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31.8.17

A filosofia para viver bem (parte 1)

1. Entre o Céu e a Terra

A filosofia não foi sempre uma abstração praticada pelos acadêmicos. Na Grécia Antiga, existiram alguns pensadores mais pragmáticos, que exploravam questões mais cotidianas. Problemas sobre como enfrentar a morte de um amigo, como agir corretamente em determinada situação ou aproveitar a vida da melhor forma possível.

O objetivo da vida para um grego antigo era alcançar a eudaimonia. Geralmente, traduzimos por alcançar a felicidade ou o desenvolvimento das potencialidades. De forma mais simples, podemos dizer que chegar a eudaimonia é aprender a viver bem. Em todos os sentidos: crescer enquanto ser humano, desfrutar da vida, ser uma pessoa boa.

Isto é muito mais difícil do que parece, pois, na vida, somos acometidos por toda sorte de problemas que geralmente nos impedem de nos dizermos felizes. Preocupações, ansiedades, medos, conflitos.

Os filósofos entendiam que o caminho para a eudaimonia se daria, portanto, através da ataraxia.

Ataraxia pode ser traduzida como “imperturbilidade”, ou um estado livre de tensões. Uma vez que as tensões da vida são aquilo que nos impedem de desfrutar das nossas experiências ou fazer escolhas com sabedoria, a prática da ataraxia buscava alcançar um estado de tranquilidade, livrando-se de tensões desnecessárias, mantendo o equilíbrio e a consciência das nossas emoções.

Como alcançar esse estado de tranquilidade? Os filósofos discordaram justamente quanto a isso.

Cada um deles tinha uma concepção de como deveríamos reagir ao mundo ou lidar com a vida. Duas escolas do período helenístico se destacaram enquanto doutrinas neste sentido: o epicurismo e o estoicismo.

Os epicuristas entendiam que a vida devia ser prazerosa. Porém, deveríamos ter cuidado com os excessos. Desejos exacerbados ou fúteis podem nos conduzir às perturbações, medos e sofrimentos.

Para Epicuro, a felicidade podia ser alcançada quando realizássemos nossos desejos de forma estável e equilibrada. Epicuro mesmo tinha uma vida extremamente simples. A amizade era uma coisa essencial para si. Portanto, vivia cercado pelos seus amigos, compartilhando com eles seus pensamentos num belo jardim. Uma vida extremamente simples, mas prazerosa e equilibrada.

Os estoicos, por sua vez, acreditavam que seríamos felizes quando não tivéssemos mais motivos para sofrer. Portanto, deveríamos abandonar nossos desejos, paixões, ou qualquer tentativa desnecessária de mudar o curso do mundo.

Segundo Zenão, somos como um cão amarrado a uma carroça. Esta última representa o mundo, os eventos maiores que nós mesmos, o destino. Quando a carroça avança, somos puxados pelo curso do mundo. Se lutarmos contra ela, iremos nos machucar. O cão também não pode ficar parado. A carroça obriga-o a se mexer.

Isto não significa que não temos liberdade. A coleira tem uma folga suficiente para o cão poder andar livremente enquanto acompanha a carroça. Ele só não pode ir para além do laço que o prende. Deste modo, temos a liberdade de escolher como nos comportar, responder ou pensar durante os eventos. Só não podemos – sozinhos – crer que vamos curvá-los ao nosso desejo.

Pensamos que só podemos ser felizes quando as coisas são como desejamos, quando elas estão além do nosso poder para conquistar ou alterar. O objetivo estoico é desenvolver uma espécie de indiferença perante as paixões e frustrações, de modo que os acontecimentos não afetem nosso humor. A felicidade advém, para um estoico, não de experiências simples e prazerosas (como diria um epicurista), mas de uma vida virtuosa.

Hoje podemos reconhecer ambas as escolas sob outros nomes, ainda em disputa: o ascetismo e o hedonismo.

Segundo o ideal asceta, o objetivo da vida é nos elevarmos acima dos prazeres e sofrimentos do mundo, transcendendo a realidade inferior do mundo.

A visão hedônica define que o mundo é tudo que possuímos, e não há nada de inferior nele.  Portanto, devemos aproveitar a vida que temos, desfrutando dos prazeres e aprendendo com os sofrimentos.

Há ainda uma terceira escola que geralmente é esquecida da tradição clássica.  Vamos falar dela no próximo texto da nossa série.

» Continua aqui

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Olu Eletu/unsplash

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