Gibran e a nudez na arte

Recentemente tivemos muitas polêmicas envolvendo arte, nudez e sexualidade no país. Agora que a “fervura” já passou, penso que ficou mais simples identificar os extremos: gente que nunca vai em galerias de arte invadindo exposições com certa truculência e vendo pedofilia onde não havia; e, no polo oposto, gente não admitindo que as pessoas se sintam nem um tiquinho incomodadas com uma criança tocando a perna de um homem nu.
Eu a princípio nem iria trazer este assunto aqui para o blog, mas por acaso estou no meio da leitura do fantástico O grande amor do profeta, com as cartas trocadas entre Khalil Gibran e sua grande amiga e confidente, Mary Haskell, incluindo trechos do diário dela. Ocorre que há um século atrás, Haskell esteve decorando o interior de seu colégio em Cambridge (próximo a Boston) com alguns dos quadros de Gibran (que também foi exímio pintor). Conforme as obras continham nudez, e o colégio era frequentado por menores de idade, houve protestos dos pais, e então o que se seguiu está descrito no livro (organização de Virginia Hilu, tradução de Valerie Rumjanek, editora Record).
Penso que este episódio secular ainda é capaz de jogar alguma luz até mesmo em nossa polêmica atual:
Mary Haskell
Escola Cambridge (Cambridge – Massachusetts)
10/10/1920
[...] Não cheguei a lhe mandar minha carta devido a uma nuvem dentro de mim, e porque queria muito lhe falar sobre isso e ao mesmo tempo não lhe queria contar coisa alguma. Pois fiquei magoada, e o fato de dizer-lhe iria magoá-lo também. Mas vou lhe contar tudo:
Uma senhora me disse que não matricularia seu filho em meu colégio porque eu tinha O Crucificado [um dos quadros de Gibran] na parede. E dois ou três professores disseram que achavam desaconselhável pendurar na parede A Mãe Celestial e, até mesmo, O Cordeiro Orou em Seu Coração [mais quadros, todos de temática místico-cristã]. Ainda agora, não consigo compreendê-los, e isso torna as coisas confusas a meus olhos, enquanto escrevo.
O pior de tudo é escrever a você sobre isto. Se pudesse ocultar o rosto que faz com que as pessoas vejam o que eu sinto, eu o ocultaria. Dizem que os quadros fazem as meninas se sentirem constrangidas e que elas não são capazes de sentir o lado “espiritual” dos desenhos.
O que sinto a respeito dos nus dos quadros que tenho aqui é que as meninas têm uma sorte extraordinária de tê-los a sua volta, entre as pessoas que amam e respeitam. Sua presença lhes ensina que nada há de vergonhoso na nudez ou no corpo humano – e que isto não é um tabu entre pessoas esclarecidas – e que não precisa causar constrangimento a uma moça. Os quadros são uma presença silenciosa e tranquilizadora. E, se uma menina deseja ver corpos nus, que os veja abertamente aqui, e seja poupada da vergonha por seu desejo.
A preocupação com a influência que os quadros possam exercer nas meninas parece-me, apenas, parte de uma mentalidade complicada e cheia de temores. Digo a mim mesma que é “natural” e lembro a mim mesma o quanto desta mentalidade eu tinha e ainda tenho. Mas o que realmente não sei é quando enfrentá-la ou deixá-la de lado, se a escola está envolvida. E, por não saber o que fazer, nada fiz. Coloquei O Crucificado em meu próprio quarto, e O Contemplador [outro quadro de Gibran, porém sem nudez] ficou ótimo no lugar do primeiro, no meu gabinete.
Com amor,
Mary
Khalil Gibran
Nova York
11/10/1920
Adorada Mary:
A coisa mais sensata e delicada a ser feita é retirar das paredes todos os quadros que ofendem as meninas e suas mães. Pensar que um desenho meu está causando constrangimento a alguém, físico ou espiritual, é uma fonte de sofrimento e infelicidade para mim.
Eu lhe imploro, querida Mary, que retire todo desenho sobre o qual você tenha ouvido a mais leve restrição.
E, afinal de contas, por que motivo isto deveria perturbá-la ou a mim? Não há nada que deva fazer com que as coisas se tornem negras diante de seus olhos ou diante dos meus. O que as pessoas sentem ou pensam faz parte da vida, e você e eu sempre aceitamos tudo na vida. A raiz de uma árvore não é inferior ao seu ramo mais elevado.
Com amor,
Khalil
***
Crédito das imagens: Khalil Gibran (alguns de seus quadros)
Marcadores: arte, autores selecionados, autores selecionados (191-200), censura, gibran, Mary Haskell, política, sexo
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