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13.2.12

Que é o efeito placebo?

Parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre esses dois distintos participantes, não deixe de ler sobre a premissa da série.

[Raph] Hipócrates, “pai da medicina”, dizia que “nossas forças naturais, as que estão dentro de nós, serão as que curarão nossas doenças”. Ele acreditava que a cura estava ligada ao tempo e ao tratamento, mas não se podia prometê-la: nossa saúde dependia muito de nossa vontade de melhora.

Muitos tratamentos “alternativos”, como a acupuntura, despertam polêmica por não se saber exatamente como funcionam, ao menos no Ocidente. A melhora aparentemente inexplicável conquistada através de tratamentos complementares à medicina tradicional muitas vezes é creditada a “crença da melhora”, por vezes chamada de efeito placebo [1].

Não conhecemos muito acerca do efeito placebo, mas os cientistas dizem ser quase certo que passe pela mente humana. Nesse caso, falta explicar como a acupuntura veterinária obteve tanto sucesso nos últimos anos, mesmo no Ocidente [2]. Em suma: se mesmo os animais parecem se beneficiar do efeito placebo, o que seria este efeito exatamente?

[Mori] Já dizia o filósofo alemão Rolf que “todos os animais têm almas, [basta] olhar em seus olhos”. Ele se referia ao Urseele, a alma primeval, “o melhor que há em nós”. Há que se notar a propriedade e relevância dos pensamentos de Rolf, dado que ele era um cachorro, especificamente um terrier Airedale de dois anos de idade.

Ao contar esta história, não pretendo ridicularizar a acupuntura veterinária, pelo contrário, convido todos sim a conhecer melhor a saga de Rolf – Jan Bodeson publicou um livro recente sobre o tema, do qual há um excerto disponível em inglês mas, ainda mais relevante pelo contexto histórico é a obra de Henny Kindermann, publicada em 1922 sobre “O Pensamento a Fala dos Animais”, ou especificamente sobre Lola, filha de Rolf e também um prodígio. Uma tradução ao inglês está disponível completa pelo Projeto Gutenberg.

Logo no início, Kindermann comenta o então recente caso do cavalo Hans. Antes do canino Rolf, o equino Hans demonstrou impressionante capacidade matemática, até que em uma investigação histórica o psicólogo Carl Stumpf demonstrou que o cavalo só acertava a maior parte das respostas quando aqueles que faziam as perguntas sabiam quais seriam as respostas corretas e podiam ser vistos.

O cavalo não sabia aritmética de fato. Para comunicar as respostas ele batia seu casco no chão e apenas observava a pessoa fazendo as perguntas [3]. Pfungst, um perspicaz assistente de Stumpf, notou que pouco antes do número de batidas correto as pessoas exibiam – involuntariamente – maior tensão, até que no número exato de batidas a tensão era aliviada. O Esperto Hans percebia os sinais involuntários de linguagem corporal e parava de bater o casco, tornando-se um gênio que parecia saber tanto quanto os humanos que lhes faziam perguntas. Mas não mais.

A maior lição do que se tornou conhecido como “efeito Hans Esperto” é que os sinais corporais são exibidos involuntariamente. Mesmo após Pfungst descobrir como o cavalo conseguia fazer seu espetáculo, e mesmo ciente de que poderia estar sinalizando ao animal, ainda assim a linguagem corporal podia denunciar suas expectativas. O experimentador pode afetar o experimento das formas mais inesperadas e que devem ser levadas em consideração.

Isolar e controlar melhor estes fatores é sempre um desafio em qualquer experimento científico. Se ele é um problema com animais, é um ainda maior com humanos. Para lidar com isso, duas técnicas são especialmente importantes: a randomização, para impedir que dados sofram uma seleção involuntária, por exemplo; e os testes duplo-cego, onde tanto experimentadores quanto sujeitos desconhecem se são parte do grupo de controle ou não.

Assim, e finalmente chegamos ao ponto, para saber se a homeopatia ou a acupuntura realmente funcionam, pode-se imaginar que testes com animais sejam os mais seguros, mas como Rolf e Hans demonstram, não é o caso. O que sabemos sobre os animais geralmente passa pela interpretação de um ser humano. Mais importante que animais são protocolos rigorosos, randomizados, duplo-cegos, com amostras apropriadas.

Uma das mais extensas e recentes meta-análises sobre a homeopatia, levando em conta este rigor, concluiu justamente que os efeitos clínicos da homeopatia são compatíveis com efeitos placebo. Outro estudo especialmente revelador sobre a acupuntura demonstrou que não é preciso usar agulhas penetrando a pele, tampouco seguir as supostas linhas de energia no corpo que acupunturistas se orgulham em aprender: “acupuntura de faz-de-conta” com palitos de dente cutucando pontos aleatórios do corpo mostrou os mesmos efeitos benéficos. Efeitos placebo, por definição.

Há mesmo discussão sobre se o efeito placebo em geral seria tão poderoso: seu efeito seria maior justamente nas moléstias físicas relatadas subjetivamente pelos pacientes. Mudanças bioquímicas mais objetivas seriam menos acentuadas, sugerindo o efeito placebo como conhecido na literatura científica pode estar ainda sujeito a nuances experimentais tão básicas como o efeito Hans Esperto.

Neste contexto, não é surpresa que exista confusão e um ou outro estudo pretendendo demonstrar a validade desta ou daquela prática “alternativa”. E para quem ria do cão filósofo, bem, ninguém menos que Carl Sagan dedicou longas linhas às impressionantes habilidade lingüísticas de chimpanzés, no que hoje é uma linha de pesquisa vista com mais ceticismo – interpretada como resultado de efeitos não tão diferentes do Esperto Hans.

E Sagan ganhou um Pulitzer por tal livro. Enquanto cachorros, cavalos ou chimpanzés não escreverem livros sem a ajuda de nenhum facilitador humano e a homeopatia ou acupuntura não fornecerem cura comprovada para uma única doença que não possua remissão espontânea, eu recomendaria cautela.

[Del Debbio] A questão do Efeito Placebo é um dos assuntos que mais fascinam e, ao mesmo tempo, mais causam controvérsias entre a classe científica. Apesar de todo o conhecimento que a ciência hoje possui, o efeito placebo ainda permanece um mistério e todo artigo sobre ele ainda é bastante incompleto e controverso. Seu bom ou mau uso pode significar uma vida, principalmente enquanto seus efeitos são pouco conhecidos a fundo e seu funcionamento, isto é, como realmente age o caminho da cura, ainda é alvo de muitas especulações, especialmente se quisermos reduzi-lo apenas ao Plano Físico.

Hoje, a definição oficial é que o Placebo é uma substância inerte ou inativa, a que se atribuí certas propriedades (como as de cura de uma doença) e que, ingerida, pode produzir um efeito que suas propriedades não possuem. Muitas pessoas que ingerem, por exemplo, um pedaço de papel dobrado meticulosamente e contendo uma oração, revelam melhoras de uma doença, imaginando ter tomado um remédio feito especialmente para essa doença. No plano físico, não há explicação aparente. Pela lógica, a cura não deveria ter se realizado. Para os hermetistas, diz-se que a cura ocorreu no Plano Mental e Emocional, e se propagou até materializar-se no Plano Físico, resultando na cura.

Mas o placebo não existe apenas em forma de uma substância. Uma cirurgia espiritual kardecista ou a intervenção de uma entidade da Umbanda, por não poder ser testada pelos métodos científicos atuais, pode ser chamada de placebo. A pessoa operada sente o corte, sente a sutura e fica curada do mal que a afligia sem passar por uma cirurgia convencional. Tais casos, no entanto, são raros demais para serem exaustivamente testados em laboratório, mas temos muitos casos documentados como, por exemplo, o médium João de Deus.

Uma terapia também faz às vezes de um placebo, onde às técnicas dessa terapia se atribui um tipo de cura e isso realmente acaba acontecendo. As chamadas terapias alternativas, como os florais, os cristais, a radiestesia e muitas vezes a própria psicoterapia ainda são consideradas por uma grande parte da ala científica como um placebo, embora a cada dia existam mais e mais trabalhos científicos demonstrando a eficácia de técnicas como florais, acupuntura e Reiki, especialmente em animais.

A resposta placebo é uma pedra fundamental, infelizmente rejeitada na cura mente-corpo. Histórias de cura espontânea ou consideradas “milagrosas” são menosprezadas pela ciência, devido à nossa mente racional, como resultados não confiáveis, quando deveriam ser estudadas a fundo.

Em seu livro “A Psicobiologia de Cura Mente-Corpo”, Dr. Ernest Rossi diz que a premissa da ciência, neste caso, se aproxima de algo como "não é confiável, portanto não é real". Ele explica que, para uma parte da ciência, que tem uma abordagem focada na “venda de alopatia”, o efeito placebo é simplesmente um "fator aborrecido", quando o bem estar mental e emocional do paciente é tão importante quanto matar bactérias.

Se o chamado efeito Placebo realmente tem um papel fundamental no desempenho dos sistemas simpático, parassimpático e nos outros sistemas do organismo, a expectativa de cura pode ser considerada como uma espécie de “certificado de garantia” para o funcionamento do corpo como algo completo (como estudam os hermetistas). De acordo com a teoria espiritualista, o locus de cura está dentro do organismo do próprio indivíduo, bastando ver que algumas doenças, mesmo sem remédio, também se curam espontaneamente. Para outras, mais graves e que já estão plenamente manifestadas no Plano Físico, a cura só será atingida através de alopatia (a solução para este problema, infelizmente, deveria ter sido a prevenção e uma vida mais saudável e a doença é o karma que se adquire por estragar o corpo com maus hábitos, nesse caso). É importante salientar que não se pode generalizar de maneira nenhuma nessa questão, sendo cada caso um caso específico (o que, infelizmente, dificulta a avaliação em laboratórios, causando um círculo vicioso do qual estamos emergindo somente agora).


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***

[1] Gostaria de deixar claro que não defendo os tratamentos alternativos em substituição aos tradicionais, mas não vejo nenhum problema em usá-los como tratamento complementar, dependendo de cada caso específico.

[2] Sobre o assunto, gostaria de citar o estudo da Associação Médica Brasileira - Acupuntura: bases científicas e aplicações; Assim como esta reportagem do Globo Repórter (30/06/2006), da TV Globo.

[3] No caso dos cachorros citados acima, eles “escreviam” através de batidas de uma das patas dianteiras, de onde seus donos associavam letras do alfabeto – de acordo com o número de batidas em sequencia.

***

Crédito da foto: Portal ANDA/Globoesporte (retirada deste artigo da CRMV-AL)

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8 comentários:

Anonymous Anônimo disse...

O efeito placebo é algo que me fascina desde a faculdade... Qual o problema do corpo curar a si próprio através da mente? A psicologia não tem o mesmo princípio, usando palavras, para tratar transtornos mentais?
Que seja o poder da imaginação! Qual o problema em aceitar que ela afeta a realidade concreta, a liberação hormonal e de demais mensageiros químicos do organismo, capazes de levá-lo de volta a homeostase?
Que venham pílulas de Frei Galvão ou óleo ungido da IURD... O que as pessoas comuns procuram é resultado e elas os vêm com o uso disso e por isso, crenças sem sentido e sem sabedoria de fundo, mas com resultados práticos, tem se multiplicado pelo globo ...
Se a ciência crê que é o poder da mente, da imaginação, a usar os mecanismos que o corpo já possuía para recuperar sua homeostasia, qual o problema em usar isso como ferramenta? É ter que se curvar ao poder da mente e dizer que sim, ela pode moldar a realidade?
Não vou nem dicutir se as terapias complementares são placebo ou não... Apenas vou indagar, pq o efeito placebo não é estudado a fundo, entendido e explorado como ferramenta para a cura física, mental e etc.. é medo de saber que para uma mente determinada, sua realidade é construída primeiramente a plano mental e o que se forja ali, se reflete no físico?
Meu sonho é descobrir o mecanismo do efeito placebo e ele aparetemente é fé, aquele sentimeto típico de netzach, a esfera anterior a tiferet e ainda acho que por isso, lhe é dada o título de vitória, ao menos no plano físico-emocional...
A fé tem se mostrado um sentimento mais eficaz que alguns métodos racionais, para promover a cura e outras "cositas mas"... por isso a ciencia ainda não conseguiu superá-la na mente da maioria das pessoas. Imagine um mundo onde a ciência compreende e usa os mecanismos da fé para obter resultados... Vc acaba de imaginar um mundo onde o ser humano consegue "vitória" total sobre o plano físico-socio-emocional...
Abraços

13/2/12 20:39  
Anonymous Gustavo disse...

O interessante seria nós aprendermos a controlar esse "efeito placebo" né. conseguir gerar esse efeito 100% das vezes seria muito legal. Eu acho que tem gente que consegui.

Eu não entendi completamente o contexto do Mori em ter inserido o cão filósofo e o cavalo gênio (podia ser facilmente protagonista do seriado lie to me, hehehe =D). Compreendi que a leitura da linguagem corporal que os animais fazem, podem sim influenciar em uma experiência. Mas não sei de que maneira isso interferiria no efeito placebo da acupuntura ou homeopatia por exemplo.

Abraço

15/2/12 10:38  
Anonymous Anônimo disse...

Pois é... foi exatamete o que eu quis dizer: mesmo que as terapias complementares, a oração, a meditação, etc, sejam placebo, pq não estudar o cérebro e acompanhar os níveis hormonais e de sinalizadores químicos com o uso dessas terapias e mesmo com o uso do placebo oficial, as pílulas de farinha? Poxa, já vi índices de cura com o placebo mais usado, pílulas de farinha, altos... Se pudermos compreender o que se passa no cérebro de um indivíduo nessa situação, teremos uma dica importante de como o cérebro consegue reestabelecer a saude por si mesmo...
Obs:não estou dizendo aqui que as terapias complementares são placebo. Só estou dizendo que nem se estabeleceu como se funciona um placebo e sabemos que ele funciona e bem em muitos casos. Por que simplesmente dizer que é placebo e descartar a pesquisa sobre como ele atingiu o ojetivo? Temos mecanismos ótimos hoje para ver quais áreas do cérebro são afetadas quando uma pessoa acredita tomar um medicamento e também, quais as reações subsequentes... Posso estar errado, mas emoções e pensamentos vão desecandeando várias sequencias de atividade cerebral, induzindo liberações de hormonios e sinalizadores, o que é comprovado nas reações ao stress emocinoal... poxa, se entedemos tanto do stress emocional, pq não seguir a mesma linha de pesquisa para a fé, independente em que?
Falei demais e ando muito intrometido aqui... Melhor nao abusar da hospitalidade do anfitrião...
Abraços

15/2/12 13:10  
Blogger raph disse...

Opa, que nada, o espaço é aberto para todos refletirem juntos mesmo... Eu só não estou respondendo os comentários desta série porque faz parte da regra que eu mesmo me impus: só comentar as respostas (e comentários das respostas) ao final da série :)

Vou deixar uma "dica", em todo caso: procurem saber sobre o placebo da vitamina C contra a gripe (o maior da história, possivelmente).

Abs
raph

15/2/12 14:35  
Anonymous Gustavo disse...

Dica interessante =D

Vou pesquisar, hehehe.

15/2/12 15:48  
Anonymous André Ricardo disse...

E quanto ao vegetais? Os praticantes do Reiki, alegam que funciona também em plantas... alguém já estudou isso seriamente?

Abraços,

24/2/12 13:05  
Anonymous Alex disse...

O melhor exemplo de efeito placebo que posso imaginar agora é... este blogue.

28/3/12 21:23  
Blogger José Elias disse...

Padeço de uma enfermidade há mais de 30 anos e, por ser "pessimista" e talvez por ser considerado "implicante", demorei mais de 15 anos para conseguir me sentir à vontade com um médico.
Gostaria que eles ( os médicos) conseguissem causar em mim o "efeito placebo".

17/8/15 14:23  

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