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9.5.18

Racismo é ignorância (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo falo sobre o único código que não surgiu da mente humana, o mesmo que trouxe a mensagem da Natureza, e ela dizia "que só há uma raça humana". Também veremos como nossos ancestrais migraram da África para todos os demais continentes, e ao final ainda temos uma surpresa especial:

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


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7.3.18

Frases (21)

Palavras nômades que vêm e vão. Costumam aparecer primeiro no meu twitter, e depois aqui (sim, eu fiquei bastante tempo sem atualizar o blog com as frases, então desta vez vamor ter mais do que o habitual):


"O que é a consciência afinal? Se dizemos que é uma ilusão, estamos iludidos!"

"Não há nada mais intenso do que a guerra contra o ego. O "estado zen" é o "espólio" da guerra, e não a guerra em si."

"Veja o ego andando em zigue-zague pelo caminho do meio, perdido em linha reta."

"Os extremos se cruzam diversas vezes, mas estão vendados."


"Um guia para a vida virtuosa: julgar aos outros o mínimo possível, julgar a nós mesmos com certa regularidade, e dar bons exemplos."

"Desejamos a eternidade, e a única coisa eterna dentro do tempo é o amor."

"Não há nada no universo detectado mais extraordinário do que uma alma humana."

"Quanto as almas, eu as vejo como espelhos, apontando para o que está além da detecção. Dar um nome ou uma qualidade a isso seria inútil."


"Não julgar a espiritualidade alheia lhe ajuda bastante com a sua própria espiritualidade."

"Quem muito julga os outros, pode esquecer do julgamento mais essencial: o de si mesmo."

"Se você pergunta a duas pessoas, uma em Tóquio, outra no Rio, se é dia ou é noite, elas darão respostas diversas, mas ambas estarão corretas."

"Temos de criar navegantes e não recitadores de enciclopédia."


"Toda a minha filosofia se resume a tentar passar adiante o sentimendo de estar navegando por Deus, em cada momento, em cada pensamento."

"Os místicos não detém a verdade absoluta, não querem evangelizá-la. Conhecendo uma alma por dentro, a sua própria, eles tocam todas elas."

"Todo ser é livre em seu interior. Livre, inclusive, para se manter aprisionado na ignorância. No mundo todo, não há liberdade maior."

"Nenhum mestre chama a si mesmo de mestre, pode no máximo aceitar que um discípulo o chame assim enquanto for discípulo. Isto pois o grande objetivo do mestre é tornar o discípulo tão mestre quanto ele."


"Sócrates deve ter sido muito mais gente boa que Platão, e Epicuro mais que Diógenes; Nietzsche mais que Schopenhauer; e Montaigne mais do que todos."

"Todos os dias há um eclipse do sol pelo horizonte, lá pela tardinha..."

"Profissão menos reconhecida da história: Arauto do Final dos Tempos. Quando um deles acertar, não terá direito a prêmio algum."

"Eu acredito em criação do futuro."


"Se fosse para usarmos outro nome para homo sapiens, seria afro-descendentes. A genética explica."

"O código genético é a única linguagem usada pelo ser humano que não foi criada por ele."

"A "transmissão de efeito placebo telepaticamente do acupunturista para o cavalo" é uma explicação consideravelmente mais "sobrenatural" do que o suposto funcionamento da acupuntura em si."

"Um objeto, um troféu, pode ser lindo, mas só uma alma é interessante. Entre a mulher-objeto e a mulher-alma, prefiro mil vezes a que é, de fato, interessante :)"


"Como encontrar um fato num palheiro de pós-verdades?"

""Mas o seu partido também rouba". Assim, roubam todos, e ficamos discutindo sobre quem rouba mais ou menos."

"Temos de ter muito cuidado com o que pedimos ao Universo. Imagina quem pediu, em 2012, para ser tão rico e bem sucedido quanto o Eike Batista?"

"Dar um voto de protesto é como alugar um quarto num hotel, não gostar dele, e reclamar cagando na cama: você ainda terá de dormir nesta cama." (Alan Moore)


"O mistério da vida não é um problema a se resolver, mas uma realidade a se experienciar." (Anônimo/Slack)

"Para o ignorante, o mundo inteiro é seu inimigo. Porém, para o sábio o mundo inteiro é seu professor." (Charaka Samhita, texto clássico Ayurveda)

"Se um homem está vivo, há sempre o perigo de que possa morrer, embora se deva reconhecer que este perigo é bem menor se ele for um morto-vivo." (Thoreau)

"Ter muitos amigos no Facebook é como ser rico no Banco Imobiliário." (L. Riponche)

"Isto é a Vida Eterna, bem aqui. Realize-se, seja feliz, gentil, apaixone-se e nunca faça algo com o qual não possa conviver pra sempre." (Alan Moore)


"Há pedras que se chocam para tirar lascas umas das outras, e há pedras que produzem novas e belas faíscas." (Abenides Faria)

"Um deus me concedeu a arte de exprimir o quanto sofro, nas circunstâncias em que os outros homens se calam com a sua dor." (Goethe)

"Se você não quer um Deus, é melhor que tenha um Multiverso." (Bernard Carr)

"Você me pergunta "o que é Deus?"; eu lhe respondo com outra pergunta: "O que não é Deus?". Se você souber esta resposta, também saberá a outra." (Atmaji)

***

Crédito da foto: Christopher Campbell/unsplash

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6.10.17

Blade Runner 2049: em busca do milagre (parte 1)

Este artigo pretende ser uma análise filosófica e espiritualista do filme Blade Runner 2049, aqui não irei me focar especificamente em aspectos técnicos ou artísticos (embora a direção de Denis Villeneuve seja belíssima), mas antes na minha própria análise pessoal da simbologia do filme. Obviamente, o texto a seguir contém spoilers que podem atrapalhar a experiência de se assistir a obra pela primeira vez. Assim sendo, se ainda não a viu, recomendo enormemente que vá assistir antes de prosseguir nesta leitura.

***

Aviso dado, prossigamos... Como devem saber, o filme é uma continuação do clássico cult de 1982, escrito por Hampton Fancher e David Peoples, e dirigido pelo grande Ridley Scott. A sequência atual é dirigida por um diretor muito promissor, Denis Villeneuve, e compartilha do mesmo Hampton Fancher no roteiro, desta vez com ajuda de Michael Green. Ambos os roteiros devem muito ao livro Do Androids Dream of Electric Sheep? (Será que Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?), escrito por Philip K. Dick, que acabou se tornando um escritor essencial da história da ficção científica justamente com a ajuda do sucesso alcançado pelo primeiro Blade Runner.

Ambos os filmes tratam de investigações policiais engendradas numa espécie de futuro distópico onde o consumismo exacerbado levou a humanidade a uma espécie de apocalipse da natureza. Ambos trazem cenários de metrópoles americanas sombrias e chuvosas cheias de imigrantes e androides convivendo em meio a um cenário abarrotado de anúncios que mais lembra uma “Tóquio que deu muito errado”. Outra questão central em ambas as obras é a desconfiança e a confusão entre o que é real, o que é humano e o que é artificial, em diversos sentidos.

Vamos passar agora para minha interpretação direta de algumas cenas e aspectos do filme:

O herói e o milagre
Na primeira cena do filme, K. está caçando um dos replicantes antigos que conseguiram se esconder da fiscalização. Como sabemos, o seu trabalho consiste em “desligar” todos esses androides da linhagem antiga, de modo a que permaneçam somente aqueles como o próprio K., inteiramente obedientes ao sistema governamental. Assim, temos uma característica primordial do filme revelada de início: K. sabe que é um replicante, e sabe que caça aqueles de sua própria “espécie”.
No entanto, já temos nesta cena uma diferença grande em relação ao primeiro filme: a ação se passa totalmente fora de Los Angeles, numa região onde há o cultivo sintético de alimentos. Dentre outras coisas que podem passar desapercebidas, há por exemplo um tronco morto de árvore e um pequeno ramo de planta encontrado no solo ao lado dela. Temos de considerar que, na distopia onde o filme ocorre, tanto madeira quanto plantas como aquela são algo extremamente raro de se ver. No contexto da cena, tais elementos soam mais como mensagens místicas que servem para despertar o herói em sua jornada. Sim, mesmo aqui temos uma Jornada do Herói [1] em curso, embora extremamente original.
Porém, o que realmente coloca “uma pulga atrás da orelha” de K. é a frase que o replicante lhe diz, pouco antes de entrar em luta corporal e acabar “desligado”. Algo como: “Você só faz o que lhe mandam fazer, mas é assim porque ainda não viu um milagre” [2].

O milagre muda tudo
Algum tempo depois, já no Departamento de Polícia, K. traz a sua chefa uma caixa encontrada enterrada perto da árvore, e nela há uma ossada aparentemente humana. O legista analisa os ossos e concluí que se tratava de uma mulher grávida que morreu durante um parto, provavelmente uma cesariana. É o próprio K., no entanto, que ao lado de sua chefa (uma humana, a chefa do Departamento) acaba operando o zoom do aparelho e descobrindo um código de série nos ossos, o que significa que a grávida em realidade era uma replicante da série antiga!
E isto muda tudo, não somente para a própria investigação policial, que passa a ser bem mais importante e sigilosa, como para o próprio K., que confirma que aquele tal “milagre” mencionado por sua vítima era, de fato, real.
Assim chegamos a uma importante passagem do filme, quando a chefa de K. determina que ele cace e mate a criança (agora já adulta) nascida daquela androide, e ele hesita por um momento... Quando sua chefa lhe pergunta qual o problema, ele responde: “É que nunca matei alguém nascido, suponho que os nascidos tenham alma”. Depois, pouco antes de sair da sala, a sua chefa complementa: “Não se preocupe, você tem se saído muito bem sem uma alma”.

O Demiurgo
É durante a investigação de K. que somos trazidos até uma cena na sede da corporação de Niander Wallace, o megaempresário responsável pela fabricação de alimentos sintéticos e pelas novas linhagens de replicantes (dentre eles, o próprio K.). Me pareceu que este personagem está diretamente associado à ideia de Demiurgo segundo algumas teorias gnósticas.
Este Demiurgo do mal seria o próprio criador do mundo material, responsável por nos manter seduzidos e ancorados em nossos próprios desejos materialistas, assim afastados do mundo espiritual. O conhecimento gnóstico seria justamente o caminho para nos elevarmos de volta ao mundo espiritual, de onde viemos originalmente. Uma outra forma de analisar tal dualidade seria simplesmente contrastar nossos pensamentos materialistas com os espirituais. Seja como for, fato é que Wallace, apesar de pouco aparecer no filme, representa a fonte (o empreendedor) de toda a materialidade, de toda a superficialidade, de toda a ilusão, presentes naquele mundo distópico.

A garota-holograma
Quando K. chega em sua casa somos apresentados pela primeira vez a Joi, uma espécie de Inteligência Artificial holográfica que lembra muito uma espécie de avanço tecnológico em relação as atuais bonecas sexuais japonesas. Claro que a relação amorosa deles não é física, uma vez que Joi só pode ser projetada como holograma. Isto, no entanto, é resolvido quando a própria Joi contrata (via internet?) uma garota de programa replicante para dançar e eventualmente transar com K.
Joi então se “sincroniza” com a replicante e o que se segue é talvez a cena mais antológica do filme, quando K. dança ao mesmo tempo com sua “garota fantasma” e com a prostituta. Aqui podemos fazer várias análises, desde a diferença entre a figura de nosso amor imaginário que fantasiamos em nossa própria mente em relação à pessoa real a qual nos relacionamos, até a própria dualidade “corpo-alma”; sendo que a alma, obviamente, seria a figura etérea de Joi.

Somos todos replicantes?
Joi também participa de outra cena consideravelmente profunda do filme, embora possa facilmente passar desapercebida: enquanto K. está analisando um por um os registros genéticos de pessoas nascidas na época do parto da criança que ele está caçando, Joi se questiona sobre a diferença entre seres construídos por bases orgânicas (citosina, adenina, guanina ou timina, isto é, o código genético) e seres de inteligência artificial, compostos por “zeros e uns”.
Aqui há uma questão importante, de fato: enquanto seres como Joi nada mais são do que sequências de programação de códigos inventados pelo ser humano, os androides ou replicantes do mundo de Philip K. Dick são feitos de intervenções humanas em um código pré-existente, que não foi criado pelo próprio homem. Assim sendo, é perfeitamente possível que a natureza ela mesma tenha interferido na própria evolução dos replicantes, permitindo que eles eventualmente passassem a gerar filhos (o milagre), uma vez que o ser humano jamais terá domínio completo de um código que não é inteiramente seu.
Isto também remonta a velha dúvida do primeiro filme, se Deckard era ou não um replicante. Ora, nesta nova versão o herói já sabe de antemão que é um replicante, mas a dúvida passa a ser outra, mais profunda: se replicantes podem gerar o milagre da vida, não seriam eles também portadores de uma alma? Não seria o próprio K., e todos os demais androides como ele, seres com direitos humanos?
Ao mesmo tempo em que refletimos sobre isso, podemos refletir sobre nossa própria vida no “mundo real”: não seríamos nós mesmos “replicantes”, no sentido de simplesmente replicarmos as mesmas tarefas, todo santo dia, pela vida toda, até aquele momento mágico em que finalmente descobrimos nossa própria alma? Não seria, este também, o milagre pelo qual todos nós buscamos?


» Na continuação, encerramos nossa análise falando de Pistis Sophia e de anjos terríveis (clique para acessar a parte final do artigo)

***

Obs.: Não deixe de ver também esta profunda análise do Blade Runner original feita pelo meu amigo Acid (do blog Saindo da Matrix). Veja também a parte 1 e a parte 2 de sua análise da simbologia presente na obra.

[1] A Jornada do Herói (também chamado de “Monomito”) é um conceito de jornada cíclica presente em narrativas mitológicas, de acordo com o antropólogo Joseph Campbell. Você pode ver um excelente vídeo sobre o assunto no canal da Carol Moreira.

[2] A frase provavelmente é um pouco diferente, estou lembrando de cabeça. Mas a essência dela é a referência ao “milagre”.

Crédito das imagens: Blade Runner 2049/Divulgação

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27.7.17

O campo além das ideias

Caminhando junto ao poente numa das regiões mais inóspitas do planeta, as margens do grande Kalahari, deserto ao sul da África, Pedro se impressiona com os hábitos de seus companheiros (além do guia turístico, é claro): os bushmen, ou povo san, caçadores-coletores que vivem em torno dos poucos poços d’água subterrânea na região há dezenas, quiçá centenas de milhares de anos.

“É interessante como a gente anda neste lugar e é incapaz de observar o que eles observam. Eles veem cada planta, fruta, cada detalhe da paisagem com outro olhar, pois isso tudo faz parte da sua sobrevivência” – conclui Pedro, ou Pedro Andrade, jornalista apresentador do programa Pedro Pelo Mundo, do canal de TV a cabo GNT. Neste episódio ele decidiu retornar a Botswana, antigo protetorado britânico que, após adquirir sua independência em 1966, multiplicou seu PIB per capta em dezenas de vezes e se encaminha para a prosperidade sem ter passado por guerra civil ou períodos ditatoriais, algo extremamente incomum para um país africano.

Mas a grande característica de Botswana é precisamente estar tão isolado do resto do mundo que, por algum milagre, o povo san pôde viver relativamente intocado até os dias atuais, preservando uma cultura e estilo de vida arcaicos, o que também pôde ser comprovado pela ciência. Segundo estudos modernos, os san possuem um dos mais elevados graus de diversidade do DNA mitocondrial dentre todas as populações humanas, o que indica que eles são uma das mais antigas comunidades do globo. O seu cromossomo Y também sugere que, do ponto de vista evolucionário, os san se encontram muito perto da “raiz” da espécie humana (homo sapiens).

No fim da noite, Pedro participa como observador dos rituais e cânticos dos san. Em torno de uma pequena fogueira, as mulheres cantam e batem palmas sentadas, e os homens dançam enfileirados em círculo. Mas não é só isso: após entrarem em transe, alguns dos xamãs [1] san incorporam seus próprios antepassados e entidades da natureza. Até mesmo o guia turístico, um branco ocidental que se apaixonou pela região e pelos san, pratica a incorporação para virar ele mesmo um xamã entre o povo ancestral. Afinal, os san são antigos o suficiente para saber que, sejamos brancos ou negros, todos somos um mesmo povo, todos saímos dali, ou de bem perto dali, há centenas de milhares de anos, para povoar o resto do planeta.

Alguma coisa antiga e profunda tocou Pedro nesta viagem, e principalmente neste breve contato com os san. É isto pelo menos que ele próprio confessa ao fim do episódio, muito embora “não saiba explicar ao certo o que é exatamente”. Decerto, o mesmo deve ocorrer com muitos ditos civilizados que têm a oportunidade de realizar este tipo de contato. Seria inútil perguntar ao próprio guia turístico e aprendiz de xamã o que é que o fez trocar a vida ocidental pela vida como guia turístico no Kalahari. Há alguma coisa de transcendente nos san, alguma alma ancestral que, de muitas formas, é também a nossa alma.

E decerto de nada adiantaria escrever um tratado sobre o assunto. Ainda que os san aprendessem inglês ou português, jamais seriam capazes de colocar em palavras as experiências místicas que, de tão constantes, quase diárias, são praticamente o seu dia a dia. Os san vivem até hoje noutro mundo, o mesmo mundo que toda a nossa espécie viveu um dia, mas que vem sendo gradativamente esquecido. Neste mundo, não faz sentido se falar em mundo material e espiritual, em vivos e mortos, em coisas sagradas: no dia a dia dos san, o material e o espiritual são basicamente uma coisa só, os vivos e os mortos jamais deixaram de se comunicar, e não há nada, absolutamente nada, que não seja sagrado.

E, como as palavras por si só são inúteis, precisamos recorrer à poesia. Como bem resumiu o poeta persa Jalal ud-Din Rumi: “Além das ideias de certo e errado há um campo, eu lhe encontrarei lá. Quando a alma se deixa naquela grama, o mundo está preenchido demais para que falemos dele. Ideias, linguagem, e mesmo a frase cada um já não fazem mais nenhum sentido”.

Para boa parte do planeta, os san são um povo selvagem que permaneceu atrasado e perdido nalgum deserto africano. Para os san, ou para os seus espíritos ancestrais, o restante do planeta é nada mais do que a família que resolveu ir caminhar para as regiões mais afastadas, até que se esqueceu de retornar. E, segundo a ciência moderna, são os san quem estão com a razão [2]. Dá o que pensar.

É costume do Ocidente avaliar a “evolução” de um povo ou civilização pela sua capacidade filosófica e científica, em suma, pela sua racionalidade. No campo espiritual, porém, as coisas são um tanto mais complexas de se julgar. O povo san, por exemplo, não pratica canibalismo, não faz sacrifícios de sangue aos deuses, não devasta o seu meio ambiente de forma predatória. Um teólogo de certo renome poderá dizer: “Ok, tudo bem, mas eles são incapazes de reconhecer um Deus único”... Mas, será que isso é algum parâmetro razoável para determinar sua “evolução espiritual”?

Há muitos reinados milenares do continente africano que veneravam os chamados orixás, que são basicamente os correspondentes dos deuses das mitologias gregas ou egípcias, e possivelmente até mais antigos. No entanto, entre diversos mitos de Criação africanos, temos um “Ser Supremo quem criou os orixás e os homens”, e seu nome é Olorum. Ao contrário dos demais orixás, Olorum não possui nem culto direto nem templo individual, além é claro de não receber oferendas, sejam de animais ou frutas ou o que for, já que Olorum “já é tudo”. Ora, muito embora seja complexo associar Olorum diretamente com Javé ou Allah, fica muito claro que, no fundo, a religião dos orixás também é, e sempre foi, monoteísta. Portanto, os africanos antigos já conheciam um Deus Criador único, e isso não foi invenção exclusiva dos povos do Oriente Médio.

Claro que nem todos os povos africanos ao longo dos últimos milênios chegaram à mesma profundidade de compreensão espiritual. Mas nós ocidentais não podemos nos gabar de estarmos muito na frente deles. Até pouco tempo atrás, nossas doutrinas mais elaboradas ainda aceitavam, na prática, que escravos não tinham alma, e que precisavam ser batizados para conseguirem sua entrada no Céu. Foi assim que muitos ditos cristãos arrancaram milhões de africanos a força de suas casas e, através de grilhões e açoites, os trouxeram para trabalhar na América. Trabalho não assalariado, evidentemente.

Nem mesmo seus nomes eles puderam trazer na bagagem. Chegando ao Novo Mundo, eram batizados com nomes como Joaquim de Jesus ou Maria de Fátima. Mas, ainda que os nomes tenham se perdido, seus espíritos ancestrais jamais lhe abandonaram. Foi assim que, no Brasil, o maior país negro do mundo, surgiu o samba, o Candomblé, a Umbanda etc. Os sobrinhos dos san perderam suas casas e seus nomes, mas os orixás persistiram, afinal aqui eles também estavam dentro de Olorum. Não há nada “lá fora”.

E, apesar dos grilhões, dos açoites e do preconceito que surge da ignorância persistente dos ditos civilizados, lá naquele campo onde vivem os poetas e os místicos, lá, além das ideias de certo e errado, lá, onde habitam os deuses e dançam os xamãs, eles nos perdoaram, eles nos aceitaram de volta, de braços abertos, de alma aberta.

E, aqueles que, como Pedro, estiveram por lá, ainda que por pouco tempo, ainda que por uma noitinha só, compreenderam: a África é todo o mundo!

***

[1] O termo “xamã” se originou do estudo dos povos indígenas da Sibéria, mas na realidade se aplica para povos ancestrais em todo o mundo. No Brasil, por exemplo, um xamã pode ser conhecido como pajé.

[2] Há diversas teorias para as origens da humanidade, mas o mais aceito atualmente é que nossa espécie surgiu na África e depois migrou para o resto do globo. Em todo caso, ainda que tenha surgido no mesmo período na Europa, teria a pele tão negra quanto à dos africanos, visto que a mutação que possibilitou a pele branca é relativamente recente, de cerca de 8.000 anos atrás (portanto mais nova que o próprio povo san).

Crédito da imagem: Google Image Search/Latinstock (povo san)

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8.4.15

Adão e Eva eram negros

É bem provável que a maioria dos cientistas não creia, ao menos literalmente, que Adão e Eva foram os primeiros seres humanos. Mas, fato é que os primeiros seres humanos, sejam quais fossem os seus nomes, eram negros. Neste caso já não é uma questão de crença, a ciência já tinha fortes evidências de que o homo sapiens se originou na África [1], e recentemente, com o estudo do genoma humano, chegou à conclusão que a pele branca, clara ou pálida é resultado de uma mutação relativamente recente em nossa história evolutiva.

O estudo, apresentado na 84ª reunião anual da Associação Americana de Antropologia Física, realizada em março de 2015 nos EUA, oferece fortes evidências que os europeus modernos não se parecem muito com os de 8 mil anos atrás.

Um time internacional de cientistas analisou o genoma dos restos de 83 indivíduos encontrados em sítios arqueológicos espalhados pela Europa. Os resultados apontam que a população europeia moderna é uma mistura de pelo menos três antigas populações que chegaram à Europa em diferentes migrações nos últimos 8 mil anos. Comparando com dados do Projeto 1000 Genomas, os cientistas conseguiram encontrar quatro genes associados com as mudanças na pigmentação da pele que passaram por forte processo de seleção natural.

Os cientistas encontraram dois genes diferentes relacionados com a coloração da pele, além de um outro, ligado aos olhos azuis e que também pode contribuir para a pele clara e o cabelo louro. Os humanos modernos que migraram da África para a Europa há cerca de 40 mil anos tinham a pele escura, o que é uma vantagem para regiões ensolaradas. E o estudo confirma que há 8.500 anos, povos caçadores e coletores na Espanha, Luxemburgo e Hungria também possuíam a pele escura, pois eles não tinham os genes SLC24A5 e SLC45A2, que levaram à despigmentação e à pele pálida dos europeus atuais.

Mas no extremo norte, onde os baixos níveis de luz favorecem a pele branca, os pesquisadores encontraram um panorama diferente entre os povos caçadores e coletores: sete corpos do sítio arqueológico de Motala, no sul da Suécia, datados em 7.700 anos, possuíam ambos os genes ligados à pele clara, assim como um terceiro, o HERC2/OCA2, que causa os olhos azuis [2]. Dessa forma, segundo o estudo, os povos caçadores e coletores do Norte da Europa já possuíam a pele pálida, mas os das regiões centrais e sul tinham a pele escura.

Então, os primeiros povos agricultores chegaram à Europa, há 7.800 mil anos, vindos do Oriente Próximo, também carregando os dois genes em questão. Eles se misturaram às populações caçadoras e coletoras e espalharam o gene SLC24A5 pelas regiões Central e Sul da Europa. A outra variante, o SLC45A2, se manteve em níveis baixos de penetração até 5.800 atrás, quando começou a se espalhar pelo continente.

O estudo não especifica porque esses genes passaram por tamanho processo de seleção, mas existe a teoria que a despigmentação serviu para maximizar a síntese de vitamina D, conforme afirmou a paleoantropóloga Nina Jablonski, da Unversidade do Estado da Pensilvânia. Pessoas que vivem em altas latitudes não recebem radiação UV suficiente para sintetizar a vitamina, então a seleção natural pode ter favorecido duas soluções genéticas para a questão: evoluir a pele clara para absorver mais radiação e favorecer a tolerância à lactose, para se digerir os açúcares e a vitamina D encontrados no leite.

“O que nós imaginávamos como um entendimento simples sobre o surgimento da pele despigmentada na Europa, é um emocionante trabalho da seleção” — disse Nina, em entrevista à revista Science — “Esses dados são interessantes porque mostram como se deu a evolução recente.”

Enquanto em boa parte de nossa história o racismo teve suporte na cultura geral, em algumas doutrinas de religiosos equivocados, em filosofias empobrecidas, em políticas públicas desconexas, e até mesmo na própria ciência, é um alento perceber como estavam certos todos aqueles que contemplaram a Natureza e perceberam há eras, pelas mais diversas vias, que somos todos uma única raça. E foi a própria Natureza quem nos contou: o estudo do genoma humano deixa muito claro e cristalino que tudo aquilo que um dia foi chamado de “raça humana” se resume a pequenas diferenças de tonalidade da pele, além de características faciais e capilares, que nem de longe são suficientes para delimitar mais de uma raça de homo sapiens no globo.

De fato, a única outra “raça humana” com quem já convivemos já está extinta, mas há resquícios dela em partes de nossos genes. Os neandertais e os homo sapiens tiveram um breve período de coexistência no Oriente Médio, quando chegaram a gerar filhos uns dos outros. Mas, enquanto os homo sapiens partiram para dominar a Ásia, a Oceania e as Américas (através da Ponte Terrestre de Bering, que hoje derreteu), os neandertais preferiram, por alguma razão, continuar no próprio Oriente Médio e na Europa... Nalgum dia histórico da pré-história, os homo sapiens finalmente decidiram adentrar a Europa, e encontraram seus primos entre uma e outra caçada. O que terão pensado uns dos outros? Teria a tradição oral de suas tribos selvagens conservado as histórias de suas origens em comum? É quase certo que não – é quase certo que se entenderam como seres completamente distintos.

Se há uma “raça pura” entre os homo sapiens, ela é composta precisamente pelos raros povos ancestrais africanos que chegaram aos dias atuais sem jamais terem saído do Continente Mãe. Enquanto a lendária “raça ariana” é na realidade uma grande mistura de migrações genéticas, onde se incluí até mesmo parte do DNA neandertal, a única vertente “pura” dos homo sapiens é negra e africana, como Adão e Eva.

E, se a sedução de pertencer a uma suposta “raça superior” é muitas vezes motivo suficiente para que muitos de nós abandonem o bom senso e as lições de boa convivência, talvez seja a hora de levantarmos um alerta: o racismo não é uma questão de ser ou não politicamente correto, de se ter ou não uma boa capacidade de convivência, o racismo é uma questão de profunda, profundíssima ignorância.

Se nos dias atuais nossos irmãos que carregam os genes de nossa pele original já conseguem ser aceitos e amados quando são craques em seus times de futebol, ou até mesmo quando se tornam presidentes de potências mundiais, isso é muito bom, mas ainda não é o bastante...

Pois se mesmo tais craques da bola volta e meia ainda são obrigados a conviver com torcidas de mentalidade pré-histórica, que se aprazem em atirar bananas nos gramados, e mesmo se em países de primeiro mundo, governados por um presidente de pele negra, nossos irmãos ainda são mortos por policiais com tiros pelas costas, é porque ainda há muita ignorância ainda por ser depurada.

E como vencer a ignorância da alma, senão pela educação da alma?

E como perpetuar a ignorância, senão por uma educação corrompida?

Sim, Adão e Eva, e todos nós, somos negros, pois é negra a nossa cor original, e é negro o continente de onde todos nós um dia saímos para conquistar a Terra. Sim, o Éden, afinal, também é africano... Está na hora de começarmos a reconstruí-lo, no mundo inteiro.

***

[1] Embora também existam outras teorias que afirmam que ele pode ter se originado tanto na África quanto na Ásia Central e na Europa. Em todo caso, o que nos importa neste artigo é que há fortes evidências de que os primeiros homo sapiens eram negros, seja onde tenham surgido.

[2] Novos estudos científicos e antropológicos levam a crer que a própria distinção da cor azul é algo recente em nossa história.

Crédito da imagem: Karin Miller

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5.2.13

Silas Malafaia, Eli Vieira e o "gene da homossexualidade"

Normalmente não me envolvo muito com "polêmicas de última hora" nas redes sociais, mas esta em específico merece uma reflexão mais aprofundada...

O que me preocupa nesta história da entrevista do pastor Silas Malafaia para a Marília Gabriela, e na (em boa parte brilhante) resposta do geneticista Eli Vieira a polêmica da "influência genética na homossexualidade", é que sabemos hoje que não há "gene da homossexualidade", e que pode ser muito perigoso crer que exista um. Vamos refletir um pouco:

(a) A hipótese da influência genética decisiva em qualquer tipo de comportamento humano, ainda que sexual, não é conclusiva e tampouco decisiva. Talvez um dia encontrem uma associação direta e decisiva entre algum gene ou grupo de genes e um tipo de comportamento, mas este dia ainda não chegou [1]...

(b) Crer que exista um gene assim nos força a considerar a hipótese de que há outros genes do tipo. Por exemplo, vamos citar um trecho do livro "Evolução em quatro dimensões", de Eva Jablonka e Marion J. Lamb (Companhia das Letras):

"O livro A natural history of rape [Uma história natural do estupro], de Thornhill e Palmer, é um exemplo perfeito desse gênero [de suposta determinação genética decisiva].
Eles não afirmam não ser possível sobrepujar a manifestação de um comportamento como a propensão ao estupro, mas sugerem que isso é muito difícil por se tratar de um comportamento embutido num módulo mental que evoluiu. Nem é preciso dizer que não existe nem sombra de evidências para essas alegações evolutivas. São apenas histórias inventadas".

Entenderam o problema? (Obs: as autoras também são geneticistas brilhantes).

(c) Genes não são como deuses, astros ou orixás, que supostamente influenciam nossa personalidade. Não são, mas é exatamente assim que alguns dos "adoradores da ciência" os veem (e ainda criticam os astrólogos).

(d) Os homossexuais não tem de se "desculpar" por sua homossexualidade. Não tem de explicar que "são assim porque nasceram com um gene alterado", etc. Homossexualidade não é doença, mas algo perfeitamente natural. Se não acredita em mim, lhe dou duas palavras-chave para pesquisar online: "bonobos" e "homossexualidade na Grécia antiga" (Obs: alguns dos homens mais sábios da humanidade viveram na Grécia antiga).

***

[1] E, admito: torço mesmo para que nunca chegue. Se chegar, o próximo passo será a "terapia genética para dar fim ao mal da homossexualidade", ou vocês acreditam que não?

Vejam também:

» 3 chimpanzés (também sobre os bonobos)
» Levítico: pedras não faltarão

***

Crédito da imagem: Divulgação (Silas Malafaia e Eli Vieira)

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23.2.12

Poligenecentrismo

Trecho do Projeto Ouroboros (a partir deste ponto irei revelar o nome de um terceiro personagem, até então apenas "P.", agora Petrius). Também gostaria de deixar claro que, apesar de tantos meses sem um post desta série, o livro continua a ser elaborado... Ele está hoje mais deste lado do que do outro.

(Otávio) Desde que o DNA foi descoberto, seu conceito tem sido expandido – na maior parte das vezes, muito além dos seus próprios limites – para explicar praticamente qualquer característica das espécies, e mais particularmente do homo sapiens, o ser humano, que é onde pretendo focar nossa análise agora...
Diga-me, Petrius, o DNA pode servir para definir, por exemplo, a cor dos olhos?

(Petrius) Sem dúvida. De fato, foi uma das primeiras capacidades comprovadas em experimentação – se não me engano, nos olhos de uma mosca... Mas certamente isso pode ser estendido ao ser humano.

(Otávio) Ótimo.
E você concordaria se afirmasse que é o DNA que define a pigmentação de nossa pele, tornando ridícula a crença antiga de que existiam raças distintas de homens?

(Petrius) Mas é claro: o genoma do ser humano é praticamente idêntico para toda a espécie, e a variabilidade genética entre um e outro ser humano é tão ínfima que, de acordo com a biologia, não justifica a existência de “sub-espécies humanas”...
Nesse sentido, hoje é perfeitamente válido afirmar que o racismo não é apenas um defeito moral, mas também uma ignorância das leis naturais.

(I.) Interrompe.
E, ainda que existissem, ainda seria absurda a antiga idéia de que certas raças tinham alma, e outras não...

(Otávio) Sorri.
Perfeito, meu amigo. E não esqueçamos que mulheres e animais também têm alma, pois a natureza não opera de modo seletivo, e a vida que anima a bactéria e o roedor é a mesma que eventualmente permitiu que um dia surgisse a espécie humana. Espécie, e não raça!
Mas, prossigamos meus amigos: Meu caro Petrius, você também concorda que o DNA pode ser decisivo na influência do desenvolvimento de cânceres e outras doenças de nascença?

(Petrius) Muitas doenças, incluindo o câncer, podem ter sua probabilidade de incidência aumentada pelo histórico genético da família, ou da hereditariedade genética. Vale ressaltar, no entanto, que em medicina trabalhamos com possibilidades: jamais um médico poderá afirmar, analisando o histórico genético de sua família, que você terá 100% de chance de desenvolver um câncer – seja na infância ou em qualquer outra fase da vida. Ou, pelo menos, até hoje não ouvi dizer de algo assim.
Já para algumas doenças, particularmente em heranças genéticas ligadas ao sexo, podemos realmente ter uma chance de incidência em 100%...

(Otávio) Pois bem, até aqui falamos somente de características físicas associadas à determinação dos genes.
Agora entrarei em terreno mais pantanoso. Meu amigo, você já ouviu falar no “gene da fé”?

(Petrius) Sorri.
Sim, sim, eu já li sobre isso. O vmat2 é um gene isolado por um polêmico geneticista norte-americano [1]. Ele supostamente estaria envolvido no transporte de uma classe de mensageiros químicos do cérebro conhecidos como monoaminas, do qual o mais famoso é a serotonina, a molécula do bem-estar. Algumas drogas como o ecstasy e o prozac também influenciam o humor alterando os níveis de serotonina no sistema nervoso. Aparentemente, para este cientista, a fé se resume a estados alterados de consciência que propiciam “bom humor”... Talvez não esteja de todo errado em relação à fé, mas certamente está errado em relação à função desse tal gene. Desnecessário dizer: não há nada comprovado quanto a isso!

(I.) Levanta a mão e articula em desaprovação.
Pois eu diria que está bastante equivocado em relação a ambos!

(Petrius) Sorri.
Tudo bem, não levantemos uma polêmica em torno das idéias de um cientista equivocado. Prossigamos...

(Otávio) Mas a questão é mais importante do que parece...
Ora, esse tal cientista faz parte do ramo de estudos da chamada genética comportamental. Além deste nome curioso para este campo em específico, temos ainda o campo da psicologia evolutiva, que se baseia na teoria de Darwin-Wallace para tentar elucidar as razões para uma série de comportamentos humanos que têm sido identificados conforme padrões específicos, ao longo do tempo.
Você diria, Petrius, que o DNA pode explicar o surgimento de características não físicas desde o nascimento – como a tendência a crer em Deus, a tendência para esta ou aquela inclinação sexual, ou até mesmo a aptidão para música ou matemática?

(Petrius) O DNA, sozinho, não.

(Otávio) Mas você concorda que há muitos desinformados, seguidores cegos das determinações da ciência moderna, que crêem piamente que o DNA opera como uma espécie de “caixa mágica”, ou algum deus, que determina todas as nossas características, físicas, mentais e até mesmo espirituais, numa espécie de determinismo genético que não deve em quase nada a crença no determinismo divino?

(Petrius) Sim, é claro que isso ocorre. Infelizmente nem todos têm a vontade de estudar ciências, ou pelo menos ler divulgação científica. E, ainda pior, muitos de nossos cientistas mais célebres pouco fazem para tentar remediar o problema. Se surge, por exemplo, um cientista genuíno – e não nego que seja, mas cientistas podem estar errados, e muitas vezes estão – afirmando ter encontrado um “gene da fé” ou um “gene da homossexualidade”, ou ainda uma espécie de “tendência a atos de estupro fomentada pela herança genética da espécie” [2], certamente ele ganha um grande espaço na mídia, rapidamente. Mas as experiências que comprovam a falsidade dessas teorias não são anunciadas da mesma forma, e muitas vezes são anunciadas tarde demais.
Mas, se parte da culpa é dos cientistas equivocados, a maior parcela recaí sem dúvida em nosso sistema social: na mídia que confia quase cegamente em qualquer baboseira que surge de uma “fonte científica oficial”, e na própria sociedade que aceita novas determinações científicas, algumas as mais absurdas, de forma passiva, se abstendo de pesquisar por si mesmos e, em última instância, de pensar.
Eu diria, para terminar, que estamos vivendo na era do genecentrismo, ou melhor, do poligenecentrismo, visto que cada ano que passa surge uma nova pesquisa para adicionar um novo gene ao nosso “panteão de deuses genéticos”. Eu admito que gostei da sua analogia, isso nada mais é do que um novo politeísmo, onde deslocamos os deuses naturais, a determinar nossas vidas desde o berço, para esses tais genes “quase divinos”. Vale ressaltar, no entanto, que até o momento a ciência não encontrou um gene que determine quaisquer características não físicas – não encontrou, mas pode ser que um dia encontre, embora eu certamente não me abstenha de duvidar profundamente disso...

***

[1] Conforme a nota existente no livro: Trata-se de Dean Hamer. Ele também já afirmou ter encontrado o “gene da homossexualidade masculina”, mas outros cientistas falharam em replicar suas experiências, e ele foi exposto ao ridículo... Afirmações extraordinárias requerem evidências extraordinárias.

[2] Eva Jablonka e Marion J. Lamb fazem uma crítica muito mais contundente e embasada da “persona púbica” da genética comportamental no livro “Evolução em quatro dimensões”. Ver, por exemplo, um trecho transcrito neste blog: A pornografia científica.

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Crédito da imagem: Mike Agliolo/Corbis

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29.12.11

Vírus e memes

Nesta palestra sensacional do TED, apresentada apenas alguns meses após os atentados de 11/9/2001, o filósofo Daniel Dennett explica de forma incrivelmente simples e didática o conceito dos memes - que não são geralmente tão simples de serem entendidos, pelo menos não neste contexto "mais amplo" em que Dennett os coloca. Essencialmente, Dennett associa os memes a ideias, a informação, e exatamente por isso o fato de nunca terem sido detectados em laboratório perca um pouco a importância - afinal, como ele diz a certa altura: "palavras são memes que podem ser pronunciados, mas a maior parte dos memes não pode".

Como os leitores mais antigos do meu blog devem saber, o Dennett representa ramos da filosofia que são diametralmente opostos aqueles aos quais eu simpatizo (por exemplo, o fato de associar a consciência a uma "ilusão de subjetividade"). Mas a beleza da filosofia é que podemos discordar de um pensador e, ainda assim, admirar sua capacidade de pensar:

Daniel Dennet - O fantástico poder dos memes (parte 1)

Daniel Dennet - O fantástico poder dos memes (parte 2)

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Veja também: Onde estarão os memes?


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26.8.11

Super Homens

Nesta palestra no TED, Harvey Fineberg, especialista em ética médica, nos mostra três caminhos para a espécie humana em evolução constante: parar de evoluir por completo; evoluir naturalmente; ou controlar os próximos passos da evolução humana, usando modificações genéticas para nos tornar mais espertos, rápidos e melhores.

Fineberg chama a tal conceito de neo-evolução, porém a neo-evolução já é um conceito bem mais antigo. Não devemos confundir um com o outro, portanto... No caso de Fineberg a neo-evolução está estritamente ligada a modificações genéticas induzidas pela ciência:

A discussão ética acerca do uso desse tipo de modificação remete a origem do herói Capitão América, que através de um processo "mágico" se torna um Super Homem. Seus criadores, entretanto, evitaram tal questão fazendo com que o processo (o soro do supersoldado) só funcionasse uma única vez... Agora, imaginem um soro do supersoldado que poderá ser aplicado a vontade, em quem quer que tenha recursos disponíveis para pagar por ele? Certamente não era essa a ideia que Nietzsche tinha do Super Homem.

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19.6.11

Filhos de neandertais

Há muito tempo se sabe que os neandertais são uma espécie extinta, do gênero homo, que habitaram o Oriente Médio e a Europa desde cerca de 300 mil anos atrás. Também por muito tempo acreditou-se que os neandertais eram uma "espécie inferior" ao homo sapiens – chamados homo neanderthalensis –, e que eram seres quase irracionais, praticamente “homens das cavernas”, que sequer tinham a capacidade de falar qualquer linguagem. Segundo essa crença, a extinção dos neandertais, há cerca de 29 mil anos atrás, estaria explicada pela competição com o homem moderno na medida em que este avançava para ocupar todo o globo, incluindo as terras nativas onde os neandertais se desenvolveram por milhares de anos.

Em 1856, três anos antes da publicação de “A origem das espécies”, do co-autor da teoria da evolução, Charles Darwin, foram encontrados os primeiros fósseis de neandertal numa gruta do pequeno Vale de Neander, na Alemanha [1]. Este vale, que também emprestou seu nome a própria espécie neandertal, foi assim batizado em homenagem a Joachim Neander: pastor e compositor do séc. XVII, autor de cânticos religiosos ainda hoje populares entre os protestantes alemães. Consta que ele gostava de procurar inspiração neste vale, então com uma paisagem idílica. Numa tradução para o português, o nome deste vale seria Vale do Homem Novo. Numa feliz coincidência, os neandertais não poderiam ter sido batizados por nome mais apropriado – os homens novos.

Para compreender como a mesma ciência que um dia classificou os neandertais como “homens das cavernas”, recentemente “desmistificou” esta crença, e descobriu evidências de uma espécie que, em sua época, era provavelmente tão ou mais desenvolvida que o homo sapiens, precisamos antes voltar ainda mais no tempo...

Uma comparação moderna do DNA de hominídeos (espécies ancestrais do homo sapiens) e humanos vivos sugere que o homo sapiens surgiu entre 120 mil e 220 mil anos atrás na África. Um grupo de talvez apenas 10 mil deles então deixou o continente entre 50 mil e 100 mil anos atrás, talvez pelas mudanças climáticas ocasionadas por uma erupção vulcânica monumental na ilha de Sumatra (há cerca de 71 mil anos), talvez simplesmente porque decidiram explorar o horizonte à frente.

Esse movimento migratório não deve ser compreendido como um movimento exploratório, mas como uma lenta migração onde a maior parte dos descendentes terminava por permanecer nas terras próximas de onde nasceram, enquanto apenas alguns poucos continuavam seguindo adiante... Já os neandertais evoluíram a partir de um ancestral comum dos homo sapiens, provavelmente o homo erectus, e já haviam chegado a Europa e ao Oriente Médio quando os primeiros exploradores sairam da África.

Depois de um breve período de coexistência no Oriente Médio, onde tanto o homem moderno quanto os neandertais geraram filhos uns dos outros, os homo sapiens partiram para dominar a Ásia, a Oceania e as Américas – através da Ponte Terrestre de Bering, que hoje derreteu. Os neandertais preferiram, por alguma razão, continuar no próprio Oriente Médio e na Europa. Nalgum dia histórico da pré-história, os homo sapiens finalmente decidiram adentrar a Europa, e encontraram seus primos entre uma e outra caçada. O que terão pensado uns dos outros? Teria a tradição oral de suas tribos selvagens conservado as histórias de suas origens em comum? É quase certo que não – é quase certo que se entenderam como seres completamente distintos.

Os neandertais desenvolveram-se em homens e mulheres mais atarrancados, com braços e pernas menos alongados, para que pudessem conservar melhor o calor corporal no frio europeu do Pleistoceno. Seus narizes eram mais largos e sua faces, quem sabe, mais “grotescas”. Os cérebos, porém, eram maiores e algumas gramas mais pesados – os neandertais tinham aproximadamente “uma bola de bilhar” a mais de massa cerebral, em relação aos seus primos.

A teoria de que os neandertais careciam de uma linguagem complexa foi difundida até 1983, quando um osso hióide de neandertal foi encontrado na caverna Kebara, em Israel. O osso encontrado é praticamente idêntico ao dos humanos modernos. O hióide é um pequeno osso que segura a raiz da língua no lugar, um requisito para a fala humana e, dessa forma, sua presença nos neandertais implica alguma habilidade para a fala.

Muitos acreditam que mesmo sem a evidência do osso hióide, é óbvio que ferramentas avançadas como as do período musteriense, atribuídas aos neandertais, não poderiam ser desenvolvidas sem habilidades cognitivas incluindo algum tipo de linguagem falada. Pesquisadores identificaram genes extraídos de fósseis que comprovariam que os neandertais possuíam capacidade de falar. Sua fala teria sido lenta, compassada e naralizada.

Certamente os neandertais foram muito mais do que “homens das cavernas”. Porém, teriam sido eles mais inteligentes e avançados que os homo sapiens de sua época [2]? Se este foi o caso, como diabos teriam sido extintos? Porque afinal hoje continuamos nos entendendo como homo sapiens, e não neandertais?

Em 2008, cientistas anunciaram a decodificação do genoma mitocondrial do neandertal. Na época, concluíram que as evidências genéticas indicavam que os neandertais provavelmente não se misturaram com o homo sapiens, apesar de terem convivido com seres humanos modernos por milhares de anos. O genoma mitocondrial, porém, é só uma amostra do DNA de um organismo... Nos anos seguintes, até meados de 2010, cientistas sequenciaram 60% do genoma completo dos neandertais e compararam o resultado com o genoma de cinco pessoas de diferentes partes do mundo (África do Sul, África Ocidental, Papua-Nova Guiné, China e França).

Os autores do trabalho, detalhado em dois artigos na revista “Science”, afirmam que os humanos modernos e os neandertais “muito provavelmente” se cruzaram “em pequena medida”. A área em que os esparsos encontros românticos ocorreram, provavelmente, foi o Oriente Médio, à medida que o homo sapiens saía da África em direção à Ásia. De 1% a 4% do genoma do homem moderno parece ser dos neandertais, estimam os autores [3]. Apenas alguns africanos parecem possuir um genoma “completamente humano”, todos os outros povos da Terra têm traços do genoma neandertal.

Teriam os neandertais sobrevivido em nós? Seremos nós os filhos dos neandertais? Sabe-se que os registros de fósseis neandertais foram sumindo gradualmente na linha de tempo pré-histórica – primeiro, do Oriente Médio, depois do oeste europeu, então o norte e a região central, até que os últimos fósseis apontam para a península Ibérica, há cerca de 29 mil anos. O que teria “varrido” os neandertais para oeste, até sua provável extinção?

Isso, não se sabe ao certo. Mas eis que ainda temos uma última e extraordinária evidência de que os neandertais encontraram uma forma de, literalmente, permanecer entre nós: O menino do Lapedo foi descoberto em 1998, numa expedição ao Abrigo do Lagar Velho, na cidade portuguesa de Leiria, para estudar algumas pinturas rupestres descobertas anteriormente.

A relevância deste achado arqueológico, com cerca de 24.500 anos, se dá pelo fato do fóssil ter pertencido a uma criança que teria nascido do cruzamento de um homo neanderthalensis com um homo sapiens, o que revelaria que espécies diferentes de humanóides poderiam cruzar entre si e gerar descendentes. Com o menino do Lapedo podemos também sugerir que o neandertal desapareceu não por extinção, mas sim por interação entre eles e os homo sapiens, e uma absorção do mesmo.

Nós somos, portanto, os verdadeiros filhos dos neandertais. Carregamos em nós os registros de seus antepassados, e alguma parte de nosso DNA vêm deles... Talvez, quem sabe, a melhor parte.

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[1] Na verdade partes de um esqueleto neandertal foram anteriormente encontradas na pedreira de Forbes, em Gibraltar, ainda em 1848. Mas por alguma razão estranha, a descoberta dita “original” pela história da ciência, e também certamente a mais famosa – tanto que deu origem ao nome da espécie –, foi esta alemã.

[2] Autores mais radicais, cujas teorias são consideradas fantasiosas pela maioria da comunidade científica, como Stan Gooch, em "Cities of Dreams: the Rich Legacy of Neanderthal Man Which Shaped Our Civilization" (1989), defendem mesmo que os neandertais eram detentores de uma cultura tão complexa quanto as atuais, e que teria mesmo servido para fundar muitos dos chamados arquétipos universais existentes entre os humanos modernos, em resultado da sua hibridização com os neandertais.

[3] Este valor seria o mínimo, alguns pesquisadores postulam que poderia chegar a 10% ou até mesmo a 20%. O DNA neandertal é 99,7% idêntico ao DNA do humano moderno, enquanto o DNA dos chimpanzés, por exemplo, é 99,8% idêntico ao nosso. Isso sugere, na prática, que somos todos espécies aparentadas de forma muito próxima... A diferença entre os neandertais e os chimpanzés é, entretanto, crucial – os últimos claramente nos precederam em centenas de milhares de anos na árvore evolutiva, enquanto que os primeiros têm uma origem muito mais recente, talvez não mais do que 100 mil anos anterior a nossa. O DNA neandertal é, portanto, provavelmente muito mais importante no que tange a cognição e linguagem humanas, fruto da nossa origem e inteligência em comum.

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Nota: este artigo chegou a ficar cerca de 6h no ar (em 19/06/11) contendo graves erros nas informações científicas, particularmente na nota #3, mas agora está corrigido. Peço desculpas pela falha.

Crédito das imagens: [topo] Joe McNally, National Geographic (reconstituição de uma neandertal fêmea); [ao longo] Bettmann/Corbis (reconstituição de um neandertal macho).

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26.8.10

A ciência da inspiração, parte 1

Inspiração: 1. Ato ou efeito de inspirar; 2. Pensamento ou idéia que nos vem de repente; 3. Produto da imaginação ou entusiasmo criativo.

A arte dos algoritmos

A ciência da computação nasceu com o conceito de algoritmo, criado conjuntamente em 1936 pelo experimento mental de Alan Turing, conhecido como Máquina de Turing, enquanto quase ao mesmo tempo Alonzo Church criava o cálculo lambda. Um algoritmo é uma seqüência finita de instruções bem definidas e não ambíguas, cada uma das quais pode ser executada mecanicamente num período de tempo finito e com uma quantidade de esforço finita.

O conceito de algoritmo é freqüentemente ilustrado pelo exemplo de uma receita, embora muitos algoritmos sejam mais complexos. Eles podem repetir passos (fazer iterações) ou necessitar de decisões (tais como comparações ou lógica) até que a tarefa seja completada. Um algoritmo corretamente executado não irá resolver um problema se estiver implementado incorretamente ou se não for apropriado ao problema.

Roger Alsin é um programador sueco bem menos conhecido, mas que aborda a arte dos algoritmos de uma forma impensável na época de seus criadores... No final de 2008, ele resolveu brincar um pouco com alguns algoritmos, mais precisamente algoritmos genéticos. Ele criou um pequeno programa que evolui cadeias de “DNA digital” para renderização de polígonos, eis as instruções aplicadas:

(0) Cria uma cadeia de DNA aleatoriamente (início do programa); (1) Copia a seqüência de DNA atual e aplica uma pequena mutação; (2) Usa o novo DNA para renderizar polígonos em uma tela; (3) Compara a tela com a imagem original (a ser copiada); (4) Se a imagem se parece mais com a imagem original do que a imagem gerada pelo DNA pai, substituir o DNA antigo pelo DNA atual; (5) Repetir a partir do passo 1.

Então, Alsin colocou como meta aos seus algoritmos tentar recriar (ou copiar da melhor forma possível) a Mona Lisa de Da Vinci usando apenas 50 polígonos semi-transparentes... Após 904.314 gerações, o algoritmo genético de Alsin chegou a uma imagem bastante próxima da original, se considerarmos que algoritmos não são exatamente mestres da pintura (ou pelo menos, ainda não são). Você pode ver a imagem final no início do artigo, ou ver as diversas gerações no weblog de Alsin.

Em 1992, John Koza – cientista da computação – usou algoritmos genéticos para desenvolver programas para realizar certas tarefas. Ele chamou seu método de programação genética. Koza foi pioneiro neste método de programação, que hoje é cada vez mais utilizado no mundo.

O aspecto mais bizarro e intrigante da programação genética é que seus algoritmos – verdadeiras “entidades de software” – não sofrem as restrições dos hábitos de pensamento e das inclinações intelectuais sutis dos programadores humanos. Como exploram irrefletidamente todo o espectro de soluções possíveis para um determinado problema, os algoritmos genéticos podem trazer soluções puramente alienígenas. Por exemplo, a NASA utilizou a programação genética para produzir o projeto ideal de um suporte a ser usado na Estação Espacial Internacional. Como relatou o U.S. News and World Report, o resultado parecia ter saído de um romance de ficção científica:

“Surgiu, de 15 gerações e 4.500 projetos diferentes, um suporte que nenhum engenheiro humano projetaria. O conjunto grumoso e com a extremidade arredondada lembrava o osso de uma perna, irregular e um tanto orgânico. Testes em modelos confirmam sua superioridade sobre os projetos humanos com suporte estável. Nenhuma inteligência fez os projetos. Eles apenas se desenvolveram.”

Outro exemplo espantoso da total estranheza da programação genética bem-sucedida é o código e computador que foi desenvolvido para ajudar um paciente a controlar uma mão protética com base em sinais nervosos erráticos captados por eletrodos presos ao pulso do paciente. O software desenvolvido analisava misteriosamente os sinais nervosos e os traduzia com precisão perfeita nos movimentos que o paciente queria fazer.

Mas aqui está a parte realmente estranha – o método pelo qual o software realizou esse feito incrível está totalmente além da compreensão dos pesquisadores humanos. Como relatou a Scientific American:

“O código desenvolvido era tão confuso e indecifrável quanto um inseto esmagado. O programa que prevê os gestos consiste numa única linha de código tão longa que enche uma página inteira e contém centenas de expressões parentéticas embutidas. Ele nada revela sobre por que o polegar se move de uma certa maneira – só revela que se move.”

Eis que, como num passe de mágica, essas receitas de bolo que ajustam a si mesmas acabam por trazer resultados imprevisíveis, bolos de sabores que nós humanos jamais poderíamos imaginar.

Para alguns ateus entusiastas de inteligência artificial, esta é a prova cabal de que o argumento do Design Inteligente está descartado, e de que os problemas podem ser solucionados através de gerações aleatórias de algoritmos – assim como a vida pode ser explicada como uma evolução aleatória da matéria inorgânica que, de alguma forma, tornou-se orgânica.

Estão mal-informados, pois conforme o próprio Alsin – ele mesmo um ateu – explica em seu weblog, a programação genética não prova absolutamente nada além de que pode ser utilizada para resolver problemas além da atual capacidade humana:

(1) Não existe um objetivo claro nos algoritmos, pois o problema que estão tentando solucionar é o seu próprio meio-ambiente de desenvolvimento. Eles não possuem um sentido, são mero mecanismo de solução de um problema específico; (2) A réplica da Mona Lisa não é a imagem do DNA digital e muito menos do “corpo” dos algoritmos genéticos, ela apenas demonstra o seu nível de adaptação ao meio-ambiente, ou o quanto foram bem sucedidos na solução do problema; e finalmente: (3) A programação genética nada diz sobre o problema da Criação, pois toda ela foi desenvolvida por seres humanos, e nós fomos criados por um evento químico extremamente fortuito nos primórdios do planeta, ou por um ser (ou seres) além de nossa compreensão atual, mas certamente não por uma máquina humana!

Da mesma forma, a magnífica capacidade computacional de nossa tecnologia nada nos diz sobre o que diabos são a inspiração e a criatividade humanas. Nossas máquinas são produto de nossa criatividade, mas não podem (ao menos por enquanto) criar elas mesmas. Tudo o que podem fazer é computar informação, seguirem receitas de bolo e, quando muito, modificar tais receitas para trazer resultados inesperados. Mas quem dita à receita somos nós. Mesmo que um dia máquinas possam nos imitar quase que a perfeição, ainda assim serão imitadores, computadores, e não seres que interpretam e reavaliam a informação de forma subjetiva, única.

Ainda assim, o mistério, a magia das soluções trazidas pelos algoritmos genéticos permanece insondável. Isso irá requerer uma análise mais profunda sobre como exatamente à mente humana cria novos conceitos e idéias a partir de outros já existentes – ou algumas vezes, aparentemente a partir do nada...

Na continuação, como a relação dos módulos da mente primitiva nos tornou humanos, demasiadamente humanos.

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Pequeno glossário de alguns termos técnicos utilizados no artigo:

Máquina de Turing – Modelo abstrato de um computador, que se restringe apenas aos aspectos lógicos do seu funcionamento (memória, estados e transições) e não à sua implementação física. Numa máquina de Turing pode-se modelar qualquer computador digital.

Cálculo lambda – O cálculo lambda pode ser considerado como uma linguagem de programação abstrata, isto é, as maneiras como funções podem ser combinadas para formar outras funções, é uma linguagem pura, sem efeitos colaterais, e sem complicações sintáticas.

Algoritmo – é explicado nos primeiros parágrafos do artigo :)

Polígono – Um polígono é uma figura geométrica plana limitada por uma linha poligonal fechada : p.e. o hexágono é um polígono de seis lados. A palavra “polígono” advém do grego e quer dizer muitos (poly) e ângulos (gon).

Mutação – Em Biologia, mutações são mudanças na sequência dos nucleotídeos do material genético de um organismo. No caso da programação dos algoritmos genéticos, as mutações são induzidas propositadamente (e não aleatoriamente) a cada nova geração.

Linha de código – Em Programação, são as linhas de código que contém as informações (código fonte) que determinam como um programa deve proceder. No caso do software que analisa sinais nervosos, todo o código está agrupado (desde a origem) em uma única linha, sendo incompreensível para a cognição dos próprios programadores (é o resultado dos algortitmos genéticos).

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Crédito das imagens: [topo] Roger Alsin (sim, pois foi ele quem criou o programa que copiou a Mona Lisa de Leonardo Da Vinci); [ao longo] Andrea Ruester/Corbis

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20.8.10

O que é a vida?

Texto de James Gardner em "O universo inteligente" (Ed. Cultrix) – Trechos das pgs.53 a 55. Tradução de Aleph Eichemberg e Newton Eichemberg. As notas ao final são minhas.

Essa questão tem uma história sabidamente longa e turbulenta, estimulando poetas e céticos, filósofos e mecânicos quânticos, biólogos e místicos, a oferecer um desnorteante pot-pourri de explicações radicalmente diferentes. A vida é um fenômeno único e fundamentalmente diferente da não vida, opinou o filósofo francês Henri Bergson. Bergson teorizou que a vida é irresistivelmente impelida a níveis cada vez mais altos de realização evolutiva por uma misteriosa força vital (élan vital), que é inteiramente ausente na matéria não viva [1].

Absurdo, objetou o cético Robert Morrison. A palavra vida é apenas uma convenção lingüística que empregamos para descrever uma classe especial de objetos materiais que têm algumas incomuns características termodinâmicas e comportamentais. Além do fato de partilharem certas propriedades, as coisas vivas são indistinguíveis de pedras sem vida:

“A vida não é uma coisa ou um fluido mais do que o calor o é. O que observamos são alguns conjuntos incomuns de objetos separados do resto do mundo por certas propriedades peculiares, como crescimento, reprodução e maneiras especiais de lidar com a energia. Esses objetos, escolhemos chamar de coisas vivas [2]”.

A arma secreta da vida, concluiu o pioneiro da física quântica Erwin Schrödinger num livro intitulado What Is Life? [O Que é a Vida?], é sua capacidade única de metabolizar: exportar desordem para o ambiente circundante em forma de calor irradiado e excrementos enquanto importa ordem desse ambiente em forma de alimento e energia [3].

[...] O livro de Schrödinger foi uma inspiração para toda uma geração de cientistas que criaram, basicamente a partir do zero, o enorme empreendimento científico hoje conhecido como biologia molecular. Em particular, Schrödinger antecipou e inspirou a épica façanha de James Watson e Francis Crick: a descoberta da estrutura do DNA.

[...] Watson revelou que foi a conjectura de Schrödinger que inspirou seu insight:

“Schrödinger argumentou que a vida pode ser pensada em termos de armazenamento e transmissão de informações biológicas. Os cromossomos seriam assim meros portadores de informação... o livro de Schrödinger teve muita influência. Muitos dos que seriam os principais atores do Primeiro Ato do grande drama da biologia molecular, inclusive Francis Crick (ele mesmo um ex-físico), leram What Is Life? e ficaram impressionados, como eu”.

Watson tirou uma importante conclusão filosófica de sua descoberta do fundamento molecular da vida e da hereditariedade: que a vida não é tão diferente assim da não vida, e que a matéria viva não abriga segredos inerentemente impenetráveis:

“Nossa descoberta põe fim a um debate tão antigo quanto a espécie humana: Será que a vida tem alguma essência mágica, mística, ou é, como qualquer reação química produzida numa aula de ciências, o produto de processos físicos e químicos normais? Haverá alguma coisa divina numa célula que a traga a vida? A dupla hélice respondeu a essa pergunta com um definitivo Não”.

Ironicamente, seu mentor intelectual (Schrödinger) chegou precisamente à conclusão oposta em What Is Life?, ao observar que a característica que define a vida – sua capacidade para produzir e prolongar a existência de uma ilha de ordem contínua, incessantemente fustigada por um mar de aleatoriedade e de desordem movida a entropia – é uma forte evidência da existência de um “novo tipo de lei física” que governa o comportamento da matéria viva [4].

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[1] Mesmo antes da descoberta do DNA, muitos filósofos antigos e recentes têm concebido esta idéia de uma força vital a impulsionar os seres a evoluir. Schopenhauer, por exemplo, fala em uma força que nem sempre está interessada em nossa felicidade – tudo o que ela “deseja”, em realidade, é garantir a procriação da espécie. Desnecessário dizer que muitos biólogos evolutivos concordam com ele.

[2] Há muitos que se dizem materialistas, crendo que isso significa simplesmente que não crêem em espíritos ou assombrações. Outros acham que ser materialista significa dar grande valor a bens materiais e riquezas, etc. Não, ser materialista significa crer que apenas a matéria já detectada explica todo o funcionamento da vida e da consciência. Sim, detectamos apenas em torno de 4% da matéria do universo, os materialistas têm uma fé enorme nesta aposta... Dito isso (e também considerando que nem todos os céticos são materialistas), para reduzirmos seres a coisas, consciências a máquinas biológicas, antes é preciso comprovar que coisas ou máquinas são capazes de interpretar informações e elaborar respostas morais e emocionais em geral, ao invés de apenas computar informações e/ou imitar comportamentos de seres que consideramos vivos. Para começar, seria bom alguma máquina finalmente passar no teste de Turing.

[3] Geralmente se considera esse mecanismo anti-entrópico singular dos seres vivos apenas no campo da ordem do organismo em si. Se fomos pensar em toda a ordem de armazenamento de informações no cérebro, independente de entropia “exportada” para fora do corpo, temos uma outra grandeza de ordem a ser analisada. Poucos cientistas pensam nisso...

[4] Moral da história: “Pouca ciência afasta, muita ciência aproxima”... De que afasta? De que aproxima? De Deus (seja como for), do Cosmos, dos mistérios ainda insondáveis da natureza, daquilo que somente os grandes gênios da ciência ousam considerar...

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Crédito da imagem: Bill Varie/Corbis

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9.8.10

Pornografia científica

Texto de Eva Jablonka e Marion J. Lamb em "Evolução em quatro dimensões" (editora Cia. das Letras) – Trechos das pgs.443 a 446. Tradução de Claudio Angelo. As notas ao final são minhas.

[Alguns trechos do livro trazem um diálogo entre dois personagens fictícios, I.M. é uma espécie de crítico das idéias expostas no livro, enquanto que M.E. é uma espécie de heterônimo que reúne o pensamento de ambas as autoras:]

I.M.: Então quais são as implicações morais da visão de vocês [1]?

M.E.: Biólogos que abordam a hereditariedade e a evolução de maneiras diferentes em geral têm valores e objetivos sociais parecidos. A maioria se opõe ao racismo; a maioria quer um mundo melhor e mais justo, e assim por diante. O grande problema é a imagem pública das diversas idéias biológicas [2]. Como muitos biólogos enfatizam o aspecto genético do comportamento humano, seus pontos de vista muitas vezes são interpretados de forma a levar à crença generalizada de que comportamentos comuns (em geral repreensíveis) são “genéticos”, “naturais” e, como doenças monogenéticas simples, inevitáveis. Isso é bobagem, mas é a maneira como as ideais dos biólogos são percebidas, e a maioria deles não faz nada para mudar essa percepção [3].
Uma visão mais ampla da hereditariedade e da evolução torna explícitos a riqueza de possibilidades abertas diante de nós e o fato de que nossas atividades, como indivíduos ou grupos, constroem o mundo em que vivemos [4]. Especificamente, reconhecer que temos uma história e podemos planejar o nosso futuro, que somos capazes de construir mundos imaginários compartilhados e explorá-los e persegui-los sistematicamente expande em muito a nossa liberdade. A plasticidade do comportamento humano é imensa. Com base no conhecimento atual, ninguém pode negar o poder da construção social histórica e explicar o status quo comportamental e social apenas em termos de genes e memes. Não podemos transferir o poder e a responsabilidade explanatórios para essas entidades!

I.M.: Isso é uma critica da sociobiologia humana, não é?

M.E.: Isso é uma crítica de “persona pública” dessa disciplina, o que em grande parte é culpa dos sociobiólogos. Queremos ser justas e claras: a maioria dos sociobiólogos não acredita que sejamos escravos dos nossos genes. O problema é que alguns deles tendem a promover uma imagem pública vulgar de “tendências” geneticamente determinadas [5]. Para isso eles ridicularizam seus oponentes, erguendo espantalhos e destruindo-os em triunfo, interpretando cada padrão de comportamento, da piada ao estupro, como manifestação de uma adaptação evoluída selecionada em algum momento do passado. O livro A natural history of rape [Uma história natural do estupro], de Thornhill e Palmer, é um exemplo perfeito desse gênero.
Eles não afirmam não ser possível sobrepujar a manifestação de um comportamento como a propensão ao estupro, mas sugerem que isso é muito difícil por se tratar de um comportamento embutido num módulo mental que evoluiu [6]. Nem é preciso dizer que não existe nem sombra de evidências para essas alegações evolutivas. São apenas histórias inventadas [just so stories].
[...] Eles estão sugerindo que é impossível mudar a tendência comportamental por meio de educação e mudança social? Com certeza os defensores dessas visões diriam que não. Diriam que, ao contrário, esses fatores ajudam a saber como moldar a sociedade e educar as pessoas para que elas superem os problemas associados ao lado desagradável de nossos comportamentos evoluídos. Mas ninguém nos diz como construir uma sociedade na qual tendências ao estupro evoluídas geneticamente não possam se manifestar. Essas pessoas e suas obras não trazem nada de significativo além de descrições suculentas e vendáveis de comportamentos sexuais e um punhado de platitudes sobre como evitar ou controlar impulsos inadequados – por exemplo, dando cursos de comportamento sexual a adolescentes do sexo masculino antes que eles aprendam a dirigir ou aconselhando mulheres jovens a se vestirem com discrição (ninguém defendeu ainda a adoção do cinto de castidade masculino).
Há pouco conteúdo real nessa pornografia “científica” soft. Este é um exemplo extremo, claro; Nem todas as histórias sociobiológicas humanas são tão vazias. O problema é que a oposição a elas não é tão forte quanto deveria ser nas fileiras de sociobiólogos mais sérios. [...] E suas versões vulgarizadas são muito populares.

I.M.: Porque elas são tão populares? Que tipo de necessidade elas satisfazem? Talvez isso possa dar uma pista sobre o tipo de visão de mundo que elas refletem.

M.E.: É provável que não exista só uma resposta. Talvez elas satisfaçam uma necessidade de pensar em termos de causas únicas, como na física clássica. Como as leis de Newton explicam os movimentos dos corpos celestes, os genes mendelianos explicariam o comportamento humano. A complexidade é explicada de uma forma simples e científica. Mas há um outro lado nesse fascínio com os genes. Os genes são vistos como elos com nosso passado distante, com os nossos ancestrais, que nos governam de uma maneira irracional e misteriosa.
Há algo de muito romântico nessa noção – na eterna força escura e profunda dos genes a nos guiar [7]. E essa combinação peculiar do romântico com o científico é incorporada a muitas das histórias evolutivas dos sociobiólogos. Talvez seja isso o que torne essas explicações baseadas nos genes tão atraentes para as pessoas [8].

***

[1] A teoria exposta pelas autoras ao longo do livro identifica quatro “dimensões” – quatro sistemas de herança que desempenham um papel na evolução: a genética, a epigenética (ou transmissão de características celulares, alheias ao DNA), a comportamental e a simbólica (transmissão através da linguagem e de outras formas de comunicação). Elas argumentam que esses sistemas são capazes de fornecer variações sobre as quais a seleção natural pode agir. Veja também meu comentário em outro trecho do livro publicado neste blog – “Astrologia genética”.

[2] É interessante como eu, que nem sou cientista, muitas vezes sou confundido com um em discussões online, apenas porque me mantenho algo informado sobre a divulgação científica mais atual. Talvez seja sorte em escolher os autores certos, mas acredito que no geral as pessoas mal se esforçam para ler sobre ciência – ao primeiro cientista (ou pseudo-cientista) que lhes traz uma teoria que combine com sua visão de mundo, dão-se já por satisfeitas... É mais ou menos por isso que muitos crêem piamente que os memes de Dawkins explicam a evolução não-física, quando em realidade os memes são muito mais entidades místicas do que elementos genuinamente científicos.

[3] Ou seja: quem não gosta de vender livros? Escreva o que o povo quer ler, ou invente uma nova teoria mirabolante baseada em genes, e venderá bem... Ocorre que raramente essa prática auxilia no desenvolvimento de nosso conhecimento e nossa ciência em geral, por razões óbvias.

[4] Não posso deixar de citar o Chefe Seattle: “Sabemos que a terra não pertence ao homem. O homem pertence à terra. Todas as coisas são interligadas, como o sangue que nos une. O homem não tece a teia da vida – ele é apenas um fio dela. O que fizer à teia, fará a si mesmo.”

[5] Esta é a atual ilusão persistente do determinismo. Anteriormente este papel já coube a deusa Fortuna (e mitos similares), depois a “mão de Deus”, depois aos governantes totalitários (que se diziam infalíveis e/ou representantes divinos), e hoje cai na conta do genecentrismo. Isso é mais sério do que parece, pois somos “educados” pela mídia a pensar que os genes determinam muito do que somos ou iremos ser, embora nem científico isso seja (e mesmo que fosse, a ciência tampouco é infalível).

[6] O pior de tudo é que essas teorias se valem de conceitos de psicologia evolutiva que podem fazer sentido, mas que devem ser analisados de maneira bem mais ampla e profunda... Por exemplo, em “A pré-história da mente” o arqueólogo Steven Mithen argumenta que os hominídeos pré-humanos apresentaram variadas gradações de módulos de inteligência – a inteligência geral, a naturalista, a técnica e a social. Porém, somente nos homo sapiens esses módulos da mente se unificaram em um único grande conjunto, de modo a possibilitar o surgimento da cultura, da arte e da religião humanas. Desnecessário dizer que o estudo de Mithen é muito mais profundo do que essas teorias de “módulos do estupro”.

[7] Eis que, mesmo num mundo científico-materialista, o lado misterioso, os antigos mitos e arquétipos continuam forçando-se adentro da imaginação humana. Ocorre que pode ser bastante perigoso lidar com eles no campo errado – não se trata de uma ciência exata e racional, mas de uma experiência que deve ser compreendida em seu contexto correto. Obviamente que a maior parte de nós já se perdeu desse contexto há muito tempo; mesmo os que se dizem religiosos muitas vezes rezam na verdade para o deus do consumo, e são tão materialistas quanto muitos ateus.

[8] “O gene da fé”, “o gene da racionalidade”, “o gene do bom humor”, “o gene da homossexualidade”, etc. – e o que seria tudo isso senão um politeísmo genecêntrico? Mas, se a “ciência” diz que sim, quem dirá que não?

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Crédito da foto: Divulgação/"This Ain't Star Trek XXX"

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