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13.5.13

Tao Te Ching a caminho...

O próximo projeto para as Edições Textos para Reflexão é consideravelmente mais ambicioso que os demais: Tao Te Ching – O Livro do Caminho Perfeito.

Trata-se do livro essencial do taoísmo e de um dos maiores livros sagrados da humanidade. Diz a lenda que foi escrito (entre 350 e 250 a.C.) pelo próprio Lao Tse, um misterioso sábio chinês, a pedido de um guarda de fronteira, enquanto ele aguardava para ser liberado a ultrapassá-la... Quem sabe, uma das maiores contribuições da burocracia para a sabedoria humana!

Estarei, claro, traduzindo do inglês, e não diretamente do original. Entretanto, estarei muito bem “assessorado”. Usarei como base a tradução clássica de James Legge, mas contanto com as interpretações de Aleister Crowley e Murillo Nunes de Azevedo. Vejam mais detalhes abaixo, no que será um trecho do início do livro:

***

Nota sobre a tradução

Na língua chinesa escrita de estilo antigo, cada palavra, em geral, era escrita usando um único caractere (monossilábico); era um estilo muito mais conciso e literário do que a língua falada. Como o Tao Te Ching foi escrito no estilo antigo, o texto é extremamente conciso e não é de interpretação fácil mesmo para um chinês. O significado de cada monossílabo, no meio de uma série continua de caracteres sem pontuação, não surge espontaneamente; as frases têm uma estrutura mais difícil de detectar. As palavras que rimam sugerem as frases que estão presentes, mas nem sempre elas estão lá e nem sempre a estrutura fica perfeitamente clara. Sabe-se também que na época de Lao Tse não havia uma escrita unificada, porque a China não estava ainda politicamente unificada, e que o significado e pronúncia de muitos caracteres se foi alterando com o tempo.

Neste cenário, seria deveras complexo e pretensioso traduzir tal obra direto do original. Felizmente, no entanto, posso contar com a tradução clássica de James Legge para o inglês. Legge (1815 – 1897) foi um missionário escocês que viveu na China e dedicou boa parte da vida a estudar sua cultura. Além de ter sido o primeiro professor de chinês na Universidade de Oxford, é reconhecido por haver composto uma das traduções mais fiéis do Tao Te Ching para o inglês.

Mas não é tudo. Em minha tradução de Legge para o português conto com uma “assessoria” muito especial. A primeira é a interpretação do famoso e polêmico ocultista britânico, Aleister Crowley (1875 – 1947):

“Durante minhas andanças solitárias pelas montanhas de Yun Nan, a atmosfera espiritual da China me penetrou a consciência, graças a ausência de qualquer impertinência intelectual de meu órgão de conhecimento. O Tao Te Ching revelou sua simplicidade sublime a minha alma, pouco a pouco [...] A filosofia de Lao Tse se comunicou comigo, a despeito das tentativas persistentes de minha mente em tentar conformá-la com minhas noções pré-concebidas do que o seu texto deveria significar” (The Tao Teh King [Liber CLVII], trechos da Introdução).

O grande mago não pôde evitar a tentativa de reinterpretação do livro para a língua inglesa. No verão de 1918, realizou sua nova tradução com o auxílio de um amigo, chamado Amalantrah, que lia o significado de cada ideograma chinês, traduzindo-o ao inglês, enquanto Crowley os interpretava e anotava:

“Eu completei minha tradução em três dias, mas durante os últimos cinco anos tenho constantemente reconsiderado cada sentença. O manuscrito foi emprestado a numerosos amigos e intelectuais que comentaram meu trabalho, e aspirantes do Tao que apreciaram sua adequação ao espírito do ensinamento do Mestre. Aqueles que se desapontaram com a tradução de Legge estavam entusiasmados com a minha” (Idem).

A segunda “assessoria” de que desponho é a espetacular tradução do Tao de Ching, também à partir de Legge e outras versões inglesas para o português, de Murillo Nunes de Azevedo (1920 – 2007), engenheiro, escritor e filósofo brasileiro. Membro da Sociedade Teosófica desde 1950, professor em diversas universidades brasileiras durante 30 anos, monge budista, Murillo traduziu e escreveu ele mesmo uma vasta obra sobre diversas tradições espirituais e religiosas, do Tantra ao Taoísmo, do Budismo da Terra Pura ao pensamento teosófico de Helena Blavatsky. Segundo suas próprias palavras, Murillo “procura a visão global de uma realidade que teima em não ser captada pelos seres humanos mais preocupados com os problemas das suas vidas pessoais e seus pequenos mundos de 'faz-de-conta'” (Wikipedia).

De posse da tradução de Legge e das interpretações de Crowley e Murillo, penso que posso chegar a uma espécie de “tradução no caminho do meio”, nem tanto a Terra, nem tanto ao Ar. Meu sucesso ou insucesso, no entanto, será julgado pelos leitores...

***

Para dar uma ideia de como ocorre meu processo de tradução, trarei abaixo, na sequência, quatro versões para o quarto poema do Tao Te Ching (meu predileto): iniciando com Legge e Crowley (em inglês), depois trazendo a tradução de Murillo e, finalmente, a minha.

IV

The Tao is (like) the emptiness of a vessel; and in our employment of it we must be on our guard against all fullness.
How deep and unfathomable it is, as if it were the Honoured Ancestor of all things!

We should blunt our sharp points, and unravel the complications of things; we should attemper our brightness, and bring ourselves into agreement with the obscurity of others.
How pure and still the Tao is, as if it would ever so continue!

I do not know whose son it is. It might appear to have been before God.

***

THE SPRING WITHOUT SOURCE

The Tao resembles the emptiness of Space; to employ it, we must avoid creating ganglia. Oh Tao, how vast art Thou, the Abyss of Abysses, thou Holy and Secret Father of all Fatherhoods of Things!

Let us make our sharpness blunt; let us loosen our complexes; let us tone down our brightness to the general obscurity. Oh Tao, how still art thou, how pure, continuous One beyond Heaven!

This Tao hath no Father; it is beyond all other conceptions, higher than the highest.

***

A FONTE DE TUDO

O Caminho é vazio e inesgotável,
profundo como um abismo.
É como se fosse o ancestral das dez mil criaturas.
Suavizai o corte
Desfazei os nós
Diminuí o brilho.
Deixai que as rodas percorram os velhos sulcos.
Devemos considerar nosso brilho
a fim de que nos harmonizemos com a escuridão dos outros.
Como é puro e tranquilo o Caminho!
Não sei de quem possa ser filho
pois parece ser anterior ao Soberano do Céu.

***

A FONTE SEM ORIGEM

O Caminho é como o vazio de um vaso.
Ao utilizá-lo, devemos nos guardar de todo excesso.
Oh, e como é vasto, profundo como um abismo!
É como se fosse o Ancestral de todas as coisas.

Deixemos que as rodas percorram
os velhos sulcos da estrada.
Devemos cegar nossas adagas,
desfazer os nós
e diminuir o brilho
para que nos harmonizemos com a escuridão alheia.

Oh, como é puro e tranquilo o Caminho,
pode ser que continue para além do Céu!
Não sei de quem possa ser filho,
pode ser anterior ao próprio Imperador de Jade.


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2 comentários:

Blogger Robson Lima disse...

Sua tradução do Tao Te Ching já foi publicada? Como faço para consegui-la? Agradeço antecipadamente por sua resposta.

15/8/17 12:25  
Blogger raph disse...

Olá Robson, foi sim, vc consegue encontrá-la tanto para Kindle (e-book bem baratinho) como na versão impressa (venda somente online), aqui:

http://textosparareflexao.blogspot.com/2013/06/lancamento-tao-te-ching.html

Abs!
raph

15/8/17 14:11  

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