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28.4.09

Rumo as estrelas

Texto de Brian Greene no "Universo Elegante" (ed. Cia das Letras)

Embora estejamos tecnologicamente ligados à Terra e às suas cercanias no sistema solar, o poder do pensamento e da experimentação nos permite sondar as profundidades do espaço exterior e do espaço interior. Particularmente durante os últimos cem anos, o esforço coletivo de muitos físicos revelou alguns dos segredos mais bem guardados da natureza. E uma vez reveladas, essas jóias explicativas abriram novos panoramas sobre um mundo que pensávamos conhecer mas cujo esplendor nem sequer chegáramos perto de imaginar. Uma maneira de medir a profundidade de uma teoria física é verificar até que ponto ela desafia aspectos da nossa visão de mundo que antes pareciam imutáveis. Sob esse ponto de vista, a mecânica quântica e as teorias da relatividade foram muito além das nossas expectativas mais ousadas: funções de ondas, probabilidades, tunelamento quântico, o incessante tumulto das flutuações de energia no vácuo, o entrelaçamento do espaço e do tempo, a natureza relativa da simultaneidade, a curvatura do tecido do espaço-tempo, os buracos negros e o big-bang. Quem poderia pensar que a perspectiva intuitiva, mecânica e precisa de Newton se tornaria tão provinciana — que havia um mundo novo e extraordinário logo abaixo da superfície das coisas que vemos todos os dias?

Mas mesmo essas descobertas que sacodem os nossos paradigmas são apenas uma parte de uma história maior, que tudo abarca. Com uma fé inquebrantável em que as leis do que é pequeno e as do que é grande devem harmonizar-se em um conjunto coerente, os físicos prosseguem em sua luta incessante por encontrar a teoria definitiva. A busca ainda não terminou, mas a teoria das supercordas e a sua evolução em termos da teoria M já fizeram surgir um esquema convincente para a fusão entre a mecânica quântica, a relatividade geral e as forças forte, fraca e eletromagnética. Os desafios trazidos por esses avanços à nossa maneira de ver o mundo são monumentais: laços de cordas e glóbulos oscilantes que unem toda a criação em padrões vibratórios executados meticulosamente em um universo que tem numerosas dimensões escondidas, capazes de sofrer contorções extremas, nas quais o seu tecido espacial se rompe e depois se repara. Quem poderia ter imaginado que a unificação entre a gravidade e a mecânica quântica em uma teoria unificada de toda a matéria e de todas as forças provocaria uma tal revolução no nosso entendimento de como o universo funciona?

Não há dúvida de que encontraremos surpresas ainda maiores à medida que avançarmos na nossa busca de entender a teoria das supercordas de maneira total e factível do ponto de vista do cálculo. O estudo da teoria M já nos propiciou vislumbrar um reino estranho no universo, abaixo da distância de Planck, em que possivelmente não vigoram as noções de espaço e de tempo. No extremo oposto vimos também que o nosso universo pode ser simplesmente uma dentre inumeráveis bolhas que se espalham pela superfície de um oceano cósmico vasto e turbulento chamado multiverso. Essas idéias estão na vanguarda das especulações atuais e pressagiam os próximos saltos pêlos quais passará a nossa concepção do universo.

Temos os olhos fixos no futuro, à espera dos deslumbramentos que nos estão reservados, mas não devemos deixar de olhar também para trás e maravilhar-nos com a viagem que já fizemos. A busca das leis fundamentais do universo é um drama eminentemente humano, que expande a nossa visão mental e enriquece o nosso espírito. Einstein deu-nos uma descrição vívida da sua própria luta por compreender a gravidade: "os anos ansiosos da busca no escuro, que provocavam sentimentos intensos de angústia e alternâncias entre estados de confiança e de exaustão, e, finalmente, a luz". Aí vemos a profundidade desse drama humano. Todos nós buscamos a verdade, cada qual à sua maneira, e todos esperamos um dia poder dizer que sabemos por que estamos aqui. À medida que subimos a montanha do conhecimento, cada nova geração apoia-se sobre os ombros da anterior, aproximando-se coletivamente do cume. Não temos como prever se algum dia os nossos descendentes chegarão ao topo e gozarão da soberba vista que se abre sobre a vastidão e a elegância do universo, com clareza infinita. Mas ao trilharmos o caminho, subindo um pouco a cada nova geração, realizamos as palavras de Jacob Bronowski, que dizia que "a cada época corresponde um ponto de inflexão, uma nova maneira de ver e de afirmar a coerência do mundo". Hoje a nossa geração se maravilha com a nossa nova visão do universo — a nova maneira de afirmar a coerência do mundo — e cumpre assim o seu papel, contribuindo com um degrau a mais na escada humana que conduz às estrelas.

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Crédito da foto: mib_hr

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25.4.09

Falácia!

O texto abaixo usa passagens da Wikipedia e do artigo original de Azel no ateus.net

Segundo a Wikipedia uma falácia é um argumento logicamente inconsistente, sem fundamento, inválido ou falho na capacidade de provar eficazmente o que alega. O conhecimento do que é ou não um raciocínio falacioso certamente é um dos mais úteis que existem quando vamos analisar criticamente qualquer assunto. As falácias e inconsistências lógicas abundam em nossa sociedade e são utilizadas o tempo todo, como podemos verificar facilmente nos pronunciamentos de políticos demagogos, entre outros casos. O problema é que, de tão comuns, as falácias costumam ser usadas por descuido... Quem não se utilizou de alguma que atire a primeira ofensa!

Vejamos alguns exemplos mais comuns de falácias:

Raciocínio circular ou petição de princípios
Esse é um erro comuníssimo em debates ou pregações religiosas. Trata-se simplesmente de afirmar a mesma coisa com outras palavras. Alguns exemplos:

1. “Por que a Bíblia é a Palavra de Deus? Ora, porque ela foi inspirada pelo próprio Criador.”
2. “A Bíblia é perfeita porque é a Palavra de Deus. E como sabemos que ela é a Palavra de Deus? Pela sua perfeição.”

Esse exemplo é fácil de encontrar, especialmente nos meios evangélicos mais conservadores. É importante ressaltar que ele foi posto aqui apenas para ilustrar um tipo de raciocínio falacioso muito freqüente, não para desmerecer a Bíblia ou a crença de quem quer que seja. Um exemplo laico agora:

3. “Eu acho que alpinismo é um esporte perigoso porque é inseguro e arriscado.”

Dizer que algo é “inseguro e arriscado” não é o mesmo que dizer que ele é “perigoso”? Ora, o que essa “explicação" acrescentou que justificasse a idéia de que alpinismo é perigoso? Nada. Simplesmente repetiu-se a primeira afirmação com outras palavras.

Supersimplificação e raciocínio “8 ou 80”
Essas são praticamente inevitáveis, e se você não se deparar com elas, é porque está debatendo filosofia ou seu interlocutor é diplomata profissional. Um bom argumento deve resumir as questões em debate e simplificá-las para o leitor ou a audiência. Dizemos que há supersimplificação quando isso é feito de tal forma que muitos detalhes importantes são deixados de lado e o resumo feito só permite uma única conclusão. Exemplo:

1. “Os nazistas usaram alguns escritos de Nietzsche em sua propaganda. A irmã de Nietzsche era nazista. Portanto, Nietzsche era nazista.”

Já o raciocínio “8 ou 80”, conhecido também como falso dilema, é aquele que só admite duas possibilidades antagônicas numa determinada questão, mesmo que haja muitas mais, sendo que a pessoa que o utiliza está, claro, do lado certo. Essa falácia pode ser assim resumida:

2. “Ou você está totalmente certo ou eu estou totalmente errado.”
3. “A Bíblia alega ser a Palavra de Deus e sem erros. Se você achar um erro nela, então ela tem de estar totalmente errada.”

Generalização apressada
Falácia de generalização apressada, como o nome indica, é aquela em que uma pessoa constrói algumas premissas para um argumento e, em seguida, o conclui rápido demais. Noutras palavras, é tirar uma conclusão com base em evidências insuficientes, julgar todas as coisas de um determinado universo com base numa amostragem muito pequena. Conseqüentemente, ela passa por cima de detalhes, fatores, circunstâncias e mesmo dos casos que poderiam refutar a universalidade de suas premissas. É claro que todo argumento presume algum grau de generalização, mas, neste caso, ela é excessiva. Vejamos dois exemplos:

1. “Minha avó tem dor de cabeça crônica. Meu vizinho também tem e descobriu que o motivo é um câncer. Logo, minha avó tem câncer.”
2. “O pastor da igreja X roubou o dinheiro dos fiéis. Fulano é pastor. Logo, também é ladrão.”
3. “Meu tio é candomblecista e já matou um bode para oferecer ao orixá. Beltrano foi ao terreiro de candomblé. Logo, ele também mata animais para o orixá.”

Ataque pessoal ou argumento ad hominem
Essa falácia é fácil de reconhecer. Consiste simplesmente em atacar uma pessoa em vez dos argumentos que ela expõe, usar um traço de seu caráter como pretexto para desqualificar ou ignorar o que ela diz. Pode ser usado quando não se sabe como refutar o que o oponente diz ou simplesmente por excesso de preconceito, sendo um meio muito cômodo (e desonesto) de fugir do debate. Vejamos:

1. “O que Fulano diz sobre o balanço da empresa não pode ser levado a sério, afinal ele traiu a mulher.”
2. “O senhor não tem autoridade para criticar nossa política educacional, pois nunca concluiu uma faculdade.”
3. “A religião é uma coisa má. Veja só quantas guerras foram provocadas por ela.”

Apelo à ignorância
Resume-se na frase “ausência de evidência não é evidência de ausência”. Consiste em usar a falta de provas (ou a inabilidade do oponente em apresentá-las) a favor ou contra algo para provar uma outra tese.

1. “Você não tem provas de que Deus existe. Logo, ele não existe.”
2. “Você não tem provas de que Deus não existe. Logo, ele existe.”

Apelo à multidão
Quem conhece a expressão “maria-vai-com-as-outras” certamente saberá quando uma falácia de apelo à multidão está sendo usada. Basicamente, esse é o tipo de raciocínio que diz “se todos fazem, então eu devo fazer também”. Políticos bons de voto adoram essa linha de argumento, religiosos proselitistas também.

1. “Você não acha que se uma religião cresce tanto em tão pouco tempo é porque Deus está com ela?”
2. “Dez milhões de pessoas não podem estar erradas. Junte-se à nossa igreja você também.”

Premissas contraditórias
Quando as bases do argumento são mutuamente excludentes. Por exemplo:

1. “O que acontece quando uma força irresistível encontra um obstáculo irremovível?”

Ora, o erro aqui é que não existe força irresistível. Se existisse, então não haveria um obstáculo irremovível, e vice-versa. Logo, se a pergunta não é coerente consigo mesma, não pode haver resposta.

2. “Se Deus pode tudo, ele poderia fazer uma pedra tão pesada que nem ele mesmo pudesse levantar?”

Novamente, a pergunta não faz sentido, pois admitir que Deus pode criar tal pedra é admitir também que ele não pode tudo; e admitir que ele não pode criar a pedra é o mesmo que negar sua onipotência. Então, não se tem aí nenhum fundamento que possa dar margem a um raciocínio legítimo.

Redução ao absurdo
É um raciocínio levado indevidamente ao extremo. Designado apropriadamente em inglês pela expressão “slippery slope”, ou seja, rampa escorregadia, na qual um simples empurrão basta para que se perca totalmente o controle. Essa falácia pode ser expressa assim:

1. “Se você permite o aborto em casos de risco de vida para a mãe nos hospitais públicos, logo todo o mundo vai querer abortar por qualquer motivo, ninguém mais vai valorizar a gravidez e a taxa de natalidade vai acabar despencando, prejudicando a economia do país.”
2. “A crença na vida após a morte é perniciosa, pois quem acredita nisso sempre vai achar que as coisas vão melhorar no Além e, portanto, vai se acomodar à sua situação atual, não lutar por seus direitos e permanecer em tamanha inatividade que a nação logo vai estar subjugada pelos exploradores internacionais. É por isso que nosso país seria muito melhor se todos fossem ateus.”
3. “Se deixarmos o governo vender uma estatal hoje, daqui a dois ou três anos o país inteiro vai estar nas mãos do empresariado internacional.”

Certamente a lista seria interminável...

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Crédito da foto: IdleMindedLee

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23.4.09

Jesus, o Ídolo dos Ateus

O ocultista Marcelo Del Debbio nos traz, em seu blog, um texto extraordinário sobre a origem do ateismo:

O termo atheos surgiu durante a Grécia Antiga, em aproximadamente 500 AC, onde o termo significava “sem Deus”, ou “aquele que cortou seus laços com os deuses” e designava um sacerdote que estava rompendo seus laços com seu antigo templo. O termo foi muito usado nos primeiros séculos após as pregações do Avatar Yeshua, em debates entre helenistas (os sacerdotes gregos), essênios e outras facções de cristãos primitivos (antes do Vaticano) onde cada um dos lados usava o termo para designar pejorativamente o outro. Este termo nunca era designado para um membro do povão e seria impensável alguém se auto-proclamar “ateu”. Era o equivalente a um xingamento.
E Jesus, para os helenistas, era o exemplo máximo dos ateus.

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22.4.09

Física, arte e simetria

Texto de Brian Greene no "Universo Elegante" (ed. Cia das Letras)

Juízos estéticos não solucionam problemas científicos. Em última análise, as teorias são julgadas pela maneira como se comportam diante dos resultados frios e implacáveis das experiências. Essa última observação merece, no entanto, uma qualificação de imensa importância. Enquanto uma teoria está em construção, o seu estado incompleto de desenvolvimento muitas vezes impede a comprovação experimental de suas implicações específicas. De toda maneira, os físicos são forçados a fazer escolhas e julgamentos a respeito da direção a ser dada às pesquisas relativas à nova teoria. Algumas dessas decisões são ditadas pela coerência lógica interna; é justo requerer que uma teoria sensata não caia em absurdos lógicos. Outras decisões são guiadas por uma avaliação das implicações qualitativas das experiências realizadas em um contexto teórico com relação a outro; em geral, não nos disperta interesse uma teoria que não tenha a capacidade de relacionar-se com alguma coisa que exista no mundo à nossa volta.

Mas é bem verdade que algumas decisões dos físicos teóricos baseiam-se no sentido da estética - a sensação de que as estruturas teóricas têm uma elegância e uma beleza naturais, que condizem com o que vemos no mundo físico. Evidentemente, nada garante que essa estratégia conduza à verdade. Quem sabe, no âmbito mais profundo, a estrutura do universo não é tão elegante quanto a nossa experiência nos levou a crer, ou quem sabe, ainda, venhamos a descobrir que os nossos critérios estéticos precisam sofisticar-se muito mais para que possamos aplicá-los a situações pouco comuns.

De todo modo, especialmente agora, quando entramos em uma era em nossas teorias descrevem áreas do universo que dificilmente podem ser alcançadas experimentalmente, os físicos recorrem à estética para guiá-los pelos caminhos, e evitar obstáculos e becos sem saída. Até aqui, esse procedimento tem propiciado orientação válida e esclarecedora.

Na física como na arte, a simetria é parte integrante da estética. Mas na física, ao contrário da arte, a simetria tem um significado muito concreto e preciso.

(...)

Os cientistas descrevem duas propriedades das leis físicas - o fato de que elas não dependem da ocasião (tempo) ou do lugar (espaço) em que foram invocadas - como simetrias da natureza. Com isso eles querem referir-se ao fato de que a natureza trata todos os momentos do tempo e todos os lugares do espaço de forma idêntica - simétrica -, fazendo com que as mesmas leis estejam em operação em todas as partes. O efeito causado por essas simetrias é o mesmo que exercem na música e na arte em geral - o de uma profunda satisfação; eles revelam ordem e coerência no funcionamento da natureza. A elegância, a riqueza, a complexidade e a diversidade dos fenômenos naturais que decorrem de um conjunto simples de leis universais é parte integrante do que os cientistas querem dizer quando empregam o termo "beleza".

(...)

Na verdade, seguindo cuidadosamente essa noção precisa de simetria até as suas últimas implicações matemáticas, no transcurso das últimas décadas os cientistas apresentaram teorias em que as partículas de matéria e as partículas mensageiras têm uma relação muito mais íntima do que antes se pensava ser possível. Tais teorias, que unem não só as forças da natureza mas também os componentes materiais, contêm o maior grau possível de simetria e por essa razão são chamadas supersimétricas. A teoria das supercordas é, ao mesmo tempo, a pioneira e o exemplo máximo dos esquemas supersimétricos.

***

Crédito da imagem: Mandelbot set (passo 11)

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8.4.09

Sobre o Pseudo-ceticismo

Marcello Truzzi, publicado no The Zetetic Scholar, #12-13, 1987

Tradução e post original: Ceticismo Aberto

Ao longo dos anos, tenho condenado o mau uso do termo "cético" quando usado para se referir a todos os críticos de alegações sobre anomalias. Infelizmente o termo tem sido abusado desta forma tanto por proponentes quanto por críticos do paranormal. Às vezes os usuários do termo distinguem entre os assim chamados céticos "leves" [soft] contra os céticos "duros" [hard], e eu reavivei em parte o termo "zetético" por causa deste mau uso. Mas agora penso que os problemas criados vão além de mera terminologia e a situação precisa ser passada a limpo. Uma vez que "ceticismo" corretamente se refere à dúvida em lugar da negação -- não-crença em lugar de crença -- críticos que tomam a posição negativa em lugar da agnóstica, mas ainda se chamam "céticos", são de fato pseudo-céticos e têm, creio eu, ganhado uma falsa vantagem usurpando esse rótulo.

Em ciência, o ônus da prova recai no alegador; e quanto mais extraordinária uma alegação, mais pesado é o ônus da prova exigido. O verdadeiro cético toma uma posição agnóstica, uma que diz que a alegação não está provada em lugar de desprovada. Ele afirma que o alegador não sustentou o ônus da prova e que a ciência deve continuar construindo seu mapa cognitivo da realidade sem incorporar a alegação extraordinária como um "fato" novo. Considerando que o verdadeiro cético não faz uma alegação, ele não tem nenhum ônus para provar qualquer coisa. Ele apenas continua usando as teorias estabelecidas da "ciência convencional" como sempre. Mas se um crítico afirma que há evidência para refutação, que ele tem uma hipótese negativa -- dizendo, por exemplo, que um aparente resultado psi era de fato devido a uma falha nos processos de controle ou análise [artifact] -- ele está fazendo uma alegação e então também tem que lidar com o ônus da prova. Às vezes, tais alegações negativas por críticos também são bastante extraordinárias -- por exemplo, que um OVNI era de fato um plasma gigantesco, ou que alguém em uma experiência psi obtinha pistas por uma habilidade anormal de ouvir tons altos que outros com ouvidos normais não notariam. Em tais casos o alegador negativo também deve ter que lidar com um ônus de prova mais pesado que o normalmente esperado.

Críticos que fazem alegações negativas, mas que erradamente se chamam "céticos", freqüentemente agem como se não tivessem absolutamente nenhum ônus da prova sobre eles, ainda que tal posição só seria apropriada para o cético agnóstico ou verdadeiro. Um resultado disto é que muitos críticos parecem sentir que só é necessário apresentar um caso para sua contra-alegação fundado em plausibilidade em lugar de evidência empírica. Assim, se pode ser demonstrado que um indivíduo em uma experiência psi teve uma oportunidade para fraudar, muitos críticos parecem assumir não somente que ele provavelmente fraudou, mas que deve ter fraudado, apesar do que pode ser uma ausência completa de evidência de que ele realmente fraudou e algumas vezes até mesmo ignorando evidência da reputação passada do indivíduo de honestidade. Similarmente, às vezes procedimentos de randomização impróprios são assumidos como sendo a causa de indicadores psi altos de um indivíduo, embora tudo que tenha sido estabelecido seja a possibilidade de que tal efeito tenha sido a causa real. É claro, o peso evidencial da experiência está muito reduzido quando nós descobrimos uma falha em seu projeto que permitiria que um efeito confundisse os resultados. Descobrir uma oportunidade de erro deveria fazer tais experimentos menos evidenciais e normalmente não convincentes. Isso normalmente contesta a alegação de que a experiência era "à prova de erro", mas não contesta a alegação de anomalia.

Mostrar que uma evidência não é convincente não é suficiente para descartá-la completamente. Se um crítico afirma que o resultado era devido à falha X, esse crítico tem então o ônus da prova de demonstrar que a falha X pode e provavelmente produziu tal resultado sob tais circunstâncias. É verdade que em alguns casos a atração pela mera plausibilidade de que uma falha produziu o resultado pode ser tão grande que quase todos aceitariam o argumento; por exemplo, quando nós descobrimos que alguém que fraudou no passado teve uma oportunidade de fraudar neste caso, poderíamos concluir razoavelmente que ele provavelmente também fraudou desta vez. Mas em muitos casos o crítico que faz um argumento meramente plausível para uma falha fecha a porta em pesquisas futuras quando a ciência apropriada exige que sua hipótese de uma falha também deveria ser testada. Desafortunadamente, a maioria dos críticos parece feliz em sentar em suas poltronas produzindo explicações post hoc [1]. Seja que lado termine com a história verdadeira, a ciência progride melhor através de investigações em laboratório.

Por outro lado, proponentes de uma alegação de anomalia que reconhecem a falácia anterior podem ir muito longe na outra direção. Alguns argumentam, como Lombroso quando ele defendeu a mediunidade de Palladino, que a presença de peruca não nega a existência de cabelo de verdade. Todos nós temos que nos lembrar de que a ciência pode nos contar o que é empiricamente improvável, mas não o que é empiricamente impossível. Evidência em ciência sempre é uma questão de grau e raramente é, se é que é alguma vez, absolutamente conclusiva. Alguns proponentes de alegações de anomalias, como alguns críticos, parecem pouco dispostos em considerar evidências em termos probabilísticos, agarrando-se a qualquer fio solto como se o crítico tivesse que contestar toda a evidência avançada para uma alegação particular. Tanto críticos quanto proponentes precisam aprender a pensar em adjudicação na ciência mais como a encontrada nos tribunais de lei, imperfeita e com graus variados de prova e evidência. Verdade absoluta, como justiça absoluta, raramente é alcançável. Nós podemos apenas fazer o melhor que podemos para nos aproximar delas.

Nota do editor do Ceticismo Aberto: Marcello Truzzi veio a falecer no dia 2 de fevereiro de 2003 aos 67 anos de idade. Ele foi um dos fundadores do movimento cético moderno, criando o periódico Zetetic e sendo, lado a lado com Paul Kurtz, fundador e co-presidente do CSICOP, organização que deixou pouco tempo depois devido a discordâncias em abordagens como a exposta no comentário acima. Ele criou então o Center for Scientific Anomalies Research e o The Zetetic Scholar.
Truzzi foi rigoroso tanto com críticos quanto com defensores de "anomalias" durante toda sua vida, condenando os excessos dos dois lados, o que não paradoxalmente revelava uma abordagem saudavelmente aberta e flexível. A perda é enorme para todos nós.

[1] Um exemplo clássico, envolvendo James Randi e João de Deus, está relatado neste blog.

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1.4.09

Poemas de amigos

Estive de férias (inclusive do blog) e andei pensando em retornar a aventura de se escrever um livro. Porisso talvez não consiga manter o mesmo ritmo de postagens dos últimos meses... No entanto, sempre posso contar com pérolas que andei guardando em meu caminho, estas vieram de amigos meus, uns desencarnados, outros ainda encarnados:

Ilusionismo

O sol deita-se
sobre o cimento frio,
e a calçada,
aos poucos,
consome-se e arde,
em invisíveis chamas
de silêncios roucos.

Há uma luz coberta
de lírios mortos,
e línguas secas.
Há um profundo
rumor de ventos e almas.

Levante-se.
Que há neste teu sono
corroído por mortes
anunciadas?
O que encontra-se
neste vazio calmo,
que calcina tua alma?

E esta tenda
de sombras,
que insiste
em manter-se estática.
E estas mãos,
estas mãos sem toque.

O que existe
entre tu e teu sonho?
Que mórbida insânia
te conduz,
por entre restos
de ossos e mágoas?

Ah, e este caminho,
este caminho eterno,
em que seguem
meus pés cansados.

- este profundo rumor,
de ventos e almas.

Flavia Lopes, 1999

Ao Amigo, Nosso Trabalho

Se um dia me perguntares se a vida
É uma jornada válida pelas trevas,
Perguntaria se, nessa tragetória sofrida,
o homem é esperto suficiente, dentre as rélvas,
Para, no amor, aprender o que aprende na dor?

Todos nós choramos e depois sorrimos,
E choramos por mais um vez,
Dentro dessa nave louca, onde vimos
A morte nos sorrir, como um Cortéz,
no derradeiro dia, no Cabo da Boa Esperança.

Lutemos pela paz entre os irmãozinhos.
E se viver é morrer a cada instante,
Entregamo-nos, então, à eternidade.
Mas se viver é sofrer na escuridão,
Entregamo-nos de corpo e alma à caridade.

Otávio Fossá

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Crédito da foto: Luca Vezzoni

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20.3.09

O sistema da vida

Sistema: é um conjunto de elementos interconectados, de modo a formar um todo organizado.

Duas visões análogas a serem consideradas:

"Os organismos vivos podem obter sua energia de diferentes maneiras. Alguns, como os animais, os fungos e as bactérias que vivem no intestino humano, adquirem essa energia livre alimentando-se de outros organismos vivos ou de compostos orgânicos que eles produzem; esses organismos são chamados de organotróficos (do gênero trophos, que significa "alimento"). Outros, obtêm sua energia diretamente do mundo "não vivente". Estes se dividem em duas classes: os que obtêm energia da luz solar e aqueles que retiram energia de sistemas ricos em compostos químicos inorgânicos (sistemas químicos que estão longe do equilíbrio químico). Os organismos da primeira classe são chamados de fototróficos (alimentam-se da luz solar); os da segunda são chamados de litotróficos (que se alimentam de rochas). Os organismos organotróficos não sobrevivem sem os organismos conversores primários de energia, os quais constituem a maior parte da massa da matéria viva na Terra.

Para sobrevivermos, dependemos de organismos fototróficos, os quais incluem muitos tipos de bactérias, de algas e de plantas - e virtualmente todas as 'coisas vivas' que ordinariamente vemos ao nosso redor. Os organismos fototróficos mudaram toda a química de nosso ambiente: o oxigênio na atmosfera da Terra é um produto secundário de suas atividades biossintéticas.

Os organismos litotróficos não são tão obviamente observados em nosso mundo, provavelmente porque eles sejam organismos microscópicos e porque a maioria vive em lugares não-frequentados comumente pelos humanos - nos abismos oceânicos, no subsolo da crosta terrestre ou em vários ambiente inóspitos. Mas eles compreendem a maior parte do mundo vivo e são especialmente importantes em qualquer consideração a respeito da história da vida na Terra."

Trecho do Capítulo 1 (As Células Podem Ser Alimentadas por Várias Formas de Energia Livre) de "Biologia Molecular da Célula", diversos autores, editora Artmed.

***

"A lei do progresso não se aplica unicamente ao homem. Ela é universal. Há, em todos os reinos da natureza, uma evolução que foi reconhecida pelos pensadores de todos os tempos. Desde a célula verde, desde o embrião flutuando nas águas, a cadeia das espécies, no decurso de séries variadas, tem-se desenrolado até nós.

Nessa cadeia, cada elo representa uma forma de existência que conduz a uma forma superior, a um organismo mais rico, mais bem adaptado às necessidades, às manifestações crescentes da vida. Mas, na escala da evolução, o pensamento, a consciência, a liberdade aparecem apenas depois de muitos degraus. Na planta, a inteligência fica adormecida; no animal, ela sonha; apenas no homem ela acorda, conhece-se, possui-se e torna-se consciente*. A partir daí o progresso, de alguma sorte fatal nas formas inferiores da natureza, só pode realizar-se pelo acordo da vontade humana com as leis eternas."

Trecho de "O Problema do Ser, do Destino e da Dor", Leon Denis, editora FEB.

* Alguns atribuem a ele uma outra frase: "A alma dorme na pedra, sonha no vegetal, agita-se no animal e acorda no homem." - a qual é motivo de discussão, no entanto a analogia clara com o que a Biologia Moderna descobriu anos depois é muito pertinente a alguma reflexão acerca da vida. Basta lembrar que a idéia de que a vida também é encontrada em abundância no Reino Mineral, por vezes em simbiose com animais como vermes tubulares, é bastante nova na história da Humanidade, considerando-se a tecnologia e conhecimento necessários para chegar até ela.

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Crédito da imagem: Andy Cambiasso

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5.2.09

A discussão inútil

Trecho do livro "O problema do ser, do destino e da dor", de Léon Denis (publicado pela FEB - primeira edição, páginas 427-428):

"Não discutas, pois, mas trabalha. A discussão é vã, estéril é a crítica. Mas a obra pode ser grande, se consistir em te engrandeceres a ti mesmo, engrandecendo os outros, em fazeres o teu melhor e mais belo. Porque não deve esquecer que para ti trabalhas, trabalhando para todos, associando-te à tarefa comum. O Universo, como tua alma, renova-se, perpetua-se, embeleza-se sem cessar pelo trabalho e pela reciprocidade. Deus, aperfeiçoando sua obra, goza dela como tu gozas da tua, embelezando-a. Tua obra mais bela é tu mesmo. Com teus esforços constantes podes fazer de tua inteligência, de tua consciência, uma obra admirável, de que gozarás indefinidamente. Cada uma de tuas vidas é um cadinho fecundo do qual deves sair apto para tarefas, para missões cada vez mais altas, apropriadas às tuas forças e cada uma das quais será tua recompensa e tua alegria.

Assim, com tuas mãos irás, dia a dia, moldando teu destino."

***

Por vezes, ler Léon Denis chega a doer a alma, tantas as verdades que se insinuam sorrateiras por trás de sua magnífica escrita, e que nos fazem encarar nossos defeitos de frente. Será à toa que o "filósofo do Espiritismo" tinha seu nome circunscrito ao de Kardec (ou seja, Hippolyte Leon Denizard Rivail), ou será brincadeira de almas que já se encontraram muitas vezes no passado?

Léon Denis não foi perfeito, e guardava alguns defeitos próximos aos de Kardec (de certa forma, eram "almas-irmãs"), mas sua qualidade moral e intelectual superou em muito seus defeitos.

Nos dias atuais, em que ainda é tão comum vermos a discussão inútil entre espíritas e não espíritas, por se focar apenas "no que está provado e no que não está" ou "no que é condenado pela Bíblia e no que é permitido", vale a leitura e releitura dessa breve passagem (acima), a que eu resumiria assim: "uma discussão de crenças é vã, se não for constrututiva, se não for em prol da renovação moral de todos nós". Talvez, devêssemos discutir, se for o caso, sempre ao ar livre, de preferência no topo de uma montanha, para não esquecermos nem por um instante o quanto nossa discussão é pequena, e o quanto a Natureza é grande.

***

Veja outros livros de Léon Denis - download gratuíto.

Crédito da foto: Marcio Eugenio

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8.1.09

Um dragão na minha garagem

"– Um dragão que cospe fogo pelas ventas vive na minha garagem.

Suponhamos (estou seguindo uma abordagem de terapia de grupo proposta pelo psicólogo Richard Franklin) que eu lhe faça seriamente essa afirmação. Com certeza você iria querer verificá-la, ver por si mesmo. São inumeráveis as histórias de dragões no decorrer dos séculos, mas não há evidências reais. Que oportunidade!

– Mostre-me – você diz. Eu o levo até a minha garagem. Você olha para dentro e vê uma escada de mão, latas de tinta vazias, um velho triciclo, mas nada de dragão.

– Onde está o dragão? - você pergunta.

– Oh, está ali – respondo, acenando vagamente. – Esqueci de lhe dizer que é um dragão invisível.

Você propõe espalhar farinha no chão da garagem para tornar visíveis as pegadas do dragão.

– Boa idéia – digo eu –, mas esse dragão flutua no ar.

Então você quer usar um sensor infravermelho para detectar o fogo invisível.

– Boa idéia, mas o fogo invisível é também desprovido de calor.

Você quer borrifar o dragão com tinta para tomá-lo visível.

– Boa idéia, só que é um dragão incorpóreo e a tinta não vai aderir.

E assim por diante. Eu me oponho a todo teste físico que você propõe com uma explicação especial de por que não vai funcionar.

Ora, qual é a diferença entre um dragão invisível, incorpóreo, flutuante, que cospe fogo atérmico, e um dragão inexistente? Se não há como refutar a minha afirmação, se nenhum experimento concebível vale contra ela, o que significa dizer que o meu dragão existe? A sua incapacidade de invalidar a minha hipótese não é absolutamente a mesma coisa que provar a veracidade dela. Alegações que não podem ser testadas, afirmações imunes a refutações não possuem caráter verídico, seja qual for o valor que possam ter por nos inspirar ou estimular nosso sentimento de admiração. O que estou pedindo a você é tão-somente que, em face da ausência de evidências, acredite na minha palavra."

Carl Sagan - O Mundo Assombrado Pelos Demônios

***

Esse pequeno (e genial) jogo de palavras e significados resume quase perfeitamente a essência do pensamento cético. Muitos religiosos (e anti-religiosos) tem uma percepção errônea do ceticismo. Ceticismo não é simplesmente não acreditar em nada que não faça sentido em nossa realidade (a Física Quântica decerto faz muito menos sentido do que grande parte das teorias espiritualistas), mas sim só considerar aquilo que tem a possibilidade de ser comprovado.

Obviamente que as teorias para a existência do espírito tem sido classificadas como absurdas devido a imensa quantidade de fraudes que já foram verificadas ao longos dos anos. No entanto, poucos céticos se arriscam a tentar explicar o que não foi comprovado como fraude ainda, muito embora a ciência não explique. É tudo uma questão de compreensão de como as pessoas pensam, não podemos desmerecer os céticos que relutam em considerar teorias que para eles não tem a mínima conexão com sua realidade, mas também não podemos julgar os defensores de teorias espiritualistas como mistificadores e charlatões de antemão, mesmo porque a maioria deles não busca qualquer espécie de lucro em suas pesquisas; Buscam tão somente o mesmo que quase todos nós: compreender a Natureza.

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5.1.09

Suavizai o corte

Parte dos versos do Livro do Caminho Perfeito, o Tao Te Ching, que também consta em nossa lista de links (na home do blog):

Suavizai o corte
Desfazei os nós
Diminui o brilho
Deixai que as rodas percorram os velhos sulcos.
Devemos considerar nosso brilho
a fim de que nos harmonizemos, com a escuridão dos outros (...)

Verso 04 do Tao Te Ching

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6.11.08

Akiane

Amor

O amor nunca está só
O amor está sempre acompanhado
O amor é o eu compartilhado

Nós não podemos possuir nosso amor
Nós não podemos ensinar nosso amor

O maior suspiro de amor
é o caminho mais curto para os céus

A vida mais profunda é o amor
O amor mais profundo é um abraço

O amor não é descanso
O amor é paz
O amor é o sentido

Akiane Kramarik (escrito aos 11 anos de idade), tradução de Rafael Arrais.

*

Love

Love is never alone
Love is always crowded
Love is the shared self

We cannot own our love
And we cannot teach our love

The longest breath of love
is the shortest distance to heaven

The deepest life is love
The deepest love is an embrace

Love is not rest
Love is peace
Love is the purpose

Akiane Kramarik, age 11

*

Não nos lembramos mais de como era do outro lado do véu, mas por vezes nos enviam alguém que ainda se lembra. Literalmente, graças a Deus...

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7.10.08

O dinheiro que não existe

Estive viajando a trabalho, e agora que voltei, não posso deixar de comentar que o meu artigo sobre "A história do ouro" é perfeitamente válido para essa situação econômica atual. De fato, poderia discorrer aqui novamente sobre riquezas reais e imaginárias, assim como sistemas financeiros e sistemas morais... Mas felizmente o excelente jornalista Luciano Trigo me poupou o trabalho. Abaixo segue um trecho de seu artigo entitulado "O mundo não é plano":

A felicidade, aliás, virou uma obrigação individual — medida, naturalmente, em índices de consumo. Nossa felicidade deve passar por cima das mazelas sociais, dos sofrimentos alheios, da mesma forma que o imperativo do lucro fácil despreza prejuízos causados a terceiros, incluindo as gerações futuras. Elas que se virem. Neste novo modelo — sutilmente coercitivo — de comportamento, os bem-sucedidos têm direito à insensibilidade e à irresponsabilidade, e quem não consegue ser feliz é simplesmente um incompetente. Os excluídos deixaram de ser vítimas inocentes, aliás: são agora culpados de sua própria miséria. Eles, os não-consumidores, nem entram mais na pauta de discussões de quem manda de verdade no planeta.

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29.7.08

Dentre selvageria e compaixão

After telling you so much,
What do I have,
For my own sake?
For my own cries?
What have I touched,
What have I felt?
Amidst your many faces?
Hidden in thousand lies?

After wondering so much,
What have I seen,
With my own eyes?
By my own words?
What have I learned,
What have I found?
Trapped in years of waiting,
Drowned in phrases and rhymes?

After searching for so long,
What have I cried,
What have I broken?
Unless my troubled self,
Unless my vanity tides?
Surrounded by poems and books,
Amongst savageness and kind.

Untitled poem by Flávia Lopes

***

Depois de ter-lhe revelado tanto,
O que eu tenho,
Para minha causa?
Para meus prantos?
O que eu toquei,
O que eu senti?
Entre suas muitas faces?
Escondidas dentre mil mentiras?

Depois de refletir tanto,
O que eu vi,
Com meus próprios olhos?
Por minhas palavras?
O que eu aprendi,
O que eu encontrei?
Trancafiado em anos de espera,
Afogado em frases e rimas?

Depois de procurar todo esse tempo,
O que eu chorei,
O que eu quebrei?
A não ser meu ser incomodado,
A não ser minhas marés de vaidade?
Envoltas por poemas e livros,
Dentre selvageria e compaixão.

Poema sem título por Flávia Lopes, tradução de Rafael Arrais

***

A conversa (que não houve)

Já se perguntou, amiga, o que aqui fazemos?
Nesse telhado, de frente para o luar,
E os espaços infinitos entre as estrelas,
E os espaços finitos entre todos nós...
Já se perguntou, alguma vez,
O que será que estamos a observar?

Se dias e noites de transeuntes da cidade,
Ou noites e dias de gatos a pular, telha a telha,
Nos lençóis da madrugada.
Onde não existe tempo, não existe idade,
Mas somente a brisa noturna
A acalentar toda alma soturna...

Será que importa o preço do barril?
A nova tendência da moda praia?
O novo artilheiro da varsea?
Será que tudo não passa de uma grande brincadeira?
Ardil de anjos arteiros
Que mesmo nas noites de luar
Gargalham, incontroláveis, até a alegria findar?

E quem cai na armadilha de acreditar
Que somos apenas cidadãos de tal nação,
Trabalhadores orgulhosos de tal corporação,
Fiéis de alguma ou qualquer religião...
Espera sempre pelo céu que há no porvir,
Mas nunca, nunca se prepara,
Para qualquer frustração que há de vir...

Será que existe o telhado?
Será que existe essa conversa?
Será que existem gatos a pular?
Ou, antes de tudo isso,
Existem amigos, e amizades,
Existem seres conscientes de si,
E consciências etéreas, esvoaçantes...
Indetectáveis senão pelo amor, e pela dor,
De observar ao mais belo luar
Sem ter minha amiga para conversar?

raph'08

***

Para Flávia.

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13.6.08

Mistérios da Pineal

Complementando o post anterior, mais informações sobre a Glândula Pineal e o que os espiritualistas chamam de "terceiro olho" em diversas religiões:

Mistérios do terceiro olho
Tão pequena quanto uma ervilha e na forma de pinha – daí o seu nome –, a glândula pineal é considerada como um terceiro olho, pois tem a mesma estrutura básica de nossos órgãos visuais. Acreditava-se, até há pouco tempo, que era um órgão atrofiado, um olho não desenvolvido, de funções indefinidas. Mesmo assim, despertou o interesse dos cientistas, que descobriram funções relacionadas à física e aos fenômenos paranormais.

Antena Parabólica
Constataram que, como uma antena, a pineal, também chamada de epífise, é capaz de captar radiações eletromagnéticas da lua – que regula ciclos menstruais, por exemplo –, as radiações eletromagnéticas vindas do sol e ainda despertar a produção de certas substâncias neurotransmissoras, que estimulam a atividade física e mental. Também é a glândula pineal que ativa a produção de hormônios sexuais no início da puberdade, iniciando-se assim o ciclo da reprodução humana. Nos animais (sim, ela também está presente neles), capta os campos eletromagnéticos da Terra, orientando as migrações das andorinhas ou das tartarugas, por exemplo. E há ainda funções muito intrigantes relacionadas a esse ponto no centro do cérebro. A pineal é capaz de captar campos eletromagnéticos não apenas desta dimensão, onde vivemos, que é a terceira, mas também de outras dimensões do Universo, acessando campos espirituais e sutis. Segundo a Teoria das Supercordas, da física quântica, existem ao menos 11 dimensões diferentes no Universo e é possível a comunicação entre elas. Em outras palavras: a pineal é capaz de detectar dimensões invisíveis aos olhos comuns, e esse pequeno radar está relacionado a fenômenos como clarividência (vidência de acontecimentos ainda não ocorridos), telepatia (comunicação por meio do pensamento) e capacidade de entrar em contato com outras dimensões (mediunidade).

Feito de cristal
Após analisar a composição da glândula pineal, detectou-se na sua estrutura cristais de apatita, mineral também encontrado na natureza sob a forma de pedras laminadas. Segundo as pesquisas, esse cristal capta campos eletromagnéticos. E o plano espiritual age por meio desses campos. A interferência divina sempre acontece obedecendo as leis da própria natureza. “Os médiuns, pessoas capazes de entrar em contato com outras dimensões espirituais, apresentam maior quantidade de cristais de apatita na pineal. Os iogues e místicos, que experimentam estados de meditação e êxtase profundos, têm menor quantidade. E ninguém pode aumentar ou diminuir essa concentração de cristais, ela é uma característica biológica, assim como a cor dos olhos e cabelos. A glândula é um receptor poderoso, mas quem decodifica as informações recebidas são outras áreas do cérebro, como o córtex frontal cerebral. Sem essa interação, as informações recebidas não são compreendidas. É por isso que os animais não podem decodificá-las: as outras partes do cérebro deles não têm esse atributo.

Onde mora a alma
No Ocidente, a importante função dessa glândula foi descrita no livro A Terceira Visão (ed. Nova Era), escrito por um inglês que adotou o pseudônimo de Lobsang Rampa. O filósofo e matemático francês René Descartes (1596-1650) também se curvou ao fascínio da pineal. Na sua famosa Carte a Mersenne, escrita em 1640, ele afirmava que existe no cérebro uma glândula que é o local onde a alma se fixa mais intensamente. As religiões também consideram o terceiro olho como um centro de percepção espiritual.

Para os espíritas – As funções espirituais e psíquico-espirituais da pequena glândula eram consideradas pelo fundador do espiritismo, Allan Kardec (1804-1869), no século 19, e foram descritas no livro Missionários da Luz (ed. FEB), psicografado pelo médium Francisco Cândido Xavier (1910-2002) e publicado pela primeira vez em 1958. Segundo o livro, a melatonina, o hormônio segregado pela pineal, gera os impulsos para as experiências que promovem seu desenvolvimento espiritual.

Para os hindus – Na antiga tradição da Índia, dois chacras, ou centros de energia, são responsáveis pelo desenvolvimento da espiritualidade: o chacra do terceiro olho, que fica na testa, um pouco acima da linha das sobrancelhas, e o chacra coronário, no topo da cabeça. Esses dois centros, que captam e transmitem energia vital, dizem os indianos, revelam informações espirituais que influem em nossas ações e escolhas. O chacra do terceiro olho é responsável pela clarividência e pela criatividade. O centro coronário nos reabastece de energia cósmica e nos dá força espiritual. As cores relacionadas ao chacra que fica no alto da cabeça são o branco, o violeta e o dourado. Está ligado ao canal central de energia que passa pela coluna vertebral. Ele rege a glândula pineal, que, para os hindus, é o principal órgão do corpo. É a representação do céu dentro do homem e está associada às qualidades mais puras e elevadas que temos dentro de nós. Já o chacra do terceiro olho está ligado à tonalidade azul-índigo e à glândula pituitária, que também fica no cérebro. Ele influencia todas as formas de expressão, capacidade artística e intelectual.

Para os cristãos – Ela representa o Filho de Deus em nós, nossa consciência espiritual e amorosa, alimentada pela vontade divina que nos chega dos céus e o amor que vem do nosso coração. Ela é a única glândula do corpo diretamente ligada à Consciência Superior.

FONTE: Anônima, retirado deste link.

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28.5.08

Céu de Liberdade

Onde a mente encontra-se sem medo e a cabeça é mantida erguida
Onde o conhecimento é livre
Onde o mundo não foi quebrado em fragmentos
Por estreitos muros domésticos
Onde as palavras vêm da verdade profunda
Onde laboriosas lutas esticam seus braços em direção à perfeição
Onde o riacho límpido da razão não perdeu o seu rumo
Afluindo ao triste deserto dos hábitos moribundos
Onde a mente é direcionada adiante por você
A pensamentos e ações sempre em constante afloramento
Nesse céu de liberdade, Pai, deixe meu país acordar

Rabindranath Tagore (tradução de Rafael Arrais)

*

Heaven of Freedom

Where the mind is without fear and the head is held high
Where knowledge is free
Where the world has not been broken up into fragments
By narrow domestic walls
Where words come out from the depth of truth
Where tireless striving stretches its arms towards perfection
Where the clear stream of reason has not lost its way
Into the dreary desert sand of dead habit
Where the mind is led forward by thee
Into ever-widening thought and action
Into that heaven of freedom, my Father, let my country awake

Rabindranath Tagore

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12.5.08

Palavras do Chefe Seattle

O Presidente em Washington diz que deseja comprar a nossa terra.

Mas como pode comprar ou vender o céu, a terra? Essa idéia é estranha para nós. Cada parte dessa terra é sagrada para o meu povo. Cada agulha de pinheiro brilhante. Cada grão de areia da praia, cada névoa na floresta escura. Cada característica é sagrada na memória e na experiência do meu povo.

Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores são nossas irmãs. O urso, o veado, a grande águia são nossos irmãos. Cada reflexo na água cristalina dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz do meu pai. Os rios são nossos irmãos. Eles levam nossas canoas e alimentam nossos filhos.

Se lhes vendermos nossas terras, lembrem-se de que o ar é precioso para nós. E compartilha seu espírito com as formas de vida que sustenta. O vento que deu a nosso avô o seu primeiro alento recebe, também, o seu último suspiro.

Sabemos que a terra não pertence ao homem. O homem pertence à terra. Todas as coisas são interligadas, como o sangue que nos une. O homem não tece a teia da vida - ele é apenas um fio dela. O que fizer à teia, fará a si mesmo.

O destino de vocês é um mistério para nós. O que vai acontecer quando todos os búfalos forem sacrificados? O que vai acontecer quando os recantos secretos da floresta estiverem passados com o odor de inúmeros homens e a vista das colinas verdejantes se macular com os fios que falam?

Será o fim da vida e o começo da sobrevivência. Quando o último pele-vermelha sumir com a natureza selvagem, e sua lembrança for só a sombra de uma núvem sobre a planície, essas praias e florestas ainda estarão aqui? Terá sobrado algum espírito do meu povo?

Amamos a terra como o recém-nascido ama as batidas do coração da mãe. Se vendermos nossa terra, amem-na como nós a amamos. Cuidem dela como cuidamos. Preservem na mente a lembrança da terra, tal como ela estiver quando a receberem. Preservem a terra para as crianças e amem-na como Deus nos ama.

Sabemos que só existe um Deus. Nenhum homem, vermelho ou branco, pode viver isolado. No final das contas, somos todos irmãos.

Parte da carta feita pelo Chefe Seattle ao Presidente Franklin Pierce em 1854, tal qual resumido por Joseph Campbell em "O Poder do Mito".

» Veja a carta completa

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22.2.08

Homenagem aos Instrutores Desconhecidos

O que eles incumbiram-se de fazer
Eles trouxeram para ensinar;
Todas as coisas sustentam-se como uma gota de orvalho
Sobre uma folha de grama no ar.

William Butler Yeats (tradução de Rafael Arrais)

*

Gratitude To The Unknown Instructors

What they undertook to do
They brought to pass;
All things hang like a drop of dew
Upon a blade of grass.

William Butler Yeats from The Winding Stair (1933)

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28.1.08

3 Poemas

Amor sem Fim

Eu pareço ter amado você em inúmeras formas, inúmeras vezes,
Em vida após vida, idade após idade, sempre.
Meu coração enfeitiçado fez e refez o colar de canções
Que você aceita como presente, usa à volta do pescoço em suas muitas formas
Em vida após vida, idade após idade, sempre.

Quando eu escuto crônicas antigas de amor, é sofrimento amadurecido,
É o conto ancestral de se estar junto ou separado,
Assim que eu encaro mais e mais fundo o passado, no final você emerge
Envolto na luz de uma estrela-cadente cortando a escuridão do tempo:
Você se torna uma imagem do que é lembrado para sempre.

Eu e você temos flutuado aqui no córrego que flui da fonte
No coração do tempo do amor de um pelo outro.
Nós temos brincado ao lado de milhões de amantes, partilhado a mesma
Doce timidez do encontro, as mesmas dolorosas lágrimas de despedida -
Amor antigo, mas em formas que se renovam e renovam, sempre.

Hoje ele está guardado à seus pés, ele achou o seu fim em você,
O amor de todos os dias dos homens, tanto passados quanto eternos:
Alegria universal, tristeza universal, vida universal,
As memórias de todos os amores mesclando-se com esse nosso amor único -
E as canções de cada poeta, tanto passados quanto eternos.

-- Rabindranath Tagore (traduzido do inglês por Rafael Arrais)

A Oração ao Deus Desconhecido

Antes de prosseguir em meu caminho
e lançar o meu olhar para frente uma vez mais,
elevo, só, minhas mãos a Ti na direção de quem eu fujo.
A Ti, das profundezas de meu coração,
tenho dedicado altares festivos para que, em
Cada momento, Tua voz me pudesse chamar.
Sobre esses altares estão gravadas em fogo estas palavras:
“Ao Deus desconhecido”.
Seu, sou eu, embora até o presente tenha me associado aos sacrílegos.
Seu, sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo.
Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servi-lo.
Eu quero Te conhecer, desconhecido.
Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida.
Tu, o incompreensível, mas meu semelhante,
quero Te conhecer, quero servir só a Ti.

-- Friedrich Nietzche (traduzido do alemão por Leonardo Boff, no livro Tempo de Transcendência)

O pequeno rochedo

O que Deus faz? O que fazia?
Há quem acredite que Ele intercede em cada dia
Realizando milagres ou punindo pecadores...
Há quem diga que Ele não existe
Pois nunca O viram, nunca O sentiram...

Ora, talvez Deus tenha estado todo esse tempo
Sentado no mesmo pequeno rochedo
Do qual criou todos os universos
E todos os mundos

Talvez, tenha ficado de tal maneira extasiado
Com a beleza de Sua própria criação
Que até hoje Nos observa na mesma posição
Sentado no mesmo pequeno rochedo
Onde fica a eternidade

Ali, onde o tempo não é indefinido
Mas antes, onde o tempo simplesmente não existe,
Ele nos ama...
Com o mesmo amor que criou o tudo...

E quem sente esse amor, acha que Ele intercede
E quem não sente, acha que Ele não existe
E finalmente, quem procura viver nesse amor
Sabe que mesmo não intercedendo, Ele se movimenta
E, mesmo não existindo dentro do tempo,
Ele existe na eternidade

-- Rafael Arrais (2008)

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24.7.07

Matéria

Nada voltará a ser como antes.
Nada, nem mesmo os rios,
mantém o seu curso constante
em direção ao mar.
As estrelas nunca brilham
no mesmo lugar no céu
e a lua sempre se renova,
como as estações do ano.

Nada, nunca, será como antes.
Assim como as pessoas que declinam
jamais são as mesmas que se levantam,
a terra seca, calcinada
jamais voltará a ser fértil,
e o sonho desfeito
nunca será transformado em realidade.

Assim como a juventude
dá lugar à velhice;
assim como a beleza
transforma-se em espiritualidade,
também a alma se renova.
E sempre,
na mesma inconstância,
a vida se transforma.

Flávia Lopes (entre 1998 e 2001 aproximadamente)

***

Em homenagem a minha amiga que anda se renovando numa casa agora distante. Força e luz para você. Saiba que, assim que possível, gostaria de passar um sonho a conversar contigo, como nos agora velhos tempos...

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12.12.06

Os filhos

E uma mulher que carregava o filho nos braços disse: "Fala-nos dos filhos."

E ele disse:
"Vossos filhos não são vossos filhos
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam conosco, não vos pertencem.

Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles tem seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós.
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.

Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O Arquiteto mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda Sua força para que Suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como Ele ama a flecha que voa, ama também o arco que permanece estável."

***

Gibran Khalil Gibran (na tradução de Mansour Challita) em seu livro O Profeta, talvez traga uma das mais belas e sucintas definições da relação (verdadeira) de pais e filhos de toda a história. Está colocada aqui, pois por mais que não goste de copiar textos extensos de outros autores, esse é um dos que não tem outra forma de serem abordados que não no próprio texto original.

Em breve, falaremos então de espíritos, seres eternos que foram arremessados a milhões de anos, e ainda percorrem o universo rumo ao alvo na senda do infinito... Quem sabe ler nas entrelinhas, sabe o grande homem que foi Gibran.

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