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6.7.11

Orando em teatros

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

Nunca tive uma educação religiosa na infância, mas como na minha família haviam católicos e espíritas, tive a oportunidade de, como a maior parte dos brasileiros, conhecer superficialmente a doutrina católica: da bíblia conheci mais por filmes e pela “bíblia para crianças” que saia nas bancas de jornal na década de 80. Só fui ler a bíblia já adulto, e mesmo assim com muito mais ênfase no Novo Testamento.

Como já havia dito, na minha infância e pré-adolescência me interessava muito mais por super-heróis e histórias de fantasia do que por missas ou doutrinas religiosas. Até hoje não sei o que fazer direito numa missa católica (além de sentar e levantar quando todo mundo faz o mesmo, e cantar às vezes), e sei de cor apenas uma ou duas orações (decerto sei mais poesias de cor do que orações) [1].

A espiritualidade que nasceu comigo, entretanto, esteve sempre presente. No fundo, eu sabia muito bem que havia algo de profundo e verdadeiro por detrás dos rituais sagrados, somente não conseguia compreender decerto o que era – assim como os próprios padres e católicos que conheci pessoalmente também não souberam me informar. Tudo o que faziam era repetir trechos da bíblia, como robôs, e eu não queria ser um “espiritualista robô”.

Quando finalmente li alguns livros de Alan Kardec, pude perceber que havia algo de mais profundo ali, algo que me relembrava alguma coisa que já sabia desde que nasci... Não foi como quando li o Fédon de Platão, quando tive a sensação de estar relendo exatamente o mesmo texto, mas certamente era algo muito parecido com isso.

Mas somente ter lido tudo aquilo não teria me ajudado tanto quanto frequentar alguma espécie de “missa”, algum ritual sagrado onde às verdades ocultas na alma pudessem ser expostas e vivenciadas plenamente. Ironicamente, a minha maior igreja, o templo onde orei verdadeiramente pela primeira vez, estava ainda mais próximo de minha casa do que a igreja católica – estava dentro de um shopping!

Augusto César Vannucci foi um produtor e diretor de TV, tendo trabalhado por muitos anos na Rede Globo. Seu ponto alto, pelo menos para mim, foi a direção dos especiais da Turma do Balão Mágico, muito saudosos [2]. Pois bem, Vannucci era espírita, e até hoje sua influência é clara em setores de Globo. Em 1978 ele fundou o Teatro Vannucci no Shopping da Gávea (Rio de Janeiro), a menos de 500m de onde passei a maior parte de minha juventude. Até hoje o Teatro abriga palestras espiritualistas todas as quartas-feiras, às 19h, e eu as frequentei desde meados da metade da década de 90 [3]. Infelizmente Vannucci morreu em 1992, então não pude conhecê-lo...

Mas conheci Joel, um médium pleno de luz com uma voz ao mesmo tempo doce e profunda, que até hoje preside as reuniões e apresenta os palestrantes; conheci o professor Hermógenes, um dos pioneiros na divulgação da Yoga no país; conheci Jorge Andréa, L. Palhano Jr., Narci de Castro e tantos outros espíritas e parapsicólogos; conheci pastores batistas ecumênicos, que se “atreviam” a ir palestrar em um palco espiritualista; conheci inúmeros artistas, atores, músicos, filósofos, poetas, e até mesmo assistentes sociais que trabalhavam no atendimento telefônico de pessoas com tendências suicidas. Em suma, tive a grandiosa oportunidade de observar um amplo espectro da luz da espiritualidade [4].

Dizem que a oração é um ato religioso, uma ligação, uma conversa, um pedido, um agradecimento, que fazemos em nosso íntimo em conexão a uma força transcendente, que uns chamam Deus, outros Cosmos, outros Natureza. Eu nunca fui muito bom em decorar orações, pois nunca fui muito bom em conversar com Deus com palavras pré-estabelecidas, com linguagem represada, e não fluida... No fim das palestras do Vannucci, sempre havia um período de oração. Foram nesses breves momentos ao longo das quartas-feiras e dos anos que pude ter contato com “energias” além da minha ampla compreensão, mas que representavam agrupamentos de espíritos das mais variadas culturas e religiões.

Joel os chamava de “falanges”: a falange dos gregos, a falange dos indianos [5], a falange dos índios, a falange dos pretos velhos, a falange dos artistas (Joel citava constantemente que eram presididos por John Lennon, creia quem quiser). A verdade, entretanto, é que eu não sabia ao certo diferenciar entre as diversas “falanges”, mas com o tempo certamente pude sentir sua presença no recinto, tanto quando chegavam (normalmente ainda antes da palestra iniciar) quanto quando partiam.

Assim, mesmo sem querer e decerto sem compreender ao certo, estava lentamente desenvolvendo minha própria mediunidade, meu próprio meio de contato com as sensações que chegavam até mim de algum “outro canto do universo”. Hoje sei que, apesar de não incorporar espíritos e nem nalgum dia desejar o fazer, muito do que escrevo, particularmente no campo da poesia, só é possível graças a esse exercício que fiz, sem saber, ao longo dessas noites de luz.

Apenas uma única vez Joel me chamou para me juntar aos médiuns “da casa” durante a parte final das palestras, quando estes se alinham em frente ao palco e dão passes magnéticos em todos os presentes... Estranho que, muitos anos depois, fui estudar passes magnéticos em um centro espírita onde resido hoje, em Campo Grande, e o que aprendi mais ou menos correspondia ao que realizei intuitivamente naquele dia. Quem sabe, talvez tenha sido o médium mais jovem a ter dado um passe no Teatro Vannucci [6] – talvez alguma falange tenha me auxiliado, mas eu não sei qual delas...

***

[1] Se tivesse frequentado missas gnósticas, provavelmente teria sido bem diferente...

[2] “Pegar carona nessa calda de cometa, ver a Via Láctea, estrada tão bonita, brincar de esconde-esconde numa nebulosa, voltar pra casa em nosso lindo balão azul”. Veja quem tiver olhos para ver.

[3] Eu hoje não moro mais no Rio, mas sempre que retorno para visitar a família tento aparecer por lá as quartas-feiras.

[4] Como é comum no espiritismo, também compareci a reuniões jovens, eventos de caridade, hospitais, asilos, instituições de deficientes mentais, etc. Embora certamente não tanto quanto deveria... Em todo caso, muito obrigado a Maria por ter me “iniciado” na caridade.

[5] Existe uma ligação muito forte do Teatro com o guru indiano Sai Baba, que morreu recentemente. Uma foto de Sai Baba pode ser vista logo na entrada do recinto. O professor Hermógenes e diversos outros palestrantes conheceram pessoalmente Sai Baba, na Índia.

[6] Embora um dia tenha dito ao Professor Hermógenes, quando este me chamou de sobrinho, que não era possível dizer quem era, dentro daquele Teatro, o mais jovem ou o mais velho.

***

Crédito da foto: NASA (balão de alta pressão na estratosfera)

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2 comentários:

Blogger Juliano disse...

Gostei bastante desta postagem também :-)
Esta série "festa estranha" esta muito legal de acompanhar!

Achei polêmico o destaque para a frase "minha maior igreja estava dentro de um shopping!" :)

Agora "Se tivesse frequentado missas gnósticas..." então né, eu estava gostando bastante da gnose até chegar nisso, acho que me perdi... mas também, parece que existem várias "gnoses", talvez eu tenha tido experiência com alguma outra.

Abraço!

6/1/14 09:03  
Blogger raph disse...

Oi Juliano,

Eu acho que talvez você tenha compreendido mal a associação entre "shopping" e "igreja". É que neste caso em específico eu não estou querendo insinuar que os encontros espiritualistas eram alguma espécie de "mercado da fé", como ocorre em certas igrejas, mas pelo contrário - o destaque esta mais pelo fato inusitado de eu haver encontrado a minha maior igreja, a que mais me influenciou espiritualmente nesta vida, exatamente dentro de um shopping, dentro de um teatro :)

Abs
raph

6/1/14 11:58  

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