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3.3.12

O sétimo deus

Este conto é uma continuação, ou epílogo, do conto “o sexto deus”, também publicado no Portal TdC. E foi baseado num comentário lá (da Mariana) que surgiu a inspiração para este novo conto...

Após os outros deuses terem deixado a fazenda, ainda angustiados com a falta de uma resposta clara acerca do futuro de seu sistema de existência, o Sábio falou ao seu amigo, o dono da fazenda e mestre das plantações:

“Porque você mesmo não lhes falou do que sabe de nosso futuro, porque deixou que eles continuassem a crer que eu era o mais sábio de nós?”

Sereno, o Agricultor finalmente se manifestou: “Não me importa quem é o mais sábio, o que importa é que somos aqui todos amigos, e não queria dar uma notícia tão triste aos meus amigos, não hoje...”

“Triste? Quer dizer que não teremos nenhuma solução? Não é possível que o fim do ouro acarrete também o nosso próprio fim... Não é possível que seja assim!”

“É a Natureza, apenas ela, quem determina o que é ou não possível, meu amigo. E se sou algo mais sábio do que fui há milênios, é porque soube observá-la: observar como cada pequeno inseto luta por sua sobrevivência, como cada predador luta a guerra da fome, e como cada presa vive a temer a morte na bocarra de alguma besta a sua espreita. Não existe almoço grátis: todos têm de batalhar para sobreviver. E porque justamente nós, os imortais, não conseguimos viver em paz? Falta-nos o conflito, falta-nos a batalha.”

“Mas como? Se fossemos mais amigos uns dos outros, como eu e você, todos os deuses deste mundo poderiam viver em perfeita harmonia, e o ouro não seria necessário para nada: seríamos uma verdadeira fraternidade. Não nos falta a guerra, nos falta o amor.”

“E como seres imortais poderiam amar uns aos outros como os mortais, que lutam pela sobrevivência, que batalham pela vida num pequeno lampejo de existência que se estende do nascimento a morte? Nós não iremos morrer, jamais, e por isso mesmo jamais iremos mudar, teremos sempre essas mesmas características, condenados a ser eternamente os mesmos deuses, a carregar as mesmas pendências uns com os outros... O ouro acabou, e o planeta pode acabar, mas o que regia nosso sistema não era tanto o ouro, mas sim a fé que cada um de nós depositou em seu valor: apenas por ser raro. No fundo, o que sempre quisemos era estar num degrau um pouco mais elevado que nossos irmãos: ser o deus mais rico!”

“Mas eu nunca desejei ser o mais rico! Nunca me importei com ter ouro algum...”

“Mas você ainda assim queria provar alguma coisa a seus irmãos, queria, enfim, ser o mais sábio.”

Triste e cabisbaixo, o Sábio respondeu: “Você... tem toda razão. Eu hoje reconheço: você, meu amigo, que apenas observou a Natureza, acabou se tornando o mais sábio dentre nós. É exatamente por isso que creio que você tem a solução para o nosso problema, não tem?”

“Tenho, mas não para o nosso problema, tenho uma solução para a vida.”

“Como assim?”

“Olhe ao seu redor, este mundo é minúsculo, e de nada adiantaria levar adiante o meu plano aqui... Eu pretendo enviar uma semente de vida a outro planeta de alguma galáxia, um planeta maior, onde haja água e um sol generoso, para que novas sementes de vida brotem, para que novas florestas surjam e, com elas, um novo ciclo de vida.”

“Mas, e o que isso tem a ver conosco, afinal?”

“Vou impregnar tal semente com nossas personalidades, nossas características, para que um dia, após bilhões de anos, surjam finalmente seres de nossa raça, conscientes, que erguerão grandes cidades e civilizações, que terão cultura e arte, magia e ciência, guerra e paz, ouro e mercado, legisladores e trabalhadores, sábios e ignorantes, mas com uma diferença crucial... Eles serão muitos, diversos, e eles poderão morrer. E assim, morrendo, voltarão para viver novamente, desde o berço, para que suas próprias personalidades possam se renovar sempre, para que suas potencialidades não se estagnem na imortalidade inútil. Assim, chegará dia, meu amigo, que eles farão tudo o que fizemos aqui neste pequeno mundo, e ainda muito mais, muito mais...”

E assim, muitos ciclos depois daquela conversa, os seis deuses se reuniram em um grande ritual comandado pelo Agricultor, que também era o xamã daquela pequena tribo de deuses, e assim sua essência imortal foi retirada de suas cascas, e irradiada em um novo deus, um deus-semente, um deus de vida, o sétimo dentre eles... E, enterrado no solo do pequeno planeta, dia veio em que seu sol finalmente morreu, e seu mundo tornou-se um pequeno pedaço de pedra desgovernado em meio ao turbilhão cósmico. Até que nalgum tempo, de alguma forma, ele se chocou com algum outro planeta, e não demorou muito até que algumas bactérias fossem vistas nadando em um lago escaldante...

raph’12

***

Crédito da foto: Martin Puddy/Corbis

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8 comentários:

Anonymous Mariana disse...

Adorei!!! Que lindo, raph!

Sabe, eu achei que o mais bonito foi que todos os deuses algo que evoluíram ao concordar fazer parte da semente, pois mesmo o mais apegado deles concordou livremente desapegar-se de viver a unidade do self para se tornar parte em outro self, e assim contribuir mais.

Tô de cara com os níveis de leitira desse texto. Só pra falar um, mais na cara: os seis viraram o sete. O sétimo chakra é o mais alto, aquele que representa a ligação com a divindade.

Histórias algo cosmogênicas sempre me emocionam, essa aqui então eu vou guardar pra sempre. Muito obrigada por dividir aquilo que só você pode produzir com a gente, pequeno deus raph!

4/3/12 09:19  
Blogger raph disse...

Oi Mariana, que bom que gostou, eu também acho que ficou bem legal e, realmente, parece que absorveu boa parte do pensamento de vocês que comentaram no primeiro texto... Prova disso é que uma vez mais eu acabei escrevendo "meio que sem saber" sobre coisas em níveis mais ocultos, é impressionante como isso têm ocorrido com cada vez mais frequência desde que iniciei o blog em 2006 - e o melhor é que, de certa forma, acabamos todos criando juntos.

Sou um pequeno deus como você, uma pequena deusa, pois que somos todos da raça dos deuses!

Bjs
raph

4/3/12 17:28  
Anonymous D disse...

Não posso dizer que tenha gostado do texto, Ralph.

Por mais que haja um certo nível de ocultismo interessante aí (a ideia de Malkuth, ou o agricultor, o Chackra básico daquele mundo, ser a materialização de Sanshara, o sétimo chackra, o da compreensão das coisas), o texto me pareceu perder em beleza e profundidade.

É verdade que as palavras do agricultor mostraram um interessante modo de compreensão do mundo materializado - na matéria, onde os pensamentos e sentimentos não atingem "fisicamente" o corpo que se veste, ao menos não de forma imediata, é necessário que os pensamentos sejam transformados em ações, que saiam de todos os planos, quer do mais alto (agricultor-compreensão-) ao mais baixo(agricultor-ação), e sejam efetivamente materializados, para trazerem efeitos no tempo e no espaço. Uma metáfora da Queda, ou do suposto caminho pelo qual a essência divina desce a árvore da vida.

Ainda assim, a compreensão não deveria ter aparecido somente no agricultor.

A compreensão é algo que pode ser obtido a partir da subida da árvore, a partir do processo de ascensão, cujo penúltimo passo seria a sabedoria.

Entender que o agricultor seria um deus mais antigo, que houvesse "ido, voltado e cá estivesse outra vez" imprime no texto a força da tutela, de um sistema de hierarquias, baseado em certo nível em submissão - o sábio se submete àquele que compreende.

A hierarquia, além do nível do quarto chackra, além do descobrimento do amor, é puramente uma formalidade - a submissão não existe se não como forma de expressar gratidão, jamais como forma de pedir por uma tutela ou ensinamentos.

Abandonar o culto aos deuses, mesmo àqueles que foram e voltaram outra vez, é o primeiro passo para se tornar um deles, e com eles habitar mundos de paz e amor, ao invés de mundos de hierarquia e severidade, os quais estão acima do Mundus, mas abaixo da Compreensão e dos locais acima.

6/3/12 04:16  
Blogger raph disse...

Oi D, mas o Agricultor não foi algum deus que "foi e voltou" há algum reino especial, trazendo alguma verdade oculta, na verdade tudo o que ele fez foi observar a Natureza, se ocupar dela não somente para o alimento, mas para a própria aquisição de sabedoria, enquanto os outros deuses imortais estavam mais ocupados com outras coisas, até mesmo o Sábio.

Inicialmente, no Sexto Deus, o conto foi realmente escrito para exaltar o Sábio, e o Agricultor era totalmente secundário... Foi somente após o comentário de Mariana lá no TdC que comecei a perceber que o Agricultor realmente era "muito mais do que aparentava", não por eu ter planejado isso desde o início, mas simplesmente porque, de alguma forma estranha, foi algo que escrevi sem sequer perceber.

Então não existe uma hierarquia de sabedoria "desde sempre", mas sim desde as escolhas de cada um dos seis deuses em se ocupar desta ou daquela tarefa, e meditação acerca da existência.

No mais, acho que vocês superestimam meu entendimento de Ocultismo, particularmente da Árvore da Vida. Se eu escrevo coisas que as vezes tem ressonância dentro da Árvore, é porque ela deve ser efetivamente universal, já que eu entendo muito, muito pouco disso.

Abs
raph

6/3/12 10:01  
Anonymous Rodrigo Sanches disse...

Não sei explicar o porquê, mas fiquei emocionado com o conto. Sabe o nó na garganta?! =P Obrigado por mais esta oportunidade, Raph.
Parabéns pelo trabalho.

11/3/12 11:40  
Blogger raph disse...

Palavras são apenas cascas de sentimento, elas não explicam tudo... Mas é extraordinário que consigam, de alguma forma, passar algum sentimento inexplicável adiante.

Então, não se preocupe propriamente em explicar, sentir é o mais importante!

Abs
raph

11/3/12 18:55  
Anonymous D disse...

A questão é justamente essa Ralph... o agricultor observa a natureza enquanto trabalho... mas não é exatamente esse o trabalho a que o sábio se deu ? Observar e contemplar ?

O agricultor, não nego, provavelmente é um dos que melhor entende aquele mundo, e as leis do universo. Mas o sábio, caso não tenha cumprido bem sua função (observar a natureza, as pessoas, as ideias, os relacionamentos, tudo) não seria um sábio...

13/6/12 23:55  
Blogger raph disse...

Acho que no fim tudo contribuiu para uma mensagem que diz que não basta nos intitularmos, rotularmos, ou julgarmos sábios, pois sábio será sempre, e somente, aquele que realmente sabe. No caso, o Agricultor era ao mesmo tempo o Sábio, pois era o real conhecedor da Natureza. E o Sábio era alguém apenas próximo desse conhecimento, mas que pecava por se afastar do convívio com seus irmãos que "pensavam diferente", em vez de, conforme o exemplo do Agricultor, manter um certo convívio com eles...

Eu quero lembrar também que os textos têm anos de distância entre eles, e que o segundo texto foi inspirado nos comentários do primeiro, quando este foi publicado no TdC. Em nenhum dos casos eu tinha alguma pretensão de criar algum texto com associações a Cabala, se elas existem foi totalmente acidental (ou intuitivo)...

Abs!
raph

14/6/12 11:47  

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