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24.11.09

Reflexões sobre o nada, parte 3

Continuando da parte 2...

O Tao e o vazio em nós

O Caminho é vazio e inesgotável,
profundo como um abismo.
É como se fosse o ancestral das dez mil criaturas.
Suavizai o corte
Desfazei os nós
Diminuí o brilho.
Deixai que as rodas percorram os velhos sulcos.
Devemos considerar nosso brilho
a fim de que nos harmonizemos com a escuridão dos outros.
Como é puro e tranqüilo o Caminho!
Não sei de quem possa ser filho
pois parece ser anterior ao Soberano do Céu.

Verso 4 do Tao Te Ching, O Livro do Caminho Perfeito (tradução de Murillo Nunes de Azevedo)

Lao Tsé era um obscuro funcionário público da China antiga (entre 4 a 7 séculos A.C.), avesso a honrarias e estudioso de filosofia, que ao fim da vida desapareceu na fronteira do oeste, em direção a Ásia Central. Seu legado histórico, o Tao Te Ching, foi escrito a pedido de um guarda fronteiriço, que pediu que o filósofo lhe deixa-se alguns ensinamentos por escrito enquanto aguardava a liberação para prosseguir viagem. Independente de Lao Tsé ser mito ou personagem real, ou uma mistura de ambos (o que é o mais provável), o que nos importa efetivamente é sua sabedoria, que felizmente chegou até nós através do Livro do Caminho Perfeito.

Mais dia menos dia em nossas vidas, todos nos deparamos com este vazio que há em nós, o vazio do sentido da existência. Na ânsia por preencher tal vazio, e eliminar a angústia de se observá-lo, muitas vezes o abarrotamos com qualquer idéia superficial que resolva nosso problema de imediato: “devemos ser bons para ganhar o céu”, “somos filhos de Deus e devemos temê-lo, para fugir de sua punição”, “precisamos meditar por toda uma vida para alcançar a iluminação”, “a ciência e a racionalidade são os únicos caminhos para se explicar a existência”, “não há solução para a dor no mundo, então vamos apenas nos divertir enquanto for possível”, etc.

Não há problema em se seguir um caminho errado – contanto que prossigamos em alguma direção, mais dia menos dia chegaremos a algum beco sem saída que irá nos desviar um pouco mais em direção ao caminho sem fim. No entanto, os sábios deixam que as rodas percorram os velhos sulcos, aqueles percorridos pelos gigantes de outrora, que em suas carroças pesadas e etéreas deixaram-nos o rastro para o que é infinito, inesgotável, e vazio.

O abismo do ser, o vazio em nós, pode mesmo conter um monstro, mas somente se este for alimentado por nossos medos e traumas. Em nossa relação com o mundo, dificilmente percebemos a nós mesmos como parte de um todo, como seres divinos conectados ao que há de sagrado em todas as coisas, das partículas mais diminutas as galáxias mais antigas do Cosmos. Para tal percepção, é preciso suavizar o corte das opiniões dogmatizadas, o corte do preconceito, o corte da ignorância do mundo, e de nós mesmos, o que faz com que nos desconectemos do todo. E, desconectados, o vazio em nós, embora cheio de opiniões superficiais e inúteis, pode se tornar insuportável. No mundo moderno, há quem prefira dar fim a própria vida, na vã esperança de fuga deste vazio.

Há que se desfazer os nós dos traumas passados, de culpas, de medos, de desejos inúteis... Assim o fio condutor para a imensidão do vazio fica desimpedido, a conexão se restabelece, e a experiência com o divino se renova. Assim, vivemos no mundo sem nos apegar, sem termos nossos desejos ditados pelo pensamento alheio – estamos vazios e somos livres para preencher o vazio em nós. Desta vez, preencher de verdade, com parte da substância inesgotável que flui pelo universo, tal qual raios cósmicos carregados de energia.

O sábio que se harmoniza, que se basta em si mesmo, sabe que seu brilho aumenta, mas também sabe que deve ainda se harmonizar com a escuridão dos outros. Pois houve o dia em que ele estava na escuridão, e algum outro veio lhe falar da luz. Eis que o sábio exerce sua autoridade através de sua doçura e simplicidade - Afinal ele sabe que seguimos nessa mesma estrada por incontáveis eras e que, no fim, chegaremos todos de mãos dadas.

E este caminho infinito de seres, como é puro e tranqüilo, como é eterno e incomensurável! Não há como saber até onde possa ir, mas, sobretudo, não há como saber de onde veio. Anterior ao tempo, anterior a existência em si, anterior a todas as coisas... Preenchendo tudo o que há, inclusive aqueles que se fazem vazios para recebê-lo em toda sua plenitude, o Tao é a mesma substância, o mesmo fluido cósmico que filósofos, cientistas e espiritualistas têm reconhecido ao longo de nossa história. O incognoscível, o que parece ser anterior ao Soberano do Céu. O que se opõe ao nada.

***

Crédito das imagens: [topo] Katie Putz (monumentos em torno do monte Tai Shan), [ao longo] Wikipedia (Lao Tsé)

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3 comentários:

Blogger Paola Taglioretti disse...

Interesante

23/4/17 16:22  
Blogger Northon disse...

Textos excepcionais.

30/6/17 15:09  
Blogger raph disse...

Obrigado Northon :)

30/6/17 15:25  

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