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7.10.13

Autoescola

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Hoje tive de acordar cedo para ir a autoescola com o meu Manual de formação de condutor veicular debaixo do braço.

Dizem que o CONTRAN, o Conselho Nacional de Trânsito, é o “órgão máximo” do trânsito no país. Cada faixa amarela pintada no meio fio das calçadas, cada placa de parada obrigatória, cada gesto executado pelos guardas de trânsito foram pensados e definidos por tal Conselho através de um Código: o Código de Trânsito Brasileiro (C.T.B.).

Mas ainda que eu saiba do significado de cada placa, de regulamentação ou advertência ou indicação, e ainda que eu saiba de cada uma das centenas de infrações previstas e de quantos pontos tiram da carteira, ainda que soubesse de cada um dos itens obrigatórios para automotores, da diferença entre a distância de segmento e a distância de parada, ou mesmo o que diabo faz um canister, tudo isto, por si só, não me serviria sequer para retirar o meu carro da sua vaga na garagem...

Perdi a chance de haver tirado minha carteira há muitos anos atrás. Li tanto Platão, Lao Tse e Bhagavad Gita que, subitamente, tirar a carteira já não era nem a décima segunda prioridade da minha vida. Não precisava mais me preocupar em “ser mais homem” pelo fato de saber dirigir. Até hoje, quando chegamos no supermercado e eu salto do carona, enquanto minha esposa salta do motorista, surgem aqueles olhares do tipo, “Nossa, a mulher dele é motorista, vai ver ele deixa ela dirigir o carro fora do expediente”.

Na verdade eu deixo ela dirigir o carro sempre, e não tenho a menor pretensão de dirigir um dia melhor do que ela, que tem anos de prática a mais do que eu. Agradeço por ter alguém que me completa na vida, e também por não ligar, mesmo, para o que os outros pensam do fato de eu sempre saltar do motorista.

Ainda assim aprender a dirigir pode ser uma experiência filosófica por si só. Tenho amigos que tiraram a carteira quando as 45 horas de aulas teóricas sequer existiam. E eu disse há pouco que toda a teoria do mundo não me ensinaria, por si só, a prática da direção. É a mais pura verdade.

No entanto, a prática crua, sem um ensino teórico inicial, tampouco me parece ser uma boa solução... Ora, há muitos que frequentam as aulas teóricas somente pela obrigação de frequentar, não se atentam aos motivos ocultos por detrás de cada lei e de cada recomendação do Código de nosso trânsito. Eu, como filósofo, não poderia deixar de nota-los.

Pegue o sinal amarelo do semáforo, por exemplo: “indica atenção, devendo o condutor parar o veículo”. Penso eu que o sinal amarelo do semáforo diz muito sobre nós enquanto seres humanos.

Esqueçamos a madrugada, quando existem bons motivos para não se parar o carro: no dia a dia do trânsito, a grande maioria dos motoristas, ao invés de frear o veículo ao avistar o sinal amarelo, acelera ainda mais, para ganhar, quem sabe, dois ou três minutos, por serem gastos no próximo congestionamento (geralmente um pouco mais a frente).

Diz no Código que os cruzamentos são, de longe, o local mais perigoso do trânsito, e onde ocorrem a maioria dos acidentes. Um acidente de trânsito, ainda que não acarrete mortes ou ferimentos graves, ainda que não acarrete ferimento algum, no mínimo vai acarretar a perda de várias dezenas de minutos pela espera da polícia, registro da ocorrência, acionamento do seguro, etc. Ainda assim, a grande maioria prefere arriscar e fincar o pé no acelerador no momento em que veem um sinal amarelo.

É como se o motorista dissesse, na verdade, assim: “seja esperto e acelere para ganhar tempo, você deve estar com pressa não?”.

Um dia visitei Brasília e fiquei boquiaberto com o fato de lá ser comum os carros pararem para os pedestres atravessarem nas ruas de pouco movimento, ainda que fora da faixa. Me perguntei quanto tempo e quantas gerações seriam necessárias para que a população de Rio e São Paulo fosse educada da mesma forma. Não é quase um milagre isto que ocorre em Brasília?

Há uma filosofia no C.T.B. que me parece muito interessante: os elementos mais frágeis do trânsito tem preferência de passagem sobre os mais fortes. É assim que os pedestres tem preferência sobre todos os demais, tirando os trens, porque um trem demora muito tempo para frear e as viagens seriam inviáveis se os trens tivessem de parar para dar passagem aos pedestres a atravessar os trilhos. E também, penso eu, porque um trem nada mais é do que um conjunto de pedestres viajando em comboio.

Outro dia sonhei que Lao Tse havia deixado de lado o seu carro de bois e resolveu atravessar a cidade num carro popular...

Sempre que via um pedestre esperando para atravessar a rua, ele freava, não importa aonde nem quem vinha atrás.

Ora, quem vinha atrás apressado o xingava dos nomes mais chulos, mas ele estava mais interessado no olhar de gratidão daquele que obtinha sua chance de travessia.

Com o tempo, os pedestres se reuniram e compraram um ônibus de turismo para que Lao Tse pudesse mostrar a cidade aos que chegavam. E sempre que via um de nós querendo atravessar, parava e nos saudava. Os turistas, que já não estavam assim tão apressados, foram se encantando pela gentileza daquele distinto condutor.

Passaram os anos e ele se tornou uma celebridade local (para o seu profundo desgosto). Até em capa de jornal apareceu. Depois resolveram lhe dar um trem para que ele fizesse uma viagem por todo o Brasil, saindo de Manaus e chegando na Central do Brasil (lembre-se de que era um sonho)...

Não era trem bala. De fato, a viagem lavava meses, pois Lao Tse gostava de parar em cada cidadezinha e conversar com seus habitantes, conhecer a comida, jogar dama nas pracinhas... Ainda assim muita gente gostava da viagem, quem não era aposentado tirava todo o mês de férias para acompanhar um trecho dela, sem saber ao certo onde teria de parar para pegar um ônibus e um avião para casa.

Dizem que no território nacional a velocidade máxima de qualquer automotor é de 110 quilômetros por hora, mas Lao Tse era um maquinista especial, e ganhou do Imperador de Jade um trem de pura luz.

No final do sonho, todos viajaram com ele para a Eternidade. Foi aí que eu acordei.

Ainda não sei dirigir, mas na teoria, ah! na teoria eu já dei várias voltas pelo mundo.

***

Crédito da imagem: Google Image Search

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9.6.13

Lançamento: Tao Te Ching

Tao Te Ching

Nesta tradução exclusiva do Tao Te Ching a partir da tradução clássica de James Legge para o inglês, Rafael Arrais (poeta, escritor, editor e autor do blog Textos para Reflexão) usa do auxílio precioso das interpretações do ocultista britânico Aleister Crowley e do filósofo brasileiro Murillo Nunes de Azevedo para compor uma visão moderna da antiga sabedoria de Lao Tse. Não se trata de uma tradução para os que adoram ao Tao como numa religião organizada, mas antes para os que o amam e desejam seguir no Caminho Perfeito; ou ainda, para aqueles que nunca ouviram falar dele...

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***

Conforme já falamos da tradução e do prefácio, agora traremos alguns trechos do livro em si:

O conhecimento da imortalidade

Aquele que conhece os homens
possui um grande intelecto.
Aquele que conhece a si mesmo
é possuído por uma grande iluminação.

Aquele que conquista batalhas é forte.
Aquele que conquista a si mesmo é realmente poderoso.

Aquele que se satisfaz com o que tem
é rico.
Aquele que mantém firme sua ação
alcançou a Vontade.

Aquele capaz de se adaptar a todas as situações
alcançou a longevidade.
Aquele que morre e, no entanto, não perece,
alcançou a imortalidade.

***

A doença do saber ilusório

Saber, e saber que nada sabemos, é a mais alta realização.
Não saber, e achar que se sabe, é uma doença.

Por simplesmente considerarmos o mal
que este tipo de doença nos traz,
nós nos preservamos dela.
O sábio não carrega tal doença consigo,
pois ele sabe do seu mal.

***

O caminho para o Céu 

Aquele que enche um vaso até que transborde,
ao carrega-lo, espalhará a água por todo o caminho.
Aquele que afia em excesso uma faca
arruinará o seu corte.

Quando um salão está cheio de ouro e jade,
seu dono viverá na insegurança.
Quando a riqueza e o status conduzirem a arrogância,
a ruína virá sem tardar.

Quando finda a boa obra
e nosso nome começa a tornar-se célebre,
esta é a hora de nos recolhermos a obscuridade.

Este é o caminho para o Céu!

***

A antecipação das dificuldades

Aquele que segue o Caminho age
sem mesmo pensar em agir.
Conduz seu trabalho
sem ansiar pelos resultados.
Prova do fruto
sem discernir se é doce ou azedo.
Considera igualmente o grande e o pequeno,
o muito e o pouco.
Repele toda a violência
com gentileza.

O mestre do Tao antecipa as dificuldades
quando elas ainda são fáceis de se lidar;
e inicia grandes realizações
quando elas ainda são pequeninas.
Todas as grandes dificuldades no mundo
um dia foram pequenas;
e da mesma forma, todas as coisas grandiosas
tiveram um início modesto.
Dessa forma, o sábio jamais pensa em fazer algo grandioso,
e assim acaba por realizar grandes obras.

Quem promete realizar muitas coisas,
tem dificuldades em manter a palavra.
Quem costuma desconsiderar a dificuldade da empreitada
acaba por se embaraçar nela,
e torna-la ainda mais difícil do que era inicialmente.
Dessa forma, o sábio em tudo vê dificuldade,
e ao antecipar uma dificuldade
acaba por evita-la totalmente.

***

Os frutos do Tao

Aquele que planta de acordo com o Tao,
criará raízes firmes que não podem ser arrancadas;
sua colheita jamais será perdida.

Seus filhos, e os filhos de seus filhos,
uma geração após a outra,
todos devem honrar ao templo dos seus ancestrais.

Cultive o Tao em si mesmo
para que sua virtude cresça da raiz.
Cultive o Tao na família
para que essa virtude se manifeste.
Cultive o Tao na vizinhança
para que a virtude perdure.
Cultive o Tao no Estado
e a virtude se tornará abundante.
Cultive o Tao no Reino
e seus frutos saciarão a fome de todos.

Aquilo que o Caminho modifica
pode ser observado por seus frutos
na pessoa, na família, na vizinhança,
no Estado e no Reino...

Como eu conheço aos frutos do Tao?
Pelo sabor!


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13.5.13

Tao Te Ching a caminho...

O próximo projeto para as Edições Textos para Reflexão é consideravelmente mais ambicioso que os demais: Tao Te Ching – O Livro do Caminho Perfeito.

Trata-se do livro essencial do taoísmo e de um dos maiores livros sagrados da humanidade. Diz a lenda que foi escrito (entre 350 e 250 a.C.) pelo próprio Lao Tse, um misterioso sábio chinês, a pedido de um guarda de fronteira, enquanto ele aguardava para ser liberado a ultrapassá-la... Quem sabe, uma das maiores contribuições da burocracia para a sabedoria humana!

Estarei, claro, traduzindo do inglês, e não diretamente do original. Entretanto, estarei muito bem “assessorado”. Usarei como base a tradução clássica de James Legge, mas contanto com as interpretações de Aleister Crowley e Murillo Nunes de Azevedo. Vejam mais detalhes abaixo, no que será um trecho do início do livro:

***

Nota sobre a tradução

Na língua chinesa escrita de estilo antigo, cada palavra, em geral, era escrita usando um único caractere (monossilábico); era um estilo muito mais conciso e literário do que a língua falada. Como o Tao Te Ching foi escrito no estilo antigo, o texto é extremamente conciso e não é de interpretação fácil mesmo para um chinês. O significado de cada monossílabo, no meio de uma série continua de caracteres sem pontuação, não surge espontaneamente; as frases têm uma estrutura mais difícil de detectar. As palavras que rimam sugerem as frases que estão presentes, mas nem sempre elas estão lá e nem sempre a estrutura fica perfeitamente clara. Sabe-se também que na época de Lao Tse não havia uma escrita unificada, porque a China não estava ainda politicamente unificada, e que o significado e pronúncia de muitos caracteres se foi alterando com o tempo.

Neste cenário, seria deveras complexo e pretensioso traduzir tal obra direto do original. Felizmente, no entanto, posso contar com a tradução clássica de James Legge para o inglês. Legge (1815 – 1897) foi um missionário escocês que viveu na China e dedicou boa parte da vida a estudar sua cultura. Além de ter sido o primeiro professor de chinês na Universidade de Oxford, é reconhecido por haver composto uma das traduções mais fiéis do Tao Te Ching para o inglês.

Mas não é tudo. Em minha tradução de Legge para o português conto com uma “assessoria” muito especial. A primeira é a interpretação do famoso e polêmico ocultista britânico, Aleister Crowley (1875 – 1947):

“Durante minhas andanças solitárias pelas montanhas de Yun Nan, a atmosfera espiritual da China me penetrou a consciência, graças a ausência de qualquer impertinência intelectual de meu órgão de conhecimento. O Tao Te Ching revelou sua simplicidade sublime a minha alma, pouco a pouco [...] A filosofia de Lao Tse se comunicou comigo, a despeito das tentativas persistentes de minha mente em tentar conformá-la com minhas noções pré-concebidas do que o seu texto deveria significar” (The Tao Teh King [Liber CLVII], trechos da Introdução).

O grande mago não pôde evitar a tentativa de reinterpretação do livro para a língua inglesa. No verão de 1918, realizou sua nova tradução com o auxílio de um amigo, chamado Amalantrah, que lia o significado de cada ideograma chinês, traduzindo-o ao inglês, enquanto Crowley os interpretava e anotava:

“Eu completei minha tradução em três dias, mas durante os últimos cinco anos tenho constantemente reconsiderado cada sentença. O manuscrito foi emprestado a numerosos amigos e intelectuais que comentaram meu trabalho, e aspirantes do Tao que apreciaram sua adequação ao espírito do ensinamento do Mestre. Aqueles que se desapontaram com a tradução de Legge estavam entusiasmados com a minha” (Idem).

A segunda “assessoria” de que desponho é a espetacular tradução do Tao de Ching, também à partir de Legge e outras versões inglesas para o português, de Murillo Nunes de Azevedo (1920 – 2007), engenheiro, escritor e filósofo brasileiro. Membro da Sociedade Teosófica desde 1950, professor em diversas universidades brasileiras durante 30 anos, monge budista, Murillo traduziu e escreveu ele mesmo uma vasta obra sobre diversas tradições espirituais e religiosas, do Tantra ao Taoísmo, do Budismo da Terra Pura ao pensamento teosófico de Helena Blavatsky. Segundo suas próprias palavras, Murillo “procura a visão global de uma realidade que teima em não ser captada pelos seres humanos mais preocupados com os problemas das suas vidas pessoais e seus pequenos mundos de 'faz-de-conta'” (Wikipedia).

De posse da tradução de Legge e das interpretações de Crowley e Murillo, penso que posso chegar a uma espécie de “tradução no caminho do meio”, nem tanto a Terra, nem tanto ao Ar. Meu sucesso ou insucesso, no entanto, será julgado pelos leitores...

***

Para dar uma ideia de como ocorre meu processo de tradução, trarei abaixo, na sequência, quatro versões para o quarto poema do Tao Te Ching (meu predileto): iniciando com Legge e Crowley (em inglês), depois trazendo a tradução de Murillo e, finalmente, a minha.

IV

The Tao is (like) the emptiness of a vessel; and in our employment of it we must be on our guard against all fullness.
How deep and unfathomable it is, as if it were the Honoured Ancestor of all things!

We should blunt our sharp points, and unravel the complications of things; we should attemper our brightness, and bring ourselves into agreement with the obscurity of others.
How pure and still the Tao is, as if it would ever so continue!

I do not know whose son it is. It might appear to have been before God.

***

THE SPRING WITHOUT SOURCE

The Tao resembles the emptiness of Space; to employ it, we must avoid creating ganglia. Oh Tao, how vast art Thou, the Abyss of Abysses, thou Holy and Secret Father of all Fatherhoods of Things!

Let us make our sharpness blunt; let us loosen our complexes; let us tone down our brightness to the general obscurity. Oh Tao, how still art thou, how pure, continuous One beyond Heaven!

This Tao hath no Father; it is beyond all other conceptions, higher than the highest.

***

A FONTE DE TUDO

O Caminho é vazio e inesgotável,
profundo como um abismo.
É como se fosse o ancestral das dez mil criaturas.
Suavizai o corte
Desfazei os nós
Diminuí o brilho.
Deixai que as rodas percorram os velhos sulcos.
Devemos considerar nosso brilho
a fim de que nos harmonizemos com a escuridão dos outros.
Como é puro e tranquilo o Caminho!
Não sei de quem possa ser filho
pois parece ser anterior ao Soberano do Céu.

***

A FONTE SEM ORIGEM

O Caminho é como o vazio de um vaso.
Ao utilizá-lo, devemos nos guardar de todo excesso.
Oh, e como é vasto, profundo como um abismo!
É como se fosse o Ancestral de todas as coisas.

Deixemos que as rodas percorram
os velhos sulcos da estrada.
Devemos cegar nossas adagas,
desfazer os nós
e diminuir o brilho
para que nos harmonizemos com a escuridão alheia.

Oh, como é puro e tranquilo o Caminho,
pode ser que continue para além do Céu!
Não sei de quem possa ser filho,
pode ser anterior ao próprio Imperador de Jade.


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9.2.11

Reflexões sobre a evangelização, parte 2

continuando da parte 1

Conversão religiosa é a adoção de uma nova identidade religiosa, ou uma mudança de uma identidade religiosa para outra. Isto envolve tipicamente o devotamento sincero a um novo sistema de crença, mas também pode ser concebido de outras maneiras, como a adoção em uma identidade de grupo ou linha espiritual.

Pequeno manual para a conversão do infiel

Todos os sistemas de crença ou doutrina religiosa se baseiam em espécies de guias, manuais passo a passo para uma vida de religiosidade mais profunda e verdadeira, em suma, uma religação mais eficiente e efetiva. Porém, me parece que podemos dividi-los em dois grandes grupos: aqueles em que o campo de aprendizado se dá única e exclusivamente por vontade e esforço próprios de cada um, sem a possibilidade de atalhos ou barganhas; e aqueles em que existe uma possibilidade de se avançar por meio de bênçãos e milagres, por barganhas diretas com Deus, em troca deste ou daquele benefício divino – um arrebatamento ao Céu, algum milagre ou salvação de última hora, ou simplesmente uma iluminação espiritual.

No segundo grupo se encontram a maior parte das igrejas ou sistemas eclesiásticos. Também pode-se dizer que este tipo de religiosidade é muito mais comum no Ocidente do que no Oriente. Por exemplo, quando determinada doutrina afirma que “só seremos salvos se aceitarmos Nosso Senhor Jesus Cristo em nosso coração”, ela opera por forma de barganha: aparentemente, o único caminho será esse, e o mérito da salvação não será exclusivamente nosso, mas muito mais uma forma de “retribuição divina” por nossa fidelidade. Ainda assim, aceitar o Senhor ainda é algo que tem mais lógica do que simplesmente doar quantias enormes de dinheiro a alguma igreja em troca da benção direta desse mesmo Senhor. Afinal, o que diabos Deus fará com seu dinheiro? Afinal, porque somente este ou aquele eclesiástico é responsável pela contabilidade divina?

No primeiro grupo, se encontram a maior parte dos religiosos que não necessariamente tem igreja. Também pode-se dizer que este tipo de religiosidade é muito mais comum no Oriente. Tais fiéis são antes fiéis a Deus, e mesmo que tenham alguma igreja ou grupo de estudos, e um dia os venha a abandonar, não necessariamente abandonará a própria doutrina em si. Estes fazem de suas casas, seus corações, suas mentes, sua única e inabalável catedral – onde sempre poderão orar, onde confessam antes de tudo a si mesmos.

Por exemplo, os dois primeiros versos do Livro do Caminho Perfeito, a obra principal do taoismo, dizem que “o caminho que pode ser seguido não é o Caminho Perfeito”. Superficialmente isto é um tanto paradoxal, é como se fosse apresentado um manual passo a passo para algum Céu em que, logo de início, já fosse afirmado que este manual não poderia ser seguido... No entanto, o que Lao Tsé queria dizer é análogo ao que muitos grandes sábios sempre afirmaram: que o caminho espiritual é próprio de cada um. Ou seja, o discípulo jamais poderá seguir o mesmo caminho do mestre, ele poderá no máximo utilizar seu exemplo de vida como base para construir o seu próprio caminho. Pois assim como não existem seres idênticos na criação, da mesma forma não existem caminhos idênticos para a religação ao Cosmos.

A mim me parece que a abordagem do primeiro grupo tem muito a ensinar ao segundo. Em realidade, existe uma disparidade tão grande e evidente à nível de profundeza espiritual entre tais grupos, que há de se perguntar se o segundo não é, em sua maioria, um grande agrupamento de visões equivocadas da religião mais aprofundada, universal, cósmica...

Há muitas igrejas, por exemplo, que foram edificadas inteiramente sobre textos sagrados aos quais se atribuí uma espécie de “ditado” direto de Deus. Não são como o Livro do Caminho Perfeito, uma mera tentativa de um sábio aconselhar aos outros sobre sua própria experiência de tentar compreender a Deus, mas antes a própria palavra de Nosso Senhor, verdadeiros Guias da Verdade Absoluta [1].

Se é que tais textos sejam mesmo o que os eclesiásticos pretendem que sejam, se é que não tenham sido enormemente adulterados com o passar do tempo, a evolução das sociedades, ou simplesmente por inúmeras traduções e compilações, ainda assim há que se pensar: se temos um nossa frente a Verdade codificada em palavras, em símbolos de escrita, será que isso nos bastará? Será que teremos plenas condições de interpretar corretamente tal Verdade? Acredito que a história das guerras religiosas nos traga uma boa resposta a essas perguntas – afinal, nenhuma guerra, nenhuma matança poderia, jamais, ser santa!

Obviamente que mesmo no Ocidente, que mesmo em tais igrejas com seus Guias Infalíveis, encontram-se os moderados, os da “ala mística”, ou que compreendem a religião, o religare, de forma mais aprofundada. Tenho certeza que esses jamais ergueriam uma espada, obrigando algum pobre coitado a se “converter” a sua doutrina...

Pois como poderia alguém, nalgum dia insano, converter outro alguém ao seu próprio pensamento, a sua própria doutrina, pela força? Pela sedução das palavras? Pelo terror anunciado de um lago de enxofre eterno aguardando todos aqueles que não se salvarem, que não aceitarem Nosso Senhor?

Ora, perguntem aos índios da América, perguntem aos negros da África, se eles nalgum dia se converteram ao Deus desses homens que os trataram como mercadoria, como escravos, como selvagens “sem alma”, mas nunca como irmãos, como seres na mesma caminhada para o Cosmos de onde todos foram catapultados na imensidão infinita. Dizer, da boca para fora, “eu aceito Nosso Senhor”, não significa que tenham aceitado. A liberdade jaz na mente e, assim como o caminho espiritual, é exclusiva de cada um, graças a Deus.

William James, um dos fundadores da psicologia, em seu grandioso tratado “Variedades da experiência religiosa”, postula que a conversão religiosa verdadeira pode aparentemente ocorrer de uma hora para outra, do dia para noite, em algum insight momentâneo, mas que quase que certamente já vinha sendo edificada, lentamente, nos calabouços ocultos do inconsciente. Que nossa questão com Deus é universal, todos temos de seguir este caminho, ainda que alguns o sigam inconscientemente ou o chamem de estudo da natureza – o importante é que, a nossa maneira, estamos todos caminhando à frente, aprimorando nossas potencialidades.

Lao Tsé e outros sábios sempre souberam que jamais poderiam converter alguém – o máximo que poderiam fazer era dar o exemplo, falar sobre sua própria experiência espiritual, sobre os percalços e as consolações do caminho, e esperar pacientemente que cada um, por si só, a seu próprio momento, convertesse a si mesmo.

Que não existe manual para o caminho alheio, apenas para o nosso próprio. O único infiel que tem de ser convertido é aquele que se encontra em nossa própria alma. Somos o juiz e o escravo, o apóstolo e o seguidor, o mestre e o discípulo, de nossa própria causa. Temos de ser fiéis ao nosso próprio ser, ao nosso tanto de fagulha divina que, ainda assim, é e sempre foi a única maneira com que Deus falou conosco – como o vento que sempre nos envolveu, embora não saibamos ao certo por onde ele tem passado.

A seguir, o evangelho do agnóstico...

***

[1] Muito embora, mesmo no taoismo existam lendas que colocam Lao Tsé como uma espécie de deus na Terra. Da mesma forma que existem religiosos superficiais no Ocidente, existem também no Oriente. Este texto não pretende ser, portanto, uma exaltação da religiosidade oriental como “superior”. Apenas procura atestar que a religiosidade pura, não eclesiástica, é muito mais comum na cultura oriental – independente de seus seguidores as terem compreendido ou não.

***

Crédito das imagens: [topo] Trinette Reed /Corbis; [ao longo] Ma Dan/XinHua/Xinhua Press/Corbis.

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24.11.09

Reflexões sobre o nada, parte 3

Continuando da parte 2...

O Tao e o vazio em nós

O Caminho é vazio e inesgotável,
profundo como um abismo.
É como se fosse o ancestral das dez mil criaturas.
Suavizai o corte
Desfazei os nós
Diminuí o brilho.
Deixai que as rodas percorram os velhos sulcos.
Devemos considerar nosso brilho
a fim de que nos harmonizemos com a escuridão dos outros.
Como é puro e tranqüilo o Caminho!
Não sei de quem possa ser filho
pois parece ser anterior ao Soberano do Céu.

Verso 4 do Tao Te Ching, O Livro do Caminho Perfeito (tradução de Murillo Nunes de Azevedo)

Lao Tsé era um obscuro funcionário público da China antiga (entre 4 a 7 séculos A.C.), avesso a honrarias e estudioso de filosofia, que ao fim da vida desapareceu na fronteira do oeste, em direção a Ásia Central. Seu legado histórico, o Tao Te Ching, foi escrito a pedido de um guarda fronteiriço, que pediu que o filósofo lhe deixa-se alguns ensinamentos por escrito enquanto aguardava a liberação para prosseguir viagem. Independente de Lao Tsé ser mito ou personagem real, ou uma mistura de ambos (o que é o mais provável), o que nos importa efetivamente é sua sabedoria, que felizmente chegou até nós através do Livro do Caminho Perfeito.

Mais dia menos dia em nossas vidas, todos nos deparamos com este vazio que há em nós, o vazio do sentido da existência. Na ânsia por preencher tal vazio, e eliminar a angústia de se observá-lo, muitas vezes o abarrotamos com qualquer idéia superficial que resolva nosso problema de imediato: “devemos ser bons para ganhar o céu”, “somos filhos de Deus e devemos temê-lo, para fugir de sua punição”, “precisamos meditar por toda uma vida para alcançar a iluminação”, “a ciência e a racionalidade são os únicos caminhos para se explicar a existência”, “não há solução para a dor no mundo, então vamos apenas nos divertir enquanto for possível”, etc.

Não há problema em se seguir um caminho errado – contanto que prossigamos em alguma direção, mais dia menos dia chegaremos a algum beco sem saída que irá nos desviar um pouco mais em direção ao caminho sem fim. No entanto, os sábios deixam que as rodas percorram os velhos sulcos, aqueles percorridos pelos gigantes de outrora, que em suas carroças pesadas e etéreas deixaram-nos o rastro para o que é infinito, inesgotável, e vazio.

O abismo do ser, o vazio em nós, pode mesmo conter um monstro, mas somente se este for alimentado por nossos medos e traumas. Em nossa relação com o mundo, dificilmente percebemos a nós mesmos como parte de um todo, como seres divinos conectados ao que há de sagrado em todas as coisas, das partículas mais diminutas as galáxias mais antigas do Cosmos. Para tal percepção, é preciso suavizar o corte das opiniões dogmatizadas, o corte do preconceito, o corte da ignorância do mundo, e de nós mesmos, o que faz com que nos desconectemos do todo. E, desconectados, o vazio em nós, embora cheio de opiniões superficiais e inúteis, pode se tornar insuportável. No mundo moderno, há quem prefira dar fim a própria vida, na vã esperança de fuga deste vazio.

Há que se desfazer os nós dos traumas passados, de culpas, de medos, de desejos inúteis... Assim o fio condutor para a imensidão do vazio fica desimpedido, a conexão se restabelece, e a experiência com o divino se renova. Assim, vivemos no mundo sem nos apegar, sem termos nossos desejos ditados pelo pensamento alheio – estamos vazios e somos livres para preencher o vazio em nós. Desta vez, preencher de verdade, com parte da substância inesgotável que flui pelo universo, tal qual raios cósmicos carregados de energia.

O sábio que se harmoniza, que se basta em si mesmo, sabe que seu brilho aumenta, mas também sabe que deve ainda se harmonizar com a escuridão dos outros. Pois houve o dia em que ele estava na escuridão, e algum outro veio lhe falar da luz. Eis que o sábio exerce sua autoridade através de sua doçura e simplicidade - Afinal ele sabe que seguimos nessa mesma estrada por incontáveis eras e que, no fim, chegaremos todos de mãos dadas.

E este caminho infinito de seres, como é puro e tranqüilo, como é eterno e incomensurável! Não há como saber até onde possa ir, mas, sobretudo, não há como saber de onde veio. Anterior ao tempo, anterior a existência em si, anterior a todas as coisas... Preenchendo tudo o que há, inclusive aqueles que se fazem vazios para recebê-lo em toda sua plenitude, o Tao é a mesma substância, o mesmo fluido cósmico que filósofos, cientistas e espiritualistas têm reconhecido ao longo de nossa história. O incognoscível, o que parece ser anterior ao Soberano do Céu. O que se opõe ao nada.

***

Crédito das imagens: [topo] Katie Putz (monumentos em torno do monte Tai Shan), [ao longo] Wikipedia (Lao Tsé)

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5.1.09

Suavizai o corte

Parte dos versos do Livro do Caminho Perfeito, o Tao Te Ching, que também consta em nossa lista de links (na home do blog):

Suavizai o corte
Desfazei os nós
Diminui o brilho
Deixai que as rodas percorram os velhos sulcos.
Devemos considerar nosso brilho
a fim de que nos harmonizemos, com a escuridão dos outros (...)

Verso 04 do Tao Te Ching

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30.7.08

Os 10 melhores livros sagrados

Dos que já li até hoje, ou dos que me lembro de ter lido:

1. Bhagavad Gita (parte do Mahabharata)*
2. Tao Te Ching (Lao Tsé)*
3. Fédon, ou Da Alma (Platão)*
4. Dhammapada (ditado pelo Buda)*
5. Diatribes (Epicteto)**
6. O Livro dos Espíritos (Kardec)
7. O Evangelho de Tomé (achado em Nag Hammadi)*
8. O Caibalion (3 Iniciados)*
9. Ética (Espinosa)
10. Cosmos (Sagan)

Atualizado em 19/12/23

* Edições traduzidas já lançadas pelas Edições Textos para Reflexão. (versão e-book e/ou impressa)
** Recomendo o livro
Epicteto e a Sabedoria Estoica de Jean Joel-duhot, da editora Loyola, e o e-book O Manual para a Vida, das Edições Textos para Reflexão, com nossa tradução de Epicteto.

Veja também: Cronologia das religiões.


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