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27.6.26

Lançamento: Emily Dickinson - Poemas de amor e de morte

As Edições Textos para Reflexão retornam à poesia com a maior poeta da língua inglesa.

Uma mulher que viveu sua vida numa sociedade profundamente patriarcal e conservadora, autora de poemas que exploram temas universais como o amor, a morte, a natureza, a eternidade, a dúvida religiosa e a consciência individual de uma forma extraordinariamente original e, por que não dizer, mística: eis o grande mistério em torno de Emily Dickinson. Esta edição traz uma seleção dos seus poemas mais profundos.

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» Saiba mais sobre Emily Dickinson no Epílogo da edição: O mistério de Amherst


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25.6.26

O mistério de Amherst

A Natureza é a mais elevada das artes
Apenas ver o céu de verão já é poesia

Se leio um livro e isso deixa todo o meu corpo tão gélido
Que não há fogo que posso aquecê-lo,
Sei que isso é poesia
Se sinto, fisicamente,
Como se o topo da minha cabeça fosse arrancado,
Sei que isso é poesia –
Essas são as únicas maneiras de saber –
Haverá outra?


No século XIX, Amherst era uma pequena cidade cerca de 150 km ao oeste de Boston, cuja população girava em torno de 2 a 4 mil habitantes. Nessa época, a vida do cidadão médio era marcada por uma combinação de trabalho agrícola, religiosidade protestante intensa, forte valorização da educação e uma vida social relativamente restrita para os padrões atuais. A maioria das famílias dependia direta ou indiretamente da agricultura, e os dias de trabalho começavam cedo, muitas vezes antes do nascer do sol.
No entanto, o nível de alfabetização e interesse pela leitura era consideravelmente elevado se comparado à cidades norte-americanas do mesmo porte. A cidade contava com instituições de peso, como o Amherst College, fundado em 1821, e posteriormente a Universidade de Massachusetts Amherst, fundada em 1863. Além da Bíblia, muitos dos seus cidadãos eram versados nas obras de William Shakespeare, John Milton, Ralph Waldo Emerson e Henry Wadsworth Longfellow.
Isso pode explicar, quem sabe, o surgimento de um grande poeta numa cidadezinha tão modesta. Certamente ele teria viajado bastante, quiçá rumo a outros continentes, para compensar a falta de diversidade cultural em sua cidade natal. Talvez fosse um agitador social, presente em saraus de poesia em Boston e outras grandes cidades de sua época.
Mas que esse poeta tenha vivido toda a vida em sua própria região, que nunca tenha participado de saraus públicos, movimentos culturais, tampouco tido algum livro de poemas publicado em vida – e que, ainda por cima, tal poeta tenha sido recluso e isolado em sua própria residência por boa parte da vida, e que seja lido e reconhecido até hoje como um dos maiores poetas da língua inglesa e, além de tudo isso, que seja uma mulher, uma mulher que viveu sua vida numa sociedade profundamente patriarcal e conservadora, autora de poemas que exploram temas universais como o amor, a morte, a natureza, a eternidade, a dúvida religiosa e a consciência individual de uma forma extraordinariamente original e, por que não dizer, mística: eis o grande mistério em torno de Emily Dickinson.


Viver é tão surpreendente que deixa pouco espaço para outras ocupações.


Nascida em 10 de dezembro de 1830, Emily era filha de um proeminente família de região. Tanto seu pai quanto seu avô foram advogados de renome. Ela sempre viveu ao lado da família, a quem era muito apegada: os pais, o irmão Austin e a irmã Lavinia que, assim como ela, nunca se casou. A irmã foi também uma de suas grandes amigas ao longo da vida, e após sua morte tornou-se a guardiã de sua obra poética – sem Lavinia, dificilmente o mundo conheceria Emily Dickinson.
Nossa poetisa sempre demonstrou uma grande sagacidade aliada a um temperamento espirituoso, muitas vezes irônico, e uma forte tendência à introspecção e a solitude. Estudou até os 17 anos num seminário para moças, onde foi uma aluna brilhante, sendo versada em inglês, latim, história, geografia, matemática e, principalmente, botânica, pois era grande amante das flores. Com exceção de algumas viagens a Boston e outras cidades da região, Emily passou praticamente a vida toda na mesma residência onde nasceu, chamada “The Homestead” – uma mansão bela e espaçosa, hoje transformada no Emily Dickinson Museum.
Lá ela tinha o seu quarto, um cômodo relativamente simples, com uma pequena mesa de canto iluminada por um lampião, onde escreveu, quase sempre à noite, após encerrar as tarefas domésticas, centenas de poemas que entraram para a história. Isso também se explica pelo seu grande interesse pela leitura, aliado ao fato do pai possuir uma grande biblioteca que estava sempre à disposição. Emily era especialmente versada na Bíblia e na obra de Shakespeare, mas também admirava Charles Dickens, George Eliot e as irmãs Brontë. Na poesia, teve contato com Ralph Waldo Emerson, William Blake, John Keats e Elizabeth Browning. Todavia, seus poemas não parecem ter influência direta de nenhum deles, sendo talhados com extrema originalidade, o que decerto a ajudou a ser lida e reconhecida até os dias atuais.

E assim, com essa sabedoria, orei –
Grande Espírito, dá-me
Um Céu não tão grande quanto o teu,
Mas grande o suficiente para mim


Durante toda a sua vida teve menos de dez poemas publicados, todos enviados a jornais por pessoas da família, sem o nome da autora. Logo de cara, ao verificar que alguns de seus poemas foram impressos com “melhorias” e “correções” editoriais, Emily desistiu de publicá-los como livro, e passou a enviá-los, por correspondência, somente aos seus amigos mais próximos – mesmo que fossem apenas amigos das letras, isto é, cujo contato com a poeta se dava quase sempre pela via das cartas.
Quanto aos casos amorosos, fossem ou não platônicos, ela sempre os manteve em segredo, embora os vivenciasse intensamente. Seja como for, as suposições acerca de sua vida amorosa são baseadas tão somente nas cartas que ela enviou e que foram parcialmente recuperadas ao longo do tempo, já que todas as cartas que ela recebeu de seus correspondentes foram queimadas pela irmã após sua morte, atendendo seu desejo expresso. Dito isso, parece certo que chegou a ter diversos flertes na juventude, e que na maturidade três homens lhe despertaram um forte sentimento. Eram todos casados, mais velhos, figuras que ela admirava: um ministro presbiteriano, o editor de um jornal e um juiz. Com os três a poeta manteve correspondência por muitos anos, e num e noutro ano, deram-se até mesmo raras visitas pessoais. O terceiro, o juiz Otis Lord, um grande amigo de seu pai, ficou viúvo e teve um romance de poucos meses com Emily. Ao que tudo indica, em 1882 ele a pediu em casamento, mas ela recusou, pois isso a obrigaria a mudar-se de Amherst. Dois anos depois, o juiz faleceu.
Também são bastante evidentes os sinais apaixonados nas dezenas de “cartas poema” (letter poems) que ela enviou à sua grande amiga Susan Dickinson, casada com seu irmão Austin. Susan, uma mulher culta e inteligente, em geral era a primeira a receber os poemas de Emily, sendo também a sua principal crítica literária. Esse diálogo duradouro entre as duas foi essencial para o processo criativo e o crescimento intelectual da autora.


Derramei o orvalho –
Mas colhi a flor da manhã –
Escolhi esta estrela:
Única dentre a Noite Imensa –
Sue - para sempre Sue!


Emily amava a Natureza e não se cansava de tentar colocar tal sentimento em palavras. Com seu conhecimento de botânica, cultivava flores numa estufa com tanta dedicação que havia sempre alguma espécie em floração, inclusive no inverno. Na companhia de seu cão Carlo, costumava passear pelos jardim da propriedade da família, o que sem dúvida a inspirava na escrita noturna.
Embora criada no Puritanismo, seus poemas demonstram aversão aos dogmas religiosos mais limitantes. Ao mesmo tempo, era evidente o fervor de sua religiosidade íntima, captada tantas vezes em seus versos mais arrebatadoramente místicos. Emily não se furtava de falar com profundidade tanto do Céu quanto do Inferno.


E se você fosse salva,
E eu condenada a estar
Onde você não estivesse,
Isso já seria o Inferno para mim.

Com a morte de seu cão, um companheiro diário por dezesseis anos, cessaram seus passeios pelos jardins, e Emily se tornou cada vez mais reclusa na própria casa, no próprio quarto, protegida pela irmã e pela criada da família.
Essa tendência à reclusão já havia se manifestado desde seus vinte e poucos anos, mas foi gradualmente se agravando diante da perda de diversas pessoas queridas. Já aos quatorze anos havia perdido uma prima e grande amiga, Sophie, da mesma idade. Ela perdeu o pai em 1874 e poucos anos depois, foi obrigada a testemunhar o adoecimento da mãe, até sua morte em 1882. Aliás, num curto período de alguns anos, a poeta perdeu a mãe, o querido sobrinho Gilbert, de meros 8 anos, uma grande amiga de infância, Helen Hunt Jackson, e ainda o juiz Lord, com quem quase se casou.
De fato, em sua época, anterior à penicilina e o saneamento básico, a morte era um espectro constante em torno dos vivos. Mesmo nas classes mais abastadas era comum morrer de acidentes, de parto, malária, tuberculose, tifo etc. Portanto, não é de admirar que Emily dialogasse constantemente com a morte e a imortalidade da alma em seus poemas. Em alguns deles, a Morte se torna uma espécie de personagem mitológica, uma semideusa, ou quem sabe um aspecto de Deus.


Porque eu não pude parar para a Morte –
Ela gentilmente parou para mim –
A carruagem levava apenas nós dois –
E a Imortalidade.


Em 1886, aos 55 anos e após dois anos de declínio de sua saúde, a poeta tomou a Carruagem. Morreu em sua cama, no mesmo cômodo onde teceu sua poesia, cuidada por Lavinia e Susan. O atestado de óbito menciona nefrite, mas pelos sintomas que ela descrevia, como desmaios e forte dores na nuca, hoje suspeita-se que fosse hipertensão. Seja como for, e medicina de sua época seria incapaz de salvá-la.
Ao organizar seus pertences, sua irmã Lavinia ficou surpresa ao encontrar, numa gaveta, centenas de poemas reunidos em 40 livretos manuscritos – uma produção desconhecida até mesmo da família. Assim, como Emily fez Lavinia jurar que queimaria todas as cartas recebidas pela irmã, mas nada disse sobre sua poesia, seguiu-se uma verdadeira epopeia da compilação de todos os seus poemas, inclusive os que foram remetidos por cartas aos amigos, que eventualmente também se tornaram seus primeiros editores.
Em 1890, quatro anos após sua morte, foi publicada a primeira seleção preparada por Todd e Higginson: Poems, com 115 poemas. Este pequeno livro alcançou um surpreendente sucesso de crítica e de público, esgotando onze reimpressões em dois anos. Na sequência, os mesmos editores lançaram mais duas coletâneas, Poems, Second Series (1891) e Poems, Third Series (1896).
Hoje amplamente reconhecida como uma das maiores poetas da língua inglesa, senão a maior, Emily Dickinson seguiu o mesmo caminho de outros grandes autores clássicos que foram muitas vezes ignorados em sua própria época, mas cuja obra venceu o tempo e veio a se tornar imemorial.
Ficou famosa a carta em que Emily faz uma pergunta ao “Sr. Higginson”, seu futuro editor:


O senhor (...) pode me dizer se o meu Verso está vivo?
A Mente está, ela própria, tão próxima – não pode ver com clareza – e não tenho a quem perguntar –
Se o senhor achar que respira – e puder me dizer – eu sentiria imediata gratidão.


Hoje podemos constatar que o seu Verso, minha amiga, segue mais vivo do que nunca!

 

(em breve as Edições Textos para Reflexão vão publicar uma seleção dos melhores poemas de Emily Dickinson... aguardem!)

***

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Emily Dickinson em forografia da época, colorizada por computador); [ao longo] Google Image Search (Amherst no século XIX; Emily Dickinson em sua mesa de escrita)

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29.4.26

A tripulação

Desde que nos entendemos por gente, por civilização, ou mesmo antes disso, ela já estava lá, cintilante e imponente, às vezes cheia, às vezes oculta, mas sempre exercendo o seu cargo de rainha da noite.

Todavia, para os gregos antigos, assim como na mitologia de outros povos, ela não é simplesmente rainha, mas deusa. Selene é o seu nome, e a lua, isso que vemos flutuando na noitinha, é uma espécie de acessório da sua carruagem divina.

Há pouco mais de meio século nós finalmente colocamos os pés nela, e embora fosse tão somente uma imensa pedra seca cheia de crateras, creio que este conhecimento empírico e direto não a tornou menos deusa, menos sagrada, ao menos aos olhos dos poetas.

Ironicamente, a NASA intitulou essas missões espaciais com o nome do deus Apolo, que a exemplo de Selene também possui uma carruagem divina, mas que serve para mover o sol, e não a lua. Mais recentemente, meio século depois, a NASA voltou a mandar alguns de nós aqui da Terra para lá, e intitulou as missões com o nome da deusa Ártemis, vejam só, a irmã gêmea de Apolo.

Esses foram os quatro seres humanos enviados para navegar pelo espaço próximo, sobrevoar o lado oculto da lua, e retornar à Terra, na missão Ártemis II:

Reid Wiseman, comandante da missão, norte americano, bacharel em ciências e mestre em engenharia.
Victor J. Glover, piloto da missão, norte americano, bacharel em engenharia, com dois mestrados em áreas da engenharia e um em ciência militar.
Jeremy Hansen, um dos especialistas da missão, canadense, bacharel em ciências espaciais e mestre em física.
Christina Koch, a outra especialista da missão, norte americana, bacharel em engenharia e física, mestre em engenharia.

Então foi isso, três homens, incluindo o primeiro não norte americano a flutuar ao redor da lua, e uma mulher, que também foi a primeira mulher a realizar tal feito.

E, se este “feito” pode parecer algo meio sem sentido para muitos de nós vivendo o dia a dia aqui embaixo, com suas guerras sem sentido, suas crises climáticas, desigualdades e injustiças avassaladoras, penso que há um pensamento muito consolador em meio a tudo isso:

Pelo menos eles não usaram foguetes para se destruir, e sim para navegar pelo espaço a nossa volta.

Sim, durante os dez dias dessa viagem louca ao redor de uma deusa, confesso que contemplei a lua com outros olhos, pois sabia que lá em cima, lá longe, de alguma forma quatro de nós, arrastados pelas leis gravitacionais dentro de uma cápsula de metal, observavam com os próprios olhos, pela primeira vez na era humana, o lado de Selene que nunca se volta para a Terra.

Estou sentado em uma lata
muito acima do mundo;
o planeta Terra é azul,
e não há nada que eu possa fazer...

E por mais que possa parecer absurdo colonizar uma deusa, estabelecer bases humanas permanentes nessa pedra inóspita, quem sabe para extrair minérios, quem sabe para lançar novos foguetes cada vez mais distante (se aqui embaixo não nos exterminarmos antes), há algo de genuinamente belo na ideia da humanidade desbravar a escuridão infindável do espaço sideral, com suas distâncias inimagináveis, a bordo de pequeninos barcos metálicos.

No entanto, essa “beleza” pode ser difícil de ser encapsulada em palavras. Por sorte desta vez enviamos uma mulher, e coube a ela, somente a ela, tentar reduzir tudo isso a meras palavras, meras cascas de sentimento.

Eis o que nos contou Christina Koch numa espécie de coletiva de imprensa, pouco tempo depois de aterrissar de volta em casa:

“Há alguns anos eu estava dando um discurso, e ele falava sobre tripulação e trabalho em equipe. Em dado momento, alguém perguntou: O que define uma tripulação? Qual a diferença entre uma tripulação e uma equipe?

E eu pensei, ok, essa é moleza. Então abri a boca, confiante, para contar tudo o que eu sabia sobre ser parte de uma tripulação... E tudo o que saía da minha boca naquele momento na realidade não tinha valor algum.

Eu dizia coisas como, Ok, nossas tripulações vão ao espaço, e trabalham juntas, e se alimentam juntas, então, sabe, elas são uma tripulação. Bem, os barcos também têm tripulações. Você é um tripulante se estiver num deles. Ajuda se tiver um remo...

Tudo isso era bobagem. Mas, nos últimos dez dias, em nossa missão ao redor da lua, eu obtive uma resposta um pouco melhor para essa pergunta.

Uma tripulação é formada por pessoas, por um grupo de pessoas que estará sempre unida, não importa o que aconteça. Isso significa avançar juntos, a cada minuto, com o mesmo propósito em mente. Isso significa estar disposto a se sacrificar silenciosamente um pelo outro. Isso torna cada uma dessas pessoas responsável pela outra.

Uma tripulação tem as mesmas preocupações e as mesmas necessidades. E uma tripulação está inescapavelmente ligada por um belo e devotado vínculo.

Então, quando vimos a Terra distante, pequenina, em nosso retorno da lua, as pessoas aqui embaixo perguntaram à nossa tripulação quais foram as nossas impressões dessa cena. E, honestamente, o que me impressionou não foi necessariamente apenas ver a Terra, mas observar toda aquela escuridão ao redor. A Terra era apenas um bote salva-vidas pairando tranquilamente no universo...

Bem, talvez eu não tenha aprendido – sei que não aprendi – tudo o que essa jornada tem para me ensinar, mas há uma coisa nova que eu sei: o planeta Terra é um barco, e vocês são uma tripulação.

Obrigado.”


***

Crédito das imagens: Artemis II/NASA

 

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17.4.26

Lançamento: A Montanha Mágica, de Thomas Mann

As Edições Textos para Reflexão publicam a obra-prima de um dos maiores escritores do século XX.

A Montanha Mágica, obra de Thomas Mann, ganhador do Nobel de Literatura, é um romance de proporções bíblicas que trata do amor, da morte, da percepção do tempo, da filosofia, das artes em geral e, sobretudo, do ser humano.

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17.1.26

Manual de Canto

Às vezes me pego perguntando
por que será que as criancinhas
brincam de construir castelos de areia
tão perto do mar?

Afinal, para que será que servem
em seu esplendor fugidio?

No entanto, lá estão elas
entusiasmadas, cheias de sorrisos,
contemplando seus portões de conchas,
suas janelas de pedrinhas,
seu palácio inteiro,
que não durará além desta tarde.

 

Depois de vir tanto nessa praia,
eu já não me pergunto se isso tudo
serve para alguma coisa ou não:
me pergunto, isto sim,
quais são os castelos de areia
que construímos na vida adulta.

Será que somos mesmo capazes,
como as criancinhas,
de olhar para nossas obras e conquistas
como o mesmo entusiasmo,
a mesma cintilação perene
de um brincadeira que é brincada agora,
e não além desta tarde?

Pois que é a vida,
senão o dia que virará tardinha?
E que é a morte,
senão a noite que antecede
um novo dia?


“Mas eu temo a morte.”

“Por quê?”

“Porque me aflige imensamente
saber que um dia não serei mais eu.”

“Então faça como os construtores
de castelos de areia,
que não se importam em ser lembrados
pela sua magnífica arquitetura;
sabe por quê?”

“Não, me diga, mevlana...”

“Por que estão entusiasmados demais,
preenchidos demais,
para pensar em ter um ‘eu’:
isso sequer faz algum sentido
para quem vive tão perto do mar.”


Às vezes me pego lembrando
do som que as ondas fazem
quebrando suavemente na beira,
e então não preciso mais pensar em nada...


“Por que esse poema é tão estranho?
Quem são essas pessoas dialogando?”

“Bem, tudo o que posso dizer é que
essa é a maneira sufi de recitar,
querer ir além disso
seria como entregar
um Manual de Canto
para um rouxinol.”


raph'26

***

Crédito da imagem: Kits Unger/unsplash

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16.9.25

Existe algo

Existe algo, e não nada:
eu não preciso de mais do que isso.

Ainda que nossa vida seja uma insignificância,
um pequeno milagre
que fez do inorgânico algo orgânico
nas profundezas de um oceano primordial
deste planetinha a girar em torno de uma estrela
na periferia de uma entre trilhões de galáxias,
ainda assim somos algo,
e não nada.

Ainda que realmente não tenhamos a decisão final,
ainda que nossos desejos, vontades e consciência
sejam mero devaneio de alguém que sonha desperto,
e acredita que segura as rédeas
do próprio sonho,
ainda assim sonhamos,
ainda assim somos algo,
e não nada.

Ainda que todos esses anjos e demônios
sejam mero fruto da imaginação;
ainda que uns digam que Deus é a cauda do elefante,
e outros, que é a tromba,
e outros, que são as orelhas, as presas, as patas,
ainda assim, imaginados ou não,
anjos, demônios e elefantes são algo,
e não nada.

Portanto, meu amigo,
eu sou da filosofia de que há esta única certeza,
e nenhuma outra:
eu não preciso de mais do que isso.

E ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte,
não temerei mal algum,
pois que algo está comigo,
e eu mesmo sou formado por algo,
e eu mesmo, quando já não for mais “eu”,
ainda serei algo.
E, para ser bem franco,
até mesmo o vale, a sombra e a morte
são algo, e não nada.

“Algo”: alguma coisa indeterminada;
qualquer coisa;
todas as coisas.

Portanto, meu amigo,
se você me acompanhou até aqui,
deve ter percebido que precisamos consertar
o início do poema...

Existe algo:
eu não preciso de mais do que isso;
pois não preciso negar
aquilo que não existe, existiu ou existirá.


raph'25

***

Crédito da imagem: Photos by Beks/unsplash

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20.5.25

O resto é rio

Ainda me lembro de quando todos nós
sentávamos à mesa da matriarca
para celebrar o nascimento de um deus.
“Deus” ali era o de menos, era só uma palavra;
o fato é que estávamos ali para celebrar
o amor de um pelo outro,
a vida compartilhada, as memórias
e o tempo: isto sim
era Divino.

Ainda me lembro de quando esta nossa comunidade
tinha tempo para estar junta, realmente unida,
nem que fosse uma única noite do ano.

Ainda me lembro de quando nos olhávamos nos olhos,
sem o risco de sermos subitamente interrompidos
por alguma notificação em nossa tela.

Ali, naquela época, havia tempo
para não pensarmos em tempo perdido.
Ali, naquela vida, havia sentido suficiente
para não pensarmos em busca de sentido.
Ali, naqueles dias, não vendíamos nossos minutos,
e toda a arte que apreciávamos era só arte,
não um produto.

E hoje, hoje não sei se vivemos,
acho que somos pautados:
a pauta do dia está lá, em nossa tela,
desde o momento em que abrimos os olhos,
dia após dia.

Hoje nós somos como nossa tela,
sem um tempo que seja só nosso,
sem saber o que somos ou seremos,
e sem querer saber.
Antes nós chegávamos a nos conhecer
pelo desassossego,
mas agora existimos assim,
profundamente sossegados
em nosso próprio aparelho mágico.

E é até engraçado de pensar,
mas não há mágica nenhuma nisso:
somos pautados pelos algoritmos,
e muitos de nós sequer sabem
o que diabos eles são.

Um dia chegamos a crer de pés juntos
que tempo é realmente dinheiro,
e que um crescimento exponencial de recursos
caberia dentro de um planetinha como este.
Um dia realmente achamos que o lucro por si só
resolveria todos os nossos problemas;
e, o que é pior, que a riqueza individual
traria um benefício coletivo.

Não poderia dar certo, e não deu.
Mas até mesmo o fim do mundo, vejam só,
até mesmo ele virou um produto...

Já há muitos filmes e bestsellers sobre o fim dos dias,
que tal um que fale do início de um novo tempo,
bem aqui, bem agora?

Tudo bem, tudo bem,
eu sei que este poema está ficando longo demais,
que está tomando o seu tempo precioso,
mas seja como for, me permita encerrar
com um pensamento:

Tudo o que você tem realmente de se preocupar
é em refletir sobre o que você veio fazer aqui,
neste tempo onde tudo gira
e nada está parado:
esta é a sua âncora,
o resto é rio.


raph'25

***

Crédito da imagem: Manu Mateu/unsplash

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7.1.25

Para estar com nosso Amigo

Há um bebê em seu carrinho
passando do outro lado da rua.
Ele me observa, e me pego indagando
o que será que vê:
uma parte dele, com pernas, braços,
cabeça e coração;
uma parte dele
a olhar de volta.

Sei que também já fui assim,
recém-nascido na Criação,
consciente de tudo,
inconsciente de mim.
Sei que também já fui assim,
anjo, santo, inocente:
haverá Céu maior que este?

Por que será, então, que temos de despencar
cá abaixo?
Por que será que temos de provar
do chumbo do mundo?
Seria essa toda a história:
cair e, desde ali, lutar para retornar?

Ou não seria justamente neste mundo
que deveríamos achar o Céu?
Não na vida que nos mandam viver,
não no dinheiro que nos mandam ganhar,
não nas quinquilharias que nos mandam comprar,
mas na essência da vida em si,
esta que jamais foi guiada por mandamentos,
por promessas de ganhos eternos
ou pelo medo de fogaréus.

Sim, na essência de tudo,
no encantamento que sentimos
em simplesmente observar
a brisa passar, as folhas farfalharem,
as formigas marcharem, pé ante pé;
no que quer se dê em nosso coração
quando percebemos que há partes de nós
que vivem, sempre, nos amigos e nas amigas
que amamos.

Para mim o Céu não poderia ser uma colônia de férias,
nem qualquer lugar específico na Criação,
mas antes um hometruck, um trem, um dirigível,
o que quer que possa levar a mim,
a minhas amigas e meus amigos
por todos os cantos e paragens,
por todos os céus e infernos,
por todas as partes de Deus.

E eu lhe digo, meu coleguinha de viajem:
não é preciso voltar a caber neste carrinho;
não é preciso morrer, nem renascer,
para estar com nosso Amigo.


raph'25

***

Crédito da imagem: Google Image Search

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2.1.24

Lançamento: Vidas Secas, a obra-prima de Graciliano Ramos

As Edições Textos para Reflexão retornam a literatura nacional com a obra-prima de Graciliano Ramos.

Com a sua narrativa intimista de uma família de retirantes do sertão nordestino, o autor traz um retrato brutalmente realista da vida dos homens do campo no início do século 20, que já se viam quase que arrastados para a vida nas cidades, visto que era cada vez mais difícil sobreviver às secas. A sua leitura é uma verdadeira experiência literária: quase podemos sentir o calor do sertão irradiando de suas palavras.

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15.12.23

Lançamento: Adquirir a sua alma na paciência

As Edições Textos para Reflexão adentram os reinados da filosofia existencialista com um de seus fundadores.

Em Adquirir a sua alma na paciência, o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard nos oferece a chave para o encontro e a conquista do nosso "eu". Comentando uma passagem bíblica, o autor nos apresenta um conceito único de "paciência", que tem mais a ver com a teologia do que com a filosofia.

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» Leia também o nosso prefácio para esta edição: O andarilho de Copenhague.

» Caso deseje se aprofundar na obra de Kierkegaard, recomendamos seguir o perfil da Maitê Sartori (psicóloga especializada na filosofia do autor) no Instagram, ou quem sabe se increver em algum dos seus cursos sobre o tema.


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1.12.23

O andarilho de Copenhague

O texto abaixo foi escrito para compor o prefácio de Adquirir sua alma na paciência, o discurso de Soren Kierkegaard que tive a honra de traduzir de versões inglesas. Como a maioria dos meus prefácios, procurei falar sobre não apenas o que o autor nos trouxe em sua obra, mas também sobre como viveu sua vida. Creio que ganhamos muito ao nos imaginar, tal qual o pensador dinamarquês, simplesmente caminhando pelas vielas de Copenhague, saudando as almas que nos cruzam o caminho...


A vida só pode ser compreendida quando olhamos para trás, mas só pode ser vivida olhando para frente.

Esta frase, retirada de uma das suas cerca de 7.000 páginas de diários, acabou se tornando uma das mais famosas de Kierkegaard; e, como toda célebre frase de um pensador, resume muito do que ele buscou falar em sua obra. Você arriscaria dizer sobre o que o pensador dinamarquês falou? Bem, se pensou em “autorreflexão”, “autoconhecimento”, ou ainda em “como lidar com a existência humana”, não está muito longe da resposta, seja ela qual for.

Tendo nascido e vivido em Copenhague, na Dinamarca, Soren Kierkegaard (1813 – 1855) foi ao mesmo tempo melancólico e bem-humorado, ao mesmo tempo filósofo e teólogo, mas quase sempre brilhante. Sua mãe, Ane Sorensdatter Kierkegaard, trabalhou como empregada doméstica antes de se casar com seu pai, Michael Pedersen Kierkegaard. Ela era uma pessoa simples, que não recebeu nenhuma educação formal, mas exerceu uma influência duradoura na vida do filho. Já seu pai, Michael, foi um comerciante de lã muito bem-sucedido. Mesmo sendo um homem severo, cultivava interesse por filosofia e costumava hospedar intelectuais em sua casa. Por conta da influência do pai, ele entrou em contato com os livros de Platão ainda bem jovem, e foi especialmente tocado pela figura de Sócrates.

Kierkegaard era o mais novo dos sete filhos do casal. Contudo, quando contava 22 anos, já havia perdido cinco dos seus irmãos, tendo restado apenas Peter Kierkegaard, que mais tarde veio a se tornar um bispo luterano. Logo depois, naquele mesmo ano de 1834, foi a vez da sua mãe deixar o mundo; e, poucos anos depois, em 1838, veio o falecimento do pai. Não admira, portanto, que o filósofo fosse íntimo dos grandes sofrimentos da existência humana, e que tenha se dedicado justamente a viver da melhor forma possível, apesar deles.

Com a herança da sua família, Kierkegaard pôde custear a sua educação, a sua vida e várias publicações das suas primeiras obras. Em 8 de setembro de 1840, Kierkegaard formalizou o pedido de noivado a Regine Olsen, jovem dinamarquesa que havia conhecido cerca de três anos antes. No entanto, ele logo se sentiu desiludido com as perspectivas da vida a dois. Encerrou o noivado em 11 de agosto de 1841, apesar de se acreditar que havia um amor profundo entre eles. Nos seus Diários, Kierkegaard menciona a sua crença de que sua “melancolia” o tornava impróprio para o casamento, mas o motivo exato para o rompimento permanece obscuro até hoje. Dali em diante, seu matrimônio seria com a filosofia e, por assim dizer, com a própria existência.

Uma das primeiras descrições da aparência física do pensador dinamarquês veio de Hans Brochner, um convidado para a festa de casamento do seu irmão, Peter, em 1836: “Eu achei [sua aparência] quase cômica. Na época ele estava com 23 anos de idade. Ele tinha algo bastante irregular em toda a sua forma e usava um penteado estranho. Seu cabelo subiu quase seis centímetros acima de sua testa em uma forma de crista desgrenhada, que lhe dava uma estranha aparência de espanto”. Já o próprio Kierkegaard se descreveu como alguém de composição frágil: “Franzino, raquítico e fraco para poder valer como um homem completo. [E ainda] melancólico, submetido ao sofrimento interior, profundamente ferido de muitas maneiras no íntimo da alma. Bem, a mim só uma coisa me foi concedida: uma inteligência eminente, com certeza para que eu não ficasse inteiramente desarmado”.

Em seu tempo, as ruas de Copenhague eram tortuosas, de modo que poucas carruagens passavam por elas. Kierkegaard amava caminhar pelas ruelas e simplesmente observar o dia a dia das pessoas comuns. Em 1848, ele escreveu: “Eu tinha verdadeira satisfação cristã no pensamento de que, se não houvesse outro, definitivamente havia um homem em Copenhague com quem todas as pessoas pobres poderiam abordar livremente e conversar na rua; se não houvesse outro, havia um homem que, qualquer que fosse o seu círculo social mais frequentado, não se esquivava do contato com os pobres, mas saudava toda empregada que lhe parecia familiar, todo servo, todo trabalhador comum”. Também podemos resumir boa parte da sua teologia sob esse ponto de vista: ao teólogo dinamarquês interessava mais a figura do Cristo andarilho e contador de parábolas do que toda a Igreja que se construiu ao redor dele.

Sócrates dizia que “uma vida irrefletida não vale a pena ser vivida”, e o pensador dinamarquês levou essa afirmação as últimas consequências. Em O desespero humano, publicado em 1849 e, para alguns, uma das obras inaugurais da filosofia existencialista, Kierkegaard nos apresenta a autorreflexão como uma ferramenta para entender o problema do “desespero”, que para o pensador não derivava da depressão em si, mas antes da alienação do “eu”. Assim, ele classificou diversos graus de desespero. O mais inferior e comum é derivado da ignorância: o indivíduo mal sabe o que o “eu” significa, e não tem a menor consciência da natureza do seu “eu” potencial, a melhor versão de si. Tal desconhecimento é quase uma bênção, e tão sem consequência que Kierkegaard não estava certo se deveria ser classificado como desespero. Segundo ele, o verdadeiro desespero ocorre quando temos mais consciência de nós mesmos, uma vez que os graus mais profundos de desespero derivam de uma profunda consciência do “eu” aliada a uma profunda aversão por esse mesmo “eu”.

Quando algo dá errado, quando falhamos e, por exemplo, não passamos numa prova, nós aparentemente nos desesperamos porque perdemos algo. Mas numa análise mais atenta, segundo o pensador dinamarquês, fica óbvio que a pessoa não se desespera por conta do fato em si, como não passar na prova, mas antes por conta de si mesma. O “eu” que não conseguiu conquistar seu objetivo se torna intolerável. A pessoa queria se tornar um “eu” diferente, alguém que passou no vestibular, mas agora está presa a um “eu” fracassado, em desespero. Mas seria possível nos desviar desse desespero simplesmente sendo bem-sucedidos em tudo aquilo que desejamos alcançar?

Para responder esta pergunta, Kierkegaard usou como exemplo um homem que queria se tornar imperador. E demonstrou que, ironicamente, ainda que ele conseguisse alcançar seu objetivo, na verdade ainda teria abandonado o seu antigo “eu”. Ou seja, tanto em seu desejo quanto em sua conquista, ele queria “se livrar de si mesmo”. Ora, essa negação do “eu” é dolorosa: é avassalador o desespero de uma pessoa que quer se afastar de si, que “não possui a si mesma; que não é ela mesma”.

Mas ele também propôs, é claro, uma solução para tal dilema. Kierkegaard concluiu que um homem poderia alcançar a paz e a harmonia internas se tivesse a coragem de ser seu verdadeiro “eu”, em vez de querer ser outro. “Querer ser quem se é realmente é, na realidade, o oposto do desespero”, ele resumiu. O pensador acreditava que o desespero desaparece quando paramos de negar quem realmente somos e aceitamos a nossa verdadeira natureza.

Em um trecho dos seus Diários, datado de 1835, Kierkegaard esboçava a essência do que viria a tratar em suas obras posteriores:

O que eu realmente preciso é ter clareza sobre o que devo fazer e não o que eu preciso saber, a não ser na medida em que o conhecimento deve preceder cada ato. O que importa é encontrar um propósito, para ver o que realmente é que Deus quer que eu faça; o mais importante é encontrar uma verdade que é verdade para mim, encontrar a ideia pela qual estou disposto a viver e morrer.

Em sua busca por si mesmo, por quem realmente é, em oposição às inúmeras máscaras sociais ofertadas pela sociedade da época, Kierkegaard nos deu uma contribuição que já era muito relevante em sua época, e que hoje, na sociedade da ebulição da informação e das redes sociais, se tornou ainda mais relevante.

Mas foi em Adquirir a sua alma na paciência, um dos Quatro Discursos Edificantes, publicado em 1843, que o andarilho de Copenhague nos ofereceu a chave para o encontro e a conquista de nossa própria alma. Comentando uma passagem do Novo Testamento bíblico, Kierkegaard nos apresenta um conceito único de “paciência”: uma paciência que tem mais a ver com o mundo espiritual, mais com a sua teologia do que com a sua filosofia. Para um estudante de filosofia ou psicologia, tal conceito pode soar demasiadamente místico, até mesmo incômodo. Se for o caso, vá mais além, mergulhe em tal “incômodo”, desvele o que acha que é o misticismo, se aventure pelo misticismo real, a coisa em si: você mesmo – mas tenha toda a paciência do mundo!


Soren Kierkegaard morreu em 1855, aos 42 anos. Embora a causa de sua morte não seja clara, estudos recentes apontam que a possível causa foi uma doença na coluna vertebral (antes, se achava que ele havia falecido em decorrência da tuberculose). Seu corpo se encontra sepultado no Cemitério Assistens, em Copenhague.


***

Crédito das imagens: [topo] Desenho não terminado de Kierkegaard feito pelo seu primo, Niels Christian Kierkegaard (c. 1840); [ao longo] Martinus Rorbye (pintura de 1831; retrata a Copenhague da época).

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20.9.23

O pão que um demônio amassou

Diz o Padeiro como fazer pão:
jogue a farinha numa vasilha
e vá adicionando água aos poucos;
então trabalhe a massa com as mãos
acariciando-a enquanto ainda está mole.

Aqui o ingrediente mais essencial
é o tempo!

Dizem que Deus também nos fez assim:
nos pegou da terra mole
e acariciou, acariciou, acariciou,
até que surgissem homens e mulheres,
cada um único na Criação.

Mas faltou dizer em que tempo
isso se deu; e também responder:
“E Deus por acaso tem mão?”

Seja como for, não vale ter pressa
na feitura do pão. Pois que, ao fim,
é esta massa que vai ao forno
arder, arder e arder,
até dourar.

Após dourado, cada pão é o que é,
e devemos agradecer pelo pão de cada dia,
seja ele da massa que for,
ou mesmo o pão
que um demônio amassou.

Pois se saímos da terra mole inacabados,
há que se ter alguém para nos socar,
e socar, e socar, e socar,
até que fiquemos assim,
bem amassados,
prontos para ir ao forno.

E daí, quem sabe, possamos concordar
com o Padeiro: o tempo é, de fato,
absolutamente essencial
para que cada pão-alma
seja dourado.


raph'23

(inspirado por trecho da peça Seco, do grupo teatral Fulano di Tal, em Campo Grande/MS)

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Crédito da imagem: Annie Spratt/Unsplash

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31.1.23

Terra, fogo, água e ar (parte final)

« continuando da parte 4


Esta é uma verdade

Ainda antes que os homens fossem homens, espécies ancestrais de hominídeos conheceram o fogo. A primeira visão dele deve ter sido inesquecível, eterna: primeiro, mais um relâmpago no céu; depois, um trovão assustador ressoando pela terra inteira. Mas isso já era conhecido, a novidade é que havia logo ali, bem à frente, um arbusto em chamas. Uma sarça ardente e sagrada, queimando, abençoada com um pedacinho do sol.

Foi pela domesticação do fogo que os seres arcaicos aprenderam a caçar de modo mais eficiente e, principalmente, a cozinhar a carne caçada. Foi isso que possibilitou que as imensas quantidades de energia gastas na ingestão de carne crua pudessem ser canalizadas para o cérebro. O resultado disso foi o surgimento dos homens: nós somos os filhos e as filhas do fogo.

Desde que a chama não se apague, qualquer templo, qualquer concepção divina, qualquer nova religião poderá perdurar para sempre, atemporal como o fogo e o sol e a natureza. Em suas chamas, em incessante mutação, os xamãs de outrora tinham muitas visões, e delas extraíam conselhos para a sobrevivência da tribo. Eles filosofavam pelo fogo, se devotavam a ele de corpo e alma, para que seus irmãos pudessem prosperar na terra.

Até hoje não há artista, sensitivo ou pastor que saiba exatamente de onde vem sua intuição, aquela vontade antes do próprio querer, aquela voz que diz, “Será assim”, e para a qual eles respondem, “Que assim seja”.

Imersos na atemporalidade do fogo, tais guias da humanidade se assemelham aos primeiros contadores de histórias em torno da fogueira da aldeia. É pela palavra que eles encaminham seu rebanho, mas mesmo a palavra antes foi luz em suas almas. Luz vinda de onde? Luz feita do quê? Não importa, a luz foi criada para ser refletida, não explicada.

Somente eles aprenderam, de alguma forma que mal sabem explicar, a roubar o fogo dos deuses, e compartilhá-lo com os seres de baixo. Você pode achar que tal regalia coube somente aos grandes santos, profetas e gurus, mas infelizmente não foi assim: há também muita sombra e escuridão entre os arautos do fogo.

Pense nas atrocidades que já foram cometidas em nome daqueles que afirmavam falar em nome de algum deus, ou mesmo alguma ideologia infalível. Até mesmo os cientistas se tornaram submissos àqueles que dizem representar o seu deus, o deus-da-matéria-que-a-tudo-explica. Não é preciso dar detalhes: você sabe do que estou falando.

Aos que brincam com fogo, coube a maior das responsabilidades, que é evitar que ele consuma a tudo e a todos. Na escala correta, ele pode iluminar o templo do coração de muitas almas; na errada, ele pode destruir vilarejos, bibliotecas, templos alheios, países inteiros.

Somente a água pode equilibrar tal balança. É só com o exercício constante da empatia que aquele que se depara com as verdades universais poderá se abster de dizer, “Esta é a verdade”; e, no lugar, constatar, “Esta é uma verdade”.

Pois se o seu deus é algum senhor de exércitos, que demanda que todos se curvem à sua vontade ou desapareçam da terra, então que os deuses tenham piedade de nós. Mas, se o seu deus é como o sol que aquece a manhã, e jamais deixa de vencer a noite, e que não descansará até que toda a tribo se torne céu, então, meu irmão, minha irmã, bem-vindo, bem-vinda ao caminho.

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Bibliografia
Kabbalah Hermética (Marcelo Del Debbio). Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Kimson Doan/unsplash.

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30.1.23

Terra, fogo, água e ar (parte 4)

« continuando da parte 3


As palavras mágicas

Imaginem a surpresa dos aldeões iletrados ao simplesmente observarem os escribas, os construtores e os magos em geral: gente que conseguia se comunicar somente pelo ar. Um construtor desconhecido chega num vilarejo e, ao apresentar um pedaço de papiro para outro construtor que nunca viu na vida, logo ambos parecem ser não somente colegas de longa data, como sabem exatamente o que irão construir a seguir, nos mínimos detalhes. Pura magia!

Era, então, a era da civilização humana. Os primórdios de um tempo em que nem todos precisavam sobreviver à duras penas, ao custo do trabalho braçal, do suor do corpo: havia também alguns poucos afortunados que, por conhecerem as palavras mágicas, por saberem lê-las em paredes, letreiros ou papéis, podiam se dar ao luxo de se dedicar somente ao ar, enquanto os analfabetos cuidavam da terra.

Decerto inúmeros sábios caminharam pelo mundo, mas foram somente os poetas, os filósofos e os escritores que foram lembrados pelas demais gerações, pois foram eles que dominaram a tecnologia primordial das brisas, o livro. Com o livro, seja sagrado ou não, eles eternizaram suas lendas, suas ideais mais iluminadas e sombrias, seus relatos mais fantasiosos e verdadeiros, sua visão de mundo, enfim, sua própria história. Pouco se sabe do que pensavam os xamãs ancestrais, os pajés e líderes de tribos selvagens, dentre outras coisas porque a eles jamais foi permitido contar sua própria história às gerações e aos povos futuros.

Sim, a história sempre foi escrita pelos vencedores, mas também havia dois tipos de conquistadores de terras: aqueles que davam pouco valor à cultura alheia, e aqueles que, de alguma forma, entendiam que todos os povos eram um só, que toda a humanidade deveria, mais dia menos dia, se entender, equalizar seus mitos de origem, mesclar seus deuses uns com os outros, ou seja: tornar-se uma só tribo, pois que o mundo é um só. Isso não significa aniquilar culturas, substituindo um deus pelo outro, pelo contrário: isso quer dizer que todos os deuses podem se irmanar, como os primeiros construtores, e para tal basta que sejam capazes de falar a mesma língua.

Porém, mesmo passados os tempos da guerra da fome e da morte, mesmo com o mundo se encaminhando para uma terra de cooperação, e não de matança e disputas inúteis, o ar ainda guardaria muitos perigos invisíveis em suas elucubrações infindáveis.

O homem redescobriria a ciência, e a chamaria de “moderna”, e começaria a declarar coisas sem sentido. Por exemplo: que a cor vermelha não existe, pois é somente um comprimento de onda eletromagnética; ou que dois amantes apaixonados jamais podem realmente se tocar, pois que os átomos se repelem entre si; ou ainda que a noite não é salpicada de deuses luminosos, que todas aquelas luzes são apenas sóis de outros sistemas, irradiando algo da mesma consistência que aquilo que sai de uma lamparina.

Ora, tais burocratas do conhecimento já não eram mais capazes de compreender toda a beleza da poesia romântica, nem todos os matizes das pinturas grandiosas, muito menos o que os antigos sentiam ao contemplar a noitinha, sem ter nenhum aparelho para registrar tamanha beleza que não seus próprios olhos.

Decerto eles mal sabiam que até mesmo os xamãs, os magos e os druidas tinham suas bibliotecas em plena floresta, e que sabiam “ler” cada filamento de uma planta, cada ranhura de uma casca de tronco, cada signo de uma flor. Que os sábios antigos também sabiam se mover pelo ar, sem, no entanto, ter de abandonar a terra. Com seus pés firmes, tal qual raízes, eles elevavam seus pensamentos aos céus, mas nenhuma tempestade era capaz de lhes levar embora.

Com suas facas, espadas e foices, eles sabiam quais galhos cortar, e quais preservar: quais dariam frutos saborosos, e quais estavam acometidos de ervas daninhas. Mas, acima de tudo, eles jamais abandonavam a terra, pois eram incapazes de esquecer a sua origem.

Nós só podemos contemplar o céu porque estamos aqui, bem posicionados, na terceira pedra do sol.

» Na sequência, os mistérios do fogo.


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Bibliografia
Kabbalah Hermética (Marcelo Del Debbio). Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] CHUTTERSNAP/unsplash.

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27.1.23

Terra, fogo, água e ar (parte 3)

« continuando da parte 2


Profundo, misterioso, infindável, inenarrável

Embora tenhamos perambulado por grande parte da terra, nenhuma grande civilização foi capaz de florescer longe da água. Mares primordiais, abarrotados de peixes, rios de água límpida descida do alto: nenhum Éden poderia existir sem eles. Acima de tudo, o que os antigos caçadores-coletores logo entenderam, é que água é sinônimo de vida.

Assim, tão logo descobriram a agricultura, também perceberam que não bastavam só as sementes e a terra, era preciso a fertilização das águas que caíam do céu. Se a terra era uma deusa de onde nasciam frutos infindáveis, eram os deuses do céu que garantiam a germinação.

Mesmo os grandes deuses montanhosos choravam, constantemente, emocionados com tantos milagres. Foi assim que muitos rios se tornaram sagrados, com suas águas correntes, filhas das grandes rochas; e há quem diga que alguns filósofos ancestrais foram capazes de atravessar as águas de uma deusa! Ora, nem mesmo Heráclito foi capaz de conceber tal maravilha.

E todas as águas correm rumo ao oceano, a grande divindade, e também a mais humilde delas: estando no nível menos elevado, recebe todos os afluentes das terras altas. A única associação que os primeiros nadadores-pensadores poderiam fazer era ao amor. Assim como o mar, o amor é profundo, misterioso, infindável, inenarrável.

Afinal, não há manual para o amor: o seu reino é alienígena, cheio de corais multicolores e correntes invisíveis e nefastas. Só o mergulhador que se arriscou em suas ondas pode saber de toda a maravilha e todo o perigo que há no mundo da água. Nada disso se ensina em cartilhas ou escolinhas de natação, tampouco nas grandes universidades ou nos laboratórios mais modernos.  

Estando além de qualquer capacidade lógica de catalogação, as ondas do amor quebram indistintamente sobre os nadadores iniciantes ou experientes. Mas há também os grandes sábios, em suas pranchas antigas, que aprenderam a observar o movimento das marés, e surfam acima de todas as mágoas e desentendimentos, jamais se apegando a esta ou aquela praia, pois sabem muito bem que ainda hão de atravessar muitas e muitas ilhas.

O grande perigo é crer que não precisaremos jamais aprender a nadar, que poderemos subir no pico mais elevado e viver em nossa caverna pequenina, tal qual eremitas, renunciantes do amor. É então que os deuses são forçados a enviar um verdadeiro dilúvio, para que todos sejam batizados, sem exceção.

Um dia, todos seremos como Noé, a pilotar nossa arca em meio à tempestade. E a única forma de se guiar pelas águas turbulentas é compreender que elas seguem sempre os desígnios do ar. Há ventos que vêm para causar naufrágios, é verdade, mas até mesmo esses podem ser bem aproveitados, se formos capazes de construir um mastro, e uma imensa vela, em nossa arca. Daí bastará usar a própria força do ar para nos levar para longe dos mares tumultuosos.

O amor é poderoso, inefável, capaz de nos carregar como náufragos para longe de toda e qualquer razão. Mas o amor tem muitos nomes, e é somente pela mesma razão que conseguiremos saber mais sobre eles. O amor é a lei dos mares, mas os mares ainda obedecem à vontade das brisas e dos vendavais. Não há grande navegador que tenha alcançado o Novo Mundo sem tal conhecimento.

Foi ao mar que os deuses deram o perigo e o abismo, mas também foi nele que espelharam o céu.

» Na sequência, as elucubrações do ar.


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Bibliografia
Kabbalah Hermética (Marcelo Del Debbio). Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search.

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26.1.23

Terra, fogo, água e ar (parte 2)

« continuando da parte 1


Tudo estava cheio de deuses

Para os antigos caçadores-coletores, a terra significava sobrevivência. Seja em que parte do mundo caminhassem, era dela que extraíam os frutos, plantas e raízes. Afora isso, havia os demais animais: alguns, presas fugidias; outros, feras selvagens, que tornavam caça os caçadores. Era a guerra da fome e da morte, onde tudo o que importava era atravessar mais um dia vivo; e, se possível, bem alimentado.

Se existia algum espaço para se pensar na vida e nos deuses, era na noite, onde dançavam e entoavam seus rituais em torno da fogueira do xamã da tribo, o único que tinha o privilégio de poder se dedicar inteiramente à vida, e não à sobrevivência. Naquele tempo, a vida era mágica, e tudo o que existia fazia parte do sopro divino. Não havia grandes lamentações acerca do passado, que era apenas ontem, nem angústia pelo futuro, que ainda não chegou a existir. Apenas o presente era concreto. O pão nosso de cada dia era de fato sagrado, de fato celebrado, pois não se sabia do amanhã.

Então, algum cientista pré-histórico percebeu que onde a tribo jogava as sementes dos frutos consumidos, por vezes surgiam novas árvores e novos frutos. Um grande espanto se sucedeu ante tamanho milagre tecnológico: para aquelas plantas já não havia aniquilação, e sim morte e renascimento. Elas poderiam crescer em qualquer solo fértil para sempre, e abastecer os antigos nômades de dias futuros, de um amanhã garantido. Era o começo da vida e o fim da sobrevivência.

Os deuses já não habitavam somente as estrelas distantes da noite, agora eles estavam aqui, na própria terra. As plantações eram sagradas, eram oferendas dos deuses da terra para os andarilhos cansados de perambular por vales e desfiladeiros. Tudo, em toda a volta de onde se assentaram para plantar, estava cheio de deuses. Não era mais preciso batalhar por mais um dia de comida: agora, era possível relaxar, e pensar na existência em si. Até hoje, os artistas, os poetas e os magos são devedores deste dia.

Este poderia ter sido o Éden prometido, se os homens não tivessem se cansado da contemplação dos deuses, se não tivessem chegado a acreditar que uma pedra era somente uma coisa sólida qualquer. Em sua ganância, eles ansiavam por pedras mais bonitas, e silos cada vez mais abarrotados de grãos. Eles descobriram que havia tribos que tinham mais coisas, mais riquezas, mais terras, e outras menos. Eles passaram a acreditar, enfim, que algum homem poderia ser dono dessas coisas.

Por isso, jamais houve paz, e sim mais e mais guerra. Não o embate sagrado do homem contra si mesmo, mas a estupidez das batalhas externas, pela conquista de mais e mais coisas que não significavam nada no fim das contas: eram apenas coisas. O homem já não vivia mais junto aos deuses, seu entusiasmo havia sumido, lentamente, de tal forma que ele já não se lembrava mais o que era estar entusiasmado, preenchido de sentido, cheio de espírito.

Mas não foram todos que padeceram da doença de crer que a terra era tudo o que há. Alguns conservaram a chama acesa, carregada cuidadosamente em tochas acesas nas fogueiras dos primeiros xamãs. Com o fogo, eles eram capazes de renovar inteiramente a natureza dos homens, em cerimônias de morte e renascimento, que ocorriam no refúgio das cavernas, escondidas da ignorância do mundo.

Rebatizados no ventre da terra, tais homens se tornavam irmãos pelo resto da existência. Foram tais guias que mantiveram a família dos deuses na memória dos homens, de modo que não pudessem se esquecer definitivamente de sua origem. Foram eles que não nos deixaram esquecer do caminho.

Era preciso o fogo para tornar a terra sagrada outra vez. E todos que aprenderam tais segredos se tornaram irmãos e irmãs: não somente amigos de deuses, mas da família, da linhagem divina.

Por isso todo xamã ancestral que é capaz de andar descalço pela terra, e sentir toda a imensidão da rocha, sem se desconectar dos deuses da noite, do sagrado que há acima, e abaixo, e por todos os lados, bate no coração e diz:

“Eu também sou da raça dos deuses.”


» Na sequência, as marés da água.

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Bibliografia
Kabbalah Hermética (Marcelo Del Debbio). Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Hikersbay Hikersbay/unsplash

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24.1.23

Terra, fogo, água e ar (parte 1)

Um convite para a caminhada

Tales de Mileto, possivelmente o primeiro grande filósofo do Ocidente, considerava a água a substância primordial, de onde se originaram todas as coisas. Já um de seus discípulos, Anaxímenes, afirmou que era o ar o princípio de todas as coisas. Parmênides de Eleia, nascido quando Tales já era idoso, defendia que a tal substância é imutável, e que suas transformações visíveis, tudo o que vemos no mundo a nossa volta, era mera ilusão. Heráclito de Éfeso, que viveu na mesma época, discordava totalmente, e dizia que “não podemos atravessar duas vezes o mesmo rio”, pois que tudo na natureza está em constante mudança.

Para um materialista atual, é muito difícil compreender o que todos esses pensadores da nossa antiguidade estavam realmente discutindo. Para a ciência moderna, os elementos são formados pelos diferentes tipos de átomos que formam as moléculas. A água, por exemplo, é composta por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio. Nos primeiros minutos após o big bang, o evento cósmico que originou o universo conhecido, havia de fato uma abundância de hidrogênio (e hélio), mas o oxigênio só surgiu centenas de milhões de anos depois. A terra e o ar podem ser formados por uma infinidade de materiais sólidos e gasosos, e o fogo sequer pode ser considerado “matéria”, uma vez que é o resultado de reações químicas.

Falta à visão moderna, obviamente, a concepção metafórica do mundo. Ora, é claro que Tales não supunha que o mundo inteiro era uma espécie de ilha surgida, de alguma forma estranha, de um oceano primordial infinito. A “água” a que o pensador antigo se referia não era somente a água que encontramos nos rios, ou que usamos para beber e tomar banho, mas uma ideia, um conceito. Para Tales, fazia mais sentido que todas as coisas tivessem se formado a partir de uma substância tão plástica quanto àquela que encontramos em um jarro de cerâmica – e que, se despejada, por exemplo, numa caneca de latão, assumirá imediatamente a nova forma.

O que os antigos compreendiam pelos quatro elementos – terra, fogo, água e ar – era essencialmente um conjunto de metáforas, usualmente associadas a ideias grandiosas, como substâncias primordiais ou deuses, mas igualmente a tipos psicológicos e qualidades e características puramente humanas. Nesse sentido, tais elementos ainda estão presentes no nosso dia a dia, em nossa linguagem e simbologia, quiçá com outros nomes, sem que percebamos.

Minha intenção aqui é, portanto, investigar a origem de tais associações simbólicas. Se puderem me acompanhar nessa viagem de pura imaginação, ela nos levará aos primórdios da civilização humana – da escrita, da religião, da filosofia etc. –, não importando realmente a região do planeta ou etnia específica. Dito isso, vale lembrar que inúmeros povos antigos chegaram a sistemas parecidos de quatro ou cinco elementos, por vezes se valendo de tipos diversos, como madeira, metal, vácuo ou éter. Minha intenção não é dar uma explicação definitiva para tudo isso, o que seria impossível, mas tão somente refletir sobre a terra, o fogo, a água e o ar.

Nossa viagem percorrerá cavernas iniciáticas, onde o fogo engravida a terra; mares calmos e raivosos, governados pelos espíritos do vento; pensamentos elevados, que necessitam de âncoras densas para permaneceram no mundo; e, finalmente, aos mistérios das chamas que caíram do céu.

Nada disso será acadêmico, no sentido de tentar explicar metáforas antigas, mas talvez uma experiência literária interessante. Se lhe interessa, vamos caminhar juntos por aí.


» Na sequência, a iniciação da terra.

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Bibliografia
Kabbalah Hermética (Marcelo Del Debbio). Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search.

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6.9.22

A origem do universo, com o Boteco Mayhem

Por que a noite é escura? Para responder a esta pergunta, eu e os outros participantes do Bate-papo Mayhem fizemos uma jornada até o início de tudo, num episódio cheio de ciência, mitologia e espiritualidade. Assista abaixo:

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24.8.21

Amor sob vontade

Há uma praga lá fora, pelas ruas.
Um inimigo que mata sem ser visto;
e, como tudo o que é invisível,
está aberto à interpretações:
nesse momento, teólogos e cientistas debatem
se tal mal foi obra de Deus, do acaso ou do homem.
Entra um pensador na sala e pergunta:
“Mas Deus, o acaso e o homem não são a mesma coisa?”

Fato é que estamos em quarentena,
isolados uns dos outros. De modo que se antes
nós perambulávamos sem rumo pelas vielas e estradas,
agora estamos sem rumo dentro de quatro paredes:
há uma grande diferença!

Assim, tanto tempo dentro de casa, dentro de nós,
quem sabe a roda da carroça enfim deixe de perseguir o boi,
e passe a rodar pelos velhos sulcos
deixados no Caminho.
Quem sabe nesses dias e noites tenhamos a preciosa chance
de desvelar o homem e a mulher e tudo o mais.
Nada disso precisa rimar,
a única rima necessária
é a da alma com a consciência dela mesma.

Então vemos uma foto nossa na parede,
e notamos que já não há nada em comum entre a antiga imagem
e o que somos hoje: nada, exceto pelo fato
de serem a mesma pessoa.
E, se morremos tantas vezes em vida,
por que imaginar a morte como um fim?
Por que temer que o sol se ponha para nunca mais nascer?
Faz algum sentido,
se toda aquela antiga vida, em todo caso,
não passava de um poema de rimas forçadas?

Há uma praga lá fora, pelas ruas,
mas o único inimigo sempre esteve aqui,
e ele é um muro que construímos à duras penas:
um muro entre o que pode ser nomeado
e o que simplesmente é.
Desde então, cada movimento da vida é dedicado
a derrubar paredes, romper casulos:
um tijolo, um pensamento de cada vez.
Até que não reste em nós nada além de amor,
amor sob vontade.


raph'21

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Crédito da imagem: Sasha Freemind/Unsplash

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4.8.21

3 reflexões sobre a reencarnação

Neste vídeo trazemos três reflexões sobre a crença na reencarnação. Não se trata de uma tentativa de provar que a reencarnação existe, mas sim de abordar este tema tão vasto de forma aprofundada.

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


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