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10.8.11

A religião

Texto de Rafael Arrais, em homenagem ao grande poeta Gibran Kahlil Gibran.

Então Almitra [1] disse: fala-nos da religião.

E ele respondeu:

Não precisareis ir muito longe para encontrar sua religião, assim como o camponês não precisa caminhar distâncias para encontrar água – ele edificou sua casa perto dos rios e dos oceanos.

E, quando o rio seca, ele cava um poço bem profundo.

E, quando o oceano destrói sua casa com suas ondas, ele entende que ainda não pode morar tão próximo das marés.

Ai daquele, no entanto, que construiu sua casa em terra seca e pedregosa, ou que destruiu a própria floresta e mudou o curso dos rios, pois que para esse nada restará além de cavar dentro de si mesmo, sangrando ao arrancar pedaços da própria pele.

Por isso, povo de Orfalés, não deem ouvidos aqueles que os chamam para orar em seus templos desolados.

E bradam em voz alta o que deve e o que não deve ser feito para agraciar a seus deuses.

Que se construíram sua igreja em terreno infértil, foi porque não souberam encontrar as sementes que o bem-amado arremessou a nossa terra...

E não as tendo encontrado, não as plantaram.

E não as tendo plantado, tampouco floresceram.

E não tendo florescido, sua fragância lhes é desconhecida, e por isso vivem a reclamar do fedor alheio.

Pois quem vive em meio ao mau-cheiro, acha que só existe mau-cheiro no mundo.

E, acostumando-se ao próprio mau-cheiro, crê piamente que a sua fragância é a única capaz de agradar aos deuses.

Só que não existem os deuses, apenas os emissários do bem-amado.

Que semearam a terra desde épocas remotas, desde eras em que éramos apenas sementes, e não homens e mulheres...

E, tendo compreendido tal mistério, o camponês soube que o melhor lugar para edificar sua casa era em seu próprio coração.

Que a água dos rios e oceanos flui por todos os lugares, e de tempos em tempos faz sua viagem pelos céus.

E as chuvas que alagam sua plantação são as mesmas que dão vida a tudo o que há.

E a fragância do bem-amado penetra a tudo e a todos.

E não é necessário convencer a ninguém disso – um dia, saberão.

Da mesma forma que sabem que toda semente um dia vira árvore.

Contanto que a cuidemos com o mesmo amor que temos sido cuidados por todas essas eras...

***

[1] Almitra é o personagem que faz a maior parte das perguntas para Almustafa, o escolhido e bem amado, personagem principal que dá voz aos ensinamentos de Gibran em sua obra-prima, “O Profeta”. Este texto, entretanto, é apenas uma homenagem ao grande poeta.

***

» Parte da série "Após Gibran"

Crédito da imagem: John Smith/Corbis

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