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6.9.22

A origem do universo, com o Boteco Mayhem

Por que a noite é escura? Para responder a esta pergunta, eu e os outros participantes do Bate-papo Mayhem fizemos uma jornada até o início de tudo, num episódio cheio de ciência, mitologia e espiritualidade. Assista abaixo:

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11.7.18

Os 10 melhores livros sagrados (Reflexões no YouTube)

Para comemorar o décimo episódio de REFLEXÕES, trago minha singela lista com os dez maiores, melhores e mais importantes livros sagrados da história da humanidade até aqui (na minha humilde opinião é claro). Desde o "Cosmos" de Sagan ao "Bhagavad Gita", iremos transitar por filosofia, religião, espiritualidade e ciência, sempre em busca da experiência com o Sagrado, ou Natureza, ou Substância, ou Tao... bem, você entendeu!

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


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23.2.18

O que é Deus pra você?

Após ter acompanhado seu nascimento e crescimento desde o início, é com muita honra que hoje prosseguimos com a parceria deste blog com o canal Conhecimentos da Humanidade no YouTube, apresentado por Bruno Lanaro e Leo Lousada.

Neste roteiro, trouxe de volta um antigo artigo sobre as muitas formas de crença ou descrença em Deus ou nos deuses, e acredito que o resultado final tenha ficado muito bom. Logo nas primeiras horas, o vídeo chegou a uma centena de comentários, não deixe de dar o seu também. Afinal, o que é Deus pra você?

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23.5.16

Poeira de estrelas

Apresentado em Agosto de 2015 — porém, com pouca divulgação —, o curta-metragem Star Stuff (Poeira de estrelas), dirigido por Ratimir Rakuljic, retrata em filme o que Carl Sagan relatou em seus livros: o início de sua admirável paixão pela ciência, quando descobriu que os pontos que via no céu à noite eram sóis como o nosso — só que muito mais distantes —, e que esses sóis distantes poderiam conter centenas de milhares de mundos como o nosso, com vida se perguntando acerca do que seriam as estrelas, assim como nós.

Apesar de simples, o curta acerta ao retratar um Sagan jovem e imensamente curioso. Aliás, a curiosidade talvez tenha sido a sua principal qualidade: curiosidade não somente acerca do que ele mesmo veio a considerar e acreditar, mas também sobre o que os demais seres humanos acreditavam (ainda que ele mesmo não compartilhasse da crença).

Já falamos muito de Sagan aqui no blog, e alguns devem saber que ele é o nosso "cientista padroeiro"... Pois Sagan falava de ciência e filosofia e espiritualidade com a mesma desenvoltura, e embora fosse obviamente um entusiasta da racionalidade e do ceticismo, fato é que também soube preencher os seus livros, documentários e filmes com a paixão própria de quem não tem medo do que é "espiritual":

“Espírito” vem da palavra latina que significa “respirar”. O que respiramos é o ar, que é certamente matéria, por mais fina que seja. Apesar do uso em contrário, não há na palavra “espiritual” nenhuma inferência necessária de que estamos falando de algo que não seja matéria (inclusive aquela de que é feito o cérebro), ou de algo que esteja fora do domínio da ciência. De vez em quando, sinto-me livre para empregar a palavra. A ciência não é só compatível com a espiritualidade; é uma profunda fonte de espiritualidade. Quando reconhecemos nosso lugar na imensidão de anos-luz e no transcorrer das eras, quando compreendemos a complexidade, a beleza e a sutileza da vida, então o sentimento sublime, misto de júbilo e humildade, é certamente espiritual. Como também são espirituais as nossas emoções diante da grande arte, música ou literatura, ou de atos de coragem altruísta exemplar como os de Mahatma Gandhi ou Martin Luther King. A noção de que a ciência e a espiritualidade são de alguma maneira mutuamente exclusivas presta um desserviço a ambas. (trecho de O mundo assombrado pelos demônios)

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Crédito da imagem: Star Stuff/Divulgação

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19.2.16

Tudo ou nada

Um cientista diz que o universo surgiu do nada. Para ele, isto quer dizer que não há um Criador, nem espíritos nem almas, e boa parte ou mesmo a totalidade do que classificamos como espiritualidade não passa de mera fantasia provocada por algum estranho tilintar de neurônios em nosso cérebro. "Assim", diz o cientista, "estou defendendo a racionalidade e me valendo do ceticismo".

Ora, se formos na origem da etimologia de tais termos, descobriremos que a racionalidade implica em ser sensato e sempre questionar suas próprias crenças, buscando razões razoáveis para crer, ou continuar a crer, no que quer que seja. Some-se a isso o ceticismo, que filosoficamente implica em exaltar a dúvida e evitar as certezas, e temos efetivamente um manual prático contra todo e qualquer dogma, assim como todas as pressuposições ilógicas que encontramos por aí, ainda que venha da boca de um cientista.

Um cientista diz que o universo surgiu do nada. Ainda que seja amparado por "estudos", e ainda que ele se diga "cético e racional", não seria nem racional nem cético de nossa parte crer no que ele afirma sem questionar... E, questionando, poderíamos começar pela pergunta, "O que é o nada? Você pode defini-lo? Você já o observou, ou detectou com instrumentos? Você sabe como, quando e onde ele existiu? Será que poderá voltar a existir um dia?".

Se formos usar novamente a etimologia, descobriremos que, no frigir dos ovos, o "nada" é um termo que se refere a algo que não somente não existe, como não pode ser definido, nunca pôde, e jamais poderá. O "nada" não é o vácuo cósmico, que mesmo sem nenhuma espécie de matéria, nem nenhum átomo passageiro, ainda é preenchido por campos gravitacionais, radiação, flutuações quânticas etc. O "nada" não é o vazio, pois ainda que houvesse algum canto deste universo perfeitamente vazio, a própria qualidade do vazio implica em "algo a ser preenchido", o que evidentemente não é o "nada". O "nada" não é algum estado de consciência, alguma espécie de metáfora para a morte, nem mesmo para o nirvana. Ainda que muitas pessoas e doutrinas usem o "nada" para se referir a alguma outra coisa, fato é que, pela lógica mais pura e cristalina, o "nada" não pode existir, nem neste momento, nem em qualquer momento do passado ou do futuro. Tampouco ajuda usar o "nada" entre aspas, pois "nada" e nada também continuam sendo somente palavras.

Dizem que Deus também é somente uma palavra. No entanto, neste caso, ainda que seja uma palavra que se refere a algo que transcende a própria linguagem, e que não pode ser definido pelo uso das palavras, fato é que Deus tem uma qualidade essencial que o difere do nada: o primeiro definitivamente existe, enquanto o último definitivamente não existe. De fato, esta é a única certeza da filosofia e do ceticismo filosófico: existe algo, e não nada. Seja o que for este "algo", seja que nome queiramos dar a ele, "Deus" ou "Tudo" ou "Natureza" ou "Absoluto" etc., fato é que ele existe.

Carl Sagan foi um ardoroso defensor da ciência, da racionalidade e do ceticismo. Apesar de ele não crer num Criador conforme descrito nos manuais de verdades absolutas, ele não foi ateu, e sim agnóstico. Ou, como ele mesmo disse um dia, "Um ateu tem que saber muito mais do que eu sei. Um ateu é alguém que sabe que não existe um Deus". Sagan não tinha tanta certeza de que Deus, ou algo análogo a esta ideia transcendente, não existe. Em seu monumental Contato, inclusive, ele chega a postular que um suposto Criador poderia ter incluído na própria matemática mensagens cifradas que poderiam indicar sua existência. Tudo ficção, é claro, mas quem disse que a ficção não existe? A ficção definitivamente também é algo, e não nada.

Já Neil deGrasse Tyson, o cientista que encontrou com Sagan quando jovem, e que o considera um ídolo, tampouco acredita dispor de informações suficientes para abraçar o ateísmo e abandonar o ceticismo. Conforme ele confessa, "Eu não consigo me reunir e falar com todos numa sala sobre o quanto não acreditamos em Deus. Apenas não tenho energia para isso". O único "ista" pelo qual Tyson deseja ser reconhecido é o "cientista". Tyson definitivamente não é daqueles que tem certeza de que algo surgiu do nada.

Segundo Terence McKenna, a ciência moderna se baseia num princípio: dê-nos um milagre espontâneo e a gente explica o resto. Atualmente este "milagre" se chama Big Bang, e é a teoria mais aceita para o início do espaço-tempo, isto é, do universo onde vivemos. Talvez, quem saiba, existam muitos outros universos, mas isso também faz parte da especulação científica, e não pode sequer ser testado, quiçá comprovado. Então, o que resta? Uma teoria extremamente embasada em dados e observações sobre tudo o que ocorreu desde que o universo surgiu, sabe-se lá de onde, do quê, e em qual tempo.

Toda essa questão da Criação e do sentido da existência é o que tem angustiado mentes filosóficas e questionadoras desde o advento da história humana, provavelmente até mesmo antes da invenção da linguagem. Tudo ou nada, Deus existente e definido ou não existente e indefinido, tudo ter um sentido, nada ter um sentido: todas essas conclusões apressadas nada mais são do que os dois lado da mesma moeda, e esta moeda se chama "a acomodação ante o fim da angústia".

Ora, e tanto ateus quanto crentes encontram sua acomodação em dogmas: "existe", "não existe". Tanto faz, os questionamentos cessam da mesma forma, e a vida "fica resolvida". Mas os filósofos não querem ter esta vida resolvida, eles se recusam a se acomodar ante a angústia da existência. Enfim, eles aprenderam a amar a dúvida, a conviver com ela a cada momento de suas vidas, e analisar esta vida sob um prisma de muitas possibilidades.

No fim das contas, nos prometeram os antigos, todos os paradoxos serão reconciliados. Podemos acreditar neles? Talvez não com a razão puramente objetiva, mas quem sabe com o uso da emoção amparada pela razão, com o diálogo com nossa própria intuição, com a contemplação de nosso mundo subjetivo, com o autoconhecimento, com o passo a passo rumo adentro, com a descoberta de terras ocultas, esquecidas dentro de nós mesmos...

Depois de muito tempo, e muitas vidas, acho que estou começando a compreender que todos os paradoxos já estavam reconciliados desde o início, desde nosso primeiro questionamento, desde que reconhecemos esta única certeza: existe algo, e não nada.

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Crédito da imagem: raph

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16.4.15

As maravilhas da vida

Entre os genuínos amantes da ciência e, sobretudo, da Natureza, é difícil encontrar algum que, já tendo assistido o Cosmos de Carl Sagan, não tenha se apaixonado a primeira vista...

A todos esses, a mera menção de uma frase, “o Cosmos é tudo o que é, ou foi, ou nalgum dia será”, dá um certo calafrio na alma, talvez porque seja precisamente lá, na alma, que a mensagem de Sagan nos tenha tocado da forma mais profunda.

Recentemente, Ann Druyan, viúva de Sagan e uma das redatoras do Cosmos, se juntou a National Geographic para produzir o novo Cosmos: Uma Odisseia no Espaço. No entanto, embora a série conte com o carisma de Neil deGrasse Tyson e todas as vantagens da tecnologia moderna, ainda assim não pode ser comparada ao original.

Também Morgan Freeman tem nos presenteado há alguns anos com o seu brilhante Grandes Mistérios do Universo, uma produção da Discovery Channel. Mas, mesmo tendo surpreendido a todos ao demonstrar que além de ser um ator monumental, é também um grande apresentador de divulgação científica, ainda assim, não é como Sagan...

Teria alguém, afinal, se aproximado da maestria de Sagan em 1980? Bem, eu não estaria escrevendo isso se não houvesse encontrado este cara:

Brian Cox é um inglês com pinta de Keanu Reeves. Não é para menos, apesar de parecer um cara perfeitamente normal, ele traz no seu currículo um doutorado em física de partículas, a participação, como tecladista, em ao menos duas bandas de pop rock, e o cargo de professor e pesquisador da Universidade de Manchester. Vocês devem imaginar que sujeitos com doutorado em física já não são lá tão normais, somando a isso o fato de ter iniciado a carreira como músico de uma banda de rock, bem, temos no mínimo uma mistura interessante não?

Mas o que o aproxima definitivamente de Sagan é simplesmente a sua paixão pela Natureza. Paixão essa que parece ter descoberto exatamente no Cosmos, mas que soube nos apresentar noutro formato. De fato, o professor Cox nunca pretendeu igualar Sagan, mas em suas escaladas de montanhas, em seus mergulhos no oceano, em suas explorações de cavernas e florestas tropicais, talvez tenha ido até mesmo além do mestre. É para isso que os mestres existem, afinal...

Com vocês, os 5 episódios de uma das séries que o professor Cox já apresentou para a BBC, Maravilhas da Vida [1]. O segundo episódio, em particular, é uma das conquistas mais extraordinárias da história da divulgação científica:


1. O que é a vida?
Neste episódio, Brian Cox visita o “Anel de Fogo”, no sudeste asiático. Numa região vulcânica, Brian explora a linha ténue que separa a vida da morte e coloca em xeque uma das questões mais antigas do mundo: o que é a vida? A resposta habitual remete para o sobrenatural, como é visível nas celebrações anuais do Dia dos Mortos nas terras altas das Filipinas. Brian propõe uma resposta alternativa ligada ao fluxo de energia que percorre o universo.


2. O universo em expansão
Em meio à rica história natural dos Estados Unidos, o professor Cox encontra criaturas surpreendentes que revelam como os sentidos evoluíram. Cada animal na Terra interage com o mundo de uma maneira diferente, usando um conjunto exclusivo de sentidos para detectar seu ambiente físico. A partir de organismos unicelulares para os seres sencientes, mais complexos. Brian acha que, ao longo de 3,8 bilhões anos, os sentidos têm impulsionado a vida em novas direções, nos levando a nossa própria curiosidade e inteligência.


3. Infinitas formas mais belas
O universo é quase totalmente desprovido de vida. A Terra, o planeta que chamamos de lar, parece desafiar as leis da física. Ela está repleta de vida de todas as cores, formas e tamanhos. Ninguém sabe ao certo quantas espécies diferentes estão vivas neste exato momento, o nosso melhor palpite é que seja perto de 8,7 milhões. Neste documentário, o professor Cox pergunta como, a partir de um cosmo sem vida governado pelas leis da física e da química, é possível que um planeta possa produzir tamanha maravilha.


4. O tamanho importa
Neste episódio, Brian viaja ao redor da Austrália para explorar a física do tamanho da vida. Começando com os maiores organismos do nosso planeta, de florestas de árvores gigantes de eucalipto, para os mares, nos levando até o gigante do oceano – o grande tubarão branco. A partir da segurança de uma gaiola de aço, Brian explica como os distintos contornos simplificados do grande tubarão branco foram moldadas pela física da água.


5. Nosso lar
Até onde sabemos, existe apenas um lugar no universo em que a vida conseguiu se originar: a Terra. Mas por quanto tempo esta resposta vai permanecer insatisfatoriamente conclusiva? Os astrônomos estão à beira de encontrar outros mundos semelhantes à Terra. O professor Cox pergunta o que é necessário para transformar um pequeno pedaço de rocha no espaço em um ambiente com vida.

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[1] Outras séries do mesmo apresentador que merecem menção: Maravilhas do Sistema Solar, Maravilhas do Universo e Universo Humano.

Crédito da imagem: Google Image Search/BBC/Divulgação (Brian Cox)

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29.7.14

Em casa no universo

O melhor que podemos fazer de nossa vida é empregá-la em alguma coisa mais duradoura que a própria vida.


A primeira vez em que ouvi falar do autor desta frase, William James, foi num livro póstumo de Carl Sagan, famoso astrofísico e divulgador de ciência do século XX. Ao organizar o livro com a transcrição de algumas palestras do marido já falecido, Ann Druyan o intitulou Variedades da experiência científica; segundo ela, como forma de homenagem a obra prima de James, Variedades da experiência religiosa.

Sagan admirava a definição de religião de James, “um sentimento de estar em casa no universo”, e a citou na conclusão de um de seus livros mais conhecidos, Pálido ponto azul. Mas as conexões entre Sagan e James não param por aí, ambos foram seres plenos de espiritualidade, e grandes investigadores do Cosmos. Talvez a diferença primordial entre o cientista e o psicólogo seja a de que o primeiro olhou, sobretudo, para as estrelas mais distantes, enquanto que o último tratou de desbravar os astros internos da mente e da alma humanas. Há espiritualidade suficiente em ambos os casos.

Apesar de ser considerado “um dos pais da psicologia moderna”, James costumava se sentir mais a vontade referindo-se a si mesmo como um filósofo. Embora a Academia se esforce para esquecer, foi também um grande estudioso da parapsicologia (de fato, pode-se dizer que foi um de seus fundadores) e, particularmente, do misticismo.

O seu Variedades da experiência religiosa é um estudo denso e profundo da mente e da alma de diversos místicos que passaram pelo seu olhar cuidadoso. Apesar de se encontrar muito longe dos costumeiros extremismos religiosos, focava suas pesquisas exatamente naqueles que passaram pelas experiências mais “radicais” no campo religioso, citando casos como os de São João da Cruz e Santa Teresa D’Ávila.

Mas, embora tratando dos astros internos, o seu método de estudo se aproximava tanto de um método científico, e suas análises eram tão profusas em racionalidade e lógica, que não é mesmo surpresa que Sagan tenha sido um de seus entusiastas, assim como alguns dos grandes intelectuais do século XX, entre eles Émile Durkheim, Edmund Husserl, Bertrand Russell e Ludwig Wittgenstein.

Já em sua época, na transição dos séculos XIX e XX, James se esforçava para combater o materialismo científico, não num sentido de menosprezar a ciência e o empirismo, mas antes num sentido de reconhecer que a experiência mística e religiosa é de fato algo real e profundamente impactante na vida dos seres, particularmente daqueles que realmente praticam a religião. Também em sua época, James já esboçava as bases do conceito de inconsciente, que ainda seriam aprofundadas por grandes sucessores, como Sigmund Freud e Carl Gustav Jung.

Em A Vontade de Crer, também a transcrição de uma de seus conferências, dirigida aos grêmios filosóficos de duas universidades americanas (Yale e Brown), James foca exclusivamente na defesa da importância da fé religiosa, e da crença em geral, como ferramentas vitais da mente para galgar grandes conquistas. De certa forma, se nunca ninguém houvesse acreditado em nada sem antes obter comprovação empírica, e se diante de grandes desafios todos os homens e mulheres se resignassem ante as perspectivas de fracasso, talvez nem houvesse uma civilização de pé.

É óbvio que a capacidade de crer, e mais profundamente, a vontade de crer, desempenham papéis vitais em nossas vidas, ainda que muitos não queiram admitir. Nem sempre, é claro, todas as crenças serão racionais. E quase sempre, igualmente, encontraremos aqueles que exploram as crenças alheias. Mas nada disto impede que existam seres que conseguem se observar, se compreender, e viajar dentro de si, e encontrar tesouros e mistérios grandiosos, imateriais, e além de qualquer descrição que possa ser dada somente por palavras.

James foi, afinal, um daqueles raros homens que soube transitar com igual destreza entre a Academia e o Templo, entre a racionalidade e a espiritualidade, entre o empirismo e a subjetividade. James estava, de fato, em casa no universo. Mas o seu universo não se resumia ao que residia lá fora. Ele sabia, pois também contemplou tal caminho, que haviam espaços infinitos, ou quase infinitos, também dentro de nós.

***

Texto escrito para o Epílogo de A Vontade de Crer, de William James, o próximo lançamento das Edições Textos para Reflexão. Este muito especial, por se tratar da primeira tradução da mais nova integrante de nossa equipe: Hipátia (pseudônimo de Kamila Janaina Pereira), também colaboradora do blog Queremos Querer.

Crédito da imagem: Google Image Search (William James)

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20.5.14

O encontro de Carl Sagan e Dalai Lama

Carl Sagan e Dalai Lama

Este vídeo – na verdade o vídeo de uma projeção – está em péssima qualidade, mas por se tratar de uma conversa entre dois seres plenos de espiritualidade, achei por bem trazer para cá...

Em 1991 o Dalai Lama, líder espiritual tibetano que foi obrigado a se exilar de sua terra natal devido a opressão do governo chinês, concedeu uma entrevista a Carl Sagan, provavelmente o maior divulgador de ciência do século XX, e que também sempre demonstrou interesse genuíno pela história das religiões – particularmente as orientais.

O que vemos no vídeo acima é, no entanto, apenas uma parte do diálogo, que transcrevo abaixo [as notas ao final são minhas]:


[Carl] Então deixe-me perguntar agora, se me permite, algumas perguntas sobre religião... O que acontece se a doutrina de uma religião, digamos o budismo, seja contrariada por algum achado, alguma descoberta na ciência, digamos, o que um crente no budismo faz nesse caso?

[Dalai] Para os budistas isso não é um problema. O próprio Buda deixou claro que o importante é a sua própria investigação. Você deve conhecer a realidade, não importa o que a escritura diz.

No caso de você encontrar uma contradição, em oposição a explicação das escrituras, então você deve confiar na descoberta em vez da escritura [1].

[Carl] Isso não é muito parecido com a ciência?

[Dalai] Sim, isso mesmo. Então eu acho que o conceito budista básico é que no início vale mais a pena permanecer cético [2]. Em seguida, realizar experimentos através de meios externos, bem como meios internos.

Se através da investigação as coisas se tornarem claras e convincentes, então é hora de aceitar ou acreditar [3]. Se, por meio da ciência, existir prova de que após a morte não há continuidade da mente humana, ou continuidade da vida; se isto for provado, então teoricamente falando, os budistas terão de aceitar isso [4].

[Carl] Então, o que isso faria com a doutrina da reencarnação?

[Dalai] Bem, eu não acho que, veja você, no que diz respeito à existência de uma continuidade da mente ou da vida após a morte... Esse conceito [a reencarnação], eu acho, tem mais razões coerentes.

Embora a aceitações desse tipo de teoria não consiga resolver todas as suas dúvidas, e não podem lhe dar a satisfação completa, ainda assim, tal teoria ainda é melhor do que a teoria da não-existência. Se não houver continuidade da vida, ou do ser, então a questão permanece: Qual a causa original de todas as galáxias, incluindo este planeta?

Por exemplo, há a Teoria do Big Bang... Tudo bem se foi assim que aconteceu, mas não importa... Então, por que aconteceu? [5] Então, ou você tem de aceitar que as coisas acontecem por acaso [6], sem uma causa específica, o que é desconfortável, pois várias perguntas permanecem; ou outra explicação seria [a existência de] um Criador.

Do ponto de vista budista, isso também não soa como resposta. Por que é que um Criador cria essas coisas? Mais perguntas permaneceriam...

[Carl] Então, você acredita em Deus?

[Dalai] Deus, no sentido de alguma realidade última – então sim, nós aceitamos isso. Mas Deus no sentido de um Criador todo-poderoso, os budistas não aceitam.

[Carl] Portanto, não há constatação concebível da ciência que faria você dizer que a doutrina budista está errada, ou que você não é mais um budista?

[Dalai] Eu acho que uma descoberta científica [realizada] através de cuidadosos experimentos, isto os budistas terão de aceitar de uma vez. Sem problemas.

Alguns cientistas, ou alguns budistas com mentalidade científica – como acho que deveríamos chamá-los –, dizem que não consideram o budismo como uma religião, mas sim uma ciência da mente. Às vezes eles chamam o budismo de uma ciência interior...

Assim, de acordo com a minha própria experiência, como resultado de me encontrar com cientistas – nos últimos anos tive muito contato com eles –, principalmente no campo da cosmologia, da neurobiologia, e também da física, principalmente no campo da mecânica quântica; e, claro, da psicologia – acho que nestes campos há muitos paralelos em comum.

Acho que nessas discussões que realizamos ao longo desses campos [7]... Eu como budista me beneficiei muito do que aprendi com suas descobertas. É muito útil para um budista [participar dessas conversas]. Ao mesmo tempo, alguns cientistas também mostram um interesse genuíno nas explicações budistas para os assuntos envolvidos.

E uma coisa é muito clara: No que diz respeito as ciências mentais, o budismo é altamente avançado.

***

[1] Reparem que o Dalai Lama fala em “nossa própria investigação”. Enquanto Sagan afirma que “alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias”, há muitos que se comprazem com o fato de muitas alegações espiritualistas não haverem (ainda) sido comprovadas em laboratório. Porém, a espiritualidade (e particularmente o budismo) vive de evidências extraordinárias, porém subjetivas. O máximo que conseguimos medir por aparelhos, até o momento, é o estado cerebral de monges budistas em meditação – e isto já é material para anos e anos de estudo. Sobre o tema, recomendo a leitura do livro O cérebro espiritual, do Dr. Mario Beauregard e Denise O’Leary (Ed. BestSeller).

[2] Eu pessoalmente estenderia este conselho a toda e qualquer prática espiritualista. Não há como se crer profundamente sem haver tido a experiência, é como “acreditar que a água do mar é salgada” porque se leu sobre isso nalgum livro... Mergulhar, e sentir o sal nos próprios lábios, é um outro nível de evidência – uma evidência que não se encontra em livros nem em experimentos científicos objetivos.

[3] Reparem como esta abordagem budista em nenhum momento procura “evangelizar” a própria crença, nem muito menos convencer ninguém de nada. O budismo, como ciência da mente, confia que cada um de nós – seres que possuem mentes – será capaz de, ao seu tempo, encontraras suas próprias evidências, e crer ou descrer por experiência própria. Isto nada tem a ver com evangelizações de crentes ou descrentes.

[4] Obviamente que, como Sagan gostava de dizer, “a ausência da evidência não é a evidência da ausência”, ou seja: é muito difícil comprovar objetivamente que algo não existe. No entanto, existem vários fenômenos “estranhos” que ocorrem em hospitais do mundo inteiro que parecem corroborar com uma ideia de continuidade da consciência durante o processo de morte. Sobre o tema, recomendo a leitura do livro O que acontece quando morremos, do Dr. Sam Parnia (Ed. Larousse).

[5] É precisamente esta abordagem que separa os espiritualistas dos cientistas mais céticos. Uma coisa é se perguntar, “Como funciona a gravidade, como ela afeta os corpos celestes?”, outra muito diferente é se perguntar, “Por que, afinal, existe a gravidade? Por que a Terra foi formada a partir da poeira estelar? Por que existe a vida?”.

[6] O que não é muito diferente de aceitar que não sabemos por que diabos elas acontecem, e desistimos de continuar tentando saber... É este o tal “desconforto” ao qual o Dalai Lama se refere. Talvez fosse mais honesto dizer, numa postura genuinamente agnóstica, “São tantas as variáveis em jogo que hoje o mistério do surgimento do espaço-tempo nos parece algo sem causa definida, pois é impossível conhecermos todas essas variáveis atualmente”. Segundo Immanuel Kant, tal mistério pode nunca ser totalmente solucionado...

[7] A visão preconceituosa de que os budistas ficam “meditando sem fazer nada isolados do restante do mundo” está um tanto distante da realidade. Se forem perguntar a um monge budista “o que ele faz além de meditar”, ficará um tanto surpreso com a sua agenda agitada – incluindo animadas discussões existenciais, científicas e filosóficas.

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Crédito da foto: Divulgação/Google Image Search (Carl Sagan e Dalai Lama)

Obrigado a Luc Anderssen por haver postado o vídeo legendado no YouTube

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6.12.12

A idade do ser, parte final

« continuando da parte 2

“Acorde! Recorde que você é um ser, que veio de uma estrela, que está em uma estrela, que irá para outra estrela. Pouse suave. Os mensageiros orientam” (Hermes Trimegisto)

A resposta de Buda

Em fevereiro de 1990, tendo completado sua missão primordial, foi enviado um comando a sonda espacial Voyager 1 para se virar e tirar fotografias dos planetas que havia visitado. A NASA havia feito uma compilação de cerca de 60 imagens, criando neste evento único um mosaico do Sistema Solar. Uma imagem que retornou da Voyager mostrava nosso planeta, a Terra, a 6,4 bilhões de quilômetros de distância, como um “pálido ponto azul” no meio da imensidão cósmica.

Foi precisamente tal imagem que inspirou Carl Sagan a nos trazer mais uma reflexão: “Olhem de novo para esse ponto. Isso é a nossa casa, isso somos nós. Nele, todos a quem ama, todos a quem conhece, qualquer um dos que escutamos falar, cada ser humano que existiu, viveu a sua vida aqui. O agregado da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religiões autênticas, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e colheitador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor de civilização, cada rei e camponês, cada casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada mestre de ética, cada político corrupto, cada superestrela, cada líder supremo, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu aí, num grão de pó suspenso num raio de sol”.

Perto do infinito do Cosmos, é difícil não nos sentirmos estranhamente humildes e espantados quando seguimos a luz de pensamentos como este. É difícil não contemplar o céu noturno, que ainda com toda a poluição ainda nos permite ver incontáveis estrelas, e não se indagar: “por que tudo isso?”.

Porque vir até este pálido ponto azul, tantas e tantas vezes, e a cada vez, reencenar alguma peça, escolher mais um tanto de máscaras, e com elas sermos novamente um ser, humano, vivendo uma vez mais uma vida humana, na idade humana. Para que?

A mesma mentalidade científica e racionalista que nos ajudou a criar de nossas mentes a tecnologia necessária para que fosse possível lançarmos sondas na imensidão espacial, e tirar fotos de nossa casa conforme vista a bilhões de quilômetros, esta mesma mentalidade não parece conviver muito bem com o “porque”, e então se foca no “como”. Para todos aqueles que têm asco da espiritualidade, a ideia de que tenhamos sido criados por alguma superinteligência é absurda, assim como a noção de que temos, por detrás das máscaras que formam nossa personalidade, alguma coisa oculta, preciosa, e que precisa ser mantida pura...

Conforme os antigos mitos foram mal interpretados e esquecidos, a sociedade moderna passou a reinventá-los noutro contexto. Dessa forma, o que já foi um espírito da natureza, um gnomo, um anjo ou arcanjo, hoje é um ser alienígena, algum santo sábio de outras eras, um bioengenheiro mágico que inseminou a espécie humana na Terra, e de vez em quando volta para fazer anotações científicas. Como se não bastasse tudo isso, há aqueles que esperam por uma nova Arca de Noé, desta vez uma nave espacial que virá salvar alguns escolhidos do final dos tempos terrenos.

Mas, estranho de pensar: e quem seriam os alienígenas, afinal, senão nós mesmos? A ciência atual ainda não chegou numa teoria consistente de como uma mistura de aminoácidos subitamente formou a primeira bactéria na Terra. Segundo muitos biólogos e astrobiólogos, ir do aminoácido inorgânico a bactéria orgânica é um passo consideravelmente mais complexo e misterioso do que ir da bactéria ao chimpanzé. Para muitos cientistas, a teoria da panspermia é a melhor teoria para explicar o surgimento da vida na Terra.

Segundo ela, boa parte ou mesmo a totalidade do tipo de matéria que possibilitou o surgimento das primeiras células vivas chegou a nós incrustada em asteroides que se chocaram com a Terra no período de centenas de milhões de anos após sua formação. Nós buscamos pelos alienígenas lá fora, mas de certa forma sempre fomos, nós mesmos, os próprios alienígenas: filhos das estrelas, parte dos elementos pesados que são somente formados, no universo conhecido, nas reações nucleares do núcleo dos sóis.

***

Dizem que o príncipe nepalês, Siddharta Gautama, alcançou a iluminação interior suprema, o nirvana, após meditar por 49 dias ao lado de uma árvore. Tinha então cerca de 35 anos, e após haver renascido em vida, dedicou o restante de seus dias a tentar ensinar aos outros em sua volta sobre aquilo que descobriu, a refletir a luz que havia descoberto dentro de si mesmo.

O que o Buda descobriu é algo que a ciência moderna já sabe há algum tempo: nada se cria [1], nada se perde, tudo se transforma. Assim sendo, não somente as coisas, como a própria matéria orgânica que forma nosso corpo, tudo que há é formado por substâncias impermanentes, não duradouras, em constante metamorfose e mutação. Mesmo o sofrimento e a alegria são impermanetes: a compreensão da impermanência está no cerne da doutrina budista.

Dizem também que o príncipe nepalês decidiu tornar-se um asceta após passear no entorno de seu palácio e ter encontrado um homem velho, outro doente, um corpo já em decomposição, e um asceta meditando. Por muito tempo tentou chegar à iluminação pelo ascetismo extremo, pela dissociação do mundo impermanente, mas por fim, após quase morrer de inanição, desistiu desta dissociação extrema [2] – e foi assim, no caminho do meio, que finalmente compreendeu. Todas aquelas máscaras que apertavam sua cabeça e coçavam seu nariz, todas elas nada mais eram do que poeira e fumaça, como o restante do mundo impermanente. Somente após retirar todas essas máscaras, após descascar todas as suas personalidades, ele encontrou algo lá dentro...

Mas o que o Buda encontrou, e compreendeu, dentro de si mesmo, talvez esteja além da linguagem, além da capacidade de se explicar por símbolos gramaticais. Tudo o que ele fez desde então, até o fim de sua vida, foi tentar servir como exemplo para os que estavam a sua volta. Não existia um manual de natação infalível, era preciso que cada um mergulhasse em si mesmo, e descobrisse. “Confiem em si mesmos, não dependam de mais ninguém. Fazei de vós mesmos uma luz” – Siddharta sabia!

***

Detrás de todas essas máscaras que usamos numa mesma vida, ou em vidas a fio, há o Jogador Mais Precioso. Tal Jogador pode ter, conosco, se aventurado no “mundo real”, ou no mundo de Azeroth. Mas, no fim, por mais que lhe digam que este é um mundo de ofícios de guerra, o Jogador sabe, sempre soube, que em realidade estamos aqui para um ofício de amor [3]: para desenvolver nossa potencialidade de amar, de nos conectar, de compreender, de nos religar a este Cosmos que nos abarca por todos os lados, desde sempre.

Para tal, devemos então deixar de sermos alienígenas em nossa própria terra, e explorar, com sondas mentais, o planeta da alma. E lá descobriremos o Mistério, o Monolito Posto de Pé, o Jogador, o Eu Sou. E então atingiremos o nirvana, e calaremos sobre ele – nosso amor será todo exemplo, todo incentivo, para que outros também mergulhem, para que outros também deixem de ser desconhecidos de si mesmos. E isto basta: terão chegado na idade do ser, a eterna idade.

Assim foi que, no fim do experimento, apenas o Buda soube da resposta certa: Sally, a garota que quer brincar, deve buscar sua bola em si mesma – fora, nada realmente permanece de pé.


“Se você não me achar em você, nunca me achará. Pois, tenho estado contigo, desde o começo de mim” (Rumi)

***

[1] Ver nota de Huberto Rohden sobre Crear e criar.

[2] Seja o que for que forme a nossa alma, também é parte da Substância Primeira.

[3] World of Lovecraft (mas não estou falando do Chutulhu, nem de algum provável filme ou game erótico).

Crédito das imagens: [topo] Voyager1/NASA (O pálido ponto azul: onde estamos hoje); [ao longo] Ram Bahadur Bomjon ("Buddha Boy")

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9.5.12

As lições da ciência

Quando eu debatia em comunidades online onde haviam embates homéricos entre céticos e espiritualistas, acabava por confundir a ambos quando tocava em assuntos científicos. Para os últimos, a ciência geralmente não despertava muito interesse, pois raramente a analisavam sob o ponto de vista espiritual; Para os primeiros, era tão estranho que um espiritualista estivesse citando Carl Sagan e Richard Feynman, que alguns pensavam se tratar de um cientista “brincando” de ser espiritualista – um “místico fake”. Obviamente, eles estavam mesmo confusos...

Podem nunca haver lhe contado na escola, mas nem sempre a espiritualidade esteve dissociada da ciência. Porém, nesta ciência de hoje, interpretada apenas como um conhecimento estritamente objetivo da realidade detectável, apenas um método sem nenhuma relação com qualquer espécie de ideologia ou filosofia, restou muito pouco da ciência antiga, a filosofia da Natureza, o conhecimento da physis.

Os sábios antigos chamavam Natureza à realidade primeira e fundamental de todas as coisas, a essência em torno da qual gira tudo o que é transitório: “A noite segue o dia. As estações do ano sucedem-se uma à outra. As plantas e os animais nascem, crescem e morrem. Diante desse espetáculo cotidiano da natureza, o homem manifesta sentimentos variados – medo, resignação, incompreensão, admiração e perplexidade. E são precisamente esses sentimentos que acabam por levá-lo à filosofia. O espanto inicial traduz-se em perguntas intrigantes: O que é essa physis, que apresenta tantas variações? Ela possui uma ordem ou é um caos sem nexo?”.

Eis que os cientistas nem sempre foram chamados de doutores. Também já atenderam por naturalistas, filósofos, sábios, alquimistas, astrólogos, druidas, ocultistas, etc. Portanto, imaginar que a vivência da ciência moderna deveria estar totalmente desconexa da espiritualidade é, antes de tudo, uma ignorância da história do pensamento humano. Uma ignorância de tantos e tantos que vieram antes de nós, e fizeram as mesmas perguntas ao céu noturno salpicado de estrelas. E, como o Cosmos não respondeu de volta tal qual um deus lendário, foram obrigados a arregaçar suas mangas e buscar pelas respostas eles mesmos. É precisamente da atitude desses cientistas – os de outrora e os de hoje – que podemos tirar preciosas lições:

A Natureza fala por si
Talvez a qualidade mais notável de todo verdadeiro cientista seja esse tal contentamento, esta real aceitação, este estoicismo perante o que a physis realmente é, e não o que gostaríamos que fosse. Feynman dizia que a imaginação da Natureza é muito, muito maior do que a nossa: ela jamais nos deixará relaxar. Sempre haverá, para o real buscador, mais uma galáxia oculta atrás de um grande conglomerado, mais uma partícula oculta nalgum nível de energia ainda indetectável pelo nosso mais avançado instrumento, mais uma lei natural oculta de nossa mais simples e elegante equação, mais um tanto do Cosmos que jamais alcançamos com nossa luz: não fomos capazes de ver sua escuridão antes que a luz fosse acesa.

Nós podemos estar errados
Outra lição é esta, tão simples, e tão essencial: podemos, sim, estar errados, e geralmente estamos. Os atomistas acreditavam que a matéria era feita de pequenas partes dos elementos que sustentavam todo o Cosmos – Hoje sabemos que átomos e quarks não são formados pelo fogo, ou a água, ou a terra, ou o ar [1]... Mas foram dos erros passados que vieram novos acertos; acertos esses que podem também se comprovar como erros no futuro. O que importa, portanto, é que hoje conhecemos um pouco mais da physis do que ontem, e amanhã conheceremos ainda um pouco mais do que hoje. Mas, decerto não existe um conhecimento infalível, uma verdade derradeira, ou pelo menos ainda estamos num nível de consciência muito distante dela. Admitir que podemos estar errados é o melhor caminho para que prossigamos adiante no fluxo deste rio sagrado, sem jamais ficarmos uma vez mais aprisionados, represados pelo dogma.

O conhecimento é uma conquista
Ainda que a Verdade pudesse realmente nos ser revelada em antigos livros escritos sob inspiração divina, não significa que tivemos a capacidade de interpretá-la. Ainda que a inspiração tenha sido uma ponte direta para os segredos mais ocultos do Cosmos, e ainda que a informação escrita tenha passada ilesa por séculos de guerras de interesses e traduções de cada época, ainda assim tudo o que temos são palavras, linguagem, símbolos de gramática que já provaram serem incapazes de traduzir tudo o que é sentido e experimentado em uma verdadeira experiência mística – por isso muitos grandes sábios jamais escreveram coisa alguma, pois eles sabiam que cascas de sentimento não fariam jus à sacralidade da experiência.
O conhecimento, portanto, é e sempre foi uma conquista. E muitos cientistas têm nos auxiliado em conhecer a physis de fora, mas nenhum, absolutamente nenhum deles, poderá realizar por nós uma conquista que foi profetizada e ofertada pelo próprio Deus: mergulhar em si mesma, isto apenas a própria alma poderá realizar.

De pé sobre o ombro de gigantes
Foi o próprio Isaac Newton quem confessou que se havia visto mais longe do que os demais, foi por ter estado em pé sobre o ombro dos gigantes de outrora. A beleza da ciência é que, desde que não tenha sido queimado por bárbaros ou eclesiásticos coléricos, seu conhecimento armazenado, em livros e outros artefatos, por toda a história da humanidade, está ainda situado nos alicerces da torre pela qual podemos observar o Cosmos cada vez mais de perto... Ao contrário do que disseram os supersticiosos, nenhum deus raivoso desceu dos céus para nos punir por nossa ousadia: continuaremos a construir torres de Babel e abrir tantas quantas foram às caixas de Pandora encontradas. Foi graças a Prometeu, que roubou o fogo dos deuses, que chegamos onde chegamos: ele foi apenas o primeiro gigante, o primeiro titã.
Mas, ao contrário do que o mito possa te levar a pensar, os deuses não se chatearam conosco – aquilo foi pura encenação. Puro teatro, para que pudéssemos assim, uns auxiliando aos outros, numa colaboração digna dos maiores exércitos do Céu, marchar para cada vez mais perto da montanha sagrada... E, quando lá chegarmos, quem sabe não possamos acender a pira do salão de Zeus, e realizarmos por lá uma grande festa – na qual mesmo os gigantes estarão convidados.

Não há elite
Na ciência genuína, todos tem a oportunidade de colaborar: não importa onde nasceram, sua cor de pele, seu sexo – desde que possam pensar, podem auxiliar nossa ciência.
Apesar de ainda haverem os “donos da verdade”, aqueles ignorantes que pensam poder determinar quem pode ou não pode falar em nome da ciência, a verdade é que não há elite na physis: assim como somente os peixes podem nos falar do mar profundo, somente os pássaros podem nos falar do céu, e os morcegos da escuridão das cavernas. Apenas assim, juntos, podemos ter alguma esperança de conhecer a Natureza sob todos os pontos de vista.

Até onde a luz pode chegar
Muitas das ideias mais místicas que fomos capazes de um dia conceber hoje estão sendo melhor desenvolvidas, e comprovadas, na cosmologia, e não mais na religião. Sabemos hoje que tudo o que há neste universo surgiu de uma singularidade, um ponto, um grão de milho que, nos primeiros momentos, englobava todo o espaço-tempo – e não havia nada “do lado de fora”, pois o tecido do espaço-tempo é tudo o que há. Sabemos também que a velocidade da luz tem um limite, e que provavelmente nada no universo o possa ultrapassar... A não ser o próprio tecido espaço-temporal, em seu berço de crescimento inflacionário, quando venceu a própria luz. Eis que, dessa forma, existem espaços deste universo que jamais poderão ser conhecidos, espaços onde nenhuma luz poderá um dia sair, ou chegar. Essa ideia de Infinito é suficientemente mística para você?

Poeira de estrelas
Ao observar o pequenino e pálido ponto azul, flutuando numa nuvem de gás sideral, parte de uma das fotos da sonda espacial Voyager I, Carl Sagan prontamente identificou: aquele ponto era a Terra, toda a Terra! Mas, a despeito da beleza de suas reflexões acerca desta imagem, há ainda algo mais belo e profundo sobre o que pensar: não apenas nosso planeta é apenas um grão de poeira na Via Láctea, nós mesmos somos formados por elementos pesados que só podem ser gerados nas fornalhas estelares. Nós somos, realmente, não somente os filhos das estrelas – nós somos formados por partes delas.
Atomicamente, somos formados pela mesma divina poeira que forma todas as outras substâncias cósmicas. Mergulhada no oceano, toda poeira é também uma parte do mar...

Conhecer a si mesmo
E foi exatamente aqui, este pequeno ponto azul em meio a escuridão infindável do oceano da noite, que despertamos pela primeira vez e dissemos: “nós aqui também existimos, também somos da raça dos deuses!”.
Não se sabe se existem outros como nós, mas provavelmente existem, e aos montes... Seja neste pequeno planeta, ou na infinidade de moradas da casa cósmica, nós parecemos ser um espécie de imagem espelhada, de semelhança, uma forma do Cosmos conhecer a si mesmo.
E, nesta tal aventura do conhecimento, nesta tal jornada para sondarmos a inconcebível natureza da Natureza, podemos navegar tanto acima quanto abaixo – tanto faz, uma parte é apenas o espelho da outra.


raph’12

***

[1] Pelo menos não da forma literal como tais elementos são compreendidos. Como símbolos, no entanto, foram, e ainda são, poderosos aliados para nossa compreensão da physis.

Crédito das imagens: [topo] APOD (telescópios em Atacama/Chile); [ao longo] APOD (lua cheia em Paris/França)

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13.4.12

Comentário: o que a ciência tem a ganhar com a espiritualidade?

Comentário das respostas da pergunta “o que a ciência tem a ganhar com a espiritualidade?”, parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori responderam a 7 perguntas sobre o tema. Para saber mais, leia a premissa da série.

[Raph] Primeiramente, é oportuno deixar claro: a pergunta “curta”, que serviu como título do post original (e deste comentário) deve ser analisada dentro do contexto em que foi colocada, considerando-se todos os 4 parágrafos – ou seja, a pergunta completa (“longa”). Estritamente falando, a ciência não têm absolutamente nada a ganhar, nem a perder, com a espiritualidade. Isto porque a ciência é tão somente o conhecimento da realidade detectável, um instrumento do pensar, com o qual analisamos os mecanismos da natureza. Embora possamos debater o que significou a palavra “ciência” em seus primórdios, acredito que hoje não há como fugir desse conceito moderno. A ciência não é, portanto, ideologia: não é teísta nem ateísta, materialista ou espiritualista, monista ou dualista, a ciência não é nem mesmo moral ou imoral. No entanto, os cientistas, eles sim, podem ser tudo isso... E é exatamente nesse contexto que eu coloquei a pergunta final, que talvez tivesse ficado melhor como “o que os cientistas têm a ganhar com a espiritualidade”, mas eu não queria separar os dois conceitos. Isto, pois, realmente existiram, e existem, grandes cientistas plenos de espiritualidade:

“O Cosmos é tudo o que é, ou foi, ou nalgum dia será. A nossa contemplação do Cosmos mexe conosco. Dá um calafrio na espinha, um bolo na voz. Uma sensação de desmaio, como uma lembrança distante de cair de uma grande altura. Sabemos que estamos abordando o maior de todos os mistérios... O tamanho e a idade do Cosmos estão além do entendimento humano comum. Perdido em algum lugar entre a imensidão e a eternidade está nosso minúsculo lar planetário, a Terra. Pela primeira vez temos o poder de decidir o destino de nosso planeta, e de nós mesmos. É um momento de grande perigo, mas a nossa espécie é jovem, curiosa e corajosa, e demonstra muito potencial... Nos últimos milênios nós fizemos as descobertas mais surpreendentes e inesperadas sobre o Cosmos e sobre o nosso lugar nele. Eu acredito que nosso futuro depende, e muito, de nós entendermos bem esse Cosmos, no qual flutuamos como um grão de poeira no céu matinal.

[...] Nós queremos perseguir a verdade, não importa onde ela nos leve. Mas, para achar a verdade, precisamos tanto de imaginação quanto de ceticismo. Não vamos ter medo de especular, mas vamos ter cuidado para distinguir a especulação do fato. O Cosmos é ilimitado de verdades elegantes, de inter-relacionamentos delicados do incrível mecanismo da natureza. A superfície da Terra é o litoral do oceano cósmico... Neste litoral, nós aprendemos a maior parte do que sabemos. Recentemente, aventuramo-nos um pouco pelo raso, talvez com água a cobrir-nos o tornozelo, e essa água nos pareceu convidativa. Alguma parte de nosso ser nos diz que essa é a nossa origem. Desejamos muito retornar, e podemos fazê-lo, pois o Cosmos também está dentro de nós. Somos feitos de matéria estelar, somos uma forma do próprio Cosmos conhecer a si mesmo”.

Assim, com esses dois parágrafos (eu pulei uma parte não tão importante), Carl Sagan, grande cientista e astrônomo americano, celebrado tanto por seu ceticismo quanto por seu humanismo, iniciou o primeiro capítulo da já lendária série de TV Cosmos, provavelmente o mais grandioso material em vídeo de divulgação científica, assim como um grande documentário acerca da história, da mitologia e das religiões humanas. Apesar de ter sido cético, agnóstico, e avesso às teorias espiritualistas em geral, Sagan jamais se absteve de estudar profundamente as religiões, a espiritualidade humana... E, em as tendo conhecido tão profundamente (ao menos na teoria, embora obviamente não na experiência religiosa em si), Sagan não somente as criticava com propriedade, onde era devido, como se abstinha de condenar a priori aos próprios religiosos. Sagan não era um simpatizante de religiosos por medo de sua ira (ou da “ira divina”), mas porque efetivamente os respeitava, apesar de discordar deles em inúmeros pontos.

***

Recentemente o Superior Tribunal Federal (STF) no Brasil votou publicamente acerca da proposta de lei que legaliza o aborto de fetos anencéfalos. O que era para ser um debate estritamente jurídico, e de interpretação da Constituição Federal, acabou ganhando as manchetes, como era de se esperar, como uma espécie de “embate feroz” entre eclesiásticos e antieclesiásticos, como se a decisão final fosse uma espécie de “vitória” para um ou ouro lado.

Uma rápida pesquisa online nos traz alguns pontos fundamentais da questão: anencéfalo não é um feto que nascerá sem cérebro, mas com a má formação do mesmo, muitas vezes decorrente de acrania, que é a má formação do crânio. Em muitos casos o anencéfalo nasce realmente sem cérebro algum, mas em tantos outros há um cérebro presente, embora mal formado. Em todo caso, a imensa maioria dos anencéfalos têm vida curta, de algumas horas ou minutos, isto quando já não nascem mortos. Apesar disso, em alguns casos raríssimos, alguns no Brasil, anencéfalos sobreviveram por 20 meses e até mais.

Esse tipo de debate é polêmico, mas necessário. Não há “saídas simples” para ele. O aborto de um anencéfalo é assassinato? Sim, sem dúvida. O risco de saúde que a gestação de um anencéfalo gera para a mãe vale o prolongamento da gestação natural, sem aborto? Se a mãe se sente ameaçada, e se não quer seguir com a gestação, provavelmente não. As mães que se comprometem a arriscar-se para parir um bebê que irá requerer cuidados especiais, e que provavelmente não irá sobreviver por muito tempo, são “loucas”? Claro que não, são dignas de palmas, na realidade. Porém, será que tais “mães santas” são a maioria, ou a esmagadora minoria?

Todas essas questões entraram na pauta, e não eram propriamente questões religiosas ou científicas, mas questões morais, questões que tangem a ética de toda uma sociedade. Por isso o debate é importante, para que tais decisões polêmicas não se restrinjam a dados técnicos de um cientista, mas que tampouco se restrinjam ao dogma de uma doutrina religiosa em vigor. Isso, pois o Estado pode até ser laico, mas nós não somos. A ciência pode ser amoral, mas os cientistas, e os não cientistas, jamais. Mesmo aqueles que não gostam de admitir sempre tomarão algum partido, mesmo que guardem para si, mesmo que se abstenham de opinar. Ou ainda mesmo que optem por simplesmente ignorar a questão – isso não seria amoralidade, mas talvez pura ignorância, pois queiramos ou não, somos animais sociais, e essas questões devem sim entrar em pauta, na nossa pauta.

Mas é então que a educação entra em questão. Um povo sem educação, sem conhecimento, terá enormes dificuldades em debater, em opinar, sobre o que ignoram e não sabem o mínimo (nem uma pesquisa online de 15 minutos). E, ao contrário do que muitos antieclesiásticos defendem, nem sempre a ignorância cabe apenas aos eclesiásticos, teoricamente os “pobres e de educação inferior”. É exatamente por isso que o radical eclesiástico que acusa um ministro do STF, que votou a favor da legalização, de ser “um assassino maldito”, não está muito distante da radical “feminista” e antieclesiástica que acusa os críticos da legalização de serem “ovelhas de uma doutrina religiosa machista que impede a mulher de ter liberdade total sobre o que faz ou deixa de fazer com seu próprio corpo”... Ora, ambos são ignorantes não somente das leis, da vida em sociedade, como da própria ciência, e da própria espiritualidade.

Pois uma das coisas que a ciência nos ensina é que devemos conhecer ao máximo o mecanismo da natureza, antes que possamos elaborar teorias acerca de como devemos ou não lidar com ela. E a espiritualidade, talvez acima de tudo, nos ensina a respeitar e considerar a opinião dos outros. Nesse caso, a opinião dos outros é o que ajuda a formar as próprias leis de nossa sociedade, pois não moramos sós neste país ou neste globo, e nem está escrito em lugar algum na natureza que uns são “mais especiais” do que outros. E, se algum Manual de Verdades Absolutas disse isso, há que se perguntar se não fomos nós que o interpretamos da maneira errada.

Muitas vezes, o eclesiástico radical que luta contra a legalização do aborto de anencéfalos é o mesmo que, muito naturalmente, recomenda um “bombardeio as cracolândias” para que nos livremos de uma vez dos “malditos viciados”. É preciso ter muito cuidado quando verificamos que, para alguém, uma alma têm um certo valor numa ocasião, e outro valor completamente diverso, noutra... Enfim, esperemos com fé que os moderados, os de bom senso, os amistosos, os amigáveis e amorosos, herdem esta terra.

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Como vários autores relatam benefícios com os tratamentos espirituais, é fundamental um melhor conhecimento dos mecanismos e eficácia das curas espirituais. Isso possibilitaria a adaptação das formas úteis como terapias complementares à medicina ocidental, bem como desencorajaria os procedimentos danosos ou inúteis. A discussão séria de um tema não requer que compartilhemos as crenças envolvidas, mas que tomemos suas implicações seriamente e não subestimemos as razões pelas quais tantas pessoas se envolvem. Nem a crença entusiasmada ou a descrença renitente ajudarão os pacientes ou o desenvolvimento da medicina. (Trecho do relatório final do estudo da Associação Médica Brasileira sobre as cirurgias espirituais do médium João de Deus)

“Espírito” vem da palavra latina que significa “respirar”. O que respiramos é o ar, que é certamente matéria, por mais fina que seja. Apesar do uso em contrário, não há na palavra “espiritual” nenhuma inferência necessária de que estamos falando de algo que não seja matéria (inclusive aquela de que é feito o cérebro), ou de algo que esteja fora do domínio da ciência. De vez em quando, sinto-me livre para empregar a palavra. A ciência não é só compatível com a espiritualidade; é uma profunda fonte de espiritualidade. Quando reconhecemos nosso lugar na imensidão de anos-luz e no transcorrer das eras, quando compreendemos a complexidade, a beleza e a sutileza da vida, então o sentimento sublime, misto de júbilo e humildade, é certamente espiritual. Como também são espirituais as nossas emoções diante da grande arte, música ou literatura, ou de atos de coragem altruísta exemplar como os de Mahatma Gandhi ou Martin Luther King. A noção de que a ciência e a espiritualidade são de alguma maneira mutuamente exclusivas presta um desserviço a ambas. (Carl Sagan, em O mundo assombrado pelos demônios)


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Crédito da imagem: Martin Puddy/Corbis

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23.2.12

Sagan Play

» Parte da série: Play a myth

Se o mito existe fora do tempo, há alguns raros artistas que souberam falar diretamente ao reino da alma. Suas obras influenciaram e sensibilizaram tantos de nós que, mesmo após o fim, tornaram-se mitos de si mesmos, habitando nosso imaginário. Que viver na memória daqueles que nos amam é viver como um ser imortal. E, se algumas velas foram apagadas pelo tempo, não há nada capaz de extinguir a lembrança perene de sua luminosidade...

Jogue, represente, interprete, brinque: play a myth.

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(clique na imagem para abrir em tamanho maior)

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Crédito da imagem: Rafael Arrais + Google Image Search

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16.12.11

Teísmos e ateísmos

Ao longo de vários anos participando e observando discussões filosóficas e religiosas, pude observar que, muitas e muitas vezes, as pessoas se digladiam muito mais por não conseguirem compreender o que a outra efetivamente pensa, do que por qualquer outro motivo mais importante. Usualmente, o que causa esse tipo de desentendimento é o fato de que alguns termos – particularmente os que englobam a crença ou descrença em um Criador – são compreendidos de maneiras diversas pelas pessoas.

Por exemplo, para alguns um ateu é alguém que afirma categoricamente que Deus não existe (seja quem ou o que for). Para outros – incluindo ateus – o ateísmo não chega a fazer tal afirmação. Para alguns atenienses Sócrates era ateu, embora ele estivesse um tanto longe disso, tanto que mais tarde sua filosofia influenciou decisivamente um grande teísta: Sto. Agostinho. Já Epicuro dizia não se preocupar com os afazeres dos deuses – e também foi taxado de ateu. Dizem que Einstein acreditava no “deus de Espinosa”, mas seria esse deus o mesmo deus do Antigo Testamento? Richard Dawkins deixa claro que não, e em seu polêmico Deus, um delírio se dedica a atacar apenas o deus bíblico, e não a concepção panteísta do Cosmos. Confuso, não?

Para tentar auxiliar em tantas definições, teísmos, ateísmos e outros “ismos”, elaborei um pequeno glossário de termos abaixo, que é propositadamente curto – e, obviamente, não tem a pretensão de esgotar o assunto, mas apenas de ajudar a resolver melhor alguns debates. Comece perguntando: “que tipo de ismo você segue exatamente, afinal?”, antes de ter certeza do que exatamente o outro crê ou não crê...

Teísmo
O teísmo, derivado do grego Théos (Deus), é a crença na existência de um ou mais deuses. No politeísmo acredita-se em diversos deuses, mas no henoteísmo, apesar de admitir-se a existência de um panteão, há também um Deus supremo, criador do Cosmos. No monoteísmo reduz-se a divindade a apenas um único ser supremo, usualmente taxando outros deuses de semideuses, divindades ou demônios (do grego daemon) – que em certas doutrinas também podem assumir o papel de intermediários entre os homens e o Deus supremo.
O teísmo filosoficamente deriva diretamente do antigo questionamento: “porque afinal existe algo, e não nada?” – Que por sua vez remete a crença em uma espécie de ser consciente (embora não necessariamente um velho barbudo ou um avatar profético) que arquitetou todo o Cosmos. Pode ser, talvez, resumido como “a crença em um Criador pessoal”.
A grande maioria dos teístas também compartilha a crença de que Deus não somente pode intervir diretamente (e, usualmente, de forma sobrenatural) nos eventos da existência humana, como também pode transmitir revelações e segredos cósmicos através de profetas, sonhos e experiências religiosas em geral.

Creem em uma causa primeira: sim.
Creem em um Criador pessoal: sim.
Creem em intervenções sobrenaturais: quase sempre sim.
Creem em revelações divinas e dogmas: sim.

Deísmo
O deísmo tem suas raízes nos antigos filósofos gregos e, sobretudo, na doutrina aristotélica da “primeira causa”. Voltou a florescer no Iluminismo, sobretudo através de Galileu, Newton, Voltaire e outros. No deísmo admite-se que o Cosmos não é obra do acaso, e que portanto deva existir um Criador. Porém, os deístas creem que é papel do homem se aproximar de Deus através da razão, e não o contrário. Em suma, os deístas negam as revelações divinas e têm uma concepção naturalista do Cosmos, usualmente negando também a possibilidade de intervenções sobrenaturais.
Os deístas creem em um relojoeiro que sabia enxergar muito bem, tão bem que arquitetou todo o Cosmos de forma magistral. Tão perfeita, que lhe é mesmo desnecessário intervenções específicas. Conforme disse uma vez Voltaire a uma senhorita: “Minha senhora, acredito em uma providência geral, mas não numa providência particular que salvou o seu pássaro que estava machucado”.

Creem em uma causa primeira: sim.
Creem em um Criador pessoal: geralmente sim.
Creem em intervenções sobrenaturais: quase sempre não.
Creem em revelações divinas e dogmas: não.

Panteísmo (ou “espinosismo”)
O panteísmo associa o conceito de Deus ao próprio Cosmos: a totalidade de todas as coisas no universo, na natureza. Einstein dizia que havia duas formas de se enxergar a vida: uma é pensar que não existem milagres, a outra é conceber tudo a sua volta como um milagre. Obviamente, Einstein queria dizer que as próprias leis naturais, a própria simetria e harmonia do Cosmos, eram em si mesmas um milagre persistente – ao menos para aqueles que tinham olhos para ver.
Essa concepção de Cosmos remonta novamente a Grécia antiga, sobretudo aos estoicos. E foi bebendo dessa fonte que Benedito Espinosa concebeu a Deus como “a substância que não pode criar a si mesma, mas que gerou tudo o mais a partir de si”. Esta é uma bela síntese para um questionamento ancestral, e exatamente por isso Espinosa é até hoje tão admirado (apesar de ter sido excomungado do judaísmo, sob a acusação curiosa de ateísmo).
Se no início de sua Ética Espinosa engendra o conceito de Deus de forma geométrica e precisa”, é preciso se aventurar no restante do livro para perceber que o filósofo holandês também acreditava que esse tal Deus era capaz de nos trazer profunda felicidade existencial, sobretudo quando alinhamos nossa intuição com a “vontade do Cosmos”. Era esse deslumbramento que Einstein sentia constantemente, ao desvelar os segredos da natureza.

Creem em uma causa primeira: sim.
Creem em um Criador pessoal: não.
Creem em intervenções sobrenaturais: não.
Creem em revelações divinas e dogmas: não.

Pandeísmo
O pandeísmo nasceu da fusão do panteísmo com o deísmo, e se trata de um concepção divina do Cosmos, que só pode ser compreendida através da razão.

Panenteísmo
O panenteísmo é um doutrina muito similar ao panteísmo, mas compreende que Deus é “o Cosmos e algo a mais”. Ou seja, que o universo está contido em Deus, mas Deus não se limita apenas ao universo.

Agnosticismo
Thomas Henry Huxley, um biólogo inglês, cunhou o termo “agnóstico” (do grego agnostos, “ausência do conhecimento”) em 1869, mas a essência do agnosticismo foi melhor desenvolvida pelo filósofo alemão Immanuel Kant. No agnosticismo, admite-se que a questão ancestral acerca da natureza exata da “primeira causa” não pode ser resolvida com base no conhecimento atual da humanidade, e talvez jamais venha a ser efetivamente solucionada. Geralmente isso significa apenas que os agnósticos se posicionam com ceticismo em relação à existência de Deus: não podem afirmar que existe, nem tampouco que não existe. Ou, como dizia Carl Sagan, um grande agnóstico: “a ausência da evidência não é a evidência da ausência”.
O agnosticismo possuí algumas vertentes interessantes: os fideístas creem que essa mesma questão da “primeira causa” realmente não pode ser resolvida pela razão, mas sim pela fé. Também é possível ser um agnóstico teísta – que crê em Deus, mas não crê que pode compreendê-lo; ou ainda, bem mais comum, um agnóstico ateísta – que não crê em Deus, embora tampouco afirme que não exista.
Se formos considerar a essência do ceticismo filosófico, para um cético só é mesmo possível ser um agnóstico, há menos que este cético tenha passado por experiências religiosas subjetivas, e que por conta delas tenha passado a crer em Deus.

Creem em uma causa primeira: geralmente sim, embora não saibam resolve-la.
Creem em um Criador pessoal: não (exceto no fideísmo).
Creem em intervenções sobrenaturais: não (exceto no fideísmo).
Creem em revelações divinas e dogmas: não (exceto no fideísmo).

Ateísmo
Em sua origem antiga, o ateísmo (do grego atheos, “ausência de Deus”) sempre foi um termo profundamente arraigado na religião, visto que usualmente significava a negação dos deuses e práticas religiosas locais. Claro que o ateísmo na antiguidade também poderia significar literalmente a descrença em todo e qualquer deus, mas esses casos eram muitíssimo raros. Mesmo grandes profetas e filósofos foram acusados de ateísmo, a despeito de sua óbvia crença em Deus ou em deuses, dentre eles contamos até mesmo Sócrates e Jesus Cristo.
Com o passar dos séculos e, sobretudo, com o aflorar das ciências naturais após o Iluminismo, o ateísmo em seu sentido de “descrença total em Deus” passou a ser cada vez mais comum. Teoricamente, aquele que se declara ateu na era moderna estará afirmando categoricamente que “não existe um Criador”, e também geralmente poderemos adicionar à afirmativa: “tampouco existe uma causa primeira com objetivo definido”. Ou seja, um ateu moderno não vê sentido ou desígnio divino no universo.
Mas esse tipo de definição do parágrafo acima não é compartilhado por todos, tampouco pelos próprios ateus – e há muitos ateus que se colocam, em realidade, como agnósticos, ou agnósticos ateístas (ver acima), apesar de se definirem “apenas como ateus”. Esse tipo de afirmação gera muitos desentendimentos, pois há muitos teístas e mesmo deístas que se sentem ultrajados com o fato de alguém se sentir na condição de afirmar que “não existe um Criador nem um sentido para a causa primeira” – muito embora nem sempre seja o que alguém que se autointitule ateu queira realmente dizer.
Em suma, há muitos agnósticos que gostam de se dizer ateus apenas para se colocarem ainda mais claramente em oposição às concepções teístas, sobretudo aquelas originárias das doutrinas dogmáticas.

Creem em uma causa primeira: por vezes sim, embora em todos os casos neguem um sentido ou desígnio divino no universo.
Creem em um Criador pessoal: não, e por vezes podem ter “certeza que não existe Criador algum”.
Creem em intervenções sobrenaturais: não.
Creem em revelações divinas e dogmas: não.

Antiteísmo
O antiteísmo (alguns chamam de neo ateísmo ou novo ateísmo) é uma vertente moderna do ateísmo que não se contenta em apenas se declarar ateísta, como critica veementemente o teísmo e, por vezes, atua de forma militante, tentando convencer as pessoas de que Deus não existe. Embora os antiteístas provavelmente entendam a si mesmos como “evangelizadores da ciência e do racionalismo”, eles na prática lembram muito mais uma versão distorcida dos próprios evangelizadores teístas.

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Observação (1): É preciso sempre lembrar que a ciência não é ideologia ou doutrina, não é materialista nem espiritualista, monista ou dualista, teísta ou ateísta. A ciência é tão somente o conhecimento da natureza detectável, e o estudo de seus mecanismos. Há muitos grandes cientistas da história que eram teístas, deístas, panteístas, etc.

Observação (2): Embora um teísta fundamentalista provavelmente me julgue um ateu, e um antiteísta radical provavelmente me julgue um teísta, eu na realidade estou situado mais ou menos entre o Panteísmo, o Deísmo e o Pandeísmo.

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Vídeo
Este artigo serviu de base para o roteiro do vídeo O que é Deus para você? no canal Conhecimentos da Humanidade do YouTube.

» Veja também o artigo Monismos e dualismos, que trata da natureza da mente

Crédito da foto: Brian David Stevens/Corbis

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