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1.7.22

Astros dançarinos

Vem querida, vamos dançar novamente.
Vem, me dê a mão, giremos assim
devagarinho
em torno deste amor.

Nesse giro meus pensamentos
são como um batalhão de abelhas
prontas a adentrar a Terra do Mel:
bem na pupila dos seus olhos.

Nessa dança meus instintos
são como aves dinossauros
ávidas por bebericar cada uma
de suas infindas flores.

Dancemos então;
dancemos no ritmo da música
do silêncio primaveril das matas.

Abaixo de nós, o que há de mais sagrado;
em nosso entorno, o fluir do tempo das montanhas,
a eternidade sussurrada pelas brisas.

Onde estaremos a girar?
Que é esta existência, afinal?
O que começou tudo isso,
até onde vai esta dança?

O amor, este amor que nos abraça e abarca,
que nos preenche e acalenta:
o amor não é uma resposta para nossas questões;
o amor é uma experiência.

Vivamos então, e dancemos,
até que já não exista mais nada
além do cintilar dos sóis mais longínquos.

Eu e você: astros dançarinos do amor
da humanidade inteira.


raph'22

***

Crédito da imagem: Ahmad Odeh/Unsplash

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6.9.18

Filamentos

Quem saberá dizer qual foi
a primeira semente a brotar nesta terra?
Ela, a semeadora dos verdes mundos,
dos infindáveis filamentos
de caules e galhos e monumentais troncos
a estender suas pontas de dedos
aos céus.
Quem os terá chamado?

Por dentre suas cascas fechadas ou rompidas
há legiões de armadas de pequeninas criaturas
vivendo do mais puro instinto.
Tudo o que elas querem:
"Açúcar! Dai-nos o seu açúcar ó torre celeste!"
Mas quem ofertou todo o açúcar do mundo,
e quem continua sua doação perene,
é o Senhor do Alto, da Luz e do Calor,
o Sol Invisível e Invicto,
que tais insetos ainda nem sonham em conhecer.
E, ainda assim, todos seguem o seu chamado...

Que vida inefável é essa
que os braços de madeira buscam em toda Primavera
desde o início deste mundo?
Seria ela também seduzida, como nós,
pelas infindáveis flores,
nas mais variadas cores e perfumes,
e pelos suculentos frutos,
nos mais saborosos sabores,
que os filamentos estendem ao Alto
como oferenda e sacrifício?

E nós aqui, emaranhados nas raízes,
na escuridão úmida
dos filamentos de Abaixo,
teremos a mais vaga ideia
do que ainda nos espera?

Ó, irmãos da Terra,
não se prendam ao tempo passageiro
do que transita entre estações.
Há filamentos que viram o nascer
e a derrocada de vastos impérios
de homens que quase nada percebiam,
quase nada sabiam ou sentiam
em seus corações terrosos.
Ó, irmãos da Terra,
sorvam esta seiva de Vida,
cresçam e floresçam,
e cantem lá fora
que nós fomos chamados ao Alto;
Sim! Chamados ao Alto!


raph'18

***

Crédito da imagem: raph

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15.5.18

O limite

Desde que saímos das matas,
lentamente também temos nos desembrenhado
da alma.

Somos cada vez mais como coisas,
coisas racionais, eficientes, deuses artesãos,
técnicos dos átomos.

Não é ruim ter pisado na lua,
ou desvendado a fissão nuclear,
porém nesse meio tempo,
neste piscar de olhos
entre os xamãs da África
e os burocratas da Suíça,
também acabamos padecendo
de um grande esquecimento...

Não será com pílulas nem com bolsas de grife,
nem mesmo com heróis a serviço de um algoritmo de lucro
que conseguiremos anestesiar a alma:
a grande verdade
é que ela não pode ser anestesiada,
nem mesmo quando cortamos os pulsos
ou nos arremessamos do topo de arranha-céus...

Quisemos viver como coisas,
quisemos comprovar nossas teorias
de que tudo o que há são átomos a bailar
em máquinas biológicas
a serviço de estranhos códigos
que geraram a si mesmos...
falhamos!

Há um limite para nosso conhecimento
puramente racional.
Há um limite para a linguagem, para as palavras,
até mesmo para a poesia.
O que se sente quando se ama,
quando se está verdadeiramente aqui,
em meio a mata, em meio a alma,
é indizível, é inefável, é indestrutível,
e jamais nos deixará relaxar.

Sim, há angústia e sofrimento no mundo,
e principalmente em nós:
as máquinas que interpretam.
Mas ante a alma, face a face,
tal dor desvanece no ar,
se espalha como a brisa da mata,
como se nunca tivesse sequer existido...

Neófito: nós não somos máquinas,
não somos coisas, nós somos
como um reflexo de uma luz bem maior,
como a fragrância das flores de um outro continente,
como a semente que brota a margem
do córrego que flui da fonte.

Está em tempo de relembrar...


raph'18

***

Crédito da imagem: raph

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28.11.17

No jardim

No jardim os bambuzais
envergam e dançam com os ventos,
até se aquietarem com as brisas
que vão soprando fraquinho,
cada vez mais devagar,
devagarinho
até parar,
e aí, tudo é paz.

Fora do jardim os carros passam a mil por hora,
e buzinam para quem vai a frente,
e caçoam de quem fica muito para trás.
Lá tudo tem um tempo cronometrado,
tudo passa depressa e vale alguma comissão;
tudo, tudo, menos a morte, é claro,
pois que lá ninguém é educado
para a dor e a tristeza;
lá fora ninguém pode jamais
simplesmente se deixar levar
pela correnteza.

Enquanto isso, aqui no jardim,
o espírito já declarou o óbito do ego,
tudo que havia para doer já doeu,
e todas as coisas que existem no tempo
são tão relevantes quanto o início e o fim
de mais uma dança de bambuzais...

O vento passou, e voltou uma vez mais;
nesse eterno e ligeiro vai e vem
toda a mata segue a bailar.
No fundo, todos somos iguais;
mal sabemos quem é quem,
quiçá aonde tudo isso vai dar...


raph'17

***

Crédito da imagem: raph (Jardim Botânico do Rio de Janeiro)

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20.10.15

Mantiqueira

Eu venho neste lago desde pequenino
contemplar a tranquilidade das águas
a receber as lágrimas da Mantiqueira
e, como divino conselheiro,
responder com este silêncio,
um silêncio ensurdecedor!

Eu também já vim chorar ao seu lado
as desilusões da adolescência
neste mundo carregado de chumbo;
então, como grandes amigas,
as araucárias à margem me consolaram:
me falaram de sua dança de brisas e sementes
e de como flertam umas com as outras
há tanto, tanto tempo,
que aqueles meus momentos de angústia
eram como o breve piar dos pássaros
que enchiam o mundo de música...

Ó, as araucárias me ensinaram
a enxergar a sinfonia inteira!

E hoje, aqui, sou o testemunho
de que tinham razão:
vejo a mulher que amo,
a futura mãe dos meus pequeninos,
contemplar o mesmo lago
sob a sombra das mesmas araucárias...

É então que, subitamente, penso nas montanhas
que sempre abraçaram o horizonte daqui,
e em como, para elas, o tempo do amor das araucárias
é tão breve quanto o tempo da minha própria vida
em relação as árvores.

E ainda, que este lago em si
carrega em seu leito
as testemunhas liquefeitas
do início dos tempos!

E assim, inundado de poesia,
eu lembro que esqueci o celular no chalé,
e corro morro acima
para colocar logo em papel
este meu pequeno testemunho
do piscar dos olhos
da serra que chora...


raph'15

Amantikir é um termo indígena que deu origem à palavra Mantiqueira, cujo significado é “Serra que Chora”. A Serra da Mantiqueira é uma cadeia montanhosa que se estende por três estados brasileiros: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

***

Crédito da foto: raph

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11.10.15

Agora, sem as rodinhas!

Quando surgiu pela primeira vez na comunidade científica, a ideia de que todo o universo tivesse se originado de uma espécie de “átomo primordial” há bilhões de anos, e que vinha se expandindo desde então, pareceu tão absurda que um famoso astrônomo da época a chamou de Big Bang num programa de rádio da década de 1940.

A intenção de Fred Hoyle, o cientista britânico defensor da teoria do universo estacionário ou eterno, era ridicularizar a teoria do belga Georges Lamaître, aquele quem primeiro propôs a ideia de que o próprio espaço-tempo se encontrava em expansão. O fato de Lamaître, para além de físico e astrônomo, ser também um padre católico, certamente levou Hoyle a supor que ele estava se baseando mais nos dogmas do Gênesis do que em ciência genuína...

Mas hoje sabemos que a hipótese do Big Bang venceu a batalha contra o universo estacionário de Hoyle, e o que determinou a vitória foram os fatos: em 1966, já próximo da morte num leito de hospital, Lamaître foi comunicado que os astrônomos Arno Penzias e Robert Wilson haviam confirmado experimentalmente a existência da chamada radiação cósmica de fundo, uma espécie de “registro fóssil” em micro-ondas da época em que todo o universo era quente e denso, apenas cerca de 380 mil anos após o seu início.

Junto com outras evidências, como a de que as galáxias ainda hoje estão se afastando umas das outras, e a observação de uma imensa abundância de elementos leves no universo, hoje a teoria do Big Bang é de muito longe a hipótese mais aceita na comunidade científica, fazendo parte do chamado “modelo padrão”. Penzias e Wilson ganharam o Prêmio Nobel de Física de 1978 por sua descoberta. Se estivesse vivo, Lamaître certamente teria o seu Nobel garantido.

A ideia de um universo eterno, entretanto, era um conceito muito mais antigo do que o advento da própria astronomia moderna; um paradigma tão cristalizado na mente humana que eventualmente também se tornou quase que um dogma científico, ao ponto de ter tirado o sono até mesmo de Albert Einstein, que relutou o quanto pôde em admitir que o universo de fato se expandia. O célebre físico alemão chegou a dizer que este foi “o pior erro de sua carreira”.

Realmente não é fácil quebrar antigos paradigmas. Demócrito e outros filósofos atomistas da Grécia Antiga, por exemplo, acreditavam que os átomos eram eternos e imutáveis. Pitágoras e seus discípulos consideravam que todo o universo era ordenado por princípios imateriais eternos de harmonia e “verdades matemáticas”. Já Platão foi ainda mais longe, e generalizou a matemática transcendente pitagórica para uma visão mais ampla de Ideias arquetípicas e universais, que incluíam a Forma de cada objeto ou qualidade, como cavalos, seres humanos, cores e bondade. Segundo o grande filósofo grego, a própria realidade era composta por “sombras e reflexos das Formas transcendentais”.

Sempre foi complexo para a mente humana imaginar uma Natureza evolutiva, que não surgiu “pronta e acabada”, com todas as suas leis e variáveis imutáveis. E isso, é óbvio, se reflete também nas ideias científicas.

Ironicamente, o mesmo paradigma de universo estacionário com leis imutáveis gerou um baita problema para a visão ateísta do mundo... De acordo com o Princípio Antrópico, se as leis e constantes cosmológicas fossem ligeiramente diferentes após o Big Bang, não teria sido possível o surgimento de formas de vida baseadas em carbono, como nós aqui neste planetinha. Uma das respostas óbvias para tal enigma é que a própria Criação foi obra de alguma espécie de inteligência superior, ou seja, a ciência se vê forçada a retornar a hipótese de um Criador.

Para contornar esse “incômodo”, muitos cosmólogos preferem pensar que há inúmeros universos além do nosso, cada um deles com leis e constantes específicas. Nesses modelos de “multiverso”, o fato de calharmos de estarmos aqui, conscientes e maravilhados, se explica pela extraordinária sorte de fazermos parte de um dos bilhões e bilhões de universos que propiciou o surgimento da vida como a conhecemos. Segundo esses modelos, não faz o menor sentido reclamarmos de qualquer espécie de azar, pois a nossa sorte em estarmos aqui vivos é tão imensamente grande que equivale a uma chance estatística inferior a sermos atingidos por um raio a cada minuto durante toda a vida (e, nesse caso, também considerando as chances de sobrevivermos a todos eles).

Portanto, se as leis e constantes são imutáveis e tudo estava determinado desde o início dos tempos, tanto faz se calhamos de existir num dos universos que possibilitou a vida baseada em carbono, ou se este universo único foi criado conforme descrito no Gênesis, as chances estatísticas provavelmente se equivalem, e tudo passa a ser uma questão de “gosto pessoal” que defina qual aposta é menos absurda do que a outra.

No fundo, todas as teorias que postulam a existência de um multiverso possuem a crença comum na primazia da matemática sobre a realidade. Mesmo que existam muitos universos além do nosso, o que os sustenta, segundo tais ideias, são fórmulas matemáticas transcendentes, como por exemplo as que formam a espinha dorsal da teoria das cordas ou teoria M. Para resumir: tais teorias nada mais são do que uma espécie de pitagorismo ultrarradical.

Mas temos outra alterativa surpreendente, defendida pelo físico Rupert Sheldrake em seu monumental Ciência sem Dogmas. A opção ao pitagorismo é a evolução das regularidades da Natureza. Tais regularidades seriam mais semelhantes a hábitos adquiridos do que a leis imutáveis que estavam lá desde o início dos tempos, e ficariam mais fortes (ou “constantes”) pelo meio da repetição, da mesma forma que aprendemos a andar de bicicleta. Segundo Sheldrake, há um tipo de memória na Natureza, e o que acontece agora é influenciado direta ou indiretamente pelo que já ocorreu antes.

Hábitos ancestrais foram estabelecidos há bilhões de anos, e estão arraigados de tal forma na Natureza que se parecem mesmo com “leis imutáveis”. Dos fótons, prótons e elétrons surgiram as moléculas, depois as estrelas e as galáxias, então os planetas, os cristais, e ao menos aqui neste planetinha, as plantas e os seres humanos.

Entre as moléculas, por exemplo, a de hidrogênio é provavelmente a mais antiga – ela já existia antes da formação da primeira estrela. As “leis” e “constantes” associadas a esses padrões arcaicos de organização estão tão bem estabelecidas que atualmente já não apresentam nenhuma mudança detectável. Em contrapartida, algumas moléculas são novíssimas, como as centenas de compostos produzidos pela primeira vez por químicos de síntese em nosso próprio século. Nesse caso, os hábitos ainda estão se formando. O mesmo ocorre com novos padrões de comportamento em animais e novas habilidades humanas.

Se eliminarmos a biologia e nos mantivermos exclusivamente na física e na química, ainda assim esta teoria tem uma vantagem gritante se comparada às teorias que postulam um multiverso como forma de explicação ao Princípio Antrópico: ela fala de coisas que podem efetivamente serem observadas e testadas!

Na verdade, sabemos que os químicos que sintetizam novas substâncias muitas vezes têm grandes dificuldades de fazer com que elas se cristalizem. Às vezes leva muitos anos para os cristais surgirem pela primeira vez. Por exemplo, a turanose, um tipo de açúcar, durante décadas foi considerada um líquido, até que, na década de 1920, ocorreu a cristalização. Depois disso, esse açúcar formou cristais em todo o mundo [1].

O xilitol, álcool de açúcar usado como adoçante em gomas de mascar, foi preparado pela primeira vez em 1891 e considerado líquido até 1942, quando surgiram cristais pela primeira vez. O ponto de fusão desses cristais era de 61ºC. Depois de alguns anos surgiu outra forma de cristal, com ponto de fusão de 94ºC e, mais tarde, o primeiro tipo de cristal desapareceu da Natureza [2] (leia novamente este parágrafo se não compreendeu ainda o quão assombroso ele é)...

Nós tendemos a ver o universo sob o nosso ponto de vista, mas ironicamente postulamos que, ao contrário de nós mesmos, ele deveria ser como que um rio congelado, uma espécie de fórmula matemática supersimétrica, superelegante, transcendente e eternamente imutável. Dessa forma, tendemos a ver a Natureza como uma espécie de supercomputador programado desde o início dos tempos para obedecer às mesmas leis e constantes, sem a mísera variação. Entretanto, basta olhar a nossa volta, como uma árvore só pode existir após haver sido broto e, ainda antes, semente. Como os filhotes de passarinho devem ser alimentados por seus pais antes de criarem força nas asas e, eventualmente, se arremessarem aos céus. Como toda a metrópole tem o seu centro histórico e, dentro dele, o seu marco inicial.

Tudo evolui do simples para o complexo, e o grande destino da vida parece mesmo ser se organizar, de alguma forma extraordinária, em consciências capazes de observar o mundo – a Natureza vendo a si mesma, compreendendo a si mesma, se espantando consigo mesma.

E não podemos saber ainda, de fato, se há mesmo um Criador que pensou nisso tudo desde o início. Talvez, quem sabe, ele esteja aprendendo conosco. Talvez ele tenha preferido nos deixar livres para descobrir as coisas, tateando o Cosmos e evoluindo por nossa própria conta.

Como quando nossos pais nos levam ao parque para nos ensinar a andar de bicicleta. No começo, colocam rodinhas para que nos auxiliem a manter o equilíbrio. Talvez, quem sabe, todo o nosso passado mineral, vegetal e animal tenha sido como que um aprendizado com o auxílio das rodinhas...

Mas hoje, hoje despertamos, hoje somos seres conscientes encarando de volta a vastidão cósmica salpicada pelas mesmas fornalhas que fundiram os elementos de nosso corpo, habituadas há bilhões de anos a este caminho ancestral que vai do átomo primordial de Lamaître a um planetinha, quiçá bilhões e bilhões deles, plenos de vida, plenos de crianças a arriscar suas primeiras voltas de bicicleta.

Até o dia em que partiremos deste pequeno parquinho para os mundos e galáxias mais distantes, e quem sabe neste dia não poderemos olhar para o Alto e dizer:

“Olhem para nós! Agora, sem as rodinhas!”

***

[1] Crystals and Crystal Growing, por Allan Holden e Phyllis Singer (1961), pp. 80 e 81.

[2] Ibid., p. 81.

Crédito da imagem: Google Image Search/shutterstock

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16.9.15

Human

O cineasta Yann Arthus-Bertrand passou 3 anos coletando histórias reais de mais de 2 mil pessoas em 60 países. Estes relatos pessoais com suas emoções, suas lágrimas e sorrisos, unem a todos nós. Em Human, um documentário monumental de mais de 4 horas, tais relatos são expostos numa determinada sequência que a princípio parece aleatória, mas depois, com o tempo, percebemos que segue um certo "fio da meada", e este fio nos conecta a todos, pelo coração...

Para além dos relatos intensos, profundos, e por vezes extremamente emocionais, tanto de anônimos quanto de famosos, ainda somos presenteados com belíssimas imagens aéreas de nosso planeta, que parecem dividir o documentário em pequenos capítulos próprios. De fato, uma boa forma de encarar essas mais de 4 horas é assistir tais trechos um por um, interrompendo a exibição após o final de uma sequência de imagens aéreas (se estiver logado, o YouTube salva o momento aproximado em que você interrompeu o vídeo):

Human, vol. 1

» Assistir a Human, vol. 2

» Assistir a Human, vol. 3


"Eu sonhei com um filme em que a força das palavras ampliasse a beleza do mundo. As pessoas me falaram de tudo; das dificuldades de crescer, do amor e da felicidade. Toda essa riqueza é o centro do filme Human. Esse filme representa todos os homens e mulheres que me confiaram suas historias. O filme se tornou um mensageiro de todos eles."

Yann Arthus-Bertrand

***

Crédito da imagem: Human/Divulgação

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28.6.15

O óbito da ignorância

A Casa Branca, pela entrada da noitinha, com iluminação especial em diversas cores, celebrando a decisão histórica da Suprema Corte americana.

Foi por conta de uma certidão de óbito que os EUA finalmente foram incluídos no rol dos países que deixaram de proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ao lado de Holanda (a pioneira) e diversos países europeus, assim como Uruguai, Argentina, Brasil, Canadá, México, África do Sul e Nova Zelândia:

Mapa com os países onde o casamento gay já é legal.

“Quando conheci meu marido, eu soube que queria ficar com ele pelo resto da minha vida, até que a morte nos separasse. A maioria das pessoas sente isso quando encontra o amor de sua vida”, disse a BBC o americano Jim Obergefell, 48 anos, ao falar sobre John Arthur, seu parceiro por 21 anos.

Eles se conheceram em 1992 e durante duas décadas construíram uma vida juntos em Cincinnati, Ohio. Em 2011, Arthur foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica, doença que não tem cura, e começou a perder o controle de seus movimentos musculares e a fala. Ambos sabiam que o tal “até que a morte os separe” estava cada vez mais próximo, e decidiriam aproveitar uma decisão prévia da Suprema Corte americana, de 2013, que permitia o seu casamento em certos estados da federação.

O casal arrecadou US$ 13 mil com familiares e amigos e alugou um jato com equipe médica para viajar a Maryland, Estado onde o casamento gay já era permitido na época. Em 11 de julho de 2013, Obergefell e Arthur trocaram votos e alianças em uma cerimônia de menos de dez minutos, realizada dentro do avião, na pista de um aeroporto em Baltimore.

Após voltarem para casa, entraram com uma ação para que o casamento fosse formalmente reconhecido na certidão de óbito, quando Arthur morresse. Após decisão favorável de um juiz federal, o Estado de Ohio recorreu, e o caso chegou à Suprema Corte.

Foi precisamente este caso que acarretou na decisão histórica e acirrada (5 votos a 4) do último dia 26 de julho de 2015, que basicamente estendeu o direito ao casamento homossexual de alguns estados para todo os EUA. Foi para que na certidão de óbito do grande amor de sua vida não constasse a palavra “solteiro” no lugar de “casado” que Obergefell, indiretamente, ajudou a acelerar o óbito da intolerância e da ignorância na maior potência do mundo ocidental.

Claro que, não fosse por este caso, teria sido por outros. Para além do apoio incondicional a decisão da maior rede social da internet, o Facebook, o que acarretou no florescimento de milhões de fotos de perfil mais coloridas nos dias subsequentes, essas foram algumas das grandes empresas que demonstraram explicitamente o seu apoio à decisão americana:

Logos da Apple, Microsoft, Google, Facebook, YouTube, Twitter, Tumblr AmericanAirlines, Uber e Vevo.

***

Uma questão bíblica
No Levítico, a Bíblia nos explica que “quando um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão” (Le 20:13). Teoricamente, todos os judeus andarilhos, que então viviam em tribos nos desertos do Oriente Médio, deveriam seguir estritamente tal lei ou seriam “punidos por Javé”. Isto fazia algum sentido na época, pois era um povo nômade, que não dispunha de cadeias para punir infratores, e nem podia se dar ao luxo de contar com homens “efeminados” que, para além de não poderem guerrear, não ajudariam na procriação, que era vital naqueles tempos.
Estar ainda ancorado nas leis do Levítico, mesmo no século XXI, é no mínimo uma enorme ignorância, até mesmo porque quem se vale dessa passagem para condenar a homossexualidade está sendo algo hipócrita, na medida em que provavelmente não segue as demais leis do mesmo livro da Bíblia, como por exemplo: “não cortar o cabelo muito curto, nem danificar as extremidades da barba” (Le 19:27); “sacrificar dois pombos a Deus 8 dias após cada menstruação” (Le 15:13-14); “jamais comer carne de porco” (Le 11:7) etc.

Pederastia
A origem desta palavra remonta a antiga Grécia, berço da democracia e de inúmeras ideias que até o nosso século ainda iluminam o Ocidente. Ela significa, literalmente, “amor por garotos”.
Na Antiguidade, a pederastia era uma relação entre um homem mais velho e um adolescente. Em Atenas este indivíduo mais velho era chamado de erastes, e sua função era a de educar, proteger, amar e agir como um exemplo para seu amado – chamado de eromenos, cuja recompensa para seu amante estaria em sua beleza, juventude e potencial.
Não está claro se tal relação passava muito além de uma iniciação sexual que durava não mais do que alguns anos, mas fato é que a sociedade grega não distinguia entre desejo e comportamento sexual com base no gênero de seus participantes, mas sim pela extensão com que tais desejos ou comportamentos se conformavam às normas sociais, que eram baseadas por sua vez no gênero, idade e status social.
Naquela época, o sexo entre homens era aceito, contanto que não deixassem de buscar constituir família nem de se alistarem para a defesa de suas cidades.

Bonobos
Os estudiosos perceberam apenas em 1928 que os bonobos formavam uma família diferente dentro da espécie dos chimpanzés, com um comportamento muito peculiar, em que o sexo está em primeiro lugar, funcionando como substituto da agressividade. O bonobo é um dos raros animais para quem não existe relação direta entre sexo e reprodução. Ou seja, como os humanos, eles fazem mais amor do que filhos. Ao contrário da maioria dos primatas, a sociedade dos bonobos é dominada pelas fêmeas e não pelos machos.
Este “matriarcado” só se torna efetivamente possível porque, ao contrário da maioria das fêmeas de outras espécies, que só são receptivas ao sexo no período fértil, as fêmeas bonobos são atrativas e ativas sexualmente durante quase todo o tempo. Além de intensa atividade sexual com seus parceiros, em que tomam a iniciativa, elas simulam relações com outras fêmeas – é justamente através do sexo que estabelecem as alianças entre si. Os machos também participam dessa espécie de homossexualidade light.
Este é apenas o mais evidente de muitos casos de relações homossexuais na natureza. Assim, se por acaso algum dito pastor, seguidor de algum estranho deus raivoso, lhe disser que ser gay é “antinatural”, você pode lhe responder assim: “Senhor Pastor, o senhor por acaso já ouvir falar dos bonobos?”.

A visão budista
Um dos alunos de Chagdud Tulku Rinpoche, o Precioso Senhor da Dança, um reconhecido mestre budista tibetano, conta que uma vez presenciou tal conversa do mestre com uma senhora que havia acompanhado uma de suas palestras:
Ela: “Mestre, o que é um homossexual?”; Ele: “Um homossexual é uma pessoa que faz sexo com o mesmo sexo.”; Ela: “Acho que o senhor não entendeu… Como o budismo vê o homossexualismo?”; Ele: “Nós não vemos o homossexualismo. No budismo, não temos o costume de ver as pessoas fazendo sexo.”; Ela: “Mestre, o que eu quero saber é a opinião do budismo sobre pessoas que fazem sexo com o mesmo sexo.”; Ele: “Alguém pode dar opinião sobre quem não conhece? Você está falando em “pessoas”. Que pessoas?”; Ela: “Qualquer uma! Qualquer uma!”; Ele: “Todas as pessoas são milagres.”; Ela: “Mas afinal o homossexualismo é certo ou errado?”; Ele: “Atos homossexuais consensuais são atos de amor.”
Tudo isso com a mesma expressão de quem vê um passarinho azul. Seguem-se aplausos e gargalhadas. Rinpoche sorri...
Há ainda este vídeo onde outro mestre, Dzongsar Khyentse Rinpoche, do Butão, fala mais prolongadamente sobre o tema. Em ambos os casos, vemos que os budistas estão mais preocupados com seu autoconhecimento e iluminação do que com a sexualidade alheia [1].

A Igreja, o Pecado e a Verdade
Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”, afirmou o Papa Francisco em 2013, durante a entrevista concedida aos jornalistas que o acompanhavam no voo de volta à Itália depois da visita de uma semana ao Brasil, surpreendendo boa parte dos vaticanistas presentes.
É óbvio, no entanto, que não há nenhuma chance no horizonte próximo de que a Igreja Católica apoie o casamento homossexual. E nem há qualquer problema nisso... A luta pelos direitos dos gays é uma luta travada na esfera secular e laica, e não na esfera religiosa. O casamento gay nada tem a ver, nem poderia ter, com o casamento conforme os rituais da doutrina cristã.
Da mesma forma, além de certos ativistas da causa gay mais agressivos e ignorantes, nenhum gay ou simpatizante está querendo atacar ou denegrir a Igreja, e muito menos o Cristo, ao lutar por seus direitos, pela igualdade, a tolerância, o amor e, sobretudo, o fim da ignorância.
Afinal, foi ele mesmo, o doce rabi da Galileia, quem nos enxortou a amar a todos, a todos, sem exceção. E, se você ainda crê realmente que a homossexualidade é um tenebroso pecado, então eu lhe convido a conhecer a Verdade e se livrar das trevas da ignorância. Espero que o conteúdo deste artigo possa lhe ajudar em parte – afinal, foi também o rabi quem nos disse que a Verdade nos libertará...

***

[1] Vale lembrar, no entanto, que o casamento homossexual ainda não é permitido oficialmente nem no Tibete (China) nem no Butão.

Crédito das imagens: [topo] Monica M. Davey/EPA (Casa Branca com iluminação em homenagem a decisão histórica da Suprema Corte americana); [ao longo] Quartz (mapa com os países onde o casamento homossexual já se tornou legal); FCKH8.com (algumas das grandes companhias que apoiaram a decisão da Suprema Corte; para boicotá-las será necessário abandonar a era da internet e voltar a vida dos anos 1970/80).

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24.4.15

A gravidade, a eletricidade e o magnetismo

Neste momento
partículas do todo
bailam junto a gravidade,
a eletricidade e o magnetismo:
elas estão à sua volta,
elas são o seu corpo,
a divina imaginação da vida
tornada ser!

Meus irmãos e irmãs,
andarilhos e exploradores do cosmos,
nós também somos parte de tais ciclos:
o ciclo da luz,
o ciclo do carbono,
o ciclo das infinitas formas,
das mais belas espécies,
das mais belas almas,
que dançam junto a gravidade,
a eletricidade e o magnetismo...

Viemos da poeira
espalhada pelas fornalhas
que ainda salpicam, até hoje, a noitinha:
uma festa antiga,
um cosmos ancestral,
uma incomensurável procissão de sóis
rumo a sabe-se lá onde!

E, se as estrelas são deusas,
nós também somos da raça dos deuses,
e cada relva a nascer
dentre pequenas rachaduras no concreto,
e cada abelha a sugar o néctar
e polinizar o mundo,
e cada ave migratória no céu,
e cada golfinho brincalhão no mar,
e cada felino a correr
atrás de torvelinhos pelo campo:
tudo é da raça dos deuses,
todos são filhos de Gaia
e deste baile eterno da gravidade,
da eletricidade e do magnetismo...

Ó andarilhos, ó exploradores, ó sábios,
nós já compreendemos tanto...
Mas ainda falta saber
como um punhado de poeira,
de rochas e barro e água fervente
deu origem a deuses,
a deuses!

raph'15

***

Crédito da imagem: BordomBeThyName

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16.4.15

As maravilhas da vida

Entre os genuínos amantes da ciência e, sobretudo, da Natureza, é difícil encontrar algum que, já tendo assistido o Cosmos de Carl Sagan, não tenha se apaixonado a primeira vista...

A todos esses, a mera menção de uma frase, “o Cosmos é tudo o que é, ou foi, ou nalgum dia será”, dá um certo calafrio na alma, talvez porque seja precisamente lá, na alma, que a mensagem de Sagan nos tenha tocado da forma mais profunda.

Recentemente, Ann Druyan, viúva de Sagan e uma das redatoras do Cosmos, se juntou a National Geographic para produzir o novo Cosmos: Uma Odisseia no Espaço. No entanto, embora a série conte com o carisma de Neil deGrasse Tyson e todas as vantagens da tecnologia moderna, ainda assim não pode ser comparada ao original.

Também Morgan Freeman tem nos presenteado há alguns anos com o seu brilhante Grandes Mistérios do Universo, uma produção da Discovery Channel. Mas, mesmo tendo surpreendido a todos ao demonstrar que além de ser um ator monumental, é também um grande apresentador de divulgação científica, ainda assim, não é como Sagan...

Teria alguém, afinal, se aproximado da maestria de Sagan em 1980? Bem, eu não estaria escrevendo isso se não houvesse encontrado este cara:

Brian Cox é um inglês com pinta de Keanu Reeves. Não é para menos, apesar de parecer um cara perfeitamente normal, ele traz no seu currículo um doutorado em física de partículas, a participação, como tecladista, em ao menos duas bandas de pop rock, e o cargo de professor e pesquisador da Universidade de Manchester. Vocês devem imaginar que sujeitos com doutorado em física já não são lá tão normais, somando a isso o fato de ter iniciado a carreira como músico de uma banda de rock, bem, temos no mínimo uma mistura interessante não?

Mas o que o aproxima definitivamente de Sagan é simplesmente a sua paixão pela Natureza. Paixão essa que parece ter descoberto exatamente no Cosmos, mas que soube nos apresentar noutro formato. De fato, o professor Cox nunca pretendeu igualar Sagan, mas em suas escaladas de montanhas, em seus mergulhos no oceano, em suas explorações de cavernas e florestas tropicais, talvez tenha ido até mesmo além do mestre. É para isso que os mestres existem, afinal...

Com vocês, os 5 episódios de uma das séries que o professor Cox já apresentou para a BBC, Maravilhas da Vida [1]. O segundo episódio, em particular, é uma das conquistas mais extraordinárias da história da divulgação científica:


1. O que é a vida?
Neste episódio, Brian Cox visita o “Anel de Fogo”, no sudeste asiático. Numa região vulcânica, Brian explora a linha ténue que separa a vida da morte e coloca em xeque uma das questões mais antigas do mundo: o que é a vida? A resposta habitual remete para o sobrenatural, como é visível nas celebrações anuais do Dia dos Mortos nas terras altas das Filipinas. Brian propõe uma resposta alternativa ligada ao fluxo de energia que percorre o universo.


2. O universo em expansão
Em meio à rica história natural dos Estados Unidos, o professor Cox encontra criaturas surpreendentes que revelam como os sentidos evoluíram. Cada animal na Terra interage com o mundo de uma maneira diferente, usando um conjunto exclusivo de sentidos para detectar seu ambiente físico. A partir de organismos unicelulares para os seres sencientes, mais complexos. Brian acha que, ao longo de 3,8 bilhões anos, os sentidos têm impulsionado a vida em novas direções, nos levando a nossa própria curiosidade e inteligência.


3. Infinitas formas mais belas
O universo é quase totalmente desprovido de vida. A Terra, o planeta que chamamos de lar, parece desafiar as leis da física. Ela está repleta de vida de todas as cores, formas e tamanhos. Ninguém sabe ao certo quantas espécies diferentes estão vivas neste exato momento, o nosso melhor palpite é que seja perto de 8,7 milhões. Neste documentário, o professor Cox pergunta como, a partir de um cosmo sem vida governado pelas leis da física e da química, é possível que um planeta possa produzir tamanha maravilha.


4. O tamanho importa
Neste episódio, Brian viaja ao redor da Austrália para explorar a física do tamanho da vida. Começando com os maiores organismos do nosso planeta, de florestas de árvores gigantes de eucalipto, para os mares, nos levando até o gigante do oceano – o grande tubarão branco. A partir da segurança de uma gaiola de aço, Brian explica como os distintos contornos simplificados do grande tubarão branco foram moldadas pela física da água.


5. Nosso lar
Até onde sabemos, existe apenas um lugar no universo em que a vida conseguiu se originar: a Terra. Mas por quanto tempo esta resposta vai permanecer insatisfatoriamente conclusiva? Os astrônomos estão à beira de encontrar outros mundos semelhantes à Terra. O professor Cox pergunta o que é necessário para transformar um pequeno pedaço de rocha no espaço em um ambiente com vida.

***

[1] Outras séries do mesmo apresentador que merecem menção: Maravilhas do Sistema Solar, Maravilhas do Universo e Universo Humano.

Crédito da imagem: Google Image Search/BBC/Divulgação (Brian Cox)

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8.1.15

As Hiper Mulheres

Ganhador dos prêmios Especial do Juri e de Melhor Montagem no Festival de Gramado, As Hiper Mulheres (2011) intercala linguagem documental e ficção para abordar um ritual raro realizado pelas mulheres da aldeia Kuikuro, localizado no Alto Xingu (MT). Temendo a morte da esposa idosa, um velho pede que seu sobrinho realize o Jamuikumalu, um ritual feminino para que ela cante ainda uma última vez. O ritual consiste, entre outras coisas, em invadir as cabanas dos homens durante a noite e "forçá-los a praticar sexo", provocando os homens da aldeia no que em realidade não passa de uma grande brincadeira (até mesmo porque está sendo filmado).

Infelizmente há muitos que se interessam por este filme pelos motivos errados. Se buscam ver índias e índios nus, ok, vão ver. Mas se buscam por alguma espécie de pornografia ou mesmo erotismo, podem ter certeza de que vão se decepcionar... No entanto, para aqueles que buscam ver os indígenas vivendo suas vidas de forma natural (apesar de se tratar também de uma ficção; aliás, muito bem encenada), este filme pode ser surpreendentemente belo e inspirador!

O filme possuí outro diferencial que aproxima o mensageiro e seu objeto de estudo. A direção é assinada por Carlos Fausto, Leo Sette e Takumã Kuikuro, cineasta e indígena local, com produção do Vídeo nas Aldeias, da Associação Indígena dos Kuikuro do Alto Xingu e do Documenta Kuikuro – DKK. Abaixo segue o filme completo (cerca de 80 min.) no Vimeo, mas se gostarem considerem adquirir o DVD na Livraria Cultura.

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Crédito da foto: Divulgação/As Hiper Mulheres

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2.12.14

É preciso transver o mundo

“A expressão reta não sonha.
Não use o traço acostumado.
A força de um artista vem das suas derrotas.
Só a alma atormentada pode trazer para a voz um formato de pássaro.
Arte não tem pensa:
O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.
É preciso transver o mundo.”

O poeta responsável por tais linhas é brasileiro, nascido nalgum canto do Pantanal (real e/ou inventado), e só começou mesmo a fazer sucesso perto da terceira infância, em seus sessenta e poucos anos. Mesmo assim, diz que nunca viveu de poesia, já que a poesia é uma coisa inútil. Manoel de Barros viveu a poesia em seu estado mais bruto: o sentimento puro. Manoel se deleitava em ser um vagabundo para o mundo, e um manobrista da linguagem, um fraseador, um descascador dos frutos das emoções. Este documentário fala sobre tais cascas:

Só Dez Por Cento é Mentira (2008) é um original mergulho cinematográfico na biografia inventada e nos versos fantásticos do poeta sulmatogrossense Manoel de Barros. Alternando sequências de entrevistas inéditas do escritor, versos de sua obra e depoimentos de “leitores contagiados” por sua literatura o filme constrói um painel revelador da linguagem do poeta, considerado o mais inovador em língua portuguesa. Só Dez Por Cento é Mentira ultrapassa as fronteiras convencionais do registro documental. Utiliza uma linguagem visual inventiva, emprega dramaturgia, cria recursos ficcionais e propõe representações gráficas alusivas ao universo do poeta.

O documentário que trazemos abaixo é extraordinário, e vai muito além de uma mera entrevista com o poeta que recentemente encerrou seus dias no Mato Grosso do Sul; se trata de uma obra altamente original que transpira as emoções genuínas da infância e da vida pacata, tão presentes nos poemas de Manoel.

No entanto, um dos comentários do vídeo no YouTube retrata o conjunto da obra melhor do que qualquer texto que eu pudesse lhes trazer aqui. O comentário é de Camelo Bike Tour:

Estou em luto, mas não triste.

O meu poeta favorito que usava borboletas, gostava de vazios, pedras, rios e sapos, seguiu quinta-feira passada seu caminho (13/11/14), tornou-se aquilo que tanto amou – virou natureza.

O poeta administrava o à-toa como ninguém e possuía outras habilidades inigualáveis – era árvore, sabia como amarrar o tempo no poste, fotografar o silêncio, e quase sempre achava o que não procurava. Ele tinha olhar de passarinho, imagine!

Morava em quintais, preferia coisas desimportantes, e talvez por isso tenha conseguido perceber o óbvio, que de tão manifesto ninguém enxerga, como na frase que eu adoro – “Sapo é um pedaço do chão que pula.”

Com praticamente 98 anos, completaria agora dia 19 de dezembro, costumava dizer que só tinha tido infância e, portanto, tudo o que escrevia era “apenas” sobre ela. Ele sempre soube que os objetos não se restringiam a seu significado literal, ao rigor da letra – “palavras que me aceitam como sou, eu não aceito”. “As coisas não querem ser vistas por pessoas razoáveis”, “Há várias maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira”, dizia.

Não posso estar triste, afinal nasci no mesmo país deste artesão das palavras, um gênio contemporâneo que se dizia poeta em tempo integral – “Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às seis horas da tarde”.

Manoel de Barros usava a palavra para compor o silêncio que sempre fará muito barulho dentro de mim. Estou contente pois ele voltou à Gaia, à terra, voltou a ser poeira de estrela e como tal se espalhará por todos os lugares.

Muito obrigado, por fazer tanto e ainda se achar incompleto, poeta!

“O ser biológico é sujeito à variação do tempo, o poeta não” (Manoel de Barros)

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Crédito da foto: Divulgação/Família Barros

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24.11.14

Unicidade

Há muitos agnósticos que creem que Deus talvez até exista, mas pouco intervem. Equivale a dizer que, na prática, todo o debate acerca da existência de Deus é um tanto inútil, já que nem mesmo Ele está interessado em intervir para dar a discussão por encerrada. A verdade é que não se convence ninguém da existência de Deus – há muitos que foram convencidos da existência do Diabo e que, por temerem o seu Lago de Enxofre, acabam por achar melhor crer num Deus salvador. Mas como pode Deus salvar, se não intervem?

Já dizia o velho Lao Tse que o melhor governante é o governante desconhecido, o que faz com que seu povo prospere por si mesmo e nem se preocupe com quem está sentado nalgum trono distante... Trazendo para a época atual, poderíamos imaginar duas universidades: a primeira, uma instituição de ponta, onde todos os professores e funcionários seguem a um estatuto muito bem elaborado, que já previra todos os percalços do caminho, e mantém seus alunos em constante aprimoramento; a segunda, um caos completo, onde um estatuto falho faz com que funcionários e professores não tenham regras claras a seguir, e não consigam manter o bom funcionamento da instituição nem tampouco manter seus alunos interessados nas aulas...

Onde vocês acham que um reitor teria de intervir mais, na primeira ou na segunda universidade?

Ora, nós estamos acostumados a questionar e a reelaborar constantemente nosso conhecimento, nossa ciência, nossa arte e até mesmo nossas doutrinas religiosas. Porém, não é sempre mirando a ordem grandiosa da Natureza que temos, passo a passo, evoluído ao longo de tantas eras humanas?

Foi preciso, afinal, nos apoiarmos em ombros de gigantes para que pudéssemos enxergar mais adiante. E os gigantes eram nós mesmos... Mas todos os gigantes da Terra, no final das contas, tinham os pés plantados no solo. A relva nos precede tanto quanto o nascer e o pôr do sol. As leis naturais, as forças naturais, as grandezas naturais, as simetrias naturais, estão a nossa volta desde que aprendemos a captar a luz e, com ela, formar as mais belas e variadas formas em nossas mentes ancestrais... Até onde isso leva?

Dizer "Deus é a Natureza" não é bem o problema, o problema é crer que isto seria reduzir a Deus. Pois a questão é que por "Natureza" muitos compreendem somente o seu Mecanismo, e daí reduzir Deus a "mera Natureza" não seria tão diferente de reduzir a Natureza a "mero Mecanismo". É o Sentido, o Sentido que traz para a nossa alma um vislumbre da grandiosidade de tudo o que há!

A ciência, infelizmente, nada tem a nos dizer acerca deste Sentido (embora não deixe de indicar o caminho)... É necessário elaborarmos o estatuto de uma nova Academia, de uma Universidade da Alma, e a sua primeira aula será: Unicidade.

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Crédito da imagem: Google Image Search

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29.8.14

Os deuses esquecidos

Trechos do artigo original de Lupa Greenwolf (The Forgotten Gods of Nature) publicado em patheos.com. Tradução de Rafael Arrais.


Quando você pensa nos deuses da natureza, quem você imagina? Você imagina o Lorde Wicca ou a Dama (também amada por muitos pagãos não-wicanos), ela uma mulher de cabelos longos entrecruzados com videiras, frutas e grãos, ele um homem peludo e corpulento, acompanhado por grandes mamíferos selvagens? Você imagina Artémis ou Diana, caçadoras e donzelas e portadoras da lua? Ou talvez Gaia, grávida da própria Terra? Eu aposto que em nove de cada dez tentativas, a primeira divindade que pensou tomou uma forma humana, feminina ou masculina ou andrógina, mas quase certamente refletindo a sua própria imagem.

Mas eu quero lhe contar sobre os deuses esquecidos da natureza, aqueles cujas histórias nunca foram postas em papel porque os seus seguidores jamais escreveram sequer uma palavra ao longo da vida. Eu quero lhe contar sobre os deuses que se recusaram a abandonar suas formas naturais e juraram nunca se curvar ao macaco humano arrogante. Eu quero lhe contar sobre os deuses abaixo de seus pés, escondidos nas árvores, aninhados nas pedras dentre córregos ligeiros, assim como daqueles que cavalgam as brisas acima das nuvens e nunca se enraizaram na terra. Deixe-me lhe cantar algumas canções sobre divindades sem nome, todas apagadas pela ascensão das mulheres e dos homens e dos deuses humanos que eles nos trouxeram.

[...] Eu canto para você sobre o deus ventania da família do Pinheiro, cujas gerações dependem da sua brisa calma e agradável, mas que também podem ser arrancados do solo e tombados pela sua terrível tempestade. Eu canto para você sobre as orações sussurradas através das agulhas entrelaçadas e soltas em gentis redemoinhos de ar, clamando para que o deus dos ventos possa ser clemente nas tempestades primaveris e nas nevascas do inverno, nas noites frias do outono e nas chuvas repentinas do verão. Pois é ele o deus quem decide quais linhagens de árvores seguirão para o futuro, e é o seu vento caprichoso que transporta o pólen em segurança até a pinha – ou até o solo estéril, para que morra. E é também ele o deus quem carrega os troncos para longe em terrível cólera, deixando um de pé, e arrancando o seu companheiro de floresta num instante.

Eu canto para você sobre os panteões dos micetozoários e das amebas, estranhos e sem sexo, ao mesmo tempo mil vozes e somente um eco unificado. Eu canto para você sobre os tempos difíceis quando a madeira do mundo-tronco já apodreceu e o sol cozinha o solo, e enquanto morrem individualmente, conjuntamente perduram. As divindades requerem sacrifícios, as mil vozes em coro bradam por morte. Alguns morrem para dar luz aos demais, que fomentam a próxima geração para que possam se espalhar cada vez mais longe – estes se tornam uma parte de sua lista de santos, com vozes imortalizadas não em células, mas em espírito.

[...] Eu canto para você sobre o Criador dos peixes-palhaço, que pela manhã é um deus, e ao meio-dia brilha incandescente do mundo do alto, e que pela tardinha é uma deusa, que lança suas ovas ao aproximar da noite, e morre, apenas para renascer novamente como um deus na manhã vindoura. Eu canto para você sobre os seres submarinos que guardam vigília a cada noite, ansiosamente aguardando o retorno de seu Criador junto a luz, e acalmando os aflitos que se amontoam nas cavernas coraladas, em sua pouca fé.

[...] Eu canto para você sobre as incontáveis hostes divinas das formigas. Eu canto para você da grande deusa guerreira, e dos vigaristas que ambicionam tomar o seu poder. Todas as formigas conhecem a história da Grande Deusa Rainha, que arrancou as asas de seu rei quando ele ameaçou usurpar seu trono, e o arremessou a terra para morrer, para que ela pudesse reinar solitária em meio a sua hoste de devotos.

Eu canto para você sobre o Um e Muitos da família dos bambus, que é ao mesmo tempo todos os bambus e cada bambu. Eu canto para você sobre a dança do Um e Muitos, que cresce e cresce e cresce, e sempre se torna cada vez mais, e nunca se torna mais. Apenas uma vez a cada século, quando as estrelas se alinham nos lugares certos, é que o Um e Muitos se torna a Flor que Mata, e é dito que todos deverão morrer quando ela florescer, pois quem está vivo ainda hoje que se lembra disso de alguma outra forma? Mas dos restos mortais nos bambuzais, Um e Muitos crescerá novamente, e ressuscitará os mortos, que serão livres da memória de suas vidas passadas, para que possam crescer novos e sadios.

[...] Eu canto para você os cânticos de vitória dos deuses que reinam ainda hoje, os deuses dos lobos e dos cogumelos, dos carvalhos e das abelhas, e da corajosa e solitária deusa dos celacantos. Eu deixo para os que virão após mim a tarefa de cantar as canções dos deuses que ainda estão para nascer neste mundo – longo seja o seu reinado e o seu cuidado sobre o seu séquito.

Mas eu ainda canto para você sobre muitos outros deuses, deuses dos ventos e da água, deuses de cada mineral e dos eventos que os criaram. Eu canto para você sobre os deuses dos prótons, dos quarks, das forças atômicas que mantém os elétrons em suas órbitas. Eu canto para você sobre o deus da poeira cujas mensagens podem ser vistas nos cometas gelados a cruzar o espaço – e o próprio espaço é ainda um outro deus. Eu canto para você sobre o deus que serpenteia ao centro de cada sol, e que é visto novamente fundido em cada átomo. Eu canto para você acerca do vasto deus que coleciona asteroides para zombar dos sistemas solares de sua irmã mais velha, invejoso do seu poder. Eu canto para você de todos estes deuses, e de muitos, muitos mais...

São estes, portanto, os deuses sem nome, os deuses esquecidos, estes que se assentam na sombra dos panteões dos deuses humanos. Quando falar acerca dos deuses da natureza, não se esqueça deles. Quando falar acerca dos deuses da natureza, lembre-se de que a natureza não existe apenas em formas humanas – tampouco o Divino. Pois estes são deuses que residem muito além da imaginação daqueles que tingiram as paredes das cavernas ou escreveram em pergaminhos, deuses cujos nomes jamais foram pronunciados por vozes humanas, e cujas canções jamais alcançaram o ouvido de nenhuma mulher e de nenhum homem.

***

Crédito da foto: Tula Ben Ari

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4.1.14

A subjetividade do olhar

Este pequeno trecho é uma conclusão a que cheguei após muitos anos de debates envolvendo espiritualistas e céticos em geral... Espero que não me esqueça mais dela (tão cedo):


De um jeito ou de outro, cada um sempre crê naquilo que deseja crer, ainda que não admita isto sequer para si mesmo. A ciência humana é uma tentativa de descrever a Natureza, mas quem a observa no fim das contas somos nós. Quem a interpreta somos nós.

Nem toda a objetividade do mundo é capaz de romper a subjetividade do olhar.

 

Imagem por Google Image Search


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2.12.13

O último suspiro

Se há uma lenda que me incomoda é a lenda da luta eterna entre a fé e a razão, a ciência e a espiritualidade. Não acho que seja assim, não creio em tal lenda, acho que foi inventada e têm sido constantemente anunciada exatamente por aqueles que beberam somente das águas paradas no charco em torno do córrego do Cosmos. Era preciso encharcar as galochas, era preciso avançar sobre o matagal, era preciso ter a água até a cintura e, só então, ter coragem para mergulhar.

Mas não mergulharam, e acharam que a ciência era somente uma descrição mecanicista da natureza, um mero conjunto de equações; E acharam, isto também, que a espiritualidade era somente o que este ou aquele deus dizia que fosse, um mísero conjunto de orações para se decorar, e anedotas para se contar na mesa de jantar pouco antes da ceia de Natal.

Ah, os eclesiásticos, eles querem nos convencer de que há algum Deus que pode ser enclausurado nas paredes de seus templos, e ser obrigado a escutar, agachado e sem poder dançar, a toda a sua lenga lenga escrita em tomos de capas douradas e encenada com mantos de pura seda. Mas foi exatamente um de seus filhos que orou nos desertos, e que nos falou que ele estava espalhado por tudo o que há, e que os ventos traziam seu perfume.

E os acadêmicos? Eles querem passar em seus vestibulares e publicar suas pesquisas minuciosas nas revistas mais badaladas. Eles querem provar suas teorias do tudo, e as esfregar na cara de todos aqueles que ainda ousam acender uma vela para um santo ou orixá. O que ganham com isso? Melhor seria se eles mesmos acendessem suas velas para os deuses – o deus da Gravidade, o deus da Eletricidade, o deus da Energia Escura. Há muitos e muitos deuses pelo Infinito!

Mas quem, como Feynman, apenas se deleita em conhecer um pouco mais acerca da inefável natureza da Natureza? Quem, como Feynman, já compreendeu que, ao final da vida, não haverá nenhum Professor para lhes fazer um questionário final, nenhuma média que precise ser alcançada e nenhuma teoria que precise ser comprovada. E, da mesma forma, tampouco haverá algum Juiz para lhes decretar o caminho do Céu ou do Inferno.

O Inferno já existe na mente daqueles que o temem, ou que já desistiram deste mundo. No Céu, afinal, entraremos todos de mãos dadas. E, de fato, já estamos caminhando de mãos dadas. Só que, quando os da frente tropeçam, nem sempre os que lhes davam a mão se mantém firmes e o seguram onde estava. É por isso que todos tropeçam nas mesmas pedras e vagueiam em zigue-zague pela existência, cada qual procurando ser o Super-homem capaz de vencer todos os erros do ser humano.

Ah Nietzsche! Quão pouco faltou para compreender... O Super-homem não era um homem só acima dos demais, mas uma comunidade que se torna maior por pensar na mesma vibração e amar o mesmo horizonte. Esqueçamos também o que disseram o primeiro e o segundo zaratustras, eles também ficaram velhos, e o rio que corre hoje não é mais o mesmo que correu há mais de um século.

E se Deus está morto, que o façamos ressuscitar, ou reencarnar nalgum outro deus – contanto que tenha espaço para dançar, pois nisso o bigodudo estava certo!

Deus e Natureza, afinal, são apenas palavras, e as palavras deveriam servir para o entendimento dos homens e mulheres, jamais para o seu afastamento. Se os cientistas observam as estrelas mais distantes em seus aglomerados galácticos, se valendo de suas lunetas tão modernas, também os espiritualistas observam a fundo, e cada vez mais fundo, o abismo de suas próprias almas.

E o que falta, senão mergulharem? Senão construírem naves espaciais e barcos mitológicos para navegarem para dentro e para fora de si mesmos? “Deus ao mar o abismo e o perigo deu, mas nele é que espelhou o Céu”, disse o poeta que também foi navegante...

Os tempos já são chegados e a Natureza já dá os seus sinais. Extraímos metade do petróleo existente na Terra, e em poucas gerações iremos nos digladiar por água doce. Não há mais tanto tempo assim. Não é que o mundo esteja ameaçado, somos apenas nós, os seres humanos, que temos cada vez menos tempo para ajustar as coisas.

E, se não vamos mais ao Coliseu ver feras devorando escravos, disso não podemos nos abster de comemorar... Mas, como sabemos, ainda é cedo para que tenhamos a batalha por ganha. O animal ainda se esgueira pelos charcos da alma humana, e sem o fogo, sem a morte e o renascimento, estaremos fadados a continuar repetindo os caminhos em círculo de nossos ancestrais.

Se existe Deus ou o neutrino, quem vai saber? O desconhecido inexistente é idêntico ao existente. Quem já deu alguns passos neste Caminho, no entanto, sabe. Como Agostinho sabia: “Amanhã, amanhã? E porque não hoje?”.

Demoramos tantas eras, tantas gerações e vidas, para chegar até aqui. E quanto mais sabemos, mas há por saber. Mas sabemos! Sabemos que o Infinito fica ali, logo adiante, logo após o horizonte.

Até quando ficaremos separados, nos digladiando em nossas caixas de areia, enquanto há tantos bosques, prados e montanhas tão maiores? Muito maiores...

E quem já deu alguns passos neste Caminho, quem já subiu na beirada do monte, quem já viu de relance o serpentear do córrego do Ser pelas escarpas longínquas do verdadeiro Paraíso sabe.

E dá um último suspiro, e este suspiro é tudo o que os demais precisam experimentar.

Para viver na imensidão, é preciso antes morrer em si e para si.

***

Crédito da foto: Oleg Oprisco

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28.9.13

Uma pergunta para Debora

Não há porque temermos o Lago de Enxofre
Debora, este mundo já é um inferno.
As guerras por restos fósseis,
as matanças e perseguições,
os estupros, as famílias divididas,
e mesmo as pequenas violências
do dia a dia...

Não existem “violências pequenas”.
E eu bem sei, Debora, o quanto
sua mente está cansada disso tudo;
tudo o que os “homens de bem”
fazem pela África e outros grotões
e tudo o que dizem ser
na TV: “Paladinos agindo
em nome de Deus!”

Mas a África não é “um grotão”.
É a casa de nossos ancestrais,
a nossa primeira casa.
Pise em suas terras com reverência,
dê graças por suas chuvas e rios,
pelas montanhas e as savanas,
e por todos os demais deuses.

O que falta, minha amiga,
para este inferno todo queimar
no fogo inefável do amor
até que se torne, novamente,
o Paraíso?

Antigamente, os deuses julgavam estranho
apenas ao que é estranho.
Não estavam tão preocupados
com a promiscuidade dos bonobos,
nem com o andar desengonçado dos elefantes
ou com a vaidade dos leões.

Quando o presidente em Washington
ofereceu uma quantia em dólares
ao Chefe Seattle, ele respondeu assim,
“Você deseja comprar nossa terra,
mas os homens não são donos da terra,
são parte dela.
Como podem comprar aos rios e as matas?
Esta é uma ideia estranha para nós.”
Foi o que eu quis dizer com
“Apenas ao que é estranho”.

Disso tudo você já sabe, Debora.
Que neste inferno de desejos desenfreados
não somos realmente proprietários de nada,
exceto do que há de mais precioso
e assustador...

Há muitos que tem preferido
viver anestesiados e alheios,
repetindo as orações das igrejas
e as fórmulas de sucesso
das celebridades.

Você que não é famosa neste mundo,
mas nos reinos de cima;
Você que tomou coragem
e se atirou nesse abismo infinito;
Você, ó grande dona
dos jardins da alma,
me diga:

Como conseguiu abraçar ao mundo todo
e realizar toda esta Alquimia
de dor e desespero
em sentido
e missão?


raph'13 (escrito na AE)

***

Crédito da imagem: Martin Bartsch Salvadores

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19.9.13

A música das esferas

Estes são alguns trechos do Projeto Rumi onde temos apenas comentários meus acerca dos poemas de Jalal ud-Din. O Projeto já se encaminha para um final, em breve...

Há este grande jogo, a grande caçada da vida:

Caçamos e emboscamos a felicidade, e dormimos com ela por uma noite, uma semana ou quem sabe um mês inteiro...
Mas virá o dia, mais cedo ou mais tarde, em que ela nos escapará por entre os dedos, como a areia da praia e as brisas da primavera.

Então será um novo dia, um novo jogo da vida, uma nova caçada, uma nova aventura.

Porque temer tais emoções? Ora, é precisamente porque existe a tristeza que podemos reconhecer a felicidade. Se tudo fosse sempre igual, se todas as manhãs e todas as brisas e todos os grãos de areia fossem exatamente os mesmos, se nós acordássemos todos os dias sem havermos mudado nem um tiquinho, então seríamos sempre os mesmos – múmias petrificadas, fósseis, cadáveres adiados...
E seríamos tristes ou felizes? Tanto faz!

***

A tristeza é uma ferida por onde Deus fala conosco.
A felicidade dura somente até a próxima vez que precisarmos de um novo conselho divino.
Isto é a vida, bem vindo.

***

A Natureza é uma verdadeira sinfonia com seus sons, ciclos e chacoalhar da folhagem...

Os pássaros são os Mestres Cantadores. Coube a eles o eterno anúncio das manhãs!
As flores são as Inspetoras dos Reinos. Coube a elas espalhar o perfume infinito pelo horizonte (menos os girassóis, que estão ocupados observando e anotando o movimento do sol).
As abelhas são as Grandes Mercadoras. Coube a elas o comércio de pólen e sementes por todas as paragens...

E assim, tudo se renova.
Tudo retorna ao que era antes sem haver saído de onde estava, pois não existe “onde estava”.
Tudo vibra e nada está parado, e os girassóis que observam aos sóis das galáxias distantes (se é que existem girassóis por lá, mas ainda que não existam, nós inventaremos) parecem, de alguma forma, escutar a mesma canção que chegou a Jalal ud-Din...

Só é possível ouvir a música das esferas quando fazemos silêncio.

***

Crédito da imagem: encontrada em mevlana

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9.7.13

Frases (15)

Mais frases que vieram com o vento, geralmente primeiro aparecem no meu twitter, depois aqui:


"As metáforas elevam, os dogmas represam."

"Há muitos que desejam entrar para História Mundial. Já eu prefiro viver a história de nossa vizinhança."

"Na Livraria do Ser, o ego é bestseller na seção de ficção. A essência, uma jóia rara, escondida entre os Clássicos."

"Há coisas que só pássaros e crianças sabem. Trepam nas árvores, voam e guardam seus ninhos. Isto é, voam na imaginação: seu ninho alado."


"Quando o Socialismo se livrar do Feudalismo, será ótimo!"

"Nenhuma empreiteira financia uma campanha por ideologia."

"O dia em que tivermos novamente '1 pessoa, 1 voto' em detrimento de 'X reais, 1 voto', teremos novamente Democracia."


"Arte é a magia que flui para dentro. Magia é a arte que floresce da raiz."

"No fundo, tudo na Natureza é anônimo, inominável, inefável... Não é pelo nome que conhecemos outro ser, mas pelos olhos."

"Ao menos no Amor, nenhuma alma pode tornar-se propriedade de outra alma."

"O único casamento em que acredito é o casamento do agora, e todo resto é somente o noivado da Vida."

***

Crédito da foto: Google Image Search

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