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16.8.11

Café com poesia

Nem sempre gostei de café
Mas nos últimos tempos tenho apreciado
Xícaras após o desjejum
Não sei que tempos...

Às vezes, amiga, nada é o que é,
E tudo que temos ansiado
Reduz-se a tantos e tantos momentos
Que se tornam apenas um

Pegue as atendentes, por exemplo:
Algumas são mais carinhosas
Mas outras tiram um expresso sem igual
Às vezes, quando quero conversar,
Não me importo do café estar aguado
Mas noutras, quero apenas o melhor aroma,
O melhor café –
A nada dou a devida atenção
Nada é o que é...

Nem sempre gostei de café
Mas num dia li nalgum lugar que fazia bem
E desde então a cada bebericada
Tenho me sentido mais poético!

Mas, amiga, você que é poeta deve saber...
Na verdade o café ajuda a evitar infarto
Em quem está farto é de viver

E, mesmo, assim, há apenas uma chance,
Uma porcentagem
Uma incerta indefinição:
Da vida se fartar, ou infartar,
Eis a questão...

Eu não sei em que medida o café me ajudou
A ser mais poeta
Com qual matemática
Tem me auxiliado a tocar n’alma alheia
Mas sei que nunca fui tão poeta
Nunca fui tão eu mesmo
Quanto quando estava contigo
E o mundo todo estava alheio...

Nem sempre gostei de café
Mas será que foi ele quem me tornou mais poeta
Ou fui eu quem, acreditando nisso,
Não me importei de expor-me em verso?

Sei que hoje, amiga, uns tem me chamado assim:
De poeta
De conhecedor d’alma alheia
Mas como posso conhecer a alma de alguém
Senão da mesma forma que te conheci
E a trouxe para dentro de mim mesmo?

Se eu sou poeta, isso também é por sua causa,
E de todos os seus versos que adentraram minh’alma
E de todas as conversas sem sentido
E de todas as xícaras de café que não tomamos
Pois a poesia, como o amor, não faz sentido,
Nem se mede em porcentagens
Mas, de alguma forma sabemos,
Bem lá no fundo
Que ela é tudo que é


Para Flávia...

raph'11

***

Crédito da foto: Kerrick James/Corbis

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10.8.11

Inefável

É como se a alma decidisse apertar o passo
E seguisse adiante rumo a uma de suas casas
Mas o corpo permanecesse preso ao laço
Suplicando por voar em suas asas

É como se houvesse formado grandioso temporal
E todos os raios caíssem no mesmo lugar
Mas eu tivesse que correr do matagal
Fugindo do calor de teu fogo a crepitar

É como se buracos negros dançassem
Com sua gravidade a formar galáxias
Mas eu tivesse medo que não me amassem

É como se houvesse engolido o próprio universo
E explodido em bilhões de pedaços de pura luz
Mas continuasse aqui, cantarolando em verso...

raph'11

***

Crédito da imagem: Escultura de Paige Bradley

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2.8.11

E então veremos face a face...

Parte (3 de 3) do interlúdio da série de artigos "4 amores"

Para terminar este interlúdio, trago a vocês dois dos maiores textos acerca do amor que a história foi generosa em conservar. Inspirado por eles, espero poder falar sobre ágape da forma mais profunda possível, considerando que eu mesmo, como tantos de nós, ainda estou muito distante de viver plenamente neste amor - eu o conheço, mas conhecer é apenas uma parte...


Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence o vencedor,
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade;
Se tão contrário a si é o mesmo amor?

Luiz Vaz de Camões, Soneto 11


***

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.

E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.

E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.

O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.

Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;

Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;

Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;

Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;

Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.

Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.

Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.

Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.

Paulo de Tarso, 1 Coríntios 13


***

Nota: E não poderia deixar de lembrar também da música que Renato Russo, o grande poeta do Centro-Oeste, fez com uma junção desses dois textos: Monte Castelo.

Crédito da imagem: Akiane Kramarik

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16.5.11

Fragmentos de Pessoa

Textos de Fernando Pessoa em "Teatro do Êxtase” (Ed. Hedra) – Organização por Caio Gagliardi.


2º – Todo este país é muito triste... Aquele onde eu vivi outrora era menos triste. Ao entardecer eu fiava, sentada à minha janela. A janela dava para o mar e às vezes havia uma ilha ao longe... Muitas vezes eu não fiava; olhava para o mar e esquecia-me de viver. Não sei se era feliz. Já não tornarei a ser aquilo que talvez eu nunca fosse...

1º – Fora daqui, nunca vi o mar. Ali, daquela janela, que é a única de onde o mar se vê, vê-se tão pouco! O mar de outras terras é belo?

2º – Só o mar das outras terras é que é belo. Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca.

Diálogo entre duas personagens sem nome, em “O marinheiro (drama estático)”.

***

I.

B – Vamos jogar, se quiseres, um jogo novo. Joguemos a que somos um só. Talvez Deus nos ache graça e nos perdoe ter-nos criado... Senta-te aqui, defronte de mim e chegada a mim. Encosta os teus joelhos aos meus e toma as minhas mãos nas tuas... Assim... Agora fecha os olhos. Fecha-os bem e pensa... e pensa... Em que deverás pensar? Não, não penses em nada. Trata de não pensar em nada, de não querer sentir, de não saber que ouves ou que podes ver, ou que podes sentir as mãos, se quiseres pensar que elas existem... Assim, amor... Não movas nem o corpo nem a alma...

(uma pausa)

B – O que sentiste?

A – Primeiro nada... Foi um espanto de ti e de mim... Depois que me esqueci de tudo, meu corpo cessou. Quis abrir os olhos mas tive um grande medo de os abrir. Depois cessei ainda mais... Fui pouco a pouco nem tendo alma. Encontrei-me sendo um grande abismo em forma de poço, sentindo vagamente que o universo com os seus corpos e as suas almas estava muito longe. Esse poço não tinha paredes mas eu sentia-o poço, sentia-o estreito, circular e profundo. Comecei então a sentir o grande horror – ah, já não poder senti-lo! – é que esse poço era um poço para dentro de si próprio, para dentro não do meu ser nem do meu ser poço, mas para dentro de si próprio, nem sei como. [...]

B – (numa voz muito apagada) Depois? Depois?

A – Depois desci... Encontrei no pensamento uma dimensão desconhecida por onde fiz meu caminho... É como se se abrisse no escuro um vácuo. Um súbito pavor de uma Porta... Assim no meu pensamento uno, vácuo abstrato, uma porta se abriu, um Poço por onde fui descendo. Compreendes bem, não compreendes? Foi no pensamento todo abstrato e sem diferenças nem fins, nem ideias, nem ser, que um Poço se abriu... E eu desci, ao contrário do que se desce – ao contrário por dentro do ao contrário...

II.

B – Assim, separados, amar-nos-emos sempre. A ponte entre nós será a curva do céu, e assim o nosso amor será eterno. Possuir-te era já o caminho de perder-te. Viver contigo era a maneira de te ir esquecendo.

O que concluir de tudo isto? Nada. Dissemos muitas verdades mas elas contradizem-se umas às outras.

Os sonhos quando passam na água são repuxos também porque a gente pode senti-los do mesmo modo. Quando a gente os sente, se depois fechar os olhos, aquilo que se sente transforma-se em repuxos que a gente vê. Eu acho que [há] muito a explorar nas nossas sensações. Há grandes interiores de continentes dentro de nós, com mistérios a desvendar. Quem sabe, amor, se raças diferentes das nossas habitarão esses sítios desconhecidos (inexplorados)? Habituei-me sempre a olhar para as minhas sensações como para uma coisa exterior.

A – De que havemos de falar?

B – De qualquer coisa. Do mistério das coisas e das formas das flores. São coisas iguais quando a medida é Deus. O mistério das coisas [...] E as formas das flores foram os primeiros contos de fadas.

A – Ás vezes, quando acordo de noite, sinto parar de repente, para que eu não vá ouvi-lo, o ruído das mãos que estão tecendo o meu destino. Vejo no ar fragmentos do meu futuro, rápidas sombras, e tendo uma vaga intuição da unidade divina do meu ser. Eu sou uma frase divina com um sentido que me escapa.

III.

B – Para onde viraste tu?

A – Não me virei para parte nenhuma.

B – Viraste-te... Um arrepio pela minha espinha sentiu que te viravas... Percebi logo que o fazias... Viraste-te para o lado donde sempre está chegando Deus...

A – De que lado é que Deus está sempre chegando?

B – De todos e de nenhum... Por isso quando te viraste para lá não fizeste movimento nenhum com o corpo...

A – Como soubeste então que eu me tinha virado?

B – Deus é que soube; não fui eu.

Diálogo entre duas personagens sem nome, ao longo de três trechos distintos, em “Diálogo no jardim do palácio”.

***

Príncipe – Vou morrer.

X – Não, meu Senhor...

Príncipe – Sim, vou... Já tudo começa a ter outro aspecto e a falar aos meus olhos numa outra voz... Parece que não sou eu que estou cansado de existir, mas as coisas que se cansam de eu as ver... Começo a morrer nas coisas... O que se apaga de mim começa a apagar-se no céu, nas árvores, no quarto, nos cortinados deste leito... Depois, pouco a pouco, ir-se-á apagando pelo meu corpo dentro até que fizer noite mesmo ao pé das janelas da minha alma.

X – Isso é belo demais para que possais estar perto da morte...

Príncipe – É belo demais para que possa lembrar à vida... A curva dos montes, lá muito ao longe, torna-se, não mais indecisa mas mais indecisa de outra maneira... As árvores esbatem-se em sombras mas as folhas parecem-me extraordinariamente nítidas, evidentes demais... A seda dos cortinados deste leito é uma outra espécie de seda... Afundo-me pouco a pouco... Não te entristeças... Eu era real demais para poder reinar algum dia... O único trono que mereço é a morte... Não dizes nada?

X – Senhor, não morrereis...

Diálogo entre o príncipe e seu confidente desconhecido, em “A morte do príncipe”.

***

Crédito da foto: Mauricio Abreu/JAI/Corbis (Azores/Portugal)

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14.5.11

Algo existe

Ó príncipe, tu me pede para resolver
Essa tua angústia do ser
Mas eu tudo que sei, é que nada sei
Que poderia então lhe dizer
Senão que aquilo que sei
É tão somente que há algo a existir
Que sabe, antes mesmo de eu saber
Que é, antes mesmo de eu ser
Que já o era, na noite ancestral
Antes do primeiro sol luzir
E da primeira vida sentir

Logo tu, que tem buscado tanto
Que até o nascer do dia viajou
Conquistando, com teu exército, tudo por onde passou
Já deveria ter encontrado algum encanto
Uma oração, ou poesia que seja
Que te permitisse a própria alma enxergar
Para saber que tais respostas
Não estão sequer além do mar

Ó príncipe, tu que acreditou que poderia
Converter todo mundo a tua imagem
Logo tu, jamais suspeitou do que não sabia
Que tua armada tem somente circundado a margem
Do infinito reino submerso
No oceano de um verso:
“Algo existe no arcabouço da tua vontade”

Aí está toda riqueza
Aguardando tua conquista
Ainda antes do teu coração
Fundo, no alçapão da mente
Esteve tal centelha a existir
Em delicada beleza
Bem debaixo da tua vista

Logo tu que marchou
Até a fronteira deste mundo
Jamais percebeu, jamais sentiu
Toda essa misteriosa vontade
Que arde no tempo sem idade
E, tal qual chuva caudalosa
Nos irradia profunda calmaria
Até que toda angústia cesse
E todos os pontos estejam igualados
E todos os pensamentos de amor
Percam-se ao céu, como seres alados

Ó príncipe, abra os olhos e veja
Que afinal existe algo
E toda nossa angústia perante o nada
Será nalgum dia tão relevante
Quanto o choro de uma criança
Ao finalmente perceber
Essa tal fronteira do ser


raph'2011

***

Crédito da imagem: Angelo Hornak/Corbis (tumba do filho de Napoleão, esculpida por Joseph Edgar Boehm - o personagem não tem relação com o poema, a imagem, sim)

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21.4.11

Médium de mim mesmo

Como alguns devem saber, estou de novo perambulando pelo Rio, e em meio a correria do centro da cidade, tive a oportunidade de visitar a exposição de Fernando Pessoa no centro cultural dos correios, no que subitamente me senti como que deslocado do tempo e do espaço. Todo centro de cidade grande deveria ter uma exposição permanente como essa, ou de Tagore, ou de Gibran, ou de poetas afins, médiuns deles mesmos...


Tive sempre, desde criança, a necessidade de aumentar o mundo com personalidades fictícias, sonhos meus rigorosamente construídos, visionados com clareza fotográfica, compreendidos por dentro de suas almas. Não tinha eu mais que cinco anos, e, criança isolada e não desejando senão assim estar, já me acompanhavam algumas figuras de meus sonhos – um capitão Thibeaut, um Chevalier de Pás – e outros que já me esqueceram, e cujo esquecimento, como a imperfeita lembrança daqueles, é uma das grandes saudades da minha vida.

(...) Esta tendência não passou com a infância, desenvolveu-se na adolescência, radicou-se como crescimento dela, tornou-se finalmente a forma natural de meu espírito. Hoje já não tenho personalidade: quanto em mim haja de humano, eu o dividi entre os autores vários de cuja obra sou o executor. Sou hoje o ponto de reunião de uma pequena humanidade só minha.

(...) Médium, assim, de mim mesmo, todavia subsisto. Sou porém menos real que os outros, menos coeso, menos pessoa, eminentemente influenciável por eles todos.

Carta ao casal Monteiro.


Pertenço a uma geração – supondo que essa geração seja mais pessoas que eu – que perdeu por igual a fé nos deuses das religiões antigas e a fé nos deuses das irreligiões modernas. Não posso aceitar Jeová, nem a humanidade. Cristo e o progresso são para mim mitos do mesmo mundo. Não creio na Virgem Maria nem na eletricidade.

Barão de Telve, "A educação do estoico".


Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

"Mar português".


***

Crédito da foto: Viviam Carvalho (exposição de Fernando Pessoa, quando em São Paulo)

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11.4.11

Tudo que nos resta

No início, somos todos um pensamento
Que pensa: “serei só eu, sozinho?”
E então, ainda que por um momento
Há toda razão do mundo
Reduzida neste breve alento
De pela imensidão, jamais andar só
De por todo esse infinito caminho
Dar as mãos
E caminhar sem dó

Então surge toda a angústia do mundo
No coração daquele que se separa
Que se acha santo, que se acha puro
Ou que se acha um pecador
Tanto faz
É tão somente nesta separação
Que reside toda a dor
Toda existência reduzida a este momento
Em que o ser se encara
Face a face
Alma a alma
E jamais se separa

No fim, somos todos poeira estelar
Sobras e detritos do fogo dos deuses
A arder por infinitos sóis
Vagando pelo vasto mar

Que não somos o centro do mundo
E o mundo não é centro de nada
Apenas pedra e poeira a girar por mais uma estrela
A girar por mais uma galáxia
A girar por mais um pensamento
Que se torna a imagem do que será
Lembrado para sempre...

Do início ao fim, conectados
Por uma mesma lembrança
Ansiamos por vislumbrar a luz
Alcançar o céu esquecido
Mas terminamos por lembrar
Apenas de nossa própria escuridão

E tudo que nos resta
É a fuga dessa solidão
É o momento de viver
Eternamente dentro do ser


raph'2011

***

Crédito da imagem: verdessmares

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8.2.11

Imagine

A canção e a poesia universal de John Lennon, cantarolada literalmente em volta do mundo. Como ele mesmo dizia, "um sonho que você sonha sozinho é apenas uma sonho, mas um sonho que você sonha junto, é realidade". Bem vindos a realidade da música:

Imagine não existir o Paraíso
É fácil se você tentar
Nenhum Inferno abaixo de nós
Acima de nós apenas o céu
Imagine todas as pessoas
Vivendo para o hoje

Imagine não existirem países
Não é difícil de fazê-lo
Nada pelo que matar ou morrer
E nenhuma religião também
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz

Você pode dizer
Que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Eu tenho a esperança de que um dia
Você se juntará a nós
E o mundo será como um só

Imagine não existirem posses
Me pergunto se você consegue
Nenhuma necessidade de ganância ou fome
Uma irmandade de homens
Imagine todas as pessoas
Compartilhando todo o mundo

Você pode dizer
Que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Eu tenho a esperança de que um dia
Você se juntará a nós
E o mundo viverá como um só

("Imagine" de John Lennon. Tradução por Rafael Arrais)

***

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19.1.11

A saudade e a eternidade

Estes poemas dizem respeito aquele sentimento que nos ocorre quando subitamente sentimos falta dos momentos doces perdidos no passado, mas também dizem respeito a nossa lembrança da eternidade que jaz presente nessa persistente saudade do que ainda virá...

Saudades do verão

Os poetas tem esse dom
De deixar tanta saudade quando se vão
Mas não deixa de ser saudade boa
Por mais que doa
Por mais que por ora deságue
Como chuva de verão

Melhor amar e sentir a tudo isso, então,
Tudo isso que cascas de sentimento
Palavras, conjuntos de signos,
Jamais nos explicarão

Melhor amar e perder
Que nunca haver sequer amado
Melhor assim envelhecer
Que nunca haver sequer vivido

Que se a morte é a derradeira estação
Aos poetas, e aos amigos dos poetas,
Resta tão somente esse alento
De lembrar, de sentir, de saudar,
Esse amor, essa saudade,
Que pela pele nos arde
Como os primeiros raios de sol
Do próximo verão

Rafael Arrais, 2011


Eternidade

Busco um canto
em que todos os povos
se reconheçam,
e todas as vozes
se identifiquem,
e todos os olhos
se substantivem,
e todas as cores
se materializem.

Busco um canto
em que todas as crenças,
se consumam,
e todas as raças
se despatriotizem,
e todas as doenças
se extinguam,
e todos os  braços
se encontrem.

Busco um canto
em que a paz
se solidifique,
em que os sábios
não se corrompam,
e que as luzes
jamais apaguem.

Busco um canto
em que toda humanidade
em uníssono,
acompanhe,
e que a melodia,
atravesse séculos
de progressos e sangue,
e nos traga de volta
o dom da eternidade.

Flavia Lopes, (talvez) algum lugar entre 1998 e 2006

***

Crédito da foto: Dircinha

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23.12.10

Passagem

Este poema em homenagem ao passar dos anos e dos dias e dos momentos desapercebidos...

I.

Hoje estar melhor do que ontem
Que dias vem e dias vão
Iguais jamais serão
E a força que a tudo mantém
Nesse tempo a passar em vai e vem
Desponta no horizonte dessa imensidão

Já o futuro é brisa que não soprou
Eu posso esperar o amanhã chegar
Como quem caminha dentre flores
Saboreando a fragrância de seus amores
Percebendo a eternidade passar
Sem se importar com o que não chegou

Aqui há tanto para conhecer
Do que há dentro de mim
Do que há lá fora na varanda:
O sol que nasce para o ser
E no ocaso do entardecer
Rega com luz nosso jardim

E se acaso alguém lhe disser
Para apertar a caminhada
Para chegar ao céu mais cedo
Responda que seus passos são curtos
Que ainda há muito pelo que passar
Nessa viagem eterna de seres e luz
De gente a aprender a amar
Não há do que se ter medo
Não há lugar a se guardar

II.

Nada há
Que não a harmonia da passagem...

III.

À noite a lua nos conduz
Por tais campos elísios
Na ante-sala do infinito
Nosso anfitrião em silêncio
Nos diz o que devia ser dito
E então percebemos em paz
Que só nos resta aguardar
Pois que em sua casa
Há só este modo de entrar:

As mãos dadas
Os corações entrelaçados
As almas irmanadas
As ilusões em desencanto
As mentes a recordar
Da época em que nos encontramos
Sim! Sim meus irmãos
Nós mal começamos...

raph'10

***

Crédito da foto: Alfredo Mascarenhas

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