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8.1.09

Um dragão na minha garagem

"– Um dragão que cospe fogo pelas ventas vive na minha garagem.

Suponhamos (estou seguindo uma abordagem de terapia de grupo proposta pelo psicólogo Richard Franklin) que eu lhe faça seriamente essa afirmação. Com certeza você iria querer verificá-la, ver por si mesmo. São inumeráveis as histórias de dragões no decorrer dos séculos, mas não há evidências reais. Que oportunidade!

Mostre-me – você diz. Eu o levo até a minha garagem. Você olha para dentro e vê uma escada de mão, latas de tinta vazias, um velho triciclo, mas nada de dragão.

Onde está o dragão? - você pergunta.

Oh, está ali – respondo, acenando vagamente. – Esqueci de lhe dizer que é um dragão invisível.

Você propõe espalhar farinha no chão da garagem para tornar visíveis as pegadas do dragão.

Boa idéia – digo eu –, mas esse dragão flutua no ar.

Então você quer usar um sensor infravermelho para detectar o fogo invisível.

Boa idéia, mas o fogo invisível é também desprovido de calor.

Você quer borrifar o dragão com tinta para tomá-lo visível.

Boa idéia, só que é um dragão incorpóreo e a tinta não vai aderir.

E assim por diante. Eu me oponho a todo teste físico que você propõe com uma explicação especial de por que não vai funcionar.

Ora, qual é a diferença entre um dragão invisível, incorpóreo, flutuante, que cospe fogo atérmico, e um dragão inexistente? Se não há como refutar a minha afirmação, se nenhum experimento concebível vale contra ela, o que significa dizer que o meu dragão existe? A sua incapacidade de invalidar a minha hipótese não é absolutamente a mesma coisa que provar a veracidade dela. Alegações que não podem ser testadas, afirmações imunes a refutações não possuem caráter verídico, seja qual for o valor que possam ter por nos inspirar ou estimular nosso sentimento de admiração. O que estou pedindo a você é tão-somente que, em face da ausência de evidências, acredite na minha palavra."

Carl Sagan - O Mundo Assombrado Pelos Demônios

***

Esse pequeno (e genial) jogo de palavras e significados resume quase perfeitamente a essência do pensamento cético. Muitos religiosos (e anti-religiosos) tem uma percepção errônea do ceticismo. Ceticismo não é simplesmente não acreditar em nada que não faça sentido em nossa realidade (a Física Quântica decerto faz muito menos sentido do que grande parte das teorias espiritualistas), mas sim só considerar aquilo que tem a possibilidade de ser comprovado.

Obviamente que as teorias para a existência do espírito tem sido classificadas como absurdas devido a imensa quantidade de fraudes que já foram verificadas ao longos dos anos. No entanto, poucos céticos se arriscam a tentar explicar o que não foi comprovado como fraude ainda, muito embora a ciência não explique. É tudo uma questão de compreensão de como as pessoas pensam, não podemos desmerecer os céticos que relutam em considerar teorias que para eles não tem a mínima conexão com sua realidade, mas também não podemos julgar os defensores de teorias espiritualistas como mistificadores e charlatões de antemão, mesmo porque a maioria deles não busca qualquer espécie de lucro em suas pesquisas; Buscam tão somente o mesmo que quase todos nós: compreender a Natureza.

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1 comentários:

Blogger Ben Oliveira disse...

Muito boa a postagem, um assunto bem interessante.

23/8/09 22:33  

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