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23.2.12

Poligenecentrismo

Trecho do Projeto Ouroboros (a partir deste ponto irei revelar o nome de um terceiro personagem, até então apenas "P.", agora Petrius). Também gostaria de deixar claro que, apesar de tantos meses sem um post desta série, o livro continua a ser elaborado... Ele está hoje mais deste lado do que do outro.

(Otávio) Desde que o DNA foi descoberto, seu conceito tem sido expandido – na maior parte das vezes, muito além dos seus próprios limites – para explicar praticamente qualquer característica das espécies, e mais particularmente do homo sapiens, o ser humano, que é onde pretendo focar nossa análise agora...
Diga-me, Petrius, o DNA pode servir para definir, por exemplo, a cor dos olhos?

(Petrius) Sem dúvida. De fato, foi uma das primeiras capacidades comprovadas em experimentação – se não me engano, nos olhos de uma mosca... Mas certamente isso pode ser estendido ao ser humano.

(Otávio) Ótimo.
E você concordaria se afirmasse que é o DNA que define a pigmentação de nossa pele, tornando ridícula a crença antiga de que existiam raças distintas de homens?

(Petrius) Mas é claro: o genoma do ser humano é praticamente idêntico para toda a espécie, e a variabilidade genética entre um e outro ser humano é tão ínfima que, de acordo com a biologia, não justifica a existência de “sub-espécies humanas”...
Nesse sentido, hoje é perfeitamente válido afirmar que o racismo não é apenas um defeito moral, mas também uma ignorância das leis naturais.

(I.) Interrompe.
E, ainda que existissem, ainda seria absurda a antiga idéia de que certas raças tinham alma, e outras não...

(Otávio) Sorri.
Perfeito, meu amigo. E não esqueçamos que mulheres e animais também têm alma, pois a natureza não opera de modo seletivo, e a vida que anima a bactéria e o roedor é a mesma que eventualmente permitiu que um dia surgisse a espécie humana. Espécie, e não raça!
Mas, prossigamos meus amigos: Meu caro Petrius, você também concorda que o DNA pode ser decisivo na influência do desenvolvimento de cânceres e outras doenças de nascença?

(Petrius) Muitas doenças, incluindo o câncer, podem ter sua probabilidade de incidência aumentada pelo histórico genético da família, ou da hereditariedade genética. Vale ressaltar, no entanto, que em medicina trabalhamos com possibilidades: jamais um médico poderá afirmar, analisando o histórico genético de sua família, que você terá 100% de chance de desenvolver um câncer – seja na infância ou em qualquer outra fase da vida. Ou, pelo menos, até hoje não ouvi dizer de algo assim.
Já para algumas doenças, particularmente em heranças genéticas ligadas ao sexo, podemos realmente ter uma chance de incidência em 100%...

(Otávio) Pois bem, até aqui falamos somente de características físicas associadas à determinação dos genes.
Agora entrarei em terreno mais pantanoso. Meu amigo, você já ouviu falar no “gene da fé”?

(Petrius) Sorri.
Sim, sim, eu já li sobre isso. O vmat2 é um gene isolado por um polêmico geneticista norte-americano [1]. Ele supostamente estaria envolvido no transporte de uma classe de mensageiros químicos do cérebro conhecidos como monoaminas, do qual o mais famoso é a serotonina, a molécula do bem-estar. Algumas drogas como o ecstasy e o prozac também influenciam o humor alterando os níveis de serotonina no sistema nervoso. Aparentemente, para este cientista, a fé se resume a estados alterados de consciência que propiciam “bom humor”... Talvez não esteja de todo errado em relação à fé, mas certamente está errado em relação à função desse tal gene. Desnecessário dizer: não há nada comprovado quanto a isso!

(I.) Levanta a mão e articula em desaprovação.
Pois eu diria que está bastante equivocado em relação a ambos!

(Petrius) Sorri.
Tudo bem, não levantemos uma polêmica em torno das idéias de um cientista equivocado. Prossigamos...

(Otávio) Mas a questão é mais importante do que parece...
Ora, esse tal cientista faz parte do ramo de estudos da chamada genética comportamental. Além deste nome curioso para este campo em específico, temos ainda o campo da psicologia evolutiva, que se baseia na teoria de Darwin-Wallace para tentar elucidar as razões para uma série de comportamentos humanos que têm sido identificados conforme padrões específicos, ao longo do tempo.
Você diria, Petrius, que o DNA pode explicar o surgimento de características não físicas desde o nascimento – como a tendência a crer em Deus, a tendência para esta ou aquela inclinação sexual, ou até mesmo a aptidão para música ou matemática?

(Petrius) O DNA, sozinho, não.

(Otávio) Mas você concorda que há muitos desinformados, seguidores cegos das determinações da ciência moderna, que crêem piamente que o DNA opera como uma espécie de “caixa mágica”, ou algum deus, que determina todas as nossas características, físicas, mentais e até mesmo espirituais, numa espécie de determinismo genético que não deve em quase nada a crença no determinismo divino?

(Petrius) Sim, é claro que isso ocorre. Infelizmente nem todos têm a vontade de estudar ciências, ou pelo menos ler divulgação científica. E, ainda pior, muitos de nossos cientistas mais célebres pouco fazem para tentar remediar o problema. Se surge, por exemplo, um cientista genuíno – e não nego que seja, mas cientistas podem estar errados, e muitas vezes estão – afirmando ter encontrado um “gene da fé” ou um “gene da homossexualidade”, ou ainda uma espécie de “tendência a atos de estupro fomentada pela herança genética da espécie” [2], certamente ele ganha um grande espaço na mídia, rapidamente. Mas as experiências que comprovam a falsidade dessas teorias não são anunciadas da mesma forma, e muitas vezes são anunciadas tarde demais.
Mas, se parte da culpa é dos cientistas equivocados, a maior parcela recaí sem dúvida em nosso sistema social: na mídia que confia quase cegamente em qualquer baboseira que surge de uma “fonte científica oficial”, e na própria sociedade que aceita novas determinações científicas, algumas as mais absurdas, de forma passiva, se abstendo de pesquisar por si mesmos e, em última instância, de pensar.
Eu diria, para terminar, que estamos vivendo na era do genecentrismo, ou melhor, do poligenecentrismo, visto que cada ano que passa surge uma nova pesquisa para adicionar um novo gene ao nosso “panteão de deuses genéticos”. Eu admito que gostei da sua analogia, isso nada mais é do que um novo politeísmo, onde deslocamos os deuses naturais, a determinar nossas vidas desde o berço, para esses tais genes “quase divinos”. Vale ressaltar, no entanto, que até o momento a ciência não encontrou um gene que determine quaisquer características não físicas – não encontrou, mas pode ser que um dia encontre, embora eu certamente não me abstenha de duvidar profundamente disso...

***

[1] Conforme a nota existente no livro: Trata-se de Dean Hamer. Ele também já afirmou ter encontrado o “gene da homossexualidade masculina”, mas outros cientistas falharam em replicar suas experiências, e ele foi exposto ao ridículo... Afirmações extraordinárias requerem evidências extraordinárias.

[2] Eva Jablonka e Marion J. Lamb fazem uma crítica muito mais contundente e embasada da “persona púbica” da genética comportamental no livro “Evolução em quatro dimensões”. Ver, por exemplo, um trecho transcrito neste blog: A pornografia científica.

***

Crédito da imagem: Mike Agliolo/Corbis

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3 comentários:

Anonymous Anônimo disse...

A genética é fascinante, mas temos que nos cuidar na diferenciação básica entre genótipo (o genoma em si) e fenótipo (a expressão de uma característica) e muita gente tem tentado igualar os dois realmente. O fenótipo é definido pelo genoma somado as interferencias do meio. Peguemos dois irmãos gemeos univitelinos, por exemplo, então, de mesmo genoma. Imaginemos os dois brancos e os separemos no nascimento e mandemos um para a Sibéria e o outro para as praias ensolaradas da Califórnia. Provavelmente, ao ve-los depois de 30 anos, um aparentará bem mais branco que o outro. Provavelmente o californiado poderá estar mais envelhecido pela exposição excessiva ao sol, se for praieiro, será bem mais bronzeado, pela estimulação constante dos melanócitos por 3 décadas e se não tiver se cuidado, pode até desenvolver um cancer de pele, enquanto o outro não. E olhe que aqui só falamos da exposição solar. Imagine todas as demais variáveis do meio... Se estendermos esse meio as vivencias sociais, aos pensamentos processados, etc, teremos uma infinidade de fatores interferentes no quesito personalidade.
Gosto de fazer uma correlação de um gene ou genes responsáveis por uma característica com os arquétipos de Jung: são como leitos secos de um rio, mas o que vai definir mais o rio, será seu preenchimento. Hoje sabemos que vários pares de genes contribuem para definir a cor da pele, mas a exposição solar, ou a agentes químicos como a hidroquinona podem provocar variações grandes no fator cor da pele expressado, assim como temos o arquétipo da Grande Mãe que se manifesta em vários mitos através de diversas imagens arquetípicas com nuances bem diversas... Espero não ter sido confuso, como de costume.
Claro que a genética interfere na personalidade, principalmente devido aos fatores relacionados a liberação de neurotransmissores, como foi citado com relação a serotonina e por isso fatores genéticos elevam a possibilidade de incidencia de depressão, euforia, bipolaridade e esquizofrenia. Porém, temos que levar em conta o stress do meio pessoal, o meio socio cultural, etc. O padrão mental de uma pessoa, como estímulos prazeirosos repetidos, mesmo que em pensamentos, alteram também a liberação de neurotransmissores. Até a alimentação interfere, como sabemos que o chocolate ajuda na liberação de serotonina. O genoma, ou DNA, dessa forma, é um fator, mas não é o único. Considerar tudo como derivado da genética é no mínimo, um reducionismo perigoso, principalmente se considerarmos fatores comportamentais. Mesmo com relação a fatores físicos, o meio e a própria pessoa tem como providenciar mudanças, como falamos a cerca da cor de pele, seja por ação de radiação solar, quanto por aplicações medicamentosas...
Parabéns pelo site. Anda muito bom.
Abraços

23/2/12 18:09  
Blogger raph disse...

Opa, obrigado pela complementação, realmente a discussão no livro se baseia no genótipo e não no fenótipo, por isso que o Petrius fala a certa altura: "o DNA sozinho, não".

É uma crítica a ideia de que genes podem determinar, por si só, e diretamente, certas características mentais de uma pessoa logo após o nascimento, particularmente em casos de homossexualidade precoce (quando crianças já demonstram características do gênero oposto desde cedo, e muitas vezes ainda na fase infantil afirmam que "estão presas no corpo errado").

É claro que o fenótipo, ou os genes somados a influência do meio ambiente, da educação, da cultura, podem ser determinantes na formação de certas características mentais.

A genética pode até interferir na personalidade, mas não de forma direta e/ou exclusiva, existem inúmeros outros fatores desconhecidos da ciência que fazem parte da equação, sendo que o principal deles é a própria mente em si. Os materialistas eliminativos sequer creem que *exista* uma mente, e essa busca de "genes da homossexualidade", "genes da fé", etc., é também um resultado dessa visão extremamente mecanicista do ser humano.

Abs e obrigado,
raph

24/2/12 10:16  
Anonymous Anônimo disse...

Pois é... para jogar por terra a influencia puramente genética, principalmente com relação ao comportamento, basta analisarmos gemeos identicos, que tem o mesmo genoma, pois são praticamente clones naturais. Conheço gemeos de personalidades completamente diferentes, logo, a genética sozinha não deve ser considerada. Como disse, isso é um reducionismo perigoso que alguns tem feito no meio cientifico e facilmente refutado por esses exemplos de pessoas com genoma praticamente identicos e tão diferentes...
Se eles estivessem corretos, os gemeos identicos deveriam ter personalidades também identicas e temos gemeos assim onde um é ateu, outro tem uma religião, um é homossexual, o outro nao e etc...
Abraços

24/2/12 11:31  

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