é, em geral, tratado de forma saudável. Quando finalmente vê com os próprios olhos que a magia é real, Strange vai aos poucos cedendo em seu ceticismo, e também em sua arrogância. A neurociência, a medicina de ponta, quem diria, não explicavam tudo o que havia por ser explicado. Existiam outras possibilidades, outros caminhos, e ao encarar sua guru e suplicar, “Me ensine!”, ele estava tão somente dando o seu primeiro passo, para dentro.

Não é sobre você, Stephen
Tão logo inicia seu caminho de mago, Strange se vê envolvido na costumeira batalha do bem contra o mal, embora no filme eles tenham tratado o “bem” e o “mal” de uma forma consideravelmente menos maniqueísta do que a média. Em todo caso, em se falando de caminho espiritual, tal batalha é muito mais interna do que externa. Assim como foi com Arjuna, a primeira reação de Strange é querer ficar de fora desta guerra.

No entanto, é somente lá para meados do filme que, numa derradeira conversa com sua guru, Strange finalmente percebe que, naquele cenário, fugir da batalha também era um ato egoísta. “Não é sobre você, Stephen”, é sobre a vizinhança, é sobre o mundo inteiro: que o objetivo desta grande guerra que cada ser trava dentro de si, para domesticar seus demônios sombrios, seu lado animal, é também o de salvar a humanidade toda.

Aqui se dá o grande paradoxo de tantos contos mitológicos: eles dizem respeito a você, todos os personagens são aspectos de nós mesmos; porém, ao mesmo tempo, a nossa evolução neste caminho diz respeito a um céu que ainda precisa ser erguido lá fora, nesta terra, nesta vizinhança. No fim das contas, todos os paradoxos de fato serão reconciliados...

Um pacto com Dormammu
O momento mais profundo e inteligente do filme, e também o mais hilário, é aquele em que Strange vai sozinho negociar um pacto com o grande demônio Dormammu na dimensão sombria.

Parece ser simples e trivial a solução de prendê-lo num loop temporal junto com si mesmo, de modo que ou ambos ficariam ali se digladiando pela eternidade (bem, não exatamente, pois Strange seria massacrado infinitas vezes, mas ainda assim, pela eternidade...), ou chegariam a uma espécie de trégua onde cada um poderia cuidar da sua vida sem intervir na do outro: Strange aqui na Terra, Dormammu em sua dimensão sombria.

Mas, pensem bem, não teria algo muito mais profundo se passando nesta negociação? Afinal, o que é a ignorância senão um loop temporal? Senão um rato correndo em sua gaiola, sem jamais sair do lugar? Senão um embate sem fim, e sem sentido, na dimensão sombria de nossa própria alma?

O que Strange realizou, afinal, foi um pacto com sua própria animalidade, sua própria ignorância: “Olha, já estamos aqui nos matando faz muito tempo, que tal seguirmos em frente agora?”.

E assim, ao se curar, ao salvar o seu próprio mundo, Strange não se tornou de fato nenhum mestre, nenhum guru, mas sim um médico de si mesmo, um Doutor Estranho.

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Crédito das imagens: Marvel Studios/Divulgação (Doutor Estranho)

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16.9.15

Human

O cineasta Yann Arthus-Bertrand passou 3 anos coletando histórias reais de mais de 2 mil pessoas em 60 países. Estes relatos pessoais com suas emoções, suas lágrimas e sorrisos, unem a todos nós. Em Human, um documentário monumental de mais de 4 horas, tais relatos são expostos numa determinada sequência que a princípio parece aleatória, mas depois, com o tempo, percebemos que segue um certo "fio da meada", e este fio nos conecta a todos, pelo coração...

Para além dos relatos intensos, profundos, e por vezes extremamente emocionais, tanto de anônimos quanto de famosos, ainda somos presenteados com belíssimas imagens aéreas de nosso planeta, que parecem dividir o documentário em pequenos capítulos próprios. De fato, uma boa forma de encarar essas mais de 4 horas é assistir tais trechos um por um, interrompendo a exibição após o final de uma sequência de imagens aéreas (se estiver logado, o YouTube salva o momento aproximado em que você interrompeu o vídeo):

Human, vol. 1

» Assistir a Human, vol. 2

» Assistir a Human, vol. 3


"Eu sonhei com um filme em que a força das palavras ampliasse a beleza do mundo. As pessoas me falaram de tudo; das dificuldades de crescer, do amor e da felicidade. Toda essa riqueza é o centro do filme Human. Esse filme representa todos os homens e mulheres que me confiaram suas historias. O filme se tornou um mensageiro de todos eles."

Yann Arthus-Bertrand

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Crédito da imagem: Human/Divulgação

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8.1.15

As Hiper Mulheres

Ganhador dos prêmios Especial do Juri e de Melhor Montagem no Festival de Gramado, As Hiper Mulheres (2011) intercala linguagem documental e ficção para abordar um ritual raro realizado pelas mulheres da aldeia Kuikuro, localizado no Alto Xingu (MT). Temendo a morte da esposa idosa, um velho pede que seu sobrinho realize o Jamuikumalu, um ritual feminino para que ela cante ainda uma última vez. O ritual consiste, entre outras coisas, em invadir as cabanas dos homens durante a noite e "forçá-los a praticar sexo", provocando os homens da aldeia no que em realidade não passa de uma grande brincadeira (até mesmo porque está sendo filmado).

Infelizmente há muitos que se interessam por este filme pelos motivos errados. Se buscam ver índias e índios nus, ok, vão ver. Mas se buscam por alguma espécie de pornografia ou mesmo erotismo, podem ter certeza de que vão se decepcionar... No entanto, para aqueles que buscam ver os indígenas vivendo suas vidas de forma natural (apesar de se tratar também de uma ficção; aliás, muito bem encenada), este filme pode ser surpreendentemente belo e inspirador!

O filme possuí outro diferencial que aproxima o mensageiro e seu objeto de estudo. A direção é assinada por Carlos Fausto, Leo Sette e Takumã Kuikuro, cineasta e indígena local, com produção do Vídeo nas Aldeias, da Associação Indígena dos Kuikuro do Alto Xingu e do Documenta Kuikuro – DKK. Abaixo segue o filme completo (cerca de 80 min.) no Vimeo, mas se gostarem considerem adquirir o DVD na Livraria Cultura.

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Crédito da foto: Divulgação/As Hiper Mulheres

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17.6.14

A aurora de Malévola, parte final

« continuando da parte 1

Face a face
O período em que Aurora cresce em meio a floresta encantada, sendo cuidada, de forma oculta, por Malévola e seu corvo fiel, é na minha opinião o ponto alto do filme. Elas chegam a se encontrar quando Aurora ainda é criança, mas é na cena em que Malévola se revela, ainda que de forma relutante, para Aurora, que chegamos a um dos grandes momentos da história.

Malévola está escondida nas sombras dentre as árvores, enquanto Aurora está sob a luz que penetra mesmo naquele canto sombrio da floresta. Lembremos aqui que a própria floresta vai se tornando sombria na medida em que Malévola, sem suas asas e nutrindo o seu ódio pelo rei larápio, vai se tornando mais e mais reclusa. Ora, a única coisa que impede que Malévola se torne definitivamente a bruxa má, e deixe de ser uma fada, é a presença de Aurora, a quem ela chama de “peste” mas, ainda assim, nutre uma afeição crescente e verdadeira.

Neste encontro entre as duas, Malévola supõe que seria Aurora quem teria medo dela, mas é Aurora quem indaga se Malévola tinha receio em se revelar, e em seguida diz, “Eu sei quem é você, você é a sombra que sempre esteve por perto, cuidando de mim, você é a minha fada madrinha”. Para compreender a profundidade deste encontro, devemos lembrar do que dizia Joseph Campbell, grande estudioso de mitologia do século XX [1]:

Há uma velha história que ainda é válida. A história da busca. Da busca espiritual... Que serve para encontrar aquela coisa interior que você basicamente é. Todos os símbolos da mitologia se referem a você. Você enfrentou o seu monstro interior? Você renasceu? Você morreu para a sua natureza animal e voltou à vida como uma encarnação humana?

Ora, sob este ponto de vista podemos notar que Aurora assume um papel duplo na história. Enquanto numa camada mais superficial ela continua sendo a Bela Adormecida, numa camada mais profunda desta releitura do mito, ela é a própria Malévola; ou melhor, ela é a essência mais pura, a alma de fada de Malévola, enquanto que a bruxa má é a sombra ressentida, a carcaça do ego que se afundou no ódio ao mundo que a violentou.

E por que Malévola tinha ao mesmo tempo, tanto amor e tanta raiva de Aurora, tanto ódio e tanto medo? Para compreender, nada melhor do que ouvir as palavras do grande Alan Moore, ocultista e roteirista de quadrinhos britânico [2]:

Muitos dos magos como eu entendem que a tradição mágica ocidental é uma busca do Eu com "E" maiúsculo. Esse conhecimento vem da Grande Obra, do ouro que os alquimistas buscavam, a busca da Vontade, da Alma, a coisa que temos dentro que está por trás do intelecto, do corpo e dos sonhos. Nosso dínamo interior, se preferir assim. Agora, esta é, particularmente, a coisa mais importante que podemos obter: o conhecimento do verdadeiro Eu.

Assim, parece haver uma quantidade assustadora de pessoas que não apenas têm urgência por ignorar seu Eu, mas que também parecem ter a urgência por obliterarem-se a si próprias. Isto é horrível, mas ao menos vocês podem entender o desejo de simplesmente desaparecer, com essa consciência, porque é muita responsabilidade realmente possuir tal coisa como uma alma, algo tão precioso. O que acontece se a quebra? O que acontece se a perde? Não seria melhor anestesiá-la, acalmá-la, destruí-la, para não viver com a dor de lutar por ela e tentar mantê-la pura?

Creio que isto explica muito bem todo o medo que Malévola tinha de encarar sua alma, sua aurora, face a face. Mas este é o tortuoso caminho que todos nós temos de percorrer, sejamos fadas, duendes ou seres humanos, pois que é somente ao nos reconciliarmos com nossa essência mais íntima que poderemos enfim transformar o mundo – primeiro dentro de nós, e em seguida, também lá fora.

Voltando a história...
A história do filme prossegue, e Aurora está prestes a completar 16 anos e sucumbir a terrível maldição, quando encontra um cavaleiro que passava pela floresta encantada, perdido e procurando o caminho para o castelo do rei larápio.

Aurora, que nunca havia saído da floresta, mesmo assim aponta o caminho correto, e os dois combinam de um dia se reencontrar... É preciso lembrar que este jovem cavaleiro é o único ser humano (não faérico) além de Aurora a perambular pela terra das fadas. Como ele poderia estar lá, se não fosse por se tratar de uma alma pura, como a própria Aurora?

Neste momento fica subentendido que seria este jovem aquele quem daria o “beijo de amor verdadeiro” para livrar Aurora da maldição, mas esta releitura do mito transcorrerá de forma bem mais interessante...

A fuga de Aurora
Por um descuido das “tias fadas”, Aurora acaba sabendo que, na realidade, era filha do rei larápio. Nesta altura, o desejo dela era morar “para sempre” na floresta encantada, então ela vai encontrar mais uma vez com Malévola, quando acaba descobrindo que ela era quem havia proferido a terrível maldição que selaria o seu destino. Aurora e Malévola brigam e a jovem foge para as terras do rei larápio, buscando se apresentar como sua filha.

É preciso lembrar que antes desta briga Malévola chega a tentar desfazer a sua maldição. Porém, como ela “não poderia ser desfeita por nenhum poder na terra, além do beijo de amor verdadeiro”, ela acaba falhando.

Ao encontrar sua filha, o rei larápio, já paranoico e extremamente insensível, apenas manda que a deixem trancada nalguma torre do castelo. Ele planeja atacar a floresta encantada com todo o seu exército.

Enquanto isso, o jovem cavaleiro acaba retornando a terra de Malévola, em busca de Aurora. Ao se aperceber disso, o corvo de Malévola a convence a tentar levar o rapaz até o castelo, para desfazer a maldição com o seu aguardado beijo. Prontamente, Malévola faz o rapaz dormir com um feitiço e começa a jornada até o castelo do rei.

O misterioso amor verdadeiro
Pouco antes de adentrarem o castelo, Malévola sente que a maldição profetizada havia se consumado: Aurora havia encontrado “todos os teares do reino” escondidos nos calabouços do castelo e, quase que hipnotizada pela maldição, espeta seu dedo num fuso e cai em seu sono infindável. Esta cena demonstra a inevitabilidade do seu destino, o que é muito comum em se tratando de contos de fadas.

Então chegamos a outra cena grandiosa do filme. Malévola consegue adentrar sorrateira, com o corvo e o jovem cavaleiro em seu sono enfeitiçado, aos aposentos onde se encontra a Bela Adormecida em seu sono sepulcral. A seguir, Malévola e o corvo se escondem num canto e ela desfaz o feitiço, permitindo que o jovem acordasse bem em frente ao leito de Aurora.

No entanto o jovem, muito sabiamente, pergunta se “não seria errado beijar uma jovem em seu sono”... Mas uma das "tias fadas", que "velavam" a Bela Adormecida, diz algo como, “Vai, pode beijar!”, e o cavaleiro arrisca o seu beijo de amor verdadeiro. E não ocorre absolutamente nada!

Malévola aparece e faz o rapaz dormir novamente, então lamenta profundamente que a sua própria maldição não possa ser desfeita, visto que, como ela imaginava, “não existe o amor verdadeiro”. Ela dá então um beijo na testa da Bela Adormecida e, quando já se preparava para ir embora, Aurora desperta e diz, “Oi, fada madrinha”.

Quão misterioso é, afinal, o amor verdadeiro! Não algo que pode surgir do nada, de um encontro casual entre dois jovens, por mais puros que sejam; não algo que surja a primeira vista, mas algo que pulsa e pulsa, em nosso interior mais íntimo, nos recônditos da eternidade!

Reencontrar o amor verdadeiro faz com que Malévola se reconcilie com sua alma e com seu passado, e deixe definitivamente de ser a bruxa má, para voltar a ser a fada. Agora, não mais uma fada inocente e inexperiente, mas uma fada que viu o quão grosseiro pode ser o mundo fora de sua floresta encantada, e que ainda assim consegue manter a conexão com a sua essência eterna.

O retorno das asas
Na sequencia da história, enquanto tentavam fugir do castelo sem serem vistas, Malévola é pega numa armadilha com uma rede de ferro (o contato com o ferro fere gravemente as fadas – a alquimia explica), e então precisa combater o rei larápio e os seus guardas.

A batalha ia muito mal para Malévola (mesmo com seu corvo transformado num assombroso dragão), mas é então que Aurora, em sua fuga da batalha, acaba encontrando as asas trancafiadas de Malévola. Ela derruba a caixa de vidro onde elas estavam, e elas saem voando em direção a Malévola, unindo-se novamente ao seu corpo.

A essa altura já deve ter ficado clara a simbologia de toda a cena: as asas retornam quando Malévola consegue se reconciliar com sua essência, e transformar o seu ódio novamente em amor pelo mundo. Mas ainda faltava o rei larápio...

Ao tentar fugir voando, o antigo amigo de Malévola consegue se engalfinhar em suas pernas com o auxílio de uma arma de corrente, e os dois acabam lutando no topo de uma das torres do castelo. Em dado momento, Malévola poderia o ter enforcado até a morte; mas ela desiste, e diz, “Acabou!”.

De fato, para ela havia acabado o ódio, ela finalmente o havia perdoado. Perdoar não significa relevar o ocorrido, nem exatamente esquecer, mas reconhecer que o ódio e o ressentimento são apenas represas para o amor, e o amor, o amor verdadeiro, uma vez encontrado, deseja romper todas as represas, deseja inundar o mundo todo... Não há ressentimento que resista a tamanho milagre!

Infelizmente não foi a conclusão a qual o rei larápio chegou... Tentando atingi-la por trás, ele acaba caindo da torre e morrendo.

Depois, no final do filme, ficamos sabendo que Aurora e o jovem cavaleiro iriam se casar, e que a floresta encantada voltara a ser como era antes, na infância de Malévola. E assim, todos viveram felizes para sempre.

Joseph Campbell também dizia que “o mito é algo que não existe, mas que existe sempre”. Os mitos são, afinal, os fatos da alma e da mente humana encenados no mundo externo. Por isso são atemporais, pois os assuntos da alma residem na eternidade, e embora não existam na realidade mundana, existem na realidade da imaginação. A única forma de viver feliz para sempre é viver neste caminho que leva a nossa essência mais íntima, a nossa aurora.

***

[1] Trecho de O Poder do Mito.

[2] Trecho de The Mindscape of Alan Moore.

Crédito da imagem: Malévola – O filme (Divulgação)

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16.6.14

A aurora de Malévola, parte 1

Recentemente assisti ao filme Malévola (Maleficent), da Disney, com Angelina Jolie no papel principal, que se trata de uma releitura de um antigo conto de fadas que também já havia sido transposto ao cinema pela própria Disney há décadas atrás.

A versão mais conhecida do conto é a dos Irmãos Grimm, publicada em 1812, na obra Contos de Grimm, sob o título A Bela Adormecida (Dornröschen). No entanto, como de costume, os Grimm se basearam em mitos ainda mais antigos para compor sua obra, de modo que podemos rastrear sua inspiração até o original La bella addormentata nel bosco (A Bela Adormecida no Bosque), do italiano Giambattista Basile (1566-1632), assim como o La Belle au bois dormant, do francês Charles Perrault (1628-1703), que já na época fazia sua própria releitura do anterior.

Há muitas análises simbólicas sobre os contos originais [1], mas meu objetivo aqui não é me ater ao passado, mas sim celebrar esta releitura atual, fruto da parceria da roteirista Linda Woolverton com o diretor Robert Stromberg. A seguir analisarei o filme com a minha interpretação da sua mitologia ainda presente, e embora os meus comentários tratem de assuntos que vão além da visão superficial da história, é inevitável que eu traga aqui alguns spoilers, de modo que recomendo que vejam ao filme antes de lerem o restante deste artigo...

A fada criança
No início do filme vemos uma fada Malévola muito diferente da bruxa má que aparece de repente nos contos antigos. De cara, já fica óbvio que a história tratará de explicar os acontecimentos ocorridos muito antes do início dos contos.

Aqui vemos uma menina inocente e brincalhona, que gosta de voar pela terra das fadas, brincar de guerra de lama com os duendes e, de vez em quando, subir até o alto do céu para tomar um banho de sol. Alguns desavisados podem achar que os seus enormes chifres, por si só, fazem dela um “ser maléfico”, mas é preciso estar atento para o fato de que, em muitas mitologias pagãs, os chifres estarem associados a sabedoria, e não a maldade.

Em todo caso, não poderíamos dizer que esta fada era muito sábia. Ela acaba encontrando um garoto larápio que havia adentrado a floresta encantada em busca de pedras preciosas, mas consegue convencê-lo a devolver o que havia roubado e, eventualmente, se afeiçoa a ele. A princípio a amizade dos dois é pura e verdadeira, mas eventualmente o mundo externo acaba seduzindo mais ao larápio do que sua amiga fada, e ele abandona a amizade.

Com o tempo ficamos sabendo que no mundo externo também existe um rei bem velho que não se conforma com o fato de não poder conquistar as terras das fadas. Durante o filme, este rei eventualmente perde uma batalha para uma Malévola crescida e jura se vingar...

Até mesmo crescida, entretanto, Malévola ainda não parece se dar conta da maldade que existe no mundo externo. Esta parte do filme tem algum paralelo com o mito do Éden, assim como com a época infantil.

Assim como Adão e Eva, as crianças são naturalmente boas, simplesmente pelo fato de ainda não haverem conhecido o mal. Uma vez comida a maçã, uma vez atingida a adolescência e, principalmente, o despertar da sexualidade, todos passamos a conhecer tanto o bem quanto o mal, e todos passamos a, efetivamente, fazer nossas próprias escolhas internas sobre qual o caminho a seguir. Acredito que o restante do filme fale essencialmente sobre isto.

A inocência perdida
No decorrer do filme, o velho rei decreta: “Aquele que matar Malévola será o herdeiro do meu trono”. Aqui, vemos o garoto larápio já crescido, um reles serviçal do rei, porém muito ambicioso. Ele elabora um plano ardiloso.

O larápio retorna a floresta das fadas e, mesmo após muitos anos sem ver Malévola, ela acaba voando ao seu encontro ao ouvir seus chamados. Ele a seduz e diz querer reatar a amizade de outrora. Malévola, a criança crescida, aceita prontamente.

Então transcorre a cena mais impactante do filme, que é uma óbvia analogia a uma violência sexual, mas por contra de ser um filme para crianças, transcorre de maneira inteiramente simbólica. O larápio dá um sonífero para Malévola beber e, enquanto ela esta dormindo de bruços na relva, vemos sua tentativa de esfaqueá-la... No último momento, ele reluta, pois ainda há uma chama, quem sabe, de amor verdadeiro, que embora quase apagada, ainda o faz pensar noutra solução: cortar suas asas para levar ao velho rei como “prova” do assassinato.

Ao acordar sem suas asas, e sem seu suposto amigo, Malévola prontamente compreende o ocorrido, e grita de tristeza. Sim, fica muito claro que é tristeza, uma profunda tristeza, o que ela sente ao perceber que foi não somente ludibriada por seu “amigo”, mas que também foi profundamente violentada por ele. Sem suas asas, ela não poderia mais escapar de vez em quando da terra para ver o sol nas alturas – ela caiu, definitivamente, do Éden; será que um dia conseguirá retornar?

A terrível maldição
Passam-se os anos e o garoto acaba mesmo se tornando um rei, que eu devo chamar de rei larápio. Ele se casa com alguma princesa (que não tem muita importância no contexto da história) e eles acabam tendo uma filha. É precisamente na festa do batizado desta filha, Aurora, que Malévola reaparece e chegamos, finalmente, ao início dos contos originais.

Malévola, que não havia sido convidada para a celebração, vai até lá por conta do ódio que nutriu, por anos, em seu coração (a tristeza não devidamente tratada). Chagando lá ela profere uma “terrível maldição que não poderia ser quebrada por nenhum poder do mundo”. A princípio, seu intuito era o de fazer Aurora dormir para sempre após completar 16 anos, ao espetar seu dedo na ponta de um fuso de tear; porém, como o rei larápio suplica de joelhos, ela “suaviza” a maldição e diz, “Mas se alguém lhe der um beijo de amor verdadeiro, ela acordará”.

Ocorre que, naquela altura, nem Malévola nem o rei acreditavam que o amor verdadeiro existia, de modo que o rei passa a crer que a maldição seria inevitável se ele não desse cabo de todos os teares do reino, e mandasse seu bebê para ser cuidado por três fadas “bondosas” em algum local secreto. Aurora é então levada para a própria terra das fadas, onde é criada pelas “tias fadas” num casebre em meio a floresta, enquanto o rei larápio fica cada vez mais paranoico com o passar dos anos, passando até a “conversar” com as asas arrancadas de malévola, que decoram o seu salão, como se ela estivesse ali (e, como veremos, de certa forma, uma parte dela estava mesmo).

No início da criação de Aurora, nos surpreendemos ao perceber que Malévola, apesar de a odiar profundamente, acaba por cuidar para que não lhe falte alimentação, e envia o seu corvo serviçal para auxiliar no possível, onde as “tias fadas”, que não tinham lá muita experiência em cuidar de bebês humanos, falhavam [2]... Na próxima parte do filme ficamos na dúvida se o que Malévola sente por Aurora é mesmo ódio, ou amor; raiva, ou medo!

» Em seguida, o misterioso amor verdadeiro...

***

[1] Ver, por exemplo, Análise mitológica de A Bela Adormecida e Doze Reis e a Moça no Labirinto do Vento, de Wilton Fred C. de Oliveira; ou A Bela Adormecida do Bosque e o despertar da sexualidade, de Ana Cláudia Matos Gonçalves.

[2] Uma curiosidade: É a própria filha de Angelina Jolie, Vivienne, quem interpreta Aurora quando criancinha. De fato, foi a sua estreia nos cinemas!

Crédito da imagem: Malévola – O filme (Divulgação)

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10.4.14

Noé – o que merece ser salvo? (parte 1)

Recentemente estreou no país mais um filme supostamente “bíblico”, narrando a famosa história da Arca de Noé. Darren Aronofsky, entretanto, não parecia a primeira vista um diretor ou roteirista com muita inclinação a temas demasiadamente religiosos. E, de fato, o seu Noé passa longe de ser uma história “fiel a Bíblia Sagrada”, tanto que gerou comentários como este, de um missionário cristão “enganado pelo trailer do filme”:

O filme tem muitas coisas de mau gosto e interpretações sem nenhum fundamento religioso ou bíblico. Penso que o autor da obra poderia ter respeitado, pelo menos, o essencial da narração do texto bíblico [...] A verdade é que o longa-metragem é uma afronta e uma distorção da beleza da revelação divina. Ele não merece ser visto nem apreciado por quem tem a Bíblia como um Livro Sagrado, fonte da revelação divina e inspiração primeira de fé. Existem filmes mais sérios e de roteiros mais qualificados.

Enquanto, ao mesmo tempo, vimos esta “sinopse do filme Noé, escrita por um ateu” fazer certo sucesso nas mídias sociais:

O filme conta a história de um ancião chamado Noé, de 600 anos, que resolve construir um barco após ouvir Deus dizer que mandaria um dilúvio para afogar toda a humanidade. Noé e seus filhos passam a ser responsáveis por acomodar na embarcação quase 5 milhões de casais de animais, incluindo os de continentes ainda desconhecidos. Após serem os únicos sobreviventes do dilúvio, a família de Noé tem um novo desafio: repovoar o planeta através do incesto, e dar origem a povos de diferentes etnias, como negros, pardos, asiáticos, etc.

Ah, nada como o choque de extremos! Enquanto os fanáticos da crença não suportam ouvir a sua querida história fossilizada num livro milenar com sequer uma vírgula fora do lugar, os fanáticos da descrença caçoam ferozmente de qualquer um que tenha ido ao cinema “ver tamanho absurdo ilógico”.

Pois bem, a vantagem de não sermos fanáticos, senão pelo bom senso, é que podemos muito bem ir ao cinema ver o filme de Aronofsky sem nos sentirmos escandalizados nem pelo fato de o roteiro se afastar em muito do Gênesis, nem pelo fato de a história não ser nem um pouco verossímil – pois que se trata de mitologia!

O Dilúvio
São tantas as mitologias que falam de um Grande Dilúvio que cobriu a Terra, que muitos historiadores creem que, de fato, nossos ancestrais devem ter atravessado não uma, mas diversas inundações catastróficas. Pense numa época sem internet, TV, jornais ou telégrafos, onde muitas vezes tudo o que um povo conhecia eram os arredores de sua floresta ou campina... Ora, qualquer inundação capaz de cobrir uma área extensa o suficiente poderia muito bem lhes parecer como se o mundo todo estivesse sendo inundado!

E, de fato, relatos como este não faltam nos mitos dos mais variados povos – muitos deles mais antigos que os hebreus:

Na Epopéia de Gilgamesh, o mais antigo poema épico de que se tem notícia na história, encontrado no Iraque (que, há cerca de 5 mil anos atrás, foi o berço de uma grandiosa civilização antiga, quando a região era então conhecida como Mesopotâmia) por arqueólogos modernos, temos a passagem onde o herói Gilgamesh pergunta a Siduri (deusa do vinho e da sabedoria) como encontrar Utnapishtim, o sobrevivente do Grande Dilúvio e único humano a receber a imortalidade. Ao finalmente encontrá-lo, ouve de sua boca o relato de como os deuses, zangados com o comportamento barulhento e desregrado dos humanos, resolveram destruir os mortais com um dilúvio. Utnapishtim afirma que só foi salvo porque Ea (deus da água) o visitou num sonho e lhe mandou construir um barco. Como fora o único a sobreviver à grande tempestade, os deuses lhe concederam a vida eterna como prêmio (ele provavelmente trouxe algumas mulheres em seu barco).

O conceito de dilúvio como punição divina aparece também na história clássica da Atlântida. No mito da Grécia Antiga, Zeus enviou um dilúvio para punir a arrogância dos primeiros homens. O titã Prometeu advertiu Deucalião, seu filho, da catástrofe eminente. Ele então construiu uma arca e nela se refugiou com a esposa, Pirra. Por nove dias e nove noites ficaram à mercê das águas (um dilúvio mais curto que o bíblico), até pararem no monte Parnaso. Quando as chuvas cessaram, Deucalião ofereceu um sacrifício a Zeus, que em troca lhe concedeu um desejo. O seu desejo foi simplesmente pedir por mais homens e mulheres para os ajudar a repovoar e Terra (um homem prático).

Há muitos mitos parecidos espalhados pelos povos antigos. Em muitos mitos de criação o mundo era formado por um oceano quando em seu estado primitivo; dessa forma, pela sua inundação, os deuses o devolvem ao seu estado inicial, permitindo um recomeço.

Nos contos dos chewongs da Malásia, o criador Tohan transforma o mundo de tempos em tempos, quando submerge todas as pessoas, exceto as que foram prevenidas, e cria uma nova Terra no fundo das águas. Na mitologia nórdica, temos o conto do Choro de Baldur, quando o malvado Loki faz o arqueiro cego e sua flecha de visgo assassinarem o benevolente Baldur, e todas as coisas que existem choraram por ele, causando um dilúvio. Na mitologia hindu, um peixe disse a Manu que as águas cobririam a terra e, novamente, temos uma arca salvando a continuidade da humanidade. Entre os celtas, os poemas do Ciclo de Finn narram a ocupação da Ilha após o Grande Dilúvio. Nos índios americanos, temos a história de Kwi-wi-sens e como ele e seu amigo corvo escaparam do dilúvio causado pelos deuses dos céus... Acho que já deu para entender né? Essa história simplesmente não será esquecida...

O mito de cada um
O que nos leva a questão de compreender o que diabos é exatamente a mitologia. Segundo Joseph Campbell, “um mito é algo que não existe, mas existe sempre”. Com isso, ele queria dizer que os mitos são nada mais que os fatos da mente, os sonhos e pesadelos do consciente e inconsciente humano, encenados “do lado de fora”. O lado exterior, que um cético poderia, quem sabe, chamar de “mundo real”, é o lado que existe no tempo. Mas o lado interior, apesar de também computar a passagem dos dias e noites, faz algo que vai além da capacidade das máquinas e tecnologias mais avançadas: os interpreta!

É na interpretação da vida que sentimos emoções como o amor, o medo, a raiva, a tranquilidade e a angústia. É na constante lembrança e reinterpretação de tais emoções que terminamos por produzir a arte, e toda arte precisa contar uma história – e toda grande arte acaba por tocar na essência atemporal do ser humano, acaba por conceber um mito...

No entanto, como também dizia Campbell, “qualquer deus, qualquer mitologia ou qualquer religião são verdadeiros num sentido – como uma metáfora do mistério humano e cósmico: Quem pensa que sabe, não sabe. Quem sabe que não sabe, este sim, sabe. Há uma velha história que ainda é válida. A história da busca. Da busca espiritual... Que serve para encontrar aquela coisa interior que você basicamente é. Todos os símbolos da mitologia se referem a você: Você renasceu? Você morreu para a sua natureza animal e voltou à vida como uma encarnação humana? Você venceu o Grande Dilúvio para recomeçar numa nova Terra? Na sua mais profunda identidade, você é um desses heróis, você é também um deus”.

Dessa forma, quando uma criança ouve falar do Homem-Aranha ou do Super-Homem, e logo quer uma fantasia para poder brincar de ser o Homem-Aranha ou o Super-Homem, isto diz mais sobre a mente humana e sobre a mitologia do que julga a vã filosofia.

O que Aronofsky fez em seu filme foi nada mais do que reinterpretar o mito da Arca de Noé. Podemos não gostar da sua interpretação, mas seria realmente infantil (no mal sentido) julgarmos a sua obra “heresia” ou “absurdo ilógico” de antemão, apenas porque, provavelmente, ainda não fazemos a mais vaga ideia do que vem a ser, de verdade, a mitologia.

A mensagem ecológica do filme é clara e evidente. Se no Gênesis a humanidade era punida pelo Criador pelo fato de haverem procriado com “os filhos de Deus” e de, por alguma razão, a maldade haver se espalhado pelo mundo (Ge 6:1-5), no Noé do cinema o homem arrasou com os recursos naturais do planeta, ao ponto de não vermos sequer uma única árvore remanescente até que Noé tenha plantado uma das sementes do Éden que foram guardadas pelo seu avô.

Além disso, Aronofsky também incorre em uma arriscada crítica ao fanatismo religioso, a tornar o próprio Noé um advogado do fim de toda a raça humana, desejando deixar apenas os animais “inocentes” para o novo mundo. A maneira como este enredo de desenrola no filme é um dos pontos mais originais e que mais se afastam da narrativa bíblica – no entanto, se formos analisá-lo do ponto de vista da nossa época atual, se trata de uma adição totalmente válida ao mito.

Que bom que Aronofsky soube interpretar a história do Dilúvio a sua maneira. Porque não podemos, então, fazer o mesmo?

» Em seguida, os mares internos da alma...

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Bibliografia: Guia Ilustrado Zahar de Mitologia (Philip Wilkinson e Neil Philip); Enciclopédia de Mitologia (Marcelo Del Debbio); O Poder do Mito (Joseph Campbell e Bill Moyers)

Crédito da imagem: Noé – O filme (Divulgação)

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22.11.13

EU MAIOR finalmente estreia

O documentário EU MAIOR é uma iniciativa da Associação Dobem, organização sem fins lucrativos, cuja missão é disseminar conhecimento voltado para um desenvolvimento integral do ser humano.

EU MAIOR traz uma reflexão contemporânea sobre autoconhecimento e busca da felicidade, por meio de entrevistas com expoentes de diferentes áreas, incluindo líderes espirituais, intelectuais, artistas e esportistas (alguns exemplos: Prof. Hermógenes, Mario Sergio Cortella, Marcelo Gleiser, Monja Coen, Marina Silva, Rubem Alves, Richard Simonetti, Leonardo Boff, Letícia Sabatella, e por aí vai). Um filme sobre questões essenciais e universais, numa época de grandes transformações e desafios, que pedem níveis mais altos de discernimento e consciência individual.

Com duração de cerca de 100 minutos, EU MAIOR estava em fase de produção desde meados de 2010. Após diversos adiamentos, finalmente estreou em 21/11/13. Bem, valeu a pena a espera... Além de estar disponível gratuitamente no YouTube, o documentário também se encontra à venda em DVD e BlueRay, além de estar passando em certas salas de cinema pelo país.

Quem resume bem todas as questões do filme é exatamente o Prof. Hermógenes, o vaga-lume silencioso, e ele responde com um suspiro; prestem atenção até o fim:


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