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19.6.24

Oceânico, parte final

« continuando da parte 2


Aquele que tenha explicá-lo, mente

Para realizarmos qualquer coisa, mesmo a mais banal, como ir até a sorveteria tomar um sundae ou uma banana split, antes de mais nada precisamos ter a vontade de agir. Segundo Freud, todos nós temos uma espécie de reservatório de energia psíquica, isto é, uma quantidade de energia disponível para realizar nossas atividades. Freud também chamou essa energia de libido, uma espécie de energia sexual. Tal energia pode se manifestar diretamente na vida sexual em si, como no sexo ou nas fantasias eróticas, mas Freud acreditava que ela também serve como um impulso, uma pulsão, para a realização das mais diversas atividades, mesmo aquelas que julgamos ter pouca ou nenhuma relação com o sexo. Por exemplo, para ele a atividade artística é uma forma de sublimação da libido: ao invés de buscar a satisfação de seus impulsos estritamente sexuais, o artista “desvia” tal energia para a execução de todo tipo de atividade artística. E isso também é válido para a ciência, o trabalho em geral, e até mesmo a espiritualidade. Aliás, essa foi a principal divergência de Freud com Carl Gustav Jung, o jovem psiquiatra que era uma espécie de “discípulo predileto” do fundador da psicanálise.

Ao contrário de Freud, Jung acreditava que a energia psíquica tinha uma origem espiritual, e que poderia se manifestar de diversas formas nas ações humanas, incluindo aí a sexualidade. Mas Freud permaneceu irredutível em sua crença de que tal energia era primordialmente sexual, e que poderia até influenciar a espiritualidade, mas não o contrário. Os dois grandes nomes da psicologia do século XX divergiram justamente no que seria o fundamento da energia psíquica. Ainda assim, é preciso analisar com cuidado a divergência de Jung, pois não é que ele achasse que a sexualidade não tinha papel extremamente importante na vontade humana (e nesse aspecto ele não discordava de Freud), apenas ocorre que Jung não era tão avesso à espiritualidade em geral, e de alguma forma acreditava que a sexualidade por si só não era suficiente para abarcar toda a experiência religiosa, que ela não daria conta de explicar o tal sentimento oceânico (que ele provavelmente chamaria de misticismo).

Foi Jung quem popularizou os termos introversão e extroversão (ou “extraversão”, como ele escrevia) quando fundou seu corpus teórico e clínico, que chamou de psicologia analítica. A premissa básica é que os introvertidos buscam energia internamente, em solitude, enquanto os extrovertidos a obtêm da própria relação com as pessoas ao seu redor. No entanto, embora hoje em dia muitos de nós nos descrevamos como “extrovertidos” ou “introvertidos”, e vejamos esses traços como partes essenciais de nossa identidade, as definições de Jung não eram tão polarizadas. Na visão de Jung, precisávamos buscar essa energia tanto nas relações externas quanto dentro de nós mesmos para sermos pessoas plenas. Longe de definir “o que somos”, como algo escrito em pedra, Jung considerava a introversão e a extroversão como tipos de consciência que podemos experimentar de maneiras diferentes em situações distintas. Tanto a introversão quanto a extroversão podem dominar nosso comportamento, mas também podemos nos beneficiar da outra, não dominante. Aproveitando ambas as fontes de energia, podemos realmente expandir nossa experiência de vida.

Jung trouxe da alquimia antiga essa noção de que precisamos equilibrar as nossas caraterísticas internas, e tal noção também perpassa a sexualidade sagrada, a união e o equilíbrio dos polos feminino e masculino, algo que todos nós carregamos conosco, a todo momento. Mas, para explicar isso melhor, será bom recorrermos ao taoismo chinês:

Bem, o taoismo é uma filosofia espiritual bastante vasta, aqui bastará nos focarmos nos conceitos de yin e yang. Eles descrevem duas forças fundamentais, opostas e complementares, que podem ser encontradas em tudo o que há na natureza. O yin é o princípio feminino, a terra, a passividade, a escuridão e a restrição, enquanto o yang é o princípio masculino, o céu, a atividade, a luz e a expansão. Claro que citei apenas alguns exemplos de opostos complementares aqui, pois a lista é infindável. Seja como for, não há qualquer espécie de hierarquia entre os dois princípios. Por exemplo, se dizemos que yang é positivo, ele só é positivo quando comparado a yin, que será negativo. Essa analogia se assemelha a carga elétrica atribuída a prótons e elétrons, de modo que um não é “bom” por ser positivo, tampouco o outro será “mau” por ser negativo.

Segundo essa ideia, cada ser, objeto ou pensamento do universo possui um complemento do qual depende para a sua existência e que, por sua vez, também o traz dentro de si. Disso se tira que nada existe em estado absolutamente puro nem na absoluta passividade, mas sim em constante transformação. Há um símbolo que resume muito bem o yin e yang, e que muitos de vocês possivelmente já viram em algum lugar. Ele se chama taiji, e representa duas carpas vistas do alto, nadando em círculos num lago. Há uma carpa preta, de olho branco; e uma carpa branca, de olho preto. Ou seja, a carpa preta, yin, também tem um pouco de yang; e, da mesma forma, a carpa branca, yang, também carrega um pouco de yin consigo. E ainda temos um conceito essencial no símbolo em si: ambas as carpas jamais param de nadar, e do seu nado advém o equilíbrio e a harmonia de todas as coisas.

Com isso tudo em mente, será muito importante levar em consideração, daqui em diante, que na sexualidade sagrada, nos diversos rituais e práticas de magia sexual, sempre haverá uma conexão entre dois seres humanos, entre duas almas [1], e uma delas fará o papel ativo (yang), enquanto a outra assumirá o passivo (yin). Isso não significa que tais papeis não possam eventualmente se inverter. Tampouco significa, como alguns já devem ter percebido, que todo homem seja sempre ativo, e toda mulher, sempre passiva. Aliás, sequer podemos levar em consideração a própria orientação sexual de cada participante, pois um casal homossexual também terá aquele que se sente mais à vontade no papel de yang, e aquele que está mais próximo de yin. Ou, em outras palavras, no fundo no fundo somos todos alma.

Pois bem, eu sei que muitos gostariam de saber em detalhes como eram exatamente tais rituais sexuais milenares, o que era, o que é exatamente a magia sexual. O que eu posso dizer é que, de certa forma, a única coisa que separa a magia sexual de qualquer outro tipo de magia [2] é o contato íntimo entre os operadores de determinado ritual. Afinal, nada do que se faça com falos e orifícios deveria ser alguma novidade para um mago, de modo que o próprio ato sexual em si é mera parte de um processo, e não um fim em si mesmo.

Como em qualquer ato mágico, o sexo sagrado também busca uma alteração na consciência. Ao contrário de diversas outras técnicas, no entanto, como as que se valem do controle da respiração ou de encenações teatrais específicas, nesse tipo de magia há um momento de alteração radical do estado de consciência, que no mundo profano é chamado de orgasmo.

Ora, sejam ou não magos e sacerdotisas, todos os que já experimentaram ao menos um orgasmo sabem muito bem do que se trata, não é preciso descrever nada: o orgasmo é uma experiência. A questão é saber o que diabos exatamente é essa experiência. Há um termo em francês que também é sinônimo para orgasmo, la petite mort, a pequena morte. Ele compara o orgasmo à morte no sentido de que experimentamos uma alteração tão radical em nosso estado de consciência usual, que é como se tivéssemos “morrido por alguns instantes”. Mas é precisamente esse estado quase que alienígena de consciência, onde muitas vezes sequer temos noção do tempo e do espaço, que possibilita que a própria magia sexual ocorra de modo mais potente. Se quiser saber como é, poderia, por exemplo, nos momentos que antecedem um orgasmo, começar a pensar em natureza, em montanhas e florestas e riachos, em abundância de vida, na Deusa como ela é, ao invés de nádegas e falos.

Nos primórdios da humanidade a religião era matriarcal, a mulher era sagrada, e o seu corpo era um templo. No xamanismo ancestral, os ritos de iniciação eram realizados nas cavernas, pois suas entradas eram comparadas a vaginas, uma vez que o próprio interior da caverna era o ventre da Deusa. Pode parecer estranho pensar sobre isso hoje, mas até mesmo as catedrais góticas seguiram esse padrão simbólico, uma vez que a Igreja também era a “esposa” de Cristo. E, se até hoje bebemos simbolicamente o sangue de Jesus em certas cerimônias, não deveria causar grande surpresa que isso também tenha se originado em ritos muito, muito mais antigos.

No fim das contas, o sentimento oceânico de fato sempre esteve à nossa disposição. Não é sequer o caso de termos de buscá-lo lá fora, no topo de alguma montanha, no texto de algum grimório secreto, mas simplesmente de retirar as barreiras que nós mesmos erguemos contra ele, quiçá por ser tão avassalador, tão irracional, tão além das palavras. Delimitamos nosso ego quando deixamos de ser recém-nascidos na Criação, e experimentar o sentimento oceânico pode ser a via mais breve de retorno ao que sempre fomos.

Há uma wali (amiga de Allah), uma mística sufi que viveu no Oriente Médio, lá no século VIII, que soube descrever essa tal experiência de modo muito poético – quiçá o único modo com que ela possa, de fato, ser descrita:

Em Ishq-e Haqeeqi [3], não há nada se interpondo 
entre um coração e outro.

O querer falar nasce da saudade,
a verdade acerca do real sabor da vida.
Aquele que o provou, sabe;
aquele que tenta explicá-lo, mente...

Como você poderia descrever a verdadeira forma de Algo
em cuja presença você se torna um borrão?
E em cujo Ser você ainda existe e perdura?
E que vive como um signo eterno para a sua jornada?

(Rabia Basri)


***

[1] É claro que os adeptos da não monogamia também podem adentrar a sexualidade sagrada com três ou mais almas, de uma só vez. Apenas leve em consideração que cada alma adicional torna a operação exponencialmente mais complexa. Nada impede, entretanto, a simples alternância de casais dentro de uma relação não monogâmica.

[2] Se você crê que “magia” é o mesmo que “algo que não existe”, ou “algo que se faz contra Deus”, talvez não devesse sequer estar por aqui. Mas, se gostou do que leu até aqui e ficou curioso em descobrir o que é de fato magia, recomendo o meu livro Artemagia (Edições Textos para Reflexão).

[3] Ishq-e Haqeeqi, o amor divino, a experiência de união mística com Deus, algo que pode muito bem ser comparado ao sentimento oceânico. Você pode encontrar este e outros poemas de Rabia Basri no livro Rumi – Além das ideias de certo e errado (Edições Textos para Reflexão).

Crédito das imagens: [topo] cena do filme Um método perigoso (respectivamente, Jung e Freud); [ao longo] Google Image Search (taiji taoista); Dennis Mahlmeister (O Grande Rito).

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17.6.24

Oceânico, parte 2

« continuando da parte 1


A religião matriarcal

Há muito nos acostumamos a ver por aí religiões dominadas pelos homens, com seus deuses nos postos de comando celeste, e seus sacerdotes ditando as regras cá embaixo. Mas, será que foi sempre assim? E, se não foi, quando é que as religiões deixaram de ser matriarcais e predominantemente ligadas ao feminino?

Se voltamos a época pré-histórica, é possível constatar que há um farto registro arqueológico de alguma espécie de culto feminino, ou pelo menos foram achadas inúmeras esculturas de alguma espécie de Deusa, com seios fartos e em geral bem corpulentas, que foram chamadas de Estatuetas de Vênus, sendo a mais célebre a Vênus de Willendorf, encontrada por um explorador na Áustria, em 1908, e que pode ter até 30 mil anos.

Bem, há 30 mil anos não existia agricultura, e a totalidade dos seres humanos vivia da caça e da coleta, perambulando aqui e ali em um nomadismo sem fim. Diz-se que nessa época o próprio nascimento de um bebê era um grande mistério, de modo que a figura da mulher era grandemente valorizada, até mesmo de forma religiosa, como a fonte primária da vida. Então, há cerca de 11,5 mil anos atrás nós descobrimos a agricultura, e lentamente fomos deixando de ser nômades e nos tornando sedentários.

É mais ou menos aqui que surge uma história relativamente conhecida de como as mulheres podem ter perdido seu posto religioso. Primeiro, eventualmente se entendeu que os homens também eram necessários no surgimento da vida, e o seu sêmen também foi associado à fertilização da terra pelas águas do céu (por isso na maioria dos panteões há um deus celeste que germina a deusa da terra), de modo que a figura da mulher não mais monopolizava o mistério da vida. Segundo, com o surgimento da agricultura, os grupos de caçadores-coletores viram que era mais vantajoso simplesmente se assentar em terrenos férteis e guardar os excedentes das colheitas para as épocas mais difíceis, como no pico do inverno. Assim eles começaram a guardar grãos em silos, e em volta desses silos surgiram aldeias cada vez maiores. Ocorre que isso não se deu da noite para o dia, e enquanto alguns agrupamentos formavam aldeias, outros grupos de nômades, muitas vezes famintos, ainda perambulavam no entorno.

Agora imagine que você é um caçador-coletor faminto, que já não acha mais nada para caçar, mas se depara com uma aldeia cheia de grãos, e que nessa aldeia, por falta de necessidade, muitos deixaram de se armar para a caça, e tenham optado por viver apenas da agricultura: isto é, você tem fome e está bem armado, e eles têm comida de sobra e mal sabem se defender, o que você acha que acontece então? Pois é, invariavelmente você rouba os grãos, e se deixar alguém vivo na aldeia já é lucro para eles.

Mas não acaba aí: alguns aldeãos sedentários eram mais espertos que outros, e eventualmente chegaram à conclusão de que era mais fácil comprar os caçadores nômades com comida, e transformá-los basicamente em soldados, em defensores dos limites da aldeia. Até que surgiram aldeias com muros de madeira, de pedra, e torres de defesa, e cidades, e metrópoles. Com isso, um mundo onde agricultores pacíficos poderia sobreviver com certa autonomia passou a ser dominado pela guerra de cidades-estado tentando defender seu próprio território – e eventualmente abocanhar a terra alheia. E, nesse mundo, era inviável que as posições de poder religioso e/ou político se mantivessem entre as mulheres. Segundo a moral dessa história, os homens derrotaram a religião matriarcal na base da porrada.

Ora, essa história sempre me pareceu um tanto verossímil. Claro que se trata de uma grande aproximação da realidade, sem condições de descrever como as coisas se passaram em maiores detalhes, sem muita precisão histórica ou de datas. Mas, ainda assim, verossímil. O problema é que ela delimita a chamada transição do matriarcado para o patriarcado numa data muito distante, muito anterior à formação das grandes civilizações do Ocidente e do Oriente. Segundo essa narrativa, não poderia haver mulheres em posição proeminente de poder religioso e/ou político em praticamente nenhuma dessas sociedades, salvo raríssimas exceções.

Bem, ocorre que eventualmente eu me deparei com situações onde as grandes sacerdotisas ainda eram a regra, e não a exceção, e isso numa época bem mais recente do que “logo após o surgimento das primeiras aldeias”. Muitos de vocês devem conhecer Pitágoras, e alguns devem saber que ele é considerado “o pai da filosofia”, visto que supostamente ele mesmo cunhou o termo, ele mesmo se considerava, acima de tudo, um filósofo, um amigo ou amante (filos) do saber (sophia). Ocorre que Pitágoras teve uma mestra no início de sua trajetória, chamada Temistocleia, uma sacerdotisa do templo de Apolo em Delfos. A conexão entre Pitágoras e Temistocleia é feita num trecho da Vida dos Grandes Filósofos, de Diógenes Laércio, um historiador que viveu no século III d.C (cerca de 8 séculos depois do filósofo). Lá no livro, Diógenes nos diz que “Pitágoras derivou a maior parte de suas doutrinas éticas a partir dos ensinamentos de Temistocleia, sacerdotisa de Delfos”.

As sacerdotisas dos templos em Delfos e outras grandes cidades da Grécia Antiga também eram chamadas de pitonisas, e além de realizar profecias e ensinar jovens filósofos, eram amplamente reconhecidas como grandes autoridades religiosas, o que certamente lhes conferia certa relevância política. E, vejam bem, não eram duas ou três, eram diversas mulheres, diversas sacerdotisas, que em sua época eram mais famosas e relevantes do que homens como Pitágoras. Prova disso é que o próprio Sócrates, alguns séculos depois, iniciou sua jornada na filosofia justamente porque outra sacerdotisa em Delfos disse a um amigo seu que ele era “o homem mais sábio de Atenas”. Se as pitonisas não fossem tão importantes, se o seu conselho oracular não fosse amplamente respeitado por todos, Sócrates não teria se disposto a buscar por alguém mais sábio, e talvez Platão sequer tivesse sobre o que escrever.

E, se nos parágrafos acima eu lhes trouxe um exemplo relevante de como existiram sacerdotisas com amplo poder religioso mesmo muitos séculos após “o advento da civilização”, em Quando Deus era mulher a escritora e pesquisadora norte-americana Merlin Stone nos traz inúmeros outros casos parecidos. A obra nos conta a história do antigo culto à Deusa Mãe, e de como o rito às deidades femininas foi suprimido ao longo dos séculos. Antes de publicá-la, em 1976, Stone passou quase uma década pesquisando as deusas na Antiguidade, período em que a vida social, política, econômica e cultural de muitos povos girava em torno da mulher.

Pessoalmente, o que achei mais curioso e importante na interpretação histórica de Stone foi a sua defesa de que a perseguição aos cultos da Deusa Mãe não tiveram motivação puramente religiosa, pois a política e, principalmente, a questão da herança, também foram tão ou mais importantes na equação. Afinal, como ela bem descreve no livro, na religião matriarcal a herança passava da mãe para os filhos, de modo que eram as sacerdotisas quem decidiam o rumo de suas vidas, e de seus templos, exatamente como o fazem hoje os sacerdotes de religiões patriarcais. Mas o mais interessante é como exatamente isso se dava, o que nos dá uma bela dica do porquê a própria sexualidade foi amplamente demonizada, juntamente com as sacerdotisas e suas deusas:

As mulheres [sacerdotisas] que residiam nos recintos sagrados da Deusa Mãe tomavam amantes dentre os homens da comunidade, fazendo amor com aqueles que vinham prestar honra à Deusa. Para aquelas pessoas o ato sexual era considerado sagrado, tão santificado e precioso que era efetuado dentro da casa da Criadora do Céu, da Terra e de toda a vida. Um dos muitos aspectos da Deusa, e pelo qual era reverenciada, era ser a deidade padroeira do amor sexual. [...] Na minha opinião, tais costumes sexuais devem ter se desenvolvido em virtude da primeira compreensão e tomada de consciência da relação entre sexo e reprodução. Já que essa conexão foi provavelmente observada de início pelas mulheres, pode ter sido integrada na estrutura religiosa como um meio de assegurar a procriação entre as mulheres que escolhiam viver e criar seus filhos dentro do complexo do templo, e também, possivelmente, como um método de controlar a gravidez.

(Merlin Stone, Quando Deus era mulher)

Ou seja, a Deusa subitamente se torna definitivamente mais diabólica para as religiões patriarcais; afinal, nos templos de culto à Deusa, são as mulheres quem decidem quando e com quem terão filhos, e são elas quem detém os direitos à herança, que é matrilinear. Assim, não admira que as religiões matriarcais e os cultos femininos tenham sido tão perseguidos na Antiguidade. E não admira, certamente, que até hoje a sexualidade, principalmente a sexualidade ditada pela mulher, seja tão demonizada, tão deturpada e distorcida de seu aspecto sagrado. Tudo isso, infelizmente, ainda é um eco de milênios atrás.

Mas, e como eram exatamente tais cerimônias religiosas que envolviam o sexo? Como a sexualidade sagrada pode nos ajudar a compreender melhor esse tal sentimento oceânico citado pelo amigo de Freud? Bem, isso certamente terá de ficar para o próximo texto.


» Na sequência, a pequena morte.

***

Bibliografia
Quando Deus era mulher, de Merlin Stone (Editora Goya/Aleph).
Mulheres que inspiram, diversas autoras (Edições Textos para Reflexão).

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (A Vênus de Willendorf); [ao longo] John Collier (A Sacerdotisa de Delfos); Foto que consta na capa da biografia de Merlin Stone, Merlin Stone Remembered: Her Life and Works.

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11.6.19

4 Amores: Eros

Neste vídeo continuamos nossa jornada pelo Amor, desta vez falando de Eros, o amor romântico, erótico. Vamos começar pelo marco inicial do Romantismo, "Os Sofrimentos do Jovem Werther", de Goethe, passar pelo reino adoravelmente bizarro do Butão, onde a poligamia é a tradição, e terminar com um precioso conselho de Khalil Gibran. Neste estágio da evolução no amor, o jogo de posse e conquista ainda se faz válido, mas até que ponto isso não envenenca o próprio Amor?

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27.5.19

4 Amores: Pornea

Neste vídeo vamos começar nossa jornada pelo Amor, compreendendo desde o início que o Amor pode ser muitas coisas; os gregos tinham pelo menos 4 nomes para ele: Pornea, Eros, Filia e Ágape. Assim, o Amor é antes uma Caminho do que uma coisa só. Iniciando por Pornea, falaremos de como o instinto de perpetuação da espécie está por trás de muito do que fazemos no Amor; e ao final ainda convidamos Arthur Schopenhauer para nos falar um pouco mais sobre a Metafísica do Amor.

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21.8.18

O Sexo e a Morte (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo trago uma reflexão sobre a relação entre o sexo e a morte, que nasceram juntos há mais ou menos um bilhão de anos, quando os organismos evoluíram e deixaram de se reproduzir somente pela bipartição, algo que favoreceu muito a evolução das espécies. Também iremos avaliar se a violência ainda tem lugar no sexo sadio, e se as simulações de estupro no xvideos não deveriam ter o mesmo status da zoofilia: isto é, serem ilegais.

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23.10.17

Gibran e a nudez na arte

Recentemente tivemos muitas polêmicas envolvendo arte, nudez e sexualidade no país. Agora que a “fervura” já passou, penso que ficou mais simples identificar os extremos: gente que nunca vai em galerias de arte invadindo exposições com certa truculência e vendo pedofilia onde não havia; e, no polo oposto, gente não admitindo que as pessoas se sintam nem um tiquinho incomodadas com uma criança tocando a perna de um homem nu.

Eu a princípio nem iria trazer este assunto aqui para o blog, mas por acaso estou no meio da leitura do fantástico O grande amor do profeta, com as cartas trocadas entre Khalil Gibran e sua grande amiga e confidente, Mary Haskell, incluindo trechos do diário dela. Ocorre que há um século atrás, Haskell esteve decorando o interior de seu colégio em Cambridge (próximo a Boston) com alguns dos quadros de Gibran (que também foi exímio pintor). Conforme as obras continham nudez, e o colégio era frequentado por menores de idade, houve protestos dos pais, e então o que se seguiu está descrito no livro (organização de Virginia Hilu, tradução de Valerie Rumjanek, editora Record).

Penso que este episódio secular ainda é capaz de jogar alguma luz até mesmo em nossa polêmica atual:


Mary Haskell
Escola Cambridge (Cambridge – Massachusetts)
10/10/1920

[...] Não cheguei a lhe mandar minha carta devido a uma nuvem dentro de mim, e porque queria muito lhe falar sobre isso e ao mesmo tempo não lhe queria contar coisa alguma. Pois fiquei magoada, e o fato de dizer-lhe iria magoá-lo também. Mas vou lhe contar tudo:

Uma senhora me disse que não matricularia seu filho em meu colégio porque eu tinha O Crucificado [um dos quadros de Gibran] na parede. E dois ou três professores disseram que achavam desaconselhável pendurar na parede A Mãe Celestial e, até mesmo, O Cordeiro Orou em Seu Coração [mais quadros, todos de temática místico-cristã]. Ainda agora, não consigo compreendê-los, e isso torna as coisas confusas a meus olhos, enquanto escrevo.

O pior de tudo é escrever a você sobre isto. Se pudesse ocultar o rosto que faz com que as pessoas vejam o que eu sinto, eu o ocultaria. Dizem que os quadros fazem as meninas se sentirem constrangidas e que elas não são capazes de sentir o lado “espiritual” dos desenhos.

O que sinto a respeito dos nus dos quadros que tenho aqui é que as meninas têm uma sorte extraordinária de tê-los a sua volta, entre as pessoas que amam e respeitam. Sua presença lhes ensina que nada há de vergonhoso na nudez ou no corpo humano – e que isto não é um tabu entre pessoas esclarecidas – e que não precisa causar constrangimento a uma moça. Os quadros são uma presença silenciosa e tranquilizadora. E, se uma menina deseja ver corpos nus, que os veja abertamente aqui, e seja poupada da vergonha por seu desejo.

Se ela quer ver nudez, por que não satisfazer seu desejo? Não vejo nada de mal nisso. Ter aqui todos os quadros que amo seria a coisa melhor que esta escola poderia fazer pela juventude – e não é preciso que se diga uma só palavra acerca de um único quadro para que ele produza efeitos positivos. O próprio fato de estarem nesta escola parece dizer às moças: “O que veem em nós é bom, e é bom que o vejam”.

A preocupação com a influência que os quadros possam exercer nas meninas parece-me, apenas, parte de uma mentalidade complicada e cheia de temores. Digo a mim mesma que é “natural” e lembro a mim mesma o quanto desta mentalidade eu tinha e ainda tenho. Mas o que realmente não sei é quando enfrentá-la ou deixá-la de lado, se a escola está envolvida. E, por não saber o que fazer, nada fiz. Coloquei O Crucificado em meu próprio quarto, e O Contemplador [outro quadro de Gibran, porém sem nudez] ficou ótimo no lugar do primeiro, no meu gabinete.

Com amor,
Mary


Khalil Gibran
Nova York
11/10/1920

Adorada Mary:

A coisa mais sensata e delicada a ser feita é retirar das paredes todos os quadros que ofendem as meninas e suas mães. Pensar que um desenho meu está causando constrangimento a alguém, físico ou espiritual, é uma fonte de sofrimento e infelicidade para mim.

Não podemos pregar a castidade do nu. As pessoas devem descobri-la por si mesmas. Não podemos conduzir as pessoas ao coração da vida. Elas devem ir por sua própria vontade, e cada uma deve ir só.

Eu lhe imploro, querida Mary, que retire todo desenho sobre o qual você tenha ouvido a mais leve restrição.

E, afinal de contas, por que motivo isto deveria perturbá-la ou a mim? Não há nada que deva fazer com que as coisas se tornem negras diante de seus olhos ou diante dos meus. O que as pessoas sentem ou pensam faz parte da vida, e você e eu sempre aceitamos tudo na vida. A raiz de uma árvore não é inferior ao seu ramo mais elevado.

Com amor,
Khalil


***

Crédito das imagens: Khalil Gibran (alguns de seus quadros)

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1.6.16

A cultura do acolhimento

Introdução
Quando fiquei sabendo da grande repercussão do estupro coletivo de uma jovem de 16 anos no Rio de Janeiro, seja nas redes sociais ou mesmo na grande mídia, logo me veio uma necessidade de falar alguma coisa sobre o assunto – isto é, sobre a repercussão em si, o que foi de fato a novidade (para o alívio de muita gente, principalmente das mulheres em geral), visto que o estupro em si, tanto aqui como no resto do mundo, infelizmente está longe de ser novidade.

De fato, seja no Brasil, na Índia ou nos EUA, em bailes funk e favelas ou em universidades luxuosas, entre gente pobre ou bem criada, na rua ou no seio das famílias mais bem reputadas, o estupro está mais para epidemia do que para novidade. Uma epidemia de violência que surge da ignorância sobre o que nós homens somos realmente.

Porém, uma vez que eu já disse quase tudo o que tinha para dizer sobre o assunto num conto que escrevei há alguns anos, A educação de Casanova, e conforme hoje em dia muita gente ainda confunde feminismo com femismo, e machismo com “defesa da masculinidade”, confesso que optei por abdicar de voltar uma vez mais a um tema tão espinhoso (não por culpa do tema em si, mas sobretudo por culpa da ignorância geral acerca dele).

Foi por isso que resolvi trazer a vocês não um artigo meu, mas sim o resumo de um excelente artigo de Nora Samaran, uma blogueira canadense que analisa grandes questões da cultura moderna. Ela, como excelente escritora, e sobretudo como mulher, pode nos esclarecer melhor o assunto do que eu creio que seria capaz de fazer. O artigo se encontra resumido por ser excessivamente extenso, mas podem encontrá-lo na íntegra em seu blog. A tradução do inglês original é de Marcelo Dakí:


O oposto da cultura de estupro é a cultura de acolhimento
O oposto da cultura masculina de estupro é a cultura masculina de acolhimento: homens aumentando sua capacidade de acolher, tornando-se plenos.

O julgamento Ghomeshi [1] volta aos noticiários, trazendo o tópico da agressão sexual violenta de volta às mentes das pessoas e às conversas cotidianas. Certamente a violência é errada, mesmo quando o sistema jurídico que lida com a mesma é um desastre. Essa parte parece evidente. Alarmante, mas evidente.

Mas aqui há algo maior em cena. Estou lutando para vislumbrar a forma completa que emerge do desenhar do lápis, quando apenas partes são visíveis no momento.

Um meme que circula por aí diz “Estupro é violência, não sexo. Se alguém te batesse com uma pá, você não chamaria isso de jardinagem”. E isso é verdade. Mas apenas a superfície da verdade. As profundezas dizem algo além, algo sobre a violência.

A violência é o acolhimento virado do avesso.

Essas coisas estão conectadas, elas têm de estar conectadas. Violência e acolhimento são dois lados da mesma moeda. Eu luto para entender isso mesmo enquanto escrevo.

Autocompaixão e compaixão pelos outros crescem juntas e estão conectadas; isso significa que homens buscando e recuperando partes perdidas de si mesmo vão curar a todos. Se muitos homens crescerem aprendendo a não amar seus eus verdadeiros, aprendendo que suas demandas de apego emocional (segurança emocional, acolhimento, conexão, amor, confiança) são fracas e erradas – que o a demanda por apego de qualquer pessoa, ou sua segurança emocional, são fracas e erradas – isso pode levar a duas coisas:

(1) Eles podem se tornar menos aptos a experienciar mulheres enquanto pessoas plenas, com demandas e sentimentos inteligíveis (por autonomia, por segurança emocional, por sintonia, por confiança).
(2) Eles podem se tornar menos aptos a compreender suas próprias demandas por conexão, transmutando-as em vez disso em formas distorcidas, mais espelhadas no social.

Então, para curar a cultura de estupro, homens constroem habilidades masculinas de acolhimento: acolhimento e recuperação de seus eus verdadeiros, e acolhimento de pessoas de todos os gêneros ao seu redor.

Eu estou lentamente descobrindo um segredo: os homens que conheço que são excepcionalmente acolhedores, amantes, pais, colegas de trabalho, amigos íntimos de seus amigos, que sabem como fazer as pessoas se sentirem seguras, esses homens não tem quase nenhum canal através do qual possam aprender ou compartilhar com outros homens essa habilidade arduamente conquistada. Se tiverem sorte, podem ter um modelo de comportamento em casa, na forma de um pai excepcionalmente acolhedor, mas sem ter esse modelo eles têm de descobrir tudo através de tentativa e erro, ou aprender com mulheres ao invés de homens. Esse conhecimento molda tudo: premissas sobre a significação de demandas, sobre como alguém pode responder a elas, como é sentida a proximidade, como amar sua própria alma, e qual tipo de acolhimento deve de fato acontecer num espaço íntimo.

Enquanto isso, os homens que conheço que são pessoas boas, de bom coração, mas que estão só começando a alimentar seus próprios modelos de amor-próprio e aprendendo a confortar e acolher os outros, esses homens não têm outros homens como referências. Crescimento acarreta dores de crescimento, certamente, mas o caminho pode ser suavizado quando alguém não precisa aprender tudo sozinho.

Homens não conversam uns com os outros sobre habilidades de acolhimento: fazer isso soa muito íntimo, ou os códigos da masculinidade tornam muito apavorante fazê-lo. Se eles não podem perguntar e ensinar uns aos outros – se eles não podem nem mesmo descobrir quais outros homens em suas vidas seriam receptivos a tais conversas – como eles aprendem?

Homens têm capacidade de cura que são particularmente masculinas e particularmente curadoras. Eles frequentemente não estão totalmente cientes desse profundo dom e do quanto ele pode ser de ajuda àqueles próximos a eles, sejam familiares ou amigos íntimos.

Para uma transformação completa dessa cultura de misoginia, homens devem fazer mais do que “não agredir”. Nós devemos fazer um apelo à masculinidade para que se torne plena e acolhedora de si mesma e dos outros, para que reconheça que demandas por apego são saudáveis e normais e não “femininas”, e então esperar que os homens curem a si mesmos e aos outros da mesma forma que esperamos que as mulheres sejam “acolhedoras”. É a hora dos homens reconhecerem e nutrirem seus próprios dons de cura.

[...] Homens precisam fazer esse trabalho com outros homens – não sozinhos, não em vez de fazê-lo com mulheres, mas para além disso, em relações responsáveis com e para com mulheres. Em outras palavras, continuar aprendendo das maneiras que o aprendizado está ocorrendo agora – e então dividir esse aprendizado uns com os outros. [...] [Os] homens precisam fazer esse trabalho de cura todos os dias, por detrás das cortinas, colhendo as recompensas de terem mulheres e pessoas de todos os gêneros se sentindo seguras com eles, e cultivando seu amor-próprio e o amor de uns pelos outros.

A maravilhosa recompensa de se criar laços seguros é que, nesses lugares de confiança, um brilho quente de significado e propósito emerge. Um círculo interior de confiança e vulnerabilidade permite movimento e descanso: ele permite que as abelhas se aproximem e se afastem da colmeia. Cria abrigos feitos de familiares escolhidos e uma comunidade amada da qual a ação, confrontos ao racismo, sexismo, à violência institucional podem surgir, uma rede de segurança para que sejam amparados os corpos e as almas de cada um, a fundação que permite o risco.

O oposto da cultura masculina de estupro é a cultura masculina de acolhimento. Isso é um trabalho para ser feito por homens, e ainda assim é uma necessidade de pessoas de todos os gêneros ter homens em suas vidas. As recompensas estão esperando.

Você é um homem acolhedor? As mulheres na sua vida – parceira, filha, irmã, amiga, colega de trabalho, mãe – te dizem ou demonstram que você as faz se sentirem excepcionalmente próximas, seguras e que importam? Em caso positivo, como você aprendeu isso? Como você abre espaços para que homens que querem ter tais conversas comecem a tê-las?

Cada homem que eu perguntei a respeito disso respondeu, “ambos os homens teriam de querer isso.” Medo de proximidade, códigos masculinos de interação, os sinais de nível baixo de um cérebro-reptiliano que os homens enviam uns aos outros, são reais e parte do quadro maior. Mas muitos homens estão se debatendo com tais questões, trancados sozinhos em suas pequenas caixinhas.

Homens têm de fazer isso acompanhados de outros homens, apesar das dificuldades de fazê-lo, por três razões. Primeiro, homens entendem o que é ser um homem muito mais do que as mulheres o entendem, e podem ensinar um ao outro enquanto compreendem como é sentir isso e ter compaixão uns pelos outros. Homens devem fazer isso com outros homens porque, francamente, mulheres não podem se responsabilizar por curar homens enquanto se protegem de violência e negligência masculinas, que ainda são endêmicas e partes da vida cotidiana das mulheres. Finalmente, uma das grandes distorções do espírito humano em nossa cultura é que cada homem vive em confinamento solitário, pensando que pode e deve resolver problemas sozinho, que não pode precisar de mais alguém. Saltar as barreiras que impedem homens de falar sobre emoções com outros homens é em si uma mudança fundamental, que reduz a vergonha e a confusão.

Como você sabe quando homens ao seu redor – o amigo que você acabou de encontrar para um drink, o colega com quem você colaborou em projetos por anos, o parceiro de futebol – podem na verdade estar quietamente confusos e sedentos por esse tipo de aprendizado?

Como você pode sinalizar sua disponibilidade, para deixar os homens na sua vida saberem que você mesmo está fazendo isso, para que então aqueles homens que queiram saber sobre acolhimento possam encontrar-se uns aos outros? É tão simples quanto começar um grupo masculino de discussão baseado neste artigo.

Pode ser tão simples quanto compartilhar esse artigo, e perguntar “Isso alguma vez já te ocorreu?”

Pode ser tão simples quanto enviar esse artigo para alguém que você conhece e dizer “Estou disponível”.

Pode ser tão simples quanto postar esse artigo e dizer “Estou aqui”.

***

[1] Jian Ghomeshi é um músico canadense que foi acusado de assédio sexual por várias mulheres, mas aparentemente acabou sendo inocentado de todas as acusações em seu julgamento, o que não foi muito bem aceito pela opinião pública das bandas de lá.

Crédito da imagem: Oleg Oprisco

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28.9.15

Lançamento: A educação de Casanova

Neste conto em 10 capítulos, o autor nos convida a uma viagem por Istambul (Turquia), Las Vegas (EUA), Rio de Janeiro (Brasil) e, sobretudo, pelas profundezas da alma e da sexualidade humana. Uma história para amantes, amados, e para quem se dedica a amar mais e melhor a cada dia, um pensamento de cada vez...

Um e-book recomendado para maiores de 16 anos, que pode ser baixado ou lido gratuitamente nas seguintes lojas (em breve, também na Amazon):

Baixar grátis (Kindle) Baixar grátis (Kobo) Baixar grátis (Google Play) Baixar grátis (Apple Books) Ler online (Google Livros)

***

Eu considero este conto uma das melhores coisas que já escrevi, inclusive porque a inspiração para escrevê-lo surgiu aos poucos e de forma um tanto estranha. Primeiramente, me pareceu que se trataria de um conto erótico, e eu relutei por muito tempo em iniciá-lo... Quando finalmente comecei, percebi que seria uma aventura muito mais profunda do que havia imaginado de início.

Cada um dos três trechos em cidades diversas, que compõem juntos os 10 capítulos do conto, foi escrito em momentos diferentes, com intervalos de meses entre eles. No final, tudo acabou fazendo algum sentido, mas quando iniciei não fazia a menor ideia de para onde a história iria se encaminhar. Acredito que boa parte da "estranheza" do texto se refira também ao meu próprio sentimento de estranheza ante a sua temática e a inspiração que me impeliu a escrevê-lo.

É, enfim, um conto que superficialmente não tem muito a ver com a maior parte do que escrevo aqui no blog, mas se puderem mergulhar dentro dele, verão que acaba tendo tudo a ver... Boa leitura!

raph


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28.6.15

O óbito da ignorância

A Casa Branca, pela entrada da noitinha, com iluminação especial em diversas cores, celebrando a decisão histórica da Suprema Corte americana.

Foi por conta de uma certidão de óbito que os EUA finalmente foram incluídos no rol dos países que deixaram de proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ao lado de Holanda (a pioneira) e diversos países europeus, assim como Uruguai, Argentina, Brasil, Canadá, México, África do Sul e Nova Zelândia:

Mapa com os países onde o casamento gay já é legal.

“Quando conheci meu marido, eu soube que queria ficar com ele pelo resto da minha vida, até que a morte nos separasse. A maioria das pessoas sente isso quando encontra o amor de sua vida”, disse a BBC o americano Jim Obergefell, 48 anos, ao falar sobre John Arthur, seu parceiro por 21 anos.

Eles se conheceram em 1992 e durante duas décadas construíram uma vida juntos em Cincinnati, Ohio. Em 2011, Arthur foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica, doença que não tem cura, e começou a perder o controle de seus movimentos musculares e a fala. Ambos sabiam que o tal “até que a morte os separe” estava cada vez mais próximo, e decidiriam aproveitar uma decisão prévia da Suprema Corte americana, de 2013, que permitia o seu casamento em certos estados da federação.

O casal arrecadou US$ 13 mil com familiares e amigos e alugou um jato com equipe médica para viajar a Maryland, Estado onde o casamento gay já era permitido na época. Em 11 de julho de 2013, Obergefell e Arthur trocaram votos e alianças em uma cerimônia de menos de dez minutos, realizada dentro do avião, na pista de um aeroporto em Baltimore.

Após voltarem para casa, entraram com uma ação para que o casamento fosse formalmente reconhecido na certidão de óbito, quando Arthur morresse. Após decisão favorável de um juiz federal, o Estado de Ohio recorreu, e o caso chegou à Suprema Corte.

Foi precisamente este caso que acarretou na decisão histórica e acirrada (5 votos a 4) do último dia 26 de julho de 2015, que basicamente estendeu o direito ao casamento homossexual de alguns estados para todo os EUA. Foi para que na certidão de óbito do grande amor de sua vida não constasse a palavra “solteiro” no lugar de “casado” que Obergefell, indiretamente, ajudou a acelerar o óbito da intolerância e da ignorância na maior potência do mundo ocidental.

Claro que, não fosse por este caso, teria sido por outros. Para além do apoio incondicional a decisão da maior rede social da internet, o Facebook, o que acarretou no florescimento de milhões de fotos de perfil mais coloridas nos dias subsequentes, essas foram algumas das grandes empresas que demonstraram explicitamente o seu apoio à decisão americana:

Logos da Apple, Microsoft, Google, Facebook, YouTube, Twitter, Tumblr AmericanAirlines, Uber e Vevo.

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Uma questão bíblica
No Levítico, a Bíblia nos explica que “quando um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão” (Le 20:13). Teoricamente, todos os judeus andarilhos, que então viviam em tribos nos desertos do Oriente Médio, deveriam seguir estritamente tal lei ou seriam “punidos por Javé”. Isto fazia algum sentido na época, pois era um povo nômade, que não dispunha de cadeias para punir infratores, e nem podia se dar ao luxo de contar com homens “efeminados” que, para além de não poderem guerrear, não ajudariam na procriação, que era vital naqueles tempos.
Estar ainda ancorado nas leis do Levítico, mesmo no século XXI, é no mínimo uma enorme ignorância, até mesmo porque quem se vale dessa passagem para condenar a homossexualidade está sendo algo hipócrita, na medida em que provavelmente não segue as demais leis do mesmo livro da Bíblia, como por exemplo: “não cortar o cabelo muito curto, nem danificar as extremidades da barba” (Le 19:27); “sacrificar dois pombos a Deus 8 dias após cada menstruação” (Le 15:13-14); “jamais comer carne de porco” (Le 11:7) etc.

Pederastia
A origem desta palavra remonta a antiga Grécia, berço da democracia e de inúmeras ideias que até o nosso século ainda iluminam o Ocidente. Ela significa, literalmente, “amor por garotos”.
Na Antiguidade, a pederastia era uma relação entre um homem mais velho e um adolescente. Em Atenas este indivíduo mais velho era chamado de erastes, e sua função era a de educar, proteger, amar e agir como um exemplo para seu amado – chamado de eromenos, cuja recompensa para seu amante estaria em sua beleza, juventude e potencial.
Não está claro se tal relação passava muito além de uma iniciação sexual que durava não mais do que alguns anos, mas fato é que a sociedade grega não distinguia entre desejo e comportamento sexual com base no gênero de seus participantes, mas sim pela extensão com que tais desejos ou comportamentos se conformavam às normas sociais, que eram baseadas por sua vez no gênero, idade e status social.
Naquela época, o sexo entre homens era aceito, contanto que não deixassem de buscar constituir família nem de se alistarem para a defesa de suas cidades.

Bonobos
Os estudiosos perceberam apenas em 1928 que os bonobos formavam uma família diferente dentro da espécie dos chimpanzés, com um comportamento muito peculiar, em que o sexo está em primeiro lugar, funcionando como substituto da agressividade. O bonobo é um dos raros animais para quem não existe relação direta entre sexo e reprodução. Ou seja, como os humanos, eles fazem mais amor do que filhos. Ao contrário da maioria dos primatas, a sociedade dos bonobos é dominada pelas fêmeas e não pelos machos.
Este “matriarcado” só se torna efetivamente possível porque, ao contrário da maioria das fêmeas de outras espécies, que só são receptivas ao sexo no período fértil, as fêmeas bonobos são atrativas e ativas sexualmente durante quase todo o tempo. Além de intensa atividade sexual com seus parceiros, em que tomam a iniciativa, elas simulam relações com outras fêmeas – é justamente através do sexo que estabelecem as alianças entre si. Os machos também participam dessa espécie de homossexualidade light.
Este é apenas o mais evidente de muitos casos de relações homossexuais na natureza. Assim, se por acaso algum dito pastor, seguidor de algum estranho deus raivoso, lhe disser que ser gay é “antinatural”, você pode lhe responder assim: “Senhor Pastor, o senhor por acaso já ouvir falar dos bonobos?”.

A visão budista
Um dos alunos de Chagdud Tulku Rinpoche, o Precioso Senhor da Dança, um reconhecido mestre budista tibetano, conta que uma vez presenciou tal conversa do mestre com uma senhora que havia acompanhado uma de suas palestras:
Ela: “Mestre, o que é um homossexual?”; Ele: “Um homossexual é uma pessoa que faz sexo com o mesmo sexo.”; Ela: “Acho que o senhor não entendeu… Como o budismo vê o homossexualismo?”; Ele: “Nós não vemos o homossexualismo. No budismo, não temos o costume de ver as pessoas fazendo sexo.”; Ela: “Mestre, o que eu quero saber é a opinião do budismo sobre pessoas que fazem sexo com o mesmo sexo.”; Ele: “Alguém pode dar opinião sobre quem não conhece? Você está falando em “pessoas”. Que pessoas?”; Ela: “Qualquer uma! Qualquer uma!”; Ele: “Todas as pessoas são milagres.”; Ela: “Mas afinal o homossexualismo é certo ou errado?”; Ele: “Atos homossexuais consensuais são atos de amor.”
Tudo isso com a mesma expressão de quem vê um passarinho azul. Seguem-se aplausos e gargalhadas. Rinpoche sorri...
Há ainda este vídeo onde outro mestre, Dzongsar Khyentse Rinpoche, do Butão, fala mais prolongadamente sobre o tema. Em ambos os casos, vemos que os budistas estão mais preocupados com seu autoconhecimento e iluminação do que com a sexualidade alheia [1].

A Igreja, o Pecado e a Verdade
Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”, afirmou o Papa Francisco em 2013, durante a entrevista concedida aos jornalistas que o acompanhavam no voo de volta à Itália depois da visita de uma semana ao Brasil, surpreendendo boa parte dos vaticanistas presentes.
É óbvio, no entanto, que não há nenhuma chance no horizonte próximo de que a Igreja Católica apoie o casamento homossexual. E nem há qualquer problema nisso... A luta pelos direitos dos gays é uma luta travada na esfera secular e laica, e não na esfera religiosa. O casamento gay nada tem a ver, nem poderia ter, com o casamento conforme os rituais da doutrina cristã.
Da mesma forma, além de certos ativistas da causa gay mais agressivos e ignorantes, nenhum gay ou simpatizante está querendo atacar ou denegrir a Igreja, e muito menos o Cristo, ao lutar por seus direitos, pela igualdade, a tolerância, o amor e, sobretudo, o fim da ignorância.
Afinal, foi ele mesmo, o doce rabi da Galileia, quem nos enxortou a amar a todos, a todos, sem exceção. E, se você ainda crê realmente que a homossexualidade é um tenebroso pecado, então eu lhe convido a conhecer a Verdade e se livrar das trevas da ignorância. Espero que o conteúdo deste artigo possa lhe ajudar em parte – afinal, foi também o rabi quem nos disse que a Verdade nos libertará...

***

[1] Vale lembrar, no entanto, que o casamento homossexual ainda não é permitido oficialmente nem no Tibete (China) nem no Butão.

Crédito das imagens: [topo] Monica M. Davey/EPA (Casa Branca com iluminação em homenagem a decisão histórica da Suprema Corte americana); [ao longo] Quartz (mapa com os países onde o casamento homossexual já se tornou legal); FCKH8.com (algumas das grandes companhias que apoiaram a decisão da Suprema Corte; para boicotá-las será necessário abandonar a era da internet e voltar a vida dos anos 1970/80).

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21.7.14

Frases (17)

Palavras aventureiras que vêm e vão. Costumam aparecer primeiro no meu twitter, e depois aqui:


"Místico: aquele que encontrou o Amor em Deus, e Deus no Amor."

"Quem sabe não exista bem o velho e o novo, mas sim a Roda e o Eixo. A Roda, que nunca acorda no mesmo local do dia que passou; e o Eixo, eterno..."

"Quem poderá saber, a cada passo dado, se somos nós quem caminhamos, ou o mundo todo que gira por debaixo dos nossos pés, imóveis?"

"Como poderíamos saber para onde devemos retornar se já não tivéssemos dançado e brincado em seu gramado, há tantas eras?"

"Não há religião além desta doce e fugidia saudade da algazarra de outrora... Além das ideias de certo ou errado, lá nos encontraremos!"


"Todo ato sexual profundo é um ato mental, uma forma de masturbação divina."

"Orgasmo: experiência religiosa, para ser realizada de olhos bem fechados."

"Há coisas que os corpos fazem que transbordam a eles mesmos, e que estão muito, muito além do pensamento e da razão..."

"É impossível tocar sem ser tocado."

"Tudo é natural. Só o amor vai além, pula por sobre, torna-se sobrenatural..."


"Enquanto os artistas fazem tão somente 'o que o povo quer ver', não são bem artistas, mas fantoches; e com fantoches no lugar de artistas, o mundo jamais caminhará a frente."

"Viver sem julgar, viver por viver, viver para amar."

"Não quero mais vencer na vida; quero brincar com ela, quero construir castelos de areia pela beira dos mundos..."

"A luz foi criada para ser refletida."


"Alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias. A espiritualidade vive de evidências subjetivas, mas extraordinárias."

"Siga a alegria em seu coração, esta que surge a cada passo dado na direção em que ele pulsa com mais vontade."

"O Cosmos é uma história de seres que vêm, que são e que vão ser..."

"Não se demore muito se indagando sobre o sentido da vida, mas busque pelo sentido que você dará a ela."


"Quando eu disse ao caroço da laranja que dentro dele dormia um laranjal inteirinho, ele me olhou estupidamente incrédulo." (Hermógenes)

***

Crédito da imagem: Bruno Walpoth (escultura em madeira)

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12.6.13

A educação de Casanova, parte 1

A educação de Casanova

Texto recomendado para maiores de 16 anos.


Vou começar com esta confissão: o que tenho feito no curso da minha vida, quer seja bom ou mal, tem sido feito livremente; sou um agente livre.


1.

Eu poderia jurar que fazia séculos que não punha os pés nesta cidade. Tudo tem mudado no mundo, mas as felicidades e os prazeres continuam passageiros e fugazes, as grandes infelicidades continuam a atemorizar os homens, e de resto há somente este grande e tenebroso tédio nos intervalos entre umas e outras. Até algum tempo atrás, e já não me lembro mais quanto, eu me encontrava livre desta pequena tristeza, tão jovem quanto sempre fora, tão sedutor quanto um misterioso viajante. Mas ultimamente tenho envelhecido, meus pensamentos e minha alma vão tornando-se rígidos e enrugados, e meus olhares nada mais despertam nas mulheres...

Como, afinal, despertar alguma paixão nalguma bela jovem ou nem tão jovem, se eu mesmo padeço deste tédio que acomete a tudo e a todos na civilização moderna. Há pouco chamei-o “grande e tenebroso”, e me contradisse quando falei em “pequena tristeza”. Ora, uma grande infelicidade ainda pode ser mais interessante, pois após uma queda vem a fase em que ficamos novamente de pé, e após uma desilusão amorosa podemos contar com uma doce ilusão totalmente nova! Melhor seria uma grande infelicidade, uma grande tragédia, do que este tédio... Será que é por isso que os homens consideram se casar?

Esta vista do mar de Mármora continua tão bela quanto me lembrava. Os homens aprenderam a construir estas grandes torres, cada vez maiores, mas em matéria de beleza e sedução, ainda têm muito o que aprender com a natureza. E eu que sempre fora um agente livre, um mar esguio a banhar as mulheres seminuas ou nuas no verão, mas que desaparecia no inverno... E agora, agora um mar represado, entediado. Mas não se apiedem de mim, não estou aqui para chorar minhas mágoas, e sim para me curar.

Dizia Hipócrates que são nossas próprias forças internas quem realizam a cura, e que o médico é tão somente o agente que nos leva ao reencontro conosco mesmo. Acho que é precisamente isto que ocorre. Casanova, o grande Casanova, não come mais ninguém, e nem parece entusiasmado em comer mais ninguém... Ó, lástima, será necessário mesmo um grande médico do amor para me conduzir novamente ao meu próprio coração. Vim de tão longe atrás deste homem.

Beyazit é o bairro onde ele marcou o encontro. Não é preciso ser um especialista nas artes amorosas para perceber que se trata de um dos poucos bairros da cidade onde há prostituição. Além do que é já noitinha, isto tudo só pode ser um grande deboche da parte dele... Quem quer que tenha acreditado que fiz amor com 122 mil mulheres e prostitutas ao longo de uma única vida é muito ingênuo ou gosta de mitologia! Mas o pior é ver tantos jovens se divertindo, tantos homens ainda com esta grande vontade de procriar a espécie, e tantas mulheres os analisando e criteriosamente escolhendo aquele de maior potencial... E eu aqui, entediado, entediado até mesmo com Darwin!

Vejam bem, mulheres, não estou dizendo que todas as mulheres de Beyazit são prostitutas. Nesta rua mesmo, há apenas algumas. Os homens, por outro lado, são quase todos prostitutos... Eles se vendem para o próprio desejo desenfreado, em troca de um pouco de prazer. Eu atuava com maior refinamento e dignidade. Negociava com meu próprio desejo em prol de obter o maior prazer possível. O grande segredo de Casanova era este: “o desejo só é mantido vivo quando não é totalmente satisfeito”. Então, meu refinamento estava em me satisfazer aos poucos. Dizem que eram as mulheres que se apaixonavam perdidamente por mim, mas não: eu é que me apaixonava por elas, e as desejava ardentemente. Mas nunca satisfazia totalmente meu desejo, e era dessa forma que o mantinha vivo. Eu só poderia ser um grande amante, afinal, se as desejasse mais do que elas mesmo me desejavam.

E agora, nada, só o tédio... Não tenho mais desejo de nada, então como irei satisfazer uma mulher? As mulheres não são tão facilmente satisfeitas como os homens... Há homens que se satisfazem em copular com um corpo escultural. As mulheres, em sua maioria, percebem um pouco mais da alma. E eu, envelhecido, entediado, meio triste, não quero nem saber do que foi feito da escultura da minha alma a essa altura...

Preciso de um grande artista, um exímio escultor, ou ainda de um sábio restaurador. Meu amigo é tudo isto e muito mais. Casanova virou mito, mas aprendeu tudo o que sabe, ou quase tudo, deste homem árabe, que nunca precisou viajar pelos continentes para conhecer a alma dos homens e, sobretudo, das mulheres. Eu, é claro, fui por muito tempo um herege na arte do amor. Ele, pelo contrário, praticamente escreveu a bíblia de tal arte, não com uma pena ou caneta, mas com o próprio corpo e a própria alma e o olhar, o olhar!

Se um dia aprender a olhar como ele, me dou por satisfeito. Há homens que olham mulheres vestidas e as despem com o olhar. Ele não, ele veste as mulheres com o seu olhar, as preenche por todos os poros, e vira facilmente o centro de sua atenção. Caso queira, é claro... Nunca vou entender por que diabos se casou. Privar as mulheres de sua arte, concentrando-se sempre na mesma, é um desperdício, um grande egoísmo!

Se não satisfiz 100 mil, pelo menos que tenham sido mil. Ainda é melhor do que apenas uma. Ele escreveu a bíblia do amor, mas eu sou o seu grande apóstolo, o evangelizador! Eu trago a boa nova e a boa nova é um grande prazer, fugidio, mas que é genuíno... Melhor dar um pouco de prazer para mil do que muito prazer para somente uma. Além do que, o prazer nunca dura tanto afinal, do contrário não saberíamos distingui-lo das pequenas alegrias.

Eu entro pela porta apertada do cabaré. Quantos cabarés iguais não adentrei em minha existência! Os olhares mortos das prostitutas já cansadas, os olhares ainda mais entediados dos homens que se regozijam em se envolver com corpos sem que haja necessidade de se preocupar com as almas, as bebidas destiladas e a música de fundo... Tudo meio escuro e frio, com pinceladas de acinzentado aqui e ali, e uns poucos ainda iludidos querendo encontrar o amor de suas vidas neste tipo de ambiente. É tudo isto já uma lição de meu amigo, um lição merecida devo dizer, pois que não há como negar que eu mesmo já recorri a este tipo de ambiente muitas vezes, quando ainda não havia aprendido a refrear meu próprio desejo.

Lá está ele, com seu olhar de fogo. Se ele uma vez me ensinou a ser como as labaredas, terá de me curar, me transformar pelo fogo uma vez mais... Eu puxo uma cadeira e me sento à mesa. Olhando fundo na sua alma, pronuncio seu nome, quase como uma súplica:

“Asik, eu me desvirtuei, preciso novamente do seu aconselhamento”.


***

Esta foi a primeira parte de A educação de Casanova, por raph em 2013.
Veja a segunda parte

***

» Este conto também se encontra disponível para download gratuito, em e-book.


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20.3.13

De falos e orifícios

Os eclesiásticos parecem definitivamente ter dificuldades com a ideia de que nossos falos e orifícios precisam entrar uns nos outros; e, principalmente, que esta dança sexual possa, ao mesmo tempo em que gera vida, nos dar grande prazer.

Em algum canto da antiguidade, em alguma interpretação apressada de Platão, entendeu-se, sabe-se lá como ou porque, que “o sexo era sujo”. Isto, pois o corpo humano era precário, perecível, sempre sujeito a morte. Apenas a alma era “limpa”, imperecível, imortal, e deveria ser nossa grande preocupação mantê-la “tão pura quanto possível”, tão distante dos “prazeres carnais” quanto fosse necessário.

Hoje a virgindade de Maria, a mãe de Jesus, é um dogma da Igreja Católica Apostólica Romana. Isto não quer dizer que os primeiros cristãos tenham acreditado automaticamente que Maria “engravidou do Espírito Santo”, mas sim que a discussão já “se esvaziou” – Que nenhum teólogo deveria continuar perdendo seu tempo com ela.

Muitos não sabem, mas diversos dogmas do cristianismo foram exaustivamente discutidos e, dessa forma, elaborados nos primeiros séculos após a morte e ressurreição do Cristo (pois muitos não constam na bíblia, ao menos não numa descrição direta). Orígenes (nascido em 185), por exemplo, duvidava que Cristo fosse Deus, e também que “um Deus de amor e misericórdia pudesse permitir que um de seus filhos sofresse num inferno eterno”. Já Ário de Alexandria, pouco menos de um século depois, concordava com Orígenes quanto a distinção entre Cristo e Deus, além de simplesmente não compreender o que diabos era exatamente a tal “trindade perfeita”.

Somente em 325, no Concílio de Nicéia, as ideias de Ário (arianismo) e Orígenes foram consideradas heréticas, ou seja: “erradas”. O próprio Agostinho de Hipona, que nasceu décadas após o Concílio, estabeleceu as bases atuais do dogma do Pecado Original [1] – Somente muitos séculos, portanto, após Jesus haver pregado na Galileia. Agostinho foi admirador do neoplatonismo e do maniqueísmo, e embora não admitidamente (no caso do maniqueísmo), ambas as doutrinas, através dele, exerceram profunda influência sobre o cristianismo que se seguiu.

Ora, e se Mani (fundador do maniqueísmo) exerceu alguma influência em Agostinho, certamente esta influência até hoje é percebida no cristianismo. Mani considerava Zoroastro (profeta persa, fundador do zoroastrismo), Buda e Jesus “pais da Justiça”, e pretendia sistematizar suas mensagens individuais numa doutrina de “verdade completa”. E o que o cristianismo herdou de Mani, através de Agostinho, foi exatamente a ideia central do zoroastrismo: que existe uma guerra semieterna entre um “deus bom” e um “deus mau” [2].

O problema é que não termina aí: Mani calhou de chegar a conclusão de que a matéria era “intrinsecamente má”, e a alma, “pura e boa”. Ainda hoje acusam Platão por ter “inserido” esta ideia equivocada no cristianismo, mas mesmo esta concepção é apressada e superficial [3]: se houve culpa de alguém, além dos próprios cristãos da época, que se abstiveram de debater o assunto por mais tempo, esta culpa recaí mais decisivamente no inconsciente de Agostinho – em suas memórias da época em que seguia a doutrina de Mani e, principalmente, em seu vastamente documentado arrependimento da antiga vida boêmia (e sexual).

Estou aqui a condenar Agostinho? Claro que não. Este grande sábio da antiguidade deixou-nos inumeráveis passagens de grande teor filosófico [4]. Porém, na questão do Pecado Original, simplesmente lamento profundamente as conclusões a que chegou...

Afinal, se o ato de comer uma maçã proibida pode ser responsável pela condenação do sexo as trevas, pela eternidade, fica muito difícil saber onde a razão se escondeu nesta teoria. Poderia me estender aqui sobre o assunto de Adão, Eva e a Serpente, mas já falei sobre isso noutros artigos [5], e gostaria ainda de retornar ao problema dos falos e orifícios.

Ora, fica evidente que a Imaculada Conceição é um dogma que se esvaziou dos significados simbólicos dos mitos ainda mais antigos [6], e se revestiu de um supremo puritanismo que pretende “salvar” Maria do ato sexual – como se este fosse alguma coisa relacionada ao “deus mau” do maniqueísmo.

Mas Maria não precisa ser “salva” de nenhum Pecado Original. O sexo não é uma espécie de doença contagiosa, e ninguém se torna “impuro” por praticá-lo. O que nos torna impuros, o que realmente mancha nossas almas, é a ignorância, a intolerância, a falta de empatia, a brutalidade do pensamento ou, para resumir, o próprio “afastamento de Deus”.

Alguém já definiu o puritano como “aquele que se escandaliza ante o fato de que alguém, nalgum lugar, pode estar tendo prazer”. Muitas das vezes, os puritanos são sujeitos altamente sexuais, mas que se viram obrigados a varrer toda sua sexualidade para debaixo do tapete da consciência. Não fosse assim, como seria possível haver tantos eclesiásticos praticando os atos sexuais mais desajustados, quando defendem exatamente o oposto disto? É isto o que ocorre quando “fingimos eliminar nosso lado animal com dogmas e orações”. É este, afinal, o grande pecado: recusar-se a admitir que somos humanos, demasiadamente humanos.

Intrinsecamente, não há problema algum em darmos algumas aberturas para nosso lado animal. Não fosse por isto, pelo que Schopenhauer chamou de “a força da vida” (antecipando em muitas décadas os psicólogos evolutivos), sequer estaríamos aqui para contar a história da espécie. E o sexo, de todo tipo – heterossexual, homossexual, bissexual –, é perfeitamente natural, se encontra na Natureza (e, se vocês tem alguma dúvida, pesquisem por “bonobos” no Google [7]).

Aliás, é melhor, muito melhor, darmos alguma abertura a fera sexual que nos habita, ainda que de vez em quando, do que fingir que ela não está lá, ou pior, acreditar que ela pode ser afastada com orações repetidas da boca para fora, que não passaram pela profundidade da alma.

Pois todo aquele que conhece a alma sabe que, de fato, o sexo é bom, e tem sido bom a incontáveis vidas... Mas sabe também que há algo ainda melhor, uma espécie de gnose deste mistério, um entreolhar da “força da vida”, que anseia por si mesma, mais e mais. Um fogo que arde sem se ver, e que não se apaga nunca, mas pelo contrário: queima cada vez mais alto e forte.

Que há muitos ignorantes que condenaram o sexo as trevas, mas que ao puni-lo com violência e intolerância, praticam pecados no mínimo muito piores do que qualquer promiscuidade envolvida no ato sexual...

Mas aqueles que se largaram no fogo da alma, e queimaram seu antigo corpo, sua antiga ignorância, renasceram junto ao Cristo, e desvendaram enfim o que Zoroastro quis dizer:

Não é o sexo que é mau. Não é o corpo que é mau. Não é a matéria que é má. A maldade reside na alma, e nos olhos, de quem vê... E que é a maldade, senão a suprema ignorância da Natureza?

***

[1] Um contemporâneo de Agostinho, monge ascético (e que jamais foi boêmio), chamado Pelágio, combateu veementemente o dogma do Pecado Original, mas foi considerado herege pelo bispo de Roma.

[2] Isto é, claro, segundo uma concepção altamente superficial do zoroastrismo. Infelizmente, no entanto, ainda que inconscientemente, Agostinho foi influenciado por tal pensamento, e ele se encontra até hoje no cristianismo (basta ter olhos para ver).

[3] Ver O mito da caverna comentado.

[4] Foi, por exemplo, o primeiro a analisar o aspecto psicológico do tempo de forma aprofundada (ao menos, no Ocidente).

[5] Ver Serpentes.

[6] Os mitos sobre filhos gerados por mulheres virgens são numerosos, constituindo uma ideia corrente já muito antes do cristianismo. Mesmo no Oriente, 2 mil ou 3 mil anos antes de Cristo, entidades mitológicas e fundadores de religiões eram considerados “filhos de mães virgens e puras”. Esta virgindade, no entanto, não necessariamente vinha associada de uma “condenação ao ato sexual”. Era, muitas vezes, apenas uma metáfora para “uma divindade que gerou a si mesma”.

[7] Ver 3 chimpanzés.

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Crédito da foto: Wikimedia Commons (Templo de Lakshana, Índia)

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5.2.13

Silas Malafaia, Eli Vieira e o "gene da homossexualidade"

Normalmente não me envolvo muito com "polêmicas de última hora" nas redes sociais, mas esta em específico merece uma reflexão mais aprofundada...

O que me preocupa nesta história da entrevista do pastor Silas Malafaia para a Marília Gabriela, e na (em boa parte brilhante) resposta do geneticista Eli Vieira a polêmica da "influência genética na homossexualidade", é que sabemos hoje que não há "gene da homossexualidade", e que pode ser muito perigoso crer que exista um. Vamos refletir um pouco:

(a) A hipótese da influência genética decisiva em qualquer tipo de comportamento humano, ainda que sexual, não é conclusiva e tampouco decisiva. Talvez um dia encontrem uma associação direta e decisiva entre algum gene ou grupo de genes e um tipo de comportamento, mas este dia ainda não chegou [1]...

(b) Crer que exista um gene assim nos força a considerar a hipótese de que há outros genes do tipo. Por exemplo, vamos citar um trecho do livro "Evolução em quatro dimensões", de Eva Jablonka e Marion J. Lamb (Companhia das Letras):

"O livro A natural history of rape [Uma história natural do estupro], de Thornhill e Palmer, é um exemplo perfeito desse gênero [de suposta determinação genética decisiva].
Eles não afirmam não ser possível sobrepujar a manifestação de um comportamento como a propensão ao estupro, mas sugerem que isso é muito difícil por se tratar de um comportamento embutido num módulo mental que evoluiu. Nem é preciso dizer que não existe nem sombra de evidências para essas alegações evolutivas. São apenas histórias inventadas".

Entenderam o problema? (Obs: as autoras também são geneticistas brilhantes).

(c) Genes não são como deuses, astros ou orixás, que supostamente influenciam nossa personalidade. Não são, mas é exatamente assim que alguns dos "adoradores da ciência" os veem (e ainda criticam os astrólogos).

(d) Os homossexuais não tem de se "desculpar" por sua homossexualidade. Não tem de explicar que "são assim porque nasceram com um gene alterado", etc. Homossexualidade não é doença, mas algo perfeitamente natural. Se não acredita em mim, lhe dou duas palavras-chave para pesquisar online: "bonobos" e "homossexualidade na Grécia antiga" (Obs: alguns dos homens mais sábios da humanidade viveram na Grécia antiga).

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[1] E, admito: torço mesmo para que nunca chegue. Se chegar, o próximo passo será a "terapia genética para dar fim ao mal da homossexualidade", ou vocês acreditam que não?

Vejam também:

» 3 chimpanzés (também sobre os bonobos)
» Levítico: pedras não faltarão

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Crédito da imagem: Divulgação (Silas Malafaia e Eli Vieira)

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