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15.2.13

Ad infinitum: Amala e Kamala são uma farsa?

Este é um comentário adicional acerca do meu livro: Ad infinitum.

Um leitor me alertou para estudos recentes, de 2007 [1], que afirmam que o caso das crianças selvagens indianas, Amala e Kamala [2], seria na realidade uma farsa elaborada pelo reverendo cristão (Singh) que as mantinha em seu orfanato em Midnapore. Eis o que tenho a dizer sobre isto, já que este caso é citado em meu livro:

Segundo estudos recentes, a história das meninas Amala e Kamala, "criadas por lobos" na Índia, pode ser uma farsa.
Apesar de não haver lido o estudo (se encontra num livro publicado apenas em francês), fontes da Wikipedia trazem informações que parecem apontar para um estudo realmente aprofundado. Parecem indicar, enfim, que o caso de Amala e Kamala se trata mesmo de uma farsa. Ainda que o objetivo do Reverendo Singh talvez tenha sido puramente altruísta (trazer recursos para seu orfanato, embora eu mesmo duvide que tenha sido apenas para caridade), isto não invalida a fraude em si.

Ainda que seja, não significa que não tenham ocorrido casos do tipo no mundo, ou que todos os relatos de "crianças selvagens" sejam falsos.
De fato, apesar de o caso de Amala e Kamala ser um dos mais famosos, ele está distante de ser o único. Provavelmente, os casos reais serão menos fantásticos e mais deprimentes, como pais alcoólatras do leste europeu que abandonam seus filhos, literalmente, na casinha do cachorro, e outras histórias ainda mais lamentáveis...

Mas mesmo que TODOS os relatos sejam falsos, isto não anula a lógica que pretendia ser demonstrada com a história.
Felizmente, no que tange a lógica e a filosofia do meu livro, ainda que todos os casos de crianças selvagens relatados na história sejam fraudes, isto não invalida a tese que pretendia ser demonstrada quanto citei o caso de Amala e Kamala.

Isto é: que nós somos seres de potencialidades que precisam ser despertadas na juventude, do contrário perderemos a oportunidade de despertá-las nesta vida.
Isto é algo que todo educador sabe: as crianças vêm a este mundo com plenas capacidades de desenvolvimento, mas são extremamente dependentes dos pais e de uma boa educação para que consigam desenvolver suas potencialidades. Conforme o exemplo de Mozart, citado também em meu livro: se seu pai não houvesse lhe apresentado um piano quando ele ainda era bem jovem, ele certamente não teria sido um menino prodígio, e talvez nem sequer fosse músico. Isto não significaria, no entanto, que Mozart não houvesse nascido com a potencialidade latente para a música – ela apenas não haveria sido desperta há tempo.

"Um ser humano criado por lobos será pouco mais que um lobo. Mas um lobo, ainda que criado por nossos melhores educadores, não tem a potencialidade de ser, cognitivamente, como nós".
Esta é a associação da potencialidade com a cognição de cada espécie. O lobo, que é inferior ao ser humano na capacidade de cognição, jamais poderia alcançar a cognição do ser humano mais ignorante, ainda que fosse o mais “genial” dos lobos, e ainda que fosse educado por nossos melhores adestradores. Apesar de todo animal ser um ser de potencialidades, as potencialidades da cognição humana só podem ser despertas na espécie humana [3].

***

[1] Um cirurgião francês, Serge Aroles, publicou em 2007 um livro onde analisa em profundidade diversos casos de crianças selvagens relatados na história. Seu livro se chama L'Enigme des enfants-loup (algo como O enigma das crianças selvagens, sem versão em português).

[2] O caso de Amala e Kamala é descrito neste artigo do meu blog: Os pequenos selvagens.

[3] Apesar de eu não citar isto no livro, poderíamos usar esta lógica como uma crítica a algumas ideias superficiais no âmbito da reencarnação: se um ser humano pudesse reencarnar num lobo, ou num cachorro, algum adestrador já haveria conseguido ensinar algum desses animais a se comunicar de forma avançada. Entenda-se como uma anedota.

***

Crédito da imagem: Ayon/Raph.

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4 comentários:

Anonymous Samuel Otemi disse...


Sobre a diferença de cognição, animal e humana, eu me lembro de uma entrevista com o médico e escritor Olver Sacks que ele fala de um de seus pacientes que um dia ele acordou conseguindo sentir o cheiro de forma espantosa, ele coneguia identificar todas as coisas na cidade através do olfato e percebeu uma peculiaridade durante essa grande elevação de sua capacidade alfativa ele não conseguia criar pensamento abstrato, porque a quantidade de informação captada pelos seu sentidos eram gigantescos ele só conhecia diretamente através do sentidos.
Ou seja a linguagem e potencialidades dos animais é baseada em um pensamento absoluto se conhece diretamente através dos sentidos.O ser humano abdicando na evolução dos sentidos mais proeminente que os outros permitiu o surgimento do pensamento abstrato. No entanto isso não impede que os animais temham liguagem, e capacidade extraordinárias, so que eles tem uma visão mais profunda e direta devido a quantidade de informações que os seus sentidos podem captar.
Assim como o conto da lebre e da tartaruga,o pensamento abstrato da ao homem a vontade de ser deferente, de um pé de jaca dá uva, asim é o ser humano.Mas assim como no conto, cada éspecie encontra sua vitória em seu próprio modo.Como dizia Gilbran Kalil quando o leão ruge na floresta a gazela não diz , que terrível.Para um lobo não teria vantagem nenhuma ser como nós, e nem um humano ser como um lobo.No final os dois sairiam perdendo.
Esses casos terríveis de abandono não deixam se ser interessante, entender que o ser humano em seu sistema limbico, possui todas as fases de desenvolvimento animal inclusive dos répteis , e a natureza animal ter a sensibilidade de cuidar de outro filhote de outra éspecie. Longe de qualquer filosofia e abtração nos revela que a realidade é fundada em laços de cooperação e de amor, e como empedocles dizia em ódio, que para mim o mais apropriado é rigor, eu penso que isto é mais sgnificativo que a noção de superioridade.
Acredito também , que é de pequenino se torce o pepino.Não que eu discorde de você mas é apenas uma outra visão.

Valeu!

16/2/13 12:34  
Blogger raph disse...

Oi Samuel, obrigado pelo excelente complemento.

Repare que tentei deixar claro que a diferença entre o lobo e o ser humano é cognitiva, o que não implica que um seja "superior" ao outro, como pensam alguns que creem que animais não tem alma, ou seja, que são como "coisas".

Abs!
Raph

16/2/13 14:28  
Blogger Mirian Costa disse...

Me da um exemplo como aconteceu na vida diário

24/2/17 07:41  
Blogger raph disse...

Este é um exemplo mais atual, conforme citado no texto acima:

Abandonada pela mãe, menina é criada por cachorros

24/2/17 10:12  

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