Pular para conteúdo
17.4.26

Lançamento: A Montanha Mágica, de Thomas Mann

As Edições Textos para Reflexão publicam a obra-prima de um dos maiores escritores do século XX.

A Montanha Mágica, obra de Thomas Mann, ganhador do Nobel de Literatura, é um romance de proporções bíblicas que trata do amor, da morte, da percepção do tempo, da filosofia, das artes em geral e, sobretudo, do ser humano.

A nova tradução de Rafael Arrais já está disponível em e-book e também na versão impressa:

Comprar eBook (Kindle) Comprar livro (Amazon) Comprar livro (Clube de Autores)


Marcadores: , , , , , ,

25.11.25

A beleza duradoura de Sofia

Poucos dias atrás eu estava descendo uma escada rolante no coração de São Paulo, mais precisamente no Hotel Nacional Inn Jaraguá, próximo à Praça da República, onde já se hospedaram artistas como Alain Delon, Sophia Loren e Mick Jagger. Por acaso eu também me dirigia a um encontro anual de artistas, embora nem sempre eles sejam compreendidos como tal.

Tal encontro é hoje conhecido como Sofia, ou Simpósio de Ocultismo e Filosofias Arcanas, mas ele também já foi chamado de Simpósio de Hermetismo, sendo a continuidade de algo que surgiu lá em 2010. Ele representa um genuíno caravançará espiritual. Calma, eu também não conhecia essa palavra até agora pouco, quando pesquisei sobre algum sinônimo para “uma parada de caravanas”. Eis a resposta do sr. Google:

Uma parada de caravanas no deserto é um caravançará, um ponto de descanso e comércio com alojamento para viajantes e camelos, localizado ao longo de rotas comerciais importantes. Eles serviam como base para caravanas que atravessavam o deserto, oferecendo água, abrigo, e suprimentos, facilitando o comércio de longas distâncias. Os caravansários também eram cruciais para a sobrevivência, conectando comunidades e impulsionando o desenvolvimento cultural e econômico nas regiões desérticas da Ásia, África e Oriente Médio.

Ora, não importa se a sua caravana de busca espiritual, de busca de um sentido, um entusiasmo que vá além do chumbo do mundo, é grande ou pequenina, fato é que no Sofia formamos todos uma grande caravana de almas, ainda que ela dure poucos dias, e depois se desfaça... Será?

Descendo as escadas, a primeira alma que vi foi justamente o coração do Sofia, Pri Martinelli, uma das sonhadoras que materializou nosso encontro. Nos cumprimentamos pessoalmente após cerca de um ano, após um giro da Terra em torno do Sol, e no entanto parecia que aquele nosso último encontro tinha sido ontem. De certa forma, estando ali, naquele mesmo local do ano anterior, parecia que o próprio tempo transcorrido havia se tornado, subitamente, algo irrelevante, sem importância: era como se ali, naquele encontro de caravanas, o próprio registro do tempo se desse de outra forma, como se ali cada momento, cada troca de cumprimentos e de saberes, fosse mais eterna, mais duradoura.

Os magos e os místicos, esses praticantes da Arte e de tudo o que ela irradia, são realmente capazes de ver a beleza, o ouro oculto entre o chumbo do mundo. O problema é que a vemos, e logo vem o chumbo e nos faz esquecer. Mas nenhum de nós realmente se esqueceu de nenhum de nossos encontros, de nossas rodas em torno da fogueira, de nossas peregrinações pelo deserto, de nossas aventuras na floresta, de nossos renascimentos na caverna... Ainda que isso ainda resida velado em nosso inconsciente, de alguma forma parte disso vem à tona em encontros como esse, em pleno centro de São Paulo. Esta é a beleza duradoura de Sofia.

Desde que participei do meu primeiro caravançará espiritual, em 2012, pude sentir e compreender que, embora muito importante e iluminador, o conteúdo das palestras dos expositores era algo que ficava claramente em segundo plano, ofuscado pela simples oportunidade de finalmente, finalmente, podermos conviver alguns dias em meio a uma comunidade de buscadores, de caminhantes, de gente que veio de todos os cantos do Brasil, e até de fora, para estar com seus semelhantes. E a nossa principal semelhança é querer buscar o que está além do dogma, além do julgamento, além das ideias de certo e errado. O Sofia é um campo onde as almas se encontram e são o que são.

Pode parecer fácil, mas não é. A magia mais difícil é ser quem realmente somos. A cada vez que paramos nossas caravanas isoladas nesse grande campo, a cada vez que percebemos que todas aquelas regrinhas hipócritas de “faça isso ou não faça aquilo senão aquilo outro pode acontecer”, de “pratique este caminho e jamais olhe, sequer de relance, para os demais”, ou de “nós somos os escolhidos e não podemos nos misturar com aqueles ali”, a cada vez que constatamos que tais regrinhas não passam de palavras ao vento, incapazes de gravar um coração sequer, nos voltamos um pouco mais, um pensamento de cada vez, para a grande realidade do que realmente somos.

E aquilo que buscávamos esse tempo todo também estava nos buscando. Também estava ali, no olhar de nossos irmãos mais adiantados no caminho; e como eles não poderiam caminhar por nós, tiveram de ser assim, pacientes, esperando que chegássemos até eles. Uma coisa que aprendi no deserto é que uma caravana precisa apenas do suficiente para alcançar a próxima parada, todo o acúmulo de preceitos, todo o empilhamento de dogmas, serve apenas para nos atrasar, nos fazer arrastar, cheios de julgamentos, nas areias escaldantes.

No fim das contas, a coisa toda é realmente simples: tudo tem a ver com amar e com não amar.

Amar nos enche de entusiasmo, nos faz ser habitados pelos deuses, nos faz querer ser antes de ter. Mas o amor não é algo escondido numa masmorra entre a floresta, não é um prêmio que se conquista ao final de alguma aventura fantástica, não é uma medalha de algum grau maçônico: o amor sempre esteve à nossa volta, tudo o que temos de fazer é derrubar, pedra por pedra, toda essa muralha de julgamentos que erguemos entre nós e ele. Daí então poderemos nos dedicar a construir um belo templo no lugar.

Quando nos aproximamos do grande caravançará de Sofia, pode ser que alguns desses templos dourados cintilem demais e nos façam fraquejar, imaginando que estamos distantes demais de tamanha beleza. Mas tudo o que os mestres querem é que façamos tudo aquilo que eles fizeram, e ainda mais. É somente assim que a chama pode realmente ser passada adiante. É somente assim que a beleza pode realmente se tornar duradoura, atemporal, eterna.

Seja como for, essa viagem não acaba nunca, e esse universo é vasto o suficiente, paciente o suficiente, amoroso o suficiente, para nos aguardar no próximo encontro.

Até lá, caravansárias e caravansários!

 

por Raph em 25/11/25

***

Crédito da imagem: Guilherme Zorba (Déia Filha D'Água)

Marcadores: , , , ,

20.1.20

Podcast Perspectivas: Amar e perder, lado B (com Rafael Arrais)

É com um genuíno sorriso nos lábios que vejo o Textos para Reflexão adentrar 2020 com a minha participação no podcast Perspectivas, de Felipe Arcaro.

Neste labo B, continuação do último episódio, temos a parte final da nossa conversa acerca do meu livro Amar e perder, o primeiro volume do Livro da Reflexão. Começamos respondendo a inquietante pergunta que finalizou o episódio anterior:

» Episódio também disponível no Spotify

Marcadores: , , , , , ,

14.1.20

Podcast Perspectivas: Amar e perder, lado A (com Rafael Arrais)

É com um genuíno sorriso nos lábios que vejo o Textos para Reflexão adentrar 2020 com a minha participação no podcast Perspectivas, de Felipe Arcaro:

Eu gosto de escrever tanto quanto gosto de conversar. Na verdade, eu comecei a escrever esperando gerar algum tipo de discussão sobre minhas próprias incertezas. Mesmo assim, ainda considero o caminho da escrita um pouco egoísta, de mão única.
Para aprender sobre Kant e seus conceitos de verdade, por exemplo, eu poderia ler uma centena de livros a respeito, mas o que uma pessoa que nasceu, cresceu e viveu sobre circunstâncias completamente diferentes das minhas pensa sobre esses livros e sobre a minha perspectiva?
O objetivo aqui é trazer pessoas que possuem uma perspectiva diferente da minha, de forma a complementar ou contrariar as ideias que vos trago em palavras.

Neste episódio 09, lado A, temos a primeira parte da nossa conversa acerca do meu livro Amar e perder, o primeiro volume do Livro da Reflexão. Começamos falando sobre como iniciei no mercado da autopublicação de e-books, e logo na sequência começamos a refletir, juntos, acerca da existência. Afinal, a luz foi criada para ser refletida, e cada um terá dela a sua própria perspectiva, o seu próprio ponto de vista:

» Episódio também disponível no Spotify

» continua no Lado B

Marcadores: , , , , , ,

22.7.19

4 Amores: Ágape

Neste vídeo encerramos a nossa jornada pelo Amor, finalmente falando de Ágape, o amor que traz consigo a iluminação. Para tentar descrever um nível tão elevado e inefável de Amor, demonstraremos como se dá parte do trabalho do famoso médico-palhaço, Patch Adams, que pode muito bem ser considerado um santo da era moderna. Podem nos faltar palavras, mas sobrarão brincadeiras e um belo exemplo de vida.

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


Marcadores: , , , ,

8.7.19

4 Amores: Filia

Neste vídeo continuamos nossa jornada pelo Amor, desta vez falando de Filia, o amor que se traduz em amizade. Para tal, vamos conhecer a história do professor Leo Busgaglia, que em 1969 criou um curso numa universidade americana que falava basicamente de... Amor! Após lecionar por anos sobre o tema, e estudar a obra de centenas de autores, Buscaglia resumiu tudo em 7 princípios básicos que devem estar na mente de todos aqueles que buscam abastecer a sua alma, e não somente o seu intelecto.

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


Marcadores: , , ,

11.6.19

4 Amores: Eros

Neste vídeo continuamos nossa jornada pelo Amor, desta vez falando de Eros, o amor romântico, erótico. Vamos começar pelo marco inicial do Romantismo, "Os Sofrimentos do Jovem Werther", de Goethe, passar pelo reino adoravelmente bizarro do Butão, onde a poligamia é a tradição, e terminar com um precioso conselho de Khalil Gibran. Neste estágio da evolução no amor, o jogo de posse e conquista ainda se faz válido, mas até que ponto isso não envenenca o próprio Amor?

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


Marcadores: , , , ,

27.5.19

4 Amores: Pornea

Neste vídeo vamos começar nossa jornada pelo Amor, compreendendo desde o início que o Amor pode ser muitas coisas; os gregos tinham pelo menos 4 nomes para ele: Pornea, Eros, Filia e Ágape. Assim, o Amor é antes uma Caminho do que uma coisa só. Iniciando por Pornea, falaremos de como o instinto de perpetuação da espécie está por trás de muito do que fazemos no Amor; e ao final ainda convidamos Arthur Schopenhauer para nos falar um pouco mais sobre a Metafísica do Amor.

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


Marcadores: , , , , , ,

15.4.19

Sefirat ha Ômer 2019

Contagem do Ômer, ou Sefirat ha Ômer, é o nome dado à contagem dos 49 dias ou sete semanas entre Pessach e Shavuót, feriados judaicos correspondentes, respectivamente, a Páscoa e ao dia de Pentecostes. Nesta Contagem mística (de origem judaica), meditamos todos os dias relacionando sete das esferas da Árvore da Vida da Kabbalah com elas próprias e também com as demais, totalizando exatamente os 49 dias de Contagem (7x7=49).

Em 2014 eu segui a Contagem conforme proposta pela Kabbalah Hermética, seguindo o passo a passo organizado pelo meu amigo Marcelo Del Debbio (você pode ver toda a explicação e os vídeos de cada dia da Contagem aqui). De forma inteiramente inesperada, acabei escrevendo (o verbo mais correto provavelmente seria “recebendo”) um novo poema a cada noite da minha Contagem, o que acabou se tornando um livro chamado 49 noites antes da Colheita (disponível em e-book e versão impressa). Todos os 49 poemas foram recitados e gravados em áudio, e hoje estão disponíveis gratuitamente no nosso canal do YouTube.

A Contagem de 2019 se inicia em 20 de Abril, ao pôr do sol. Para celebrar mais um ano de Ômer, trago abaixo os 49 tweets que postei no meu twitter, respectivos a minha meditação do ano passado:

• Todos os primeiros passos foram dados por amor. [1/49]

• Cada passo, cada sentimento, ao seu ritmo. [2/49]

• Assim, ama a quem vai a frente, mas também a quem vai atrás. Ama quem vai a sua direita, e quem vai a sua esquerda. [3/49]

• Ama cada ser. Cada forma com a qual a Vida dá forma e observa a si mesma. [4/49]

• E saiba que, no Caminho do Amor, há um mandamento não escrito: "submissão". [5/49]

• E quem de fato o compreendeu, sabe que o Amor é, foi e sempre será: eterno. [6/49]

• Amadurecido no camimho, amo por amar; não como quem quer guardar um tesouro num cofre, mas como quem vê o ouro espalhado junto a brisa do deserto, e sorri. [7/49]

• Caminho com um sonho em meu horizonte: o dia de alcançar o Amor que julga estranho apenas o que é estranho. [8/49]

• Não perambulo por este deserto a esmo, há um monte onde preciso chegar. Há uma festa para a qual eu também fui chamado. [9/49]

• Cruza um beduíno em meu caminho. É velho, fala num jeito manso, tem a pele desgastada e os olhos cintilantes. Ele me pede um pouco da água do meu cantil. Subitamente, sinto por ele um Amor imenso, além das palavras. [10/49]

• Ninguém atravessa um deserto sem conhecer os seus oásis. [11/49]

• Além das ideias de certo e errado, há um oásis no deserto. Toda travessia passa por ele, por deitar em sua relva, por beber de sua água; e, então, retornar ao mundo. [12/49]

• Nesta senda pelo deserto, mestre e discípulo avançam somente de mãos dadas. [13/49]

• Bendito é o mestre que anseia por discípulos que possam, ainda nesta vida, lhe ultrapassar em sabedoria. [14/49]

• Ama verdadeiramente quem é capaz de transbordar a si mesmo. [15/49]

• O Amor não é um jogo com regras estabelecidas. O Amor é uma experiência. [16/49]

• São tantas as belezas neste Caminho: são incontáveis, e todas passarão. Tudo passa, exceto o Amor que sentimos contemplando a beleza em si mesma, o Amor que arde na eternidade. Eu quero fogo, fogo! [17/49]

• Quem quase nunca julga, raramente poderá ser julgado. [18/49]

• Jamais vi fruto algum com a casca assinada: "feito pela Terra". [19/49]

• Quem ama tem um compromisso com a própria alma. [20/49]

• Nessa travessia é preciso amar quem segue se arrastando pela areia da mesma forma com que amamos quem vai saltitante, bem lá na frente... [21/49]

• Muitos países foram conquistados pelas armas e seus soldados, mas somente o Amor pode conquistar uma alma. [22/49]

• Muitos dos que se arrastam pela retaguarda não são velhos nem mancos: eles estão atados pelos tornozelos a pesados grilhões; e é de bom grado que carregam suas bolas de chumbo. [23/49]

• Quem quer que chegue primeiro no local da Colheita, terá a nobre função de ajudar nos prepartivos da festa, enquanto se aguarda pelos demais... [24/49]

• Uma alma verdadeiramente antiga jamais se portará de forma intolerante para com os erros de quem dá seus primeiros passos no Caminho. [25/49]

• A noite, no deserto de si, sob a luz de incontáveis estrelas, é impossível não se sentir pequenino. [26/49]

Amor nunca foi posse, mas vínculo, entrelaçamento de almas. [27/49]

• Ninguém atravessa o deserto pela fama de grande explorador. Atravessamos o deserto porque é esta a única via para a Colheita. [28/49]

• O verdadeiro caminhante coloca sua Obra acima de si mesmo: ele já não tem importância alguma, só importa a luz que é capaz de refletir. [29/49]

• O verdadeiro caminhante nunca pediu pela guerra, mas sempre fez parte do exército da Vida. [30/49]

• O verdadeiro caminhante é sempre grato e atento a todas as lições do Caminho. [31/49]

• Foi justamente a grama, a mais humilde das plantas, a que transformou esta parte do deserto num oásis... [32/49]

• Enquanto não se ama por amar, enquanto não se compreende que o Amor é o próprio tesouro, que o Amor basta a si mesmo, é impossível alcançar a essência desta realidade... [33/49]

• A melhor forma de vencer este deserto é caminhar de mãos dadas. [34/49]

• A verdadeira majestade advém do exemplo. [35/49]

• O Amor é um compromisso com a experiência de se estar vivo, aqui e agora... [36/49]

• Quem evita o seu próprio deserto está fadado a se arrastar solitário, apartado de si, junto a multidão. [37/49]

• A melhor ajuda é aquela de quem transborda o próprio coração, e atinge às margens dos desertos alheios. [38/49]

• Quem ama tem compromisso com o Amor em si. O Amor é seu próprio tesouro. [39/49]

• Morrer para si; desvanescer como a areia soprada pelo vento; renascer de uma semente de Amor: é tudo isso o que se faz neste deserto. [40/49]

• Desde que iniciei minha caminhada, jamais vi o sol faltar ao seu compromisso com o dia, ou a lua com a noite. [41/49]

• O Amor não tem compromisso algum com a violência, a ignorância ou o sentimento de posse. O Amor tem compromisso consigo mesmo, a Vida tem a sua própria agenda... [42/49]

• Esta jornada é tão longa e extenuante, por que alguém iria querer passar por tantos sacrifícios? Mas eu nem quero, nem não quero, eu amo. Eu sirvo ao Amor, e de bom grado! [43/49]

• Nenhum ser humano é capaz de conhecer toda a extensão de seu próprio deserto. Ainda é preciso outro ser humano para se descobrir nossos recônditos mais ocultos. O olhar de quem amamos é o olhar de Deus... [44/49]

• O Amor em movimento, o Amor como exemplo, supera qualquer texto, vale mais que qualquer discurso. [45/49]

• Aqui, no deserto de mim, após a longa caminhada, perdi tudo o que tinha, restou apenas o Amor: o que sou. [46/49]

• Quando não há nada no mundo além da noite, do deserto, da lua e das estrelas, você subitamente se torna agredecido por tudo o que existe. [47/49]

• O compromisso com quem se ama verdadeiramente é perene, vence qualquer distância: um jamais esteve fora do outro. [48/49]

• Não há soberania mais elevada do que a submissão ao Amor. [49/49]


***

Crédito da imagem: Google Image Search

Marcadores: , , , , ,

24.12.18

Anjos Sem Fronteiras (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo falaremos sobre o trabalho humanitário da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), essencial para a ajuda nas zonas esquecidas do mundo. Para tal, contarei com o auxílio do monumental "O humano do mundo", o diário de missões da minha amiga Débora Noal, psicóloga do MSF. Aproveite esta época natalina e doe ao MSF, eles precisam da sua ajuda para salvar vidas! (edição por Colossi Estúdio Gráfico)

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


Marcadores: , , ,

4.9.18

Jesus e a Neurologia (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo vamos entender como a ciência comprovou que percebemos o mundo em intervalos de meio segundo, e veremos o que diabos isso tem a ver com Jesus Cristo. Pelo caminho, falaremos de tribos perdidas temerosas de trovões, de Rolling Stones e provas de autoescola, não necessariamente nessa ordem. Ao final, faço uma consideração sobre as coincidências entre a "pauta astral" do canal da Nova Acrópole e as últimas publicações das Edições Textos para Reflexão.

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


Marcadores: , , ,

28.8.18

Levítico e Parada Gay (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo venho estabelecer um diálogo com você, conservador cristão, que ainda carrega essa pedra na mão, e não sabe nem bem porquê. Será que é justificada a liberdade de expressão religiosa em outdoors com certos trechos não muito simpáticos do Levítico, livro do Antigo Testamento bíblico, em relação aos gays? Será que vociferar publicamente esse tipo de opinião não pode contribuir para o aumento da violência contra homossexuais na sociedade? Vem, vamos refletir mais sobre isso...

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


Marcadores: , , , , , , , , ,

1.5.18

Amar e perder (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo falo sobre Michel de Montaigne, o primeiro blogueiro da história, e de como algumas amizades podem ser eternas. Também veremos como Epicuro encarava a felicidade e a morte; e também como, apesar de tudo, é melhor sofrer por amor do que nunca haver sequer amado:

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


Marcadores: , , , , , ,

24.4.18

Deus é nosso amor (Reflexões no YouTube)

Em meu segundo vídeo na TV Aberta das Internetz, falo um pouco mais sobre as diversas formas de se conceber a Deus, tanto as ocidentais quanto as orientais. Também veremos como Joseph Campbell foi um sujeito fod@, e como os sábios hindus já debatiam assuntos divinos complexos desde pelo menos a época de Cristo:

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


Marcadores: , , , , , , ,

12.4.18

10 reflexões para o amadurecimento emocional

Não nascemos prontos. Quando éramos ainda crianças, aprendemos a reagir aos problemas da existência e dos relacionamentos com outras pessoas de maneira simples e inocente. Agredir quando se sentir agredido, repulsar quando tiver medo, paralisar-se diante do desconhecido, e por aí vai.

Freud criou a psicanálise a partir do estudo dessas reações infantis, denominando-as de neuroses. Para a psicanálise, todos nós somos neuróticos porque todos nós temos a tendência a reagir de maneira infantil aos nossos problemas. O confronto com a vida, por outro lado, nos força ao amadurecimento para podermos desfrutar dela. Ou estaremos condenados a uma vida de sofrimento causada por nossa própria inaptidão emocional.

Porém, amadurecer não é fácil. As reações infantis são mecanismos de defesas utilizados pelo sujeito desde sempre para não se haver com suas vulnerabilidades.

Quando éramos crianças, nos sentíamos indefesos diante do mundo. Dependíamos dos pais ou de outros adultos de tal modo que parecia impossível viver sem eles. Mas a proteção deles também possuía limites. A constatação de nosso desamparo diante do mundo externo, sua imprevisibilidade, a incapacidade de saber a intenção dos outros, significa que podemos nos machucar quando alguma coisa indesejada nos acontece. Assim desenvolvemos defesas para que não nos machuquemos desnecessariamente.

Socialmente, qualquer sinal de vulnerabilidade é mal vista. Acreditamos que precisamos sempre ser fortes. Na cultura, os homens são apresentados como autossuficientes, fortes e inabaláveis, as mulheres como independentes, sedutoras e inconsequentes. Existe a ideia de que o homem e a mulher ideal são conquistadores sem sinais de vacilação.

A ideia de que precisamos sempre ser confiantes, independentes e autossuficientes é extremamente nociva. Como, obviamente, ninguém é assim, nos acostumamos a construir barreiras emocionais para nos defender do mundo. Distanciamo-nos de tudo aquilo que pode nos tocar mais profundamente. Se por um lado nossas defesas são necessárias para não nos machucarmos, por outro elas nos tornam impessoais, inférteis para experiências mais profundas e recompensantes. Em outros termos, incapazes de viver experiências existenciais mais autênticas e satisfatórias.

Por sorte ou azar, há o amor. Quando nos apaixonamos por alguém e começamos a desenvolver uma relação de maior intimidade, somos forçados a nos confrontar com verdades que, na maioria das vezes, preferíamos ocultar ou esquecer.

No começo de uma relação, durante o período da conquista, queremos nos mostrar fortes, independentes, bem-sucedidos, ou seja, portadores de características excepcionais que seduzam quem desejamos. Porém, isso não se sustenta por muito tempo.

Na intimidade, revelamos quem verdadeiramente somos por trás das máscaras sociais que usamos para tentar encantar o outro. Falamos de nossas inseguranças, compartilhamos nossos medos, lidamos com as nossas falhas. Precisamos admitir nossas fragilidades ao mesmo tempo em que acolhemos também as imperfeições do outro. Isto é o amor, pois não há amor senão pelas faltas e incompletudes.

O amor é assim um grande catalisador do nosso amadurecimento emocional. Ele nos revela quais são nossas carências e inseguranças. Afinal, o que podemos dizer que é mais comum aos seres humanos do que querer amar e ser amado?

Ao contrário do que dizem os mais românticos, o amor não está acima de tudo. Existem condições para que seja possível ele se realizar. É possível amar alguém e mesmo assim não podermos estar juntos dessa pessoa porque a vida nos encaminha para diferentes direções. A neurose, porém, é uma incapacidade para amar mesmo quando estamos diante dele. Quando as barreiras que construímos desde a infância para nos proteger impedem que experiências mais autênticas toquem nossas fragilidades. Se esse confronto muitas vezes pode machucar, também pode ser libertador.

Veremos agora 10 reflexões emocionais e como o amor nos impulsiona a superá-las:

1. Sensibilidade
Temos emoções. Mas aprendemos que demonstrá-las – ser sensível, passional ou carinhoso – é sinônimo de fraqueza. O que é um grande engano. Reprimir seus sentimentos sob racionalizações, frieza ou aparente neutralidade lhe torna incapaz de expressar o que você realmente precisa dizer.

Por exemplo, muitas mães quando veem seus filhos crescerem e saírem de casa, ao invés de lhe dizerem “meu filho, você está indo embora, sentirei saudades de você porque lhe amo, por isso volte sempre que puder”, tentam amedrontar seus filhos criando terrores sobre os perigos do mundo externo, criticando suas escolhas amorosas ou de vida, na crença infantil que, motivados pelo medo, seus filhos não irão lhe abandonar.

Uma comunicação eficiente é uma comunicação sincera. Saber expressar seus sentimentos é fundamental, e – ao contrário do que se diz socialmente – não há nada de injusto numa motivação emocional.

2. Dependência
Todos nós somos dependentes. Sim, ninguém se basta por si mesmo. Precisamos de comida, abrigo, ideias, mas também de amigos, família ou mesmo companheiros de profissão para nos sentirmos reconhecidos.

Obviamente, não é interessante ser completamente dependente do outro. Alguém muito dependente se torna incapaz de fazer qualquer coisa sozinho, e está sempre demandando atenção e cuidados dos outros.

No entanto, querendo evitar um extremo, muitas pessoas caem em outro: a crença de que precisamos ser completamente independentes. Essas pessoas jamais admitem que precisam de alguém ou de alguma coisa. Conscientemente ou não, afastam todas as pessoas que poderiam estar ao seu lado, sentindo-se cada vez mais sozinhas.

Admitir que precisamos de algumas coisas é saudável. É humano.

Quando você está num relacionamento com alguém, é fundamental que a outra pessoa se sinta importante, tendo um lugar na sua vida. A incapacidade de demonstrar que algumas pessoas são importantes para nós pode fazer com que elas se afastem, já que não se sentem reconhecidas.

3. Apego
O sentimento de apego é outro sentimento mal interpretado. O apego faz parte da vida e o sentimos por tudo que julgamos importante para nós. Sempre que estamos diante de algo que amamos e queremos preservar porque nos faz bem, nos tornamos apegados àquilo.

Seu excesso é como a extrema dependência: a incapacidade de se pensar sem aquilo. O que, convenhamos, é falso. Por mais que você ame algo ou alguém, se um dia você vir a perder, a sua vida seguirá. É sempre doloroso. Mas a vida vai seguir.

Temos uma capacidade de nos reinventarmos que muitas vezes desconhecemos. Além disso, a vida sempre nos surpreende por caminhos que somos incapazes de prever.

Apegar-se é saudável. Ruim é pensar que não haverá vida possível depois. Mesmo se nos afastarmos do que amamos, as experiências, aprendizados e vivências adquiridas permanecem conosco.

4. Perda
Ninguém gosta de perder. Mas amar e perder estão relacionados de tal modo que não é possível o primeiro sem arriscar o segundo. Quando amamos algo, devemos estar cientes que é possível perder isso por inúmeras razões. Vai doer sim, mas a vida é assim.

Muitas pessoas evitam se aprofundarem numa relação porque antecipam a perda. Pensam que, porque um dia podem perder, é melhor nem começar. Este tipo de comportamento de evitação pode parecer vantajoso no começo, mas é ruim em longo prazo.

A vida é essencialmente finita. Somos incapazes de prever o futuro, portanto, não sabemos a duração de nada. Podemos apenas viver cada dia do modo que o temos. Um dia de cada vez.

5. Fragilidade
A esta altura já está claro que somos emocionalmente vulneráveis. No entanto, a sociedade moderna nos tornou excessivamente sensíveis às frustrações. Acostumados a muitas facilidades, experiências de lazer e entretenimento, fomos condicionados a desejar uma vida sempre prazerosa, e a nos sentirmos extremamente desconfortáveis frente a qualquer sinal de angústia.

Angustiar-se faz parte da vida. Existencialmente, a angústia é um dos sentimentos mais eficientes. Quando nos angustiamos por algo, isto é sinal de que aquilo é mais importante para nós do que admitimos. Quando ficamos ansiosos, tristes, preocupados, incomodados com algo, não significa que a coisa seja ruim, mas que ela nos é mais fundamental do que pensamos. Portanto, precisamos ter cuidado para não confundirmos nossas reações com a coisa em si.

Precisamos, na verdade, aprender a levar as coisas com maior leveza, nos reposicionando diante de determinadas preocupações e, acima de tudo, não ter medo de nos machucarmos. Na vida vamos nos machucar muitas vezes. Faz parte.

Depois de nos machucarmos, recuperamos. Mesmo assim aproveitamos tudo que antecedeu nos machucarmos. E assim a vida segue.

6. Insegurança
Conscientes de nossa fragilidade, nos sentimos inseguros quanto ao nosso destino. Queremos controlar tudo para que nada de ruim nos aconteça e assim não nos frustrarmos. O que é impossível. Não temos controle sobre a vida. Amar é sempre um risco. Envolver-se em qualquer coisa mais séria é lançar-se numa aventura sem garantias.

Experiências mais profundas e recompensantes só funcionam quando abrimos mão do controle, e assim deixamos que elas nos alcancem antes que nós controlemos até que ponto elas podem nos tocar. Novamente, a possibilidade de nos frutarmos não é suficiente para dizer que algo não valha a pena ser vivido. O medo pode ser uma ótima ferramenta para nos alertar sobre onde pisarmos. Mas ater-se apenas a ele pode ser paralisante quando falamos sobre sair de nossas couraças.

Quanto ao futuro, sozinhos ou acompanhados, nunca sabemos como ele será, e precisamos vivê-lo a cada dia sem garantias. Mais importante do que deter-se nas inseguranças é admitir que elas existem, e assim poder compartilhá-las com o outro. Constrói-se assim a confiança necessária para prosseguirmos.

7. Idealizações
Todos nós idealizamos o encontro amoroso. Esperamos alguém fantástico, belo, inteligente, interessante, assim como nas fantasias. Essas coordenadas são importantes e não devem ser ignoradas. Elas dizem sobre o nosso desejo. Apaixonamo-nos por pessoas que remetam a essas nossas necessidades.

No entanto, é ilusão acreditarmos que existirá alguém que se encaixará perfeitamente às nossas fantasias. O outro real é um ser humano como nós, com suas incompreensões, falhas, fracassos. Se não somos capazes de aceitar menos do que a fantasia, jamais conseguiremos amar. A felicidade no amor advém dessa aceitação, e não o contrário.

Desencaixes sempre existem. A questão é que uns são mais suportáveis que outros. Você deve encontrar a sua medida.

8. Aceitação
Todos nós queremos ser aceitos e compreendidos pelo que somos. Mas por medo de que, ao nos revelarmos como realmente somos, seremos ridicularizados pelo outro, nos escondemos em personalidades de fachada, na impessoalidade.

Não aceitamos nossas imperfeições porque acreditamos que precisamos ser perfeitos para sermos amados. Tal perfeição não existe, e muitas vezes são pelos motivos menos esperados que as pessoas se apaixonam por nós. Não porque parecemos bem-sucedidos, mas porque temos dúvidas sobre nosso sucesso. Não porque somos bonitos, mas porque temos inseguranças quanto a nossa identidade. São através dessas angústias que o outro é capaz de enxergar em nós um outro ser humano, se identificando e nos amando pelo que somos. Deste modo, conseguir entregar-se é fundamental para um relacionamento.

Abrir-se para o outro, como geralmente não podemos fazer com qualquer um, é uma das experiências mais recompensantes da intimidade.

9. Comprometimento
Comprometimento é uma daquelas palavras temidas na modernidade. Parece que se comprometer com o outro significa abrir mão de si, de sua liberdade, para cumprir com obrigações que não fazem parte do seu desejo. O que é um engano.

Comprometer-se é se responsabilizar pelo cuidado emocional de quem você ama. Entender que, da mesma forma que você se entrega a essa pessoa, você precisa cuidar do que essa pessoa entrega a você. Afinal, vocês assumem uma importância na vida um do outro. Não existe fórmula ou regras, mas cada relação implica em certos tipos de compromissos particulares a serem honrados.

Assumir compromissos é fazer escolhas sobre o que é prioridade para você. Na vida não é possível ter tudo. É preciso escolher ao que você deseja dar prioridade, e essas escolhas definirão quem você é.

Comprometer-se com algo além de você é uma experiência gratificante de descentramento. Perceber que há outras pessoas, e nem sempre se trata sobre você. E que, afinal, você pode ser feliz também fazendo outras pessoas felizes.

10. Abandono
Finalmente, o maior medo em questão de relacionamentos é ser abandonado. Você se lança numa relação, se abre, confia, e mesmo assim o relacionamento termina. Você se sente abandonado pelo outro. Seu investimento naquela relação não foi correspondido.

Temendo que esse momento possa ocorrer, muitas pessoas abrem mão de se comprometerem. Abandonam o outro antes de poderem ser abandonadas depois. É frustrante e doloroso se sentir abandonado por alguém em que você investiu tanto. No entanto, é preciso entender que as coisas são mais complexas do que parecem.

Talvez seja fácil se sentir abandonado se você olhar apenas pela sua perspectiva, mas, na realidade, alguma coisa não aconteceu para o outro do mesmo modo que aconteceu para você. Afinal, vocês são pessoas diferentes, e como tal podem estar em momentos, necessidades e tempos diferentes. Não há relação perfeita. Desencaixes sempre existem. Alguns relacionamentos conseguem ir com eles, outros não.

Entender que o outro também tem o seu momento é fundamental para poder aceitá-lo e amá-lo, seja qual for a sua decisão, mesmo quando esta não é a que você prefere.

Ao se sentir abandonado depois de um término, lembre-se de todas as pessoas que continuam na sua vida. Amigos, família e companheiros. Sem dúvida, há também outras pessoas que ainda vão surgir.

Trata-se de um verdadeiro acontecimento quando duas pessoas se encontram em amor. E mesmo que isso termine, não significa que não tenha valido a pena.

Em resumo, é preciso coragem para amar. Porque amar implica em se mostrar vulnerável, assumir seus sentimentos e estar disposto a encarar as dificuldades e frustrações da vida. Isso requer amadurecimento para sair de uma posição infantil de defesa para se lançar verdadeiramente nas possibilidades da vida.

Espero que, com esse texto, não se entenda que todos precisamos ter um relacionamento sério, namorar, noivar, casar, ter filhos, criar uma família para amadurecer. Não se trata de um roteiro pré-escrito e evolutivo para todas as pessoas. Não há fórmula correta para o amor, tampouco significa que só podemos amar dentro de um relacionamento.

O essencial do texto é que amadurecer emocionalmente não se trata de construir uma posição de fortaleza, dominância e controle, mas justamente o contrário. Como disse certa vez a poetisa Patti Smith:

“Eu vou me promover exatamente como eu sou, com todos meus pontos fracos e fortes. Meus pontos fracos são que sou sensível e geralmente insegura, e meu ponto forte é que não sinto vergonha disso”

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

***

Crédito da imagem: [topo] Oziel Gómez/unsplash; [ao longo] Bruno Aguirre/unsplash

Marcadores: , , ,

3.4.18

Viviane Mosé fala sobre a sociedade em rede

Ontem tive o privilégio de ver ao vivo, na Câmara Municipal de Campo Grande/MS, a palestra do maior pensador vivo do país, que por acaso é uma mulher, e se chama Viviane Mosé.

Iniciando seu discurso há 100 mil anos, desde o surgimento da consciência humana, passando pela descoberta de nossa mortalidade, pela agricultura e pela invenção de imprensa, Mosé chega enfim a grande revolução de nosso tempo, a internet, com todo o seu potencial maravilhoso e todas as suas revelações monstruosas de nós mesmos: uma sociedade deprimida em busca de algum rumo, em geral dominada pelos discursos fáceis, radicais, mas que tem a sua frente a imensa tarefa de aprender a viver em rede, a educar e ser educada, e a abandonar uma visão excessivamente racional da vida em prol de uma presença emocional, aqui e agora...

Tudo isso tentou falar a filósofa e poetisa de um fôlego só. Estejam preparados, não é vídeo para se ver sem prestar atenção. Se trata de um verdadeiro vendaval filosófico:

Obs.: Ela começa a falar em 00:14:50. Infelizmente o Facebook não permite inserção de tempo inicial num vídeo compartilhado desta forma.


Marcadores: , , , , , , , , , , ,

25.3.18

Lançamento: Cartas a um jovem poeta

As Edições Textos para Reflexão desta vez trazem a você o livro mais conhedio de um dos maiores poetas de língua alemã, Rainer Maria Rilke .

Tudo começou com uma carta despretensiosa de um jovem poeta, "iniciante de tudo", a um Rilke já em pleno domínio do seu mundo poético. Ao costumeiro pedido de avaliação, algo como, "Seriam bons os meus poemas?", o poeta respondeu simplesmente que não poderia avaliar, pois que "nada está mais afastado de uma obra de arte do que as palavras de uma crítica: elas sempre terminam em desentendimentos mais ou menos desafortunados". Foi assim que Franz Xavier Kappus, o jovem poeta, não ganhou nenhuma crítica literária exclusiva, mas sim conselhos de uma sabedoria avassaladora, tão intensos e profundos que são capazes, até hoje, de abalar nossas vidas em seus alicerces mais profundos... Assim nasceu Cartas a um jovem poeta.

Disponível em e-book na Amazon e na Saraiva:

Comprar eBook (Amazon Kindle) Comprar eBook (Saraiva Lev)

***

À seguir, trazemos a primeira carta de Rilke, na íntegra (tradução de Rafael Arrais):

Paris
17 de fevereiro de 1903


Caro Senhor,

Sua carta me encontrou apenas alguns dias atrás. Eu quero lhe agradecer pela grande confiança que depositou em mim. Isto é tudo o que eu posso fazer. Eu não posso debater acerca dos seus versos; pois que qualquer tentativa de crítica à poesia alheia seria algo estranho para mim. Nada está mais afastado de uma obra de arte do que as palavras de uma crítica: elas sempre terminam em desentendimentos mais ou menos desafortunados. As coisas não são todas tão tangíveis e exprimíveis em palavras quanto às pessoas usualmente nos fazem crer; muitas experiências estão além das descrições, elas se passam num espaço onde nenhuma palavra jamais adentrou, e não há nada que esteja mais distante das descrições do que as obras de arte, tais existências misteriosas cujas vidas perduram ao lado da nossa própria vida, pequenina e transitória.

Tendo esta nota como prefácio, devo lhe dizer que os seus versos não têm ainda um estilo próprio, ainda que possuam sementes ocultas e silenciosas de algo mais pessoal. Eu senti isso de forma mais clara no último poema, “Minha Alma”. É lá que alguma coisa de sua essência está buscando se tornar palavra e melodia. E no amável poema, “Para Leopardi”, uma espécie de parentesco com esta grande e solitária figura também parece se manifestar. Em todo caso, os poemas ainda não são nada em si mesmos, ainda não alcançaram sua independência, até mesmo estes dois que citei. Sua amável carta, essa que acompanhou seus poemas, permitiu que se tornassem mais claras para mim várias faltas que senti ao ler os seus versos, ainda que não me seja possível nomeá-las em específico.
Ora, você me pergunta se os seus versos têm alguma qualidade. Você me pergunta... Você também perguntou a outros antes de mim. Você enviou seus poemas para revistas. Você os comparou com a poesia de outros autores, e não se perturbou quando certos editores rejeitaram seu trabalho. Agora, já que você pediu o meu conselho, eu lhe imploro que pare de fazer esse tipo de coisa. Você está olhando para fora, e isso é o que mais deveria evitar nesse momento. Ninguém pode lhe aconselhar ou lhe ajudar neste caso – absolutamente ninguém. Há apenas uma coisa que você deveria fazer: adentrar fundo em si mesmo. Descubra a razão que lhe comanda a escrever, veja se ela já espalhou suas raízes pelas profundezas do seu coração, confesse a si mesmo se você preferiria morrer caso lhe fosse proibida a escrita. E, acima de tudo, pergunte a si mesmo na hora mais escura da sua noite: eu devo escrever?
Cave em seu próprio ser por uma resposta profunda, e caso essa resposta ressoe positiva, caso você solucione tal questão solene com um vigoroso e simples “eu devo”, então construa sua vida de acordo com tal necessidade. Toda a sua vida, até mesmo em suas horas mais humildes e indiferentes, deve ser como um signo e um testemunho desse impulso.
Então vá para junto da Natureza. Daí, como se nunca ninguém houvesse tentado isso antes, tente falar sobre o que vê e sente e ama e perde. Não escreva poemas de amor; se afaste desses formatos que são muito dóceis e ordinários: eles são os mais difíceis de se trabalhar, e será preciso um grandioso poder, totalmente florescido, para que consiga criar algo individual onde boas, até mesmo gloriosas tradições já existem em abundância. Assim, salve a si mesmo de tais temas gerais e escreva sobre o que o dia a dia lhe oferece; descreva suas tristezas e desejos, os pensamentos que flutuam por sua mente e a sua crença nalguma espécie de beleza. Descreva tudo isso com o sentimento que passou de fato pelo seu coração, fale de forma silenciosa, humilde e sincera.
E, quando for se expressar, faça pleno uso das coisas a sua volta, das imagens em seus sonhos e dos objetos que estão em sua memória. Acaso o seu dia a dia lhe pareça pobre, não o culpe; culpe a si mesmo. Admita que você ainda não é um poeta hábil o suficiente para perceber suas riquezas; pois que para o criador não há nem pobreza nem lugares pobres, indiferentes. Assim, mesmo que se encontre numa prisão cujas paredes isolem todos os sons do mundo lá fora, você ainda não teria contigo toda a sua infância, essa tal joia além de qualquer preço, essa casa do tesouro de memórias? Foque a sua atenção nela. Tente trazer à tona os sentimentos submersos desse imenso passado; sua personalidade se fortalecerá; sua solidão irá se expandir e se tornar um lugar onde você poderá viver no crepúsculo, onde o barulho das demais pessoas passa bem longe, à distância.
E se deste voltar-se para dentro, desta imersão em seu próprio mundo, surgirem poemas, então você jamais pensará em perguntar a qualquer um se eles são bons ou não. Tampouco tentará fazer com que as revistas se interessem por eles: pois você os verá como uma valiosa posse pessoal, como um pedaço de sua própria vida, como se ela mesma lhe falasse por palavras.

Uma obra de arte é boa se ela surgiu de uma necessidade íntima. Esta é a única forma que alguém poderá julgá-la. Assim sendo, caro Senhor, eu não posso lhe dar qualquer outro conselho além deste: que mergulhe em si mesmo e veja quão profundo é o lugar de onde flui a sua vida; é lá na sua fonte que encontrará a resposta para o que quer que deva criar. Aceite tal resposta, do modo como lhe foi dada, sem tentar interpretá-la. Talvez você descubra que foi chamado a ser um artista. Se for este o caso, então aceite tal destino, suporte o seu fardo e a sua grandiosidade, sem jamais se questionar acerca de qual prêmio deverá aparecer lá fora. Pois que o criador deve ser um mundo para si mesmo, e deve encontrar tudo em si mesmo e na Natureza, para a qual toda a sua vida é devotada.
No entanto, após haver descido em si mesmo, e em sua solidão, talvez você deva renunciar o ofício de poeta (como já disse, se alguém sente que pode viver sem escrever, então não deveria escrever jamais). Em todo caso, ainda assim, esta busca interna que eu lhe recomendei não terá sido realizada em vão. Sua vida poderá encontrar os seus próprios caminhos desta experiência, e que eles possam ser bons, ricos e largos é o que eu lhe desejo, mais do que possa colocar em palavras.
O que mais eu poderia lhe dizer? Me parece que tudo o que havia por ser abordado já o foi. Finalmente, gostaria de adicionar mais um pequeno conselho: para que continue a crescer, de forma silenciosa e fervorosa, ao longo de todo o seu caminho de desenvolvimento. Afinal, você não poderia perturbar tal caminho de forma mais violenta do que buscar lá fora pelas respostas que só podem ser encontradas em seus sentimentos mais íntimos, nas suas horas mais silenciosas.
Foi uma alegria encontrar na sua carta o nome do professor Horacek; eu tenho grande reverência por este homem tão doce e culto, e uma gratidão que resistiu ao passar dos anos. Por favor, diga a ele como me sinto; fico muito feliz em saber que ele ainda se lembra de mim, feliz e lisonjeado.
O poema que deixou aos meus cuidados, eu estou lhe enviando de volta. E eu lhe agradeço mais uma vez por suas questões e sua confiança sincera, da qual, respondendo da forma mais honesta que me foi possível responder, eu tentei fazer de mim alguém um pouco mais digno do que realmente sou.

Atenciosamente,
Rainer Maria Rilke


Marcadores: , , , , ,

11.3.18

Ser feliz sozinho

Solidão .:.

"Tom Jobim era um gênio, mas estava errado ao afirmar que é impossível ser feliz sozinho, quando é justamente o oposto.

A felicidade só é possível para quem aprendeu a ficar sozinho. Quem esconde sua insuficiência no sonho da relação perfeita arrasta para o buraco o desafortunado que lhe dá as mãos; indivíduos que não se suportam são insportáveis!

Muitos imaginam que o amor vai superar e resolver todos os problemas; amarga ilusão: ele é recompensa, e não remédio."

Caciano Camilo Compostela, Monge Rosacruz – Contato: facebook.com/ mongerosacruzcacianocompostela

***

Crédito da imagem: Tim Bogdanov/unsplash

Marcadores: , , ,

2.3.18

O Jardim de Epicuro

Há cerca de 2.300 anos caminhou sobre a antiga Grécia um pensador que alçou a felicidade ao centro da sua filosofia, e que segue em boa parte incompreendido até os dias atuais.

Epicuro nasceu em 341 a.C. na ilha de Samos, onde passou a infância e a juventude, tendo aprendido a filosofia platônica através do acadêmico Pânfilo. Com cerca de 18 anos, vai morar em Atenas, cidade natal de seu pai, a fim de cumprir os dois anos do treinamento militar obrigatório. Durante seu breve tempo de soldado, se torna amigo do futuro dramaturgo Menandro.

Tendo se mantido em Atenas, numa época em que tanto a Academia de Platão quanto o Liceu de Aristóteles ainda funcionavam em pleno vapor, encontrou oportunidade para continuar seus estudos. Após haver sido forçado a ir se juntar aos pais e outros colonos atenienses que haviam sido expulsos de Samos pelo sucessor de Alexandre Magno, vive por alguns anos na cidade de Colófon, na costa asiática.

Depois perambula por várias regiões da Grécia, quando já está colocando em prática a sua filosofia, e conquista pelo caminho diversos seguidores igualmente filósofos, como Pítocles, Heródoto e Meneceu, que o acompanham pelo resto da vida.

Em 306 a.C., finalmente regressa a Atenas, onde adquire uma ampla casa com um grande jardim, lá fundando a sua famosa escola, reconhecida pelos séculos como “O Jardim de Epicuro”. Tal escola, no entanto, era muito diferente da Academia ou do Liceu: nela, tanto mestres quanto discípulos costumavam conviver juntos a maior parte do tempo, não somente nas aulas de filosofia em si, mas também nos almoços e lanches, nas conversas e brincadeiras, e por vezes até mesmo na cama.

A doutrina de Epicuro, conhecida também como epicurismo, era basicamente centrada na importância do prazer e da felicidade no cotidiano da vida:

O prazer é o princípio e o fim da vida feliz. O homem que alega não estar ainda preparado para a filosofia ou afirma que a hora de filosofar ainda não chegou ou já passou se assemelha ao que diz que é jovem ou velho demais para ser feliz.

Obviamente, Epicuro foi tanto exaltado quanto apedrejado ao longo dos séculos, justamente pelo foco central que a felicidade tinha em sua filosofia. Mas, será que tanto os que o exaltaram quanto os que o demonizaram entenderam exatamente de que tipo de felicidade o pensador grego falava?

Epicuro considerava que a felicidade era sustentada em três pilares principais (desde que uma pessoa tivesse acesso aos bens mínimos para uma existência sadia, como moradia, alimentação e roupas):

A amizade
Quando fundou o seu Jardim em Atenas, Epicuro já convivia com um grupo inseparável de amigos, incluindo aí suas irmãs e esposas, embora não esteja tão claro se as mulheres participavam plenamente dos estudos filosóficos (algo já extremamente heterodoxo para a vida grega de então). Convivendo a maior parte das horas do dia ao lado de seus amigos e discípulos, Epicuro colocou em prática a parte mais essencial da sua filosofia:

De todas as coisas que nos oferecem a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da amizade. Antes de comer ou beber qualquer coisa, reflita com mais atenção sobre sua companhia do que sobre o alimento em si, pois que alimentar-se sem a companhia de um amigo é o mesmo que viver como um leão ou um lobo.

A liberdade
Epicuro e seus amigos fizeram uma segunda inovação radical. Para que não precisassem trabalhar para pessoas de quem não gostavam ou se submeter aos seus caprichos, se afastaram do mundo comercial ateniense e formaram o que poderia ser hoje descrito como uma comunidade autossustentável, cultivando seus próprios alimentos e abraçando um modo de vida mais simples, em troca de sua quase total independência financeira do resto da cidade.

Assim, como nenhum de seus amigos tampouco se envolveu com os negócios ou a política ateniense, não havia entre eles nenhum senso de status, nenhuma necessidade real de exibir posses nem conquistas materiais ou políticas.

A reflexão
Tais epicuristas talvez tenham formado a primeira comunidade hippie do mundo, mas é preciso lembrar que eles se dedicavam a filosofia todos os dias, que a sua felicidade era também algo sempre em construção.

Todos os frequentadores do Jardim eram encorajados a refletir. Muitos de seus amigos eram escritores. Segundo Diógenes Laércio, somente Metrodoro, por exemplo, teria escrito doze obras, entre elas: Sobre o caminho que conduz à sabedoria. Todas se perderam, infelizmente, juntamente com a quase totalidade dos cerca de 300 livros atribuídos exclusivamente ao próprio Epicuro (algumas poucas cartas nos restaram, como a famosa Carta sobre a felicidade, a Meneceu).

São famosas as reflexões epicuristas acerca dos deuses e da morte, por exemplo. Da morte, disse Epicuro na Carta a Meneceu:

Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; e, ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui.

Quanto aos deuses, ele acreditava que eles viviam noutro mundo, onde desfrutavam da felicidade divina, e que pouco se interessavam pelo nosso. Não caberia aos homens, portanto, temer ou se angustiar com os desígnios divinos, mas tão somente tê-los como modelos de bem-aventurança, modelos para o auxílio da busca do homem pelo estado de felicidade, e não como motivo para angústias inúteis. Neste sentido, Epicuro se aproximava dos atomistas, e chegou muito perto do que hoje é compreendido como agnosticismo teísta.

Afinal, Epicuro foi hedonista?
Embora muitas vezes pareça que Epicuro buscava o prazer a qualquer custo, a realidade estava bem distante disso. Os epicuristas na verdade buscavam um estado de espírito definido como Ataraxia. Neste estado, nos encontramos sem inquietações ou preocupações, e nosso ânimo em geral estará sempre equilibrado.

Epicuro acreditava sim na felicidade que adivinha de se estar com amigos na mesa, mas não precisava ser num banquete. De fato, o mero consumo de queijo, para os epicuristas do Jardim, era algo para ser celebrado somente de tempos em tempos. Ter queijo à mesa, portanto, já era considerado um luxo. O mesmo se estende para todo o resto dos chamados “bens materiais”:

Com relação aos desejos, alguns são naturais e necessários; outros são naturais e desnecessários. E há aqueles que não são nem naturais nem necessários.

O que é natural e necessário para a felicidade:
Casa, comida e roupa; Amigos; Liberdade; Reflexão filosófica.

O que é natural, mas desnecessário para a felicidade:
Palacete; Terma privada; Banquetes; Empregados; Peixe e carne.

O que não é nem natural nem necessário para a felicidade:
Fama; Poder político; Status.

Seguindo a essência dos ensinamentos de Epicuro, podemos imaginar nossa felicidade como um copo onde é necessário haver alguma água, talvez até pouco menos da metade, para que tenhamos alguma felicidade. Esta água corresponde a termos moradia, alimentação adequada, e algumas roupas para o convívio social básico. Dali em diante, podemos aumentar nossa felicidade na medida em que enchemos o copo com alguns luxos a mais, como uma alimentação mais elaborada, uma casa mais espaçosa e bem decorada etc. O que Epicuro nos afirma, no entanto, é que de nada adianta continuarmos enchendo o copo: a água vai simplesmente transbordar, e a nossa felicidade continuará inalterada.

Assim, se associarmos a água deste copo às nossas riquezas materiais, nós veremos que a partir de certo limite, um limite bem menor do que costumamos imaginar, o mero acúmulo de dinheiro não nos garantirá mais felicidade alguma...

Se quisermos realmente ser felizes, é bom que saibamos que há algo que vale muito mais do que o dinheiro, algo que é realmente capaz de nos preencher de entusiasmo e alegria perenes: o amor – seguido da liberdade e da reflexão.

***

Bibliografia
Carta sobre a felicidade, a Meneceu, Epicuro (UNESP); As consolações da filosofia, Alain de Botton (Rocco); Epicuro e a felicidade, documentário de Alain de Botton para a BBC.

Vídeo
Este artigo serviu de base para o roteiro do vídeo O Jardim de Epicuro - A Felicidade no canal Conhecimentos da Humanidade do YouTube.

Crédito das imagens: [topo] Antal Strohmayer, O Jardim dos filósofos (1834); [ao longo] raph; Google Image Search.

Marcadores: , , , , , , ,

26.2.18

O problema do niilismo: a reação romântica

Como vimos no texto anterior, o racionalismo apostava que o avanço da razão instrumental e o aprimoramento da técnica tornariam a vida humana mais satisfatória. Os primeiros racionalistas acreditavam – e muitos atuais ainda compartilham a crença – que os problemas da humanidade eram apenas uma questão técnica. O progresso tecnológico e o avanço do conhecimento científico seriam cada vez mais capazes de resolver os problemas humanos, conduzindo-nos a uma vida plena e feliz.

O que vemos na realidade é justamente o contrário. O mundo da razão, embora tenha nos trazido maiores facilidades, conforto e segurança, não foi capaz de solucionar os problemas existenciais da humanidade.  Ao invés disso, o problema do niilismo se tornou mais evidente. Índices de depressão, ansiedade e outras questões de saúde mental são cada vez mais alarmantes na modernidade.

Se, por um lado, o racionalismo avançou na instrumentalidade e no domínio da natureza, por outro apartou o ser humano das condições que dotavam sua vida de sentido. O espírito racionalista desfez-se das antigas tradições, e com elas, o senso de comunidade e o pertencimento do homem a uma história cultural, racial e familiar.

A mudança da vida rural para a urbana também implicou numa profunda transformação na vida social e subjetiva. Primeiramente, pelo contato com as grandes aglomerações. Diferente da vida rural em que o homem vivia em pequenas comunidades cujos membros pensavam mais ou menos de maneira igual, nas grandes cidades o homem passou a estar em contato com uma maior diversidade quanto aos modos de existir. No entanto, nosso funcionamento é mais tribal do que gostaríamos de admitir. Temos o desejo de formar pequenas comunidades de pessoas afins, que pensam como nós e com quem temos alguma identificação. Nossos amigos. O que faz com que nos grandes aglomerados urbanos, grande parte das pessoas seja na realidade indiferente para nós, e que nós sejamos indiferentes para elas.

O fenômeno da solidão urbana tornou-se cada vez mais sensível. Diante de muitas pessoas, o homem passou a se sentir cada vez mais sozinho, já que a presença de muitas pessoas, antes de representar reais companhias, recorda que a maioria delas pouco tem a ver com ele. O homem se sente sozinho numa multidão. Consequentemente, cresce a sensação de indiferença entre as pessoas. Se no mundo rural todos são conhecidos e próximos, na vida urbana cada um deve seguir sua vida sem muita proximidade, pois a aproximação repentina logo é desconfiável quanto às intenções.

A mudança do modo de vida rural para o urbano também alterou a relação do homem com a natureza. Se antes o homem possuía uma conexão com a terra em que nasceu, terra em que trabalhava, com os animais daquela região, a natureza se tornou cada vez mais estranha ao espírito urbano. O homem perdeu o senso de pertencimento a terra, que antes representava o lar histórico para si e seus familiares, e que agora lhe pertence apenas enquanto paga o aluguel. Isto quando não precisa mudar de território em busca de oportunidades de estudo e trabalho. Já aos animais resta viverem confinados a pequenos espaços ou condenados a serem pragas urbanas a ser exterminadas.

Essas transformações criaram no homem a sensação de alienação em relação à natureza, esta que fora tão importante nas sociedades tradicionais. A natureza – em sua magnanimidade – relembra o homem de uma transcendência maior do que si mesmo. Tal é o sentimento de reverência e profundidade que temos ao admirar uma grande montanha, uma bela paisagem litorânea ou uma floresta cheia de vida. Todo o contato do homem com a natureza dá-se hoje, de modo controlado, reduzindo os riscos que a natureza pode representar, lembrando-nos muito pouco de sua magnanimidade.

Assim como a instrumentalidade dominou a relação do homem com a natureza, ela também tem se apoderado das relações entre pessoas. É cada vez maior a queixa de que as relações modernas são excessivamente utilitárias, marcadas por investimentos pessoais pragmáticos e que pouco atendem as necessidades emocionais mais profundas do ser humano.

O homem moderno, alienado do contato humano e da natureza, encontrou no mundo da razão – o mesmo que prometia através do avanço da técnica o fim de tudo que representava dor e sofrimento: doenças, conflitos, mortes desnecessárias – uma angústia tal qual nunca antes havia experimentado.

No mundo tradicional, o homem lidava com a angústia através de uma crença metafísica reconfortante. Os mitos, lendas e narrativas religiosas estabeleciam uma ordem no mundo, um sentido para os acontecimentos, e assim o homem se sentia amparado pelos seus símbolos. O racionalismo científico demonstrou que os mitos não eram reais, e a fé parecia primitiva em relação à potência da razão. O Universo se tornou explicável cientificamente, mas ausente de qualquer sentido ou ordem. O mundo e a vida existem por alguma aleatoriedade, e nada possui um sentido maior do que aquele que nos iludimos em imaginar. No entanto, confrontar-se com este niilismo pode ser muito angustiante.

Se os conservadores condenam o niilismo, fonte do sentimento de angústia e desamparo, buscando retornar a um modelo de vida tradicional, os racionalistas acreditam no uso da razão instrumental para suplantar os problemas da existência. Para um racionalista, em algum momento a ciência alcançará o progresso tecnológico que solucionará as dores humanas. Testemunhamos isso quando as neurociências prometem a cura para os problemas existenciais através da manipulação das transmissões bioquímicas do cérebro. Como se, ironicamente, dissessem: se a vida não pode ser vivida com sentido, ela pode ser dopada com medicamentos psiquiátricos que vão nos anestesiar e provocar uma sensação de felicidade produzida.

Para muitos racionalistas parece uma solução perfeita. No entanto, para a maioria das pessoas isso soa como uma distopia digna de ser retratada num episódio da série Black Mirror. Um mundo desprovido de experiências autênticas, cuja única saída é anestesiarmos nossas angústias.

A ciência foi impotente para resolver os problemas existenciais. E por conta da sua indiferença às questões de valor, ela pouco pode nos auxiliar com questões éticas. Sabemos, por exemplo, que existiu uma intensa atividade científica no regime nazista, e a própria ciência já foi utilizada para justificar as maiores atrocidades. A técnica e a razão instrumental são armas cegas nas mãos de grupos que detém o poder e podem agir a despeito de qualquer compromisso ético.

É como uma reação a esse mundo triste fundado pelo racionalismo que surgiu o movimento artístico-filosófico do romantismo.

Os problemas existenciais, diriam os românticos, são patológicos – isto é, da lógica do pathos, das paixões. Lidar com o ser humano, e todas suas questões existenciais, é lidar com as paixões humanas. Campo no qual a ciência e a razão instrumental são inférteis.

O romantismo questionou a centralidade da razão. O homem moderno criou a ideia de si mesmo como um ser extremamente racional, mas tal racionalidade raramente é encontrada na maioria dos seus comportamentos. Filósofos como Schopenhauer e Nietzsche entendiam que o ser humano é governado por forças, vontades e instintos mais profundos. O homem é movido pela paixão, não pela razão. Os racionalistas, ao promoverem um mundo instrumental, destituíram o lugar das paixões, que foram reprimidas em nome de ideais supostamente racionais.

Segundo os românticos, os racionalistas estavam iludidos por suas crenças supostamente racionais. A razão, embora importante ao homem, não é o principal norteador do comportamento humano, mas está subordinada às paixões. Um racionalista é assim alguém que se crê racional, mas em seu íntimo está motivado por um afeto que o cega de sua própria irracionalidade.

O espírito romântico representou a rebeldia e o inconformismo com a incapacidade do racionalismo em oferecer o progresso que havia prometido. Foi também uma tentativa de entender e aceitar a natureza humana como ela realmente era, sem as idealizações da razão e da fé.

Se os racionalistas estavam, pela ciência, excessivamente interessados na realidade externa, os românticos voltaram para si mesmos. O palco da investigação romântica era o próprio espírito humano, capaz das maiores realizações da sociedade, mas também dos atos mais mesquinhos. Através da arte, demonstrava-se a criatividade, o grotesco e o sublime. A literatura representava o drama humano, seus ideais utópicos e seus desejos paradoxais. O sonho e a fantasia foram valorizados como forças criativas. Os autores românticos foram assim os grandes fomentadores da vida subjetiva, de uma existência de grande profundidade interior.

Num mundo indiferente e solitário, utilitarista e burocrático, os românticos se dedicaram a buscar uma vida autêntica como forma de superação das angústias modernas. Mas o que seria a autenticidade? Para os românticos, somos autênticos quando agimos a partir de nossas verdadeiras paixões, para além das convenções sociais ou ideais racionalistas.

A paixão é um afeto irracional. Ela não pode ser explicada, e pouco se submete a moral ou às tradições. Os desejos humanos podem ser contraditórios e contrários – mas isso não significa que sempre sejam – às demandas que o mundo coloca sobre nós. Encontrar uma vida autêntica pode muitas vezes significar entrar em conflito com a sociedade, pensamentos moralistas e desejos de outras pessoas. Ousar enfrentá-los é visto pelo romantismo como o preço para o homem encontrar a sua felicidade.

Importante situar que paixão assume um significado para além de um relacionamento amoroso-romântico entre duas pessoas. A paixão é todo tipo de afeto que liga o homem a alguma coisa, fazendo-o lutar por ela. Sua paixão pode ser um trabalho, uma ideologia, uma filosofia, uma ética de vida, e por aí vai.

Sabemos da força que o homem adquire quando está apaixonado. Se apaixonado por um homem ou uma mulher, ele desafia as impossibilidades e impedimentos para conquistar seu amor. Se ama sua pátria, ele se atira contra o exercício inimigo, sacrificando sua própria vida em nome da bandeira que carrega. Quando ama uma tarefa, realiza-a por paixão, mesmo quando suas forças lhe esgotam.

Os românticos encontraram na paixão a possibilidade de dotar a vida de sentido e valor, sem necessariamente apelar para explicações metafísicas, como faziam as tradições religiosas. O romantismo encontrou no amor – a possibilidade de encontrarmos uma paixão que nos faça desejar a vida mesmo com suas dificuldades e fracassos – a superação do niilismo.

Nietzsche falava do amor fati, amar a vida que possuímos mesmo com suas imperfeições. Camus dissertou sobre um Sísifo feliz que, mesmo diante do absurdo de uma existência sem sentido, estava satisfeito pela possibilidade de estar vivo realizando alguma coisa. Os românticos desvelaram assim um outro aspecto do niilismo.

Se o niilismo negativo é conhecido pela destruição dos antigos valores, pela falta de sentido para a vida, o niilismo positivo é justamente a criação de novos sentidos para a existência. É porque o sentido da vida não está dado, imposto pelas tradições e os laços simbólicos do passado, que o homem é livre para se apropriar de sua história e criar seu próprio sentido.

Superar o niilismo converte-se assim numa tarefa existencial. No mundo moderno, como nos faltam os referenciais simbólicos do mundo antigo – que, se por um lado eram amparadores, por outro podiam ser grilhões ao devir humano – somos livres para encontrar nossos próprios referenciais e criarmos a nossa vida a partir de nosso desejo. Nasce a ideia de que a vida não está dada, ela precisa ser conquistada. É preciso que o homem enfrente suas angústias, percorra um caminho próprio e autêntico, adquira maturidade, e assim encontre a profundidade do seu ser.

Realizar essa tarefa é o que diferenciaria aqueles que vivem uma vida autêntica daqueles que não tiveram a coragem de dar esses passos. Ainda assim, o sentido é sempre singular. Não se trata mais de um sentido da comunidade, mas cada sujeito deve encontrar os seus próprios valores. E se não há mais uma moral imposta para nos guiar, diria Nietzsche, como encontrar valores autênticos? Segundo o romantismo, através dos sentimentos.

O romantismo entende que os sentimentos são os indicadores da nossa autenticidade. Para o homem ser feliz, ele deve se guiar pelos seus reais sentimentos. O romantismo assume assim uma valorização do mundo interno, da subjetividade e das emoções humanas, colocadas em primeiro plano na questão existencial.

Para nós modernos, profundamente influenciados por essa ideia, parece óbvio pensar assim. Mas é preciso dar um passo atrás e perceber que antes do romantismo essa ideia não fazia tanto sentido como nos parece hoje. Por exemplo, se na Idade Média um homem procurava um padre para saber se deveria se casar ou não com uma mulher, o padre iria orientá-lo a partir das escrituras sagradas. Hoje, se você procurar um psicólogo ou um psicanalista com a mesma questão, ele lhe fará perceber como seus sentimentos lhe orientam em relação a essa pergunta.

Não é mais na tradição que o homem deve encontrar as respostas para sua vida, mas no seu íntimo, em seus desejos, como um verdadeiro romântico. Tal visão se tornou tão popular que é possível que até mesmo um padre mais moderno respondesse como um psicólogo se lhe fosse feita essa pergunta. O romantismo subjetivista da modernidade substituiu a moral das sociedades tradicionais como norteador ético.

Se um homem está insatisfeito com seu casamento, num mundo tradicional ele seria obrigado a se responsabilizar pelos votos simbólicos assumidos. Hoje entendemos que o sentimento deve se sobrepor à moral. Não nos espanta que alguém insatisfeito peça divórcio se o casamento não lhe vai bem. Afinal, o sentimento é mais importante que o código social. Os próprios códigos sociais se tornaram mais flexíveis, refletindo que sim, os sentimentos são mais importantes que as leis simbólicas dos homens, da sociedade e dos deuses.

O romantismo deslocou assim o problema do niilismo para uma questão sentimental, uma questão de amor. Não o amor sexual – embora na maioria das vezes seja dele que se trata – mas do amor enquanto paixão por algo que eleve o homem acima de si mesmo, sendo capaz de dotar sua vida de sentido. O mote de um romântico moderno bem poderia ser “faça o que você ama e sua vida terá sentido”.

Finalmente, a modernidade pode ser definida como o conflito entre racionalistas e românticos, em que ambas vertentes filosóficas coexistem numa complexa síntese. Vivemos numa sociedade cada vez mais técnico-instrumental, apoiada no desenvolvimento tecnológico, ao mesmo tempo em que ansiamos por um refúgio para as angústias do mundo tecnocrata na busca pelo amor, na esperança de uma vida mais autêntica, ideais evidentemente românticos.

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

***

Crédito da imagem: Oleg Oprisco

Marcadores: , , , , , , , ,