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27.9.11

Cristo crucificado

Você que andou por esse mundo de homens quando os homens eram pouco mais do que feras bestiais, você que veio de longe, de onde mesmo a luz demora a viajar, você que esteve no reino iluminado, na morada da paz duradoura, e ainda assim decidiu retornar... Por nós!

Você que esteve presente na fundação da primeira tribo, e também da primeira civilização. Você que tem sido amigo dos homens há tantas e tantas eras. Você que tem cuidado para que o nosso fogo não se apague com os ventos gélidos das noites obscuras. Você, nosso amigo, e amigo do sol. Você é o que há de mais precioso em nossa existência e, ainda assim, é tão somente mais um de nós...

Não Deus, mas apenas mais um da raça dos deuses. Não Deus, mas apenas mais um da raça dos homens. Não Deus, mas apenas mais um ser que veio de algum lugar do infinito, e agora voa junto aos anjos do firmamento.

Nós o caçamos quando o avistamos no céu. Nós o arpoamos e o trouxemos para baixo, para o mesmo nível de pensamento, para o nosso fétido pântano de desejos desenfreados. Nós arrancamos suas asas e o fizemos gritar em agonia, e o que você nos ofereceu? A outra face!

Não obstante, você nasceu novamente homem, você cresceu novamente homem, você viveu uma vida de homem. Você correu entre as ovelhas do mundo como um jovem pastor que algum louco avistara dentre as colinas no final da tarde. Você se ajoelhou perante os grandes sábios do oriente e lhes disse: “ensinem-me”; mas eles lhe responderam: “não, ensina-nos tu, ó mensageiro!”

Não profeta, mas apenas alguém que já vira este orbe girar por muitas eras. Não messias, mas apenas alguém que agora vai aonde quer no Cosmos. Não mágico, mas apenas alguém que nos faz relembrar o amor. Não curandeiro, mas apenas alguém que nos faz reencontrar a saúde de nossa própria alma. Enfim, não Rei, mas Imperador do espírito.

Não obstante, nós cuspimos em sua mensagem de luz. Nós o açoitamos e lhe dissemos para ir-se embora daqui. E para nos certificarmos de que estava errado em sua vã esperança de uma era de amor, nós deixamos que o próprio povo, o seu querido povo, escolhe-se entre tu, ó cordeiro que sangra, e Barrabás, aquele imundo assassino, incitador de rebeliões e matanças. E eles não te escolheram, eles te deixaram sangrar até o fim...

Nós, os imperadores da terra, os conquistadores de reinos, a turba do Coliseu, o crucificamos e o banimos de nossas vidas. A tua esquerda deixamos um ladrão, e a tua direito ainda outro, e só deixamos que algumas mulheres te dessem adeus, por que todos sabemos o quanto choramingava na cruz. Você ainda teve a coragem de pedir perdão ao Cosmos, dizendo que não sabíamos o que estávamos a fazer. Mas todos sabíamos, sabíamos exatamente o que era realizado naquele dia!

Mas esse foi apenas o início de nossa vingança. Depois, ainda conseguimos erguer uma gloriosa Igreja de Eleitos sobre os corpos esquartejados de cada um de seus amados discípulos. Eles pregavam sua mensagem de que o Reino de Deus nos abarcava por todo lugar, dentre galhos partidos e debaixo de pequenas pedras ao longo das estradas... E nós lhes dissemos que não: “Todas as estradas levam a Roma, e somente a Igreja de Roma poderá lhes salvar da danação eterna!”

Você veio nos dizer que a existência era uma festa armada pelo Cosmos, e que tudo que havíamos de buscar era o amor. Mas nós lhes dissemos que todo ser nasce um pecador, que algum ancestral obscuro havia comido uma maçã podre em algum bosque fabuloso, e que por isso te crucificamos: para que pagasse o pecado sombrio de todos nós, de toda a humanidade!

E houve dia que nossa Igreja controlou os pensamentos de metade da humanidade. Nós que te crucificamos e que aplaudíamos enquanto sangrava, gota a gota, fizemos de seu momento de maior agonia, de seu calvário, nossa maior imagem de glória. Na entrada de cada um de nossos Templos de Ouro, erguidos em meio à pobreza e miserabilidade dos homens, mostramos o Cristo Crucificado em toda a sua grandeza...

Não obstante, você até hoje jaz crucificado, e até hoje lhe esquecem e clamam em turba: “Salvem Barrabás!”

Então eu lhe pergunto, meu amigo: quando finalmente sairá dessa cruz? Quando finalmente se instaurará um reino de vida, e não mais de morte, nesta terra? Quando finalmente irás ressuscitar dentre os mortos, para que tragas junto contigo todos aqueles discípulos de outrora, e todos os teus amigos que tem te amado nas orações noturnas, e salvo teus ensinamentos em pinceladas ocultas e vasos enterrados nos desertos?

Quando irá retirar os três pregos hediondos desta cruz monumental, e virá nos consolar novamente? Ou será que somos nós que precisaremos subir até sua cruz, para te libertar, e lhe trazer definitivamente para dentro de nosso coração?

Ainda existe luz aqui embaixo, ainda há luz em todo lugar... Tu venceste a noite de todas as almas... Apenas tu, ó invicto!


raph'11

***

Crédito da imagem: J. H. Williams III (Promethea de Alan Moore)

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10.8.11

A religião

Texto de Rafael Arrais, em homenagem ao grande poeta Gibran Kahlil Gibran.

Então Almitra [1] disse: fala-nos da religião.

E ele respondeu:

Não precisareis ir muito longe para encontrar sua religião, assim como o camponês não precisa caminhar distâncias para encontrar água – ele edificou sua casa perto dos rios e dos oceanos.

E, quando o rio seca, ele cava um poço bem profundo.

E, quando o oceano destrói sua casa com suas ondas, ele entende que ainda não pode morar tão próximo das marés.

Ai daquele, no entanto, que construiu sua casa em terra seca e pedregosa, ou que destruiu a própria floresta e mudou o curso dos rios, pois que para esse nada restará além de cavar dentro de si mesmo, sangrando ao arrancar pedaços da própria pele.

Por isso, povo de Orfalés, não deem ouvidos aqueles que os chamam para orar em seus templos desolados.

E bradam em voz alta o que deve e o que não deve ser feito para agraciar a seus deuses.

Que se construíram sua igreja em terreno infértil, foi porque não souberam encontrar as sementes que o bem-amado arremessou a nossa terra...

E não as tendo encontrado, não as plantaram.

E não as tendo plantado, tampouco floresceram.

E não tendo florescido, sua fragância lhes é desconhecida, e por isso vivem a reclamar do fedor alheio.

Pois quem vive em meio ao mau-cheiro, acha que só existe mau-cheiro no mundo.

E, acostumando-se ao próprio mau-cheiro, crê piamente que a sua fragância é a única capaz de agradar aos deuses.

Só que não existem os deuses, apenas os emissários do bem-amado.

Que semearam a terra desde épocas remotas, desde eras em que éramos apenas sementes, e não homens e mulheres...

E, tendo compreendido tal mistério, o camponês soube que o melhor lugar para edificar sua casa era em seu próprio coração.

Que a água dos rios e oceanos flui por todos os lugares, e de tempos em tempos faz sua viagem pelos céus.

E as chuvas que alagam sua plantação são as mesmas que dão vida a tudo o que há.

E a fragância do bem-amado penetra a tudo e a todos.

E não é necessário convencer a ninguém disso – um dia, saberão.

Da mesma forma que sabem que toda semente um dia vira árvore.

Contanto que a cuidemos com o mesmo amor que temos sido cuidados por todas essas eras...

***

[1] Almitra é o personagem que faz a maior parte das perguntas para Almustafa, o escolhido e bem amado, personagem principal que dá voz aos ensinamentos de Gibran em sua obra-prima, “O Profeta”. Este texto, entretanto, é apenas uma homenagem ao grande poeta.

***

» Parte da série "Após Gibran"

Crédito da imagem: John Smith/Corbis

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9.8.11

Gritando nas montanhas

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

A história de Monte Verde (Minas Gerais) começou em 1940, quando Verner Grinberg, um imigrante da Letônia, chegou à região viajando em companhia de seu pai para tomar posse da Fazenda Pico do Selado, então situada na área hoje conhecida como Campos do Jaguari. Grinberg, nome que significa “verdes montanhas”, ficou encantado com a beleza do lugar. E assim Monte Verde acabou surgindo no mapa do Brasil.

Desta época, praticamente sobraram apenas às paisagens da Serra da Mantiqueira e o clima de montanha, já que muita coisa mudou na antiga vila. A colonização europeia teve realmente grande influência no estilo das construções e na culinária, basicamente de característica alemã. Mas a cidade tem hoje uma vida própria. Entre os meses de abril a setembro, a estimativa é de receber cem mil visitantes. Nem mesmo uma sinuosa estrada de acesso, que parte de Camanducaia, consegue afastar os turistas que chegam de todo o país.

A região tem temperaturas de 28 graus, no verão, e de até 12 graus negativos nos invernos mais rígidos. Repleta de adoráveis hotéis e pousadas, para quem está acostumado com altas temperaturas, não existe nada mais diferente ou romântico.

Eu me considero um sujeito de sorte por ter nascido em uma família (nesta vida) que até hoje é dona de um adorável hotel-fazenda em Monte Verde. Por isso desde criança aprendi a andar em trilhas, apreciar deliciosas trutas ao molho de alcaparras, galopar cavalos e... subir montanhas!

Como já devem saber, se leram as outras festas estranhas, desde muito cedo tive um sentimento muito forte de espiritualidade desperto dentro de mim. Como nunca fui muito de frequentar igrejas, elegi uma das montanhas de Monte Verde como minha casa de oração. Sempre que subo no Platô, e observo as montanhas da Mantiqueira se estenderem até o horizonte, me permito um momento de solidão plena, de oração silenciosa, de contato com Deus – pois que se é necessário que cada um de nós tenha sua própria imagem de Deus, a minha é, portanto, composta pelos céus e montanhas do sul de Minas Gerais...

Das incontáveis vezes em que subi sozinho para admirar e orar, ou que deixei o grupo que subia em conjunto para isolar-me momentaneamente e dialogar com aquele que nunca nos deixa estar totalmente a só, sem dúvida aquela foi a mais estranha de todas.

De uma das trilhas para o topo do Platô, surgiram vozes que foram aumentando e aumentando, até que se tornaram gritos ao mesmo tempo entusiasmados e angustiados, gritos que nunca houvera ouvido antes:

“Mãe! Mãe! Mãeeeeeee... Mãe! Mãe! Mãe...”

Quando se aproximaram mais, vi que se tratava de um casal. A mulher gritava de forma mais alongada, como um chamado angustiado – “Mãeeeeee...”; Já o homem gritava como se sua mãe, ou quem quer que seja, estivesse prestes a aparecer em sua frente, quase como uma saudação antecipada.

Quando chegaram mais perto, felizmente pararam de gritar. Acho que notaram que eu os observava curioso. Não gosto muito de encarar os outros (assim como não gosto que me encarem), mas esse caso era especial – tratava-se de um casal muito estranho. A mulher parecia uma turista como qualquer outra que frequentava Monte Verde, com trajes adequados para a trilha que levava até o topo da montanha. Mas o homem parecia mais um índio inca, ou algo do gênero. Parecia que havia saído diretamente de Machu Picchu para o Platô. Não quero dizer que ele andava com pinturas na cara, cocares ou arcos e flecha, quero dizer que ao olhar para ele, era quase impossível não lembrar dos incas, ou pelo menos do que se imagina dos incas se somos razoavelmente interessados por documentários de TV.

“Oi, meu nome é Zonta, e este é o chefe Dyami” – aprentou-se a mulher – “O que faz aqui garoto?”

“Gosto de subir para admirar a natureza, e... conversar um pouco com Deus também...”

“Não é possível falar com a Deusa assim, ela se cansou de atender esses chamados tímidos e silenciosos... Precisamos clamar por ela, saudá-la: Mãeeeeeeeeeeeeee!”

“Ah, muito obrigado, mas eu acho que não precisamos deixar a Deusa surda.”

Aquela resposta pareceu deixar o chefe Dyami furioso, ele tinha um leve sotaque casteliano na voz, provavelmente havia nascido fora do país:

“Se eu te mostrar mágica, garoto promete que irá saudar a Deusa? Pode ser apenas uma vez, então verá que temos falado verdade!”

Aquela situação já era tão surreal que eu acabei concordando. Para ver a mágica, tive antes que segui-los até uma outra pedra, pois Dyami disse que só a poderia realizar se “pudesse ver o norte”... Então, chegando finalmente ao topo do Chapéu do Bispo, que é uma espécie de pedregulho incrustado no topo de outra montanha vizinha ao Platô, o casal gritou pela Deusa mais algumas vezes, e depois fez algumas poses esquisitas.

Antes que pudesse perguntar do que se tratava, Zonta me explicou que estavam saudando os totens animais – ela fazia pose de uma onça (ou algo assim), e ele fazia enorme esforço para parecer uma águia (mas não acho que a pose parecia algo nem próximo a isso). Depois Zonta voltou à posição “normal”, enquanto Dyami permaneceu por longos minutos, em aparente transe, numa mesma posição de “águia”...

“O que ele está fazendo?” – perguntei a Zonta.

“Canalizando o espírito da águia, logo após ele irá saltar daqui e flutuar até ali embaixo. Essa será a mágica!”

Bem, “ali embaixo” era uma queda de cerca de 5 metros. Comecei a ficar com medo de que o sujeito se machucasse seriamente na tentativa... No entanto, após (acho que) uns 15 minutos, ele de uma hora para outra gritou alguma coisa incompreensível e literalmente se jogou no vazio.

Então foi como se houvesse ocorrido algo estranho com o tempo. Num momento ele estava caindo, e logo depois estava lá embaixo de pé, nos chamando para descer do pedregulho. Não posso dizer que ele flutuou, mas que algo estranhíssimo ocorreu ali, no espaço de algum tempo que pareceu não ter transcorrido da maneira certa...

Lá embaixo, antes de me despedir, cumpri minha promessa: “Mãeeeeeeeeeee!” – Achei melhor gritar de forma alongada, a maneira de Zonta, para deixar bem claro que estava efetivamente saudando a “Deusa”.

“Muito obrigado garoto, agora guarde essa lição contigo” – Me disse Zonta – “Existem muitas coisas inexplicáveis nesse mundo. Não tente entendê-las, pois que são um mistério da Deusa. Apenas os iniciados podem praticar tais mágicas, e a nós cabe apenas admirar e agradecer pela Deusa nos ter enviado tais gurus.”

Quando foram embora pela trilha que finalmente percebi: não se tratava de um casal exatamente. Mas de um guru milagroso, alguma espécie de profeta inca, e de sua seguidora, totalmente seduzida por sua mágica.

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Crédito da foto: Niels Sörensen (vista do Platô em Monte Verde/MG).

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6.7.11

Orando em teatros

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

Nunca tive uma educação religiosa na infância, mas como na minha família haviam católicos e espíritas, tive a oportunidade de, como a maior parte dos brasileiros, conhecer superficialmente a doutrina católica: da bíblia conheci mais por filmes e pela “bíblia para crianças” que saia nas bancas de jornal na década de 80. Só fui ler a bíblia já adulto, e mesmo assim com muito mais ênfase no Novo Testamento.

Como já havia dito, na minha infância e pré-adolescência me interessava muito mais por super-heróis e histórias de fantasia do que por missas ou doutrinas religiosas. Até hoje não sei o que fazer direito numa missa católica (além de sentar e levantar quando todo mundo faz o mesmo, e cantar às vezes), e sei de cor apenas uma ou duas orações (decerto sei mais poesias de cor do que orações) [1].

A espiritualidade que nasceu comigo, entretanto, esteve sempre presente. No fundo, eu sabia muito bem que havia algo de profundo e verdadeiro por detrás dos rituais sagrados, somente não conseguia compreender decerto o que era – assim como os próprios padres e católicos que conheci pessoalmente também não souberam me informar. Tudo o que faziam era repetir trechos da bíblia, como robôs, e eu não queria ser um “espiritualista robô”.

Quando finalmente li alguns livros de Alan Kardec, pude perceber que havia algo de mais profundo ali, algo que me relembrava alguma coisa que já sabia desde que nasci... Não foi como quando li o Fédon de Platão, quando tive a sensação de estar relendo exatamente o mesmo texto, mas certamente era algo muito parecido com isso.

Mas somente ter lido tudo aquilo não teria me ajudado tanto quanto frequentar alguma espécie de “missa”, algum ritual sagrado onde às verdades ocultas na alma pudessem ser expostas e vivenciadas plenamente. Ironicamente, a minha maior igreja, o templo onde orei verdadeiramente pela primeira vez, estava ainda mais próximo de minha casa do que a igreja católica – estava dentro de um shopping!

Augusto César Vannucci foi um produtor e diretor de TV, tendo trabalhado por muitos anos na Rede Globo. Seu ponto alto, pelo menos para mim, foi a direção dos especiais da Turma do Balão Mágico, muito saudosos [2]. Pois bem, Vannucci era espírita, e até hoje sua influência é clara em setores de Globo. Em 1978 ele fundou o Teatro Vannucci no Shopping da Gávea (Rio de Janeiro), a menos de 500m de onde passei a maior parte de minha juventude. Até hoje o Teatro abriga palestras espiritualistas todas as quartas-feiras, às 19h, e eu as frequentei desde meados da metade da década de 90 [3]. Infelizmente Vannucci morreu em 1992, então não pude conhecê-lo...

Mas conheci Joel, um médium pleno de luz com uma voz ao mesmo tempo doce e profunda, que até hoje preside as reuniões e apresenta os palestrantes; conheci o professor Hermógenes, um dos pioneiros na divulgação da Yoga no país; conheci Jorge Andréa, L. Palhano Jr., Narci de Castro e tantos outros espíritas e parapsicólogos; conheci pastores batistas ecumênicos, que se “atreviam” a ir palestrar em um palco espiritualista; conheci inúmeros artistas, atores, músicos, filósofos, poetas, e até mesmo assistentes sociais que trabalhavam no atendimento telefônico de pessoas com tendências suicidas. Em suma, tive a grandiosa oportunidade de observar um amplo espectro da luz da espiritualidade [4].

Dizem que a oração é um ato religioso, uma ligação, uma conversa, um pedido, um agradecimento, que fazemos em nosso íntimo em conexão a uma força transcendente, que uns chamam Deus, outros Cosmos, outros Natureza. Eu nunca fui muito bom em decorar orações, pois nunca fui muito bom em conversar com Deus com palavras pré-estabelecidas, com linguagem represada, e não fluida... No fim das palestras do Vannucci, sempre havia um período de oração. Foram nesses breves momentos ao longo das quartas-feiras e dos anos que pude ter contato com “energias” além da minha ampla compreensão, mas que representavam agrupamentos de espíritos das mais variadas culturas e religiões.

Joel os chamava de “falanges”: a falange dos gregos, a falange dos indianos [5], a falange dos índios, a falange dos pretos velhos, a falange dos artistas (Joel citava constantemente que eram presididos por John Lennon, creia quem quiser). A verdade, entretanto, é que eu não sabia ao certo diferenciar entre as diversas “falanges”, mas com o tempo certamente pude sentir sua presença no recinto, tanto quando chegavam (normalmente ainda antes da palestra iniciar) quanto quando partiam.

Assim, mesmo sem querer e decerto sem compreender ao certo, estava lentamente desenvolvendo minha própria mediunidade, meu próprio meio de contato com as sensações que chegavam até mim de algum “outro canto do universo”. Hoje sei que, apesar de não incorporar espíritos e nem nalgum dia desejar o fazer, muito do que escrevo, particularmente no campo da poesia, só é possível graças a esse exercício que fiz, sem saber, ao longo dessas noites de luz.

Apenas uma única vez Joel me chamou para me juntar aos médiuns “da casa” durante a parte final das palestras, quando estes se alinham em frente ao palco e dão passes magnéticos em todos os presentes... Estranho que, muitos anos depois, fui estudar passes magnéticos em um centro espírita onde resido hoje, em Campo Grande, e o que aprendi mais ou menos correspondia ao que realizei intuitivamente naquele dia. Quem sabe, talvez tenha sido o médium mais jovem a ter dado um passe no Teatro Vannucci [6] – talvez alguma falange tenha me auxiliado, mas eu não sei qual delas...

***

[1] Se tivesse frequentado missas gnósticas, provavelmente teria sido bem diferente...

[2] “Pegar carona nessa calda de cometa, ver a Via Láctea, estrada tão bonita, brincar de esconde-esconde numa nebulosa, voltar pra casa em nosso lindo balão azul”. Veja quem tiver olhos para ver.

[3] Eu hoje não moro mais no Rio, mas sempre que retorno para visitar a família tento aparecer por lá as quartas-feiras.

[4] Como é comum no espiritismo, também compareci a reuniões jovens, eventos de caridade, hospitais, asilos, instituições de deficientes mentais, etc. Embora certamente não tanto quanto deveria... Em todo caso, muito obrigado a Maria por ter me “iniciado” na caridade.

[5] Existe uma ligação muito forte do Teatro com o guru indiano Sai Baba, que morreu recentemente. Uma foto de Sai Baba pode ser vista logo na entrada do recinto. O professor Hermógenes e diversos outros palestrantes conheceram pessoalmente Sai Baba, na Índia.

[6] Embora um dia tenha dito ao Professor Hermógenes, quando este me chamou de sobrinho, que não era possível dizer quem era, dentro daquele Teatro, o mais jovem ou o mais velho.

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Crédito da foto: NASA (balão de alta pressão na estratosfera)

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28.6.11

Esperando a Nave-Mãe

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

« Este conto é uma continuação direta de “Fotografando auras”

Quando subi a escada de madeira que dava na sobreloja do endereço que Inês havia me passado – a tal “casa esotérica” onde encontraria Carla e poderia iniciar meu “desenvolvimento na paranormalidade” – confesso que não estava nem um pouco assustado... Esse sempre foi o meu trunfo e minha maldição ao lidar com assuntos “do outro mundo”: minha curiosidade sempre foi muito maior do que meu temor ante o assunto.

Mas, quando cheguei na pequena sala de espera, que mais parecia de um consultório ondontológico, tive uma decepção e um temor. A decepção foi ter encontrado apenas um garoto mais ou menos da minha idade sentado numa cadeira – esperava encontrar algumas “esotéricas bonitinhas”, não nego. O temor foi devido ao ar de assombro com que o jovem me encarou, ele parecia estar com tanto medo de mim, ou de “sei lá o que” que envolvia estar naquele ambiente, que eu mesmo acabei absorvendo um pouco daquele medo para mim.

Quando ia me dirigir a ele para perguntar sobre Carla, ela abriu uma porta que dava para a única outra sala da sobreloja, e me convidou a entrar. Carla era bem mais jovem e bonita do que Inês, mas nesse caso isso era algo estranho para mim – como poderia “ela ser a guru, e a outra a assistente”? Como podem ver, eu não tinha muita experiência no ramo, somente muitos anos depois descobri que em assuntos espirituais a idade não é garantia nem documento de nada.

Mas, ao menos nesse caso, tanto Inês quanto Carla pareciam estar igualmente “confusas”... Minha conversa com Carla foi tão estranha que eu hoje mal lembro exatamente sobre o que conversamos. Tudo que me lembro foi que ela eventualmente me alertou para “a chegada das naves” e para como “deveríamos estar preparados para deixar a Terra de um dia para o outro”. Aquilo me deixou tão confuso que tudo que pude fazer foi concordar com a maior parte do que ela me disse, e tentar compreender melhor se aquilo fazia algum sentido posteriormente, lendo o livro que ela me indicou...

De saída, passei numa livraria próxima onde o livro estava à venda. Chama “Projeto Evacuação Mundial” e foi escrito por Ergom Abraham, que normalmente é referido como “professor Ergom”, apesar se eu não saber até hoje o que exatamente ele ensina. Por sorte, o livro é tão fantástico e absurdo, que resolvi guardá-lo para a posteridade, do contrário não poderia trazer a vocês tantos detalhes sobre ele agora. Ele está aqui do meu lado, vou citar algumas passagens:

“Este livro é carinhosamente dedicado a Todos os Membros da “L.I.V.R.E.” – Legião Intergaláctica dos Voluntários Reais Espaciais, presentes no Planeta (trecho da Dedicatória, o primeiro que se lê no livro)”.

“De Jesus o Cristo:
Deve haver paz na Terra. Deve haver fim às guerras e ao ódio entre irmãos. Os milhões que vêm de outros mundos, de galáxias distantes para ajudar a trazer Paz à Terra, têm meu firme apoio e respaldo para todos os seus esforços [...] Eu sou Sananda e esta é minha mensagem ao mundo (trecho do Prólogo, onde temos o comunicado do comandante espacial Sananda, ou seja, Jesus Cristo)”.

“Vários milhões de voluntários universais caminham sobre a Terra: estão cheios de luz, completos em sua dedicação e consagração ao Governo Celestial, à Hierarquia Solar e a Confederação Intergaláctica, na salvaguarda do planeta. Os mais elevados Concílios Celestiais decretaram que aqueles eleitos sejam pessoalmente recolhidos a Terra, temporariamente postos em uma frequência superior dentro de nosso território, para ali serem preparados física e espiritualmente para as missões e operações a serem efetuadas (trecho de uma das mensagens de Ashtar, o comandante da Nave-Mãe que virá a Terra buscar “os eleitos”)”.

“Com quase um ano de antecipação, fui informada de que regressaríamos das reuniões com o Comando, com “algo para levar e usar” [...] Algumas trarão colares, outros anéis, broches, porém todos com pedras de cristal engastadas. O que importa nesses objetos não é a forma, mas sim o fato de que sejam levados e, de algum modo, colocados sobre o corpo (depoimento da médium Eve Carney, onde alerta sobre os “presentes” que os extraterrestres lhes darão, estranhamente seriam presentes um tanto quanto “terrenos”)”.


Vamos resumir rapidamente do que se trata o livro: Os tempos “estão chegados”, uma “nova era” se aproxima e ela não trará a princípio boas notícias para nosso planeta. Grandes desastres naturais e guerras causadas pela ignorância humana vão transformar a Terra em um inferno. Porém, alguns “eleitos” e “iniciados nos mistérios do Comando Ashtar” serão selecionados para escaparam do apocalipse terreno na Nave-Mãe do Comandante Ashtar e outras naves de sua frota. A esses seres “evoluídos espiritualmente” espera-se que a esperança da raça humana persista, e que possam povoar outros mundos, ou talvez este mesmo, quando retornarem para arrumar a bagunça que os “não eleitos” tiverem causado a Terra.

Antes que me perguntem: sim, a Nave-Mãe viria fisicamente ao planeta. E o “arrebatamento” seria também físico – nada de um intercâmbio de espíritos desencarnados, conforme relatos espíritas nos trazem, seria um evento puramente FÍSICO.

Agora o que eu achei do assunto? Bem, não posso afirmar a priori que o Comandante Ashtar e sua Nave-Mãe não existam, pois a ausência da evidência não é a evidência da ausência. Além disso, como os alienígenas se comunicam através de contatos com médiuns na Terra, e como eu acredito que a mediunidade exista, não poderia negar a priori a possibilidade desse tipo de contato. Dito isso, existem obviamente vários problemas graves com a teoria de Ergom:

A. Se a “evacuação mundial” será física, e não espiritual, porque até hoje nenhum seguidor de Ashtar nos trouxe uma prova física de sua existência? Não precisava ser uma de suas naves a descer em frente à Casa Branca nem nada desse tipo, bastaria um artefato, um desses “colares” e “broches” que seriam entregues, contendo quem sabe um tipo de cristal inexistente na Terra. Mas não há nenhum tipo de evidência física.

B. Se “os tempos são chegados” e é preciso que as pessoas tenham fé na vinda da Nave-Mãe, para que sejam salvas, porque então não trazer uma evidência física? Esse tipo de coisa traria muito mais seguidores, muitos mais “candidatos à salvação”, do que apenas mensagens mediúnicas publicadas em livros esotéricos.

C. Porque diabos Jesus Cristo, ou o Comandante Sananda, sendo o regente interplanetário deste setor da galáxia (incluindo a Terra), iria simplesmente enviar uma nave para resgatar alguns poucos eleitos? Porque não enviar uma nave que pudesse trazer a tecnologia necessária para salvar a Terra das catástrofes vindouras? Porque não descer ele mesmo nessa nave, ou quem sabe o Comandante Ashtar, para que pudessem instruir nossos governos ao que deveria ser feito para salvar o planeta? Porque, enfim, deixar bilhões morrerem (incluindo os animais que não tem nada a ver com a história), para salvar alguns milhares?

D. Porque toda essa história se parece tanto com a crença bíblica de Céu e Inferno? Há no livro inúmeras referências ao “apocalipse bíblico” e as “muitas moradas” relatadas por Jesus... Mas, se toda essa história é apenas uma “versão futurista” do mito do fim do mundo, caímos de volta na fragilidade de muitas de suas afirmações. Eu poderia me estender sobre isso aqui, mas creio que basta lembrar de uma coisa: “Como poderemos ser nalguma felizes no Céu sabendo que boa parte dos seres da Terra, incluindo amigos próximos e familiares, estarão ardendo em um Lago de Enxofre?”.

A minha ideia de Céu não se parece com um Reino de Ócio nem com um “planeta novo a nossa espera”... O Céu se faz quando todos os seres se amam e auxiliam mutuamente. No Céu só poderemos entrar de mãos dadas, e se nalgum dia chegarmos lá antes de nossos irmãos, tudo o que desejaríamos seria retornar e ajudar os que aqui ficaram – pois isso seria a atitude natural de um ser amoroso.

Então, eu sinto muito, Ergom, e eu sinto muito, Comandante Ashtar, mas se quiserem pousar sua Nave-Mãe e “salvar seus eleitos”, que sejam bem vindos. Mas eu, eu ficarei. Ficarei para ajudar o planeta... E acho que isso resume o que tinha para dizer acerca do “Projeto Evacuação Mundial”.

Nunca mais voltei aquela “casa esotérica”, mas tem uma coisa que não me foge a memória... O garoto, o pobre garoto... Será que ele vive até hoje angustiado, esperando pela Nave-Mãe que não chega? Será que ele realmente se acha um paranormal?

Também não me perguntem o que o Comando Ashtar tem a ver com as fotografias Kirlian, até hoje não descobri... Felizmente, no entanto, nem todas as minhas festas estranhas foram tão sem sentido.

***

Vejam também:

» Entrevista com Ergom, onde ele se defende das acusações de “elitismo” em sua teoria.

» Algumas fotos (falsas) de Nibiru, o planeta que traria uma “mudança de era” ao orbitar muito próximo da Terra (Ergom infelizmente participou da fraude, desvelada no site Ceticismo Aberto).

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Crédito da foto: Markus Ram

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25.6.11

Fotografando auras

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

Em 1997, havia voltado recentemente de duas semanas de férias no paraíso de Cancun, no México (minha primeira viagem internacional, e uma das poucas), e cursava o terceiro período de Gravura, Belas Artes, na UFRJ.

Houve uma espécie de “feira esotérica” no primeiro andar da Reitoria da Ilha do Fundão, onde eu estudava, e fiquei curioso acerca de uma mulher que dizia poder tirar “fotos da aura” com um estranho aparelho, em sua tenda com temas indianos.

Inês me disse que a foto normalmente custava 20 reais, mas que durante a feira estava em promoção: só 10 reais. O processo consistia em enfiar o dedão em uma estranha máquina fotográfica e aguardar alguns segundos para que a foto fosse tirada. Paguei, e no dia seguinte vim pegar minha foto Kirlian, a foto da minha aura!

Segundo pesquisei na época, a técnica surgiu em 1939, na União Soviética, sob a denominação de "efeito Kirlian", em homenagem a Semyon Davidovich Kirlian, “descobridor” da mesma. O método consiste em fotografar um objeto com uma chapa fotográfica, submetida a campos elétricos de alta-voltagem e alta-frequência, porém baixa intensidade de corrente. O resultado é o aparecimento de uma aura, ou melhor, um "halo luminoso" em torno dos objetos, seja ele qual for, independente de ser orgânico ou inorgânico.

Somente muitos anos depois descobri que na verdade havia sido primeiramente descoberta pelo padre brasileiro (e inventor) Landell de Moura, que havia construído a primeira máquina já em 1904, embora houvesse sido obrigado a interromper suas pesquisas sobre o assunto em 1912, “a pedido de seus superiores católicos”... Ao que consta, Semyon Kirlian provavelmente nunca conheceu a pesquisa de Landell de Moura, embora ninguém possa comprovar ao certo. Fato é que Semyon Kirlian ficou conhecido como o “descobridor”, e nunca procurou corrigir tal erro histórico.

A fotografia Kirlian é uma técnica hoje descrita como pseudociência, particularmente depois que se comprovou experimentalmente que o efeito Kirlian é inexistente em fotografias realizadas no vácuo absoluto. Isso significa que os resultados nada têm a ver com um efeito da aura humana. Por outro lado, um físico e ocultista amigo meu postula que a foto Kirlian pode captar interações indiretas entre a aura humana e a atmosfera imediatamente a sua volta... Isso talvez explicasse porque até hoje ela é usada na Rússia como instrumento médico auxiliar de diagnósticos, e até na mineralogia.

Entretanto, o que Inês pôde falar sobre mim a partir da “análise” da minha foto (ela ilustra este conto) me pareceu algo surpreendentemente detalhado. Não me lembro ao certo hoje em dia de tudo que ela me disse, mas lembro bem que ela inicialmente afirmou que a predominância da cor avermelhada na foto, inclusive “invadindo” a circunferência do meu polegar, significava que eu tinha “imensa paranormalidade”. Já as ranhuras na parte esquerda do polegar significariam que eu continha “muitas toxinas na aura, provavelmente causadas pelo consumo excessivo e recente de álcool”.

Ora, aquilo me deixou encucado... Afinal, eu acabara de tomar o primeiro e maior porre da minha vida no México, com certamente mais de uma dúzia de copos de tequila (maiores detalhes, quem sabe, em outra festa estranha). Então aquilo pareceu fazer todo o sentido para mim.

Por outro lado, paranormal, eu? Bem, na época eu já frequentava as palestras espiritualistas semanais do Teatro Vannucci, no Shopping da Gávea (certamente falarei ainda sobre elas em outra festa), e sabia muito bem que embora todos fossem médiuns, somente aqueles que haviam estudado e desenvolvido adequadamente sua mediunidade poderiam, quem sabe, se autodeclarar um médium... Já sobre paranormais, então, não sabia quase nada, exceto talvez de um ou outro filme de Hollywood que em todo caso não deveriam ter sido de grande ajuda.

Nessa época eu certamente não havia exercitado suficientemente o meu ceticismo [1]. Embora fosse adepto da prática das “dúvidas razoáveis” (parafraseando a coluna de Kentaro Mori), eu obviamente ainda era uma “presa fácil” para esse tipo de “esoterismo”... Inês havia me fisgado, eu certamente não era um paranormal, mas gostaria muito de, em todo caso, saber do que se trata a paranormalidade com mais detalhes; E quem sabe um dia efetivamente poder realizar coisas que paranormais faziam. Fossem elas o que fossem, deveriam ser estranhas e, portanto, interessantes para minha curiosidade.

Inês me indicou uma “casa esotérica” na Tijuca (bairro da zona norte) onde poderia encontrar Carla, uma paranormal que iria me “iniciar” nos estudos mais aprofundados “de sabe lá o que” – já que ela não me deu nenhuma pista do que eu iria efetivamente estar estudando lá. Ela também me alertou de que iria encontrar outros estudantes “tão paranormais quanto eu”, e que isso seria bom “porque poderíamos exercitar nossa paranormalidade juntos”.

Na época, eu esperava sinceramente que as estudantes paranormais (normalmente esses assuntos atraíam bem mais mulheres do que homens) fossem mais jovens e bonitas do que Inês. Eu ainda era jovem, e minhas doces decepções no caminho espiritual haviam mal começado...

» A continuação direta deste conto é “Esperando a Nave-Mãe”

***

[1] Estudando posteriormente as interpretações das fotografias Kirlian, soube que o “halo energético” deveria estar completo em torno da marca do polegar, pois se não estivesse, mesmo que em “pequenos intervalos”, isso deveria significar que a pessoa estava “perdendo energia vital”, ou algo do gênero... Se virem minha foto acima, ficaria difícil compreender como sobrevivi até hoje, se estava com um enorme rombo na parte direita do polegar. Por outro lado, talvez isso signifique que estava “totalmente aberto ao universo” – tenho certeza de que Inês teria explicado assim se eu houvesse perguntado.
Já sobre as ranhuras que denotam toxinas, nessa foto em específico me parece óbvio que eram as ranhuras do meu próprio polegar (da minha pele, como todos podem ver em suas carteiras de identidade). Em outras interpretações de fotos que pesquisei, compreendi que as toxinas seriam pequenos pontos amarelados, e não exatamente apenas ranhuras... Portanto ela estava errada acerca das toxinas (embora eu continue admitindo meu porre homérico em Cancun, em todo caso).
Uma outra hipótese que considero é que Inês sequer sabia tirar uma foto Kirlian direito, e o fato da cor avermelhada ter “invadido” meu polegar pode ser resultado de uma foto extremamente mal tirada. Eu não tenho nada contra Inês, até mesmo porque esse episódio me ensinou muitas coisas sobre o que a espiritualidade não era, conforme veremos na continuação desta festa estranha.

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Crédito da foto: esta é a foto da minha aura!

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24.6.11

Rolando poliedros

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

A chamada tradição oral é a preservação de histórias, lendas, usos e costumes através da fala. Origina-se do primórdio da história humana, quando ainda não havia a escrita e os materiais que pudessem manter e circular os registros históricos. Na atualidade própria das classes iletradas, a tradição oral tem sido, contudo, muito valorizada pelos eruditos que se dedicam ao seu estudo e compilação (os contos dos Irmãos Grimm, por exemplo), ao considerarem que é na tradição oral que se fundamenta a identidade cultural mais profunda de um povo. Supõe-se, por exemplo, que a Ilíada e a Odisseia de Homero foram, inicialmente, longos poemas recitados de memória.

Joseph Campbell gostava de dizer que “o mito é algo que nunca existiu, mas que existe sempre”. Esse aparente paradoxo pode ser reconciliado se entendermos a tradição oral, mãe da mitologia, como a melhor forma com a qual o espírito humano pôde passar adiante suas experiências no contato com a essência das coisas, com o que há de eterno no mundo. Dessa forma, todas as variantes de um mesmo mito são, no fundo, uma mesma história. E toda mitologia é, no fundo, uma mesma mitologia, uma mitologia do espírito humano.

Mas hoje não vivemos mais em tribos e aldeias, e nem todos necessitam decorar tais histórias antigas. Além disso, não são os xamãs nem os anciãos quem nos passam os mitos, mas alguns poucos textos sagrados de outrora, que até hoje inspiram inúmeras variações na mente dos contadores de histórias modernos – a quem conhecemos, principalmente, como artistas. Existem mitos sendo recontados em todos os cantos: nos livros de vampiros adolescentes, nos filmes de Hollywood, nas séries de TV de fantasia, e até mesmo num gibi.

Desde pequeno eu fui imediatamente atraído pela mitologia dos super-heróis do século passado. E o meu predileto é Steve Rogers, o Capitão América, que era fisicamente fraco, mas ao passar pelo processo “mágico” do projeto do supersoldado, tornou-se um ser sobre-humano. No entanto, a maior força de Steve sempre foi sua honra e sua ética, sua compaixão pelos fracos – tão fracos e indefesos como ele fora um dia. Ora, essa história é um mito, e esse mito nada tem a ver com os Estados Unidos da América. Steve calhou de ter sido criado durante a Segunda Guerra, por quadrinistas americanos, e por isso serviu como um elemento patriótico na luta contra o nazismo. Mas a guerra acabou. As guerras passam, os mitos permanecem.

Por isso os heróis das histórias precisam continuar lutando suas guerras, e vivenciando suas aventuras e jornadas de heróis – tais histórias podem hoje terem se tornado superficiais, mitos “diluídos” em uma sociedade que em sua maior parte se esqueceu da espiritualidade antiga... Mas ainda continuam narrando, em essência, aquilo que está fora do tempo. Continuam se tratando de jornadas espirituais. Mesmo que não saibamos, estamos até os dias de hoje vivenciando a mitologia, apenas uma mitologia moderna, que nos chega através de gibis e filmes 3D, e não pela boca de um contador de histórias, próximo à fogueira no centro da aldeia, numa noite de céu estrelado – salpicado de super-heróis.

Essa festa pode não ter nada de aparentemente estranha, mas isso é porque poucos interagem com os mitos. As histórias contadas da maneira antiga serviam principalmente para que cada homem e cada mulher se imaginassem como o herói ou heroína através de sua jornada. Não era algo para se ouvir e simplesmente decorar. Era algo para se ouvir, imaginar, experimentar, modificar, e só então passar adiante... Obviamente que as histórias foram alteradas, e seria estranho que não fossem. Mas, ainda mais estranho, é que tenham chegado aos dias atuais com sua essência inalterada – eis que são diversos modos de se abordar um mesmo mito, e o mito não se altera, pois sua essência reside fora deste mundo.

J. R. R. Tolkien foi um filólogo e escritor britânico que desde cedo se ressentiu do fato da maior parte da mitologia inglesa ter se perdido com o tempo. Ele decidiu resolver o problema criando uma nova mitologia inglesa. Claro que de nova ela não tinha nada, pois que todos os mitos são tão antigos quanto à humanidade, mas era uma mitologia moderna, uma mitologia que cativou seguidores em todo o mundo... Só para terem uma ideia, existem grupos que se reúnem para falar em quenya, um idioma fictício que existe apenas nas obras de Tolkien. Esses estão literalmente “entrando na história”, vivenciando o mito.

Mas foi através de Gary Gygax que encontramos uma forma totalmente inesperada de vivenciar mitos. Em 1974 ele adaptou, junto com seu amigo Dave Arneson, um jogo de guerra baseado no movimento de miniaturas em um tabuleiro. O tabuleiro passou a ser irrelevante, as partidas passaram a ocorrer principalmente na imaginação dos jogadores, e todos se tornaram contadores de histórias – novamente. No jogo de Gygax, o primeiro Role Playing Game da história (“Jogo de Interpretação de Personagens”), heróis enfrentavam jornadas épicas e aventuras sem fim, adentrando masmorras obscuras como labirintos de minotauros, e digladiando-se com dragões e outros seres mitológicos... Cabia ao jogador designado como mestre do jogo, um novo xamã da tribo, determinar o desenrolar da história – mas todas as escolhas dos heróis eram feitas por eles próprios, os jogadores. Todos estavam vivenciando a jornada.

Os resultados se suas ações eram determinados pelo resultado obtido em se arremessar poliedros regulares na mesa. Os famosos sólidos de Platão e Pitágoras continuavam a ser sagrados – são os rolamentos dos dados de 4, 6, 8, 12 e 20 faces que decidem o destino dos heróis (bem, existe também o dado de 10 faces, embora este não seja um poliedro regular). Todo jogo de RPG tem alguma coisa de experiência religiosa, mas foi só muito tempo depois de ter jogado a primeira vez, com cerca de 11 anos de idade, que me apercebi disso.

Cheguei a criar meu próprio mundo de fantasia e cenário de RPG. A mitologia moderna me atraiu, e não poderia ter sido de outra forma. Hoje compreendo: aquele jogo tão distinto, onde o tabuleiro existia principalmente em nossa mente, foi talvez a minha primeira festa estranha.

E, se não lhes pareceu suficientemente estranha, gostaria de lembrar brevemente que quando um personagem com o qual jogamos RPG eventualmente morre na história, podemos ser ressuscitados por feitiços, mas também podemos ter de criar um novo personagem. E, não importa se este novo é um guerreiro ou ladrão, enquanto o antigo era um clérigo ou mago, nosso entendimento do jogo se desenvolveu, nosso potencial para jogar e interpretar cada vez melhor é hoje maior do que ontem. E, se tivermos de começar uma vez mais do nível 1, não significa que tenhamos perdido a experiência de um dia termos chegado, quem sabe, a um nível 13 ou 14... Um dia chegaremos finalmente ao nível 20, e depois quem sabe a semi-deuses, e depois a algum nível que nem mesmo Gygax descreveu nas regras. E teremos de criar novas regras nós mesmos.

Assim também ocorre com o espírito. Esta vida é meu mais novo personagem, e sinceramente não sei mais em que nível eu estou...

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Crédito da foto: Jason Thompson

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22.6.11

Festa estranha

Quando se passa anos divulgando textos espiritualistas pelos quatro ventos, é inevitável que surjam dúvidas e curiosidades acerca de quem os escreveu, de que forma, com que propósito, etc.

Eu tenho há muito tempo me protegido pelo personagem – ou máscara – de mim mesmo, uma prática que uso desde cedo, e que certamente faz parte do toque “impessoal” que dou a maior parte de meus artigos... Já se muitas de minhas poesias revelam-me mais do que gostaria, sempre posso recorrer à solução de Pessoa, e dizer que “o poeta é um fingidor”.

Faço isso não por algum desejo de ludibriar os leitores, muito pelo contrário – exatamente por um desejo de ser o mais sincero possível. Todo médium, exu, ou artista que compreende de onde vem a maior parte de sua inspiração, sabe que o que importa é a informação passada adiante, a luz que veio e refletiu-se de alguma forma incerta. Quanto mais nos “intrometemos” entre a luz e quem a observa, mais corrompemos sua luminosidade. Borges chegava quase a se desculpar por ter sido através dele que seus textos chegaram, e não através de outro escritor – ele sabia, era tão somente o mensageiro.

Por outro lado, há um desejo genuíno de se saber como alguém que, por alguma razão, escreveu algo que nos tocou a alma, chegou a tal compreensão. Ainda há outros que duvidam, e sentem que em alguns de meus textos sua dúvida quase encontrou algum porto seguro onde atracar – e gostariam muito de saber como diabos eu, o autor, chegou a acreditar, chegou a ter certeza de certas coisas estranhas.

Devo alertar que não tenho certeza de quase nada. As duas únicas certezas que nasceram comigo nesta vida foram as da existência de Deus e de que esta vida não é a única vida... Em todo caso, ter certeza de Deus não me foi de tanta valia se a maior parte das interpretações de Deus que conheci durante a juventude me soaram falhas e muitas vezes absurdas; Já tudo que a certeza de que esta não era a única vida me trouxe, a princípio, foi uma crença arraigada de que eu era, de alguma forma, louco. Ou eu era louco, ou quase todos os outros eram – pois sua interpretação de vida após a morte, de um Céu de Ócio e de um Inferno de Dor, era para mim ainda mais absurda do que a visão de um deus Senhor dos Exércitos.

Então eu tive de buscar muito, tive de esbarrar “por acaso” em livros dos sábios de outrora. Tive de chorar novamente quando revi a cena em que Sócrates bebe cicuta, tive de uma vez mais ouvir a Divina Canção de Krishna, ainda novamente deixar que as rodas percorressem os velhos sulcos do Tao... E, finalmente, uma vez mais morri junto com o Cristo, e renasci em seu novo mundo – o reino de Deus, este mundo.

Mas apenas o conhecimento, apenas reler o que já li tantas vezes, não era o suficiente... Eu também precisava praticar, investigar, ir aonde coisas estranhas ocorrem, participar de festas, entoar canções, sentir as inúmeras formas com que as almas têm se comunicado entre este e o outro lado do véu.

Também me inteirei do que a ciência tem descoberto, e me maravilhei... Ora, mesmo nos mundos desconhecidos dos átomos a natureza faz questão de derrubar quaisquer esperanças que tínhamos de obter uma certeza que fosse... Não sabemos, não podemos saber, teríamos de escolher: ou conhecer a posição de algo, ou a velocidade de seu movimento. E tal dança em turbilhão se estende também a todo o espaço-tempo: um tecido estranho que surgiu de algum ponto singular, e tem se expandido ad infinitum, nos carregando em torno de nosso pequeno Sol como o vendaval carrega um graveto (e nós somos apenas a formiga com as garras fincadas na madeira).

Esta será, portanto, a descrição da festa estranha. Uma série de contos onde procurarei narrar episódios de minha própria vida, esta vida, particularmente os da juventude... Através da narração de minhas buscas espirituais, espero poder demonstrar como passei a ter uma certa convicção de que coisas estranhas afinal realmente existem – o que não significa que as compreendemos por completo, ou que nalgum dia iremos compreender (ao menos, enquanto homens ou mulheres).

Longe de mim querer afastar o seu ceticismo. Toda dúvida é divina. A única certeza não é a morte, mas o mistério da vida – o paradoxo de uma existência a girar como calha de roda em torno da eternidade de um único momento, este estranho momento.

Para assegurar que não confiem facilmente no que lhes trarei, devo alertar sobre as regras do jogo: pelo menos um dos próximos contos (ou um em cada dez, se eventualmente chegar a escrever tantos) será absolutamente falso, uma descrição de algo que nunca ocorreu... Os mais atentos saberão, talvez, que se trata de algo absurdo em termos espiritualistas. Mas os mais atentos estão de plena posse de sua dúvida divina, e essa regra não é para eles, mas para os que se deixam levar facilmente por ideias alheias.

Finalmente, existe a questão do “porque afinal, escrever?”. Porque se esforçar? Porque querer ditar o rumo a seguir? Bem, eu não dito rumos, apenas aponto para certos caminhos por onde a carroça de Lao Tsé passou, e que parecem os mais convidativos, ou pelo menos os caminhos onde sofreremos menos. Já sobre “o escrever”, o faço primeiramente para organizar minhas próprias ideias, para só então ter alguma condição de poder passar adiante alguma luz que tenho certa confiança de que servirá para a melhora, e não para a piora.

Hoje melhor do que ontem, amanhã melhor do que hoje. Eu escrevo para melhorar a vizinhança. Quanto melhor a vizinhança, melhor o condomínio. Um dia, todos sairemos do condomínio fechado para o oceano do Cosmos. Até lá, terão sido muitas festas estranhas... Estas são só algumas delas.


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» Esperando a Nave-Mãe

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» Gritando nas montanhas

» Dançando com ciganos

» Imaginando dragões

» Abrindo portas na mente

» Esperando Jesus

» Encontrando Eu

» Mergulhando em corações

» Avistando tribos


» Veja as festas estranhas mais recentes

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Crédito da foto: Brooke Fasani Auchincloss/Corbis

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13.6.11

Hermes, Benedito e a Cadeira

Este conto foi originalmente publicado no Portal Teoria da Conspiração, onde agora sou colunista...

Agora que sou um colunista neste Portal, estive pensando no que seria o conceito principal que procuraria defender e elaborar aqui. Como tendo a ver a espiritualidade de forma ecumênica, acredito que essa “conciliação de pensamentos”, esse ponto de encontro de diversas doutrinas e filosofias diferentes, parece ser uma causa nobre a ser buscada. Mesmo ateus e agnósticos, quando seres de certa espiritualidade, hão de concordar que o Cosmos é um lugar sagrado, que a Natureza é divina, e nesse caso não é necessário erguer um “deus barreira” entre nós... Talvez, o verdadeiro Deus esteja exatamente no entendimento, no movimento de um em direção ao outro, enfim, no amor possível entre todos nós – os seres da Criação.

Bem, e este diálogo é em homenagem a esta ideia:

(Hermes) Vê aquela cadeira, Benedito?

(Benedito) Claro, um belo exemplar talhado em madeira nobre.

(H.) Você sabe quem a talhou?

(B.) Certamente algum carpinteiro, mas não o conheci...

(H.) Do que necessitou para fazer esta obra?

(B.) Bem, além da madeira, provavelmente as ferramentas para o entalhe.

(H.) Ignoremos as ferramentas, você concordaria comigo em que o material principal foi à própria madeira, certo? Pois bem, imaginemos este nobre carpinteiro prestes a executar o entalhe, o que diria se no seu ateliê não existisse nenhuma madeira?

(B.) Bem, que ele certamente precisaria ir a alguma madeireira para comprar mais madeira...

(H.) Mas e se não existissem madeireiras?

(B.) Como assim? Nesse caso teria ele mesmo que ir derrubar árvores e extrair a madeira.

(H.) E se não existissem árvores? E se não existisse nenhuma madeira no mundo?

(B.) Porque suas conversas sempre ficam tão estranhas?

(H.) Isso não importa agora, o que importa é que você pense no que lhe falei...

(B.) Bem, supondo que não existissem árvores, nós tampouco existiríamos, e esse carpinteiro subitamente se torna alguma espécie de deus, ao meu entender.

(H.) Mas pensemos na cadeira: mesmo que não houvesse madeira nenhuma, ainda assim ela já estaria pronta, concorda?

(B.) Pronta aonde?

(H.) Na mente do carpinteiro. Ou você acredita que um carpinteiro possa dar sequer o primeiro entalhe nalgum bloco de madeira antes de ter a cadeira pronta em sua mente?

(B.) Compreendo. De fato: mesmo que não existisse madeira nenhuma no ateliê, o carpinteiro já poderia ter a cadeira pronta na própria mente, apenas esperando a madeira para construí-la.

(H.) Mas se não existisse madeira nenhuma, ela antes teria de ser inventada...

(B.) Aonde quer chegar?

(H.) Ora, e não é óbvio? Para se construir uma cadeira à partir do nada, antes é necessário inventar todo o Cosmos!

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Crédito da imagem: Photo2217

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19.5.11

The messenger of the skies

(translated by the author from the orginal portuguese tale, “O mensageiro dos céus ”)

Near two thousand years ago, a sexagenarian tibetan buddhist, who had a great number of followers, decided to travel from his home Tibet to the southwest corner of Asia. The buddhist would only carry his clothings, his wooden staff and one young follower… Very few persons on the village knew what the old monk would do so far away from there, but some speculated that he were following a message of the spirits; And would cross huge distancies in the name of faith: the message said that the messenger of the skies, the real son of God, were among the men of the world; And soon he would reveal himself, changing forever the sad and confused heart of the humanity.

Ayatsu was the chosen one to follow the monk. He were still young and very happy with the glorious destiny of not only know the distant lands of the world, but to also see the son of God! After years of wandering, they finally arrived on the city of Jerusalem. There they found another old buddhist, who came from Tibet previously. This other monk said that he had given up the seek; After all, it was impossible to find one man in a so extensive region… Later he came back to his native land.

After some time of reflection, the monk had an idea and followed it: he assembled a tent at one of the city entrances and ordered Ayatsu to spread the notice that on this tent they were hiring miserables and shepherds for working as employers at rich houses. In the other day there was a small row of men outside the tent. The monk said to Ayatsu that he would kneel down and worship each man that enter the tent as the son of God, but only a specific reaction from one of them would indicate that he is realy the man from the skies.

During that day and others, and weeks, and mouths, no man reacted by the adequate form… So finally the monk gave up and decided to return to Tibet. Ayatsu tried to imagine what type of reaction would reveal the son of God: to shine as the Sun? To levitate? To do some miracle?

After years they returned to Tibet. The monk was already conformed and did not hope to ever find the messenger of the skies. However, in a sunny morning, a man of judish appearance, brown hair and beards, green eyes, and wearing light clothes of hot colors, appeared at the entrance of the monastery where the monk lived. He spoke:

-I came to learn your religion. I don`t look for nothing instead of your knowledge.

Enraptured, the olk monk kneeled down at the front of the man; And the man, uncomfortable with the act of the monk, kneeled down too. So, the monk leaned his head on the ground, and were imediatelly followed by the man. With enormous joy inside his heart, the buddhist looked to the eyes of the stranger and said:

-You are the lord of all of us, the messenger of the skies!

With a face full of peace, the man aswered:

-No. I`m nothing more than you or any other man of the world, all of us have a little piece of God inside ourselves. We are all sons of God. What I have done was to look deep inside my heart, and discover the truth about all wonderful things that compose the creation, the everything.

raph'96

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Thanks to JanAnn (writer32) for his aid by reading the portuguese version of this tale and helping me to translate it the way it should be translated. Hope you like this final version.

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Image credits : Wikipedia (early christinanity)

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