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30.5.13

Relâmpagos

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Da janela entreaberta do quarto, vi um relâmpago antes de ir dormir.

Era como se um milhão de vagalumes se alinhassem imperfeitamente e então algum deus desse o sinal para que iluminassem, em uníssono, a vasta escuridão noturna; Era como alguma espécie de orgasmo do crepúsculo; Como um exímio samurai a nos matar antes que pudéssemos ver nosso próprio sangue escorrer ou nosso cadáver tombar ao solo – tudo o que havia a ser lembrado era o derradeiro movimento estático de sua lâmina cortando o espaço escuro...

Os que têm certo asco de mitologia dizem que os antigos eram supersticiosos imbecis que acreditavam que algum gigante seminu morava no Céu e enviava relâmpagos para Terra a fim de nos assustar.

Eu não estava assustado. É o trovão o que nos assusta, e tem sido assim desde antes da civilização; Mas aqueles relâmpagos estavam tão, tão distantes, que o seu som não chegava. Eu vi somente as pinceladas de luz envolta em nuvens, eu não estava assustado.

Me aproximei da janela e a abri lentamente. Tinha sono, mas aquele baile elétrico a desvelar o horizonte oculto da noite havia me hipnotizado!

Os cientistas já descobriram e computaram o que é, objetivamente, um relâmpago. Mas eu já havia desligado o computador, e o Grande Google estava inacessível as minhas indagações. Ademais, tudo o que poderia ser computado acerca dos relâmpagos, todos os dados científicos colhidos pela meteorologia, nada disso iria me responder exatamente o que eu estava sentindo naquela noite antes de ir dormir.

Quem disse que todos os antigos acreditavam nessa lenda do deus que arremessa relâmpagos? Talvez fosse uma história que eles contavam para atemorizar as crianças em torno da fogueira; Talvez fosse um código simbólico para alertar sobre a imprevisibilidade de tais eventos... Afinal, após milhares de anos, nós mal sabemos dizer em que dia do mês que vem vai relampejar novamente.

O acaso natural ou o acaso do mau humor de um gigante seminu que vive acima das nuvens – tanto faz, é o mesmo acaso.

Um dia um sujeito chamado Laplace postulou que se um demônio pudesse saber da posição e movimento exatos de todas as partículas do Cosmos, então poderia saber perfeitamente de todo o futuro – nada mais seria acaso para o seu vasto intelecto.

Ora, talvez seja isto exatamente a natureza de Satanás, um demônio que já sabe de tudo o que há para saber, e por isso enlouqueceu?

Felizmente a física quântica comprovou que tal demônio não poderia saber tanto...

Mas afinal, o que os antigos não sabiam é que dentro de nosso cérebro as sensações e reações se convertem em pequeninos relâmpagos que realizam um baile neuronal incessante.

Isto me conectou, de certa forma, aqueles relâmpagos distantes que também dançavam uma valsa silenciosa.

Sejam os relâmpagos distantes no Céu, sejam estes que viajam dentro do meu crânio, nenhum deles pode me explicar o que é exatamente ver um relâmpago antes de ir dormir, pela janela entreaberta do quarto.

Então, assim confuso e espantado, fui dormir.

E em meus sonhos, não haveria nada que pudesse me impedir de ser, eu mesmo, um gigante seminu a atirar lanças de luz pela imensidão...

***

Crédito das imagens: [topo] Rob Matheson/Corbis; [ao longo] Joel Robison (Zeus/Jupiter)

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