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28.11.23

Mas o que exatamente eu sou?

René Descartes foi um dos grandes pensadores modernos, tanto que é considerado por alguns como “o fundador da filosofia moderna”, e por outros como “o pai da matemática moderna”. E, de fato, ele foi tão ou mais importante para a ciência e a matemática quanto o foi para a filosofia em si. Entretanto, se formos analisar hoje pelo que Descartes é mais lembrado, será difícil escapar da sua célebre afirmação:

Penso, logo existo.

Tal frase, cuja tradução do latim original – cogito ergo sum – seria melhor definida como “Penso, logo sou”, surgiu em um livro que a princípio era quase que um prefácio para outras obras mais científicas, intitulado Discurso sobre o Método. Nesta obra, escrita em 1637 e publicada originalmente na Holanda, pois nessa época o pensador francês residia por lá, Descartes propõe um modelo quase matemático para conduzir o pensamento humano, uma vez que a matemática tem por característica a certeza, a ausência de dúvidas. De acordo com o próprio autor, parte da inspiração de seu método (descrito nesse tratado) veio de três sonhos ocorridos na noite de 10 para 11 de novembro de 1619: em tais sonhos lhe surgiu “a ideia de um método universal para encontrar a verdade”.

E o método de Descartes entrou para a história, ao ponto de se confundir com as bases do próprio método científico como veio a ser conhecido de lá para cá. Mas o que me interessa discutir aqui é a tal frase, o “penso, logo sou”. Como exatamente ele chegou nela?

Ora, Descartes estava preocupado com a validade das evidências que poderiam comprovar as verdades da nossa existência. Se devemos questionar tudo, por que devemos confiar nas informações que colhemos da natureza, já que tudo passa pela interpretação dos nossos cinco sentidos?

Tudo o que olhamos, cheiramos, escutamos, tocamos ou saboreamos só pode ser analisado pela consciência quando passa pelos nossos ouvidos, olhos, boca, tato e nariz. E, para piorar, essa interpretação é pessoal e intransferível. Como confiar que todas as pessoas perceberiam esses estímulos da mesma forma, permitindo que uma verdade se tornasse válida para todos?

O francês concluiu que nós só temos a capacidade de duvidar dos nossos sentidos (isto é, pensar) porque estamos vivos para receber esses estímulos. Ter a convicção da nossa existência seria a única coisa da qual não podemos duvidar. Eis as suas palavras, traduzidas do original:

“[...] ao analisar com atenção o que eu era, e vendo que podia presumir que não possuía corpo algum e que não havia mundo algum, ou lugar onde eu existisse, mas que nem por isso podia supor que não existia; e que, ao contrário, pelo fato mesmo de eu pensar em duvidar da verdade das outras coisas, resultava com bastante evidência e certeza que eu existia; ao passo que, se somente tivesse parado de pensar, apesar de que tudo o mais que alguma vez imaginara fosse verdadeiro, já não teria razão alguma de acreditar que eu tivesse existido; compreendi, então, que eu era uma substância cuja essência ou natureza consiste apenas no pensar, e que, para ser, não necessita de lugar algum, nem depende de qualquer coisa material. De maneira que esse eu, ou seja, a alma, por causa da qual sou o que sou, é completamente distinta do corpo e, também, que é mais fácil de conhecer do que ele, e, mesmo que este nada fosse, ela não deixaria de ser tudo o que é.

Depois disso, considerei o que é necessário a uma proposição para ser verdadeira e correta; pois, já que encontrara uma que eu sabia ser exatamente assim, pensei que devia saber também em que consiste essa certeza. [Assim, percebi] que nada há no eu penso, logo sou que me dê a certeza de que digo a verdade, salvo que vejo muito claramente que, para pensar, é preciso existir.”

Ou seja, ainda que tudo o que percebemos com os sentidos desde que nos entendemos por gente for algum tipo de ilusão, e ainda que não possamos obter uma certeza derradeira e absoluta sobre basicamente nenhuma verdade, ainda assim não podemos negar que existimos, que estamos aqui pensando sobre a existência. Descartes havia encontrado a única certeza genuína da filosofia, a única que não pode ser questionada. E vejam que, ainda assim, o fato de existirmos não significa que tenhamos sequer a certeza sobre a nossa própria vontade, ou liberdade de agir; porém, fato é que algo existe, e não nada.

Agora, me desculpem, mas nesse momento não posso deixar de sorrir ante tamanha ironia, isto é: que um dos tratados que servem de alicerce para o próprio método científico, que um dos pilares da racionalidade moderna seja mais lembrado justamente por sua afirmação mais mística, mais espiritual, ainda que a imensa maioria dos que esbarraram nela não tenha percebido sua profundidade abissal.

Sim, pois muitos se comportam diante dela como aqueles que estavam se preparando para a sua primeira aula de mergulho na praia mas, ao ver a placa informando “Perigo, correnteza forte”, preferiram se abster de mergulhar. Tivessem mergulhado, a primeira coisa que teriam de se deparar era com a continuação até mesmo óbvia da preposição de Descartes:

Penso, logo sou. Mas o que exatamente eu sou?

Então cairiam de cabeça no misticismo, ou seja, na tentativa de conceber a verdadeira natureza do que existe, do que é. E poderia falar aqui de Parmênides, dos estoicos, de Plotino ou Benedito Espinosa, mas será mais fácil se deixarmos a filosofia de lado e recorrermos à poesia, mais precisamente a poesia de Jalal ud-Din Rumi, um poeta sufi (o misticismo do Islam) que viveu no século XIII. Eis o que ele soube nos dizer sobre o tema:

Na verdade nós somos uma só alma, eu e você. Nos mostramos e escondemos, você em mim, eu em você.

Eis o sentido profundo da nossa relação: é que entre você e eu não existe nem eu nem você.

Os poemas de Rumi eram um eterno diálogo entre ele e Allah, ou Deus. Mas a ideia principal, a que permeia toda a sua obra, e também a de todo místico genuíno, é justamente esta: “entre eu e você, não existe nem eu nem você”. O que existe é o que é, sempre foi e será, justamente porque existe, porque não é nada. Mas isto não se entende com palavras.

Afinal, se fosse necessário pensar através de alguma espécie de linguagem, por mais rudimentar que fosse, então não existiríamos enquanto recém-nascidos, e só passaríamos a existir a partir de dado momento desta vida. Ocorre que mesmo tal ideia é absurda nesse contexto: “passar a existir”. Não faz o menor sentido. Mas isto também não se entende com palavras.

E, mesmo no ápice de sua racionalidade, o próprio Descartes intuiu a mesma coisa, embora talvez não tenha conseguido se expressar através de um conceito cristão. Pois o pensador francês ainda defende a existência de Deus poucas páginas após o trecho que eu trouxe acima. E, para tal, ele se vale de uma lógica que muitos consideram até mesmo infantil: ele afirmou basicamente que o fato de concebermos a ideia da perfeição e do infinito, mesmo sendo imperfeitos e finitos, era a prova da existência de Deus.

Faltou a Descartes justamente ir um pouco além, e mergulhar nos mares abissais do Grande Mistério. Nós não “concebemos” Deus, nós somos Deus. Nós somos o que existe.

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Crédito das imagens: [topo] Corbis (Descartes); [ao longo] Cristofer Maximilian/unsplash.

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25.4.23

Lançamento: Filosofar é aprender a morrer e outros ensaios de Montaigne

As Edições Textos para Reflexão retornam à filosofia com uma seleção de seis dos melhores Ensaios de Montaigne.

Ao falar de si mesmo, da filosofia e do mundo com extrema elegância, bom senso, acidez e honestidade intelectual, Montaigne não apenas fundou um novo gênero literário (o ensaio), como demonstrou que os chamados pensadores, ou filósofos, não precisam falar somente de coisas grandiosas, muito sérias e cosmogônicas. Ele trouxe as reflexões do dia a dia para o grande palco da filosofia, e na posteridade decerto fez incontáveis bons amigos: seus leitores.

Filosofar é aprender a morrer e outros ensaios é a mais nova tradução de Rafael Arrais – um ebook já disponível para o Amazon Kindle e na Google Play:

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» Leia o Prefácio desta edição


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24.9.19

Do que é formado o espírito?

Neste vídeo contaremos com a ajuda de Allan Kardec para tentar responder se os espíritos são, afinal, materiais ou imateriais. Também adentraremos em conceitos da filosofia e da ciência para tentar compreender melhor a resposta desta questão.

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18.7.19

A filosofia pode ser terapêutica?

Segundo os pensadores do período helenístico, sim.

Na verdade, a filosofia naquela época era diferente de como a praticamos hoje. Se na filosofia moderna o conhecimento filosófico é ensinado como um discurso nas universidades, dedicada a tentar resolver os problemas da natureza do conhecimento – por exemplo, racionalismo versus empirismo, materialismo versus metafísica, objetividade versus subjetividade – na antiguidade clássica os filósofos viam a própria filosofia como uma “forma de viver”.

Ou seja, os filósofos estavam preocupados com os problemas da ética. E com ética eu não me refiro a moral. Não se tratava de simplesmente descobrir o “comportamento correto”, tal como seria numa moral religiosa, seja cristã, judia, budista ou qualquer outra.

A ética se refere ao modo como nos relacionamos com as coisas do mundo, com as outras pessoas e até mesmo com nossos próprios desejos. É muito mais um exercício a ser desenvolvido que uma norma a ser seguida. É neste sentido que a ética, numa concepção helenista, se aproxima do que hoje entendemos como o campo da psicologia, ou melhor, das psicoterapias.

Uma psicoterapia é também uma forma de pensar a maneira como nos relacionarmos com nossa vida, repensar nossos investimentos e cuidar daquilo que nos faz sofrer. Toda terapia – independente de sua abordagem – segue um ideal ético, ainda que cada terapia tenha a sua própria ética.

O terapêutico é a maneira como lidamos com o sofrimento, e para os helenistas, o sofrimento não é por acaso. Ele tem origem em nosso pensamento. Isto é, seja por pensamentos incorretos, raciocínios distorcidos ou modos patológicos de enxergar a realidade, nós sofremos.

E se a filosofia é, por excelência, o meio para nos fazer pensar melhor, não é estranho imaginar que ela poderia nos fazer sofrer menos também. [1]

Por trás do pensamento, no entanto, há o próprio desejo. Aquilo que o homem quer do mundo e na vida. Pensamos de determinada maneira porque queremos algo disso. Ao questionar o pensamento, a filosofia estaria na verdade investigando, explorando e tratando os nossos desejos, origem de nossos pensamentos, e causa do sofrimento.

Deste modo, as escolas filosóficas helenistas e suas diferentes propostas éticas eram, em última instância, modos de lidar e educar o próprio desejo. A filosofia aparece como uma terapia do desejo. [2]

Apresentarei a vocês neste texto resumidamente as três principais escolas do pensamento helenista e suas respectivas formas de lidar com o desejo:

O Epicuranismo e a busca pelo desejo verdadeiro
Fundada por Epicuro, esta escola entendia que o homem sofre porque ele tem “maus desejos”. Isto é, desejos ruins e artificiais, como a busca por dinheiro, fama, glória etc. Estes desejos seriam impróprios não por uma simples razão moralista, mas porque, de algum modo ou de outro, os filósofos percebiam que tais desejos não podiam trazer uma verdadeira felicidade. Eles não correspondiam ao que as pessoas realmente necessitavam na vida.

A verdadeira felicidade viria dos desejos verdadeiros, estes sim que deveriam ser buscados e valorizados. Epicuro, por exemplo, acreditava que a riqueza seria um bem vazio se não pudesse ser compartilhada com outras pessoas, criando com elas momentos de alegria. Deste modo, o dinheiro não é um verdadeiro desejo, mas sim a companhia de boas amizades. A busca por riqueza seria um desejo artificial, enquanto cultivar uma boa amizade ou um amor recompensaria melhor a nossa natureza.

A terapêutica de Epicuro dedicava-se, portanto, em descobrir que aquelas coisas que perseguimos normalmente são artificiais. Necessitamos descobrir quais são os nossos verdadeiros desejos, porque eles sim podem nos trazer a felicidade.

Por outro lado, esta terapêutica lida com o problema de que nem sempre reconhecemos o nosso desejo como ruim. Isto é, alguém pode gostar de seu mau desejo. A ética epicurista só seria praticável a alguém num momento em que já se percebe num nível “patológico”.

O Ceticismo e as expectativas
Outra escola importante da antiguidade era o ceticismo. Hoje usamos esta palavra para nos referir a pessoas que são cientificistas, que não acreditam ou duvidam de algo, ou até mesmo que são ateias. Porém, originalmente, os céticos eram aqueles que duvidavam de que existisse uma visão única sobre algo, que duvidavam de que havia uma verdade.

Podemos ver que os céticos concordavam com a visão de Epicuro de que o sofrimento humano tem origem em suas falsas crenças, em seus falsos desejos. Porque muitas vezes pensamos que aquilo que desejamos é verdadeiro e bom, e depois de perseguir tal ilusão nos decepcionamos e sofremos.

No entanto, os céticos discordavam dos epicuristas que a solução estaria em cultivar desejos melhores. Para eles, isto simplesmente não existia. Seria apenas trocar um falso desejo por outro, que inevitavelmente também nos faria sofrer em algum momento.

Aos céticos, o problema era a própria expectativa criada pelo desejo. A terapia cética buscava assim criar uma indiferença ao próprio desejo, pois, se somos indiferentes ao que desejamos, nos tornaríamos imunes aos sofrimentos das altas expectativas.

Porém, é necessário questionar até que ponto a expectativa seria algo evitável, ou mesmo se a indiferença seria vantajosa, e não apenas uma maneira de fugir dos paradoxos da vida e do desejo. Quem suportaria uma vida indiferente a tudo?

O Estoicismo e o autocontrole
Finalmente, a última das três principais escolas da antiguidade é o estoicismo. Esta deixou para a posterioridade o seu ideal ascético, tendo influenciado em muito o cristianismo. O objetivo estoico é substituir as paixões humanas pela razão. Seus filósofos acreditavam que nós não somos simples animais, movidos pelas nossas emoções, mas que através de nossa capacidade racional podemos alcançar uma vida superior.

Os estoicos viam o sofrimento no desejo. Em nossas paixões. Pois ao querermos coisas e não podermos tê-las ou transformá-las, terminaríamos frustrados. Nossas emoções nos fariam sempre demasiadamente humanos, mesquinhos pelos nossos interesses, incapazes de uma visão superior sobre a vida e a sociedade. O ideal estoico dizia então que o homem devia usar sua maior virtude, a racionalidade, para dominar a as suas paixões e exercitar o autocontrole.

É curioso que, como terapeuta, percebo que a maioria dos nossos clientes procuram o atendimento motivados por um ideal estoico. Geralmente percebem que há algo neles que não podem controlar, e desejam ter maior domínio sobre isso em suas vidas para não mais sofrerem.

No entanto, os estoicos precisam confrontar-se com a dificuldade – quiçá a impossibilidade muitas vezes – de serem sempre racionais ou não possuírem emoções ou paixões autênticas, por mais que estas pareçam injustas ou contraditórias. Será que o homem pode estar sempre no controle de si mesmo?

***

Vemos, portanto, que os ideais terapêuticos que nossos clientes buscam ou que profissionais e influenciadores promovem por aí não nasceram da psicologia moderna. Inocentes são aqueles que acreditam nisso. Eles existem desde muitos séculos na filosofia, se não são anteriores a ela mesma.

É neste sentido que a filosofia pode ser sim terapêutica, já que a origem de nossa ética emerge dela, mesmo que disto não saibamos. Que alguém busque um desejo verdadeiro que lhe traga felicidade, que tente lutar contra suas próprias expectativas ou queira controlar a si mesmo através da racionalidade, tudo isto faz parte de um ideal ético filosófico.

Se a filosofia pode ser terapêutica é porque antes a terapia é filosófica. Cabe questionar, para além disso: qual é afinal a nossa ética?

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[1] Nota do Editor: antigamente o blog Textos para Reflexão tinha uma espécie de “slogan” – pensar para melhor viver. É interessante que, anos depois do “slogan” haver sumido, a sua essência tenha reaparecido aqui :)

[2] Mais sobre este tema pode ser lido no livro The Therapy of Desire de Martha Nussbaum.

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Bill Ringer/Unsplash

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2.10.18

Dawkins e o Capacete de Deus (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo vamos tentar entender o que diabos é o "capacete de deus", e porque um experimento científico pode ser arruinado pelas próprias expectativas dos cientistas em relação ao seu resultado. Teria o célebre ateu, Richard Dawkins, encontrado a Deus em um capacete que irradia ondas eletromagnéticas? Seriam as experiências místicas e religiosas tão somente "devaneios" do cérebro? Faz sentido a existência de uma "neuroteologia" na Academia?

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18.9.18

Fé e Razão, reeditado (Reflexões no YouTube)

Começo minha carreira no YouTube trazendo uma pergunta muito interessante da época do Orkut, e aproveito para falar um pouco de ceticismo, espiritualidade, médiuns, desmistificadores e, como não poderia faltar, Deus (obs.: esta é uma reedição do vídeo original, feita pelo Colossi Studio Gráfico):

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18.4.18

Fé e Razão (Reflexões no YouTube)

Começo minha carreira no YouTube trazendo uma pergunta muito interessante da época do Orkut, e aproveito para falar um pouco de ceticismo, espiritualidade, médiuns, desmistificadores e, como não poderia faltar, Deus:

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Obs.: Até que para um vídeo inicial ficou bem razoável. Tive problemas com a definição da imagem (que só foram realmente percebidos após o envio do vídeo), mas pelo menos o áudio já ficou ok. Não liguem para a "estante torta" ao fundo; minha casa não está desnivelada, mas talvez ainda leve alguns vídeos para eu deixar tudo mais "horizontal".


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23.2.18

O que é Deus pra você?

Após ter acompanhado seu nascimento e crescimento desde o início, é com muita honra que hoje prosseguimos com a parceria deste blog com o canal Conhecimentos da Humanidade no YouTube, apresentado por Bruno Lanaro e Leo Lousada.

Neste roteiro, trouxe de volta um antigo artigo sobre as muitas formas de crença ou descrença em Deus ou nos deuses, e acredito que o resultado final tenha ficado muito bom. Logo nas primeiras horas, o vídeo chegou a uma centena de comentários, não deixe de dar o seu também. Afinal, o que é Deus pra você?

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27.11.17

Minha impressão sobre o Simpósio de Hermetismo

Texto de Danilo Kiss, um grande entusiasta da Ciência, que a meu pedido gentilmente falou da sua experiência em seu primeiro Simpósio de Hermetismo.

Antes falar sobre minha impressão em relação ao Simpósio, vou tentar ser breve em relação a minha história, até para que as pessoas entendam o motivo desse texto estar aqui. Minha  família de uma certa forma é bem religiosa, onde como a maioria dos Brasileiros se voltou ao Cristianismo. Cresci vendo minha avó materna a rezar terço, escutando orações na rádio pontualmente às 18:00hs, via quando pessoas pediam para que as benzessem quando não estavam se sentindo bem. Com um prato fundo cheio de água e pingando gostas de óleo que banhava em seus dedos, ela fazia sua oração e com sinal da cruz – pingando o óleo na água via a situação da pessoa no momento – se as gotas se justassem ou cresciam, era sinal de quebranto ou mal olhado, se as gotas se mantivessem no lugar estava tudo bem. De fato as pessoas ligavam para agradecê-la, reportando estarem melhores.  Seu enorme santuário com as mais diversas imagens de santos, anjos , de Cristo e Buda, além de ser devota de Nossa Senhora de Aparecida. Minha mãe também não foge a esse ritual. Acordo às 05:30hs para ir trabalhar, e quando saio ela esta ligada em um canal de orações, com seu terço nas mãos, onde o mesmo processo se repete da parte da noite.  Pessoas ligam para serem  benzidas por ela também. Meu pai é agnóstico e tenho três irmãos: um umbandista, outro espírita kardecista e o mais novo maçom, e eu cético em relação a tudo isso que descrevi até agora.

Meus questionamentos em relação a divindades e na crença de um deus criador, que olha por tudo, que sabe o que faz, e que não posso questioná-lo, começou quando tinha por volta de nove anos de idade. Lembro-me  olhando para uma folha em branco, tentando entender como algo pudesse amassá-la sem alguma interferência externa. Era assim que via toda aquela história de um deus que veio do nada, para criar e ser dono de tudo. Em meio às conversas que tinha com meus pais em relação ao meu ceticismo, resolveram me colocar para fazer a primeira comunhão quando tinha quatorze anos de idade, e na segunda aula o Padre (Fernandes) responsável pelas aulas de catecismo, disse a minha a mãe de forma serena que meu lugar não era ali, e que logo entenderiam – talvez fosse pelos meus questionamentos. Ao completar dezoito anos fizeram com que começasse crisma, e confesso que só fiz por causa da minha avó. Nessa época já estudava a história das religiões, bem como Astronomia. Como não encontrava algo que me fizesse acreditar de fato em tudo que via dentro da religião e em relação a um criador onipotente, onisciente e onipresente, resolvi estudar o macro, o começo de tudo.

Comecei a me dedicar a Física e hoje com trinta e oito anos curso Universidade de Astronomia. Nesses quase vinte anos de tudo, tudo (ou quase tudo) das dúvidas que eu tinha em relação aos mistérios não revelados (ou revelados) de forma incoerente pela religião, encontrei na Ciência – Física e Biologia são os ramos da Ciência que mais estudo atualmente, além claro da Astronomia, em que descobri que tudo não foi feito em sete dias, pois para ser gerada a primeira estrela foi necessário milhões de anos. Ao contrário do que muitos conseguem fazer, ainda não consegui traçar um paralelo ou um denominador comum entre Religião e Ciência. Religiosos, místicos, benzedeiros, padres, pastores e líderes de qualquer religião acham que a comunhão entre Ciência e Religião é dizer apenas sobre as bênçãos das divindades, com a tão falada e nebulosa Física Quântica, ou ainda pior: tudo aquilo que a Ciência não explica a Religião consegue – ambas situações tornaram-se clichê. É fato que existem pessoas espiritualizadas e da Área Científica, que conseguem traçar um relacionamento entre as duas coisas. Tenho um grande amigo assim. Físico e que acredita nessa cumplicidade entre a espiritualidade e as partículas subatômicas, o que pra mim ainda é extremamente utópico. Por mais que eu acredite (e tenha provas) que a energia que emitimos apenas pelo nosso pensamento seja algo extraordinariamente forte, me limito apenas àquilo que eu realmente consegui provar. Provar não para outros, mas para mim mesmo! Sabe aquela história de cada coisa no seu lugar? Sigo mais ou menos dessa forma. Mas aí você pode me perguntar se a Ciência explica tudo... E eu digo que para quase tudo que questionei até hoje, sim! Mas esta longe de explicar tudo tudo, afinal nada explica a totalidade do que existe.

Em meus estudos em relação às religiões, frequentei todos os principais cultos para entender o que se passava em cada uma delas, onde cheguei a uma conclusão. A espiritualidade como fonte de saber e de harmonia interna é ótima ferramenta para aqueles que precisam, mas o ser humano que tem por trás dos passes e das incorporações não! Já vi de tudo: desde “reze cem ave marias e cem pais nossos” pelo dízimo que não consegui dar, até que “deus não quer suas moedas, pois ele precisa de notas para terminar suas obras na eternidade”, até aqueles que davam passe em você no centro espírita e lá fora batiam na mulher e ignoravam os filhos. Que tipo de vibração um mamífero desses vai reportar a uma pessoa?  

Enfim, foi nesse estudo sobre as religiões, que em meados de 2015 encontrei uma página no youtube chamada Conhecimentos da Humanidade, com um vídeo sobre a introdução as Religiões. Dali pra frente me tornei um espectador e fã da página, pois tratavam do assunto religioso de forma imparcial, e principalmente com cunho histórico, que era exatamente o que gosto de estudar. Assistindo alguns vídeos tomei conhecimento de um Simpósio que seria realizado no início de Novembro (2017) – o Simpósio de Hermetismo e Ciências Ocultas. Confesso que dez anos atrás acharia um absurdo o fato de pensar em participar de algo relacionado a Ciências Ocultas, afinal pra mim não existe nada mais transparente que a Ciência natural. Me permiti ir a esse Simpósio e ver o que os participantes tinham a dizer, além de conhecer as pessoas que fazem parte de um grupo fechado de discussão referente ao canal Conhecimentos da Humanidade [grupo de apoiadores do canal no Padrim]. São pessoas extraordinárias, cada uma na sua percepção de fé e espiritualidade, onde não entendo de onde tiram tanta paciência para escutar as chatices de um cético :)

Finalmente chegou o grande dia! Na verdade foram dois dias seguidos: sábado e domingo. Um dia antes ainda pensava se deveria mesmo participar, mas posso dizer que foi uma experiência um tanto diferente na minha vida. Já ao chegar ao local onde teriam as palestras, me deparei com um cartaz do lado de cima da porta: “Simpósio de Hermetismo e Ciências Ocultas”. Respirei fundo! Logo vi uma pessoa com uma longa capa preta e capuz, outra vestida como uma bruxa. Tenso! Já estava na companhia de uma pessoa do grupo (Gidy Sampaio), e alguns minutos depois fui recepcionado pelo Léo Lousada, um dos organizadores do Simpósio e responsável pelos conteúdos no canal Conhecimentos da Humanidade.  Ele me  levou ao encontro de outro idealizador do canal, Bruno Lanaro, onde mais uma vez fui extremamente bem recepcionado. Entrei no local e pude ver todos aqueles meus amigos virtuais, inclusive Raph Arrais (você o conhece bem :), que tranquilamente e humildemente  veio se apresentar, além da Karina, Diego, Daniela e Rodrigo. Fiquei muito feliz em conhecê-los pessoalmente. São todos do bem, cada um no seu estilo. Tive conversas riquíssimas com cada uma delas, e agradeço muito por isso! Minutos depois me sentia totalmente fora de contexto, pois era muita gente espiritualizada, cada um de sua maneira, em seu entendimento diferente. Mas fui forte, e logo começaram as palestras. Uma a uma fui observando, divagando, pensando, fazendo paralelos com minhas crenças, mas me permiti deixar todo meu ceticismo e meu pensamento científico da porta pra fora.

Nos dois dias de Simpósio percebi que cada Ordem e Religião tendem a puxar o que mais se adequa a crença de cada um em um determinado grupo. A verdade, a magia, os deuses, as energias etc. Todos possuem uma comunhão dentro das determinadas crenças. Penso que poderia existir apenas uma para englobar tudo, seria mais coerente não? Mas talvez o ser humano precise dessas diversas possibilidades, pois nós somos assim. Queremos pertencer a um grupo específico, e a maneira mais fácil de se organizarem é a separação pelos ideais. Percebi também que mesmo com tantos pontos diferentes, o intuito é lavar ao mesmo lugar. Observei que sempre que abordavam o assunto Religião vs. Ciência cometiam algum deslize, e percebi também que a preocupação em querer linkar as duas coisas é muito grande, mas acredito que seja mais uma forma de se falar aleatoriamente sobre o assunto.  Hoje me parece que o créme de la créme da Religião em conjunto com a Ciência é a Física Quântica. O fato é que nem a Ciência sabe exatamente como empregá-la dentro do próprio meio científico, que é onde se abre brechas para oportunistas. Vejo que a parte mística ou ocultista começa onde a ciência deixa de explicar – e é aí que para mim começa o grande problema. A Ciência em cem anos veio para desmistificar milênios de mitos e/ou interpretações de livros sagrados e profetas.  Tenho que dizer que não presenciei muitos paralelos em relação a Ciência e Religião, a não ser quando uma espectadora disse que a Bíblia era “quântica”, mas até aí absorvi bem essa questão :) Bom, não estava em um Simpósio de Ciências, então de uma certa forma relevei o que foi dito, sem problema algum.

Cada palestrante representando a diversidade de Ordens e Religiões deixava sempre a entender que o bem comum para uma vida melhor, e consequentemente construir uma harmonia entre todos os seres – seja ela animal, vegetal ou mineral –, é o respeito, a bondade e o amor, dessa forma alcançando a espiritualidade de forma mais tênue. Senti isso também nas pessoas que lá estavam. Cada um da sua forma buscava o conhecimento e principalmente uma forma de elevação espiritual para se tornarem pessoas melhores. Não que com meu ceticismo também não busque tais atributos, mas a diferença que vi em relação a essa busca são os meios.  Procuro ser uma pessoa boa, ter atitudes condizentes com o amor, respeitar a Natureza não para agradar divindade ou ter uma vida eterna, mas ser feliz enquanto a vida aqui no Planeta Terra durar. Não peço nada a nenhuma divindade, apenas agradeço todos os dias. Para quem? Para minha mente! Se existe uma energia onisciente, onipotente e onipresente ela sabe exatamente o que estou passando, o porquê e do que preciso, logo não tenho necessidade de pedir nada. Se tiver algo além da morte do corpo, ótimo, se não tiver nada, tudo bem também. Apesar de saber que nosso corpo de fato é só energia, e não existe a morte de energia e sim a sua transformação, não me arrisco a dizer o que acontece depois que ela se livra da matéria densa que é o nosso corpo. Isso deixo para meus amigos com mais elevação espiritual que eu :)

Quanto a minha impressão final em relação ao Simpósio, posso dizer que foi muito boa, na verdade muito melhor do que esperava! Me arrisco a dizer que esse encontro sirva mais para pessoas como eu. Para os demais acredito que seja mais um complementando de sua busca. Escutar o que o outro lado tem a dizer é muito importante, é respeitar a fé e suas crenças, afinal é isso o que nos faz ser uma pessoa melhor dia após dia. Ouvi magos, bruxas e benzedeiros falarem sobre a forma com que enxergam a vida, e posso dizer que foi muito rico. Por mais que isso não faça parte do meu dia a dia, é bonito saber que há pessoas que através de sua magia se preocupam em ajudar o próximo. Senti muita cumplicidade, harmonia, respeito e principalmente o amor de todos!

Amor – um nome curto, com um significado enorme e tão difícil de ser empregado verdadeiramente em nosso dia a dia, mas quando é feito tudo de forma sincera percebemos a diferença que faz. O amor quando empregado de forma verdadeira, e aí não importa a Religião, a Ordem , ou apenas a percepção intrínseca: ele mudará sua casa, seu bairro, sua cidade, seu país... ele mudará o mundo! E foi exatamente isso que aprendi no Simpósio – não importa os meios, mas sim o final de tudo! E talvez o deus, as divindades, os santos, os guias, os anjos sejam apenas a forma de amor materializada da qual eles tanto falam. Talvez tudo isso seja apenas o amor! Pretendo voltar nas próximas edições e entender esse enorme mundo. E que dessa forma amemos mais, todos os dias!

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Crédito da imagem: Martin Satler/unsplash

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17.10.17

A filosofia para viver bem (parte 3)

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3. O homem encontra Deus

Se Montaigne, assim como os céticos, se sentia a vontade com um mundo estranho, do qual não podemos saber tudo sobre ele, que está sempre a nos surpreender com algo novo, não podemos dizer o mesmo de René Descartes.

Em suas meditações, Descartes partiu do ceticismo. A dúvida era o seu método. Questionou absolutamente tudo para saber o que poderia ser realidade e o que era falso.

Após duvidar de todas as verdades, chegou a uma conclusão: ainda que ele duvidasse de tudo, não poderia duvidar dele mesmo enquanto aquele que duvida. Daí “penso, logo existo”.

É deste modo que levando a dúvida até suas últimas consequências, Descartes chega num ponto de certeza, um critério confiável para a verdade. Se eu penso sobre o mundo, posso até duvidar que meus pensamentos sobre o mundo sejam falsos ou verdadeiros, mas não há dúvida que eu de fato os pense. Voilà, a consciência.

Claro que Descartes não passou sem críticas. Leibniz criticou o pensamento cartesiano como circular, não havendo uma demonstração real de uma certeza. O “eu” conduz ao “penso”, e vice-versa. Já Nietzsche percebeu em Descartes uma série de pressupostos como “eu” e “pensamento” dos quais eles também podem ser colocados em dúvida, e, portanto, não há a menor certeza de suas existências. Bertrand Russell disse que Descartes pode objetar no máximo que existe pensamento, mas jamais que o pensamento é produto do eu.

De qualquer modo, somos cartesianos. O pensamento de Descartes foi fundamental para a Modernidade. A partir de então, não somos mais guiados por critérios externos de verdade como no Mundo Antigo – o mundo ou os deuses – mas referidos à subjetividade e a consciência.

É curioso, no entanto, que Descartes em algum momento precisou apelar para Deus para sustentar seu pensamento.

Afinal, como não imaginar que a verdade talvez seja um engano criado por um gênio maligno que queira nos dissimular?

Descartes responde: se há o imperfeito, é porque há o perfeito. Caso contrário, não haveria sentido supor uma perfeição. E Descartes supostamente já havia chegado num conhecimento perfeito para a consciência: penso, logo existo.

Deus é a própria perfeição, externo ao próprio mundo, mas que garante sua existência ainda que imperfeita. O pensamento não poderia existir se não existisse um Deus que o garantisse, e não um gênio maligno tentando nos enganar sobre isso.

Ou seja, se há verdade, há Deus.

A filosofia sempre esteve às voltas com o problema de Deus, mas nunca conseguiu se livrar Dele. Não faltaram tentativas.

Mesmo um pensador como Spinoza – cujo objetivo era erradicar toda transcendência e afirmar um mundo de imanência absoluta, em que não há outra coisa senão tudo o que há e podemos ver/sentir – chegou a uma ideia de Deus. Claro que o pateísmo de Spinoza se diferencia da visão dos religiosos ortodoxos sobre Deus, em que Ele existe enquanto entidade pessoal.

O Deus de Spinoza é imanente. Nós e Ele somos Um só. O Universo e Ele também. Nós e todas as coisas somos a mesma coisa, e não há um mais-além da realidade do Um. Ou seja, não há espaço na filosofia imanente para a transcendência de Deus que Descartes imaginou.

E Spinoza chega a Deus justamente porque não era possível chegar a qualquer outra coisa.

Não. Eu não estou falando que Deus existe.

Estou dizendo que há um ponto de absurdo em que a própria realidade não faz sentido se não cedermos dos questionamentos, do ceticismo. Tal como fizeram Descartes ou Spinoza.  Precisamos inevitavelmente tomar algo a priori como infalível e disso tirar todas as conclusões consequentes.

A Ciência tem Deus no seu próprio método científico. Este que pode colocar tudo em dúvida, questionar a realidade, descobrir a verdade do universo. A única coisa que fica fora de questão é o próprio método científico.

Qualquer filósofo, por mais ateu, tem que admitir Deus em algum ponto do seu pensamento. Não enquanto a entidade que os religiosos pensam existir. Mas justamente enquanto este ponto de incongruência que faz todo o restante do universo ser coerente, e não sermos meros céticos a duvidar de tudo indefinidamente, como fizera Pirro, jamais chegando a qualquer certeza.

Para os analíticos, são os pressupostos lógicos que servem de base para o pensamento. Já os construtivistas encontraram Deus na História: tudo é um fato histórico, e pode ser explicado por ela, não havendo nada de real para além da mesma.

A ideia que existe um vazio por baixo de tudo não é muito reconfortante. Todos nós assumimos irracionalmente algum ponto de certeza – convictos dele de forma bastante emocional – para dar sentido e orientar nosso pensamento. Negamos assim que a realidade possa ser apenas um absurdo.

Se podemos relacionar o epicurismo ao hedonismo e o estoicismo ao ascetismo, o ceticismo chega na modernidade sob a forma do niilismo. A ausência de um critério absoluto que possa definir a realidade. Mais do que a morte de Deus, o niilismo é a radicalização do ceticismo sob o entendimento de que a dúvida é a única certeza. Não há um significado para a existência, tampouco um objetivo para estarmos vivos. As coisas simplesmente existem.

Estamos acostumados a imaginar que por detrás das aparências existe uma verdade oculta, a qual devemos buscar para compreender melhor o mundo. A perspectiva niilista é que, por detrás das aparências, não há outra coisa senão o Vazio. As aparências são tudo que temos enquanto existência, e não há uma verdade mais além disso, apenas uma existência negativa: o Vazio.

O niilismo se tornou o grande bicho-papão da modernidade. Muitos o identificaram como depressivo, trágico, destrutivo. Coube finalmente a alguns franceses – sempre eles – subverterem isso. Mas veremos no próximo texto.

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Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Felix Russell-Saw/unsplash

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18.9.17

A filosofia para viver bem (parte 2)

« continuando da parte 1

2. Só sei que nada sei, e nem mesmo disto estou certo

Além do estoicismo e do epicurismo, existiu uma terceira escola que por muitos séculos foi ignorada na tradição clássica, até ser recuperada no Renascimento por Michel de Montaigne – que talvez pudesse ser considerado um praticante de todas as três doutrinas.

Trata-se do ceticismo.

Ao contrário do que estamos acostumados a pensar, o ceticismo filosófico não se refere apenas aos ateus, cientistas e acadêmicos materialistas. Apesar de muitos deles se considerarem céticos, a filosofia cética vai para além disso.

A escola filosófica do ceticismo iniciou com Pirro, muitos séculos antes de Cristo. Pirro entendia que era impossível conhecer a real natureza das coisas.

O que é belo? O que é bom? O que é verdadeiro? Pirro refletiu muito sobre essas questões, e após viajar para outros locais, percebeu que aquilo que é certo num lugar ou para uma pessoa, pode ser errado para outra. E vice-versa. Nossos juízos tratam-se, acima de tudo, de construções que os homens fazem sobre o mundo. E todos os homens parecem igualmente possuírem argumentos válidos para acreditar naquilo que pensam.

Na impossibilidade de dizer o que é verdadeiro, Pirro entendia que o filósofo deveria evitar fazer juízos sobre o mundo, e através da suspensão deles (epokhe), se tornar indiferente às questões que não são realmente importantes. Afinal, é inútil discutir com seu amigo quem é a atriz mais bonita de Hollywood ou quem vai ser campeão da Liga dos Campeões.

Indiferente ao que é duvidoso, o homem alcança a ataraxia, não se perturbando com aquilo que ele não pode ter certeza. Como dizer quem é a mais bela se cada um possui seu próprio critério de beleza? Como saber quem será o campeão do futebol se muitas coisas ainda podem acontecer no futuro e mudar nossas previsões?

É importante dizer que os céticos não são relativistas em relação à verdade. Enquanto os dogmáticos acreditam que a verdade é uma só e conhecida, os relativistas defendem que a verdade é múltipla, possuindo muitas interpretações. Os céticos, por sua vez, entendem que tanto os dogmáticos quanto os relativistas estão enganados: a verdade é impossível de ser conhecida, seja ela única, múltipla ou mesmo inexistente.

Quando Sócrates diz “só sei que nada sei”, Pirro complementa “e nem mesmo disto estou certo”.

Os céticos estão sempre recorrendo à dúvida para colocar o que acreditamos em questão. Isto não significa que não podemos acreditar em determinadas coisas. O conselho cético é apenas para não se levar tão a sério.

Preocupamos-nos excessivamente com coisas das quais não temos realmente como saber. Será que vamos encontrar o amor? Conseguirei passar na prova? Será que eu sou belo aos olhos dos outros? Ao desacreditarem num juízo absoluto sobre esses assuntos, os céticos eram despreocupadamente abertos a todo tipo de situação que a vida pudesse oferecer. Aconteça o que acontecer.

Pirro não se preocupava com os erros. Encarava os enganos com a mesma leveza que os acertos.

Os filósofos encontraram no ceticismo uma espécie de terapia. Diante dos problemas da vida, recorriam à epokhe. Quando não sabemos exatamente o que é certo ou errado, ou nos preocupamos com o que pode acontecer no futuro, a suspensão de juízo nos liberta da necessidade de encontrar uma resposta clara para tudo. Há coisas que talvez estejam para além da nossa compreensão ou controle.

A impossibilidade de um conhecimento objetivo sobre qualquer assunto, ou mesmo nossa tentativa vã de prever o futuro, revela que nossas reações são exageradas na maior parte das vezes. A ataraxia dos céticos conduzia a uma vida despreocupada.

Parece estranho pensar que não saber ou não possuir uma resposta exata para algo seja tão tranquilo assim. Afinal, quando somos acometidos pela dúvida, pela incerteza, geralmente nos sentimos angustiados. Quando não sabemos se nosso amor será correspondido, se nossa carreira profissional está crescendo, ou se as pessoas pensam corretamente sobre nós.

Por que os céticos encontraram a ataraxia justamente em algo que parece nos incomodar tanto: a dúvida?

Talvez porque ainda sejamos pouco amigos da dúvida. Diferente de Michel de Montaigne.

Nos seus Ensaios, Montaigne questionava tudo. Colocava em dúvida os costumes de seu país, de seus amigos, até de si mesmo. Sobre qualquer assunto ele ponderava.

Ao se questionar se preferia estar sozinho ou em companhia, ele dizia primeiro que era uma pessoa muito social, e gostava de conversar e estar feliz com seus amigos. Depois lembrava que muitas vezes sentia a necessidade de estar sozinho, pois nem sempre podia ser tão compreendido pelas pessoas como quando estava refletindo intimamente em suas caminhadas. Diria então que ora preferia estar com amigos, ora sozinho. Finalmente, revelaria ainda assim não ter muita certeza sobre isso.

Montaigne duvidava que o homem fosse tão racional e elevado como as pessoas acreditavam. Na realidade, somos imperfeitos, confusos, contraditórios, ambivalentes, por vezes ridículos. E não há nenhum problema nisso.

A vida para Montaigne (assim como para Nietzsche) devia ser vivida através do amor fati: as coisas são como são, e não cabe a nós mudá-las, mas aceitá-las com alegria. Talvez o mundo seja estranho e imperfeito, por vezes injusto e incompreensível, mas de nada adianta nos arrependermos de algo. A vida nos conduziu exatamente ao ponto que estamos hoje, e sem dúvida há inúmeras razões para amá-la assim.

Mas um homem não se deu muito bem com um mundo de dúvidas... Dele falaremos no próximo texto.

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Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Google Image Search (Estátua de Montaigne em La Sorbona, Paris)

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30.8.17

Lançamento: O Livro da Reflexão, vol.3: As lições da ciência

As Edições Textos para Reflexão trazem mais um presente a todos os fiéis leitores deste blog, assim como a todos que um dia também virão refletir conosco. Afinal, a luz foi criada para ser refletida!

"Textos para Reflexão é um blog que fala sobre filosofia, ciência e espiritualidade. Este é o terceiro volume da série O Livro da Reflexão, que pretende ser uma coletânea dos melhores textos do blog. Nesta edição pretendo abordar a ciência, o ceticismo, a consciência e a evolução das espécies, todos temas recorrentes em minhas reflexões."

Um livro digital disponível para download gratuito em diversos formatos (exceto na Amazon, onde custa o valor mínimo permitido pela loja):

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19.2.16

Tudo ou nada

Um cientista diz que o universo surgiu do nada. Para ele, isto quer dizer que não há um Criador, nem espíritos nem almas, e boa parte ou mesmo a totalidade do que classificamos como espiritualidade não passa de mera fantasia provocada por algum estranho tilintar de neurônios em nosso cérebro. "Assim", diz o cientista, "estou defendendo a racionalidade e me valendo do ceticismo".

Ora, se formos na origem da etimologia de tais termos, descobriremos que a racionalidade implica em ser sensato e sempre questionar suas próprias crenças, buscando razões razoáveis para crer, ou continuar a crer, no que quer que seja. Some-se a isso o ceticismo, que filosoficamente implica em exaltar a dúvida e evitar as certezas, e temos efetivamente um manual prático contra todo e qualquer dogma, assim como todas as pressuposições ilógicas que encontramos por aí, ainda que venha da boca de um cientista.

Um cientista diz que o universo surgiu do nada. Ainda que seja amparado por "estudos", e ainda que ele se diga "cético e racional", não seria nem racional nem cético de nossa parte crer no que ele afirma sem questionar... E, questionando, poderíamos começar pela pergunta, "O que é o nada? Você pode defini-lo? Você já o observou, ou detectou com instrumentos? Você sabe como, quando e onde ele existiu? Será que poderá voltar a existir um dia?".

Se formos usar novamente a etimologia, descobriremos que, no frigir dos ovos, o "nada" é um termo que se refere a algo que não somente não existe, como não pode ser definido, nunca pôde, e jamais poderá. O "nada" não é o vácuo cósmico, que mesmo sem nenhuma espécie de matéria, nem nenhum átomo passageiro, ainda é preenchido por campos gravitacionais, radiação, flutuações quânticas etc. O "nada" não é o vazio, pois ainda que houvesse algum canto deste universo perfeitamente vazio, a própria qualidade do vazio implica em "algo a ser preenchido", o que evidentemente não é o "nada". O "nada" não é algum estado de consciência, alguma espécie de metáfora para a morte, nem mesmo para o nirvana. Ainda que muitas pessoas e doutrinas usem o "nada" para se referir a alguma outra coisa, fato é que, pela lógica mais pura e cristalina, o "nada" não pode existir, nem neste momento, nem em qualquer momento do passado ou do futuro. Tampouco ajuda usar o "nada" entre aspas, pois "nada" e nada também continuam sendo somente palavras.

Dizem que Deus também é somente uma palavra. No entanto, neste caso, ainda que seja uma palavra que se refere a algo que transcende a própria linguagem, e que não pode ser definido pelo uso das palavras, fato é que Deus tem uma qualidade essencial que o difere do nada: o primeiro definitivamente existe, enquanto o último definitivamente não existe. De fato, esta é a única certeza da filosofia e do ceticismo filosófico: existe algo, e não nada. Seja o que for este "algo", seja que nome queiramos dar a ele, "Deus" ou "Tudo" ou "Natureza" ou "Absoluto" etc., fato é que ele existe.

Carl Sagan foi um ardoroso defensor da ciência, da racionalidade e do ceticismo. Apesar de ele não crer num Criador conforme descrito nos manuais de verdades absolutas, ele não foi ateu, e sim agnóstico. Ou, como ele mesmo disse um dia, "Um ateu tem que saber muito mais do que eu sei. Um ateu é alguém que sabe que não existe um Deus". Sagan não tinha tanta certeza de que Deus, ou algo análogo a esta ideia transcendente, não existe. Em seu monumental Contato, inclusive, ele chega a postular que um suposto Criador poderia ter incluído na própria matemática mensagens cifradas que poderiam indicar sua existência. Tudo ficção, é claro, mas quem disse que a ficção não existe? A ficção definitivamente também é algo, e não nada.

Já Neil deGrasse Tyson, o cientista que encontrou com Sagan quando jovem, e que o considera um ídolo, tampouco acredita dispor de informações suficientes para abraçar o ateísmo e abandonar o ceticismo. Conforme ele confessa, "Eu não consigo me reunir e falar com todos numa sala sobre o quanto não acreditamos em Deus. Apenas não tenho energia para isso". O único "ista" pelo qual Tyson deseja ser reconhecido é o "cientista". Tyson definitivamente não é daqueles que tem certeza de que algo surgiu do nada.

Segundo Terence McKenna, a ciência moderna se baseia num princípio: dê-nos um milagre espontâneo e a gente explica o resto. Atualmente este "milagre" se chama Big Bang, e é a teoria mais aceita para o início do espaço-tempo, isto é, do universo onde vivemos. Talvez, quem saiba, existam muitos outros universos, mas isso também faz parte da especulação científica, e não pode sequer ser testado, quiçá comprovado. Então, o que resta? Uma teoria extremamente embasada em dados e observações sobre tudo o que ocorreu desde que o universo surgiu, sabe-se lá de onde, do quê, e em qual tempo.

Toda essa questão da Criação e do sentido da existência é o que tem angustiado mentes filosóficas e questionadoras desde o advento da história humana, provavelmente até mesmo antes da invenção da linguagem. Tudo ou nada, Deus existente e definido ou não existente e indefinido, tudo ter um sentido, nada ter um sentido: todas essas conclusões apressadas nada mais são do que os dois lado da mesma moeda, e esta moeda se chama "a acomodação ante o fim da angústia".

Ora, e tanto ateus quanto crentes encontram sua acomodação em dogmas: "existe", "não existe". Tanto faz, os questionamentos cessam da mesma forma, e a vida "fica resolvida". Mas os filósofos não querem ter esta vida resolvida, eles se recusam a se acomodar ante a angústia da existência. Enfim, eles aprenderam a amar a dúvida, a conviver com ela a cada momento de suas vidas, e analisar esta vida sob um prisma de muitas possibilidades.

No fim das contas, nos prometeram os antigos, todos os paradoxos serão reconciliados. Podemos acreditar neles? Talvez não com a razão puramente objetiva, mas quem sabe com o uso da emoção amparada pela razão, com o diálogo com nossa própria intuição, com a contemplação de nosso mundo subjetivo, com o autoconhecimento, com o passo a passo rumo adentro, com a descoberta de terras ocultas, esquecidas dentro de nós mesmos...

Depois de muito tempo, e muitas vidas, acho que estou começando a compreender que todos os paradoxos já estavam reconciliados desde o início, desde nosso primeiro questionamento, desde que reconhecemos esta única certeza: existe algo, e não nada.

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Crédito da imagem: raph

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28.11.15

Pirro e o ceticismo

Trechos do artigo de José Francisco Botelho para a revista Vida Simples. Os comentários ao final são meus.

Em Élida, no oeste da Grécia, vivia um pintor de minguados recursos e parcos talentos chamado Pirro. Ganhava a vida fazendo afrescos, mas é de se imaginar que sua clientela fosse pouco exigente: os antigos cronistas garantem que suas pinturas eram perfeitamente esquecíveis. Pirro compreendeu, decerto, que seus dotes pictóricos nada tinham de olímpicos; talvez embalado pela desilusão artística, resolveu tornar-se filósofo.

Foi uma decisão propícia: a nova ocupação levou-o – literalmente – longe. Naquela época, um rapaz baixote e megalomaníaco ocupava o torno da Macedônia, a maior potência militar da Europa. Em 356 a.C., o monarca de 22 anos marchou rumo ao Oriente, com o plano de espalhar seus domínios até os confins do mapa-múndi. Além dessas ambições desmedidas, Alexandre – que, apesar da estatura mínima, foi apelidado de “o Grande” – nutria veleidades literárias e filosóficas. Mesmo nas barracas militares, costumava dormir com um exemplar da Ilíada embaixo do travesseiro; e gostava de alardear que seu professor de retórica e metafísica fora o sublime Aristóteles.

Pois bem: em sua jornada de conquista universal, Alexandre alistou não apenas lanceiros, arqueiros e espadachins, mas também pensadores abstratos. E, dessa forma, o pintor frustrado tornou-se turista global: no séquito de Alexandre, Pirro embrenhou-se pela Pérsia, pela Arábia, pelo Egito; atravessou o árido coração da Ásia, molhou os pés no Ganges e respirou as brisas geladas do Himalaia. Ao longo da travessia, deparou-se com a indomável variedade da espécie humana: conheceu povos que veneravam crocodilos e chacais, outros que adoravam o fogo, outros que conversavam com as estrelas; na Índia, encontrou sábios que viviam no meio da floresta, alimentando-se de folhas secas e vestidos com cascas de árvores.

Do Mar Mediterrâneo às praias do Índico, o ser humano buscava a verdade; mas, em todo o vasto mundo, Pirro não encontrara uma única verdade igual a outra. Convenceu-se de que nada é convincente: de volta a Grécia, passou a pregar uma nova e estranha doutrina, segundo a qual todo conhecimento humano é mera suposição. Já não existe verdade segura, só nos resta esmiuçar o mundo de forma incansável, sem jamais nos determos em conclusões inquestionáveis: da infinita insegurança nasce a incabível curiosidade. Por isso, os seguidores de Pirro ficaram conhecidos como os céticos – do grego sképtomai, que significa “examinar” ou “investigar” [1].

A incerteza, para muita gente, é sinônimo de angústia – mas, para os seguidores de Pirro, ela é uma eficaz terapia. Ao longo da história, dogmas inumeráveis estontearam a humanidade; nós, pobres mortais, vivemos correndo atrás de certezas que sempre se encontram na curva do horizonte. A necessidade de ter razão pode nos tornar desarrazoados: quantas vezes não percebemos que andamos esbravejando sobe coisas que só conhecemos pela metade (ou nem isso) [2]?

Perante essas agruras, a terapia cética é de uma simplicidade implacável: antes de afirmar qualquer coisa, deveríamos admitir que não podemos afirmar tudo. Aceitar os limites do conhecimento humano é uma forma de libertação: quem abraça a eterna dúvida encontra a paz de espírito ou ataraxia, virtude que os antigos valorizavam sobe todas as coisas.

[...] O ceticismo, como tantos vocábulos profundos, perdeu um tanto do sentido original, à força de ser repetido ou mesmo sequestrado: Pirro consideraria dogmáticas muitas pessoas que hoje se declaram céticas. Digamos que alguém pergunte a um Pirro moderno se ele acredita em Deus. À primeira vista, existem duas respostas possíveis: sim ou não. O senso comum diria que a posição cética corresponde à segunda alternativa. Mas, nesse caso, o senso comum está enganado: para um cético clássico, devemos suspender o juízo a respeito de assuntos logicamente insolúveis.

É possível imaginar um universo criado por uma inteligência transcendente, além da compreensão humana; é também possível imaginar um cosmos solitário e materialista, sem outro sentido além do bailado dos átomos. Ou seja: ambas as hipóteses são verossímeis, mas nenhuma delas é verificável. Não podemos bater uma radiografia do universo e constatar a presença ou ausência de Deus, como quem identifica um órgão ou uma cartilagem; logo, tanto o sim quanto o não correspondem a um salto de fé.

O ateísmo, nos olhos pirrônicos, é apenas uma crença, igual às outras. Pirro, aliás, tornou-se sacerdote da antiga religião grega, após seu retorno a Élida; e George Berkeley, um dos nomes mais célebres do ceticismo moderno, era bispo da Igreja Anglicana.

Mas não precisamos nos alçar a enigmas metafísicos para testas a terapia pirrônica. Mesmo que deixemos o sentido do cosmos à escolha de cada um, veremos que o método tem efeitos salutares quando aplicado às coisas do dia a dia. Os céticos da Antiguidade colocavam em dúvida até mesmo o testemunho dos sentidos; alguns questionavam o brilho do Sol, a doçura do mel, ou a vermelhidão das coisas vermelhas [3] – mas não precisamos ir tão longe. Será suficientemente cético quem se ativer a esta máxima: somos criaturas finitas, enquanto a verdade é infinitamente complexa – e o universo talvez não caiba em uma casca de noz.

Isso não implica renunciar a toda a opinião – podemos deixar a suspensão total do juízo ao velho Pirro, em suas divagações. [...] Para nós, basta recordar que toda perspectiva humana é parcial. A visão completa das coisas só pertence aos deuses – e, bem, eles costumam guardar seus segredos com muito afinco.

Os antigos cartógrafos tinham o hábito de escrever, nas bordas dos mapas marítimos, o lema latino nec plus ultra – “daqui não passarás”. O objetivo era assustar os navegantes audazes – e lembrá-los de que toda viagem tem de chegar ao fim. O dogmatismo também anda, sempre, a rabiscar términos e limites na geografia da mente; com regra e esquadro, ele insiste em tascar pontos-finais à aventura do pensamento.

Nessas horas, um gole do antídoto pirrônico vem a calhar. Pois ele nos devolve a medida certa de modéstia e ousadia: não sabemos tudo; e, por isso mesmo, temos de acreditar que a busca continua. Sejamos então como Alexandre, que não quis se deter na Babilônia, nem em Persépolis, nem nos desertos do Afeganistão; seguiu marchando enquanto pôde e, ao olhar as estrelas, exclamava com sonhadora melancolia: “Há muitos mundos lá em cima; e não poderei conquistar nem mesmo este mundinho nosso, aqui embaixo”.

***

[1] O ceticismo original nasceu, com Pirro, de uma constatação tão simples quanto profunda e humilde: a de que nenhum ser humano detém a verdade absoluta. Há uma parábola sufi que diz que Deus carregava um espelho e esse espelho era chamado “Verdade”. Um dia, ele deixou cair, e seu vidro se quebrou em inúmeros pedacinhos. Cada pessoa que descobriu um desses pedacinhos acreditou que havia descoberto toda a verdade, e foram raras as que chegaram à conclusão de que a verdade absoluta não pode nunca ser a propriedade de uma só pessoa, de uma só doutrina ou filosofia. É isto precisamente o ceticismo de Pirro: não uma negação da verdade, mas um reconhecimento de que ela só pode ser encontrada em parte, e somente por aqueles que não desistiram de continuar investigando.

[2] Infelizmente é muito comum encontrarmos entre os que se satisfazem com dogmas e certezas absolutas gente que não está aqui em busca de uma verdade para satisfazer as suas dúvidas internas, mas antes para expô-la aos demais, por vezes de forma grosseira e violenta, numa necessidade quase que insaciável de “ter razão”. Ironicamente, tais pessoas são as que se encontram, quase sempre, mais distantes da razão.

[3] O ceticismo moderno está, talvez irremediavelmente, contaminado pelo positivismo da Academia. O que isto quer dizer, basicamente, é que hoje é muito comum crermos que nossas dúvidas só podem ser solucionadas por comprovações objetivas, muitas vezes em um laboratório, e acompanhadas por calhamaços de estudos científicos e/ou estatísticas. Isto é bom, por exemplo, para o desenvolvimento da tecnologia; mas é muito ruim para o desenvolvimento do ser humano. Os céticos antigos questionavam tudo, é verdade, mas também aceitavam as comprovações subjetivas de suas próprias experiências pessoais, ainda que não pudessem, com isso, “evangelizar” suas comprovações adiante. Ocorre que Pirro e seus seguidores não perdiam seu tempo tentando convencer os outros de nada – nem do que existe, nem do que não existe.

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Crédito da imagem: Google Image Search

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13.10.15

Sheldrake contra a ortodoxia científica

Entre 2007 e 2008, quando participava de produtivos fóruns de discussão online sobre fé e razão no saudoso Orkut, acabei dialogando com um sujeito (que chamarei aqui de Flávio, embora não seja o nome real, pois não se trata de pessoa pública) que tinha uma fé cristã tão arraigada que acreditava piamente que tudo o que ocorria no universo era uma ação direta de Deus.

Me lembro de haver perguntado ao Flávio assim: "Mas se eu estou aqui digitando e discordando de você, pois creio que guardo uma certa liberdade própria, então seria Deus que estaria me fazendo digitar cada tecla do meu teclado e enviar esse texto para você?"... Flávio respondeu que sim. Esse tipo de negação total de qualquer espécie de liberdade ou livre-arbítrio sempre me pareceu um tanto radical, embora não admirasse menos a fé de Flávio por conta disso, visto que ele sempre me tratou educadamente, apesar de discordar do meu pensamento.

O mesmo tipo de espanto eu senti ao me deparar com os materialistas mais radicais, ou poderia-se dizer, mais fiéis a premissa básica do materialismo. Filósofos como o americano Daniel Dennett defendem que a consciência não existe, e aquilo que entendemos pelo "ato de se estar consciente" não passa de uma ilusão cerebral. Materialistas eliminativos como Dennett creem piamente que todas as nossas escolhas são fruto de reações químicas em nosso cérebro, e que os cerca de 4% da matéria e energia detectadas no universo são suficientes para explicar todos os processos conscientes.

Eu continuo até hoje espantado com o fato da mente humana conseguir chegar a extremos de crença como os dois citados acima, e até já escrevi um artigo sobre isso...

Mas felizmente existem mentes mais céticas e curiosas, que ainda creem não somente em sua própria liberdade de conhecer e questionar o mundo, como conseguem fazer isso através do próprio método científico. Nesta palestra para o TED, o biólogo britânico Rupert Sheldrake questiona diretamente os maiores dogmas do materialismo científico, e critica a Academia por limitar o escopo da ciência moderna ao se manter presa a dogmas do século XIX. O mais interessante é que Sheldrake não é um "cientista qualquer": possui mais de 80 artigos científicos publicados (inclusive na Nature), além de 10 livros (um deles o monumental Ciência sem Dogmas, que ele menciona no vídeo) e diversos artigos que ainda hoje aparecem com certa regularidade em reconhecidos jornais ingleses.

Talvez por isso tal palestra tenha sido "banida" do canal do TED no YouTube, devido a pressão de cientistas mais ortodoxos, digamos assim. É claro que isso só fez o interesse pelo que Sheldrake diz nela aumentar enormemente, de modo que somente um dos "espelhos" dela no YouTube já se aproxima de um milhão de visualizações.

Antes de escutarem ao que ele tem a dizer, no entanto, vale lembrar duas coisas: (1) A intenção de Sheldrake não é substituir o dogma materialista por algum dogma religioso, tanto pelo contrário – a despeito do que dizem por aí, as suas teorias também vão contra visões de mundo muito mais antigas do que o materialismo do século XIX; (2) O fato de Sheldrake chegar a questionar consensos estabelecidos, como até mesmo se a velocidade da luz é realmente constante, não significa que ele tenha razão em sua crítica, apenas levanta uma via de pesquisa que pode eventualmente nos trazer uma visão mais abrangente das "leis naturais" – o que é certamente mais de acordo com a ciência genuína do que termos a velocidade da luz estabelecida "por decreto", como ocorre hoje.

E agora, com vocês, o homem que desafiou a Academia:

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Crédito da imagem: Google Image Search/Red Ice Radio

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19.1.15

Crer para compreender, compreender para crer

Não devemos confundir razão com comprovação científica.

Antes de todos os cientistas acreditarem em sua teoria, Einstein teve de ter fé na concepção do espaço e do tempo como dimensões de uma mesma substância. Isso não era uma ideia simples para a época, e 99% das pessoas diriam que ele estava louco por pensar em algo assim.

A comprovação, veio só depois...

Mas a razão sempre esteve presente. Por isso muitos de nós hoje compreendemos que o espaço e o tempo formam um conjunto chamado espaço-tempo... O que um dia foi a fé de um cientista visionário, hoje é a razão e a compreensão de muitos de nós.

Primeiro, Einstein contemplou, intuiu, vislumbrou e acreditou na possibilidade, depois através da razão a compreendeu, e finalmente elaborou sua teoria – que eventualmente foi comprovada pela ciência. Ou seja: crer para compreender, compreender para crer. É um caminho sem fim, ou poderia-se dizer que "o Grande Mistério" estará nos esperando no final...

Não importa, não há um final.

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20.5.14

O encontro de Carl Sagan e Dalai Lama

Carl Sagan e Dalai Lama

Este vídeo – na verdade o vídeo de uma projeção – está em péssima qualidade, mas por se tratar de uma conversa entre dois seres plenos de espiritualidade, achei por bem trazer para cá...

Em 1991 o Dalai Lama, líder espiritual tibetano que foi obrigado a se exilar de sua terra natal devido a opressão do governo chinês, concedeu uma entrevista a Carl Sagan, provavelmente o maior divulgador de ciência do século XX, e que também sempre demonstrou interesse genuíno pela história das religiões – particularmente as orientais.

O que vemos no vídeo acima é, no entanto, apenas uma parte do diálogo, que transcrevo abaixo [as notas ao final são minhas]:


[Carl] Então deixe-me perguntar agora, se me permite, algumas perguntas sobre religião... O que acontece se a doutrina de uma religião, digamos o budismo, seja contrariada por algum achado, alguma descoberta na ciência, digamos, o que um crente no budismo faz nesse caso?

[Dalai] Para os budistas isso não é um problema. O próprio Buda deixou claro que o importante é a sua própria investigação. Você deve conhecer a realidade, não importa o que a escritura diz.

No caso de você encontrar uma contradição, em oposição a explicação das escrituras, então você deve confiar na descoberta em vez da escritura [1].

[Carl] Isso não é muito parecido com a ciência?

[Dalai] Sim, isso mesmo. Então eu acho que o conceito budista básico é que no início vale mais a pena permanecer cético [2]. Em seguida, realizar experimentos através de meios externos, bem como meios internos.

Se através da investigação as coisas se tornarem claras e convincentes, então é hora de aceitar ou acreditar [3]. Se, por meio da ciência, existir prova de que após a morte não há continuidade da mente humana, ou continuidade da vida; se isto for provado, então teoricamente falando, os budistas terão de aceitar isso [4].

[Carl] Então, o que isso faria com a doutrina da reencarnação?

[Dalai] Bem, eu não acho que, veja você, no que diz respeito à existência de uma continuidade da mente ou da vida após a morte... Esse conceito [a reencarnação], eu acho, tem mais razões coerentes.

Embora a aceitações desse tipo de teoria não consiga resolver todas as suas dúvidas, e não podem lhe dar a satisfação completa, ainda assim, tal teoria ainda é melhor do que a teoria da não-existência. Se não houver continuidade da vida, ou do ser, então a questão permanece: Qual a causa original de todas as galáxias, incluindo este planeta?

Por exemplo, há a Teoria do Big Bang... Tudo bem se foi assim que aconteceu, mas não importa... Então, por que aconteceu? [5] Então, ou você tem de aceitar que as coisas acontecem por acaso [6], sem uma causa específica, o que é desconfortável, pois várias perguntas permanecem; ou outra explicação seria [a existência de] um Criador.

Do ponto de vista budista, isso também não soa como resposta. Por que é que um Criador cria essas coisas? Mais perguntas permaneceriam...

[Carl] Então, você acredita em Deus?

[Dalai] Deus, no sentido de alguma realidade última – então sim, nós aceitamos isso. Mas Deus no sentido de um Criador todo-poderoso, os budistas não aceitam.

[Carl] Portanto, não há constatação concebível da ciência que faria você dizer que a doutrina budista está errada, ou que você não é mais um budista?

[Dalai] Eu acho que uma descoberta científica [realizada] através de cuidadosos experimentos, isto os budistas terão de aceitar de uma vez. Sem problemas.

Alguns cientistas, ou alguns budistas com mentalidade científica – como acho que deveríamos chamá-los –, dizem que não consideram o budismo como uma religião, mas sim uma ciência da mente. Às vezes eles chamam o budismo de uma ciência interior...

Assim, de acordo com a minha própria experiência, como resultado de me encontrar com cientistas – nos últimos anos tive muito contato com eles –, principalmente no campo da cosmologia, da neurobiologia, e também da física, principalmente no campo da mecânica quântica; e, claro, da psicologia – acho que nestes campos há muitos paralelos em comum.

Acho que nessas discussões que realizamos ao longo desses campos [7]... Eu como budista me beneficiei muito do que aprendi com suas descobertas. É muito útil para um budista [participar dessas conversas]. Ao mesmo tempo, alguns cientistas também mostram um interesse genuíno nas explicações budistas para os assuntos envolvidos.

E uma coisa é muito clara: No que diz respeito as ciências mentais, o budismo é altamente avançado.

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[1] Reparem que o Dalai Lama fala em “nossa própria investigação”. Enquanto Sagan afirma que “alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias”, há muitos que se comprazem com o fato de muitas alegações espiritualistas não haverem (ainda) sido comprovadas em laboratório. Porém, a espiritualidade (e particularmente o budismo) vive de evidências extraordinárias, porém subjetivas. O máximo que conseguimos medir por aparelhos, até o momento, é o estado cerebral de monges budistas em meditação – e isto já é material para anos e anos de estudo. Sobre o tema, recomendo a leitura do livro O cérebro espiritual, do Dr. Mario Beauregard e Denise O’Leary (Ed. BestSeller).

[2] Eu pessoalmente estenderia este conselho a toda e qualquer prática espiritualista. Não há como se crer profundamente sem haver tido a experiência, é como “acreditar que a água do mar é salgada” porque se leu sobre isso nalgum livro... Mergulhar, e sentir o sal nos próprios lábios, é um outro nível de evidência – uma evidência que não se encontra em livros nem em experimentos científicos objetivos.

[3] Reparem como esta abordagem budista em nenhum momento procura “evangelizar” a própria crença, nem muito menos convencer ninguém de nada. O budismo, como ciência da mente, confia que cada um de nós – seres que possuem mentes – será capaz de, ao seu tempo, encontraras suas próprias evidências, e crer ou descrer por experiência própria. Isto nada tem a ver com evangelizações de crentes ou descrentes.

[4] Obviamente que, como Sagan gostava de dizer, “a ausência da evidência não é a evidência da ausência”, ou seja: é muito difícil comprovar objetivamente que algo não existe. No entanto, existem vários fenômenos “estranhos” que ocorrem em hospitais do mundo inteiro que parecem corroborar com uma ideia de continuidade da consciência durante o processo de morte. Sobre o tema, recomendo a leitura do livro O que acontece quando morremos, do Dr. Sam Parnia (Ed. Larousse).

[5] É precisamente esta abordagem que separa os espiritualistas dos cientistas mais céticos. Uma coisa é se perguntar, “Como funciona a gravidade, como ela afeta os corpos celestes?”, outra muito diferente é se perguntar, “Por que, afinal, existe a gravidade? Por que a Terra foi formada a partir da poeira estelar? Por que existe a vida?”.

[6] O que não é muito diferente de aceitar que não sabemos por que diabos elas acontecem, e desistimos de continuar tentando saber... É este o tal “desconforto” ao qual o Dalai Lama se refere. Talvez fosse mais honesto dizer, numa postura genuinamente agnóstica, “São tantas as variáveis em jogo que hoje o mistério do surgimento do espaço-tempo nos parece algo sem causa definida, pois é impossível conhecermos todas essas variáveis atualmente”. Segundo Immanuel Kant, tal mistério pode nunca ser totalmente solucionado...

[7] A visão preconceituosa de que os budistas ficam “meditando sem fazer nada isolados do restante do mundo” está um tanto distante da realidade. Se forem perguntar a um monge budista “o que ele faz além de meditar”, ficará um tanto surpreso com a sua agenda agitada – incluindo animadas discussões existenciais, científicas e filosóficas.

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Crédito da foto: Divulgação/Google Image Search (Carl Sagan e Dalai Lama)

Obrigado a Luc Anderssen por haver postado o vídeo legendado no YouTube

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