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21.8.26

Traduzindo a Montanha Mágica (parte 3)

« continuando da parte 2


A Montanha Mágica possui uma personagem feminina que em boa parte do livro (ao menos enquanto está residindo no Sanatório Berghof) chega a rivalizar com o protagonismo de Hans Castorp. A sua primeira aparição na história se dá quando Hans Castorp decide se virar da cadeira e descobrir quem diabos efetivamente deixa a porta do refeitório bater estrondosamente sempre que adentra o recinto. Apesar de obeservá-la de longe, Hans Castorp presta grande atenção às suas mãos, que de certa forma servem como metáfora para a sua própria personalidade, e também para o que Hans Castorp supunha dela (eis o trecho em questão, na minha tradução):

“Enquanto caminhava, ela manteve uma mão no bolso de sua jaqueta de lã, enquanto a outra estava ocupada na parte de trás da cabeça, arrumando o cabelo. Hans Castorp olhou para aquela mão – ele tinha um bom olho e um bom senso crítico para as mãos, e era seu hábito sempre primeiro dirigir seu olhar para elas ao conhecer alguém. A mão que arrumava seus cabelos não era particularmente feminina, não era refinada ou bem cuidada, não da maneira como as damas do círculo social do jovem Hans Castorp cuidavam delas. Era bastante larga, com dedos grossos; havia algo primitivo e infantil ali, um pouco como a mão de uma colegial. Suas unhas claramente nunca tinham visto uma manicure, e haviam sido aparadas descuidadamente – novamente, como as de uma estudante; e as cutículas tinham um aspecto irregular, quase como se ela fosse culpada do pequeno vício de roer as unhas. Hans Castorp apenas supôs tudo isso, no entanto, mais do que efetivamente viu – ela estava realmente muito longe.”

Antes de prosseguir falando sobre madame Chauchat, a personagem em questão, é preciso voltar o olhar para o próprio Hans Castorp. O leitor atento deve ter percebido, não somente neste trecho, como em muitos outros, como Hans Castorp presta atenção excessiva a maneira como os homens e mulheres se vestem. Em dado momento, fica claro que o autor quer nos dizer algo com isso, nem que seja nas entrelinhas... Ora, e me parece inescapável concluir que Hans Castorp, o “herói” da obra-prima de Thomas Mann, tem um lado feminino bastante aflorado, embora jamais assumido abertamente – nem mesmo em seus próprios pensamentos.

Isso fica ainda mais evidente quando descobrimos que Hans Castorp está apaixonado por madame Chauchat, e toda a cena onde eles finalmente conversam, após meses de convívio, carrega uma associação clara com uma “paixão” anterior do jovem, ainda na época da escola, quando ele também pede um lápis emprestado à pessoa – isto é descrito num sonho, e ainda no sonho ele confunde a pessoa que empresta o lápis com a própria madame Chauchat, que depois de fato lhe empresta um lápis numa noite de Carnaval. Bem, e essa pessoa do sonho, da época da escola, é um jovem, um homem, Pribislav Hippe (há, inclusive, um subcapítulo intitulado “Hippe”).

A genialidade do autor se dá justamente na descrição de tudo isso, do sonho, da associação de Hippe e Chauchat, dos lápis emprestados... É tudo simplesmente tão “suave”, tão nas entrelinhas, que posso apostar que a maioria dos leitores da época (quiçá de hoje em dia também) sequer percebeu que Hans Castorp é bissexual. Além disso, nem mesmo o próprio Hans Castorp compreende isso, já que em nenhum momento associa a sua paixão por Hippe à algo propriamente sexual (embora claramente o fosse).

Thomas Mann foi casado com Katia Mann, com quem teve seis filhos, mas ao longo da vida sentiu forte atração sexual por outros homens, o que foi devidamente registrado em seus diários, e explorado mais abertamente em outra obra, Morte em Veneza. Mann soube descrever uma “bissexualidade enrustida” de forma tão competente justamente por ele mesmo ser, tal qual Hans Castorp, bissexual.

Ainda assim, A Montanha Mágica não tem realmente muitas personagens femininas interessantes. A maioria é ou funcionária do sanatório, ou alguma paciente sem muita coisa para acrescentar à história. O próprio Hans Castorp perdeu a mãe cedo, e não tem nenhuma figura feminina como referência. Pode-se dizer até que, além de bissexual enrustido, ele era claramente machista. Assim, Mann investiu todo o seu lado feminino em madame Chauchat, e ela sozinha compensa todo um conjunto de personagens femininas desinteressantes.

Logo depois que analisa suas mãos, Hans Castorp pergunta do seu marido para sua colega de mesa, e recebe a resposta de que “ele nunca esteve aqui, nem uma vez; nenhum de nós saberia reconhecê-lo.”

Assim, em pleno início de século 20, madame Chauchat é uma mulher de ascendência russa que, sofrendo de tuberculose, vai se hospedar sozinha numa sanatório nos Alpes e não é nem uma vez visitada pelo marido. Além disso, como dito na primeira observação de Hans Castorp, ela “não era particularmente feminina, refinada ou bem cuidada”... Seja como for, isso tudo não impediu Hans Castorp de se apaixonar por ela, tampouco de ir descobrindo sua beleza, pouco a pouco, independentemente do seu “refinamento”.

Madame Chauchat representa sobretudo o lado “selvagem” do feminino que não se adequa às regras patriarcais. Ela é livre, vai aonde quer (mesmo sendo sustentada pelo marido), veste-se como quer (sem se preocupar em agradar homens com senso crítico para as mãos) e, para além de tudo isso, não fala muito bem alemão, mas apenas o russo e o francês.

Isso nos leva para um dos momentos essenciais da obra, quando Hans Castorp e madame Chauchat travam uma longa conversa numa noite de Carnaval; mas boa parte dela se dá em francês, e não no alemão, inclusive no original!

Thomas Mann escreveu esses diálogos diretamente em francês, e não em alemão para depois traduzir. Embora seu próprio francês não fosse perfeito, ele usou o idioma para criar um efeito específico, como ele mesmo confessou. Presumivelmente a sua principal intenção era enfatizar a tensão e o contraste entre a rígida cultura alemã e a espontaneidade mais associada à cultura francesa. De início, Hans Castorp ainda usa o alemão, mas logo em seguida passa a arriscar o francês, e a conversa entre o casal segue assim, em francês, até o final da noite.

Em algumas traduções modernas, esses trechos em francês costumam ser mantidos no texto principal, com a tradução fornecida em uma longa série de notas de rodapé. Esta solução, no entanto, não me pareceu a mais adequada, principalmente no formato digital (e-books). Assim, optei por traduzir o francês diretamente para o português, apenas indicando no texto o momento onde Hans Castorp passa a alternar do alemão para o francês.

Penso que a experiência ideal, imaginada por Mann, fosse uma leitura bilingue mesmo, mas é muito mais fácil achar falantes de alemão e francês na Alemanha do que aqui, a meio mundo de distância. Por isso o trabalho de tradução é feito de escolhas, e aqui não foi diferente. Espero que tenha tornado a leitura de A Montanha Mágica a experiência mais fluida possível, já que não é fácil encarar uma montanha de páginas - e o trabalho do tradutor e do editor é justamente tornar esse escalada íngreme o passeio mais prazeroso possível.


» Na sequência, o derretimento das palavras.

***

Crédito das imagens: [topo] Google Gemini AI (madame Chauchat); [ao longo] Google Gemini AI (Hans Castorp).

Você pode encontrar minha tradução de A Montanha Mágica em ebook ou na versão impressa, ambas disponíveis na Amazon.

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13.7.26

Traduzindo a Montanha Mágica (parte 2)

« continuando da parte 1


A Montanha Mágica se inicia com uma belíssima e vívida descrição do percurso de trem que sai da Alemanha e escala o mundo até os Alpes suíços. Tal narrativa domina boa parte do primeiro subcapítulo da obra, A chegada, que vai se encerrar justamente com o encontro entre Hans Castorp e o primo adoentado, Joachim Ziemssen, que o espera na estação de trem em Davos.

Conversa vai, conversa vem, e o subcapítulo se encerra desse modo na tradução mais conhecida até 2026 (quando a obra de Thoman Mann entra em domínio público), a de Herbert Caro (revisada por Paulo Astor Soethe; trecho retirado da edição tradicional da Cia. das Letras, pág. 20):

“[...] Você vai gostar dele. E ainda há o Krokowski, seu assistente – um tipo muito capaz. No prospecto fala-se especialmente da sua atividade: a dissecação psíquica dos pacientes.

— O quê? Dissecação psíquica? Que coisa nojenta! – gritou Hans Castorp, e com isso, a hilaridade tomou conta dele. Já não conseguia dominá-la. Depois de tudo o que ouvira, a dissecação psíquica lhe encheu as medidas. Riu-se tanto que as lágrimas lhe brotavam entre a mão com que, inclinando-se para a frente, cobria os olhos. Também Joachim riu de todo o coração, o que parecia fazer-lhe bem. Assim, o desembarque dois dois jovens deu-se com alegria e descontração, ao deixarem o carro que lentamente os trouxera por uma rampa íngreme e serpenteante até o portal do Sanatório Internacional Berghof.”

Fim de subcapítulo. Pois bem, a despeito do uso de alguns termos meio datados na tradução do trecho, fica evidente que os primos literalmente choraram de rir de uma coisa que Joachim disse, e que em seguida chegaram ao Sanatório Berghof. Tudo bem, mas seja sincero: você entendeu a piada? O que diabos, afinal, é “dissecação psíquica”? E, supondo que saiba exatamente do que se trata, por que ambos os personagens iriam rir tanto da mera pronúncia do termo?

Ora, nada disso é explicado na tradução de Caro. Mesmo na cuidadosa revisão e edição da Cia. das Letras, sem dúvida uma das principais editoras do país, não há sequer uma nota de rodapé. Eles simplesmente supuseram que todo leitor teria plenas condições de entender a piada – ou, quem sabe, que faria uma busca rápida na internet para entender.

Mas eu nem entendi a piada e nem consegui resolver tão facilmente tal enigma, a despeito de ter toda a rede mundial ao alcance das mãos e dos olhos. Após algumas buscas, eventualmente cheguei à informação de que “dissecação psíquica” é, na realidade, uma abreviação de “dissecação da personalidade psíquica”, uma teoria ou técnica da análise apresentada por Sigmund Freud no início dos anos 1930. Eis abaixo um resumo da coisa:

“A ‘dissecação da personalidade psíquica’ é um conceito fundamental na psicanálise. Introduzido por Freud na Conferência XXXI de 1933, o modelo propõe que a mente não é uma unidade global, mas um aparelho psíquico dividido em três instâncias interligadas: o Ego, o Id e o Superego.”

Até aqui tudo bem, aparentemente o tal Krokowski era um psicanalista do Sanatório, isto é, alguém que praticava a “dissecação psíquica”. Tudo certo, mas aonde exatamente isso é tão engraçado?

Para resolver esse enigma, tive de recorrer ao termo em alemão, e ao seu significado literal. O termo em si, seelenzergliederung, que aparece na obra original de Mann, e que foi traduzido para “dissecação psíquica”, significa literalmente “a dissecação da alma”...

Finalmente estava resolvida a questão: os personagens choraram de rir pelo absurdo da ideia de que a alma possa ser dissecada, como se fosse um corpo morto. Em alemão, é isso o que a palavra quer dizer; e, além disso, é bem possível que na época em que se situa a história o próprio termo fosse desconhecido ao ponto de poucos o associarem, ao menos de imediato, à atividade da análise ou da psicanálise. Pelo que entendi do trecho, fica evidente que Hans Castorp nunca tinha ouvido o termo antes, e que apenas o seu primo sabia que se tratava de “análise” – mas que, mesmo assim, não conseguiu escapar de rir junto com Hans Castorp do absurdo da imagem de uma alma sendo dissecada.

Na minha tradução, essa explicação toda veio resumida numa nota de rodapé. Vejam como ficou o mesmo trecho:

““[...] Aposto que vai gostar dele. E depois há Krokowski, seu assistente – um tipo muito capaz. No guia falam especificamente da sua atividade: a dissecação da alma dos pacientes. [nota de rodapé]”

“O quê? Dissecação da alma? Que coisa bizarra!” – Hans Castorp exclamou, e o riso novamente levou a melhor sobre ele. Ele não conseguia mais se controlar ante tantos absurdos. A dissecação da alma havia terminado o trabalho, e ele se inclinou e riu tanto que as lágrimas escorreram por baixo da mão com a qual cobrira os olhos. Joachim riu com vontade também – isso pareceu fazer bem a ele. E assim os dois jovens estavam de bom humor no desembarque de sua carruagem, que os carregou lentamente por uma via íngreme, serpenteando pela paisagem até chegar ao portal do Sanatório Internacional Berghof.”

Para mim, este tipo de nota de rodapé é algo essencial num trecho como este, que encerra um subcapítulo. O mesmo termo reaparece algumas vezes nos capítulos subsequentes, sempre associado à algo engraçado – mas, sem o auxílio desse tipo de explicação, infelizmente a grande maioria dos leitores provavelmente seguiu sua leitura sem entender a piada.

Mais para o final do livro aparece outro caso parecido. Ludovico Setembrini, o homem das letras italiano que acompanha Hans Castorp por quase mil páginas, eventualmente se despede do grande amigo, que está retornando à Alemanha pela mesma estação de trem que chegou, lá no início. Vejamos como se deu a tradução de Herbert Caro (pág. 823):

“[...] — E così in giù – ele disse –, in giù finalmente! Addio, Giovanni mio! Eu teria preferido ver você partir de outra forma, mas vá lá, que seja, os deuses dispuseram as coisas assim e não de outro modo.”

Italiano à parte (a obra, apesar de alemã na sua maior parte, traz muitos trechos em francês, italiano, espanhol e latim), a grande questão aqui é que Hans Castorp, após literalmente centenas de páginas, é chamado pela primeira e única vez de Giovanni... Novamente, nenhuma nota de rodapé, os editores supuseram mais uma vez que o leitor saberia identificar facilmente o motivo do uso de “Giovanni” no lugar de “Hans”.

E eu, não tendo entendido nada, tive de sair à busca de uma explicação para aquilo. E eventualmente cheguei numa solução surpreendente. Abaixo trago na íntegra a minha nota de rodapé específica para o caso:

““Giovanni” nada mais é do que “Hans” em italiano. Aliás, se nosso herói tivesse nascido no Brasil (como a mãe de Thomas Mann), ele se chamaria “João”. E tanto o “João” português quanto o “Giovanni” italiano e o “Hans” alemão derivam do latim medieval “Johannes”, ou do latim clássico “Ioannes”. Esta obra é a história de João Castorp.”

Ou seja, o personagem italiano chama Hans pelo seu nome italiano, pela primeira e única vez, quando se despedem, possivelmente em definitivo, após quase mil páginas, e alguns bons anos de convívio.

Espero que com notas como essas eu tenha conseguido facilitar o entendimento do leitor. Creio, inclusive, que a própria edição da Cia. das Letras teria muito a ganhar com a adição de algumas notas como essas numa eventual nova edição. Acho muito inconveniente quando tradutores e editores simplesmente supõem que o leitor terá plenas condições de ler obras como essa sem o auxílio da edição. Afinal, o leitor não tem a menor obrigação de ser tão erudito quanto o tradutor.


» Na sequência, uma noite de Carnaval... em francês!

***

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (estrada de ferro para Davos; imagem atual); [ao longo] Google Image Search (Freud).

Você pode encontrar minha tradução de A Montanha Mágica em ebook ou na versão impressa, ambas disponíveis na Amazon.

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25.6.26

O mistério de Amherst

A Natureza é a mais elevada das artes
Apenas ver o céu de verão já é poesia

Se leio um livro e isso deixa todo o meu corpo tão gélido
Que não há fogo que posso aquecê-lo,
Sei que isso é poesia
Se sinto, fisicamente,
Como se o topo da minha cabeça fosse arrancado,
Sei que isso é poesia –
Essas são as únicas maneiras de saber –
Haverá outra?


No século XIX, Amherst era uma pequena cidade cerca de 150 km ao oeste de Boston, cuja população girava em torno de 2 a 4 mil habitantes. Nessa época, a vida do cidadão médio era marcada por uma combinação de trabalho agrícola, religiosidade protestante intensa, forte valorização da educação e uma vida social relativamente restrita para os padrões atuais. A maioria das famílias dependia direta ou indiretamente da agricultura, e os dias de trabalho começavam cedo, muitas vezes antes do nascer do sol.
No entanto, o nível de alfabetização e interesse pela leitura era consideravelmente elevado se comparado à cidades norte-americanas do mesmo porte. A cidade contava com instituições de peso, como o Amherst College, fundado em 1821, e posteriormente a Universidade de Massachusetts Amherst, fundada em 1863. Além da Bíblia, muitos dos seus cidadãos eram versados nas obras de William Shakespeare, John Milton, Ralph Waldo Emerson e Henry Wadsworth Longfellow.
Isso pode explicar, quem sabe, o surgimento de um grande poeta numa cidadezinha tão modesta. Certamente ele teria viajado bastante, quiçá rumo a outros continentes, para compensar a falta de diversidade cultural em sua cidade natal. Talvez fosse um agitador social, presente em saraus de poesia em Boston e outras grandes cidades de sua época.
Mas que esse poeta tenha vivido toda a vida em sua própria região, que nunca tenha participado de saraus públicos, movimentos culturais, tampouco tido algum livro de poemas publicado em vida – e que, ainda por cima, tal poeta tenha sido recluso e isolado em sua própria residência por boa parte da vida, e que seja lido e reconhecido até hoje como um dos maiores poetas da língua inglesa e, além de tudo isso, que seja uma mulher, uma mulher que viveu sua vida numa sociedade profundamente patriarcal e conservadora, autora de poemas que exploram temas universais como o amor, a morte, a natureza, a eternidade, a dúvida religiosa e a consciência individual de uma forma extraordinariamente original e, por que não dizer, mística: eis o grande mistério em torno de Emily Dickinson.


Viver é tão surpreendente que deixa pouco espaço para outras ocupações.


Nascida em 10 de dezembro de 1830, Emily era filha de um proeminente família de região. Tanto seu pai quanto seu avô foram advogados de renome. Ela sempre viveu ao lado da família, a quem era muito apegada: os pais, o irmão Austin e a irmã Lavinia que, assim como ela, nunca se casou. A irmã foi também uma de suas grandes amigas ao longo da vida, e após sua morte tornou-se a guardiã de sua obra poética – sem Lavinia, dificilmente o mundo conheceria Emily Dickinson.
Nossa poetisa sempre demonstrou uma grande sagacidade aliada a um temperamento espirituoso, muitas vezes irônico, e uma forte tendência à introspecção e a solitude. Estudou até os 17 anos num seminário para moças, onde foi uma aluna brilhante, sendo versada em inglês, latim, história, geografia, matemática e, principalmente, botânica, pois era grande amante das flores. Com exceção de algumas viagens a Boston e outras cidades da região, Emily passou praticamente a vida toda na mesma residência onde nasceu, chamada “The Homestead” – uma mansão bela e espaçosa, hoje transformada no Emily Dickinson Museum.
Lá ela tinha o seu quarto, um cômodo relativamente simples, com uma pequena mesa de canto iluminada por um lampião, onde escreveu, quase sempre à noite, após encerrar as tarefas domésticas, centenas de poemas que entraram para a história. Isso também se explica pelo seu grande interesse pela leitura, aliado ao fato do pai possuir uma grande biblioteca que estava sempre à disposição. Emily era especialmente versada na Bíblia e na obra de Shakespeare, mas também admirava Charles Dickens, George Eliot e as irmãs Brontë. Na poesia, teve contato com Ralph Waldo Emerson, William Blake, John Keats e Elizabeth Browning. Todavia, seus poemas não parecem ter influência direta de nenhum deles, sendo talhados com extrema originalidade, o que decerto a ajudou a ser lida e reconhecida até os dias atuais.

E assim, com essa sabedoria, orei –
Grande Espírito, dá-me
Um Céu não tão grande quanto o teu,
Mas grande o suficiente para mim


Durante toda a sua vida teve menos de dez poemas publicados, todos enviados a jornais por pessoas da família, sem o nome da autora. Logo de cara, ao verificar que alguns de seus poemas foram impressos com “melhorias” e “correções” editoriais, Emily desistiu de publicá-los como livro, e passou a enviá-los, por correspondência, somente aos seus amigos mais próximos – mesmo que fossem apenas amigos das letras, isto é, cujo contato com a poeta se dava quase sempre pela via das cartas.
Quanto aos casos amorosos, fossem ou não platônicos, ela sempre os manteve em segredo, embora os vivenciasse intensamente. Seja como for, as suposições acerca de sua vida amorosa são baseadas tão somente nas cartas que ela enviou e que foram parcialmente recuperadas ao longo do tempo, já que todas as cartas que ela recebeu de seus correspondentes foram queimadas pela irmã após sua morte, atendendo seu desejo expresso. Dito isso, parece certo que chegou a ter diversos flertes na juventude, e que na maturidade três homens lhe despertaram um forte sentimento. Eram todos casados, mais velhos, figuras que ela admirava: um ministro presbiteriano, o editor de um jornal e um juiz. Com os três a poeta manteve correspondência por muitos anos, e num e noutro ano, deram-se até mesmo raras visitas pessoais. O terceiro, o juiz Otis Lord, um grande amigo de seu pai, ficou viúvo e teve um romance de poucos meses com Emily. Ao que tudo indica, em 1882 ele a pediu em casamento, mas ela recusou, pois isso a obrigaria a mudar-se de Amherst. Dois anos depois, o juiz faleceu.
Também são bastante evidentes os sinais apaixonados nas dezenas de “cartas poema” (letter poems) que ela enviou à sua grande amiga Susan Dickinson, casada com seu irmão Austin. Susan, uma mulher culta e inteligente, em geral era a primeira a receber os poemas de Emily, sendo também a sua principal crítica literária. Esse diálogo duradouro entre as duas foi essencial para o processo criativo e o crescimento intelectual da autora.


Derramei o orvalho –
Mas colhi a flor da manhã –
Escolhi esta estrela:
Única dentre a Noite Imensa –
Sue - para sempre Sue!


Emily amava a Natureza e não se cansava de tentar colocar tal sentimento em palavras. Com seu conhecimento de botânica, cultivava flores numa estufa com tanta dedicação que havia sempre alguma espécie em floração, inclusive no inverno. Na companhia de seu cão Carlo, costumava passear pelos jardim da propriedade da família, o que sem dúvida a inspirava na escrita noturna.
Embora criada no Puritanismo, seus poemas demonstram aversão aos dogmas religiosos mais limitantes. Ao mesmo tempo, era evidente o fervor de sua religiosidade íntima, captada tantas vezes em seus versos mais arrebatadoramente místicos. Emily não se furtava de falar com profundidade tanto do Céu quanto do Inferno.


E se você fosse salva,
E eu condenada a estar
Onde você não estivesse,
Isso já seria o Inferno para mim.

Com a morte de seu cão, um companheiro diário por dezesseis anos, cessaram seus passeios pelos jardins, e Emily se tornou cada vez mais reclusa na própria casa, no próprio quarto, protegida pela irmã e pela criada da família.
Essa tendência à reclusão já havia se manifestado desde seus vinte e poucos anos, mas foi gradualmente se agravando diante da perda de diversas pessoas queridas. Já aos quatorze anos havia perdido uma prima e grande amiga, Sophie, da mesma idade. Ela perdeu o pai em 1874 e poucos anos depois, foi obrigada a testemunhar o adoecimento da mãe, até sua morte em 1882. Aliás, num curto período de alguns anos, a poeta perdeu a mãe, o querido sobrinho Gilbert, de meros 8 anos, uma grande amiga de infância, Helen Hunt Jackson, e ainda o juiz Lord, com quem quase se casou.
De fato, em sua época, anterior à penicilina e o saneamento básico, a morte era um espectro constante em torno dos vivos. Mesmo nas classes mais abastadas era comum morrer de acidentes, de parto, malária, tuberculose, tifo etc. Portanto, não é de admirar que Emily dialogasse constantemente com a morte e a imortalidade da alma em seus poemas. Em alguns deles, a Morte se torna uma espécie de personagem mitológica, uma semideusa, ou quem sabe um aspecto de Deus.


Porque eu não pude parar para a Morte –
Ela gentilmente parou para mim –
A carruagem levava apenas nós dois –
E a Imortalidade.


Em 1886, aos 55 anos e após dois anos de declínio de sua saúde, a poeta tomou a Carruagem. Morreu em sua cama, no mesmo cômodo onde teceu sua poesia, cuidada por Lavinia e Susan. O atestado de óbito menciona nefrite, mas pelos sintomas que ela descrevia, como desmaios e forte dores na nuca, hoje suspeita-se que fosse hipertensão. Seja como for, e medicina de sua época seria incapaz de salvá-la.
Ao organizar seus pertences, sua irmã Lavinia ficou surpresa ao encontrar, numa gaveta, centenas de poemas reunidos em 40 livretos manuscritos – uma produção desconhecida até mesmo da família. Assim, como Emily fez Lavinia jurar que queimaria todas as cartas recebidas pela irmã, mas nada disse sobre sua poesia, seguiu-se uma verdadeira epopeia da compilação de todos os seus poemas, inclusive os que foram remetidos por cartas aos amigos, que eventualmente também se tornaram seus primeiros editores.
Em 1890, quatro anos após sua morte, foi publicada a primeira seleção preparada por Todd e Higginson: Poems, com 115 poemas. Este pequeno livro alcançou um surpreendente sucesso de crítica e de público, esgotando onze reimpressões em dois anos. Na sequência, os mesmos editores lançaram mais duas coletâneas, Poems, Second Series (1891) e Poems, Third Series (1896).
Hoje amplamente reconhecida como uma das maiores poetas da língua inglesa, senão a maior, Emily Dickinson seguiu o mesmo caminho de outros grandes autores clássicos que foram muitas vezes ignorados em sua própria época, mas cuja obra venceu o tempo e veio a se tornar imemorial.
Ficou famosa a carta em que Emily faz uma pergunta ao “Sr. Higginson”, seu futuro editor:


O senhor (...) pode me dizer se o meu Verso está vivo?
A Mente está, ela própria, tão próxima – não pode ver com clareza – e não tenho a quem perguntar –
Se o senhor achar que respira – e puder me dizer – eu sentiria imediata gratidão.


Hoje podemos constatar que o seu Verso, minha amiga, segue mais vivo do que nunca!

 

(em breve as Edições Textos para Reflexão vão publicar uma seleção dos melhores poemas de Emily Dickinson... aguardem!)

***

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Emily Dickinson em forografia da época, colorizada por computador); [ao longo] Google Image Search (Amherst no século XIX; Emily Dickinson em sua mesa de escrita)

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30.4.26

Traduzindo a Montanha Mágica (parte 1)

Quando buscamos resumir um grande clássico da literatura, geralmente aludimos ao seu enredo, isto é, a uma sequência de eventos que conecta os capítulos da narrativa, onde é muito comum haver alguma espécie de conflito a ser resolvido, mistério a ser solucionado, mal a ser combatido etc.

Neste sentido, é curioso notar que A Montanha Mágica, obra-prima de Thomas Mann, alemão Nobel de Literatura em 1929, já tenha sido acusada de simplesmente não ter um enredo. Então é preciso que façamos aqui uma defesa da obra em si, e também uma sugestão para o novo leitor: não é verdade, penso eu, que toda grande obra da literatura precise de uma narrativa clara, uma estrutura que já se apresente desde o início; não, na verdade o que todo livro, todo capítulo, todo parágrafo precisam é fazer com que o leitor continue interessado pelo que vem a seguir. É isso o que faz da obra uma leitura agradável, ao menos para quem não tiver pressa de terminar, já que estamos falando de um livro de proporções bíblicas.

E se você tiver curiosidade em saber o que se dará na viagem de um jovem engenheiro alemão, que vai visitar o seu primo adoentado num sanatório nos Alpes Suíços, sem tanta pressa de saber do que exatamente se trata a história toda, então meu caro, minha cara, você terá em mãos uma das maiores obras literárias do século XX para saborear com calma, página por página, capítulo por capítulo. É possível que nem veja o tempo passar (embora ninguém nunca tenha de fato visto o tempo).

Thomas Mann iniciou a escrita da obra em 1912, o mesmo ano em que sua esposa, Katharina Mann, foi internada num sanatório em Davos, na Suíça, para se curar de uma tuberculose. O livro foi obviamente inspirado nesse episódio. No entanto, embora a descrição do prédio em si, da rotina de sessões de descanso e refeições regulares, e da própria natureza daquela região montanhosa sejam completamente fiéis à realidade, eventualmente fica evidente que a grande maioria dos personagens surge da imaginação do autor, e do seu intuito de debater e refletir sobre todas as questões que dizem respeito ao ser humano, aos seus vícios e virtudes, seus altos e baixos, o que obviamente inclui temas como o amor, a morte, a percepção do tempo, a filosofia, as artes em geral etc.

Sim, há tudo isso, e muito mais, nesta obra aparentemente “sem enredo”. E é justamente por conta da habilidade do autor em encapsular tanta coisa em dias aparentemente banais, onde supostamente “nada acontece”, que A Montanha Mágica raramente é esquecida pelos leitores que a completaram de cabo a rabo. Acredite em mim, valerá a pena.

Dito isso, há dois assuntos inescapáveis de que devemos tratar para ambientar melhor o novo leitor no panorama histórico de quando a obra foi escrita:

Primeiro, como já dissemos, o autor a iniciou em 1912. Ocorre que logo em seguida estourou a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), que bagunçou toda a Europa, particularmente a Alemanha. Em 1915, Mann interrompeu seu trabalho no manuscrito, e dizem que a essa altura já não sabia que fim dar a história. Retorna a ela somente em 1919, já após o fim da guerra, e vai publicá-la apenas em 1924, mais de uma década depois de começar a escrita. Com isso, fica claro que muitos dos conflitos políticos daquele tempo exerceram algum tipo de influência nas conversas, discussões e reflexões dos personagens. No entanto, vale salientar que você não precisa ser um grande entendido em Primeira Guerra, ou mesmo em política, para apreciar a obra. Fosse assim, aliás, ela jamais teria alcançado a popularidade que alcançou, justamente por ser uma obra universal, que abrange diversos aspectos da vida e do ser humano em si.

E, finalmente, a tuberculose, motivo pelo qual o personagem principal vai visitar o primo nos Alpes. A tuberculose é uma doença infecciosa antiga, altamente transmissível, que afeta principalmente os pulmões. Hoje sabemos que é causada pelo Mycobacterium tuberculosis (ou bacilo de Koch), e todo ano milhares de pessoas no mundo ainda são vitimadas por ela. Muitas vezes, sem diagnóstico. Mesmo assim, há décadas a tuberculose tem tratamento com grandes chances de cura, de modo que a Organização Mundial da Saúde (OMS) tem a meta de erradicá-la do planeta até 2030. No entanto, até meados da metade do séc. XX, a tuberculose ainda era bastante letal. Na época em que A Montanha Mágica é situada, inclusive, o melhor tratamento disponível pela medicina era literalmente “respirar o ar puro das montanhas”, e por isso o sanatório da história (assim como o real) fica nos Alpes.

A título de curiosidade, a esposa de Thomas Mann, que contraiu tuberculose logo após o nascimento de uma filha (eles tiveram ao todo seis filhos), conseguiu se curar da doença após alguns meses de “ar puro” nas regiões montanhosas, e inclusive viveu muitos anos além do marido, ele tendo nos deixado em 1955 (aos 80 anos), e ela em 1980 (aos 96 anos).

Em primeiro de janeiro de 2026, setenta anos após a morte do autor, toda a sua obra entrou em domínio público, podendo ser traduzida e publicada à vontade na maior parte do mundo. Eu fui mais um dos seus tradutores: durante inesquecíveis 16 meses, trabalhei na mais longa tradução da minha carreira como tradutor de obras clássicas, que naquela altura já ultrapassava uma década.

Em alguns casos especiais, preferi deixar para “ler” a obra na medida em que traduzia, pois tinha a intuição de que o fato de cada parágrafo, cada página, cada capítulo ser inédito para mim, de alguma forma tornaria a tradução como um todo mais cheia de alma. Foi este o caso, também, com A Montanha Mágica. Assim como o leitor de primeira viagem, não fazia a mais vaga ideia de onde estava exatamente me metendo, e sem dúvida há muita coisa na obra que eu jamais esperaria encontrar ali, de experiências místicas a debates altamente filosóficos, de um mergulho na história da Maçonaria até o próprio hermetismo, de profundas reflexões sobre o amor a abordagens altamente sutis da bissexualidade e até mesmo de algo que hoje é chamado não monogamia, mas que certamente não tinha nome na época da sua escrita.

Tudo isso, tudo isso que toca tão fundo no coração de qualquer ser humano, estava lá, e espero que tenha tido sucesso em trazer tanta luz alemã para o português mais legível possível... Seja como for, fato é que eu, tão acostumado à leitura e tradução de não ficção, e que no campo ficcional sempre fui mais atraído pela fantasia e pela ficção científica, e bem menos pela literatura mais tradicional, hoje considero A Montanha Mágica mais ou menos como O Senhor dos Anéis ou o Duna dos romances de ficção – e diria, ainda, que Thomas Mann se entenderia muito bem com Ursula K. Le Guin.

Por conta disso, resolvi falar mais sobre o meu processo de tradução numa série de artigos, dos quais este foi o primeiro. Na sequência, adentrarei aos poucos em detalhes da obra, escolhas de tradução e características dos personagens. É certo que trarei um ou outro spoiler ao longo do caminho, então estejam avisados.


» Na sequência, a dissecação da alma.

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Crédito das imagens: [topo] Picture Alliance (Davos, Suíça); [ao longo] Google Image Search (Thomas Mann; montanhas de Davos).

Você pode encontrar minha tradução de A Montanha Mágica em ebook ou na versão impressa, ambas disponíveis na Amazon.

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29.4.26

A tripulação

Desde que nos entendemos por gente, por civilização, ou mesmo antes disso, ela já estava lá, cintilante e imponente, às vezes cheia, às vezes oculta, mas sempre exercendo o seu cargo de rainha da noite.

Todavia, para os gregos antigos, assim como na mitologia de outros povos, ela não é simplesmente rainha, mas deusa. Selene é o seu nome, e a lua, isso que vemos flutuando na noitinha, é uma espécie de acessório da sua carruagem divina.

Há pouco mais de meio século nós finalmente colocamos os pés nela, e embora fosse tão somente uma imensa pedra seca cheia de crateras, creio que este conhecimento empírico e direto não a tornou menos deusa, menos sagrada, ao menos aos olhos dos poetas.

Ironicamente, a NASA intitulou essas missões espaciais com o nome do deus Apolo, que a exemplo de Selene também possui uma carruagem divina, mas que serve para mover o sol, e não a lua. Mais recentemente, meio século depois, a NASA voltou a mandar alguns de nós aqui da Terra para lá, e intitulou as missões com o nome da deusa Ártemis, vejam só, a irmã gêmea de Apolo.

Esses foram os quatro seres humanos enviados para navegar pelo espaço próximo, sobrevoar o lado oculto da lua, e retornar à Terra, na missão Ártemis II:

Reid Wiseman, comandante da missão, norte americano, bacharel em ciências e mestre em engenharia.
Victor J. Glover, piloto da missão, norte americano, bacharel em engenharia, com dois mestrados em áreas da engenharia e um em ciência militar.
Jeremy Hansen, um dos especialistas da missão, canadense, bacharel em ciências espaciais e mestre em física.
Christina Koch, a outra especialista da missão, norte americana, bacharel em engenharia e física, mestre em engenharia.

Então foi isso, três homens, incluindo o primeiro não norte americano a flutuar ao redor da lua, e uma mulher, que também foi a primeira mulher a realizar tal feito.

E, se este “feito” pode parecer algo meio sem sentido para muitos de nós vivendo o dia a dia aqui embaixo, com suas guerras sem sentido, suas crises climáticas, desigualdades e injustiças avassaladoras, penso que há um pensamento muito consolador em meio a tudo isso:

Pelo menos eles não usaram foguetes para se destruir, e sim para navegar pelo espaço a nossa volta.

Sim, durante os dez dias dessa viagem louca ao redor de uma deusa, confesso que contemplei a lua com outros olhos, pois sabia que lá em cima, lá longe, de alguma forma quatro de nós, arrastados pelas leis gravitacionais dentro de uma cápsula de metal, observavam com os próprios olhos, pela primeira vez na era humana, o lado de Selene que nunca se volta para a Terra.

Estou sentado em uma lata
muito acima do mundo;
o planeta Terra é azul,
e não há nada que eu possa fazer...

E por mais que possa parecer absurdo colonizar uma deusa, estabelecer bases humanas permanentes nessa pedra inóspita, quem sabe para extrair minérios, quem sabe para lançar novos foguetes cada vez mais distante (se aqui embaixo não nos exterminarmos antes), há algo de genuinamente belo na ideia da humanidade desbravar a escuridão infindável do espaço sideral, com suas distâncias inimagináveis, a bordo de pequeninos barcos metálicos.

No entanto, essa “beleza” pode ser difícil de ser encapsulada em palavras. Por sorte desta vez enviamos uma mulher, e coube a ela, somente a ela, tentar reduzir tudo isso a meras palavras, meras cascas de sentimento.

Eis o que nos contou Christina Koch numa espécie de coletiva de imprensa, pouco tempo depois de aterrissar de volta em casa:

“Há alguns anos eu estava dando um discurso, e ele falava sobre tripulação e trabalho em equipe. Em dado momento, alguém perguntou: O que define uma tripulação? Qual a diferença entre uma tripulação e uma equipe?

E eu pensei, ok, essa é moleza. Então abri a boca, confiante, para contar tudo o que eu sabia sobre ser parte de uma tripulação... E tudo o que saía da minha boca naquele momento na realidade não tinha valor algum.

Eu dizia coisas como, Ok, nossas tripulações vão ao espaço, e trabalham juntas, e se alimentam juntas, então, sabe, elas são uma tripulação. Bem, os barcos também têm tripulações. Você é um tripulante se estiver num deles. Ajuda se tiver um remo...

Tudo isso era bobagem. Mas, nos últimos dez dias, em nossa missão ao redor da lua, eu obtive uma resposta um pouco melhor para essa pergunta.

Uma tripulação é formada por pessoas, por um grupo de pessoas que estará sempre unida, não importa o que aconteça. Isso significa avançar juntos, a cada minuto, com o mesmo propósito em mente. Isso significa estar disposto a se sacrificar silenciosamente um pelo outro. Isso torna cada uma dessas pessoas responsável pela outra.

Uma tripulação tem as mesmas preocupações e as mesmas necessidades. E uma tripulação está inescapavelmente ligada por um belo e devotado vínculo.

Então, quando vimos a Terra distante, pequenina, em nosso retorno da lua, as pessoas aqui embaixo perguntaram à nossa tripulação quais foram as nossas impressões dessa cena. E, honestamente, o que me impressionou não foi necessariamente apenas ver a Terra, mas observar toda aquela escuridão ao redor. A Terra era apenas um bote salva-vidas pairando tranquilamente no universo...

Bem, talvez eu não tenha aprendido – sei que não aprendi – tudo o que essa jornada tem para me ensinar, mas há uma coisa nova que eu sei: o planeta Terra é um barco, e vocês são uma tripulação.

Obrigado.”


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Crédito das imagens: Artemis II/NASA

 

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6.12.25

É preciso amar o feminino

O primeiro ser humano a assinar a autoria de um texto foi uma mulher, Enheduanna, poeta e sacerdotisa de Ur, filha do rei Sargão, que viveu na Mesopotâmia, mais de 4.200 anos atrás, quando a presença feminina no reinado das ideias e das artes ainda era tida em alta conta. Muitos séculos depois, viveu em Alexandria uma das últimas pensadoras registradas pela história antiga, Hipátia, a quem o bispo Sinésio chamava de “divina mestra”. Depois, foram necessários mais séculos e séculos para que alguma delas fosse devidamente considerada como filósofa ou cientista, e aqui vale citar a brilhante Marie Curie, a primeira pessoa a ganhar duas vezes um Prêmio Nobel (um na física, outro na química). Ora, e o que aconteceu entre Hipátia, que viveu no século quinto, e Marie, que foi reconhecida como grande cientista no século vinte? Será que entre elas não viveram grandes filósofas, cientistas, pensadoras, artistas? Ou será que a história simplesmente deixou de registrar as poucas que conseguiam se sobressair em meio a um brutal mundo de homens?

Sim, um mundo de homens, vocês sabem do que estou falando, do patriarcado e coisa e tal... Mas, apesar delas certamente merecerem toda compaixão e caridade, este texto não pretende exaltar ou aconselhar as mulheres, que bem ou mal foram obrigadas a reconhecer e conviver com seu lado masculino, a fim de simplesmente sobreviverem nesta terra – não, eu vim aqui falar com vocês, homens, que podem não saber ou não querer saber, mas que têm sim um lado feminino, um lado cujo reconhecimento e bom convívio é essencial para uma vida, uma alma equilibrada. E, ao contrário do caso delas, esse mundo só nos fez afastar de nossa parte feminina.

Com isso não quero dizer que nós homens somos uns coitados, vítimas privadas de seu lado feminino. Certamente não brincaria com isso, pois nós não fomos sucessivamente dominados, adestrados, violentados, assassinados das formas mais brutais e covardes possíveis. Não, mas ainda assim, nós também saímos perdendo, e não foi pouca coisa.

Na psiquê humana, assim como em tudo o mais, há sempre dois lados, dois polos, e não é como se um deles fosse positivo e o outro negativo, no sentido qualitativo, pois ambos são essenciais e complementares: o lado feminino precisa reconhecer e conviver com o masculino para se tornar inteiro, equilibrado; e o mesmo ocorre no outro polo. Mas é justamente aqui o grande problema dos homens de hoje, que foram ensinados não somente a ignorar seu lado feminino, como a temê-lo, evitá-lo e, em casos mais extremos, odiá-lo com todas as forças.

Para começo de conversa, é bom dizer que isso tem pouco a ver o gênero, a orientação sexual ou mesmo o sexo em si – até mesmo porque o sexo, algo sagrado tanto para a alma quanto para o corpo e a fecundidade em geral, há tempos tem sido reduzido a uma mera sessão de falos e orifícios, algo mais mecânico do que propriamente natural, humano. Em suma, o que quero dizer é que reconhecer o seu lado feminino não fará de você “menos homem”, muito menos um homossexual. Por outro lado, também é fácil perceber que os homens homossexuais em geral, ou pelo menos os assumidos, já estão bem mais adiantados na via de convívio com seu lado feminino.

E o que diabos ganhamos ao reconhecer nosso lado feminino? O que estamos perdendo, por deixá-lo de escanteio em nossas vidas? Bem, qual foi a última vez que você chorou ao lado dos seus amigos, e não por razões religiosas, políticas ou futebolísticas? Qual foi a última vez que você saiu com um amigo para desabafar sobre coisas íntimas, puramente emocionais? Qual foi a última vez que você foi a um teatro, um recital de poesia, uma exposição de arte, quem sabe assistir um filme de drama no cinema? Qual foi a última vez que você se permitiu estar só, realmente só, refletindo sobre a vida? Qual foi a última vez que você abraçou sua melancolia, sabendo que ela também é apenas o outro lado da moeda? Qual foi a última vez que você contemplou a natureza a sua volta, espantado com tamanho espetáculo de fecundidade? Qual foi a última vez que você amou uma mulher como amiga, como companheira, como igual, e não somente como um orifício?

Sim, parafraseando Renato, é preciso amar o feminino. É preciso amar a mulher, a ideia da mulher, o pensamento da mulher, a arte de ser mulher, é preciso amá-las não somente com o corpo, por conta do corpo, mas também, e sobretudo, com a alma, pela alma...

A verdade é que é difícil colocar em palavras o que ganhamos, o que perdemos, se reconhecemos ou não nosso lado feminino. As palavras são cascas de sentimento, e o feminino, sendo puro sentimento, pura emoção, é mais fugidio que o masculino, mais difícil de ser capturado pela linguagem. Aliás, se fosse tão simples recuperar nosso lado feminino, este mundo de homens já teria deixado de ser tão, tão brutal, há muito tempo. No entanto, é preciso começar de algum lugar, algum dia, com um pensamento que seja, e depois seguir dali, passo a passo, rumo a uma noite mais enluarada, mais acolhedora, mais misteriosa.

E assim, no rastro da lua, vamos beneficiar enormemente não somente a nós, homens, como também a elas, que decerto ficarão contentes com mais uma alma equilibrada, e menos um agressor em potencial na sociedade. Pois quanto mais varremos para debaixo do tapete, quanto mais enrustimos nosso feminino, mais nutrimos um ódio inconsciente dele, mais sentimos raiva dos outros homens que se deixam conectar com seu feminino, mais nos afastamos da alma da mulher, mais nos ressentimos delas, simplesmente por serem mulheres, e vivemos uma meia-vida, uma existência incompleta, que justamente por negar as emoções, é assolada e dominada por elas. E, depois, ainda descontamos nossas mágoas em quem não tinha absolutamente nada a ver com o assunto.

Para encerrar, gostaria de trazer este discurso (ou desabafo) da única mulher atualmente exercendo o cargo de Ministra do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia:

Há uma forte hipocrisia no discurso pela igualdade que ignora a cultura de violência contra a mulher. Mata-se a mulher por ser mulher; só por isso, por ela ser o que ela é. E nós gostamos de ser mulher, e não queremos que matem os homens. O compromisso da mulher é com a vida, não com a morte. E não é civilizada uma sociedade que mata mulheres e crianças [...] E ainda hoje nós vemos homens que matam e depois dizem, “o comportamento dela não era bom”, ou, como nós vimos no início da década de 1980, [...] quando uma mulher foi morta, e estava sentada, levando quatro tiros, dois no rosto – como é próprio do feminicídio, em geral nos desfiguram, jogam cal, esfaqueiam, atiram na face, para negar a imagem do que foi aquela mulher. Isto é um nível de crueldade, de perversidade, que demonstra que uma sociedade que compactua com isso não alcançou a etapa civilizatória. E não adianta virem dizer que somos todos a favor da igualdade: não são. Se fossem, nós não estaríamos precisando nos reunir para dizer em alto e bom som que somos todos iguais em nossa humanidade, em nossa dignidade, em nossos direitos.

 

por Raph em 06/12/25

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Crédito da imagem: Brittani Burns/unsplash

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25.11.25

A beleza duradoura de Sofia

Poucos dias atrás eu estava descendo uma escada rolante no coração de São Paulo, mais precisamente no Hotel Nacional Inn Jaraguá, próximo à Praça da República, onde já se hospedaram artistas como Alain Delon, Sophia Loren e Mick Jagger. Por acaso eu também me dirigia a um encontro anual de artistas, embora nem sempre eles sejam compreendidos como tal.

Tal encontro é hoje conhecido como Sofia, ou Simpósio de Ocultismo e Filosofias Arcanas, mas ele também já foi chamado de Simpósio de Hermetismo, sendo a continuidade de algo que surgiu lá em 2010. Ele representa um genuíno caravançará espiritual. Calma, eu também não conhecia essa palavra até agora pouco, quando pesquisei sobre algum sinônimo para “uma parada de caravanas”. Eis a resposta do sr. Google:

Uma parada de caravanas no deserto é um caravançará, um ponto de descanso e comércio com alojamento para viajantes e camelos, localizado ao longo de rotas comerciais importantes. Eles serviam como base para caravanas que atravessavam o deserto, oferecendo água, abrigo, e suprimentos, facilitando o comércio de longas distâncias. Os caravansários também eram cruciais para a sobrevivência, conectando comunidades e impulsionando o desenvolvimento cultural e econômico nas regiões desérticas da Ásia, África e Oriente Médio.

Ora, não importa se a sua caravana de busca espiritual, de busca de um sentido, um entusiasmo que vá além do chumbo do mundo, é grande ou pequenina, fato é que no Sofia formamos todos uma grande caravana de almas, ainda que ela dure poucos dias, e depois se desfaça... Será?

Descendo as escadas, a primeira alma que vi foi justamente o coração do Sofia, Pri Martinelli, uma das sonhadoras que materializou nosso encontro. Nos cumprimentamos pessoalmente após cerca de um ano, após um giro da Terra em torno do Sol, e no entanto parecia que aquele nosso último encontro tinha sido ontem. De certa forma, estando ali, naquele mesmo local do ano anterior, parecia que o próprio tempo transcorrido havia se tornado, subitamente, algo irrelevante, sem importância: era como se ali, naquele encontro de caravanas, o próprio registro do tempo se desse de outra forma, como se ali cada momento, cada troca de cumprimentos e de saberes, fosse mais eterna, mais duradoura.

Os magos e os místicos, esses praticantes da Arte e de tudo o que ela irradia, são realmente capazes de ver a beleza, o ouro oculto entre o chumbo do mundo. O problema é que a vemos, e logo vem o chumbo e nos faz esquecer. Mas nenhum de nós realmente se esqueceu de nenhum de nossos encontros, de nossas rodas em torno da fogueira, de nossas peregrinações pelo deserto, de nossas aventuras na floresta, de nossos renascimentos na caverna... Ainda que isso ainda resida velado em nosso inconsciente, de alguma forma parte disso vem à tona em encontros como esse, em pleno centro de São Paulo. Esta é a beleza duradoura de Sofia.

Desde que participei do meu primeiro caravançará espiritual, em 2012, pude sentir e compreender que, embora muito importante e iluminador, o conteúdo das palestras dos expositores era algo que ficava claramente em segundo plano, ofuscado pela simples oportunidade de finalmente, finalmente, podermos conviver alguns dias em meio a uma comunidade de buscadores, de caminhantes, de gente que veio de todos os cantos do Brasil, e até de fora, para estar com seus semelhantes. E a nossa principal semelhança é querer buscar o que está além do dogma, além do julgamento, além das ideias de certo e errado. O Sofia é um campo onde as almas se encontram e são o que são.

Pode parecer fácil, mas não é. A magia mais difícil é ser quem realmente somos. A cada vez que paramos nossas caravanas isoladas nesse grande campo, a cada vez que percebemos que todas aquelas regrinhas hipócritas de “faça isso ou não faça aquilo senão aquilo outro pode acontecer”, de “pratique este caminho e jamais olhe, sequer de relance, para os demais”, ou de “nós somos os escolhidos e não podemos nos misturar com aqueles ali”, a cada vez que constatamos que tais regrinhas não passam de palavras ao vento, incapazes de gravar um coração sequer, nos voltamos um pouco mais, um pensamento de cada vez, para a grande realidade do que realmente somos.

E aquilo que buscávamos esse tempo todo também estava nos buscando. Também estava ali, no olhar de nossos irmãos mais adiantados no caminho; e como eles não poderiam caminhar por nós, tiveram de ser assim, pacientes, esperando que chegássemos até eles. Uma coisa que aprendi no deserto é que uma caravana precisa apenas do suficiente para alcançar a próxima parada, todo o acúmulo de preceitos, todo o empilhamento de dogmas, serve apenas para nos atrasar, nos fazer arrastar, cheios de julgamentos, nas areias escaldantes.

No fim das contas, a coisa toda é realmente simples: tudo tem a ver com amar e com não amar.

Amar nos enche de entusiasmo, nos faz ser habitados pelos deuses, nos faz querer ser antes de ter. Mas o amor não é algo escondido numa masmorra entre a floresta, não é um prêmio que se conquista ao final de alguma aventura fantástica, não é uma medalha de algum grau maçônico: o amor sempre esteve à nossa volta, tudo o que temos de fazer é derrubar, pedra por pedra, toda essa muralha de julgamentos que erguemos entre nós e ele. Daí então poderemos nos dedicar a construir um belo templo no lugar.

Quando nos aproximamos do grande caravançará de Sofia, pode ser que alguns desses templos dourados cintilem demais e nos façam fraquejar, imaginando que estamos distantes demais de tamanha beleza. Mas tudo o que os mestres querem é que façamos tudo aquilo que eles fizeram, e ainda mais. É somente assim que a chama pode realmente ser passada adiante. É somente assim que a beleza pode realmente se tornar duradoura, atemporal, eterna.

Seja como for, essa viagem não acaba nunca, e esse universo é vasto o suficiente, paciente o suficiente, amoroso o suficiente, para nos aguardar no próximo encontro.

Até lá, caravansárias e caravansários!

 

por Raph em 25/11/25

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Crédito da imagem: Guilherme Zorba (Déia Filha D'Água)

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26.11.24

Hafiz, aquele que fala do que nos transcende

O amor não tem limites, é eterno, é para sempre.

Hafiz acreditava no amor como a causa de todas as coisas.

Khwaja Shamsuddin Mohammad Hafiz Shirazi (c. 1315 – 1390), conhecido como Hafiz, é um dos mais célebres poetas persas, cujos poemas capturaram os corações e as mentes de inúmeras pessoas ao longo dos séculos. Sua coleção de poemas acerca do amor rivaliza tão somente com Jalal ud-Din Rumi em termos de popularidade e influência (Rumi foi um poeta místico do séc. XIII que viveu na atual Turquia).

A energia mística do amor e da paixão em seus poemas tem sido uma fonte de inspiração para muitos poetas, compositores e artistas em geral. A poesia de Hafiz é um precioso tesouro de riquezas simbólicas, mas também traz consigo uma paradoxal ambiguidade de imagens. Ele se vale de tais ferramentas para transmitir as emoções mais profundas da melhor maneira possível.

As odes de Hafiz, conhecidas como gazeis (ou gazals), são muitas vezes carregadas de emoções variadas, e revelam o poeta na sua busca por Allah (ou Deus) em sua própria alma.

Ó belo garçom,
traga a taça de vinho,
coloque-a em meus lábios.

A via do amor parecia fácil em seu início,
mas o que surgiu dela
foram as mais diversas provações.

Hafiz foi um escritor e cientista que viveu na cidade de Shiraz (no atual Irã) no séc. XIV, quando ela fazia parte do antigo reino persa. O nome de seu pai era Baha ud-Din Muhammad, um comerciante de carvão, mas ele morreu de forma trágica quando o poeta ainda era uma criança. Em sua adolescência, Hafiz foi aprendiz de padeiro e viveu uma vida cheia de dificuldades junto com a mãe. Com o tempo, no entanto, ele dominou todos os aspectos religiosos e científicos ao seu alcance, de modo que no início da fase adulta ele já era reconhecido como um grande expoente da literatura e das ciências em toda a região.

É interessante saber que ele havia memorizado por completo o Alcorão, o livro sagrado do Islam, e foi justamente por isso que lhe deram o nome de Hafiz, cuja tradução é “memorizador”.

Ele também era conhecido como Lesan Al-Ghayb, ou “aquele que fala sobre o oculto, o desconhecido, o que nos transcende” (séculos depois, o criador da série de ficção científica Duna, Frank Herbert, emprestou esse conceito para o personagem principal da trama). Hafiz parecia falar daquilo que existe além das palavras.

Um cavaleiro sombrio, o medo das ondas,
um redemoinho tão implacável!
Como pode o fardo tão leve das praias
saber da angústia em nossas profundezas?

A visão de mundo do poeta é inseparável do contexto do Islam medieval, assim como do gênero da poesia de amor persa, mas ainda assim é impossível defini-lo com exatidão. Hafiz é um místico que zomba dos místicos. Ele é conhecido como aquele que compreendeu o Alcorão com o coração, e mesmo assim não se cansa de fazer graça com a hipocrisia dos religiosos. Ele demonstra sua própria vocação espiritual, enquanto sua poesia está repleta de referências à intoxicação do vinho, algo que pode ser literal para alguns, e puramente simbólico para outros.

Vá, vá e cuide dos seus próprios assuntos.
Por que você me culpa?
Meu coração se rendeu ao amor,
o que você sabe sobre tal rendição?

O aspecto mais sublime da poesia de Hafiz é justamente a sua ambiguidade. Em seus poemas, os temas são organizados de forma tão intrincada que podem ter diferentes impactos na alma do leitor, de acordo com o seu estado emocional no ato da leitura.

Muitos dos seus poemas são até hoje usados como provérbios e ditados, sobretudo na região da antiga Pérsia, atual Irã. Já o seu senso travesso de ironia atraiu muitos poetas e compositores ocidentais ao longo dos séculos – incluindo Goethe, Brahms e Wagner.

O Divan (termo persa que significa literalmente “coleção de poemas”) de Hafiz contém 500 sonetos, 42 quadras e diversas odes que ele escreveu ao longo de meio século. Ele foi publicado em dezenas de variações, sendo improvável que qualquer uma delas possua de fato a totalidade de sua obra poética.

O seu túmulo está localizado ao norte de Shiraz, em um belo monumento cercado de bosques, onde a fragrância das flores se faz presente na maior parte do ano. Nos dias atuais, é uma das atrações turísticas mais importantes e visitadas do Irã.

Hafiz acreditava que o caminho para Allah residia nos mistérios do amor. Para ele, o amor não apenas criou este mundo, como é a resposta para todas as questões que afligem nossa alma.

Eu segui pelo meu próprio caminho no amor,
e hoje tenho uma má reputação.
Mas como poderia um segredo permanecer oculto,
se rodasse pelas línguas de todas as rodas de fofoca?

Se é a presença do Amado o que busca, Hafiz,
por que se importar com o que dirão de ti?
Permaneça junto Aquele que reside em seu coração,
deixe de lado os delírios de grandeza.

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Após ter lançado dois livros com poemas de Rumi selecionados e traduzidos de versões inglesas, chegou a hora de mergulhar na poesia de Hafiz. Ao longo de 2025 estarei intercalando outras traduções com mais uma jornada no misticismo sufi. Assim que tiver mais notícias, trarei aqui no blog.

Rafael Arrais

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Crédito das imagens: Mahmoud Farshchian (artista iraniano inspirado pela obra de Hafiz)

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18.10.24

O estoicismo oculto

Se há uma função pela qual o estoicismo se tornou mundialmente conhecido, é a de auxiliar as pessoas a atravessarem momentos de crise. Isso, por si só, já explica o porquê da filosofia estoica ter voltado às prateleiras dos títulos mais vendidos em nossas livrarias. Mas, dito assim, “auxiliar as pessoas nos momentos de crise”, pode parecer que o estoicismo é uma espécie de autoajuda, e é mesmo: a raiz da autoajuda, ou seja, conhecer a si mesmo pela prática da filosofia, para assim ajudar a si mesmo a viver uma vida melhor. A questão está, portanto, em não ler o estoicismo de forma superficial, como quem segue uma receita de bolo. Afinal, não é porque este ou aquele guru lhe disse que o estoicismo era isto ou aquilo, que você deveria adentrar esta filosofia, e sim porque você mesmo a leu, conheceu, praticou, e viu que funciona, que de fato modificou sua vida para melhor. A filosofia estoica, afinal, é muito, muito mais do que um fenômeno de marketing.

Os grandes expoentes do estoicismo viveram em sua fase romana. Sêneca (ca. 3 a.C. – 65 d.C.) foi um dos mais célebres pensadores do Império Romano, tendo ao mesmo tempo alcançado altos patamares na Política de seu tempo, ao ponto de ter sido um conselheiro do imperador. Já Epicteto (ca. 50 – 135 d.C.) teve origem muito diversa: nascido como um escravo grego, eventualmente se tornou um homem livre, vivendo e lecionando em Roma até perto de sua morte. Marco Aurélio (121 – 180 d.C.), por sua vez, estava na outra ponta da escala social. Era sobrinho e filho adotivo do imperador Antonino Pio, a quem sucedeu em 161 d.C. para governar o maior império do mundo, enquanto ainda encontrava tempo para escrever suas Meditações.

Seja como for, se foi em Roma que o estoicismo se tornou imensamente popular, com seus filósofos mais preocupados em falar de uma vida virtuosa, voltada para problemas práticos, como mudar o que se pode mudar, e aceitar o que não temos controle para decidir, foi na antiga Grécia que ele nasceu – pela mente de um personagem quase lendário, Zenão de Cítio.

Nascido na ilha do Chipre, na cidade de Cítio, em torno de 332 a.C., Zenão chegou a Atenas aos 22 anos, por volta de 310 a.C. Foi descrito como um homem de pele morena, franzino, sempre de cara séria e vestido com roupas leves. Vivia de maneira frugal e comia moderadamente, sobretudo pão e mel. Amava um bom vinho, embora bebesse raramente. Era sociável até certo ponto, frequentando muitos banquetes, embora temesse a multidão, raramente sendo visto com mais do que duas ou três pessoas ao seu redor. As fontes variam sobre as circunstâncias de sua chegada a Atenas. Elas concordam no fato de que ele era um comerciante que importava mercadorias da Fenícia, mas, segundo alguns, teria perdido toda a sua carga em um naufrágio; e, para outros, vendeu toda a sua mercadoria e depois resolveu se dedicar somente à filosofia, que teria descoberto por acaso ao perambular por Atenas.

Durante aproximadamente uma década, seguiu os ensinamentos de três correntes filosóficas que tinham suas origens no célebre Sócrates: os megáricos dialéticos, dos quais não nos restou quase nada; os cínicos e, sobretudo, a Academia de Platão. Zenão abriu sua própria escola aproximadamente em 301 a.C., sob o pórtico de Atenas conhecido na época como Pórtico das Pinturas (Stoa Poikile), daí o nome de Stoa, do qual derivou o termo “estoicismo”, ou simplesmente “O Pórtico”. O sucesso foi rápido e, por ocasião da sua morte, em torno de 262 a.C., a cidade lhe prestou honrarias dignas de um sábio.

As principais características da escola inaugurada por Zenão, que hoje em dia vemos tão em voga, são a busca por se levar uma vida virtuosa, pautada na ética e no autocontrole, assim como aceitar aquilo que não podemos mudar, e focar naquilo que pode ser feito, isto é, aceitar corajosamente o destino e a morte, e ter uma visão mais racional da vida, avaliando constantemente nossos sentimentos, e os mantendo sob controle.

Mas toda a filosofia antiga, além da parte comportamental e ética, também se propunha a responder questões como “De onde viemos?” e “Para onde vamos?”, com sua própria cosmogonia. No caso do estoicismo, o Cosmos é finito, com a Terra, o Sol, a Lua e os demais planetas e estrelas; porém eles rejeitavam a ideia de um vácuo, um vazio absoluto, pois para eles tudo era conectado de alguma forma.

Antes do Cosmos, no entanto, existia o pneuma, o sopro divino, a substância que é a origem de tudo, a força criativa, isto é, o Deus Primordial que tudo criou a partir de si próprio. Segundo os estoicos, a criação do Universo se inicia com o fogo, que tudo moldou; e, da mesma forma, tudo há de aniquilar no fim dos tempos. No estoicismo, Deus (ou Zeus), como a substância original, dava origem ao universo, aos demais deuses, à natureza e aos seres humanos; mas, ao mesmo tempo, tudo era composto desse Deus-Substância. Seja como for, não sobraram muitas orações estoicas, nada de apelo aos deuses, visto que eles acreditavam que isso não era algo muito necessário em um universo racionalmente ordenado.

Em suas raízes, a filosofia estoica é monista, ou seja: “tudo é um”; e também panteísta, Deus como um princípio associado à natureza, compondo tudo o que existe. Além disso, é materialista, atribuindo um corpo físico até mesmo para a alma, e muito focada na mecânica dualista de “ativo e passivo”, que afirma que tudo o que existe é capaz de agir ou de receber uma ação. O Cosmos material, entretanto, é preenchido com o pneuma, com o sopro divino, que é racional e ordena a realidade.

Embora tenha sido convenientemente deixado de lado por boa parte dos estudiosos acadêmicos, o estoicismo também guarda um lado profundamente espiritual, até mesmo esotérico: dentre as suas principais contribuições para a cena esotérica do Ocidente estão a ideia do perenialismo e a doutrina das correspondências.

É comum, ao pensarmos nos primeiros seres humanos, que os imaginemos como ignorantes, desprovidos de conhecimento e ingênuos, pois somos influenciados pelas ideias da biologia evolutiva, que considera que os humanos vão se tornando mais inteligentes e complexos após muitas e muitas gerações. Para os estoicos, no entanto, era justamente o contrário: para eles os primeiros humanos, surgidos do fogo criador, eram homens e mulheres de profunda capacidade intelectual, com uma natureza até mesmo semidivina, capazes de compreender o Cosmos de forma precisa, sem falhas de interpretação. Eles eram considerados muito superiores, em todos os sentidos, aos homens da época de Zenão. Os estoicos também acreditavam que a primeira linguagem surgiu diretamente do contato do homem com a natureza divina e profunda, sendo que a natureza e a linguagem eram conceitos intimamente conectados.

Por isso a filosofia estoica era tão preocupada com a linguagem, com o significado das palavras, e sempre recomendava que tentássemos encontrar a sua origem profunda, primeva. Tal conhecimento poderia revelar a real natureza da natureza, que era considerada divina. Para os estoicos, as verdade primordiais estavam preservadas na filosofia da natureza, nas leis e nos mitos religiosos.

Aliás, os mitos eram vistos como extremamente importantes, por serem superiores à simples narrativa, assim como pelo seu profundo caráter épico: eles carregavam verdades que precisavam ser interpretadas e compreendidas. Assim, por meio da linguagem e do estudo dos mitos, era possível exercer a piedade, no sentido espiritual do termo, e decifrar o entendimento divino por trás dessas histórias de heróis e deuses. Ou seja, os estoicos foram pioneiros em defender interpretações não literais dos contos mitológicos, como uma forma de se conectar espiritualmente à natureza divina.

Assim, vemos conceitos importantes do estoicismo que viriam a influenciar o perenialismo, ou a filosofia perene, que busca identificar a verdade que une todas as religiões, algo que posteriormente iria ser mais aprofundado por espiritualistas da era moderna, como René Guénon e Helena Blavatsky. Ou seja, eles acreditavam que analisar as diversas crenças poderia dar origem a um corpo de entendimento que é comum a todas elas, que existe uma verdade que é expressa em todas as religiões. E não só isso, como a própria busca do significado das palavras e do entendimento profundo da linguagem, segundo eles, era algo que poderia nos levar à compreensão da natureza.

É engraçado considerar tudo isso como advindo de uma filosofia que hoje em dia é vista como algo tão racional, tão voltado para o dia a dia mundano.

Bem, e a principal conexão estoica com a espiritualidade é justamente a ideia da ligação entre as coisas: os estoicos acreditavam que havia um princípio ordenador, um pneuma, que ligava os objetos e mantinha a natureza racionalmente coesa. E o pneuma não somente conectava as coisas, como também espalhava sinais e símbolos na própria natureza, para que fossem interpretados pelos seres que a contemplassem. Dessa forma, o sábio poderia contemplar o leão, e por meio de uma compreensão oculta, associá-lo ao Sol. Ou ainda identificar tanto o leão quanto o Sol com o ouro. Tal doutrina parte do desejo estoico de buscar compreender as pistas e os sinais deixados pela inteligência divina.

E é por tudo isso que você pode, sim, ser ao mesmo tempo um estoico e um espiritualista, e se dedicar tanto a uma vida virtuosa quanto à busca pelos sinais divinos ocultos na natureza a sua volta. Essas são as verdadeiras raízes do estoicismo, e quando Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio falam em “viver de acordo com a natureza”, são tais ideias que eles têm em mente.


Bibliografia
História da filosofia ocidental, de Bertrand Russell; Epicteto e a sabedoria estoica, de Jean-Joël Duhot; A odisseia da filosofia, de José Francisco Botelho; Canais Esoterica (por Dr. Justin Sledge) e Barbarismo Esotérico (por João Drewes) no YouTube.

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Crédito das imagens: Google Image Search

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22.8.24

A felicidade possível

Em abril do ano 65 d.C., numa vila nos arredores de Roma, a filosofia ocidental viveu mais um grande drama: após Sócrates, era a vez de outro expoente do amor a sabedoria ter a sua sentença de morte. O seu nome era Sêneca, um espanhol nascido aproximadamente no ano 3 a.C., que teve como pai um habitante instruído de Roma. Ele seguiu carreira política e vinha sendo razoavelmente bem-sucedido quando o imperador Cláudio o exilou na Córsega (em 41 d.C.), por conta de uma birra da imperadora Messalina. Mas a segunda esposa de Cláudio, Agripina, o retirou de seu exílio forçado (em 48 d.C.) e o nomeou tutor de seu filho, então com 11 anos. Sêneca, entretanto, não teve a mesma sorte de Aristóteles: o seu pupilo cresceu para se tornar o imperador Nero, aquele que entrou para a história como o louco que pôs fogo em Roma.

Aos 28 anos, com distúrbios mentais cada vez mais agravados, Nero foi informado da existência de uma conspiração para afastá-lo do trono. Fora de si, ele buscou vingança contra todos a sua volta (incluindo sua própria mãe, seu meio-irmão e sua esposa, além de inúmeros nobres e senadores, todos sentenciados à morte). Embora não houvesse prova alguma do envolvimento de Sêneca na tentativa de golpe, e a despeito de ter sido o seu tutor e depois um ministro leal por mais de uma década, Nero o sentenciou à morte como medida de precaução.

Um centurião foi enviado a sua casa com as instruções do imperador: Sêneca deveria dar cabo da própria vida imediatamente, escolhendo o método que achasse melhor. Os familiares e amigos do filósofo empalideceram e começaram a chorar assim que souberam da notícia. Todavia, segundo o relato de Tácito, um historiador daquela época, Sêneca permaneceu inabalado, e tratou de acalmar todos a sua volta:

Ora, meus amigos, onde está sua filosofia? E o que foi feito da decisão de jamais se deixarem abater diante da iminência de qualquer desgraça que, durante tantos anos, todos temos incentivado uns aos outros a manter? Decerto ninguém aqui ignorava que Nero era cruel! Após matar a própria mãe e o irmão, só lhe restava matar seu conselheiro e tutor.

Em seguida, Sêneca se voltou para sua esposa, Paulina, e lhe deu um longo e afetuoso abraço, recomendando que achasse consolo para aquela tragédia em uma vida bem vivida. Mas ela não podia conceber uma vida sem o filósofo ao seu lado, e lhe pediu permissão para cortar os pulsos juntamente com ele. A princípio, ainda segundo Tácito, ele não impôs barreiras ao seu desejo:

Não impedirei que você dê um exemplo tão admirável. Podemos morrer com uma força moral idêntica, embora o seu fim seja muito mais nobre que o meu.

No entanto, o centurião e seus soldados impediram que aquela tragédia fosse ainda mais cruel, quiçá na esperança de serem lembrados como meros cumpridores de ordens, e não como monstros. Já o que se sucedeu ao próprio Sêneca, segundo os relatos, foi algo extraordinário, quase sobrenatural.

Mesmo após ter cortado os pulsos, as veias dos tornozelos e da parte interna dos joelhos, o sangue simplesmente não fluía com rapidez suficiente de seu corpo já quase septuagenário. Foi então que, lembrando da morte de Sócrates, 464 anos antes, Sêneca pediu a seu médico que lhe preparasse uma taça de cicuta. Afinal, assim como outros expoentes do estoicismo [1], ele tinha a figura de Sócrates na mais alta conta, um verdadeiro exemplo de como era possível vencer as tragédias do mundo com a ajuda da filosofia. Em uma carta escrita anos antes daquele dia, ele já havia deixado registrada tal admiração:

Ele viveu em tempos de guerra e sob o jugo de tiranos (...), mas todas essas provações afetaram tão pouco seu espírito que suas feições jamais se alteraram [na morte]. Que privilégio tão raro e maravilhoso! Ele manteve a mesma atitude até o fim. (...) Em meio a tantos reveses da [deusa] Fortuna, ele foi imperturbável.

Seja como for, o desejo de Sêneca em seguir Sócrates até na morte não pôde ser concretizado. Ele bebeu a cicuta, duas vezes, mas continuava bem vivo! Depois de tantas tentativas em vão, ele finalmente pediu que o colocassem em um banho de vapor, onde sufocou lentamente até a morte, sereno e impassível diante do revés derradeiro.

Com sua morte, Sêneca ajudou a consolidar um dos pilares do estoicismo, uma abordagem comedida e serena em relação as tragédias e os desprazeres da vida. Ao se portar tal qual Sócrates em seus momentos finais, ele comprovou que sua filosofia não era somente algo teórico, metafísico, mas sim extremamente prático. Sêneca tentou ser filósofo 24 horas por dia, e tudo indica que foi extremamente bem-sucedido nisso, do contrário dificilmente teria continuado filósofo nos momentos derradeiros. Foi justamente porque praticou sua filosofia em boa parte da vida que foi, verdadeiramente, um filósofo.

Podemos ter uma boa ideia de como era esta prática pela espécie de reflexão que Sêneca recomendava a todos que fizessem todos os dias, pela manhã, de preferência logo após despertar:

Nenhuma dádiva da [deusa] Fortuna nos pertence de fato.
Nada, seja público ou privado, é estável: os destinos dos homens, assim como os das cidades, estão sujeitos a um turbilhão. Qualquer edificação que tenha levado longos anos para ser erguida, à custa de grande sacrifício e graças ao bom humor dos deuses, pode dispersar-se ou desfazer-se em um único dia. Não, aquele que disse “um dia” exagerou, dando um prazo longo demais para um revés repentino: uma hora, um átimo, é o bastante para promover a queda de impérios.
Com que frequência cidades da Ásia foram destruídas por um único tremor de terra? Quantas aldeias na Síria, ou na Macedônia, já não foram engolidas? Quantas vezes devastações desse tipo já não deixaram o Chipre em ruínas?
Vivemos em meio a coisas que estão, sem qualquer exceção, destinadas a morrer.
Mortal você nasceu; mortal você dá à luz.
Não se surpreenda com nada, espere tudo.

A sua morte não foi o único exemplo de como a sua sabedoria não estava limitada à teoria. Quando exilado na ilha de Córsega, ele se viu repentinamente privado de todos os luxos de que dispunha, afinal aquela ilha em específico estava muito distante de gozar dos benefícios da civilização romana. Assim, as condições de vida no exílio deveriam ter formado um doloroso contraste com a vida em Roma. No entanto, em uma carta a sua mãe, Sêneca explicou como havia conseguido se adaptar às circunstâncias, graças aos anos de meditação pela manhã, regados a água e sopa rala:

Nunca confiei na Fortuna, mesmo quando ela parecia estar oferecendo paz. Todas aquelas bênçãos que generosamente derramou sobre mim  riquezas, cargos, prestígio  eu releguei de tal maneira que ela pudesse retomá-las sem me causar grandes aflições. Sempre mantive grande distância entre mim e seus favores. Ela tão somente me tirou o que havia concedido, portanto nada arrancou de mim.

Há uma espécie de metáfora estoica que resume muito bem tanto o pensamento de Sêneca quanto de outros expoentes dessa filosofia. Ela foi formulada pelo filósofo Zenão de Cítio, fundador do estoicismo, e “repaginada” pelos seus discípulos, Cleantes e Crisipo, sucessivamente. A sua referência mais antiga é relatada pelo sacerdote romano Hipólito:

Quando um cão atrelado a uma carroça quiser acompanhá-la, ele é puxado por ela e avança, fazendo com que seu gesto espontâneo coincida com a necessidade. Mas se o cão decidir não se mexer, o movimento da carroça irá obrigá-lo a segui-la, de qualquer maneira. O mesmo se passa com os homens: mesmo que não queiram, eles são forçados a obedecer o que o destino lhes reservou.

Ou seja, um homem é livre para seguir em qualquer direção que queira. Todavia, como sugere a metáfora, se os seus movimentos são limitados, é melhor acompanhar a direção da carroça do destino do que ser arrastado por ela. Embora o nosso primeiro impulso possa ser o de lutar contra a guinada repentina do veículo, caso ele siga noutra direção, o nosso sofrimento decorrerá exclusivamente de nossa resistência. Se vivemos de acordo com as necessidades da natureza, aceitando tanto a liberdade momentânea de seguirmos na direção desejada quanto a necessidade, igualmente momentânea, de irmos para onde não gostaríamos de ir, então não há realmente nada que possa nos abalar.

Os filósofos antigos tinham um belo nome para tal estado de contentamento: eudaimonia. A sua tradução literal seria algo como “o estado de ser habitado por um bom daemon, ou espírito”. Os estoicos, provavelmente, diriam que é simplesmente o estado alcançado quando “vivemos de acordo com a natureza”. Isto é, quando temos perfeita noção da natureza e do mundo a nossa volta, e sabemos que há coisas que podemos decidir, e outras que nos escapam totalmente o controle. Assim, seria inútil buscar a felicidade todo o tempo, algo literalmente impraticável, de modo que o mais sábio é sabermos discernir a felicidade possível em meio a um mundo impermamente e, muitas vezes, brutalmente dolorido. Mas viver apenas lamentando as dores do mundo seria tão equivocado quanto buscar somente os prazeres, todo o tempo. O estado de contentamento com a vida, eudaimonia, surge justamente da sabedoria que reconhece a felicidade possível, mesmo que a carroça volta e meia nos arraste para aqui e acolá.

Sêneca foi o filósofo estoico que mais deixou obras inteiras para a posteridade, e dentre mais de uma centena de cartas, peças de teatro e diálogos filosóficos, quiçá aquela que melhor resuma o seu pensamento seja justamente a que fala da felicidade possível, De Vita Beata, cujo título foi traduzido do latim como Da Felicidade ou A Vida Feliz.

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[1] O estoicismo é uma escola de filosofia helenística que floresceu na Grécia Antiga e, posteriormente, também na Roma Antiga. Os estoicos acreditavam que a prática das virtudes filosóficas era suficiente para alcançar a eudaimonia (ver restante do artigo) e, consequentemente, uma vida bem vivida. Foi fundada na antiga Atenas por Zenão de Cítio, em torno de 300 a.C.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Sêneca); [ao longo] A Morte de Sêneca; pintura de Manuel Domínguez Sánchez (1840-1906); Olu Eletu/unsplash

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