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19.6.12

Aquele que tudo vê

Trecho do Projeto Ouroboros (a partir deste ponto irei revelar o nome do quarto personagem, até então apenas "I.", agora Ismael). Com isso, agora foram divulgados os nomes de todos os personagens (Sofia, Otávio, Petrius e Ismael).

(Sofia) [...] Agora, com a palavra nosso amigo Ismael: escolha um atributo divino e disserte sobre ele para nós!

(Ismael) Que Deus me auxilie, pois não será tarefa fácil...
Estive até agora observando o distinto debate de vocês acerca do mistério da existência e de como uma substância eterna pode ter criado o Cosmos. A partir de agora discursarei sobre a consciência divina que criou o tudo. O próprio ser a quem chamávamos de substância, mas que eu sempre compreendi como um deus pensante, um deus pessoal.
Há aqueles que o chamam de Grande Desconhecido, o incognoscível, do qual não poderemos nunca compreender a menor nuance de personalidade, nem sequer ouvir um breve assobio de sua voz. Eu não os censuro, pois decerto eu também mau o conheço e mau o compreendo, mesmo após tantos anos em sua exclusiva dedicação. Arrisco-me, entretanto, a discursar sobre seus atributos, talvez mais pela intuição do que pela razão, mais pelo assombro diante da imensidão de sua obra do que pela análise meticulosa de seu Mecanismo. Perdoem-me os que discordam, mas eu vejo Sentido em tudo o que existe: não fomos criados apenas para flutuar a esmo pelo turbilhão cósmico.
Somos poeira de Deus, pequenas e preciosas lágrimas, ávidas por voltar ao seu oceano de amor. Ávidas por retornar ao seu Reino, e admirá-lo sem que os olhos pisquem, pois que se piscarem será como ter perdido toda uma vida de êxtase incomensurável.
Eu sou um apaixonado por Deus. Não é paixão passageira, não é barganha: amo-o incondicionalmente, como ele me ama. Amo-o, sobretudo, acima de todas as coisas, pois que sua luz se vê refletida nos olhos de uma formiga, na amplitude do vôo das aves, no reflexo do Sol nos mares, nas estrelas da noite, em todo lugar, enfim – inclusive dentro de nós mesmos.
Se não posso explicá-lo somente pela razão, é que seu amor é uma irradiação de beleza peculiar, que não se vê com os olhos, mas se sente com a alma. Que não chega para todos, mas somente para aqueles que estão abertos para a experiência de viver em sua comunhão. Não busco, sobretudo, verdades absolutas, mas sim dúvidas iluminadas, indagações que irão me levar, cada vez mais, passo a passo em sua direção.
Perdoem a delonga, mas esta foi minha evocação e minha oração em seu nome, para que de minha boca saiam palavras mais próximas da luz de sua música sublime do que do ruído confuso de minha mente.

(Sofia) Eu diria que o senhor está cheio de Deus. Certamente não poderíamos encontrar pessoa em melhor sintonia para falar de seus atributos. Siga em frente, que nós aqui estamos apenas a admirar este momento.

(Ismael) Pois bem, o primeiro atributo do qual desejo falar é a onisciência.
Onisciência é o conhecimento de tudo o que há, de tudo o que foi, e de tudo o que será. O saber divino é, portanto, perfeito, pois é o saber de si mesmo, é o saber de seu próprio infinito, do qual o homem, em toda sua caminhada milenar, não sabe sequer uma ínfima parcela. Até mesmo porque qualquer parcela do infinito será sempre extraordinariamente pequena em relação ao infinito em si.
Perto de tal conhecimento, mesmo o vastíssimo intelecto do demônio de Laplace [1] não seria mais do que o intelecto da formiga ante o intelecto do homem: tal demônio saberia da posição e direção de todos os corpos da natureza, mas ainda não faria a mais vaga idéia dos pensamentos que transitam pelo Cosmos em todo momento; conheceria o material, mas nada saberia do espiritual.
Deus, entretanto, é maior! Sua onisciência abrange não só o desenrolar do tempo e do espaço através do movimento que ele mesmo iniciou, mas também a potência e a intenção de cada pensamento já pensado, as nuances sutis de cada emoção já sentida, os mistérios desvelados de cada intuição recebida, a influência de cada instinto em cada um dos seres da criação: desde o peixe que nada no mar, passando pela ave que plana no ar, até o homem que ora no altar...
Não há nada que pensemos, nenhuma angústia ou contentamento, nenhum ódio e nenhuma paixão, nenhuma dúvida ou certeza, nenhuma idéia plena de luz ou eclipsada pela escuridão, que ele que é onisciente já não saiba de antemão.
Nada há, enfim, dentre todas as partículas ínfimas até as estrelas mais densas, dentre animais, homens ou anjos, dentre símbolos, conceitos e idéias, que ele não saiba perfeitamente. De fato, seria mais fácil crer que dois e dois não somam quatro, do que conceber que Deus não saiba de cada milímetro de cabelo que cresceu em sua cabeça em todos os dias de sua vida. E, por mais que eu me alongue nesta explanação, ela nunca será capaz de entrever a mais ínfima parcela do que significa ser, realmente, onisciente.
Isto é, portanto, meus caros amigos, o que eu posso dizer por ora sobre a onisciência. Algum de vocês tem considerações a fazer?

(Otávio) É uma bela explanação, senhor Ismael...

(Ismael) Interrompe Otávio.
Obrigado meu filho, mas o “senhor” está no céu.

(Otávio) Sorri.
Sim, claro, e é para lá que estamos tentando ir não é mesmo? No entanto, fica uma dúvida pertinente: se Deus é onisciente e sabe de cada necessidade nossa, de que vale orar e pedir a Deus por alguma sorte ou benefício?

***

[1] Conforme a nota existente no livro:
Pierre Simon Laplace, o Marquês de Laplace, foi um matemático, astrônomo e físico francês que acreditava fortemente no determinismo, o que é expresso na seguinte citação da introdução do “Essai”:

Nós podemos tomar o estado presente do universo como o efeito do seu passado e a causa do seu futuro. Um intelecto que, em dado momento, conhecesse todas as forças que dirigem a natureza e todas as posições de todos os itens dos quais a natureza é composta, se este intelecto também fosse vasto o suficiente para analisar essas informações, compreenderia numa única fórmula os movimentos dos maiores corpos do universo e os do menor átomo; para tal intelecto nada seria incerto e o futuro, assim como o passado, seria presente perante seus olhos.

Este intelecto freqüentemente é chamado de demônio de Laplace. Note-se que a descrição do intelecto hipotético descrito acima por Laplace como um demônio não veio de Laplace, mas de biógrafos posteriores.

***

Crédito da imagem: Geo Rittenmyer/Corbis

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8.6.12

Sobre deuses e rezas

Textos de Rubem Alves em "Teologoa do cotidiano" (Olhos D'Água) - pgs. 54 a 57. O comentário ao final é meu.

Perdida no meio dos viajantes que enchiam o aeroporto, ela era uma figura destoante. A roupa largada, os passos pesados, uma sacola de plástico pendurada numa das mãos – esses sinais diziam que ela já não mais ligava para a sua condição de mulher: não se importava em ser bonita. Pensei mesmo que se tratava de uma freira. Seu comportamento era curioso: dirigia-se às pessoas, falava por alguns momentos, e como não lhe prestassem atenção procurava outras com quem falar. Quando vi que ela tinha uma Bíblia na mão compreendi tudo: ela se imaginava possuidora de conhecimentos sobre Deus que os outros não possuíam e tratava de salvar a alma deles.

Meu caminho me obrigou a passar perto dela – e quando olhei para o seu rosto de perto levei um susto: eu a reconheci de outros tempos, quando ela era uma moça bonita que ria e brincava e para quem olhávamos com olhares de cobiça.

Não resisti e chamei alto o seu nome. Ela se espantou, olhou-me com um olhar interrogativo, não me reconheceu. Com razão. Os muitos anos deixam suas marcas no rosto.

– Eu sou o Rubem!

Seu rosto se iluminou pela lembrança, sorriu, e pensei que poderíamos nos assentar e conversar sobre as nossas vidas. Mas sua preocupação com a minha alma não permitia essas perdas de tempo com conversa fiada. E ela tratou de verificar se o meu passaporte para a eternidade estava em ordem:

– Você continua firme na fé!?

– Mas de jeito nenhum. Então você deixou de ler a Bíblia? Pois lá está dito que Deus é espírito, vento impetuoso que sopra em todo lugar, o mesmo vento que ele soprou dentro da gente para que respirássemos, fôssemos leves e pudéssemos voar. Quem está no vento não pode estar firme. Firmes são as pedras, as tartarugas, as âncoras. Você já viu um papagaio firme? Papagaio firme é papagaio no chão, não voa. Pois eu estou mais é como urubu, lá nas alturas, flutuando ao sabor do imprevisível Vento Sagrado, sem firmeza alguma, rodando em largos círculos.

Ela ficou perdida, acho que nunca havia ouvido resposta tão estranha, mudou de tática e tentou pegar a minha alma do outro lado, desatou a falar de Deus, informou-me que ele é maravilhoso etc., etc., etc., como se estivesse no púlpito em celebração de domingo.

Refuguei e disse:

– Acho que quem não está firme em Deus é você. Olha, passei a noite toda respirando, estou respirando desde que acordei, e juro que agora é a primeira vez que penso no ar. Não pensei nem falei no ar porque somos bons amigos. Ele entra e sai do meu corpo quando quer, sem pedir licença. Mas a história seria outra se eu estivesse com asma, os brônquios apertados, o ar sem jeito de entrar, ou, como naquele anúncio antigo do xarope Bromil, o coitado do homem sufocado por uma mordaça, gritando pelo ar que lhe faltava. Por via das dúvidas até andaria com uma garrafa de oxigênio na bagagem, para qualquer emergência.

E continuei:

– Pois Deus é como o ar. Quando a gente está em boas relações com ele não é preciso falar. Mas quando a gente está atacado de asma, então é preciso ficar gritando pelo nome dele. Do jeito como o asmático invoca o ar. Quem fala com Deus o tempo todo é asmático espiritual. E é por isso que andam sempre com Deus engarrafado na Bíblia e outros livros e coisas de função parecida. Só que o vento não pode ser engarrafado...

Aí ela viu que minha alma estava perdida mesmo e, como consolo, fez um sinal de adeus e disse que iria orar muito por mim. Aí eu protestei, implorei que não o fizesse. Disse-lhe que eu tinha medo de que Deus ficasse ofendido. Pois há rezas e orações que são ofensas. É óbvio: se vou lá, bater às portas de Deus, pedindo que ele tenha dó de alguém, eu lhe estou imputando duas imperfeições que, se fosse comigo, me deixariam muito bravo.

Primeiro, estou dizendo que não acredito no amor dele, deve ser meio fraquinho, sem iniciativa, preguiçoso, à espera do meu cutucão. Se eu não der a minha cutucada, Deus não se mexe. E isso não é coisa de ofender Deus? Segundo, estou sugerindo que Ele deve andar meio esquecido, desmemoriado, necessitado de um secretário que lhe lembre suas obrigações. E trato de, diariamente, apresentar-lhe a sua agenda de trabalho. Mas está lá nos salmos e nos evangelhos que Deus sabe tudo antes que a gente fale qualquer coisa. Ora, se a gente fica no falatório é porque não acredita nisso. Não acredito em oração em que a gente fala e Deus escuta. Acredito mesmo é na oração em que a gente fica quieto para ouvir a voz que se faz ouvir no meio do silêncio.

Voltei à minha amiga:

– Veja você. Tive um filho que estudava longe. Eu gostava dele. Ele gostava de mim. De vez em quando a gente se falava ao telefone. E o dinheiro da mesada ia sempre, com telefonema ou sem telefonema. Agora imagine: de repente começo a perceber telefonemas dele três vezes por dia e mensagens por sedex, cartas e telegramas louvando o meu amor, agradecendo a minha generosidade... Você acha que isso me faria feliz? De jeito nenhum. Concluiria que o meu pobre filho havia endoidecido e estava acometido de um terrível medo de que eu o abandonasse. Pois é assim mesmo com Deus: quem fica o dia inteiro atrás dele, com falatório, é porque desconfia dele. Mas o pior é o gosto estético que assim se imputa a Deus. Uma pessoa que gosta de passar o dia inteiro ouvindo os outros repetindo as mesmas coisas, as mesmas palavras, as mesmas rezas, pela eternidade afora, não deve ser muito boa da cabeça. Para mim isso é o inferno. Quem reza demais acha que Deus não funciona bem da cabeça. Acho que ele ficaria mais feliz se, em vez do meu falatório, eu lhe oferecesse uma sonata de Mozart ou um poema da Adélia...

Mas aí o alto-falante chamou o meu voo, tive de me despedir, e imagino que ela ficou aflita, temerosa de que Deus derrubasse meu avião com um raio. Mal sabia ela que Deus nem mesmo havia ouvido a nossa conversa pois, cansado das doidices dos adultos, ele foge sempre que vê dois deles conversando e se esconde deles, disfarçado de criança.

***

Comentário
Até quando veremos a Deus como mero agente de barganhas - "a sua fidelidade pelo meu milagre"?
São etapas, pequenos passos no Caminho... Talvez primeiro precisemos virar descrentes para esquecer do deus das barganhas, e encontrar ao Deus Uno, a Alma do Mundo, o Oceano onde estamos todos mergulhados, encharcados Dele por todos os lados, acima e abaixo...
Então, toda oração deveria ser um agradecimento. Se for o caso de pedirmos alguma coisa, deveria ser a Vontade para prosseguir adiante na religação: um passo, um pensamento de cada vez...
A Vontade que já temos em semente, mas que necessita ser regada de vez em quando, quem sabe, por uma oração ante o espelho das águas... Até que floresça, e nos torne mais um da raça dos deuses...
E isso não é apenas uma aposta no escuro, mas o exemplo dado pelos antigos sábios e místicos, que viam a Deus para onde quer que olhassem, e a todo momento. E não precisavam barganhar por uma pérola que já existia dentro deles mesmos... Quer encontrá-la? Mergulhe em si mesmo. Deus não precisa ajudar: já é a água, a profundidade, e o próprio ato do mergulho.

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Crédito da foto: Andrew Parkinson/Corbis

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9.8.11

Gritando nas montanhas

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

A história de Monte Verde (Minas Gerais) começou em 1940, quando Verner Grinberg, um imigrante da Letônia, chegou à região viajando em companhia de seu pai para tomar posse da Fazenda Pico do Selado, então situada na área hoje conhecida como Campos do Jaguari. Grinberg, nome que significa “verdes montanhas”, ficou encantado com a beleza do lugar. E assim Monte Verde acabou surgindo no mapa do Brasil.

Desta época, praticamente sobraram apenas às paisagens da Serra da Mantiqueira e o clima de montanha, já que muita coisa mudou na antiga vila. A colonização europeia teve realmente grande influência no estilo das construções e na culinária, basicamente de característica alemã. Mas a cidade tem hoje uma vida própria. Entre os meses de abril a setembro, a estimativa é de receber cem mil visitantes. Nem mesmo uma sinuosa estrada de acesso, que parte de Camanducaia, consegue afastar os turistas que chegam de todo o país.

A região tem temperaturas de 28 graus, no verão, e de até 12 graus negativos nos invernos mais rígidos. Repleta de adoráveis hotéis e pousadas, para quem está acostumado com altas temperaturas, não existe nada mais diferente ou romântico.

Eu me considero um sujeito de sorte por ter nascido em uma família (nesta vida) que até hoje é dona de um adorável hotel-fazenda em Monte Verde. Por isso desde criança aprendi a andar em trilhas, apreciar deliciosas trutas ao molho de alcaparras, galopar cavalos e... subir montanhas!

Como já devem saber, se leram as outras festas estranhas, desde muito cedo tive um sentimento muito forte de espiritualidade desperto dentro de mim. Como nunca fui muito de frequentar igrejas, elegi uma das montanhas de Monte Verde como minha casa de oração. Sempre que subo no Platô, e observo as montanhas da Mantiqueira se estenderem até o horizonte, me permito um momento de solidão plena, de oração silenciosa, de contato com Deus – pois que se é necessário que cada um de nós tenha sua própria imagem de Deus, a minha é, portanto, composta pelos céus e montanhas do sul de Minas Gerais...

Das incontáveis vezes em que subi sozinho para admirar e orar, ou que deixei o grupo que subia em conjunto para isolar-me momentaneamente e dialogar com aquele que nunca nos deixa estar totalmente a só, sem dúvida aquela foi a mais estranha de todas.

De uma das trilhas para o topo do Platô, surgiram vozes que foram aumentando e aumentando, até que se tornaram gritos ao mesmo tempo entusiasmados e angustiados, gritos que nunca houvera ouvido antes:

“Mãe! Mãe! Mãeeeeeee... Mãe! Mãe! Mãe...”

Quando se aproximaram mais, vi que se tratava de um casal. A mulher gritava de forma mais alongada, como um chamado angustiado – “Mãeeeeee...”; Já o homem gritava como se sua mãe, ou quem quer que seja, estivesse prestes a aparecer em sua frente, quase como uma saudação antecipada.

Quando chegaram mais perto, felizmente pararam de gritar. Acho que notaram que eu os observava curioso. Não gosto muito de encarar os outros (assim como não gosto que me encarem), mas esse caso era especial – tratava-se de um casal muito estranho. A mulher parecia uma turista como qualquer outra que frequentava Monte Verde, com trajes adequados para a trilha que levava até o topo da montanha. Mas o homem parecia mais um índio inca, ou algo do gênero. Parecia que havia saído diretamente de Machu Picchu para o Platô. Não quero dizer que ele andava com pinturas na cara, cocares ou arcos e flecha, quero dizer que ao olhar para ele, era quase impossível não lembrar dos incas, ou pelo menos do que se imagina dos incas se somos razoavelmente interessados por documentários de TV.

“Oi, meu nome é Zonta, e este é o chefe Dyami” – aprentou-se a mulher – “O que faz aqui garoto?”

“Gosto de subir para admirar a natureza, e... conversar um pouco com Deus também...”

“Não é possível falar com a Deusa assim, ela se cansou de atender esses chamados tímidos e silenciosos... Precisamos clamar por ela, saudá-la: Mãeeeeeeeeeeeeee!”

“Ah, muito obrigado, mas eu acho que não precisamos deixar a Deusa surda.”

Aquela resposta pareceu deixar o chefe Dyami furioso, ele tinha um leve sotaque casteliano na voz, provavelmente havia nascido fora do país:

“Se eu te mostrar mágica, garoto promete que irá saudar a Deusa? Pode ser apenas uma vez, então verá que temos falado verdade!”

Aquela situação já era tão surreal que eu acabei concordando. Para ver a mágica, tive antes que segui-los até uma outra pedra, pois Dyami disse que só a poderia realizar se “pudesse ver o norte”... Então, chegando finalmente ao topo do Chapéu do Bispo, que é uma espécie de pedregulho incrustado no topo de outra montanha vizinha ao Platô, o casal gritou pela Deusa mais algumas vezes, e depois fez algumas poses esquisitas.

Antes que pudesse perguntar do que se tratava, Zonta me explicou que estavam saudando os totens animais – ela fazia pose de uma onça (ou algo assim), e ele fazia enorme esforço para parecer uma águia (mas não acho que a pose parecia algo nem próximo a isso). Depois Zonta voltou à posição “normal”, enquanto Dyami permaneceu por longos minutos, em aparente transe, numa mesma posição de “águia”...

“O que ele está fazendo?” – perguntei a Zonta.

“Canalizando o espírito da águia, logo após ele irá saltar daqui e flutuar até ali embaixo. Essa será a mágica!”

Bem, “ali embaixo” era uma queda de cerca de 5 metros. Comecei a ficar com medo de que o sujeito se machucasse seriamente na tentativa... No entanto, após (acho que) uns 15 minutos, ele de uma hora para outra gritou alguma coisa incompreensível e literalmente se jogou no vazio.

Então foi como se houvesse ocorrido algo estranho com o tempo. Num momento ele estava caindo, e logo depois estava lá embaixo de pé, nos chamando para descer do pedregulho. Não posso dizer que ele flutuou, mas que algo estranhíssimo ocorreu ali, no espaço de algum tempo que pareceu não ter transcorrido da maneira certa...

Lá embaixo, antes de me despedir, cumpri minha promessa: “Mãeeeeeeeeeee!” – Achei melhor gritar de forma alongada, a maneira de Zonta, para deixar bem claro que estava efetivamente saudando a “Deusa”.

“Muito obrigado garoto, agora guarde essa lição contigo” – Me disse Zonta – “Existem muitas coisas inexplicáveis nesse mundo. Não tente entendê-las, pois que são um mistério da Deusa. Apenas os iniciados podem praticar tais mágicas, e a nós cabe apenas admirar e agradecer pela Deusa nos ter enviado tais gurus.”

Quando foram embora pela trilha que finalmente percebi: não se tratava de um casal exatamente. Mas de um guru milagroso, alguma espécie de profeta inca, e de sua seguidora, totalmente seduzida por sua mágica.

***

Crédito da foto: Niels Sörensen (vista do Platô em Monte Verde/MG).

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6.7.11

Orando em teatros

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

Nunca tive uma educação religiosa na infância, mas como na minha família haviam católicos e espíritas, tive a oportunidade de, como a maior parte dos brasileiros, conhecer superficialmente a doutrina católica: da bíblia conheci mais por filmes e pela “bíblia para crianças” que saia nas bancas de jornal na década de 80. Só fui ler a bíblia já adulto, e mesmo assim com muito mais ênfase no Novo Testamento.

Como já havia dito, na minha infância e pré-adolescência me interessava muito mais por super-heróis e histórias de fantasia do que por missas ou doutrinas religiosas. Até hoje não sei o que fazer direito numa missa católica (além de sentar e levantar quando todo mundo faz o mesmo, e cantar às vezes), e sei de cor apenas uma ou duas orações (decerto sei mais poesias de cor do que orações) [1].

A espiritualidade que nasceu comigo, entretanto, esteve sempre presente. No fundo, eu sabia muito bem que havia algo de profundo e verdadeiro por detrás dos rituais sagrados, somente não conseguia compreender decerto o que era – assim como os próprios padres e católicos que conheci pessoalmente também não souberam me informar. Tudo o que faziam era repetir trechos da bíblia, como robôs, e eu não queria ser um “espiritualista robô”.

Quando finalmente li alguns livros de Alan Kardec, pude perceber que havia algo de mais profundo ali, algo que me relembrava alguma coisa que já sabia desde que nasci... Não foi como quando li o Fédon de Platão, quando tive a sensação de estar relendo exatamente o mesmo texto, mas certamente era algo muito parecido com isso.

Mas somente ter lido tudo aquilo não teria me ajudado tanto quanto frequentar alguma espécie de “missa”, algum ritual sagrado onde às verdades ocultas na alma pudessem ser expostas e vivenciadas plenamente. Ironicamente, a minha maior igreja, o templo onde orei verdadeiramente pela primeira vez, estava ainda mais próximo de minha casa do que a igreja católica – estava dentro de um shopping!

Augusto César Vannucci foi um produtor e diretor de TV, tendo trabalhado por muitos anos na Rede Globo. Seu ponto alto, pelo menos para mim, foi a direção dos especiais da Turma do Balão Mágico, muito saudosos [2]. Pois bem, Vannucci era espírita, e até hoje sua influência é clara em setores de Globo. Em 1978 ele fundou o Teatro Vannucci no Shopping da Gávea (Rio de Janeiro), a menos de 500m de onde passei a maior parte de minha juventude. Até hoje o Teatro abriga palestras espiritualistas todas as quartas-feiras, às 19h, e eu as frequentei desde meados da metade da década de 90 [3]. Infelizmente Vannucci morreu em 1992, então não pude conhecê-lo...

Mas conheci Joel, um médium pleno de luz com uma voz ao mesmo tempo doce e profunda, que até hoje preside as reuniões e apresenta os palestrantes; conheci o professor Hermógenes, um dos pioneiros na divulgação da Yoga no país; conheci Jorge Andréa, L. Palhano Jr., Narci de Castro e tantos outros espíritas e parapsicólogos; conheci pastores batistas ecumênicos, que se “atreviam” a ir palestrar em um palco espiritualista; conheci inúmeros artistas, atores, músicos, filósofos, poetas, e até mesmo assistentes sociais que trabalhavam no atendimento telefônico de pessoas com tendências suicidas. Em suma, tive a grandiosa oportunidade de observar um amplo espectro da luz da espiritualidade [4].

Dizem que a oração é um ato religioso, uma ligação, uma conversa, um pedido, um agradecimento, que fazemos em nosso íntimo em conexão a uma força transcendente, que uns chamam Deus, outros Cosmos, outros Natureza. Eu nunca fui muito bom em decorar orações, pois nunca fui muito bom em conversar com Deus com palavras pré-estabelecidas, com linguagem represada, e não fluida... No fim das palestras do Vannucci, sempre havia um período de oração. Foram nesses breves momentos ao longo das quartas-feiras e dos anos que pude ter contato com “energias” além da minha ampla compreensão, mas que representavam agrupamentos de espíritos das mais variadas culturas e religiões.

Joel os chamava de “falanges”: a falange dos gregos, a falange dos indianos [5], a falange dos índios, a falange dos pretos velhos, a falange dos artistas (Joel citava constantemente que eram presididos por John Lennon, creia quem quiser). A verdade, entretanto, é que eu não sabia ao certo diferenciar entre as diversas “falanges”, mas com o tempo certamente pude sentir sua presença no recinto, tanto quando chegavam (normalmente ainda antes da palestra iniciar) quanto quando partiam.

Assim, mesmo sem querer e decerto sem compreender ao certo, estava lentamente desenvolvendo minha própria mediunidade, meu próprio meio de contato com as sensações que chegavam até mim de algum “outro canto do universo”. Hoje sei que, apesar de não incorporar espíritos e nem nalgum dia desejar o fazer, muito do que escrevo, particularmente no campo da poesia, só é possível graças a esse exercício que fiz, sem saber, ao longo dessas noites de luz.

Apenas uma única vez Joel me chamou para me juntar aos médiuns “da casa” durante a parte final das palestras, quando estes se alinham em frente ao palco e dão passes magnéticos em todos os presentes... Estranho que, muitos anos depois, fui estudar passes magnéticos em um centro espírita onde resido hoje, em Campo Grande, e o que aprendi mais ou menos correspondia ao que realizei intuitivamente naquele dia. Quem sabe, talvez tenha sido o médium mais jovem a ter dado um passe no Teatro Vannucci [6] – talvez alguma falange tenha me auxiliado, mas eu não sei qual delas...

***

[1] Se tivesse frequentado missas gnósticas, provavelmente teria sido bem diferente...

[2] “Pegar carona nessa calda de cometa, ver a Via Láctea, estrada tão bonita, brincar de esconde-esconde numa nebulosa, voltar pra casa em nosso lindo balão azul”. Veja quem tiver olhos para ver.

[3] Eu hoje não moro mais no Rio, mas sempre que retorno para visitar a família tento aparecer por lá as quartas-feiras.

[4] Como é comum no espiritismo, também compareci a reuniões jovens, eventos de caridade, hospitais, asilos, instituições de deficientes mentais, etc. Embora certamente não tanto quanto deveria... Em todo caso, muito obrigado a Maria por ter me “iniciado” na caridade.

[5] Existe uma ligação muito forte do Teatro com o guru indiano Sai Baba, que morreu recentemente. Uma foto de Sai Baba pode ser vista logo na entrada do recinto. O professor Hermógenes e diversos outros palestrantes conheceram pessoalmente Sai Baba, na Índia.

[6] Embora um dia tenha dito ao Professor Hermógenes, quando este me chamou de sobrinho, que não era possível dizer quem era, dentro daquele Teatro, o mais jovem ou o mais velho.

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Crédito da foto: NASA (balão de alta pressão na estratosfera)

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4.7.11

Nosso evangelho

Eu digo: minha religião é meu pensamento
Pois a religião não é uma doutrina de regras fossilizadas, mas um caminho eterno, uma via que se inicia estreita, mas cujo final se perde na névoa que o próprio infinito interpõe ao horizonte.

Que não se busque a religião como quem busca um reino específico: o reino dos céus, o cume da montanha de todos os sábios, a sombra da árvore de onde se pode alcançar um nirvana...

Pois se tudo que fazemos neste mundo é reflexo daquilo que somos, daquilo que pensamos, daquilo que sentimos, daquilo que intuímos, é somente através do pensamento, da música tocada pelas mãos etéreas, que efetivamente caminhamos à frente, em Sua direção.

Eu digo: minha vida é minha bíblia
Pois ainda que exista um livro infalível, o mais sagrado de todos, isso não significa que sejamos hoje tão sagrados quanto ele. Isso não significa que estejamos em plenas condições de o compreender.

Que a verdade é como o horizonte: quanto mais a buscamos, mais e mais descobrimos o quão infinito é o mundo, e além do mundo...

No entanto, quando finalmente descobrimos uma verdade, é como se o próprio horizonte tivesse cedido, e recuado, e nos reverenciado, e nos agraciado. Este é o mistério, a angústia, e a suprema felicidade da vida: escrever nosso próprio texto sagrado com nossos passos na areia do tempo. E que hão de desvanecer, quando Seu vento soprar.

Eu digo: minha igreja é meu coração
Pois o reino não foi edificado para que fosse circundado por colunas e paredes de templos, e os escolhidos não foram apenas alguns poucos agraciados, mas todos os seres do infinito.

Que ninguém poderia ser feliz num jardim de ociosidade enquanto outros de seus irmãos ardem nos lagos de enxofre. Que o reino não é feito de fronteiras delimitadas, e todos os templos precisam ser erigidos em nossas próprias almas...

Pois se o reino está em toda parte, debaixo de pedras e dentre galhos partidos, os convites para o Seu banquete foram enviados a todos nós: os filhos do Cosmos. E só poderemos entrar no reino de mãos dadas.

Nós dizemos: Deus é nosso amor
Conforme consta em todas as leis naturais, desde o núcleo do átomo até os agrupamentos de galáxias mais distantes: tudo esta conectado, tudo está em harmonia, tudo flui, tudo vibra, tudo se atrai mutuamente pela gravidade divina, enquanto de alguma singularidade de amor Ele continua a nos arremessar no turbilhão sem fim.

Tudo se iniciou em um pensamento de amor, e todo o amor do mundo jaz neste momento aos Seus pés: o amor de todos os dias dos homens, e dos seres de outrora, e dos seres do porvir.

E todos os cânticos sagrados, e todos os poemas e orações, e todas as bênçãos e maldições, e todos os erros e acertos, e todos os códigos sagrados, e todos os evangelhos, e este nosso evangelho...

raph’11

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Crédito da imagem: Tom Grill/Corbis (modificada por Rafael Arrais)

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14.12.10

Pai Nosso em aramaico

Há alguns anos, começaram a ser divulgadas na internet algumas versões alternativas do que se intitula ser o diálogo do Pai Nosso na língua aramaica. Em verdade são mais interpretações, ou "traduções livres" (porque não dizer, também inspiradas e criativas), do que traduções acadêmicas.

Por outro lado, o aramaico tem uma peculiaridade: nesse idioma, cada "palavra" é formada pela junção de diversos símbolos. Ou seja, cada palavra é formada de outras palavras. Pode-se fazer uma tradução simples, ou buscar "as palavras que formam" cada palavra, buscando as origens, o "fundo" da mensagem. O interessante é que talvez Jesus quisesse exatamente que cada um buscasse o "fundo" de sua oração, e não ficasse preso há uma única interpretação (que aliás hoje já é arcaica). Lembremos também que Jesus falava aramaico, mas a Bíblia originalmente teve o grego como língua-base.

Eu mesmo já havia postado no blog minha interpretação do Pai Nosso há alguns anos, mas confesso que esta enviada pelo Samuel (amigo que a compartilhou nos comentários do blog) é bem mais bela e profunda do que a minha:


» Ver também esta outra versão no blog do Marcelo Del Debbio, aliás bem próxima desta acima.

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13.2.09

Novo Pai Nosso

Faz algum tempo eu postei algumas considerações sobre a famosa oração do Pai Nosso. Essas considerações foram tão mal compreendidas (em discussões no Orkut) que eu cheguei a considerar retirar esse post do ar. Em todo caso, minha intenção era apenas fazer com que os que consideram essa oração refletissem acerca do que ela significa, e de como poderíamos "apurar" um pouco mais nosso entendimento dela. Não é o caso de entoa-la de outra forma, trocando as palavras (quem sou eu para sugerir isso), mas se fosse:

Pai nosso que estais em toda parte
Percebemos que és santificado por tua obra
Que vosso reino está a nossa volta
Que vossa vontade é feita nas esferas
E no infinito do cosmos

As leis que nos mantém a todos
Faz com que continuem inalteradas
Faz com que ao perdoarmos nosso próximo
Percebamos a necessidade
De perdoar também a nós mesmos

Que não caiamos na tentação
De crer que o que ocorre a nós
Depende mais de vossa vontade
Do que da nossa própria

Assim sempre foi e sempre será

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26.6.08

Pai Nosso

Pai Nosso que estais no céu,

Um ser onipresente está em toda parte.

santificado seja o vosso nome,

Quem determina se um nome é santificado?

vem a nós o vosso reino,

O "reino", seja lá qual for, já está entre nós, pois vivemos cada segundo de nossas vidas em sua Criação.

seja feita a vossa vontade

Um ser onipotente terá sua vontade sempre feita, independente de repetirem uma oração ou não.

assim na terra como no céu.

Um ser onipresente está em toda parte.

O pão nosso de cada dia nos daí hoje,

Decerto o pão não "cai do céu", e se um ser infinitamente justo desse o pão apenas para quem o adora, e não para quem merece, entraria em contradição.

perdoai-nos as nossas ofensas,

Nós que temos de perdoar uns aos outros, o que Ele tem a ver com isso?

assim como nós perdoamos
a quem nos tem ofendido,

Essa parte, finalmente, tem sentido!

não nos deixei cair em tentação

Quem cai em tentação somos nós mesmos, o que Ele tem a ver com isso?

mas livrai-nos do mal.

Quem se livra do mal somos nós mesmos.

Amém.

Assim seja? Engraçado como terminam todas as orações dando ordens a Ele... Será que Ele segue nossas ordens?

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4.12.06

O turbilhão

Já dizia Santo Agostinho: “O passado já não existe e o futuro ainda não existe. (…) O presente não tem nenhuma duração, se a tivesse, dividir-se-ia em passado e futuro.” - Portanto, o que importa é o que nós somos, o que conquistamos moralmente para nós mesmos, o quanto fomos capazes de evoluir até agora... Mas, e que "agora" seria esse então? Não importa.

Não importa, porque se nossa medida de grandeza fosse baseada no quanto conseguimos juntar em nossas casas ou em cofres de bancos, ou a quantas instituições de caridade doamos todo ano, ou a quantas pessoas nos conhecem ou quantas notas saem sobre nossas vidas nos jornais todos os dias, enfim, acho que teríamos muitos grandes homens e grandes mulheres nesse mundo.

Mas, como Sócrates o fez, é preciso aprender a julgar quem é sábio e quem apenas se julga como tal... Não extamente pelos outros, mas antes por nós mesmos. Aprender o que é realmente a sabedoria nos aponta o único caminho pelo qual deveríamos estar sujando nossas botas de lama. São vários os caminhos para a sabedoria, e todos, guiados por nosso próprio amor ao saber, levam para dentro de nós mesmos.

Como estamos sempre em trânsito, nessa viagem quase que eterna de nossa pequena Via Láctea pelos confins do cosmos, tudo a nossa volta também é dinâmico, está sempre em movimento. Não adianta querer guardar quinquilharias nas gavetas, trajes finos nos armários, medalhas e troféis no sótão... O turbilhão que move esse universo não poupa a nada nem a ninguém, mais poderoso do que o próprio tempo, ele só cessa ante os portais que levam a algo ainda mais poderoso.

Sim, pois que nada adentra aos portais de nossa própria alma, ah não ser nós mesmos. Lá, somos onipotentes, embora ainda não possamos exercer essa onipotência em todo seu potencial... Mas mesmo assim, tudo que guardamos na alma "o ladrão não leva e as traças não devoram".

Sábio é aquele que guarda um ensinamento dentro d'alma, e não precisa vasculhar toda sua biblioteca para encontra-lo novamente. Sábio é também quem carrega toda a sua casa sempre consigo mesmo, e prefere o som leve de uma harpa que pode carregar, do que uma sinfonia belíssima tocada em piano, mas que lhe pesa mais do que qualquer outra coisa, por ainda não poder decifra-la. Sim, mesmo aqueles que guardam seus amores a sete chaves dentro de seus corações não podem ser censurados, pois que não há coisa mais valiosa do que um amor, e é perigoso deixar um amor perdido enquanto se corre atrás de outro.

Mas, acima de tudo, sábio é aquele que não se preocupa em decorar tantas orações, pois que sabe que diante de tamanha imensidão, a única coisa que pode dizer ao descobrir que dentro de si mesmo existe uma imensidão ainda maior e mais bela, é somente isso mesmo...

"Obrigado".

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