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8.5.13

O diagnóstico da normalidade

Para saber o que é loucura, a gente tem que entender o que é ser normal. E isso ninguém conseguiu definir até hoje. Mas, uma coisa é certa, um pouco de maluquice faz parte da normalidade e ser normal demais é o mesmo que ser muito louco. (Psicologia UERJ)


Este cartaz (com o texto acima, a imagem que ilustra este post) deveria ser lido para todo iniciante nos mistérios da loucura e da normalidade. A grande verdade é que não há um "método científico" para de diagnosticar a loucura, e muito menos a normalidade... O que há, isto sim, é uma convenção, um acordo social, para o que seja "normal" e o que seja "louco".

Ainda assim, todo ser que vive numa sociedade precisa de certa autonomia, de certa capacidade para conseguir subsistir sem a necessidade de um auxílio permanente de outro alguém. Talvez seja isto o "louco": aquele que não consegue mais viver na sociedade por si só, e que precisa de acompanhamento psicológico (ou, em casos graves, de afastamento total da sociedade).

Mas tudo isto faz parte de uma longa discussão que data desde antes da própria invenção do termo "psicologia". Nesta brilhante palestra para o programa Café Filosófico da TV Cultura, o psicanalista e psiquiatra Benilton Bezerra nos traz um exposição bastante ampla da História da psicopatologia.

O nome em si (psicopatologia) pode assustar, mas seu significado é algo que nos interessa (ou deveria interessar) a todos. A palavra "Psico-pato-logia" é composta de três palavras gregas: psychê, que produziu "psique" ou "alma"; pathos, que resultou em "excesso" ou "sofrimento"; e logos, que resultou em "lógica" ou "conhecimento". Psicopatologia seria, então, um conhecimento sobre o sofrimento da alma. E isto nos interessa a todos, pois é impossível viver sem sofrer. Nos interessa, portanto, conhecer os motivos de nosso sofrimento, e até onde eles podem ser amenizados ou "controlados". Isto também é um autoconhecimento e, dessa forma, filosofia.

Mas o que nos interessa acima de tudo é evitar que este tal "diagnóstico da normalidade" (o que, na realidade, nunca será 100% eficaz) não se reduza a um procedimento "científico", que trate aos seres humanos como "máquinas comportamentais". É este, sobretudo, o alerta da Benilton - uma alerta para que nossa mente não siga, ao menos diretamente ou irrefletidamente, aos ditames do mercado farmacêutico. Se pelo menos as crianças pararem de ser diagnosticadas a torto e a direito com "distúrbios de comportamento", somente por serem crianças e gostarem, digamos, de "bagunçar o coreto", já será um bom avanço. Não na opinião do mercado farmacêutico, obviamente, pois o que lhes interessa é somente vender seu próximo "lançamento" [1]...

***

[1] Não quero aqui, obviamente, dizer que os acometidos de distúrbios mentais devam deixar de se medicar. É claro que muitos remédios são de grande auxílio, contanto que o paciente esteja efetivamente com um distúrbio. Vocês entenderão melhor o contexto do que estou querendo dizer se virem toda a palestra acima (particularmente a segunda metade). Também já escrevi sobre este assunto aqui: Intoxicados.

Crédito da imagem: Psicologia UERJ

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