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15.2.12

Schiller e a dimensão estética

Texto de Viviane Mosé em "O homem que sabe” (Ed. Civilização Brasileira) – pgs. 147 a 150. As notas ao final são minhas.


Somente através da beleza da manhã é possível penetrar a terra do conhecimento (Schiller)


Para Anatol Rosenfeld [1], a concretização de muitas ideias kantianas apenas esboçadas coube a Schiller, especialmente no domínio da estética.

O homem, pensa Schiller, é determinado pelas forças da natureza e, na grande maioria das vezes, perde para ela. A única liberdade humana consiste em não se deixar escravizar, o que implica exercer o senso moral por meio da linguagem e do pensamento [2]. A capacidade humana de criar valores representa o domínio próprio do homem; eles são o modo humano de se contrapor à natureza, por isso não derivam da necessidade, mas da liberdade. É por “claro saber e livre decisão” que o homem troca o estatuto de independência, no estado natural, pelo do contrato, no estado moral. [3]

No entanto, esta contraposição entre a natureza de um lado e o homem de outro se compõe com um combate que pode aniquilar o homem, porque gera uma luta sem fim [4]. Somente o senso estático, ele diz, como um terceiro caráter, pode fazer a ponte entre estes dois domínios [5]; é ele que desfaz esta polaridade, porque aproxima o que a razão afasta. Se a razão teórica precisa decompor, separar, o senso estético se caracteriza por compor, aproximar. O senso estético existe para reunir o que a razão teve de separar.

Enquanto apenas luta contra a natureza, por meio do conhecimento que fragmenta o mundo tentando conhecê-lo ou dominá-lo, o homem perde, porque, em última instância, é sempre finito, mortal [6]. Mas ele pode, auxiliado pelo senso estético, não lutar contra o mundo, o que implica em não fragmentá-lo, mas se ver inserido nele e, fortalecido pelo sentimento de pertencimento, tornar-se capaz de lidar com as perdas. A faculdade do juízo, diz Kant, é a capacidade de pensar o particular contido no universal, por isso somente ela é capaz de desfazer a unidade fictícia e provisória do sujeito particular, reinserindo-o na totalidade que o sustenta e alimenta [7]. É a sua consciência individual, ou seja, é o saber de si como provisório que o faz sofrer. Quando o homem se sente inserido no todo, o sofrimento particular perde importância e ele, então, não sucumbe, e vence a natureza não pela força, mas pelo puro exercício da liberdade moral, que fortalece, amplia, alarga a alma.

A faculdade de julgar, ao se construir como uma livre combinação entre as faculdades, sem a necessidade de emitir um juízo sobre o objeto, mas sobre si mesma, termina por entrar em uma relação de harmonia com a natureza, dando esta sensação de pertencimento, de entendimento sem conceito, de participação [8]. A dimensão estética, o lugar por excelência do sentir, que elabora os afetos, é também aquilo que nos alimenta e fortalece [9]. Em vez de apenas buscar vencer objetivamente o mundo, o homem pode, ainda e fundamentalmente, fortalecer a si mesmo para ser capaz de lidar com o mundo. A elaboração do sentir, que acontece no juízo de gosto, resulta neste fortalecimento do homem, especialmente porque se dá no próprio homem, não está em relação de causalidade com nada exterior a ele, com nenhum objeto. O senso estético diz respeito a como nos sentimos em relação ao mundo, não diz respeito ao mundo, por isso se dá no domínio da liberdade e não da necessidade.

Mas a elaboração da faculdade de sentir também interfere no domínio teórico da razão, quer dizer, em nossa inteligência argumentativa, filosófica e científica. Nossa capacidade estética é uma das três dimensões essenciais da razão pura, que, para exercer o seu domínio, como razão teórica, prática ou estética, precisa da integração destas três faculdades: sensibilidade, imaginação, entendimento [10]. A cultura deve, por isso, cuidar para que a razão se institua pelo desdobramento integrado dos diferentes domínios que a compõe, o que exige uma mobilização integral das potencialidades do humano. Um caráter pleno é aquele no qual a saúde da cabeça, do pensamento, e a pureza da vontade, do corpo, formam um todo [11].

Esta totalidade dos diferentes domínios do humano, que Schiller percebe fragmentados e isolados em seu tempo, no entanto, estava harmoniosamente integrada na cultura grega arcaica:

“Naqueles dias do belo acordar das forças espirituais, os sentidos e o espírito não tinham, com rigor, domínios separados. [...] Por mais alto que a razão subisse, arrastava sempre consigo, amorosa, a matéria, e por finas e nítidas que fossem as suas distinções, nada ela mutilava. Embora decompusesse a natureza humana para projetá-la, aumentada em suas partes, no maravilhoso círculo dos deuses, não o fazia rasgando-a em pedaços, mas sim compondo-a de maneiras diversas, já que em deus algum faltava a humanidade inteira. Quão outra é a situação entre nós mais novos. [...] Eternamente acorrentado a uma pequena partícula do todo, o homem só pode formar-se enquanto partícula.” [12]

***

[1] Crítico e teórico de teatro germano-brasileiro que escreveu a introdução de Cartas sobre a educação estética da humanidade, de Friedrich Schiller. O texto de Mosé é centrado nesta obra específica do filósofo alemão.

[2] Por isso todo livre-pensador, religioso ou não, irá defender que só é verdadeiramente livre quem exercita seu próprio pensamento.

[3] O contrato da vida em sociedade pede que respeitemos a liberdade dos outros e, consequentemente, por vezes limitemos a nossa. Mas é de bom grado que o sábio limita a própria liberdade, pois no fundo sabe que dessa “limitação”, virá liberdade ainda maior – o amor.

[4] Darwin a chamou de “a guerra da fome e da morte”. Obviamente no estágio humano nossa questão com a natureza não é mais exatamente a sobrevivência através da caça e coleta, mas a busca pela vivência em um mundo infestado por ideias em conflito.

[5] A ponte entre um território de morte e um território de vida – o amor. Como podem ver este remédio-pensamento tem mesmo inúmeras utilidades.

[6] E, se fosse infinito e imortal, não haveria necessidade de lutar contra a natureza, em todo caso. O homem, como aliás todo ser vivo tendendo a consciência, é um ciclo de existências frágeis e finitas, mas que se renovam e renovam, tendendo a uma consciência cada vez mais apurada. Sem a morte não haveria vida cíclica, nem evolução alguma.

[7] O Chefe Seattle já dizia que o homem não tece a teia da vida: é apenas um fio dela. O que fizer a teia, fará a si próprio. Nesse jogo cíclico de personalidades que vem e vão, sábio é aquele que mira na potencialidade, no particular conectado ao universal, assim como todos estamos, em última instância, conectados pelos átomos a formar o Cosmos detectável.

[8] Julgar os outros considerando não o que um indivíduo fez ao outro, mas o que um grande conjunto de seres fazem e são levados a fazer, em suas relações uns com os outros, e com a Natureza à volta – e, finalmente, guardar o julgamento apenas para si. Que melhor receita para a sabedoria?

[9] Agora vocês já sabem: o amor alimenta, o amor fortalece.

[10] Poderíamos substituir “entendimento” por “tolerância”, para nos adequarmos melhor à linguagem atual.

[11] Poderíamos usar apenas esta última frase isolada, e diriam se tratar de um texto místico oriental, e não filosófico ocidental. A grande diferença entre as abordagens, entretanto, fica restrita ao campo da linguagem – em essência, falam sobre uma mesma coisa.

[12] Schiller, Cartas sobre a educação estética da humanidade, carta VI. Reparem como Schiller não tem pudores em usar a palavra “espírito”, enquanto Mosé parece fugir da menção a todo custo. É o “preconceito velado da palavra”, ou algo assim, muito comum nos dias fragmentados de hoje.

***

Crédito da foto: Wikipedia (monuemnto em Weimar com estátuas de Goethe e Schiller, os grandes poetas alemães, lado a lado - eles eram bons amigos em vida)

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