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29.4.26

A tripulação

Desde que nos entendemos por gente, por civilização, ou mesmo antes disso, ela já estava lá, cintilante e imponente, às vezes cheia, às vezes oculta, mas sempre exercendo o seu cargo de rainha da noite.

Todavia, para os gregos antigos, assim como na mitologia de outros povos, ela não é simplesmente rainha, mas deusa. Selene é o seu nome, e a lua, isso que vemos flutuando na noitinha, é uma espécie de acessório da sua carruagem divina.

Há pouco mais de meio século nós finalmente colocamos os pés nela, e embora fosse tão somente uma imensa pedra seca cheia de crateras, creio que este conhecimento empírico e direto não a tornou menos deusa, menos sagrada, ao menos aos olhos dos poetas.

Ironicamente, a NASA intitulou essas missões espaciais com o nome do deus Apolo, que a exemplo de Selene também possui uma carruagem divina, mas que serve para mover o sol, e não a lua. Mais recentemente, meio século depois, a NASA voltou a mandar alguns de nós aqui da Terra para lá, e intitulou as missões com o nome da deusa Ártemis, vejam só, a irmã gêmea de Apolo.

Esses foram os quatro seres humanos enviados para navegar pelo espaço próximo, sobrevoar o lado oculto da lua, e retornar à Terra, na missão Ártemis II:

Reid Wiseman, comandante da missão, norte americano, bacharel em ciências e mestre em engenharia.
Victor J. Glover, piloto da missão, norte americano, bacharel em engenharia, com dois mestrados em áreas da engenharia e um em ciência militar.
Jeremy Hansen, um dos especialistas da missão, canadense, bacharel em ciências espaciais e mestre em física.
Christina Koch, a outra especialista da missão, norte americana, bacharel em engenharia e física, mestre em engenharia.

Então foi isso, três homens, incluindo o primeiro não norte americano a flutuar ao redor da lua, e uma mulher, que também foi a primeira mulher a realizar tal feito.

E, se este “feito” pode parecer algo meio sem sentido para muitos de nós vivendo o dia a dia aqui embaixo, com suas guerras sem sentido, suas crises climáticas, desigualdades e injustiças avassaladoras, penso que há um pensamento muito consolador em meio a tudo isso:

Pelo menos eles não usaram foguetes para se destruir, e sim para navegar pelo espaço a nossa volta.

Sim, durante os dez dias dessa viagem louca ao redor de uma deusa, confesso que contemplei a lua com outros olhos, pois sabia que lá em cima, lá longe, de alguma forma quatro de nós, arrastados pelas leis gravitacionais dentro de uma cápsula de metal, observavam com os próprios olhos, pela primeira vez na era humana, o lado de Selene que nunca se volta para a Terra.

Estou sentado em uma lata
muito acima do mundo;
o planeta Terra é azul,
e não há nada que eu possa fazer...

E por mais que possa parecer absurdo colonizar uma deusa, estabelecer bases humanas permanentes nessa pedra inóspita, quem sabe para extrair minérios, quem sabe para lançar novos foguetes cada vez mais distante (se aqui embaixo não nos exterminarmos antes), há algo de genuinamente belo na ideia da humanidade desbravar a escuridão infindável do espaço sideral, com suas distâncias inimagináveis, a bordo de pequeninos barcos metálicos.

No entanto, essa “beleza” pode ser difícil de ser encapsulada em palavras. Por sorte desta vez enviamos uma mulher, e coube a ela, somente a ela, tentar reduzir tudo isso a meras palavras, meras cascas de sentimento.

Eis o que nos contou Christina Koch numa espécie de coletiva de imprensa, pouco tempo depois de aterrissar de volta em casa:

“Há alguns anos eu estava dando um discurso, e ele falava sobre tripulação e trabalho em equipe. Em dado momento, alguém perguntou: O que define uma tripulação? Qual a diferença entre uma tripulação e uma equipe?

E eu pensei, ok, essa é moleza. Então abri a boca, confiante, para contar tudo o que eu sabia sobre ser parte de uma tripulação... E tudo o que saía da minha boca naquele momento na realidade não tinha valor algum.

Eu dizia coisas como, Ok, nossas tripulações vão ao espaço, e trabalham juntas, e se alimentam juntas, então, sabe, elas são uma tripulação. Bem, os barcos também têm tripulações. Você é um tripulante se estiver num deles. Ajuda se tiver um remo...

Tudo isso era bobagem. Mas, nos últimos dez dias, em nossa missão ao redor da lua, eu obtive uma resposta um pouco melhor para essa pergunta.

Uma tripulação é formada por pessoas, por um grupo de pessoas que estará sempre unida, não importa o que aconteça. Isso significa avançar juntos, a cada minuto, com o mesmo propósito em mente. Isso significa estar disposto a se sacrificar silenciosamente um pelo outro. Isso torna cada uma dessas pessoas responsável pela outra.

Uma tripulação tem as mesmas preocupações e as mesmas necessidades. E uma tripulação está inescapavelmente ligada por um belo e devotado vínculo.

Então, quando vimos a Terra distante, pequenina, em nosso retorno da lua, as pessoas aqui embaixo perguntaram à nossa tripulação quais foram as nossas impressões dessa cena. E, honestamente, o que me impressionou não foi necessariamente apenas ver a Terra, mas observar toda aquela escuridão ao redor. A Terra era apenas um bote salva-vidas pairando tranquilamente no universo...

Bem, talvez eu não tenha aprendido – sei que não aprendi – tudo o que essa jornada tem para me ensinar, mas há uma coisa nova que eu sei: o planeta Terra é um barco, e vocês são uma tripulação.

Obrigado.”


***

Crédito das imagens: Artemis II/NASA

 

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