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27.6.26

Lançamento: Emily Dickinson - Poemas de amor e de morte

As Edições Textos para Reflexão retornam à poesia com a maior poeta da língua inglesa.

Uma mulher que viveu sua vida numa sociedade profundamente patriarcal e conservadora, autora de poemas que exploram temas universais como o amor, a morte, a natureza, a eternidade, a dúvida religiosa e a consciência individual de uma forma extraordinariamente original e, por que não dizer, mística: eis o grande mistério em torno de Emily Dickinson. Esta edição traz uma seleção dos seus poemas mais profundos.

A nova tradução de Rafael Arrais já está disponível na Amazon, em e-book, e também na versão impressa:

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» Saiba mais sobre Emily Dickinson no Epílogo da edição: O mistério de Amherst


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17.4.26

Lançamento: A Montanha Mágica, de Thomas Mann

As Edições Textos para Reflexão publicam a obra-prima de um dos maiores escritores do século XX.

A Montanha Mágica, obra de Thomas Mann, ganhador do Nobel de Literatura, é um romance de proporções bíblicas que trata do amor, da morte, da percepção do tempo, da filosofia, das artes em geral e, sobretudo, do ser humano.

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17.1.26

Manual de Canto

Às vezes me pego perguntando
por que será que as criancinhas
brincam de construir castelos de areia
tão perto do mar?

Afinal, para que será que servem
em seu esplendor fugidio?

No entanto, lá estão elas
entusiasmadas, cheias de sorrisos,
contemplando seus portões de conchas,
suas janelas de pedrinhas,
seu palácio inteiro,
que não durará além desta tarde.

 

Depois de vir tanto nessa praia,
eu já não me pergunto se isso tudo
serve para alguma coisa ou não:
me pergunto, isto sim,
quais são os castelos de areia
que construímos na vida adulta.

Será que somos mesmo capazes,
como as criancinhas,
de olhar para nossas obras e conquistas
como o mesmo entusiasmo,
a mesma cintilação perene
de um brincadeira que é brincada agora,
e não além desta tarde?

Pois que é a vida,
senão o dia que virará tardinha?
E que é a morte,
senão a noite que antecede
um novo dia?


“Mas eu temo a morte.”

“Por quê?”

“Porque me aflige imensamente
saber que um dia não serei mais eu.”

“Então faça como os construtores
de castelos de areia,
que não se importam em ser lembrados
pela sua magnífica arquitetura;
sabe por quê?”

“Não, me diga, mevlana...”

“Por que estão entusiasmados demais,
preenchidos demais,
para pensar em ter um ‘eu’:
isso sequer faz algum sentido
para quem vive tão perto do mar.”


Às vezes me pego lembrando
do som que as ondas fazem
quebrando suavemente na beira,
e então não preciso mais pensar em nada...


“Por que esse poema é tão estranho?
Quem são essas pessoas dialogando?”

“Bem, tudo o que posso dizer é que
essa é a maneira sufi de recitar,
querer ir além disso
seria como entregar
um Manual de Canto
para um rouxinol.”


raph'26

***

Crédito da imagem: Kits Unger/unsplash

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4.8.21

3 reflexões sobre a reencarnação

Neste vídeo trazemos três reflexões sobre a crença na reencarnação. Não se trata de uma tentativa de provar que a reencarnação existe, mas sim de abordar este tema tão vasto de forma aprofundada.

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5.8.20

O último enigma de Sócrates

Há pouco mais de 2.400 anos, a filosofia ocidental viveu a sua cena definitiva: numa prisão em Atenas, após ser julgado pelos próprios concidadãos e se recusado a abandonar a cidade, Sócrates cumpria sua pena, e bebia o veneno que, dali a alguns momentos, causaria sua morte.

Faziam parte da acusação: ateísmo (não crer nos deuses gregos, e se associar a deuses desconhecidos) e corrupção dos jovens (com novas ideias). Ambas eram absurdas, e talvez os próprios acusadores sequer acreditassem realmente nelas, mas fato é que eles desejavam se livrar daquele maldito filósofo que insistia em expor a todos o quão ignorantes eram aqueles que se julgavam sábios, sem o ser. Foi oferecida a Sócrates a oportunidade de abandonar sua defesa do que considerava ser a verdade, exilando-se de Atenas para sempre. Ele preferiu a morte a uma vida exilada do diálogo e da busca conjunta pela verdade.

Sócrates, afinal, não deixou obra escrita e sequer fundou alguma nova doutrina. Foi influenciado por Permênides e pelos ritos místicos de sua época, mas não parece ter sido alguém como Platão, que fundou uma escola filosófica e deixou extensa obra escrita, onde usava de Sócrates como personagem para divulgar suas próprias ideias. O que sabemos de Sócrates, para além do personagem de Platão, é que ele de fato existiu, e parece mesmo ter irritado muitos atenienses de sua época, sobretudo aqueles que julgavam ser “muito sábios” acerca de certos assuntos. Existiu, porque também foi descrito na obra de Xenofonte – outro filósofo que foi seu discípulo – e nas peças teatrais de Aristófanes. Foi irritante, porque ninguém é alvo da galhofa de um grande comediante sem razão: e as peças de Aristófanes nada mais eram do que uma crítica bem humorada aquele “filósofo chato” que insistia em viver no mundo das ideias.

Voltemos então à cena: Sócrates aproxima o veneno dos lábios e toma a taça de uma vez. A sua volta, seus discípulos mais próximos se desesperam. Eis o que narrou Fédon (retirado do Fédon de Platão):

Até então quase todos tínhamos tido forças para conter nossas lágrimas, mas, ao vê-lo beber e depois de ter bebido, já não podíamos conter nossos impulsos. Quanto a mim, minhas lágrimas caíam em abundância, apesar de meus esforços para contê-las, e tive de cobrir-me com meu manto para poder chorar livremente. Porque não era a desgraça de Sócrates que chorava, mas a minha, ao pensar no amigo que ia perder. Críton, que já estava transtornado antes de mim, não pôde reter as lágrimas e saiu do recinto. Apolodoro, que não parava de chorar, se colocou a gritar e a soluçar de tal modo que não houve quem não se comovesse, exceto Sócrates.

Sócrates continuava sendo irritante: ele insistia em permanecer ao lado da verdade – ao menos, da sua verdade – mesmo no momento de sua morte. “Permaneçam tranquilos, meus amigos, e demonstrem maior coragem” – foi mais ou menos o que disse em seguida; e ele tinha todo motivo para tal, pois segundo sua lógica, viver no exílio seria algo certamente terrível, enquanto a morte era somente uma viagem desconhecida. Pouco antes daquele momento trágico, Sócrates havia dito uma de suas frases definitivas:

Mas eis a hora de partir: eu para a morte, vocês para a vida. Quem de nós segue o melhor rumo, ninguém o sabe, exceto os deuses.

Na realidade, a crença de Sócrates nos deuses gregos era tão profunda que ele confiava que a vida após abandonar definitivamente o seu corpo não seria tão terrível, uma vez que seguiu a sabedoria por boa parte da sua vida; vejam como ele próprio explicou a questão (outro trecho do Fédon):

Há uma coisa, pelo menos, que seria justo que todos nós refletíssemos: se a alma é verdadeiramente imortal, é preciso que zelemos por ela não apenas durante o tempo atual, que chamamos vida, mas durante todo o tempo, pois seria grave perigo não se preocupar com ela. Admitamos que a morte seja tão somente uma total dissolução de tudo. Que sorte admirável estaria então reservada para os maus que se veriam libertos de sua própria maldade! Mas, na verdade, uma vez tendo sido tornado claro que a alma é imortal, não haverá fuga possível para ela frente a seus males, a não ser que se torne melhor e mais sábia.

Eis, portanto, a sua lógica: Sócrates julgava que se tornava melhor e mais sábio ao dedicar-se a filosofia. O seu método, no entanto, não era solitário. Ele precisava estar em Atenas, junto aos jovens (de ideias), para poder prosseguir em seu caminho rumo à sabedoria. Exilar-se seria, antes de tudo, abdicar daquilo que ele julgava ser a tarefa mais essencial da vida. Seria melhor continuá-la após a vida – curar-se da própria ignorância, era tudo o que o filósofo buscava, e talvez seja isso o que melhor explique o seu último enigma, a última frase que disse a um dos seus discípulos mais próximos:

Críton, somos devedores de Asclépio, nós o devemos um galo; pois bem, paga minha dívida, não se esqueça.

Críton ainda respondeu, “Assim será, mas veja se não tem algo mais a dizer”. E não tinha, pois estava morto. O homem mais sábio de Atenas havia deixado o mundo com um dito aparentemente corriqueiro e ordinário para alguns, ou um profundo enigma, para outros.

Ora, do ponto de vista ordinário, tal frase pode dar a entender que o filósofo valorizava a justiça ao ponto de, mesmo em seu último momento, não esquecer de que eles deviam um galo a algum cidadão ateniense. Uma coisa do dia a dia, por assim dizer. Entretanto, apesar de Sócrates só o haver mencionado uma única vez em toda a obra de Platão, Asclépio não era um mero homem a quem se pudesse “dever um galo”, mas sim o deus da medicina (posteriormente conhecido como Esculápio, entre os romanos) – aquela não era propriamente uma dívida, portanto, mas antes uma oferenda.

Parece estranho, deveras estranho, que o sábio e tantas vezes excessivamente racional Sócrates tenha reservado suas últimas palavras para render culto a um “deus menor”, ao menos se comparado a Zeus, que ele cita incontáveis vezes. Mas, se é verdade que Sócrates foi um personagem usado por Platão para divulgar suas próprias ideias, aqui fica mais evidente, quem sabe, o “Sócrates real”, para além do mero personagem dos livros. E esse homem real era bem mais ligado ao misticismo do que Platão gostaria.

O mais antigo registro do nome “Asclépio” é encontrado na Ilíada de Homero. Ele pode ter existido de fato, vivendo em torno de 1200 a.C. Na cultura grega era comum que heróis célebres fossem objeto de culto após sua morte. Asclépio, no entanto, foi médico, não exatamente um herói aos moldes de Hércules. Seja como for, na época de Sócrates e Platão ele já havia sido incluso no panteão dos semideuses, sendo filho do deus Apolo com uma mortal chamada Corônis. Segundo dizem as lendas, Asclépio eventualmente se tornou um curandeiro tão poderoso que era mesmo capaz de ressuscitar aqueles que morreram há pouco tempo, o que virou motivo de preocupação para Hades, o deus que cuidava do mundo dos mortos. Hades foi reclamar a Zeus que um médico estava impedindo que mais almas chegassem ao seu reino, e este resolveu a situação fulminando Asclépio com um raio. Algumas versões dizem que após algum tempo Zeus ressuscitou Asclépio e permitiu que continuasse a tratar dos doentes, desde que nunca mais trouxesse ninguém de volta dos mortos.

Em torno de 420 a.C., aproximadamente vinte anos antes de Sócrates beber o veneno, o deus da medicina havia sido invocado para afastar uma peste em Atenas, no que foi aparentemente bem sucedido. Poucos anos após, Asclépio também foi inserido definitivamente nos ritos dos Mistérios de Elêusis, que eram cultos agrícolas de cunho místico-iniciático celebrados nas proximidades de Atenas – é quase certo que tanto Sócrates quanto Platão não somente os conheciam como também participaram de suas celebrações; e, o que é mais importante, tiveram o seu pensamento influenciado por tais ritos.

Eventualmente o culto a Asclépio cresceu, e entre os romanos, sob o nome de Esculápio, ele chegou a ter templos em dezenas de cidades. Se as práticas do seu culto foram fieis a época de Sócrates (de onde não temos relatos lá muito precisos), então podemos considerar que elas eram mais ou menos assim:

O paciente adentrava o templo, se purificava na fonte do santuário e oferecia um sacrifício. Oferendas comuns eram bolos de mel, bolos de queijo e figos. Preces, meditação, o canto de hinos sacros, banhos medicinais, exposição à luz do sol, caminhadas de pés descalços, uma dieta especial, abstinência de sexo e exercícios físicos também eram muitas vezes parte do ritual e do tratamento. À noite o doente se dirigia a um quarto reservado, a fim de dormir e se produzir a enkoimesis, ou "incubação", ou seja, a revelação do deus em sonhos, o que frequentemente acontecia. O deus ou aparecia e curava diretamente, ou dava instruções sobre um tratamento específico, o que às vezes acontecia ao longo de vários dias em sonhos diferentes. Os sonhos eram então relatados ao sacerdote, que interpretava ou complementava as instruções. Ocasionalmente o deus transformava uma doença séria em outra mais branda, e então a deixava ao cuidado dos médicos. Às vezes os sonhos não eram necessários, e a cura se efetuava imediatamente. Se a pessoa fosse curada, o costume era agradecer com um novo sacrifício, então geralmente era oferecido um galo ou uma soma em dinheiro.

Ou seja, o galo que Sócrates “devia” a Asclépio não era uma dívida ordinária, mundana, mas uma forma de oferenda em agradecimento a uma cura alcançada. E a cura que o filósofo julgava ter alcançado era justamente aquela que o permitiria, enfim, viajar para o mundo dos deuses. E não por um motivo fútil, não por uma fuga da vida, mas tanto o oposto disso: por haver defendido a sua verdade até o fim.

***

Crédito das imagens: [topo] Jacques-Louis David (1787); [ao longo] Google Image Search (culto a Asclépio/Esculápio)

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21.8.18

O Sexo e a Morte (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo trago uma reflexão sobre a relação entre o sexo e a morte, que nasceram juntos há mais ou menos um bilhão de anos, quando os organismos evoluíram e deixaram de se reproduzir somente pela bipartição, algo que favoreceu muito a evolução das espécies. Também iremos avaliar se a violência ainda tem lugar no sexo sadio, e se as simulações de estupro no xvideos não deveriam ter o mesmo status da zoofilia: isto é, serem ilegais.

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1.5.18

Amar e perder (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo falo sobre Michel de Montaigne, o primeiro blogueiro da história, e de como algumas amizades podem ser eternas. Também veremos como Epicuro encarava a felicidade e a morte; e também como, apesar de tudo, é melhor sofrer por amor do que nunca haver sequer amado:

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4.3.17

Lançamento: Como alcançar o sucesso e inevitavelmente morrer

As Edições Textos para Reflexão publicam novamente um livro de Igor Teo, colunista do portal Teoria da Conspiração:

"Em Como alcançar o sucesso e inevitavelmente morrer, o autor recupera o antigo estilo libertário de Michel de Montaigne para compor uma obra que nos interroga acerca da busca pela felicidade, passando por temas como amor, amizade, sucesso profissional e até mesmo a morte. Pontuada por relatos pessoais, a discussão é mais do que um questionamento filosófico, é também o relato de um percurso próprio. Numa linguagem descomplicada sem ser simplista, o leitor não será o mesmo depois de atravessar essas páginas."

Um livro digital disponível para download gratuito em pdf, ou em versão impressa, no formato "pocket book":

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21.10.16

E se a morte se apaixonasse pela vida?

Parece que foi tentando responder a essa pergunta que a jovem animadora holandesa Marsha Onderstijn realizou esta pequena pérola, The life of death [A vida da morte], um curta que guarda uma importante reflexão ao final - quem sabe, para ser saboreada junto com uma, ou algumas lágrimas... Não há nada mais que possa ser dito:

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4.9.16

Entrevista com Raph Arrais

Embora nem sempre esteja muito evidente, tanto Raph quanto Rafael Arrais são a mesma pessoa, e é esta a mesma quem escreve este blog. Nessa entrevista para meu amigo Igor Teo [1], falo um pouco mais sobre a história do blog, assim como sobre poesia, criatividade, morte, amor, e algumas coisas mais...

Lá pelas tantas, em homenagem ao saudoso Abujamra, tento até mesmo responder a pergunta "o que é a vida?":

***

[1] O Igor, que alguns devem conhecer dos livros que publicamos pelas nossas Edições Textos para Reflexão, está com um projeto de popular o seu canal no YouTube com uma variedade de vídeos. Alguns são só dele, mas noutros temos hangouts com mais pessoas. Para quem se interessar, semana passada também participei do primeiro episódio do Hangout Reflexões

Crédito da imagem: raph + Prisma (sim este sou eu)

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11.1.16

Como Bowie disse adeus...

David Bowie dispensa maiores apresentações. Foi um gênio do rock, da moda, do cinema, da Arte presente em todas as artes. Mas a sua carreira acaba de ser coroada com um disco de despedida, um disco que é muito mais do que um disco, mas a forma como um grandioso artista disse adeus a este mundo...

Em Blackstar, vigésimo quinto e último álbum de sua carreira, lançado poucos dias antes de sua morte, há claras referências a sua longa batalha contra um câncer, e até mesmo a sua morte iminente – particularmente na faixa Lazarus:

Olhe aqui em cima, eu estou no céu.
Eu ganhei cicatrizes que não podem ser vistas,
drama que não pode ser roubado

O produtor Tony Visconti, que trabalhou junto com Bowie por muitos anos, desde seu primeiro álbum até este último, explicou nas redes sociais como o músico britânico conseguiu transformar até mesmo a própria morte em arte:

“Ele sempre fez o que desejava fazer. E ele quis realizar este último trabalho do seu jeito, e o fez da melhor forma possível. A sua morte não foi nenhum pouco diferente da sua vida, uma obra de arte.

Ele fez Blackstar para nós, este foi o seu presente de despedida a todos. No entanto, eu não estava preparado para sua partida... Ele foi um homem extraordinário, cheio de amor, cheio de vida. Ele sempre estará conosco. Agora, no entanto, é o tempo apropriado para chorar.”

Visconti ainda explicou que a produção do último álbum foi “uma corrida contra o tempo”, para que tudo ficasse pronto, e com qualidade, enquanto Bowie ainda tinha condições de cantar e atuar nos videoclipes.

David Bowie partiu deste mundo em 10/01/16 após uma corajosa batalha contra o câncer, cercado por seus familiares... Ele se foi dias depois do lançamento de Blackstar, e deste vídeo abaixo, que fala por si só:

***

Este é um vídeo pesado, certamente, pois a arte de Bowie nunca teve nada de superficial. Em todo caso, ele também será lembrado pela profundidade de sua alegria, como em Starman (abaixo), e muitos outros clássicos que nos farão dançar e sorrir e agradecer por termos estado neste mundo na mesma época em que ele viveu...

Estou muito acima do mundo.
O planeta Terra é azul
e não há nada que eu possa fazer...

Major Tom

***

Crédito da imagem: Google Image Search/Blackstar/David Bowie

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8.1.16

A morte é um dia que vale a pena viver

Um dia perguntaram a Ana Claudia Quintana Arantes, "O que você aprendeu lidando com a morte?"

E na entrevista concedida a revista Vida simples, a médica geriatra, especializada em cuidados paliativos para pacientes que têm pouquíssimo tempo restante de vida, respondeu assim:

"Aprendi a viver. Eu vejo muita gente, todos os dias, no final da vida. E, nesse instante, as pessoas ficam muito lúcidas sobre o que importa. A morte tira o véu da mentira sobre a vida. E a pessoa deixa de lado o que é bobagem ou ilusório. Você quer dizer que ama, então expressa isso e não fica preocupado com o que os outros vão pensar a respeito. Afinal aquela é a sua vida – e ela está acabando. Então você demonstra mais afeto, você reconhece seus erros."

Ana é uma genuína médica de almas, que trata não somente doenças ou corpos, mas vai direto ao coração, onde cada momento restante de vida pode ser um momento mágico, um momento eterno... É sempre muito belo, e muito triste e profundo, conhecer mais sobre as histórias de gente como ela. Nesta palestra do TEDxFMUSP, A morte é um dia que vale a pena viver, ela conta algumas delas:

***

Crédito da foto: Namu

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20.2.15

Minha vida, por Oliver Sacks

Texto de Oliver Sacks para o New York Times. Tradução de Eduardo Pinheiro. Os comentários ao final são meus.

Um mês atrás, parecia que eu gozava de boa saúde, poderia se considerar até mesmo excelente. Aos 81 anos de idade, ainda nado 1500 metros por dia. Mas minha boa fortuna já havia se esgotado – algumas semanas atrás fiquei ciente de que tenho múltiplas metástases no fígado. Nove anos atrás descobrimos que eu tinha um raro tumor no olho, um melanoma ocular. Ainda que a radiação e o uso de lasers para remover o tumor me tenha deixado cego daquele olho, apenas em casos muito raros tumores deste tipo fazem metástase. Ainda assim, estou entre os 2% que não têm sorte.

Sinto gratidão pelos nove anos de boa saúde e produtividade desde o primeiro diagnóstico, mas agora me deparo com a morte. O câncer ocupa um terço de meu fígado, e embora seu avanço possa ser desacelerado, não há como parar esse tipo particular de câncer.

É só minha a decisão de como viver os meses que me restam. Tenho que viver da forma mais rica, profunda e produtiva que conseguir. E nisso me encorajo com as palavras de um de meus filósofos favoritos, David Hume, que, ao descobrir aos 65 anos de idade que uma doença o levaria à morte, escreveu uma curta autobiografia num único dia de abril de 1776. A ela ele deu o título de Minha vida.

“Neste momento me deparo com uma dissolução muito rápida,” escreveu ele. “De minha condição, sofro muito pouco com dor, e o mais estranho é que, não obstante a grande derrocada de minha compleição, nunca cheguei a sofrer um momento sequer de esmorecimento do humor. Mantenho o mesmo ardor de sempre pelo estudo, e a mesma alegria na companhia dos outros.”

Tenho sorte de passar dos 80, e os 15 anos que superaram as seis décadas e cinco anos de Hume me foram igualmente plenos de trabalho e amor. Nesse período publiquei cinco livros e completei uma autobiografia (um bocado maior do que as poucas páginas de Hume) a ser publicada nessa primavera; tenho vários outros livros quase prontos.

Hume continuou, “Sou ... um homem de disposições brandas, em comando do meu próprio temperamento, de humor aberto, social e alegre, dado ao apego, mas pouco suscetível à inimizade, e de grande moderação em todas minhas paixões.”

Nisso não sou como Hume. Embora eu tenha vivido relacionamentos amorosos e amizades, e não tenha inimigos verdadeiros, não posso dizer (nem ninguém que me conhece diria) que sou um homem de disposição branda. Pelo contrário, sou um homem de disposição veemente, de entusiasmos violentos, e extremamente desprovido de moderação com relação a todas as minhas paixões.

Ainda assim, uma frase do ensaio de Hume me é marcante como especialmente verdadeira no meu caso: “É difícil”, escreveu ele, “alguém ter mais desapego pela vida do que neste momento.”Ao longo dos últimos dias, tenho sido capaz de ver minha vida como se de uma grande altitude, como uma espécie de paisagem distante, e com um sentido aprofundado da conexão entre todas as partes. E isso não significa que minha vida acabou.

Pelo contrário, me sinto intensamente vivo, e quero e espero que no tempo que me sobra que eu aprofunde minhas amizades, diga adeus para aqueles que amo, escreva mais, viaje se tiver a força, e alcance novos níveis de entendimento e discernimento.

Isso demandará audácia, clareza e conversas diretas; tentar acertar minhas contas com o mundo. Mas haverá tempo, também, para alguma diversão (e até mesmo para alguma bobeira, sem dúvida).

Repentinamente me sinto possuidor de um foco muito claro, e de perspectiva. Não há mais tempo para nada que não seja essencial. Preciso focar em mim mesmo, no meu trabalho e nos meus amigos. Não vou mais assistir o jornal na TV todas as noites. Não vou mais prestar atenção para política ou para argumentos sobre aquecimento global.

Não se trata de indiferença, mas de desapego – ainda me importo muito com o Oriente Médio, com o aquecimento global, com o crescimento da desigualdade, mas estas coisas não estão mais na minha alçada; pertencem ao futuro. Regozijo-me ao encontrar jovens capazes – até mesmo aqueles que fizeram minhas biópsias e diagnosticaram minhas metástases. Sinto que o futuro está em boas mãos.

Cada vez estou mais consciente, nos últimos 10 anos mais ou menos, das mortes de meus contemporâneos. A minha geração está de saída, e senti cada morte como uma ruptura, como se parte de mim se rasgasse. Não haverá ninguém como nós quando nos formos, mas na verdade não há ninguém que seja como outro alguém, nunca houve. Quando as pessoas morrem, são insubstituíveis. Deixam buracos que não podem ser preenchidos, pois é o destino – o destino genético e neural – de cada ser humano ser um indivíduo único, encontrar seu próprio caminho, viver sua própria vida, e morrer sua própria morte.

Não posso fingir que não tenho medo. Mas meu sentimento predominante é a gratidão. Amei e fui amado; ofereci muito, e recebi algo em troca; li, viajei, pensei e escrevi. Comuniquei-me com o mundo com a comunicação especial dos escritores e leitores.

Acima de tudo, tenho sido um ser senciente, um animal pensante, nesse belo planeta, e isso por si só foi um enorme privilégio, e uma aventura.

***

Comentário
O neurologista Oliver Sacks costuma referir-se a si mesmo como um “cientista romântico”, ele acredita que a mente não pode ser descrita de maneira mecanicista, e que a neurologia moderna só será completa quando considerar a forma icônica e sentimental com que experienciamos a consciência e armazenamos nossas memórias. Seus livros são verdadeiros dramas, descrevendo casos neurológicos sempre no contexto da vida e experiência pessoal de cada paciente. Muitos desses casos são devastadores, e somente a habilidade com a escrita (ele tem vários bestsellers no mundo todo) do autor faz com que a leitura seja pouco menos impactante do que um soco no estômago...

Sacks faz questão de destacar que cada doença é uma história, principalmente em se tratando de doenças da mente, algo ainda tão desconhecido, tão distante da visão mecanicista da ciência moderna. Em muitos casos as habilidades perdidas são compensadas por novas habilidades ganhas, o que fica muito bem explicado nos diversos casos de autistas savants descritos em seus livros – e principalmente no caso de Temple Grandin (tema principal do seu livro mais conhecido, Um antropólogo em Marte).

Com a súbita revelação de sua condição “terminal”, Sacks provavelmente ganhará muita audiência na fase final da vida, mas talvez pelos motivos errados... A morte não é, afinal, nada de novo em sua história, ou na história de qualquer um de nós. Sacks não se tornou um escritor querido no mundo todo pela forma como encarou a morte, mas pela forma como encarou e ainda encara a vida. Este estudioso do cérebro humano, mesmo sem se apoiar propriamente em nenhuma doutrina espiritualista, transcendeu as doenças e os distúrbios mais devastadores de que se tem notícia, com música, com afeto, com a tal “paixão desprovida de qualquer moderação”.

Sua partida será sentida por todos os seus leitores, amigos, pacientes e familiares, mas ele não será esquecido, pois viveu muito além das fronteiras de sua própria mente, e adentrou a vasta escuridão das mentes mais arruinadas, trazendo uma luz que vem muito mais do seu coração do que do seu conhecimento da medicina. Este sim, foi um curandeiro de almas, na acepção completa dos termos. Este sim, deixará imensa saudade. Este sim, cumpriu seu papel neste mundo.

E o que dizemos para seres assim? “Até a volta, Oliver, e obrigado por tudo!”

***

Crédito da foto: Google Image Search/Divulgação

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24.12.14

Lançamento: O Livro da Reflexão, vol.1: Amar e perder

As Edições Textos para Reflexão trazem um presente de Natal a todos os fiéis leitores deste blog, assim como a todos que um dia também virão refletir conosco. Afinal, a luz foi criada para ser refletida!

"Textos para Reflexão é um blog que fala sobre filosofia, ciência e espiritualidade. O presente volume é o primeiro de uma série, O Livro da Reflexão, que pretende ser uma coletânea dos melhores textos do blog. Nesta edição pretendo abordar o amor, a morte e a existência, todos eles temas recorrentes em minhas reflexões."

Um livro digital disponível para download gratuito em diversos formatos [1]:

Baixar grátis (ePub) Baixar grátis (mobi) Baixar grátis (pdf) Ver no Scribd (pdf) Baixar grátis (Amazon Kindle) Baixar grátis (Kobo) Comprar versão impressa

Todos os três demais volumes da série já foram lançados:

» Baixar O Livro da Reflexão, vol.2: A roda dos deuses

» Baixar O Livro da Reflexão, vol.3: As lições da ciência

» Baixar O Livro da Reflexão, vol.4: A medida de todas as coisas

***

Fiquei muito feliz de ter conseguido finalizar esta edição pouco antes do Natal. Afinal, por mais que no fundo escreva para organizar minhas próprias ideias, é sempre muito interessante perceber o quanto elas parecem se refletir também na mente dos demais. Somos, enfim, apenas um fio na teia da Vida, e parece ser improvável, senão impossível, falar da própria alma sem tocar, de alguma forma, a alma de todos. Fica este presente em retribuição a tais depoimentos tão generosos, que formam o Epílogo da obra:


Se um dia algum historiador, pesquisador ou estudante for escrever sobre a difusão dos estudos acerca da espiritualidade humana na internet, o site Textos Para Reflexão não apenas não poderá faltar como deverá estar ao lado dos principais nomes deste campo, como o Saindo da Matrix e o Teoria da Conspiração. Conheci o blog do Raph anos atrás, e a variedade de projetos bem sucedidos que temos testemunhado ao longo deste tempo é prova da excelência deste. Deste modo, Textos Para Reflexão fala não apenas sobre filosofia, ciência e espiritualidade. Textos Para Reflexão é um site que reflete nossa própria condição humana em busca do conhecimento e, mais importante ainda, da reflexão, atividade filosófica tão saudável para a “alma”.

Igor Teo


Olá, me chamam Felipe,
Sou leitor do blog Textos Para Reflexão já fazem mais de 3 anos. Neste período me deparei com inúmeras questões que me afligiam e buscava uma resposta em algum texto do Rafael, sempre achava algo que me transportava pra dentro em um encontro comigo mesmo. Esse encontro se intensificou com o livro Ad infinitum, como uma chama queimando vivamente. Sou grato pelo conhecimento e alento compartilhado. Parabenizo por todas as conquistas, a editora, o sucesso dos textos, da parceria com o Tio Del Debbio e mais este novo farol em forma de livro.
Com gratidão e carinho,

Felipe Pereira de Lima Castro


Parabéns pelos 8 anos de Textos para Reflexão, até esqueci quando comecei a ler. Parte do meu lado buscador que anda por terras desconhecidas e por desertos nunca vistos me fez chegar aos seus textos, diversas vezes e a cada passo; deixei de buscar várias vezes e sempre me “reencontrei” aqui.
Obrigado!

Samuel Otemi


Na vastidão do mundo virtual encontramos um pouco de tudo, para nossa sorte. Assim, garimpando, podemos encontrar preciosíssimos diamantes no meio da imensidão de informações vazias e da futilidade que tanto assola nosso cotidiano. Para quem quer fugir de assuntos como o último escândalo de um “ex-BBB” ou do vestido usado por uma celebridade de Hollywood naquela festa badalada, Textos para Reflexão se apresenta como uma excelente companhia. Consegue retratar da filosofia dos Pré-Socráticos aos pensadores da internet, com textos leves, porém profundos e com nuances poéticos, quando não nos embebeda com pura poesia.
Parabéns pelos oito anos do blog! Sucesso, você merece!
Abraços,

Alex Sander


Um dia, quando eu era uma pessoa curiosa, buscando aqui e ali satisfazer a necessidade de solucionar uma dúvida atrás da outra, encontrei os textos de um poeta que fala sobre tudo e, sobretudo, com amor ao conhecimento... Era a inspiração que eu precisava para me desenvolver pessoalmente e continuar minha jornada.

Jakeline Santana


O Raph tem uma forma peculiar de levar os leitores a reflexão. Quando trata temas polêmicos, consegue fazer sem gerar conflitos. O que escreve traz os traços de grandes autores. Para ele não existe um tema que não deva ser tratado, desde que traga algo construtivo. Ele irá abordar de espiritualidade à política, de sociedade ao erotismo. Sempre alcançando uma abordagem leve e casual. Os artigos do Textos para Reflexão são, por isso mesmo, momentos de reflexão.

Gabriel Fernandes Bonfim


O Textos para Reflexão é uma joia da “filosofia espiritualista”. Em um meio de estudos dominado pela dicotomia entre textos sisudos – para escolhidos – e delírios utópicos e ufanistas, que abdicam da razão, o Textos emerge como um oásis: abre um espaço em nossa consciência onde a poesia dança de mãos dadas com o amor e a razão, nos levando a uma experiência transcendental, daquelas que só os poetas conseguem provocar com palavras.
É com carinho que expresso a gratidão a Rafael Arrais por nos propiciar uma experiência de reflexão, que nos aproxima da nossa essência mais bela. Obrigado por saciar a nossa sede da alma com palavras que descem como se bebêssemos um belo vinho na companhia de um bom amigo. Fraterno abraço!
Atenciosamente,

Élder Bernardi


Hoje (1:15), enquanto estava perto da janela da cozinha, percebi que o céu estava aberto e claro. Fui lá fora e fiquei boquiaberto: uma das melhores visões noturnas do céu que eu já tive! Ou talvez a melhor. A lua cheia (e sua aura púrpura) estava diluída entre nuvens perfeitamente distribuídas e ordenadas pelos ventos (que cobriam o céu, mas deixando espaço aberto, sem saturá-lo), seu brilho iluminava as reações e o movimento do vapor nos céus. A melhor parte foi quando as nuvens foram se abrindo em volta da lua, como se esta ordenasse que lhe dessem espaço. Eu vi um olho, enorme e brilhante, onipotente, onipresente, olhando tudo ao redor e me dando um recado: estou de olho em você.
Percebi que só vou conseguir responder algumas perguntas e vencer certos conflitos quando meus olhos estiverem realmente abertos. A aura roxa que eu vejo em volta da lua deu ao “olho” celeste um aspecto de chacra, de terceiro olho.
Eu já procurei tentar encontrar paz, calma e equilíbrio com a natureza durante o dia; mas isso vem naturalmente durante a noite. Muito naturalmente. É espontâneo. Infelizmente, meu estilo de vida não me faz aproveitar tudo isso, mas, a cada dia que passa, caminho mais afundo entre o corredor que me levará até a compreensão. E isso tudo vai ser, em grande parte, durante a noite.
E é assim que eu funciono: noturno, em silêncio.
Ainda tenho dúvidas se o borrão roxo em torno da lua é defeito na visão ou alguma coisa diferente, mas a mensagem que isso passa é certeira e cai como uma luva. Então pra que questionar se tudo se encaixa e funciona?
Essa visão me deu um engate emocional que falta durante meus dias, eu me sinto bloqueado, parado, procurando sempre soluções práticas e mecânicas para conflitos e desejos mundanos. Mas o sentimento de uno, de transcendência, é raro e especial, por enquanto. Espero atingir esse nível de consciência com mais facilidade através da meditação; por agora, a meditação serve para esvaziar minha mente, então o céu noturno é uma chave ótima para despertar.
Eu falei sobre mim nesse depoimento porque o Textos para Reflexão fala exatamente sobre isso: todas as coisas que estão dentro de nós. Parte da serenidade e compreensão que eu tenho hoje se deve aos textos lidos no blog. Meus anseios e desejos pelos mistérios da vida são nutridos por seus parágrafos. Não pare de escrever, por favor! (risos)

Eduardo Henrique


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[1] Se você está num Desktop ou Laptop, pode ler diretamente a versão ePub do seu Google Chrome, bastando para tal instalar o add-on Readium. Veja na imagem abaixo um exemplo do ePub aberto no Readium:

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27.11.14

O Livro da Reflexão

Segue abaixo o Prefácio para uma edição muito especial das Edições Textos para Reflexão, cujo lançamento será em meados de 2015...


Lá se vão oito anos desde que publiquei o primeiro dos Textos para Reflexão. Mas o que é o tempo não é mesmo? Disse Manoel de Barros que “o ser biológico é sujeito à variação do tempo, o poeta não”. Sinto que a poesia me faz viver um pouco deslocado do tempo, ao menos do tempo do mundo. Não me entenda mal, eu sei bem que a Disney lançará mais filmes do Star Wars, que o Brasil perdeu de 7 a 1 para a Alemanha em casa, e que há uma grave crise econômica na Europa, mas perto de alguns poemas de Fernando Pessoa, ou de alguns diálogos de Sócrates com seus jovens amigos, nada disso me comove como deveria... Eu simplesmente me esqueço de trocar meu smartphone no fim do ano, devo ser um desleixado.

Na verdade quase tudo o que sou devo ao que consegui desvelar da poesia. Foi assim que conheci a mulher que amo, que aprendi a fazer design para a web e, enfim, que encontrei a poetisa que me fez iniciar este blog – a história não é tão bonita quanto parece (ou, quem sabe, seja de uma beleza triste), mas ela também vem descrita nesta edição...

Com o passar dos anos, de tanto escrever, acabei chegando a alguns textos relativamente relevantes que me deram a honra de alcançar mais de 6 mil seguidores no Facebook e, o que é mais importante, uma boa dúzia de amigos e fiéis leitores do blog. Volta e meia eu me refiro “aos autores” do meu blog no plural, mas isto não quer dizer bem que faço psicografias (embora todo poeta seja um fingidor...), quer dizer somente que creio que as pessoas dão mais relevância a blogs com vários autores, e penso eu que até a pessoa descobrir que se trata de um blog de um autor só, talvez ela já tenha sido fisgada por alguma luz que refletiu por lá.

Mas fato é que o Textos para Reflexão é um blog pessoal, bem mais pessoal do que eu gostaria. Talvez fosse inevitável, afinal todo escritor que se preze escreve primeiro para si mesmo. É bom contar com mais de uma dezena de comentários em alguns posts, mas a verdade é que eu sempre escrevi antes para organizar minhas próprias ideias, e muito do que eu escrevi, escreveria de qualquer jeito (o mesmo fez Montaigne, e para o bem ou para o mal não existiam blogs na sua época)...

A grande questão é que tenho a sorte de trabalhar em home office, e desde que parei de jogar World of Warcraft tenho escrito bastante, bastante coisa mesmo. Talvez seja impossível acompanhar tudo (eu mesmo me esqueço de muito do que já postei), e daí que pensei que seria interessante poder editar os melhores contos e artigos desses anos todos, catalogados por temas específicos. Dessa forma, cheguei a este primeiro volume do Livro da Reflexão, onde pretendo abordar o amor, a morte e a existência, todos eles temas recorrentes do blog.

Nesta edição, cada capítulo tratará de um tema, mas é bem possível que eles também estejam espalhados por entre tantos textos. Espero que a presente organização sirva como uma espécie de guia de leitura minimamente agradável.

Acho que era só isso o que eu tinha para dizer neste prefácio... Ah, sim, e se você por acaso nunca ouviu falar do meu blog, segue um breve resumo do que ele pretende tratar:

Textos para Reflexão é um blog que fala sobre filosofia, ciência e espiritualidade. Onde se busca a sabedoria tanto no Evangelho de Tomé quanto no Cosmos de Carl Sagan. Onde as palavras nada mais são do que cascas de sentimentos, embora a poesia ainda assim possa nos levar a um outro mundo. Onde toda religião se pratica no pensamento, e onde Deus é nosso amor...


Rafael Arrais
27.11.2014

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E, como é de costume, já temos a capa prontinha (a imagem é baseada em arte de Banksy):

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Obs. (1): O Livro da Reflexão, volume 1: Amar e perder será inteiramente gratuito na versão digital!
Obs. (2): Também estamos recolhendo depoimentos dos leitores do blog para constarem no livro. Se você tem alguma coisa a dizer sobre o Textos para Reflexão – algo curtinho mesmo, com cerca de 1 a 3 parágrafos –, por favor nos envie uma mensagem por nossa página no Facebook ou, se preferirem, por e-mail: rarrais@yahoo.com

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31.10.14

Filosofar é aprender a morrer

Trechos de Michel de Montaigne em Os Ensaios (Livro I, cap. XIX) (Cia. das Letras/Penguin). Tradução de Rosa Freire D’Aguiar. Os comentários ao final são meus.

Diz Cícero que filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte. É assim porque, de certo modo, o estudo e a contemplação retiram nossa alma de nós e a ocupam separada do corpo, o que constitui certo aprendizado da morte e tem semelhança com ela; ou então, é porque toda a sabedoria e a razão do mundo se concentram, afinal, nesse ponto de nos ensinar a não ter medo de morrer. Na verdade, ou a razão está escarnecendo de nós ou seu objetivo deve ser apenas o nosso contentamento, e todo o seu trabalho deve tender, em suma, a fazer-nos viver bem e a nosso gosto, como dizem as Sagradas Escrituras.

Todas as opiniões do mundo chegam à conclusão de que o prazer é nosso objetivo, conquanto adotem meios diversos, do contrário as rejeitaríamos de início. Pois quem escutaria aquele que estabelecesse como objetivo nosso pesar e sofrimento? As discussões das escolas filosóficas, nesse caso, são verbais. Passemos por essas bagatelas tão solertes (Sêneca). Há aí mais teimosia e pirraça do que convém a uma nobre profissão. Mas, seja qual for o personagem que o homem adote, ele sempre representa, de permeio, o seu. Digam o que disserem, na própria virtude o objetivo último que visamos é a volúpia.

Agrada-me manter os ouvidos das pessoas com essa palavra que as contraria tão fortemente: e se ela significa um deleite supremo e extremos contentamento, é uma melhor acompanhante para a virtude do que qualquer outra coisa. Por ser mais viva, nervosa, robusta, viril, essa volúpia é mais seriamente voluptuosa.

[...] A felicidade e a beatitude que reluzem na virtude preenchem todas as suas dependências e avenidas, da primeira entrada até sua última barreira. Ora, um dos principais benefícios da virtude é o desprezo pela morte, o que fornece à nossa vida a mansa tranquilidade, dá-nos seu gosto puro e benfazejo sem o qual todo outro prazer está extinto. [...] Pois se a morte nos amedronta, é um contínuo motivo de tormento que nada consegue aliviar. Não há lugar onde ela não nos venha. Podemos virar incessantemente a cabeça para cá e para lá, como em terra suspeita: ela é como o rochedo sempre suspenso sobre Tântalo (Cícero).

[...] Amedrontamos nossa gente só em mencionar a morte, e a maioria se persigna, como diante do nome do diabo. [...] Porque essas sílabas atingiam muito rudemente seus ouvidos, e porque essa palavra lhes parecia de mau agouro, os romanos aprenderam a suavizá-la ou diluí-la em perífrases. Em vez de dizer “ele morreu”, dizem “ele parou de viver”, ou “ele viveu”. Consolam-se,  contanto que seja vida, ainda que passada.

[...] Jovens e velhos abandonam a vida da mesma maneira. Dela ninguém sai de outro jeito senão como se tivesse entrado naquele instante, acrescentando-se a isso que não há homem tão decrépito que não pense ainda ter vinte anos no corpo enquanto enxergar Matusalém diante de si. E ademais, pobre louco que és, quem te fixou os prazos da vida?

[...] É incerto onde a morte nos espera, aguardemo-la em toda parte. Meditar previamente sobre a morte é meditar previamente sobre a liberdade. Quem aprendeu a morrer desaprendeu a se subjugar. Não há nenhum mal na vida para aquele que bem compreendeu que a privação da vida não é um mal. Saber morrer liberta-nos de toda sujeição e imposição. [...] Por mim mesmo, não sou melancólico mas sonhador: não há nada de que me haja ocupado desde sempre como dos pensamentos sobre a morte, e até na época mais licenciosa de minha vida, entre as damas e os jogos, julgavam-me ocupado em digerir comigo mesmo algum ciúme ou a incerteza de uma esperança, enquanto eu pensava em não sei quem que fora surpreendido dias antes por uma febre alta, e em seu fim ao sair de uma festa parecida, com a cabeça cheia de ócio, amor e bons momentos, como eu: e eu mesmo martelava em meus ouvidos:

O presente já terá passado e nunca mais poderemos chamá-lo de volta (Lucrécio).

[...] Como sou homem que continuamente está incubando sues pensamentos e guardando-os dentro de si, a qualquer momento estou preparado, tanto quanto possa estar, e nada de novo me anunciará a chegada inesperada da morte. Devemos estar sempre com as botas calçadas e prontos para partir, tanto quanto de nós dependa, e sobretudo nos precavermos para que então só tenhamos de tratar conosco mesmos. Pois temos bastante trabalho sem outra sobrecarga. Um se queixa, mas que da morte, de que ela lhe interrompe o curso de uma bela vitória; outro, que deve partir antes de ter casado a filha, ou controlado a educação dos filhos; um sente falta da companhia da mulher, outro, do filho, que eram os principais confortos de sua existência. Por ora estou em tal situação, graças a Deus, que posso me ir quanto Lhe aprouver, sem me lamentar de coisa nenhuma.

Desligo-me de tudo: minhas despedidas de cada um estão quase feitas, exceto de mim. Nunca um homem se preparou para deixar o mundo mais pura e plenamente, e desapegou-se mais completamente do que eu tento fazer. As mortes mais mortas são as mais saudáveis.

[...] Que importa quando será nossa morte, já que é inevitável? Àquele que dizia a Sócrates: “Os trinta tiranos te condenaram à morte”, ele respondeu: “E a natureza a eles”. Que tolice nos atormentarmos no momento em que se dá a passagem à isenção de todo o tormento! Assim como nosso nascimento nos trouxe o nascimento de todas as coisas, assim nossa morte trará a morte de todas as coisas.

[...] A morte não vos diz respeito nem morto nem vivo. Vivo, porque existis: morto, porque não mais existis. Ademais, ninguém morre antes de sua hora. O tempo que abandonais não era mais vosso que o tempo que se passou antes de vosso nascimento: e tampouco vos toca. Onde quer que vossa vida acabe, ela está toda aí. A utilidade do viver não está na duração: está no uso que dele fizemos. Uma pessoa viveu muito tempo e pouco viveu. Atentai para isso enquanto estais aqui. Ter vivido bastante está em vossa vontade, não no número dos anos. [...] Tudo não se mexe como vos mexeis? Há coisa que não envelheça convosco? Mil homens, mil animais e mil outras criaturas morrem neste mesmo instante em que morreis.

Pois nenhuma noite sucedeu ao dia, nenhuma aurora à noite em que não se ouviram, misturadas aos tristes vagidos, as lágrimas acompanhando a morte e os negros funerais (Lucrécio).

***

Comentário
Herdeiro da fortuna do avô, um rico comerciante de peixes da região de Bordeaux (na França), Michel se recolhe à vida privada com cerca de 38 anos, o que naquela época (séc. XVI) já era considerado uma idade relativamente avançada. Nos pouco mais de 20 anos que o separavam da morte, Michel dedicou-se inteiramente a contemplação do mundo e do tempo na vizinhança do seu castelo em Montaigne, tendo produzido as cerca de mil páginas dos seus Ensaios, que inauguraram um novo estilo literário.
Conforme discorreu sobre quase tudo, sem ser um especialista em nada, Michel é quase um Sócrates renascido que, na falta de um séquito de jovens questionadores, optou por se recolher a uma vida literária. Não que houvesse se tornado um ermitão, pelo contrário: foi exatamente da sua própria vida e das suas próprias amizades e experiências que retirou a matéria prima dos seus Ensaios.
De certa forma, Michel também foi o primeiro blogueiro da história. E, na medida em que procurou escrever antes para si mesmo, sem jamais imaginar a fama que seus escritos alcançariam, particularmente séculos após sua vida, Michel também nos dá uma lição profunda acerca dos reais motivos pelos quais os verdadeiros filósofos tingem as suas folhas em branco, ou os campos vazios das postagens dos seus blogs... Meditar sobre a morte é a melhor forma, afinal, de encontrar a fonte da vida.

***

Crédito da imagem: Google Image Search (foto da estátua de Montaigne em frente da Universidade de Sorbonne, em Paris)

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12.12.13

Por que chora agora?

Que é isso que vejo em seus olhos?
Sou eu quem regresso e não você, querida;
Sou eu quem retorno a Mansão do Amanhã,
e embora já mal me lembre de quem sou
e do que faço aqui neste leito,
sou eu quem me vou a sonhar,
e você quem vai ficar
neste mundo sem sonhos.

E, no entanto, por que chora agora?
Porque chorar por mim que vou?

Talvez, por achar que já não me lembro mais de você
ou de seu nome?
Ora, querida, seu eu pudesse me levantar
e lhe falar uma última vez, eis o que diria:
“Não sei seu nome, nunca soube;
Sei que veio do lugar para onde agora vou.
Sei que lhe amo, e amo seu olhar,
sei que este amor habita a eternidade,
e isso basta!”

E então, algo estranho acontece,
e eu me lembro de quando tinha sua idade –
de quando dei o primeiro beijo em sua mãe.

Querida, por que chora agora?
Será porque eu mesmo também choro
ante tamanha beleza?
Um beijo do passado,
que gerou vida, vida!
Um beijo eterno, eterno!

Olho para o canto da sala, e vejo um bebê engatinhar.
Seria meu neto? Não poderia ser...
Eu sou muito novo para ser avô,
e foi outro dia que andei sozinho pela primeira vez!

Qual será, afinal, a minha idade?
Qual será a idade da eternidade?
Até onde vai, e volta, todo este amor?

Não chore, não chore... Me responda:
“Quando eu retornar da Mansão de onde todos saímos,
poderei ser seu filho, e você minha mãe?
Poderemos ser irmãos ou primos?
Ou melhores amigos?
Ou será que já fomos tudo isso,
e não lembramos mais?”

Num momento, estarei já a caminho...
Quem sabe não encontro sua mãe por lá,
e a convido para nossa próxima brincadeira!

Há tanta luz, e tanta beleza,
quando percebemos a vida pelo que ela é –
assim nos damos conta de que passamos boa parte dela
com medo do fim;
e não existe fim...

Então, por que chora agora?


raph'13 (após Zambujo)

***

Crédito da foto: krausjr

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14.11.13

Eu não acredito em idade

Sim, esta é uma frase que sempre digo as pessoas quando o assunto envolve o tema “idade”. A maior parte delas apenas desconversa ou ignora completamente o que foi dito. Algumas ficam admiradas e me olham com uma aparência confusa: “Hmm, isto deve ser algo muito profundo, melhor não perguntar nada”. E somente umas poucas chegam a me perguntar: “O que você quer dizer com isso?”. Penso que está na hora de responder...

Primeiramente, é importante frisar que esta é uma das conclusões puramente intuitivas que trago de minha infância. “Eu não acredito em idade, eu nunca acreditei em idade” – é algo que simplesmente “nasceu comigo”, se é que é possível dizer. Não foi algo que li nalgum lugar, e nem mesmo algo que, somente pelo fato de haver lido em algum lugar, se tornaria parte da minha essência. Eu não acredito em idade, é parte da minha essência, e desde minha infância tenho tentado descobrir o que exatamente isto significa.

Quando pensam em idade, a maioria das pessoas pensa – conscientemente ou não, quer admita ou não – em uma espécie de relógio de areia onde cada grão que escorre pela fresta abaixo é um dia a menos, um dia que ficou para trás. E, da mesma forma, quanto menos grãos de areia restam na parte superior do relógio, menos tempo há para viver. Neste sentido, falar em idade é basicamente falar em morte: quanto maior o número, quanto mais próximo dos 70, 80, 100 anos, mais próxima estará a morte.

Eu ainda vou retornar ao assunto, mas por agora gostaria apenas de deixar claro que o fato de eu não crer em idade não significa que ignore a existência da morte. Da mesma forma que não ignoro que, com o passar das horas do dia, e com o pôr do sol e a chegada da noite, eventualmente irei deitar minha cabeça num travesseiro e dormir (ah não ser que esteja jogando RPG ou numa rave, mas isto têm sido cada vez mais raro em minha vida, para o bem ou para o mal).

Dito isto, após muito refletir cheguei a conclusão de que para mim existem em realidade três tipos distintos de “idades”. Embora eu creia nas três, talvez percebam que nenhuma delas tem relação direta com o que as pessoas usualmente chamam de idade.

A primeira idade em que tenho fé é a idade fisiológica. Ora, seja lá o que seja o “eu” ou a alma, é certo que, ao menos neste mundo, habitamos um corpo humano. E este corpo humano possuí diversas características, físicas e mentais, que são desenvolvidas ao longo da infância e da juventude, até a chamada idade adulta. Diz-se que um adulto é um ser humano que vive numa sociedade onde o texto de algum pedaço de papel afirma que, de acordo com sua idade, ele pode se casar, ter relações sexuais, votar, dirigir um automóvel, etc. O valor numérico destas idades varia de acordo com a região e a cultura do planeta. Na África há muitos adultos com 13 anos, enquanto que na maior parte do globo a idade da maioridade é 18 (19 na Coréia do Sul, 20 no Japão e 21 nos EUA). Como eu sou um sujeito que segue a maior parte das leis, sou obrigado a concordar e botar fé em tais números.

Mesmo o cérebro humano, dizem os neurologistas, têm suas “idades”. Por hora do nascimento, um cérebro humano pesa cerca de 350 gramas e têm ¼ do tamanho de um cérebro adulto.  Com um 1 ano de idade, já têm o dobro do peso, 700 gramas, e metade do peso da versão adulta. Aos 6 anos, já têm 90% do tamanho final. Aos 12 anos, o córtex pré-frontal atinge sua fase final de desenvolvimento, que abrange toda a adolescência. Recentemente, cientistas têm discutido se este desenvolvimento não ultrapassaria em muito a idade dita adulta, geralmente os 18 anos, para terminar ainda muitos anos depois – o que estenderia, teoricamente, o tempo da adolescência, pois somente um “adulto com o córtex pré-frontal plenamente formado” teria condições de pensar com “toda a racionalidade condizente a fase adulta”...

Desta forma, ainda que eu acredite na idade fisiológica, isto por si só não me dá certezas se este ou aquele jovem já é mesmo adulto, se têm sua racionalidade “plena”, ou se ainda está em fase de desenvolvimento. Por via das dúvidas científicas, digamos que alguém na casa dos 30 anos estaria plenamente desenvolvido. Este sou eu: plenamente desenvolvido e, segundo uma amiga minha bem mais jovem, “já meio velhinho”.

E isto me leva para a segunda idade em que acredito, a idade espiritual. Bem sei que muitos aqui não irão concordar, mas fato é que também, desde minha infância, apesar de crer na morte, também creio na existência pós-morte e, da mesma forma, na existência pré-nascimento. Ou seja, não é que eu creia em vida após a morte, mas creio, isto sim, em vida após a vida, e em vida antes da vida. Creio em muitas e muitas vidas, enfim, e isto também está intimamente associado a intuições e lembranças de minha infância.

Quero lembrar que não é minha intenção “evangelizar” esta crença adiante, mas apenas explicar os motivos de minha descrença em idade – motivos, portanto, subjetivos. Dessa forma, para não me alongar muito, basta dizer que, quando lembramos de outras vidas e outras mortes, quem sabe da mesma forma que lembramos de viagens de nossa infância, ou do dia em que desmaiamos durante nosso primeiro porre alcóolico (embora eu não tenha tido tanta sorte, pois tenho uma grande dificuldade em perder a consciência), toda a vida atual é vista por um outro aspecto, um outro ângulo.

Dessa forma, se alguém me diz que estou “meio velhinho”, isto para mim faz tanto sentido quanto dizer que eu estou “a muito tempo nesta viagem de trem”. Não importa se os outros cismam em contar as horas até a próxima estação, eu não preciso mais me preocupar com isso, pois sei que a próxima estação é somente isso: mais uma estação nesta viagem infinita pelo Cosmos. Estação Terra, estação anos-luz da Terra – tanto faz, são todas estações.

Eu não sei se consegui me fazer compreender, pois isto é difícil de explicar com palavras fora de poemas, mas em todo caso acredito que a próxima idade ainda será esclarecedora...

Finalmente, creio na idade das montanhas.

Cícero dizia que “filosofar é aprender a morrer”. Há muitos que se admiram até hoje com Sócrates mais por sua serenidade ante a morte do que propriamente com suas ideias (“Mas eis a hora de partir: eu para morte, vós para a vida. Quem de nós segue o melhor rumo ninguém o sabe, exceto os deuses” [1]).

Já Schopenhauer, influenciado pelas ideias religiosas do Oriente, afirmava que “para seu enorme espanto, um homem se vê de repente existindo, após milhares de anos de não existência; vive por algum tempo, e então transcorre de novo um período igualmente longo em que ele não existe mais. O coração rebela-se contra isso, sentindo que não pode ser verdade.” [2]

Há muitos pensadores modernos, como Jim Holt, que não têm tanta fé na existência pós-morte, e admitem a plenos pulmões o seu grande medo do Nada: “O medo da morte vai além da ideia de que o fluxo da vida continuará sem nós [...] É a perspectiva do Nada que provoca em mim certa náusea – senão puro e simples terror. Como encarar esse Nada?”. [3]

Epicuro, apesar de tampouco crer na existência após a morte do corpo, lidava com o tema de forma muito natural: “Quando a morte está, eu não estou. Quando eu estou, ela não está. A morte, o dito mais terrível dos males, não significa nada para mim”. [4]

Dessa forma, não é bem a crença em existências anteriores e posteriores a esta vida, a esta estação, que nos alivia do peso da morte, do peso do Nada. Este peso não tem propriamente a ver com um medo paralisante de algo que um dia chegará, e que está neste momento sendo contado no relógio de areia que chamamos idade; este peso tem a ver com uma falta de sentido existencial, um vácuo aberto dentro do peito, um grande tédio, um Nada que pela lógica jamais pode haver existido, mas que não obstante pode nos atormentar por cada momento da vida.

Filosofar pode, de fato, ser aprender a morrer. Tanto quanto aprender a morrer é aprender a subir montanhas...

Uma outra coisa que trago da minha infância é a Serra da Mantiqueira, ao sul de Minas Gerais. Isto já não tem nada ver com lembranças de outras estações, mas com a suprema sorte de haver, nesta mesma estação, tido a oportunidade de passar proveitosos períodos de férias em um hotel fazenda de minha família.

Foi na Mantiqueira que aprendi a subir e subir, por entre florestas antigas que estão por lá há centenas de estações, pisando em rochas que sobrevivem há milhares, há milhões!

Foi na Mantiqueira que aprendi a olhar para baixo do topo do mundo, e observar (mesmo antes de voar de avião) como há tantos e tantos homens e mulheres e crianças brincando em seus terrenos pequeninos, em suas fazendas pequeninas, em suas casas de brinquedo, em suas caixas de areia.

Eles juntam montes de areia, colocam seus enfeites e um telhado para proteger das chuvas. Eles vivem lá boa parte de suas vidas. Eles guardam por lá boa parte do que amontoaram em suas viagens. Eles mal sabem quantas montanhas e estações existem pelo Cosmos...

O que a idade das montanhas me ensinou, e têm até este momento me ensinado, é que não devemos por certo entrar em pânico ante ao Nada. Se iremos dormir para não mais acordar, ou se iremos sonhar com outras viagens e outras estações, fato é que nada do que somos, nem mesmo do que nos forma, pode de fato ser aniquilado, arremessado ao Nada.

Pois as montanhas são a prova de que o Nada não existe. Elas estão lá, imponentes, acima de todos nós, nos lembrando de que há coisas maiores, bem maiores, cósmicas, que existiram e continuarão a existir muito após esta nossa pequena viagem.

E se vamos acordar para um novo sonho ou não, pouco importa. O que importa é não deixar o entusiasmo escapar por entre os dedos da alma. Que se vamos ou não deixar de existir um dia, isto não é algo que seja definido, de forma alguma, por nossa idade. E eu não acredito em idade.

***

[1] Platão. Fédon.

[2] Arthur Schopenhauer, O vazio da existência.

[3] Jim Holt. Por que o mundo existe? (Intrínseca).

[4] Epicuro. Carta a Meneceu (UNESP).

Crédito da foto: raph + instagram (Serra da Mantiqueira)

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