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23.7.12

A Reforma bem explicada

Texto de Geoffrey Blainey em "Uma breve história do cristianismo” (Ed. Fundamento) – trechos das pgs. 217 a 222. Tradução de Capelo Traduções. As notas ao final são minhas.

Como resumir um século e meio de turbulência religiosa que marcou a ascensão do protestantismo? Como tirar conclusões das incontáveis lutas, armadas ou não, da impressão de uma avalanche de textos inflamados, da morte de alguns rebeldes na fogueira ou da santificação de outros, e da reviravolta provocada na vida religiosa de milhões de pessoas, muitas das quais silenciosamente reprovavam as mudanças que eram obrigadas a aceitar? [1]

A distância entre a nossa era e aquela, entre as atitudes de então e de agora diante da morte, é enorme. A morte despertava forte interesse, pois frequentemente interrompia a juventude e chegava de repente, com sofrimento. Assim, as pessoas pareciam mentalmente mais preparadas para ela. Tal como custamos a entender aquele interesse pela morte e pela religião, os antigos provavelmente se espantariam com a nossa fascinação por dinheiro, por bens materiais e por viagens ao exterior com objetivos que não a peregrinação.

[...] A Reforma lançou algumas sementes da democracia moderna, embora sem saber como e quando iriam germinar. Enquanto a tradição católica se baseava na hierarquia – na autoridade dos papas, cardeais e bispos – os protestantes enfatizavam a leitura da Bíblia e o relacionamento do indivíduo com Deus. Os protestantes batizados podiam ser os sacerdotes de si mesmos; não precisavam de padres ou bispos como intermediários em seu contato com Deus [2].

Lutero se referia a isso como “o sacerdócio de todos os crentes”, e seu espírito democrático permeou as seitas protestantes que surgiram depois. Com a Bíblia em linguagem acessível, o protestantismo favorecia o debate e a discussão, que representam o cerne da democracia. Acima de tudo, calvinistas, luteranos, batistas, unitaristas, presbiterianos e outras congregações independentes administravam as próprias igrejas e selecionavam os sacerdotes.

[...] A abordagem democrática teria efeitos surpreendentes, em especial nos Estados Unidos. A Reforma desestimulava o uso do latim, na época o idioma internacional. Assim, proporcionou uma era gloriosa ao inglês, ao alemão e a outros idiomas nacionais. Nesse sentido, houve uma promoção mútua, entre nacionalismo e protestantismo. As mudanças religiosas promoveram também a educação. Lutero, Zuínglio e Calvino – saídos de três universidades diferentes – acreditavam que todos devem saber ler, e que a Bíblia é leitura obrigatória. “Estou profundamente comovido”, Lutero escreveu em 1530, ao saber que tantos alemães liam a Bíblia.

Os católicos reagiram, e começaram a promover com mais vigor a educação. No decorrer dos três séculos seguintes, porém, talvez nenhum país católico tenha alcançado o nível de alfabetização dos países protestantes. O surgimento da democracia popular, na segunda metade do século 19, dependia da disseminação do conhecimento [3].

[...] Os cerca de 125 anos seguintes ao surgimento da Reforma foram um período de graves conflitos em boa parte da Europa. “Guerras religiosas” é um rótulo bastante comum para o que aconteceu então. Na verdade, o sentimento religioso intensificou muitas batalhas, além de desestimular a ideia de qualquer acordo durante as negociações de paz, mas seria injusto apontar a Reforma como fator decisivo para as guerras. O período de violência começou com disputas entre monarcas católicos, não motivadas pela religião; eles estavam preocupados demais com as próprias guerras, para dedicar muita energia à anulação do movimento protestante [4].

O longo período de guerras intermitentes foi afetado também pelo surgimento de novas armas. O canhão e o mosquete tornaram as guerras ainda mais mortais e os monarcas, mais poderosos. Eles, e não os reformadores religiosos, planejavam, financiavam e orientavam a maior parte das guerras. Os estudiosos que hoje se dedicam ao assunto não consideram a hostilidade religiosa como a causa principal das guerras na Europa; segundo eles, a religião pode ter sido “um disfarce para outros motivos”. A ser mantido o rótulo “guerras religiosas”, seria apropriado chamar a Segunda Guerra Mundial, com sua base ateísta e o enorme número de vítimas, de “guerra da descrença”. A rotulagem simplista de grandes eventos mais complica do que explica.

Religião não era uma questão de escolha, mas de obrigação. [...] Em parte, os governantes [de países protestantes] exigiam unidade social e religiosa por acreditarem que o território ficaria mais seguro. Era crença geral um reino ou uma república tornarem-se alvos fáceis, se não tivessem coesão religiosa.

Um aspecto que nos intriga atualmente é o fato de a tolerância não figurar, naquela época, como objetivo no universo de cristãos, hindus, budistas, chineses, astecas ou incas. A ampla tolerância religiosa é quase uma invenção dos tempos modernos [5] – praticamente impensável, séculos atrás. O importante era sustentar a visão religiosa apropriada, e não a liberdade de rejeitá-la. O direito de desobedecer ao governo e à Igreja, o direito de ser livre em matéria de consciência, são preceitos que surgiram muito lentamente, depois das fortes tensões provocadas pela Reforma [6].

A mais ousada tentativa de liberdade religiosa foi feita na Holanda, [...] que era o país mais próspero da Europa, abrigando um notável cadeia de postos comerciais que se estendia de Nova York – então chamada Nova Amsterdã – a portos distantes, como Jacarta e Malaca, no sudeste da Ásia. [...] Em Amsterdã, então a cidade com o maior número de habitantes judeus da Europa ocidental – muitos expulsos de Portugal – as sinagogas se multiplicaram.

Por algum tempo, Maryland e Rhode Island talvez tenham sido os locais mais tolerantes de todas as regiões onde se falava inglês. Em 1634, os primeiros colonizadores britânicos aportaram em Maryland, e 15 anos depois uma lei local concedia liberdade religiosa a todas as denominações cristãs, embora os judeus não estivessem formalmente incluídos [7]. [...] Com ou sem intenção, os provocadores da Reforma lançaram a pedra fundamental da tolerância religiosa.

***

[1] Um dos motivos do sucesso de Blainey em sua série de livros sobre história (vários deles, best-sellers mundo afora), em minha opinião, é a sua humildade em expor a história de um ponto de vista de quem, como nós, já não vive mais nas épocas citadas – e não pretender expor a história “como foi”, mas sim “como a interpretamos atualmente”. O outro motivo é que ele simplesmente escreve muito bem.

[2] Quanta distância entre os protestantes originais e os de hoje em dia!

[3] A despeito do que são e do que foram os protestantes, dificilmente os seus críticos se lembram, atualmente, que a nossa educação secular deve, e muito, ao fogo iniciado por Lutero.

[4] Grosso modo, toda e qualquer guerra entre nações jamais foi iniciada propriamente por um “conflito religioso ou doutrinário”, e sim pela pura e simples disputa por riquezas e territórios. Mas muitos “historiadores” não gostariam que você pensasse dessa forma, e para eles (ao contrário de Blainey), o termo “guerra religiosa” pode fazer todo o sentido do mundo.

[5] Eu diria: uma conquista da evolução da consciência humana.

[6] E, mais uma vez, qual o ateu atual que lembra de que foi Lutero quem iniciou esta divina chama de liberdade?

[7] O próprio sonho americano partia desse pressuposto de liberdade. Nalgum dia distante, os Estados Unidos já foram vistos como a terra da tolerância e da liberdade de pensamento, e foi exatamente por isso que atraíram tantas grandes mentes, que colaboraram (e muito) para a construção da potência econômica que o país veio a se tornar no final do século XX.

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Crédito da imagem: F.W. Wehle/Corbis ("Lutero em seu estudo")

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8.6.12

Sobre deuses e rezas

Textos de Rubem Alves em "Teologoa do cotidiano" (Olhos D'Água) - pgs. 54 a 57. O comentário ao final é meu.

Perdida no meio dos viajantes que enchiam o aeroporto, ela era uma figura destoante. A roupa largada, os passos pesados, uma sacola de plástico pendurada numa das mãos – esses sinais diziam que ela já não mais ligava para a sua condição de mulher: não se importava em ser bonita. Pensei mesmo que se tratava de uma freira. Seu comportamento era curioso: dirigia-se às pessoas, falava por alguns momentos, e como não lhe prestassem atenção procurava outras com quem falar. Quando vi que ela tinha uma Bíblia na mão compreendi tudo: ela se imaginava possuidora de conhecimentos sobre Deus que os outros não possuíam e tratava de salvar a alma deles.

Meu caminho me obrigou a passar perto dela – e quando olhei para o seu rosto de perto levei um susto: eu a reconheci de outros tempos, quando ela era uma moça bonita que ria e brincava e para quem olhávamos com olhares de cobiça.

Não resisti e chamei alto o seu nome. Ela se espantou, olhou-me com um olhar interrogativo, não me reconheceu. Com razão. Os muitos anos deixam suas marcas no rosto.

– Eu sou o Rubem!

Seu rosto se iluminou pela lembrança, sorriu, e pensei que poderíamos nos assentar e conversar sobre as nossas vidas. Mas sua preocupação com a minha alma não permitia essas perdas de tempo com conversa fiada. E ela tratou de verificar se o meu passaporte para a eternidade estava em ordem:

– Você continua firme na fé!?

– Mas de jeito nenhum. Então você deixou de ler a Bíblia? Pois lá está dito que Deus é espírito, vento impetuoso que sopra em todo lugar, o mesmo vento que ele soprou dentro da gente para que respirássemos, fôssemos leves e pudéssemos voar. Quem está no vento não pode estar firme. Firmes são as pedras, as tartarugas, as âncoras. Você já viu um papagaio firme? Papagaio firme é papagaio no chão, não voa. Pois eu estou mais é como urubu, lá nas alturas, flutuando ao sabor do imprevisível Vento Sagrado, sem firmeza alguma, rodando em largos círculos.

Ela ficou perdida, acho que nunca havia ouvido resposta tão estranha, mudou de tática e tentou pegar a minha alma do outro lado, desatou a falar de Deus, informou-me que ele é maravilhoso etc., etc., etc., como se estivesse no púlpito em celebração de domingo.

Refuguei e disse:

– Acho que quem não está firme em Deus é você. Olha, passei a noite toda respirando, estou respirando desde que acordei, e juro que agora é a primeira vez que penso no ar. Não pensei nem falei no ar porque somos bons amigos. Ele entra e sai do meu corpo quando quer, sem pedir licença. Mas a história seria outra se eu estivesse com asma, os brônquios apertados, o ar sem jeito de entrar, ou, como naquele anúncio antigo do xarope Bromil, o coitado do homem sufocado por uma mordaça, gritando pelo ar que lhe faltava. Por via das dúvidas até andaria com uma garrafa de oxigênio na bagagem, para qualquer emergência.

E continuei:

– Pois Deus é como o ar. Quando a gente está em boas relações com ele não é preciso falar. Mas quando a gente está atacado de asma, então é preciso ficar gritando pelo nome dele. Do jeito como o asmático invoca o ar. Quem fala com Deus o tempo todo é asmático espiritual. E é por isso que andam sempre com Deus engarrafado na Bíblia e outros livros e coisas de função parecida. Só que o vento não pode ser engarrafado...

Aí ela viu que minha alma estava perdida mesmo e, como consolo, fez um sinal de adeus e disse que iria orar muito por mim. Aí eu protestei, implorei que não o fizesse. Disse-lhe que eu tinha medo de que Deus ficasse ofendido. Pois há rezas e orações que são ofensas. É óbvio: se vou lá, bater às portas de Deus, pedindo que ele tenha dó de alguém, eu lhe estou imputando duas imperfeições que, se fosse comigo, me deixariam muito bravo.

Primeiro, estou dizendo que não acredito no amor dele, deve ser meio fraquinho, sem iniciativa, preguiçoso, à espera do meu cutucão. Se eu não der a minha cutucada, Deus não se mexe. E isso não é coisa de ofender Deus? Segundo, estou sugerindo que Ele deve andar meio esquecido, desmemoriado, necessitado de um secretário que lhe lembre suas obrigações. E trato de, diariamente, apresentar-lhe a sua agenda de trabalho. Mas está lá nos salmos e nos evangelhos que Deus sabe tudo antes que a gente fale qualquer coisa. Ora, se a gente fica no falatório é porque não acredita nisso. Não acredito em oração em que a gente fala e Deus escuta. Acredito mesmo é na oração em que a gente fica quieto para ouvir a voz que se faz ouvir no meio do silêncio.

Voltei à minha amiga:

– Veja você. Tive um filho que estudava longe. Eu gostava dele. Ele gostava de mim. De vez em quando a gente se falava ao telefone. E o dinheiro da mesada ia sempre, com telefonema ou sem telefonema. Agora imagine: de repente começo a perceber telefonemas dele três vezes por dia e mensagens por sedex, cartas e telegramas louvando o meu amor, agradecendo a minha generosidade... Você acha que isso me faria feliz? De jeito nenhum. Concluiria que o meu pobre filho havia endoidecido e estava acometido de um terrível medo de que eu o abandonasse. Pois é assim mesmo com Deus: quem fica o dia inteiro atrás dele, com falatório, é porque desconfia dele. Mas o pior é o gosto estético que assim se imputa a Deus. Uma pessoa que gosta de passar o dia inteiro ouvindo os outros repetindo as mesmas coisas, as mesmas palavras, as mesmas rezas, pela eternidade afora, não deve ser muito boa da cabeça. Para mim isso é o inferno. Quem reza demais acha que Deus não funciona bem da cabeça. Acho que ele ficaria mais feliz se, em vez do meu falatório, eu lhe oferecesse uma sonata de Mozart ou um poema da Adélia...

Mas aí o alto-falante chamou o meu voo, tive de me despedir, e imagino que ela ficou aflita, temerosa de que Deus derrubasse meu avião com um raio. Mal sabia ela que Deus nem mesmo havia ouvido a nossa conversa pois, cansado das doidices dos adultos, ele foge sempre que vê dois deles conversando e se esconde deles, disfarçado de criança.

***

Comentário
Até quando veremos a Deus como mero agente de barganhas - "a sua fidelidade pelo meu milagre"?
São etapas, pequenos passos no Caminho... Talvez primeiro precisemos virar descrentes para esquecer do deus das barganhas, e encontrar ao Deus Uno, a Alma do Mundo, o Oceano onde estamos todos mergulhados, encharcados Dele por todos os lados, acima e abaixo...
Então, toda oração deveria ser um agradecimento. Se for o caso de pedirmos alguma coisa, deveria ser a Vontade para prosseguir adiante na religação: um passo, um pensamento de cada vez...
A Vontade que já temos em semente, mas que necessita ser regada de vez em quando, quem sabe, por uma oração ante o espelho das águas... Até que floresça, e nos torne mais um da raça dos deuses...
E isso não é apenas uma aposta no escuro, mas o exemplo dado pelos antigos sábios e místicos, que viam a Deus para onde quer que olhassem, e a todo momento. E não precisavam barganhar por uma pérola que já existia dentro deles mesmos... Quer encontrá-la? Mergulhe em si mesmo. Deus não precisa ajudar: já é a água, a profundidade, e o próprio ato do mergulho.

***

Crédito da foto: Andrew Parkinson/Corbis

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29.5.12

Os dois mundos de Rumi

Jalal ud-Din Rumi, grande poeta e místico sufi, fundador da primeira escola dos dervixes rodopiantes, viveu entre dois mundos. Rumi fora um grande teólogo e mestre espiritual persa, seguindo a tradição de seu pai, mas foi como o Revelador da Religião (“Jalal ud-Din”), que tornou-se grandioso...

O que Rumi revelava e refletia, tal qual a lua reflete aos raios do sol, era a sabedoria de Shams ud-Din de Tabriz, o Sol da Religião (“Shams ud-Din”): místico “errante” no estilo dos mitos acerca de Lao Tsé, que vagava pela Pérsia e, tendo convivido com Rumi por dois longos momentos, tornou-se para sempre o seu amado, no real sentido do “ser amado”.

Shams nada escreveu – foi Rumi quem escreveu por ele, quem refletiu sua luz... Quando foi privado pela segunda vez da companhia de Shams (na primeira ele havia se exilado por vontade própria, na segunda foi assassinado por discípulos ortodoxos de Rumi), o grande dervixe passou a dançar e compor poemas melódicos continuamente [1], conforme descreveu seu filho (Sultan Walad):

Noite e dia, em êxtase ele dançava, na terra girava como giram os céus. Rumo as estrelas lançava seus gritos e não havia quem não os escutasse. Aos músicos provia ouro e prata, e tudo mais de seu entregava. Nem por um instante ficava sem música e sem transe, nem por um momento descansava.

Houve protestos, no mundo inteiro ressoava o tumulto. A todos surpreendia que o grande sacerdote do Islam, tornado senhor dos dois universos, vivesse agora delirando como um louco, dentro e fora de casa. Por sua causa, da religião e da fé o povo se afastara; e ele, enlouquecido de amor.

Os que antes recitavam a palavra de Deus agora cantavam versos e partiam com os músicos... [2]

Com Rumi, e toda a dor da perda de seu sol amado, fincou-se neste mundo as bases do grande misticismo sufi, e também das danças dervixes, onde os místicos rodopiam em torno de um centro imaginário, da mesma forma que os planetas rodopiam em torno do sol.

José Jorge de Carvalho, tradutor das poesias de Rumi para o português, nos faz um alerta: “É importante que o leitor faça ideia do que seja um gazal [3] de Rumi para avaliar o que perde ao ler a presente tradução, ao tempo de poder valorizar, esperamos, o quanto ainda pode receber de significado e fruição poética. Em qualquer tradução de um gazal persa para uma língua ocidental, sacrifica-se muito esteticamente: a sonoridade, o ritmo do verso, as várias formas de rima, as aliterações, os jogos de palavras.” [2]

O que se segue, portanto, é o que sobrou da luz de sol refletida pela lua de Rumi; e que, ainda assim, delineia com espantosa exatidão os dois mundos em que o grande sufi viveu, ao menos a quem tem olhos para os ver... Estes são dois poemas de Rumi, e cada um nos traz um de seus mundos:

[A evolução da forma]

Toda forma que vês
tem seu arquétipo no mundo sem-lugar.
Se a forma esvanece, não importa,
permanece o original.

As belas figuras que viste,
as sábias palavras que escutaste,
não te entristeças se pereceram.

Enquanto a fonte é abundante,
o rio dá água sem cessar.
Por que te lamentas se nenhum dos dois se detém?

A alma é a fonte,
e as coisas criadas, os rios.
Enquanto a fonte jorra, correm os rios.
Tira da cabeça todo o pesar
e sorve aos borbotões a água deste rio.
Que a água não seca, ela não tem fim.

Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde, animal.
Como pode ser isto segredo para ti? [4]

Finalmente foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo – um punhado de pó –
vê quão perfeito se tornou!

Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.

Passa de novo pela vida angelical,
entra naquele oceano,
e que tua gota se torne mar,
cem vezes maior que o Mar de Oman. [5]

Abandona este filho que chamas corpo
e diz sempre “Um” com toda a alma.
Se teu corpo envelhece, que importa?
Ainda é fresca tua alma.

***

[O mundo além das palavras]

Dentro deste mundo há outro mundo
impermeável às palavras.
Nele, nem a vida teme a morte,
nem a primavera dá lugar ao outono.

Histórias e lendas surgem dos tetos e paredes,
até mesmo as rochas e árvores exalam poesia.
Aqui, a coruja transforma-se em pavão,
o lobo, em belo pastor.

Para mudar a paisagem,
basta mudar o que sentes;
E se queres passear por esses lugares,
basta expressar o desejo.

Fixa o olhar no deserto de espinhos.
– Já é agora um jardim florido!
Vês aquele bloco de pedra no chão?
– Já se move e dele surge a mina de rubis!

Lava tuas mãos e teu rosto
nas águas deste lugar,
que aqui te preparam um fausto banquete.
Aqui, todo o ser gera um anjo;
e quando me veem subindo aos céus
os cadáveres retornam à vida.

Decerto vistes as árvores crescendo da terra,
mas quem há de ter visto o nascimento do Paraíso?
Viste também as águas dos mares e dos rios,
mas quem há de ter visto nascer
de uma única gota d’água
uma centúria de guerreiros?

Quem haveria de imaginar essa morada,
esse céu, esse jardim do paraíso?
Tu, que lês este poema, traduze-o.
Diz a todos o que aprendeste
sobre este lugar. [2]


***

[1] Os poemas de Rumi em homenagem a Shams em sua maioria foram concebidos em transe (dança dervixe) e transcritos quase instantaneamente por seus discípulos, ou ditados deliberadamente a outrem.

[2] Trechos retirados de Poemas Místicos – Divan de Shams de Tabriz, de Jalal ud-Din Rumi. Publicado no Brasil pela Attar Editorial.

[3] Estrutura poética, tal qual, de forma aproximada, como um soneto para a poesia do Ocidente.

[4] Lembrando que isto foi dito em pleno século XIII, em meio ao islamismo.

[5] Na simbologia persa, estava associado ao Oceano Divino.

Crédito da imagem: Unveil The Sun

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30.4.12

Um efeito estranho, parte 2

« continuando da parte 1

Texto de Mario Beauregard (Ph.D.) e Denyse O’Leary em "O cérebro espiritual” (Ed. Best Seller) – trechos das pgs. 184 a 187. Tradução de Alda Porto. As notas ao final são minhas.

Como vimos, várias linhas de comprovação demonstram que os fenômenos mentais alteram significativamente a atividade cerebral. Essas linhas incluem nossos estudos de IRMf (Imagem por Ressonância Magnética Funcional) sobre observação emocional objetiva e o impacto da terapia comportamental cognitiva na fobia de aranha [1], além dos estudos de neuroimagens funcionais do efeito placebo. Os resultados dessa última série de estudos deixam bem claro que a atividade cerebral pode ser motivada pela crença e pela expectativa mental do paciente em relação a um tratamento médico proposto [2].

Para interpretar os resultados desses estudos, precisamos de uma hipótese que explique a relação entre atividade mental e atividade cerebral. A hipótese da tradução psiconeural [HTP] é uma delas. Postula que a mente (o mundo psicológico, a perspectiva da primeira pessoa) e o cérebro (que faz parte do chamado mundo “material”, a perspectiva da terceira pessoa) representam dois domínios diferentes em termos epistemológicos que podem interagir porque são aspectos complementares da mesma realidade transcendental.

A HTP reconhece que os processos mentais (tais como vontades, metas, emoções, desejos e crenças) são naturalmente demonstrados por exemplos no cérebro, mas afirma que não são idênticos nem podem ser reduzidos a processos neuroelétricos e neuroquímicos [3]. Na verdade, os processos mentais – que não são passíveis de localização no cérebro – não podem ser eliminados.

O motivo de não ser possível localizar os processos mentais dentro do cérebro é o fato de não haver nenhuma maneira de apreender os pensamentos apenas pelo estudo da atividade dos neurônios. O problema é semelhante ao de tentar determinar o sentido de mensagens em uma língua desconhecida (pensamentos) apenas pelo exame de seu sistema de escrita (neurônios). Seria necessária uma Pedra de Roseta para compará-las com o sistema de escrita de uma língua conhecida. Mas não existe tal pedra e, portanto, é impossível qualquer comparação [4].

Em consequência, a terminologia mentalista que descreve esses processos permanece absolutamente essencial para uma explicação satisfatória da relação entre a dinâmica cerebral e o comportamento humano. Ninguém jamais viu um pensamento ou um sentimento, mas eles exercem tremendo impacto em nossa vida. Além disso, segundo a HTP, os processos conscientes e inconscientes são automaticamente traduzidos em processos neurais nos vários níveis da organização cerebral (redes biofísicas, moleculares, químicas). Por sua vez, os processos neurais resultantes são depois traduzidos para processos e eventos em outros sistemas fisiológicos, como o sistema imunológico ou endócrino.

[...] Em termos metafóricos, podemos dizer que o mentalês (a língua da mente) é traduzido para o neuronês (a língua do cérebro). Por exemplo, pensamentos aflitivos aumentam a secreção de adrenalina, mas os felizes aumentam a secreção de endorfina [5]. Esse mecanismo de transdução informacional representa destacada realização da evolução que permite que os processos mentais influenciem causalmente o funcionamento e a plasticidade do cérebro. De certo modo, é como escrever nossas palavras faladas num sistema de símbolos que pode ser lido por outros a distância.

[...] Uma evolução biológica teleologicamente orientada (isto é, intencional, em vez de aleatória) permitiu aos seres humanos moldar, de maneira consciente e voluntária, o funcionamento de nosso cérebro. Em consequência dessa poderosa capacidade, não somos robôs biológicos governados por genes e neurônios “egoístas”. Um dos resultados é podermos, de forma intencional, criar novos ambientes sociais e culturais. Por meio de nós, a evolução se torna consciente, isto é, impulsionada não apenas por instintos de sobrevivência e reprodução, mas também por complexos conjuntos de percepções, metas, desejos e crenças [6].

Em minha opinião, as realizações éticas resultam do contato com uma realidade transcendental por trás do universo [7], e não apenas da multiplicação de neurônios no córtex pré-frontal do cérebro humano. Não se sabe com clareza se, por si mesmos, os neurônios desenvolveriam algum sistema ético.

Graças ao mecanismo da tradução psiconeural, os valores associados a determinada visão do mundo espiritual podem ajudar-nos a governar nossos impulsos emocionais e a agir de maneira genuinamente altruística [8]. Nesses casos, a consciência moral substitui a programação inata como reguladora de comportamentos. Por sua vez, a capacidade de comportamentos racionais e éticos liberta-nos dos primitivos mandatos do cérebro da classe dos mamíferos [9]. Tal liberdade é responsável pelo fato de que, embora o genoma seja o mesmo em todas as sociedades humanas, algumas culturas valorizam e fomentam a violência e a agressão, enquanto outras as julgam negativas e jamais as empregam.

Por sorte, muitas culturas também começaram a incentivar as pessoas a se mover além do senso de obrigação com os familiares ou grupo social para uma apreciação e compaixão por toda vida, sobretudo por outros seres humanos, porque podemos com muita facilidade identificar-nos com eles.

***

[1] Citado em outro trecho do livro. Basicamente se trata de uma técnica para ensinar uma mente a, lentamente, abandonar sua fobia de aranhas. Sim, a terapia envolve muitos contatos diretos com aranhas, só que em condições estritamente controladas.

[2] Por muito tempo nada poderia ser feito objetivamente ante a alegação cética de que os espiritualistas “simplesmente fingiam experiências místicas”... Hoje, entretanto, as tecnologias de scanning cerebral têm comprovado, objetivamente, que gente como budistas e freiras carmelitas (neste último caso, incluindo um estudo do próprio Dr. Beauregard) não somente têm efetivamente tais experiências, como muitas das “redes de luzes” que se acendem em seus cérebros parecem fazer parte de um “reino místico”, reservado somente a certos tipos de experiências contemplativas.

[3] Ou seja, não se pode, ao observar a luz passando por um poste de luz, afirmar que aquele poste a gerou. Sabe-se que, num blecaute, nenhuma luz passaria por ali... Então, talvez, no caso do cérebro (e dos bilhões de postes de luz neuronais), esta usina oculta do pensamento também exista em algum território por ser descoberto.

[4] Segundo o filósofo americano John Searle, a consciência poderia ser imaginada como um “quarto chinês”: neste quarto estariam armazenados todos os dicionários e regras de gramática associados ao idioma chinês. Dentro dele haveria um homem capaz de traduzir e responder às questões escritas em chinês manipulando esses recursos, apesar de não saber falar uma única palavra nessa língua. Então, alguém que enviasse a frase “Como está o dia hoje para você?” poderia receber a resposta “Horrível!”, no mesmo idioma. Visto de fora, poderia parecer que o homem no interior “entendeu” a questão, mas Searle argumenta que esse comportamento não é suficiente para a compreensão. Da mesma forma, um computador nunca poderia ser descrito como “tendo uma mente” ou “compreendendo”. Já o cérebro poderia ser tão somente “um supercomputador pilotado pela mente”. Outros filósofos argumentam que a compreensão consciente seja tão somente o processo de “se comportar como se entendesse”.

[5] É impressionante como este fato extraordinário passa desapercebido pela grande maioria de nós, inclusive dos neurocientistas: pensamentos causam alterações fisiológicas que podem ser efetivamente medidas – logo, eles existem (objetivamente), e eles podem alterar nossa realidade corporal. Isto é um fato.

[6] A Natureza nos guiou na guerra da fome e da morte por bilhões de anos, mas a partir do momento em que nasce a consciência, em que o ser “desperta para si mesmo”, aparentemente a ascensão é repentina. Em apenas algumas dezenas de milhares de anos, estamos nós aqui, com o conhecimento e a tecnologia para efetivamente intervir na evolução de nossa própria espécieesperemos que para melhor.

[7] Algo que pode ter ocorrido mais cedo em nossa história do que muitos imaginam.

[8] Isso não é exclusividade de espiritualistas e religiosos, mesmo os céticos, os cientistas materialistas e os ateus podem ser altruístas. A ironia é que, mesmo em alguns casos não crendo que sequer possuem uma mente, é através dela que elaboram suas próprias ações altruístas.

[9] Embora obviamente seja uma liberdade parcial; Ainda que nossa vontade muitas vezes não subjugue o puro instinto animal, fato é que pelo menos em algumas vezes a vontade vence – e a liberdade de escolha, de fato, existe!

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Crédito da foto: learnpure.com

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26.4.12

Um efeito estranho, parte 1

Texto de Mario Beauregard (Ph.D.) e Denyse O’Leary em "O cérebro espiritual” (Ed. Best Seller) – trechos das pgs. 181 a 184. Tradução de Alda Porto. As notas ao final são minhas.

Alguns afirmam que o efeito placebo é mítico, que só se aplica a crédulos, ou até que usá-lo é antiético [1]. Que tal isso? Os mitos populares sobre placebos incluem as ideias de que funcionam apenas durante três meses, ou que só determinado tipo de personalidade reage a eles. Não há limite específico algum para a maioria dos efeitos placebo, nem de “paciente que reage a placebo”.

Mas, acima de tudo, o efeito placebo tem sido uma dificuldade e um problema para estudos sobre [novas] drogas [...]. O jornalista científico Alun Anderson sugere: “Confiança e crença são muitas vezes vistas como negativas na ciência, e descarta-se o efeito placebo como uma espécie de ‘fraude’, porque depende da crença do paciente. Mas a verdadeira maravilha é que a fé pode funcionar”. Anderson identificou uma questão chave. Uma materialista talvez ache que o efeito placebo é uma espécie de fraude exatamente porque indica que a mente pode mudar o corpo [2].

Em consequência, as explicações materialistas do efeito placebo muitas vezes são incoerentes. Por exemplo, quando descrito como a maneira pela qual “o cérebro manipula a si mesmo” [3]. Como vimos, o efeito placebo é de fato disparado pelo estado mental do paciente. Em outras palavras, depende inteiramente do estado de crença dele. Um processo inconsciente iniciado pelo cérebro para manipular a si mesmo (ou qualquer outra parte do corpo) é um processo de cura natural, não o efeito placebo. Por exemplo, houvesse o cérebro dos pacientes que sofrem de doença de Parkinson conseguido manipular a si mesmo e assim curar-se, não se exigiria tratamento algum, placebo, farmacêutico, cirurgia simulada ou real [4].

[...] Desde que começaram os estudos controlados do placebo, uma questão econômica fundamental confundiu o estudo do verdadeiro papel de seu efeito na manutenção da saúde. Não se pode patentear a marca esperança. Se um dado remédio “não age melhor que o placebo”, é uma má notícia para os fabricantes desse medicamente, mesmo que 85% do grupo de controle e 85% do grupo experimental melhorem [5]. A opinião atual de que os estudos mentais são importantes, mas as drogas são poderosas, obstruiu o estudo correto do efeito placebo.

Grande parte de medicina pré-científica dependia do efeito placebo. O fato de esse efeito tantas vezes funcionar ajuda a entender porque muitas pessoas mais tradicionais relutam em abandonar a medicação pré-científica, apesar de suas doutrinas questionáveis e, muitas vezes, perigosas. Lamentavelmente, os clínicos pré-científicos com frequência atribuem seu poder às doutrinas que abraçaram, quando, na verdade, deveriam atribuí-lo aos efeitos que aprenderam por experiência e erro [6]. A pesquisa médica científica começa a ajudar a resolver o dilema aceitando a natureza mental do efeito placebo. Pode-se estudá-lo como um efeito autêntico e, com o poder direcionado, talvez até aumentado, o que é muito mais produtivo do que se continuássemos a tratá-lo apenas como uma chateação.

O perfeito entendimento do efeito placebo também pode evitar algumas óbvias polêmicas atuais. Por exemplo, talvez fosse mais fácil resolver as questões éticas que cercam o uso de células-tronco embrionárias no tratamento da doença de Parkinson se os efeitos placebos explicassem a maior parte do seu valor atribuído. De modo semelhante, tratamentos polêmicos em algumas partes do mundo envolvem as partes do corpo de espécies em risco de extinção. Esses tratamentos devem quase todo seu efeito à crença do paciente na eficácia do tratamento exótico. Uma clara demonstração desse fato pode ajudar nos esforços de conservação [7].

Como vimos, muitas aplicações clínicas fluem de uma visão não materialista da neurociência. Quando tratamos a mente como capaz de mudar o cérebro, podemos tratar doenças cujo tratamento antes era difícil ou impossível. Mas também precisamos de um modelo de como a mente age no cérebro.

» A seguir, o que se especula sobre a interação da mente com o cérebro...

***

[1] Este post é centrado no efeito placebo, um fenômeno muito conhecido e descrito pela medicina (inclusive a medicina dita convencional), mas que na prática é tão pouco compreendido quanto a própria mente humana, a grande catalisadora desse tipo de efeito (pelo que se acredita). Para saber mais, consulte este meu artigo: Placebo-nocebo.

[2] Para os materialistas eliminativos é consideravelmente mais complexo: se, como eles sugerem, a mente é apenas uma ilusão persistente, como exatamente ela muda o corpo?

[3] Jon-Kar Jubieta disse assim numa reunião sobre o efeito placebo, realizada pela Sociedade de Neurociência americana, em 2005: “Essas descobertas podem ter tremendo impacto na medicina, além de ajudar-nos a entender como o cérebro manipula a si mesmo”.

[4] O que ele está querendo dizer, e muitas vezes é mal compreendido, é que o efeito placebo não ocorre naturalmente, e sim como parte de um tratamento. É óbvio que, tal qual já dizia Hipócrates, “são nossas forças naturais que curam nossas doenças”, e nesse sentido a saúde sempre surgirá onde a doença não mais se faz presente. Mas, por outro lado, existe uma série de tratamentos não convencionais, associados pela medicina tradicional ao efeito placebo (ex: acupuntura, cirurgias espirituais, florais, reiki, etc.), que parecem efetivamente auxiliar na catalisação do efeito, de modo que, sem eles, o efeito não ocorreria, ou não ocorreria com a mesma eficiência.

[5] Ultimamente não é mais nenhuma novidade no ramo dos remédios para depressão que, conforme inúmeras pesquisas vêm demonstrando, na grande maioria dos casos eles não tenham nenhum efeito consideravelmente maior do que o “puro” efeito placebo, excluindo-se os casos de depressão severa, que têm medicamentos bastante específicos (e, nesses casos, sim, funcionam melhor do que placebos). A despeito disso, existem muitas pessoas no mundo desenvolvido que sofrem de depressão não severa, e compram mensalmente remédios caros que, na realidade, efetivamente funcionam tanto quanto pílulas de farinha.
Sobre o assunto, ver, por exemplo: revista Mente e cérebro (Scientific American/Duetto) nº226 – Antidepressivos são mesmo eficazes? (que foi matéria de capa); e revista Galileu (Globo) nº247 – Antidepressivos funcionam? Veja também esta entrevista com o psicólogo Irving Kirsch.

[6] Em outras palavras, o Dr. Beauregard não está nem um pouco interessado em explicações vagas para curas espirituais, como “Deus te curou” ou “o espírito da Senhora de Branco veio e te abençoou” – para ele, tais explicações são tão inúteis quanto a materialista (ver nota nº3 acima).

[7] Vamos citar um exemplo bem claro: chifres de rinoceronte são apreciados no Oriente como afrodisíacos, causando sua caça e risco de extinção (pois a carne não é sequer aproveitada). Ora, o chifre em pó conterá grandes quantidades de cálcio e fósforo, o que pode realmente aumentar o vigor de pessoas com deficiência desses minerais. Na posse desse conhecimento, algum antigo consumidor de chifres de rinoceronte em pó poderá, portanto, comprar vitaminas com cálcio e fósforo no lugar, auxiliando na preservação da espécie. Este é um caso onde já se tem uma boa ideia do que ocorre, mas muitos outros ainda caem na zona “nebulosa” do efeito placebo, e ainda não são compreendidos.

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Crédito da foto: Jed Share and Kaoru/Corbis (banca com venda de ervas e afrodisíacos em geral, no Marrocos)

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28.2.12

Da mitologia a psicologia, parte 2

« continuando da parte 1

Texto de Joseph Campbell em "O herói de mil faces” (Ed. Cultrix/Pensamento) – pgs. 255 a 257. Tradução de Adail Ubirajara Sobral. As notas ao final são minhas.

A apreensão da fonte desse substrato do ser, indiferenciado e, não obstante, particularizado nos quatro cantos do mundo, é frustrada pelos próprios órgãos por meio das quais deve ser realizada. As formas de sensibilidade e as categorias do pensamento humano, elas mesmas manifestações dessa força, limitam a mente num grau tão considerável, que normalmente é impossível, não apenas ver, como também conceber, além do colorido, fluido, infinitamente variado e deslumbrante espetáculo fenomênico. A função do ritual e do mito consiste em possibilitar e, por conseguinte, em facilitar, o salto – por analogia [1].

Formas e conceitos que a mente e seus sentidos podem compreender são apresentados e organizados de um modo capaz de sugerir uma verdade ou uma abertura que se encontram mais além. Tendo sido criadas as condições para a meditação, o indivíduo é deixado consigo mesmo, sozinho. O mito não é senão o penúltimo nível; o nível último é a abertura – o vazio, ou ser, que se acha além das categorias –, na qual a mente deve mergulhar sozinha e ser dissolvida [2]. Portanto, Deus e os deuses são apenas meios convenientes [3] – eles mesmos compartilham da natureza do mundo de nomes e formas, embora sejam eloquentes referências do inefável a que, em última análise, levam. São meros símbolos destinados a despertar e pôr a mente em movimento, bem como chamá-la a ir ao seu encontro.

Esse reconhecimento da natureza secundária da personalidade de toda divindade cultuada é característico da maioria das tradições do mundo. No cristianismo, no islamismo e no judaísmo, todavia, ensina-se que a personalidade da divindade é final – o que torna completamente difícil, para os membros dessas crenças, a compreensão do modo pelo qual é possível ir além das limitações de suas próprias divindades antropomorfas. O resultado tem sido, de um lado, um obscurecimento geral dos símbolos e, de outro, um fanatismo, voltado para os deuses, sem precedentes na história da religião [4].

O céu, o inferno, a era mitológica, o Olimpo, bem como as outras moradas dos deuses, são interpretados, pela psicanálise, como símbolos do inconsciente. [...] Como diz Jesus: “Porque eis que o reino de Deus está dentro de vós” [5]. Com efeito, o sentido de que se reveste a imagem bíblica da Queda é precisamente a passagem da supraconsciência para o estado de inconsciência. A constrição da consciência, à qual devemos o fato de não vermos a fonte da força universal mas, tão somente, as formas fenomênicas que ela reflete [6], transforma a supraconsciência em inconsciência e, no mesmo instante, precisamente ao fazê-lo, cria o mundo. A redenção consiste em retornar a supraconsciência e, por intermédio desse retorno, a dissolução do mundo.

Aí temos o grande tema, bem como a fórmula, do ciclo cosmogônico, a imagem mítica do processo de manifestação do mundo e do subsequente retorno à condição imanifesta [7]. Do mesmo modo, o nascimento, e vida e a morte do indivíduo podem ser considerados como uma descida à inconsciência, seguida de um retorno [8]. O herói é aquele que, embora ainda se encontre vivo, conhece e representa os apelos da supraconsciência – que é, ao longo da criação, mais ou menos inconsciente. A aventura do herói marca o momento em que este, embora ainda esteja vivo, descobriu e abriu o caminho da luz, para além dos sombrios limites de nossa morte em vida [9].

Assim é que os símbolos cósmicos são apresentados num espírito de sublime paradoxo, que põe o pensamento em polvorosa. O reino de Deus está dentro de nós e, não obstante, também está fora de nós; Deus, todavia, não é senão um meio conveniente de despertar a bela adormecida, a alma. A vida é o seu sono; a morte, o despertar [10]. O herói, aquele que desperta a própria alma, não é mais do que o meio conveniente de sua própria dissolução. Deus, aquele que desperta a alma, é, nesse sentido, sua própria morte imediata.

Provavelmente o símbolo mais eloquente possível deste mistério seja o do deus crucificado, o deus oferecido “ele mesmo a si mesmo”. Entendido numa das direções, o sentido é a passagem do herói fenomênico para a supraconsciência: o corpo, com os cinco sentidos – semelhante ao do Príncipe Cinco Armas grudado a Cabelo Pegajoso –, fica pendendo da cruz do conhecimento da vida e da morte. [...] Mas é igualmente verdadeiro que Deus desceu voluntariamente e colocou sobre si mesmo a carga de sua agonia fenomênica. Deus assume a vida do homem, que liberta o Deus que se acha em seu interior no ponto médio do cruzamento das hastes da mesma “coincidência de opostos”, a mesma porta do sol pela qual Deus desce e o homem sobe – Deus e o homem se alimentam mutuamente [11].

O estudioso moderno certamente pode examinar esses símbolos como lhe aprouver, quer como sintoma da ignorância do outro, ou como algo que lhe assinala a própria ignorância; quer em termos de uma redução da metafísica à psicologia, ou em sentido inverso. A forma tradicional consistia em meditar sobre os símbolos em ambos os sentidos. De qualquer maneira, os símbolos são metáforas reveladoras do destino do homem, bem como de sua esperança, fé e obscuro mistério.

***

[1] Muitos compreendem os mitos de forma superficial, como se todos os que utilizam os mitos acreditassem literalmente que seres de pele azulada com enormes cabeçorras de elefante realmente andam pelos montes da Índia. Para estes o salto seria um “salto de fé”. Mas, para os que conhecem os mitos, e os sabem utilizar, tal salto é nada mais que um salto de compreensão ou, talvez, se poderia igualmente dizer: um salto da imaginação, da intuição e da consciência.

[2] Há uma longa discussão acerca de se a mente é aniquilada, ou apenas o “eu”, a personalidade desta vida. Quando místicos dizem “eu já não vivo, mas Deus vive em mim”, obviamente ainda preservam resquícios de sua antiga personalidade, porém, de agora em diante, vivem segundo os desígnios do Cosmos (ver, por exemplo, a parte final da Ética de Espinosa, para uma abordagem filosófica deste mesmo conceito). Como reencarnacionista, eu obviamente creio que apenas as personalidades se vão (como não somos, de fato, os mesmos de 15 anos atrás), enquanto que as potencialidades, as essências, caminham sempre à frente.

[3] Há que se separar aqui o conceito de “Deus” do conceito da “existência”, ou do antigo problema: “porque existe algo, e não nada?”.

[4] No livro, este parágrafo em realidade era uma nota ao final do parágrafo anterior. Devido à importância da nota, decidi trazê-la para cá.

[5] Lucas 17:21. O que não é tão frequentemente lembrado no Novo Testamento, por outro lado, é repetido inúmeras vezes no Evangelho de Tomé e outros textos gnósticos.

[6] Voltando a Espinosa: vemos as infinitas irradiações e divisões da Substância, mas não vemos a Substância em si – ou, pelo menos, não com os olhos.

[7] Somos irradiados de Deus, de uma ancestral condição de supraconsciência, e somos obrigados a viver no mundo manifesto, com uma consciência nublada de nossa origem que, não obstante, ainda paira nos arcabouços do inconsciente. O caminho de retorno, de religação ao Cosmos de onde viemos um dia, nada mais é do que a origem (inclusive etimológica) do conceito de religião, religare, religação, reconexão: Eis o ciclo cosmogônico presente em toda mitologia.

[8] Considerando a imensidade de vidas por que passamos, devemos igualmente considerar que este ciclo de nascimento, vida e morte, não é único e, portanto, serão ainda muitos mundos deixados para trás, e muitos mundos ainda por se manifestar.

[9] A única certeza que temos todos é a de que a morte não existe: o máximo que pode existir é vida após a vida. E, em não existindo uma continuidade, a morte também é nada. No entanto, há muitos de nós que vivem como se estivessem mortos, sem o pleno domínio de sua vontade, imaginação, intuição, liberdade, etc. A esta “morte” poderíamos chamar estagnação – e a Natureza detesta estagnação, daí que a dor é o melhor remédio para aqueles que temem simplesmente amar.

[10] A essa altura você já deve ter percebido que esta “morte” significa um renascimento em vida, um despertar da consciência, da bela adormecida, da alma. Vide nota acima.

[11] “Nós somos uma forma do Cosmos conhecer a si mesmo”, já intuiu alguém pleno de espiritualidade.

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Crédito da foto: Roy McMahon/Corbis

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26.2.12

Da mitologia a psicologia, parte 1

Texto de Joseph Campbell em "O herói de mil faces” (Ed. Cultrix/Pensamento) – pgs. 251 a 255. Tradução de Adail Ubirajara Sobral. As notas ao final são minhas.

O intelectual moderno não encontra dificuldades em admitir que o simbolismo da mitologia se reveste de um significado psicológico. [...] Com a descoberta de que os padrões e a lógica do conto de fadas e do mito correspondem aos do sonho, feita pelos grandes psicanalistas [1], as quimeras há muito desacreditadas do homem arcaico voltaram, de modo dramático, ao plano principal da consciência moderna [2].

Nos termos dessa concepção, há razões para crer que, através dos contos maravilhosos – cuja pretensão é descrever a vida dos heróis lendários, os poderes das divindades da natureza, os espíritos dos mortos e os ancestrais totêmicos do grupo –, é dada uma expressão simbólica dos desejos, temores e tensões inconscientes que se acham subjacentes aos padrões conscientes do comportamento humano. Em outras palavras, a mitologia é psicologia confundida com biografia, história e cosmologia [3]. O psicólogo moderno tem condições de retraduzi-la em suas denotações próprias e, desse modo, recuperar para o mundo contemporâneo um rico e eloquente documento das camadas mais profundas do caráter humano.

[...] Devemos notar que os mitos não são passíveis de uma comparação exata com os sonhos. As figuras dos mitos dos sonhos têm as mesmas fontes de origem – os poções inconscientes da fantasia –, assim como a mesma gramática; contudo, os mitos não são produtos espontâneos do sono. Pelo contrário, seus padrões são conscientemente controlados. E sua função conhecida consiste em servir como poderosa linguagem pictorial para fins de comunicação da sabedoria tradicional. Isso já se aplica, inclusive, às chamadas mitologias folclóricas primitivas. O xamã suscetível ao transe e o sacerdote-antílope iniciado não carecem de sofisticação em seu conhecimento do mundo, nem são inábeis na utilização dos princípios da comunicação por meio a analogia [4]. As metáforas pelas quais vivem e por meio das quais operam foram objeto de longa meditação, de pesquisas e de discussão ao longo de séculos – ou mesmo milênios [5]; além disso, serviram a sociedades inteiras como as principais bases do pensamento e da vida.

Os padrões culturais foram moldados a elas. Os jovens foram educados, e os anciãos se tornaram sábios, por intermédio do estudo, da experiência e da compreensão de suas efetivas formas iniciatórias [6]. Pois essas metáforas na realidade tocam e põem em jogo as energias vitais de toda a psique humana. [...] Onde os símbolos herdados receberam o toque de um Lao-tsé, de um Buda, de um Zoroastro, de um Cristo ou de um Maomé – empregados, por um mestre consumado do espírito, como veículo da mais profunda instrução moral e metafísica –, estamos, evidentemente, na presença de uma imensa consciência, e não diante das trevas.

Por conseguinte, para perceber o pleno valor de que se revestem as figuras mitológicas que chegaram até nós, faz-se necessário compreender que elas não são, tão somente, sintomas do inconsciente (como o são efetivamente todos os pensamentos e atos humanos), mas também declarações controladas e intencionais de determinados princípios de cunho espiritual, que permaneceram constantes ao longo do curso da história humana, como a forma e a estrutura nevrálgica da própria psique humana.

Em termos sucintos: a doutrina universal ensina que todas as estruturas visíveis do mundo – todas as coisas e seres – são o efeito de uma força ubíqua de que emergem, força essa que os sustenta e preenche no decorrer do período de sua manifestação e para qual eles devem retornar quando de sua dissolução última. Trata-se da força que a ciência conhece como energia [7], os melanésios como mana, os índios sioux como wakonda, os hindus como shakti e os cristãos como o poder de Deus. Sua manifestação na psique é denominada, na psicanálise, libido. E sua manifestação no cosmo constitui a estrutura e o fluxo do próprio universo.

» A seguir, a fórmula do ciclo cosmogônico...

***

[1] Campbell cita alguns: Sigmund Freud, Carl G. Jung, Wilhelm Stekel, Otto Rank e Karl Abraham.

[2] Primeiro o racionalismo relegou toda mitologia arcaica há mera superstição, porém, ao se deparar com os mistérios da mente humana, foi obrigado a elaborar teorias acerca não somente da origem dos mitos na pré-história, como da razão de eles permanecerem “vivos” até os dias atuais. Enquanto o próprio Campbell, com sua teoria do Monomito, teoriza que toda a mitologia humana se concentra em ideias universais da psique, Jung fala em um Inconsciente Coletivo, e mesmo Dawkins elaborou o conceito dos Memes. Nenhuma dessas teorias é “comprovada”, mas alguns dos materialistas eliminativos, a despeito de sequer acreditarem na existência de uma mente humana, curiosamente adotaram os Memes como uma “teoria quente”.

[3] Os heróis lendários de outrora hoje nada mais são do que os super-heróis e “jovens bruxos” da mitologia moderna, que embora movimente muito dinheiro na indústria do entretenimento mundial, nada mais são do que mitos “diluídos”, para que a sociedade “racionalista” os possa “apreciar” sem pensar muito acerca da própria existência – ou, talvez fosse possível resumir: sem pensar quase nada, sem refletir.

[4] Por serem incapazes de compreender metáforas, alguns ditos “racionalistas” prontamente classificaram as pinturas rupestres como “arte primitiva, sem grande significado”. Mas, como alguns antropólogos modernos têm descoberto, em realidade as pinturas nas cavernas eram plenas de significados que, a despeito de terem permanecido ocultos para nós por praticamente um século (desde a descoberta das cavernas), não significa, obviamente, que eram incompreensíveis para nossos ancestrais. Sobre o assunto, recomendo o monumental Sobrenatural, de Graham Hancock (Nova Era).

[5] Existem registros de pinturas rupestres com pelo menos 32 mil anos de idade (vide nota acima).

[6] Hoje em dia é muito simples armazenar e divulgar informações, mas na pré-história nossos sábios ancestrais eram obrigados a confiar apenas na memória, na tradição oral e em alguns parcos registros pictóricos em cavernas guardadas aos iniciados. Não porque se tratasse de uma “elite” que queria guardar o conhecimento para si, mas exatamente o oposto: por se tratar de seres que tanto valorizavam o conhecimento, que os “inseriam” na mitologia, pois que sabiam que apenas a mitologia iria sobreviver àqueles tempos inóspitos (inclusive antes da invenção da escrita).

[7] No princípio era tudo energia, se existe um conceito em que tanto a cosmologia moderna quanto a religião concordam é que tudo o que há surgiu nalgum tempo muito longínquo de uma singularidade misteriosa – de fato, fez-se a luz!

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Crédito da imagem: PoodlesRock/Corbis (Hércules enfrenta o monstro enviado pelo Rei Minos, mitologia grega)

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20.2.12

A Festa dos Loucos

Texto de Alain de Botton em “Religião para ateus” (Ed. Intrínseca), tradução de Vitor Paolozzi – Trechos das pgs. 51 a 56. A introdução e os comentários ao final são meus.

Introdução
Neste livro provocativo (e muito corajoso), Alain, que se declara ateu, defende que a sociedade secular tem muito o que aprender com os aspectos positivos das grandes instituições religiosas. Aspectos esses que podem muito bem sobreviver mesmo quando Deus é deixado de lado. Neste trecho em específico ele faz um elogio ao senso de comunidade presente nas religiões organizadas...

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As religiões são sábias ao não esperar que lidemos sozinhos com todas as nossas emoções. Sabem como pode ser confuso e humilhante admitir desespero, luxúria, inveja ou egomania. Compreendem a dificuldade que temos para encontrar uma maneira de dizer à mãe, sem ajuda, que estamos furiosos com ela, ao filho que o invejamos ou ao futuro cônjuge que a ideia de casamento assusta tanto quanto alegra. As religiões, desse modo, nos dão dias especiais para que neles os sentimentos perniciosos possam ser processados. Elas nos dão versos para recitar e músicas para cantar enquanto nos transportam através das regiões traiçoeiras de nossas mentes.

Em essência, as religiões entendem que pertencer a uma comunidade é ao mesmo tempo bastante desejável e nada fácil. A esse respeito, são muito mais sofisticadas que os estudiosos seculares de teoria política que escrevem de forma lírica sobre a perda de um senso de comunidade enquanto se recusam a reconhecer os aspectos inteiramente obscuros da vida social [1]. As religiões nos ensinam a ser educados, a honrar uns aos outros e a ser fiéis e sóbrios, mas também sabem que, se não nos permitirem o contrário de vez em quando, quebrarão nosso espírito. Em seus momentos mais sofisticados, as religiões aceitam a dívida que bondade, fé e doçura têm com seus opostos.

O cristianismo medieval certamente compreendia essa dicotomia. Durante a maior parte do ano, pregava solenidade, ordem, moderação, camaradagem, sinceridade, amor a Deus e decoro sexual, e, então, na noite do ano-novo, abria as portas da psique coletiva e dava início ao festum fatuorum, a Festa dos Loucos. Durante quatro dias, o mundo ficava de cabeça para baixo: membros do clero jogavam dados em cima do altar, zurravam como burros em vez de dizer “amém”, faziam competições de bebedeira na nave, peidavam como acompanhamento à ave-maria e faziam sermões de galhofa, baseados em paródias do Evangelho (o Evangelho segundo o Traseiro da Galinha, o Evangelho segundo a Unha do Pé de Lucas). Após beber canecas de cerveja, eles seguravam os livros sagrados de ponta-cabeça, faziam orações para vegetais e urinavam em cima das torres dos sinos. “Casavam” burros, amarravam pênis gigantes de lã em suas batinas e tentavam fazer sexo com homens ou mulheres dispostos a tanto [2].

Mas nada disso era considerado apenas uma piada. Era sagrado, uma parodia sacra idealizada para garantir que durante todo o resto do ano as coisas permanecessem em ordem. Em 1445, a Faculdade de Teologia de Paris explicou aos bispos da França que a Festa dos Loucos era uma evento necessário no calendário cristão, “para que a insensatez, que é nossa segunda natureza, e inerente ao homem, possa se dissipar livremente pelo menos uma vez ao ano [3]. Barris de vinho de tempos em tempos estouram se não os abrimos para entrar um pouco de ar. Todos nós, homens, somos barris reunidos inadequadamente, e é por isso que permitimos à tolice em certos dias: para que, no fim, possamos regressar com maior fervor ao serviço de Deus”.

A moral que devemos tirar é que, se desejamos comunidades que funcionem bem, não podemos ser ingênuos quanto à nossa natureza. Precisamos aceitar a profundidade de nossos sentimentos destrutivos, antissociais. Não deveríamos exilar na periferia as festas e libertinagens para serem limpas pela polícia e condenadas por comentaristas. Deveríamos dar ao caos um lugar de destaque pelo menos uma vez por ano, designando ocasiões em que podemos ficar brevemente isentos das duas maiores pressões da vida adulta secular: ser racional e fiel. Deveríamos ter permissão para falar bobagens, amarrar pênis de lã em nossos casacos e cair na noite para festejar e copular aleatória e alegremente com estranhos e, então, retornar na manhã seguinte para nossos parceiros, que também teriam saído fazendo coisas semelhantes, ambos cientes de que não era nada pessoal, que foi a Festa dos Loucos que provocou as ações [4].

Aprendemos com a religião mais que os encantos da comunidade. Aprendemos também que uma boa comunidade aceita o que há em nós que, na verdade, não deseja a comunidade – ou, ao menos, não pode tolerá-la o tempo inteiro em suas formas ordenadas. Se temos nossas festas do amor, também devemos ter nossas festas dos loucos [5].

***

[1] O modernismo e o racionalismo nos prometeram uma nova sociedade humanista, profundamente culta, organizada e, sobretudo, racional. Mas esqueceram de guardar um lugar para a loucura e as experiências religiosas, pois acharam que, com o tempo, elas simplesmente seriam deixadas de lado por todos, esquecidas... O pós-modernismo nos trouxe duas polaridades: De um lado, os religiosos que, além de não terem abandonado as experiências religiosas, pelo contrário, se voltaram para elas com ainda mais afinco – vide o crescimento dos movimentos evangélicos carismáticos, e de seitas de Nova Era em geral; De outro lado, os não religiosos, que não apenas jamais abandonaram totalmente a loucura, como têm tido imensa dificuldade em viver como seres “perfeitamente racionais”, e o avanço da depressão e do culto ao sexo exacerbado são apenas os sintomas mais visíveis deste fato.

[2] Como muitos outros ritos do cristianismo, a Festa dos Loucos tem origens bem mais antigas. Em Roma, havia uma festa homônima, onde vários representantes do panteão mitológico romano eram homenageados e adorados, entre eles Júpiter (senhor do Universo e do dia), perpassando tal deferência por Saturno (deus da agricultura) e finalizando-se os festejos na adoração e culto a Baco. Muitas culturas ainda mais antigas, no entanto, tinham a sua versão para a Festa dos Loucos: Na Antiguidade, essa festa era uma prática religiosa relacionada à fertilidade do solo. Era uma espécie de culto agrário em que os foliões comemoravam a boa colheita, o retorno da primavera e a benevolência dos deuses. No contexto da cultura egípcia, os ritos "festivos" constituíam-se, também, de oferendas ao deus Osíris, devido ao recuo das águas do rio Nilo. Os gregos aproveitavam o momento para homenagear Dionísio, deus do vinho e da loucura, e também Momo, o deus da zombaria.

[3] Segundo o padre e filósofo Anselmo Borges, “o homem não é só sapiens. Ele é sapiens e demens (sapiente e demente). Por mais que a sociedade tente ‘normalizar’ comportamentos, haverá sempre explosões de alegria, excessos, desmesuras e loucuras”.

[4] Antes colocar “na conta” da Festa dos Loucos nossos momentos anuais de afloramento da loucura “guardada em caixas do inconsciente”, do que deixá-la lá, trancada, causando sabe lá quais danos psíquicos. Claro que, existem outras formas menos “festivas” de lidar com essa loucura, mas isso cabe aos poucos sábios e místicos que aprenderam a lidar com ela, e dificilmente aqueles que foram educados para ser “racionais 100% do tempo”. Antes deixar essa loucura aflorar em uma festa de alegria e paz, ainda que regada a uma boa dose de sexo desenfreado, do que deixá-la se transformar em amargura, angústia, violência, preconceito, moralismo exacerbado e, finalmente, em puritanismo (o grande medo de que, em algum lugar, alguém possa simplesmente estar vivendo a vida, feliz). Ou, em outras palavras: faça amor, não faça guerra – nem que seja apenas uma vez ao ano.

[5] É claro que, a essa altura você já deve ter percebido, a Festa dos Loucos nada mais é, nos dias atuais, que o Carnaval. Ela sobreviveu, portanto, as civilizações e sociedades, desde a Antiguidade, pois talvez seja mesmo algo intrínseco ao ser humano.
Ainda se discute o significado do termo “Carnaval”: Para alguns, seria carrum navale (carro naval). Nas Saturnais, em Roma, um carro em forma de navio abria caminho por entre a multidão, que usava máscaras e se divertia. Já antes, na Grécia, se realizavam as célebres procissões dionisíacas, nas quais a imagem de Dioniso era transportada em navios com rodas, simbolizando que o deus tinha chegado a Atenas pelo mar. O significado mais aceito, entretanto, é carne vale: "Viva a carne!", enquanto "adeus à carne", na medida em que, antes da entrada no período quaresmal de 40 dias com jejuns, abstinência e sacrifícios, se festeja exaltadamente. Daí que o Carnaval esteja mais ligado à tradição de países católicos e que continuem expressões como "Domingo Gordo" e "Mardi Gras" (Terça-Feira Gorda).
Viva, enfim, o Carnaval, da melhor maneira que conseguir, como uma festa sagrada da vida e da loucura passageira, para que, no restante do ano, consiga deixar sua loucura lá, “domesticada”, amigável, à espera da próxima Festa. Para que a loucura, nalgum dia, não assuma o controle: “Você me deixou escondida por muito tempo, agora é a minha vez, e não terá mais volta!”

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Crédito da foto: Scott Stulberg/Corbis

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15.2.12

Schiller e a dimensão estética

Texto de Viviane Mosé em "O homem que sabe” (Ed. Civilização Brasileira) – pgs. 147 a 150. As notas ao final são minhas.


Somente através da beleza da manhã é possível penetrar a terra do conhecimento (Schiller)


Para Anatol Rosenfeld [1], a concretização de muitas ideias kantianas apenas esboçadas coube a Schiller, especialmente no domínio da estética.

O homem, pensa Schiller, é determinado pelas forças da natureza e, na grande maioria das vezes, perde para ela. A única liberdade humana consiste em não se deixar escravizar, o que implica exercer o senso moral por meio da linguagem e do pensamento [2]. A capacidade humana de criar valores representa o domínio próprio do homem; eles são o modo humano de se contrapor à natureza, por isso não derivam da necessidade, mas da liberdade. É por “claro saber e livre decisão” que o homem troca o estatuto de independência, no estado natural, pelo do contrato, no estado moral. [3]

No entanto, esta contraposição entre a natureza de um lado e o homem de outro se compõe com um combate que pode aniquilar o homem, porque gera uma luta sem fim [4]. Somente o senso estático, ele diz, como um terceiro caráter, pode fazer a ponte entre estes dois domínios [5]; é ele que desfaz esta polaridade, porque aproxima o que a razão afasta. Se a razão teórica precisa decompor, separar, o senso estético se caracteriza por compor, aproximar. O senso estético existe para reunir o que a razão teve de separar.

Enquanto apenas luta contra a natureza, por meio do conhecimento que fragmenta o mundo tentando conhecê-lo ou dominá-lo, o homem perde, porque, em última instância, é sempre finito, mortal [6]. Mas ele pode, auxiliado pelo senso estético, não lutar contra o mundo, o que implica em não fragmentá-lo, mas se ver inserido nele e, fortalecido pelo sentimento de pertencimento, tornar-se capaz de lidar com as perdas. A faculdade do juízo, diz Kant, é a capacidade de pensar o particular contido no universal, por isso somente ela é capaz de desfazer a unidade fictícia e provisória do sujeito particular, reinserindo-o na totalidade que o sustenta e alimenta [7]. É a sua consciência individual, ou seja, é o saber de si como provisório que o faz sofrer. Quando o homem se sente inserido no todo, o sofrimento particular perde importância e ele, então, não sucumbe, e vence a natureza não pela força, mas pelo puro exercício da liberdade moral, que fortalece, amplia, alarga a alma.

A faculdade de julgar, ao se construir como uma livre combinação entre as faculdades, sem a necessidade de emitir um juízo sobre o objeto, mas sobre si mesma, termina por entrar em uma relação de harmonia com a natureza, dando esta sensação de pertencimento, de entendimento sem conceito, de participação [8]. A dimensão estética, o lugar por excelência do sentir, que elabora os afetos, é também aquilo que nos alimenta e fortalece [9]. Em vez de apenas buscar vencer objetivamente o mundo, o homem pode, ainda e fundamentalmente, fortalecer a si mesmo para ser capaz de lidar com o mundo. A elaboração do sentir, que acontece no juízo de gosto, resulta neste fortalecimento do homem, especialmente porque se dá no próprio homem, não está em relação de causalidade com nada exterior a ele, com nenhum objeto. O senso estético diz respeito a como nos sentimos em relação ao mundo, não diz respeito ao mundo, por isso se dá no domínio da liberdade e não da necessidade.

Mas a elaboração da faculdade de sentir também interfere no domínio teórico da razão, quer dizer, em nossa inteligência argumentativa, filosófica e científica. Nossa capacidade estética é uma das três dimensões essenciais da razão pura, que, para exercer o seu domínio, como razão teórica, prática ou estética, precisa da integração destas três faculdades: sensibilidade, imaginação, entendimento [10]. A cultura deve, por isso, cuidar para que a razão se institua pelo desdobramento integrado dos diferentes domínios que a compõe, o que exige uma mobilização integral das potencialidades do humano. Um caráter pleno é aquele no qual a saúde da cabeça, do pensamento, e a pureza da vontade, do corpo, formam um todo [11].

Esta totalidade dos diferentes domínios do humano, que Schiller percebe fragmentados e isolados em seu tempo, no entanto, estava harmoniosamente integrada na cultura grega arcaica:

“Naqueles dias do belo acordar das forças espirituais, os sentidos e o espírito não tinham, com rigor, domínios separados. [...] Por mais alto que a razão subisse, arrastava sempre consigo, amorosa, a matéria, e por finas e nítidas que fossem as suas distinções, nada ela mutilava. Embora decompusesse a natureza humana para projetá-la, aumentada em suas partes, no maravilhoso círculo dos deuses, não o fazia rasgando-a em pedaços, mas sim compondo-a de maneiras diversas, já que em deus algum faltava a humanidade inteira. Quão outra é a situação entre nós mais novos. [...] Eternamente acorrentado a uma pequena partícula do todo, o homem só pode formar-se enquanto partícula.” [12]

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[1] Crítico e teórico de teatro germano-brasileiro que escreveu a introdução de Cartas sobre a educação estética da humanidade, de Friedrich Schiller. O texto de Mosé é centrado nesta obra específica do filósofo alemão.

[2] Por isso todo livre-pensador, religioso ou não, irá defender que só é verdadeiramente livre quem exercita seu próprio pensamento.

[3] O contrato da vida em sociedade pede que respeitemos a liberdade dos outros e, consequentemente, por vezes limitemos a nossa. Mas é de bom grado que o sábio limita a própria liberdade, pois no fundo sabe que dessa “limitação”, virá liberdade ainda maior – o amor.

[4] Darwin a chamou de “a guerra da fome e da morte”. Obviamente no estágio humano nossa questão com a natureza não é mais exatamente a sobrevivência através da caça e coleta, mas a busca pela vivência em um mundo infestado por ideias em conflito.

[5] A ponte entre um território de morte e um território de vida – o amor. Como podem ver este remédio-pensamento tem mesmo inúmeras utilidades.

[6] E, se fosse infinito e imortal, não haveria necessidade de lutar contra a natureza, em todo caso. O homem, como aliás todo ser vivo tendendo a consciência, é um ciclo de existências frágeis e finitas, mas que se renovam e renovam, tendendo a uma consciência cada vez mais apurada. Sem a morte não haveria vida cíclica, nem evolução alguma.

[7] O Chefe Seattle já dizia que o homem não tece a teia da vida: é apenas um fio dela. O que fizer a teia, fará a si próprio. Nesse jogo cíclico de personalidades que vem e vão, sábio é aquele que mira na potencialidade, no particular conectado ao universal, assim como todos estamos, em última instância, conectados pelos átomos a formar o Cosmos detectável.

[8] Julgar os outros considerando não o que um indivíduo fez ao outro, mas o que um grande conjunto de seres fazem e são levados a fazer, em suas relações uns com os outros, e com a Natureza à volta – e, finalmente, guardar o julgamento apenas para si. Que melhor receita para a sabedoria?

[9] Agora vocês já sabem: o amor alimenta, o amor fortalece.

[10] Poderíamos substituir “entendimento” por “tolerância”, para nos adequarmos melhor à linguagem atual.

[11] Poderíamos usar apenas esta última frase isolada, e diriam se tratar de um texto místico oriental, e não filosófico ocidental. A grande diferença entre as abordagens, entretanto, fica restrita ao campo da linguagem – em essência, falam sobre uma mesma coisa.

[12] Schiller, Cartas sobre a educação estética da humanidade, carta VI. Reparem como Schiller não tem pudores em usar a palavra “espírito”, enquanto Mosé parece fugir da menção a todo custo. É o “preconceito velado da palavra”, ou algo assim, muito comum nos dias fragmentados de hoje.

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Crédito da foto: Wikipedia (monuemnto em Weimar com estátuas de Goethe e Schiller, os grandes poetas alemães, lado a lado - eles eram bons amigos em vida)

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8.2.12

Schopenhauer educador

Texto de Friedrich Nietzsche em "Escritos sobre a educação” [1]. As notas ao final são minhas.

Somente os artistas detestam este andar negligente [2], com passos contados, com modos emprestados e opiniões postiças, e revelam o segredo, a má consciência de cada um, o princípio segundo o qual todo homem é um milagre irrepetível; somente eles se atrevem a nos mostrar o homem tal como ele propriamente é, e tal como ele é único e original em cada movimento de seus músculos, e mais ainda, que ele é belo e digno de consideração segundo a estrita coerência da sua unicidade, que é novo e incrível como todas as obras da natureza e de maneira nenhuma tedioso.

Quando o grande pensador despreza os homens, é a preguiça destes que ele despreza, pois é ela que dá a eles o comportamento indiferente das mercadorias fabricadas em série, indignas de contato e ensino [3]. O homem que não quer pertencer à massa só precisa deixar de ser indulgente consigo mesmo; que ele siga sua consciência que lhe grita: “Sê tu mesmo! Tu não és isto que agora fazes, pensas e desejas.”

Toda alma jovem ouve este apelo dia e noite, e estremece; pois ela pressente a medida de felicidade que lhe é destinada de toda a eternidade, quando pensa na sua verdadeira emancipação: felicidade à qual de nenhum modo alcançará de maneira duradoura enquanto permanecer nas cadeias da opinião corrente e do medo. E como pode ser desesperada e desprovida de sentido a vida sem essa libertação! [4]

[...] Qual não seria a aversão das gerações futuras, quando tivessem de se ocupar com a herança deste período, em que não são os homens vigorosos que governam, mas os arremedos de homem, os intérpretes da opinião. Esta é a razão por que nosso século passará, talvez, para uma longínqua posteridade, como o momento mais obscuro e desconhecido, como período mais inumano da história. [...] Mas, ainda que o futuro nos deixasse qualquer esperança, a singularidade da nossa existência nesse momento preciso é o que nos encorajaria mais fortemente a viver segundo a nossa própria lei e conforme a nossa própria medida: quero falar sobre este fato inexplicável de vivermos justamente hoje, quando dispomos da extensão infinita do tempo para nascer, quando não possuímos senão o curto lapso de tempo de um hoje e quando é preciso mostrar nele por que razões e para que fins aparecemos exatamente agora.

Temos de assumir diante de nós mesmos a responsabilidade por nossa existência, por conseguinte, queremos agir como os verdadeiros timoneiros desta vida, e não permitir que nossa experiência pareça uma contingência privada de pensamento. Esta existência quer que a abordemos com ousadia e também com temeridade, até porque, no melhor ou no pior dos casos, sempre a perderemos. Por que se agarrar a este pedaço de terra, a esta profissão, por que dar ouvidos aos propósitos do vizinho? É igualmente provinciano jurar obediência a concepções que, em centenas de outros lugares, não obrigam mais. O Ocidente e o Oriente são linhas imaginárias que alguém traça com um giz diante de nossos olhos, para enganar a nossa pusilanimidade.

Vou tentar alcançar a liberdade, diz para si a jovem alma. Não obstante, seria ela disso impedida pelo fato de o acaso querer que duas nações se odeiem e entrem em guerra, ou pelo fato de um mar separar dois continentes, ou pelo fato ainda de ensinar em torno dela uma religião que já não existia há milhares de anos? Tu não és propriamente nada disso, diz ela para si. Ninguém pode construir no teu lugar a ponte que te seria preciso tu mesmo transpor no fluxo da vida – ninguém, exceto tu.

[...] Que a jovem alma se volte retrospectivamente para sua vida e faça a seguinte pergunta: “O que tu verdadeiramente amaste até agora, que coisas te atraíram, pelo que tu te sentiste dominado e ao mesmo tempo totalmente cumulado? Faz passar novamente sob teus olhos a série inteira destes objetos venerados, e talvez eles te revelem, por sua natureza e por sua sucessão, uma lei, a lei fundamental do teu verdadeiro eu. Compare esses objetos, observe como eles se completam, crescem, se superam, se transfiguram mutuamente, como formam uma escala graduada através da qual até agora te elevaste até o teu eu. Pois tua essência verdadeira não está oculta no fundo de ti, mas colocada infinitamente acima de ti, ou pelo menos, daquilo que tomas comumente como sendo teu eu. Teus verdadeiros educadores, aqueles que te formarão, te revelarão o que são verdadeiramente o sentido original e a substância fundamental da tua essência, algo que resiste absolutamente a qualquer educação e a qualquer formação, qualquer coisa em todo caso de difícil acesso, como um feixe compacto e rígido: teus educadores não podem ser outra coisa senão teus libertadores.” [5]

E eis aí o segredo de toda formação, ela não procura os membros artificiais, os narizes de cera, os olhos de cristal grosso; muito pelo contrário, o que nos poderia atribuir estes dons seria somente uma imagem degenerada desta formação. Ao contrário, aquela outra educação é somente libertação, extirpação de todas as ervas daninhas, dos dejetos, dos vermes que querem atacar as tenras sementes das plantas. Ela é efusão de luz e calor, o murmúrio amistoso da chuva noturna; ela é limitação e adoração da natureza no que esta tem de maternal e misericordioso, ela consuma a natureza quando, conjurando os acessos impiedosos e cruéis, os faz levar a bom termo, quando lança o véu sobre suas intenções de madrasta e as manifestações de sua triste cegueira [6].

Certamente, existem outros meios de se encontrar a si mesmo, de escapar do aturdimento no qual nos colocamos habitualmente, como envoltos numa nuvem sombria, mas não conheço coisa melhor do que se lembrar dos nossos mestres e educadores. É por isso que vou lembrar hoje o nome do único professor, o único mestre de quem eu posso me orgulhar, Arthur Schopenhauer, para só me lembrar de outros mais tarde.

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[1] Minha fonte é o texto transcrito ao final do livro da filósofa Viviane Mosé: O homem que sabe (Civilização Brasileira); por isso não cito o tradutor.

[2] Nietzche inicia o artigo criticando o comodismo e a preguiça da maior parte dos homens de sua época, por questões de espaço pulei o trecho inicial.

[3] Se a crítica de Nietzche já foi feroz em sua própria época, imagina o que ele pensaria acerca de nossa “cultura de massa”: do marketing, dos fast-foods (da mente), dos ídolos pop, etc.

[4] Dogmáticos podem pensar que o sentido da vida já está muito bem descrito em seus manuais de verdade absoluta ou códices de ciência infalível. Porém, na medida em que o sentido da vida é pessoal e intransferível, o sentido da sua vida, e de ninguém mais, o dogma é apenas uma represa para um rio que busca, eternamente, desaguar no oceano da liberdade.

[5] Embora os conhecimentos gerais, assim como as regras básicas de convívio em sociedade, possam e devam ser ensinados a todos, é inútil pretender que pessoas são como computadores de informação, e não como seres sensíveis, capazes de interpretar o mundo a sua volta, capazes de uma vontade própria, particular. Enquanto o sistema educacional continuar tratando seres como máquinas, a arte e a filosofia terão grande dificuldade em aflorar, e a ciência se reduzirá aos “mandamentos da Academia”.

[6] Muitos torcem o nariz para a filosofia de Nietzche devido ao seu forte conteúdo poético, por vezes repleto de metáforas de difícil interpretação... Não me parece que o filósofo alemão esperava ser interpretado somente de uma mesma maneira; Em realidade, acho que ele usou de seu formidável talento, se esforçou para que sua literatura não fosse rio represado a desaguar sempre no mesmo lago, mas pensamento vaporoso capaz de chover em vastos e diversos territórios.

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Crédito da imagem: Quino

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