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5.2.13

O Reino

I.
“Que é a vida?”
Um desconhecido me perguntou
Há muitas vidas, quando lhe disse:
“A vida é o que me foi revelado
Por um profeta cheio de segredos
Falando aos brados”

“Tudo é pecado, tudo é pecado!”
Gritava aquele homem santo
Que sabia ver a sombra do Demônio
Debaixo de cada pedra e galho seco...

Com ele aprendi a orar para me salvar
Do grande Fim de Tudo
E do Julgamento do Pai Justo:
Aquele quem diria quem de nós iria ao Céu
E quem iria arder abaixo da Terra

Mas, foi nalguma vida que pensei...
“Ó Pai Justo e Onisciente, se Tu a tudo criou
Mesmo o Inferno é Tua obra
E mesmo do que lá ocorre, Tu bem sabes:
Sabes de cada gemido e ranger de dentes
De cada filho Teu a arder no enxofre
Sabes perfeitamente!”

Foi nesta vida que tornei-me ateu...

II.
“Que é a vida?”
Perguntei a um rabi que andava pela Galileia
E parecia estar cheio de vida
No olhar
E em todos os poros do corpo...

“A vida é uma festa que se dá no Reino”
“Mas onde está o Reino, é alguma ilha além do mar?”
“Se o fosse, os peixes teriam nos precedido...”
“Então, estaria acima das nuvens?”
“Se estivesse, os pássaros seriam já como anjos...”
“Onde está tal Reino? Diga-me, ó rabi!”

“Primeiro é preciso que você aprenda a dançar;
Pois que, do contrário, não será convidado para a festa”

III.
Foi então que me dediquei a essa tal dança
De corpo e alma
E, em cada vida que fosse
Se houvesse aprendido mais um passo
Um movimento sequer...

Não teria vivido em vão

IV.
“Que é a vida?”
Me perguntará outro desconhecido
Nalguma vida que virá;
E eu citarei o rabi:
“Uma dança. Uma dança belíssima”

E mostrarei seus passos
E o desconhecido ficará espantado
E achará que sou um homem santo
Ou profeta...

“Não há santos nem profetas”
“Mas como se pode dançar tão perfeitamente?”
“Nenhuma dança nunca será perfeita”
“Mas quero dançar como tu, ó dançarino!”
“Digo-te o que me disse uma vez um rabi, há muitas vidas:
Tudo que tenho feito, dia virá que farão o mesmo
Mesmo a minha dança, dia virá que a dançarão com ainda mais vida
E ainda mais entusiasmo
Pois que são deuses
E é dançando
Que os deuses alcançam ao Céu”

“Mas, onde está o Céu?”
“Onde sempre esteve: na alma do dançarino...
Hoje danço e apenas danço
E sei que nada precisa ser revelado
Além do que já percebo em meu coração
Ouça, ouça o ritmo!”
“Nada ouço, ó dançarino”
“Como pode?
Como pode não ouvir o ritmo da vida
Na ânsia por si mesma
Tempestuosa e caudalosa
Preenchendo todos os espaços?”

“Onde está a vida? Está aqui, no presente?”
“O presente é como um rio a escaldar
Uma chuva torrencial
De vida ancestral

Não há mais medo
Não há mais dúvida ou certeza
Não há mais profecias
Nem Deus ou o Demônio
Há apenas esta dança na chuva
Há apenas esta vida, gota de inúmeras outras
Que encharcam há tudo que há...

Agora vejo:
Debaixo da cada pedra e galho seco
Além do mar e das nuvens
E ainda dentro da alma que dança:
Tudo foi Céu
Tudo será Céu
Tudo é Céu!”

Bem vindo, tu que não é mais desconhecido
Meu semelhante...
Bem vindo ao Reino

raph'13'A.'.A.'.

***

Crédito da foto: favim.com (Anônimo)

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