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19.3.11

O fogo de Prometeu, parte 1

Na mitologia Grega, Prometeu foi um titã defensor da humanidade, conhecido por sua astúcia e inteligência. Ele foi responsável por roubar o segredo do fogo divino e dar aos mortais, ato que foi punido pelos deuses de várias formas...

A caixa de Marie

Conta-nos um mito grego que Pandora foi à primeira mulher. Feita à semelhança das deusas imortais, destinou-a Zeus à espécie humana, como punição por terem recebido de Prometeu o fogo divino. Foi enviada a Epimeteu, a quem Prometeu recomendara que não recebesse nenhum presente dos deuses. Vendo-lhe a radiante beleza, Epimeteu esqueceu quanto lhe fora dito pelo irmão e a tomou como esposa.

Ora, tinha Epimeteu em seu poder uma caixa que lhe haviam dado os deuses, que continha todos os males. Avisou a mulher que não a abrisse. Pandora não resistiu à curiosidade. Abriu-a e os males escaparam. Por mais depressa que providenciasse fechá-la, somente conservou um único bem, a esperança. E dali em diante, foram os homens afligidos por todos os males.

A razão da presença da esperança com os males deve ser procurada através de uma tradução mais acurada do texto grego. A palavra em grego é elpís (£λπίς), que é definida como “a espera de alguma coisa”. Ela pode ser traduzida como esperança, mas essa tradução seguramente é arbitrária. Uma tradução melhor poderia ser "antecipação", ou até o temor irracional. Graças ao fechamento por Pandora da caixa no momento certo, os homens sofreriam somente dos males (como os vícios, as pragas e a violência), mas a humanidade não teve o conhecimento antecipado deles, o que provavelmente seria pior. Eles não viveriam o temor perpétuo dos males por vir, tornando suas vidas possíveis. Prometeu se felicita assim de ter livrado os homens da obsessão com a própria morte.

Como todos os mitos relevantes, a história de Prometeu, Epimeteu e Pandora é uma narrativa do que nunca existiu, mas que existe sempre, como dizia Campbell... Há muito tempo o homem tem se deparado com os segredos aparentemente insondáveis da natureza, e desde cedo houveram muitos que afirmavam que era inútil seguir adiante: não se podia desafiar aos deuses. Mas outros, tal qual Prometeu, não esmoreceram ante o desconhecido, e é precisamente graças a esses últimos que devemos boa parte de nossa filosofia, de nossa ciência, e porque não dizer, de nossa espiritualidade.

Este paradoxo entre a inconcebível natureza da Natureza – parafraseando Feynman – e o nosso esforço milenar para compreendê-la e domá-la, tal qual um tigre feroz, é algo que permeia toda a história de nossa cultura. Não é raro, mesmo nos dias atuais, vermos pessoas aflitas com os rumos atuais de nossa ciência, rumos que parecem desvelar segredos que não deveriam ser desvelados. Segredos que deveriam caber apenas aos deuses, não aos homens – desde a interferência nos processos de natalidade, passando pela clonagem, o uso de células embrionárias, a suposta tentativa de se criar “vida artificial”, até o mais perigoso dos fogos divinos, a energia nuclear... Porém, uma vez que montamos no tigre, não é possível domá-lo, mas também não é possível pular. O que podemos fazer é agarrar firmes em seu pêlo, e esperar pelo melhor.

Marie Curie foi uma cientista polonesa que exerceu a sua atividade profissional na França. Foi à primeira pessoa a ser laureada duas vezes com um Prêmio Nobel – de Física, em 1903, pelas suas descobertas no campo da radioatividade, e com o Nobel de Química de 1911, pela descoberta dos elementos rádio e polônio. Foi uma diretora de laboratório reconhecida pela sua competência, e certamente uma das maiores cientistas da história (contando-se homens e mulheres).

A radioatividade é um fenômeno – natural ou produzido pelo homem –, pelo qual algumas substâncias ou elementos químicos, chamados radioativos, são capazes de emitir radiações, as quais têm a propriedade de impressionar placas fotográficas, ionizar gases, produzir fluorescência, atravessar corpos opacos à luz ordinária, etc. As radiações emitidas pelas substâncias radioativas são principalmente partículas alfa, partículas beta e raios gama. A radioatividade é uma forma de energia nuclear, e consiste no fato de alguns átomos como os do urânio, rádio e tório serem “instáveis”, perdendo constantemente partículas alfa, beta e gama (raios-X). O urânio, por exemplo, tem 92 prótons, porém através dos séculos vai perdendo-os na forma de radiações, até terminar em chumbo, com 82 prótons estáveis.

Marie não sabia, mas a radioatividade, este campo da ciência que até hoje deve muito aos seus estudos, acabaria por decretar o seu fim. Ela morreu em 1934, de leucemia, devido, seguramente, à exposição maciça a radiações durante o seu trabalho. Madame Curie acabou por abrir sua própria caixa de Pandora, desvelando tais mistérios ocultos, mas extremamente perigosos, da natureza. Para nossa sorte (ou azar), Marie foi poupada de saber do perigo a que se submetia enquanto estudava a radioatividade... Não fosse por sua coragem, não em lidar com elementos radioativos aos quais desconhecia o perigo, mas em se impor a uma sociedade profundamente machista como uma eminente cientista, hoje certamente saberíamos ainda menos sobre os perigos e as aplicações práticas da radioatividade.

Como sabemos, nos dias atuais boa parte das armas de destruição em massa, assim como boa parte da energia produzida em usinas, vem da energia nuclear e da radioatividade... Certamente há muitos pacifistas e ecologistas que teriam preferido que jamais as tivéssemos descoberto, que Prometeu nos poupasse desse conhecimento. A natureza, porém, tem os seus próprios planos... O universo não está parado, tudo vibra e flui incessantemente, e toda vida e toda consciência estão destinadas a evoluir, passo a passo. Se o presente de Prometeu foi um conhecimento que nos fará avançar mais e mais na compreensão do Cosmos, ou o decreto de nosso fim, só o tempo, e o que faremos com ele enquanto sociedade, poderá nos dizer.

Há, no entanto, mais um mistério que talvez tenha passado desapercebido no mito de Prometeu e Pandora... Ora, se os deuses sabiam que não podiam confiar nos titãs, e sua astúcia e curiosidade, porque então iriam confiar nos filhos dos titãs? Sim, Prometeu roubou o fogo divino, mas foi precisamente com ele que criou o homem. E, ainda que Pandora tenha sido criada pelos deuses, me parece óbvio que eles já sabiam, de antemão, que ela também não resistiria à curiosidade – que abriria a caixa. Não se trata, portanto, de um teste de fidelidade, pois se os titãs houvessem controlado sua curiosidade, nenhum homem existiria... E, se Pandora não houvesse aberto a (maldita?) caixa, certamente não teríamos chegado a conhecimentos tão ocultos e perigosos, mas estaríamos estagnados!

Talvez os deuses não gostem mesmo da estagnação, e por isso seu maior divertimento tem sido pregar peças nos homens, e rir quando estes se sentem culpados por sua própria curiosidade. Eis que a curiosidade é, ela também, divina. Eis que devemos abrir a todas as caixas, de Pandora ou de Marie, e também domar a todos os tigres selvagens... Mas sem jamais perder o senso da responsabilidade, e o respeito a essa maravilhosa, e por vezes letal, natureza da Natureza.

Na continuação – quando as coisas dão errado: Chernobyl e a Floresta Vermelha.

***

Crédito das imagens: [topo] Maicar.com (O roubo do fogo, pintura de Christian Griepenkerl); [ao longo] Wikipedia (Pandora, pintura de Jules Joseph Lefebvre).

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