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16.5.11

Fragmentos de Pessoa

Textos de Fernando Pessoa em "Teatro do Êxtase” (Ed. Hedra) – Organização por Caio Gagliardi.


2º – Todo este país é muito triste... Aquele onde eu vivi outrora era menos triste. Ao entardecer eu fiava, sentada à minha janela. A janela dava para o mar e às vezes havia uma ilha ao longe... Muitas vezes eu não fiava; olhava para o mar e esquecia-me de viver. Não sei se era feliz. Já não tornarei a ser aquilo que talvez eu nunca fosse...

1º – Fora daqui, nunca vi o mar. Ali, daquela janela, que é a única de onde o mar se vê, vê-se tão pouco! O mar de outras terras é belo?

2º – Só o mar das outras terras é que é belo. Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca.

Diálogo entre duas personagens sem nome, em “O marinheiro (drama estático)”.

***

I.

B – Vamos jogar, se quiseres, um jogo novo. Joguemos a que somos um só. Talvez Deus nos ache graça e nos perdoe ter-nos criado... Senta-te aqui, defronte de mim e chegada a mim. Encosta os teus joelhos aos meus e toma as minhas mãos nas tuas... Assim... Agora fecha os olhos. Fecha-os bem e pensa... e pensa... Em que deverás pensar? Não, não penses em nada. Trata de não pensar em nada, de não querer sentir, de não saber que ouves ou que podes ver, ou que podes sentir as mãos, se quiseres pensar que elas existem... Assim, amor... Não movas nem o corpo nem a alma...

(uma pausa)

B – O que sentiste?

A – Primeiro nada... Foi um espanto de ti e de mim... Depois que me esqueci de tudo, meu corpo cessou. Quis abrir os olhos mas tive um grande medo de os abrir. Depois cessei ainda mais... Fui pouco a pouco nem tendo alma. Encontrei-me sendo um grande abismo em forma de poço, sentindo vagamente que o universo com os seus corpos e as suas almas estava muito longe. Esse poço não tinha paredes mas eu sentia-o poço, sentia-o estreito, circular e profundo. Comecei então a sentir o grande horror – ah, já não poder senti-lo! – é que esse poço era um poço para dentro de si próprio, para dentro não do meu ser nem do meu ser poço, mas para dentro de si próprio, nem sei como. [...]

B – (numa voz muito apagada) Depois? Depois?

A – Depois desci... Encontrei no pensamento uma dimensão desconhecida por onde fiz meu caminho... É como se se abrisse no escuro um vácuo. Um súbito pavor de uma Porta... Assim no meu pensamento uno, vácuo abstrato, uma porta se abriu, um Poço por onde fui descendo. Compreendes bem, não compreendes? Foi no pensamento todo abstrato e sem diferenças nem fins, nem ideias, nem ser, que um Poço se abriu... E eu desci, ao contrário do que se desce – ao contrário por dentro do ao contrário...

II.

B – Assim, separados, amar-nos-emos sempre. A ponte entre nós será a curva do céu, e assim o nosso amor será eterno. Possuir-te era já o caminho de perder-te. Viver contigo era a maneira de te ir esquecendo.

O que concluir de tudo isto? Nada. Dissemos muitas verdades mas elas contradizem-se umas às outras.

Os sonhos quando passam na água são repuxos também porque a gente pode senti-los do mesmo modo. Quando a gente os sente, se depois fechar os olhos, aquilo que se sente transforma-se em repuxos que a gente vê. Eu acho que [há] muito a explorar nas nossas sensações. Há grandes interiores de continentes dentro de nós, com mistérios a desvendar. Quem sabe, amor, se raças diferentes das nossas habitarão esses sítios desconhecidos (inexplorados)? Habituei-me sempre a olhar para as minhas sensações como para uma coisa exterior.

A – De que havemos de falar?

B – De qualquer coisa. Do mistério das coisas e das formas das flores. São coisas iguais quando a medida é Deus. O mistério das coisas [...] E as formas das flores foram os primeiros contos de fadas.

A – Ás vezes, quando acordo de noite, sinto parar de repente, para que eu não vá ouvi-lo, o ruído das mãos que estão tecendo o meu destino. Vejo no ar fragmentos do meu futuro, rápidas sombras, e tendo uma vaga intuição da unidade divina do meu ser. Eu sou uma frase divina com um sentido que me escapa.

III.

B – Para onde viraste tu?

A – Não me virei para parte nenhuma.

B – Viraste-te... Um arrepio pela minha espinha sentiu que te viravas... Percebi logo que o fazias... Viraste-te para o lado donde sempre está chegando Deus...

A – De que lado é que Deus está sempre chegando?

B – De todos e de nenhum... Por isso quando te viraste para lá não fizeste movimento nenhum com o corpo...

A – Como soubeste então que eu me tinha virado?

B – Deus é que soube; não fui eu.

Diálogo entre duas personagens sem nome, ao longo de três trechos distintos, em “Diálogo no jardim do palácio”.

***

Príncipe – Vou morrer.

X – Não, meu Senhor...

Príncipe – Sim, vou... Já tudo começa a ter outro aspecto e a falar aos meus olhos numa outra voz... Parece que não sou eu que estou cansado de existir, mas as coisas que se cansam de eu as ver... Começo a morrer nas coisas... O que se apaga de mim começa a apagar-se no céu, nas árvores, no quarto, nos cortinados deste leito... Depois, pouco a pouco, ir-se-á apagando pelo meu corpo dentro até que fizer noite mesmo ao pé das janelas da minha alma.

X – Isso é belo demais para que possais estar perto da morte...

Príncipe – É belo demais para que possa lembrar à vida... A curva dos montes, lá muito ao longe, torna-se, não mais indecisa mas mais indecisa de outra maneira... As árvores esbatem-se em sombras mas as folhas parecem-me extraordinariamente nítidas, evidentes demais... A seda dos cortinados deste leito é uma outra espécie de seda... Afundo-me pouco a pouco... Não te entristeças... Eu era real demais para poder reinar algum dia... O único trono que mereço é a morte... Não dizes nada?

X – Senhor, não morrereis...

Diálogo entre o príncipe e seu confidente desconhecido, em “A morte do príncipe”.

***

Crédito da foto: Mauricio Abreu/JAI/Corbis (Azores/Portugal)

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