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16.9.25

Existe algo

Existe algo, e não nada:
eu não preciso de mais do que isso.

Ainda que nossa vida seja uma insignificância,
um pequeno milagre
que fez do inorgânico algo orgânico
nas profundezas de um oceano primordial
deste planetinha a girar em torno de uma estrela
na periferia de uma entre trilhões de galáxias,
ainda assim somos algo,
e não nada.

Ainda que realmente não tenhamos a decisão final,
ainda que nossos desejos, vontades e consciência
sejam mero devaneio de alguém que sonha desperto,
e acredita que segura as rédeas
do próprio sonho,
ainda assim sonhamos,
ainda assim somos algo,
e não nada.

Ainda que todos esses anjos e demônios
sejam mero fruto da imaginação;
ainda que uns digam que Deus é a cauda do elefante,
e outros, que é a tromba,
e outros, que são as orelhas, as presas, as patas,
ainda assim, imaginados ou não,
anjos, demônios e elefantes são algo,
e não nada.

Portanto, meu amigo,
eu sou da filosofia de que há esta única certeza,
e nenhuma outra:
eu não preciso de mais do que isso.

E ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte,
não temerei mal algum,
pois que algo está comigo,
e eu mesmo sou formado por algo,
e eu mesmo, quando já não for mais “eu”,
ainda serei algo.
E, para ser bem franco,
até mesmo o vale, a sombra e a morte
são algo, e não nada.

“Algo”: alguma coisa indeterminada;
qualquer coisa;
todas as coisas.

Portanto, meu amigo,
se você me acompanhou até aqui,
deve ter percebido que precisamos consertar
o início do poema...

Existe algo:
eu não preciso de mais do que isso;
pois não preciso negar
aquilo que não existe, existiu ou existirá.


raph'25

***

Crédito da imagem: Photos by Beks/unsplash

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19.2.16

Tudo ou nada

Um cientista diz que o universo surgiu do nada. Para ele, isto quer dizer que não há um Criador, nem espíritos nem almas, e boa parte ou mesmo a totalidade do que classificamos como espiritualidade não passa de mera fantasia provocada por algum estranho tilintar de neurônios em nosso cérebro. "Assim", diz o cientista, "estou defendendo a racionalidade e me valendo do ceticismo".

Ora, se formos na origem da etimologia de tais termos, descobriremos que a racionalidade implica em ser sensato e sempre questionar suas próprias crenças, buscando razões razoáveis para crer, ou continuar a crer, no que quer que seja. Some-se a isso o ceticismo, que filosoficamente implica em exaltar a dúvida e evitar as certezas, e temos efetivamente um manual prático contra todo e qualquer dogma, assim como todas as pressuposições ilógicas que encontramos por aí, ainda que venha da boca de um cientista.

Um cientista diz que o universo surgiu do nada. Ainda que seja amparado por "estudos", e ainda que ele se diga "cético e racional", não seria nem racional nem cético de nossa parte crer no que ele afirma sem questionar... E, questionando, poderíamos começar pela pergunta, "O que é o nada? Você pode defini-lo? Você já o observou, ou detectou com instrumentos? Você sabe como, quando e onde ele existiu? Será que poderá voltar a existir um dia?".

Se formos usar novamente a etimologia, descobriremos que, no frigir dos ovos, o "nada" é um termo que se refere a algo que não somente não existe, como não pode ser definido, nunca pôde, e jamais poderá. O "nada" não é o vácuo cósmico, que mesmo sem nenhuma espécie de matéria, nem nenhum átomo passageiro, ainda é preenchido por campos gravitacionais, radiação, flutuações quânticas etc. O "nada" não é o vazio, pois ainda que houvesse algum canto deste universo perfeitamente vazio, a própria qualidade do vazio implica em "algo a ser preenchido", o que evidentemente não é o "nada". O "nada" não é algum estado de consciência, alguma espécie de metáfora para a morte, nem mesmo para o nirvana. Ainda que muitas pessoas e doutrinas usem o "nada" para se referir a alguma outra coisa, fato é que, pela lógica mais pura e cristalina, o "nada" não pode existir, nem neste momento, nem em qualquer momento do passado ou do futuro. Tampouco ajuda usar o "nada" entre aspas, pois "nada" e nada também continuam sendo somente palavras.

Dizem que Deus também é somente uma palavra. No entanto, neste caso, ainda que seja uma palavra que se refere a algo que transcende a própria linguagem, e que não pode ser definido pelo uso das palavras, fato é que Deus tem uma qualidade essencial que o difere do nada: o primeiro definitivamente existe, enquanto o último definitivamente não existe. De fato, esta é a única certeza da filosofia e do ceticismo filosófico: existe algo, e não nada. Seja o que for este "algo", seja que nome queiramos dar a ele, "Deus" ou "Tudo" ou "Natureza" ou "Absoluto" etc., fato é que ele existe.

Carl Sagan foi um ardoroso defensor da ciência, da racionalidade e do ceticismo. Apesar de ele não crer num Criador conforme descrito nos manuais de verdades absolutas, ele não foi ateu, e sim agnóstico. Ou, como ele mesmo disse um dia, "Um ateu tem que saber muito mais do que eu sei. Um ateu é alguém que sabe que não existe um Deus". Sagan não tinha tanta certeza de que Deus, ou algo análogo a esta ideia transcendente, não existe. Em seu monumental Contato, inclusive, ele chega a postular que um suposto Criador poderia ter incluído na própria matemática mensagens cifradas que poderiam indicar sua existência. Tudo ficção, é claro, mas quem disse que a ficção não existe? A ficção definitivamente também é algo, e não nada.

Já Neil deGrasse Tyson, o cientista que encontrou com Sagan quando jovem, e que o considera um ídolo, tampouco acredita dispor de informações suficientes para abraçar o ateísmo e abandonar o ceticismo. Conforme ele confessa, "Eu não consigo me reunir e falar com todos numa sala sobre o quanto não acreditamos em Deus. Apenas não tenho energia para isso". O único "ista" pelo qual Tyson deseja ser reconhecido é o "cientista". Tyson definitivamente não é daqueles que tem certeza de que algo surgiu do nada.

Segundo Terence McKenna, a ciência moderna se baseia num princípio: dê-nos um milagre espontâneo e a gente explica o resto. Atualmente este "milagre" se chama Big Bang, e é a teoria mais aceita para o início do espaço-tempo, isto é, do universo onde vivemos. Talvez, quem saiba, existam muitos outros universos, mas isso também faz parte da especulação científica, e não pode sequer ser testado, quiçá comprovado. Então, o que resta? Uma teoria extremamente embasada em dados e observações sobre tudo o que ocorreu desde que o universo surgiu, sabe-se lá de onde, do quê, e em qual tempo.

Toda essa questão da Criação e do sentido da existência é o que tem angustiado mentes filosóficas e questionadoras desde o advento da história humana, provavelmente até mesmo antes da invenção da linguagem. Tudo ou nada, Deus existente e definido ou não existente e indefinido, tudo ter um sentido, nada ter um sentido: todas essas conclusões apressadas nada mais são do que os dois lado da mesma moeda, e esta moeda se chama "a acomodação ante o fim da angústia".

Ora, e tanto ateus quanto crentes encontram sua acomodação em dogmas: "existe", "não existe". Tanto faz, os questionamentos cessam da mesma forma, e a vida "fica resolvida". Mas os filósofos não querem ter esta vida resolvida, eles se recusam a se acomodar ante a angústia da existência. Enfim, eles aprenderam a amar a dúvida, a conviver com ela a cada momento de suas vidas, e analisar esta vida sob um prisma de muitas possibilidades.

No fim das contas, nos prometeram os antigos, todos os paradoxos serão reconciliados. Podemos acreditar neles? Talvez não com a razão puramente objetiva, mas quem sabe com o uso da emoção amparada pela razão, com o diálogo com nossa própria intuição, com a contemplação de nosso mundo subjetivo, com o autoconhecimento, com o passo a passo rumo adentro, com a descoberta de terras ocultas, esquecidas dentro de nós mesmos...

Depois de muito tempo, e muitas vidas, acho que estou começando a compreender que todos os paradoxos já estavam reconciliados desde o início, desde nosso primeiro questionamento, desde que reconhecemos esta única certeza: existe algo, e não nada.

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Crédito da imagem: raph

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9.10.12

A morte e o nada

A morte tampouco é o Nada...

Foi Mario Sergio Cortella quem disse que "o homem é o único animal mortal", pois todos os outros animais provavelmente são mesmo imortais: eles vivem este momento, e não se preocupam com a morte, pois tampouco tem consciência da morte (embora alguns elefantes talvez tenham).

E quem somos nós? Os mortais, os que foram expulsos do jardim de delícias, os animais que sabem que vão morrer...

Mas mesmo o fim da vida é alguma coisa. Na verdade é alguma coisa que se ensaia todas as noites, quando vamos dormir... Como bem disse John Galsworthy com suas cascas de sentimento: "O dia chegou novamente. Mas sua face parece um pouco estranha, não mais como fora ontem. Estranho de se pensar, nenhum dia é como o dia que se foi e nenhuma noite como a noite que virá! Porque, então, temer a morte, que é noite e nada mais? Porque se preocupar, se o dia que virá trará uma nova face e um novo espírito?"

Ainda assim, sobre o Nada, não há nada a dizer. Não é possível nem elogiar ou criticar, nem defender ou atacar o Nada. Não é possível filosofar sobre o Nada, mas talvez seja importante se perguntar: "porque existe algo, e não nada?"

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Crédito da imagem: Marco Ciofalo

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5.1.12

Parmênides: Da natureza

Os fragmentos abaixo fazem parte de um poema original intitulado Da Natureza e sua permanência, escrito pelo filósofo pré-socrático (classificado como tal, apesar de ter vivido mais ou menos na mesma época de Sócrates) Permênides de Eleia, e que influenciou inúmeros filósofos a partir do século IV a.C. até – mesmo que desapercebidamente – os dias atuais.

Esta tradução foi compilada por José Trindade Santos no livro homônimo lançado pelas Edições Loyola – e que recomendo a leitura para uma análise mais aprofundada, embora estritamente “filosófica científica”. Talvez não seja simples interpretar um poema fragmentado, mas certamente podemos ao menos intuir do que chegou até nós que Parmênides praticamente inaugurou a ontologia (a filosofia do ser). Além disso, se Espinosa por acaso não leu tal poema antes de compor sua Ética, devemos considerar que chegou a conclusões muito próximas mais de um milênio após o filósofo antigo.

Pois que quando Parmênides sabiamente resume que “o Ser é, o Não-ser jamais poderia haver sido”, está apenas refletindo sobre o mesmo tema que seria posteriormente desenvolvido na “Substância que não pode criar a si mesma, pois que é tudo o que é e foi e será” de Espinosa... Qualquer semelhança com filosofias ainda mais antigas, vindas do Oriente e, sobretudo, de algum canto do Egito, talvez não seja mera coincidência. Portanto, saboreiem com atenção:

Fragmento 1
Os corcéis que me transportam, tanto quanto o ânimo de impele, conduzem-me, depois de me terem dirigido pelo caminho famoso da divindade, que leva o homem sabedor por todas as cidades.

Por aí me levaram, por aí mesmo me lavaram os habilíssimos corcéis, puxando o carro, enquanto as jovens mostravam o caminho.

O eixo silvava nos cubos como uma siringe, incandescendo (ao ser movido pelas duas rodas que vertiginosamente o impeliam de um e de outro lado), quando se apressaram as jovens filhas do sol a levar-me, abandonando a região da Noite para a luz, libertando com as mãos a cabeça dos véus que a escondiam.

Aí está o portal que separa os caminhos da Noite e do Dia, encimado por um dintel e um umbral de pedra; o portal, etéreo, fechado por enormes batentes, dos quais a Justiça vingadora detém as chaves que os abrem e fecham.

A ela se dirigiram as jovens, com doces palavras, persuadindo-a habilmente a erguer para elas por um instante a barra do portal. E ele abriu-se, revelando um abismo hiante, enquanto fazia girar, um atrás do outro, os estridentes gonzos de bronze, fixados com pregos a cavilhas. Por ali, atrás do portal, as jovens guiaram com celeridade o carro e os corcéis.

E a deusa acolheu-me de bom grado, mão na mão direita tomando, e com estas palavras se me dirigiu: “Ó jovem, acompanhante de aurigas imortais, tu, que chegas até nós transportado pelos corcéis, Salve! Não foi um mau destino que te induziu a viajar por este caminho – tão fora do trilho dos homens –, mas o Direito e a Justiça. Terás, pois, de tudo aprender: o coração inabalável da realidade [ou “da verdade”] fidedigna e as crenças dos mortais, em que não há confiança genuína. Mas também isso aprenderás: como as aparências têm de aparentemente ser, passando todas através de tudo”.

Fragmentos 2-5
Vamos, vou dizer-te – e tu escuta e fixa o relato que ouviste – quais os únicos caminhos de investigação que há para pensar: um que é, que não é para não ser, é caminho de confiança (pois acompanha a realidade); o outro que não é, que tem de não ser, esse te indico ser caminho em tudo ignoto, pois não poderás conhecer o não-ser, não é possível, nem indicá-lo [...]

[...] pois o mesmo é pensar e ser.

Nota também como o que está longe pela mente se torna firmemente presente: pois não separarás o ser de sua continuidade com o ser, nem dispersando-o por toda a parte segundo a ordem do mundo, nem reunindo-o.

[...] para mim é o mesmo por onde hei de começar: pois aí tornarei de novo.

Fragmento 6
É necessário que o ser, o dizer e o pensar sejam: pois podem ser, enquanto o nada não é: nisto te indico que reflitas.

Desta primeira via de investigação te [afasto], e logo também daquela em que os mortais, que nada sabem, vagueiam, com duas cabeças: pois a incapacidade lhes guia no peito a mente errante; e são levados, surdos ao mesmo tempo que cegos, aturdidos, multidão indecisa, que acredita que o ser e o não-ser são o mesmo e o não-mesmo, para quem é regressivo o caminho de todas as coisas.

Fragmentos 7-8 [1]
Pois nunca isto será demonstrado: que são as coisas que não são; mas afasta desta via de investigação o pensamento, não te force por esse caminho o costume muito experimentado, deixando vaguear olhos que não veem, ouvidos soantes e língua, mas decide pela razão a prova muito disputada de que falei.

Só falta agora falar do caminho que é. Sobre esse são muitos os sinais de que o ser é ingênito e indestrutível, pois é compacto, inabalável e sem fim; não foi nem será, pois é agora um todo homogêneo, uno, contínuo. Com efeito, que origem lhe investigarias? Como e onde se acrescentaria? Nem do não-ser te deixarei falar, nem pensar: pois não é dizível, nem pensável, visto que não é. E que necessidade o impeliria a nascer, depois ou antes, começando do nada?

E, assim, é necessário que seja de todo, ou não.

Nem a força da confiança consentirá que do não-ser nasça algo ao pé do ser. Por isso nem nascer, nem perecer, permite a Justiça, afrouxando as cadeias, mas sustém-nas: esta é a decisão acerca disso – é ou não é –; decidido está então, como necessidade, deixar uma das vias como impensável e inexprimível (pois não é via verdadeira), enquanto a outra é a autêntica.

Como poderia o ser perecer? Como poderia gerar-se? Pois, se era, não é, nem poderia vir a ser.

E assim a gênese se extingue e da destruição não se fala.

Nem é divisível, visto ser todo homogêneo, nem num lado é mais, que o impeça de ser contínuo, nem noutro menos, mas é todo cheio de ser e por isso todo contínuo, pois o ser é com o ser.

Além disso, é imóvel nas cadeias dos potentes laços, sem princípio nem fim, pois gênese e destruição foram afastadas para longe, repelidas pela confiança verdadeira.

O mesmo em si mesmo permanece e por si mesmo repousa, e assim firme em si fica. Pois a potente Necessidade o tem nos limites dos laços, que de todo o lado o cercam.

Pois não é justo que o ser seja incompleto: pois não é carente; ao [não-]ser, contudo, tudo lhe falta. O mesmo é o que há para pensar e aquilo por causa de que há pensamento.

Pois, sem o ser – ao qual está prometido –, não acharás o pensar. Pois não é e não será outra coisa além do ser, visto o Destino o ter amarrado para ser inteiro e imóvel. Acerca dele são todos os nomes que os mortais instituíram, confiantes de que eram reais: “gerar-se” e “destruir-se”, “ser” e “não ser”, “mudar de lugar” e “mudar a cor brilhante”.

Visto que tem um limite extremo, é completo por todos os lados, semelhante à massa de uma esfera bem rotunda, em equilíbrio do centro a toda a parte; pois, nem maior, nem menor, aqui ou ali, é forçoso que seja.

Pois nem o não-ser é, que o impeça de chegar até o mesmo, nem é possível que o ser seja maior aqui, menor ali, visto ser todo inviolável: pois é igual por todo o lado, e fica igualmente nos limites.

Nisso cesso o discurso fiável e o pensamento em torno da verdade; depois disso as humanas opiniões aprende, escutando a ordem enganadora das minhas palavras. E estabeleceram duas formas, que nomearam, das quais uma não deviam nomear – e nisso erraram –, e separaram os contrários como corpos e postaram sinais, separados uns dos outros: aqui a chama do fogo etéreo, branda, muito leve, em tudo a mesma consigo, mas não a mesma com a outra; e a outra também em si contrária, a noite sem luz, espessa e pesada.

Esta ordem cósmica eu te declaro toda plausível, de modo algum que nenhum saber dos mortais te venha transviar.

Fragmentos 9-11
Mas, uma vez que tudo é chamado luz ou noite e o conforme a estas potências é dado a isto e aquilo, tudo é igualmente cheio de luz e de noite obscura, ambas iguais, visto cada uma delas ser como nada.

E conhecerás a natureza do éter e no éter de todos os sinais e dos raios da pura lâmpada do sol as obras destruidoras, e de onde nascem, e conhecerás as obras que rodam em torno da lua de olho redondo e a sua natureza, e saberás do céu que os tem à volta, e de onde nasce, e como guiando-o a Necessidade o obriga a conter os limites dos astros.

[...] como a terra e o sol e a lua e o éter que a tudo é comum e a Via-Láctea e o Olimpo extremo e o calor ardente dos astros forçados a nascer.

Fragmentos 12-13 [2]
Pois as coroas mais estreitas enchem-se de fogo sem mistura e as que vêm à noite depois destas, mas com elas lança-se uma parte de chama.

No meio delas está a divindade que tudo governa; pois em tudo comanda o parto doloroso e a mistura, impelindo a fêmea a unir-se ao macho, e ao contrário o macho à fêmea.

Primeiro que todos os deuses, concebeu Eros.

Fragmentos 14-16
Facho noturno, em torno à terra, alumiado a uma alheia luz. Sempre à espreita dos raios do sol.

(15a [Nota posterior]: Parmênides no poema diz que “a terra tem raízes na água”.)

Pois, tal como cada um tem mistura nos membros errantes, assim aos homens chega o pensamento; pois o mesmo é o que nos homens pensa, a natureza dos membros, em cada um e em todos; pois o mais [pleno] é o pensamento.

Fragmentos 17-19
À direita os machos, à esquerda as fêmeas.

Quando a mulher e o homem juntos misturam as sementes de Vênus, a força que se forma nas veias a partir de sangues diversos, mantendo o equilíbrio, gera corpos bem formados.

Se, contudo, misturados os sêmens, as forças se opõem, e não fazem unidade, misturados no corpo, cruéis, atormentam o sexo da criança com o duplo sêmen.

Assim, segundo a opinião, as coisas nasceram e agora são e depois crescerão e hão de ter fim. A essas os homens puseram um nome que a cada uma distingue.

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[1] Sobre este trecho, ver também a série de artigos “Reflexões sobre o nada”.

[2] Sobre este trecho, ver também a série de artigos “4 amores”, particularmente no que tange aos dois primeiros: pornea e eros.

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Crédito da imagem: BordomBeThyName

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13.11.10

Isto não é o nada, parte 2

continuando da parte 1

Está na hora de eu dar minha opinião sobre tudo isso... Apesar de admirar o pensamento de todos os autores citados acima – incluindo dos que discordo –, penso que ainda há uma forma de resumir estas questões da unificação fundamental, do surgimento da vida e do paradoxo de ainda não termos encontrado nenhum sinal de vida inteligente neste Cosmos tão grande.

Este é o problema, o paradoxo, e também a solução – ele é grande, muito grande, talvez não muito diferente, na prática, do infinito. Quando os cientistas descobriram a radiação de fundo cósmica, uma das maiores comprovações experimentais da teoria do Big Bang, também se depararam com um grande problema: como explicar como ela era tão homogênea?

Isto foi resolvido pela teoria do físico Alan Guth. A sua idéia é que, na aurora do tempo, o espaço inflou com uma velocidade absurdamente grande. Dois pontos que, inicialmente, eram vizinhos, durante a expansão ultra-rápida se distanciaram mais rapidamente do que a velocidade da luz. Para que o mecanismo funcionasse e pudesse explicar a geometria cósmica e a homogeneidade da matéria, a expansão tinha de ser exponencialmente rápida. Por isso, sua teoria ficou conhecida como Inflação Cósmica. Atualmente esta teoria é aceita pela grande maioria dos cientistas.

Uma das conseqüências da Inflação é o conceito de horizonte cósmico... Sabemos que nada material viaja mais rápido do que a luz, entretanto, durante a Inflação, o próprio tecido do espaço-tempo “inflou” de forma mais rápida do que a luz! Isso significa que existe um horizonte até onde podemos enxergar o universo – e além dele há o “universo desconhecido”, além do alcance da luz do nosso lado, do nosso horizonte, como uma América que jamais poderá ser alcançada por Colombo.

Diante dessas informações, eu muitas vezes me pergunto, ou melhor, me vejo fazendo a seguinte pergunta aos cientistas: “Meus caros, que parte do infinito vocês não entenderam?”

Os cientistas procuram por agulhas no palheiro cósmico, e ao não encontrá-las ficam algo inquietos e angustiados... Para os que seguem a bíblia, como Heeren, isso só pode significar que Deus escolheu mesmo apenas aquele povo perdido num deserto da terceira pedra do Sol, na periferia de uma dentre trilhões de galáxias; Para os céticos desiludidos com a busca pela unificação na ciência, ou pela busca da “vida abundante” no Cosmos, isso só pode significar que somos um raríssimo acidente em meio a um universo caótico e hostil; Ainda para outros, talvez mais moderados, isso tão somente significa que o Cosmos é grande, realmente grande – mas quão grande?

É aí que o infinito entra para bagunçar com todas as teorias e crenças de tantas mentes brilhantes. O infinito não se equaciona, está além da matemática e talvez mesmo além de nossa racionalidade... Mesmo assim, ainda é possível tentar vislumbrá-lo pela lógica, tal qual arriscou o grande Benedito Espinosa.

Em sua “Ética” (Ed. Autêntica), Espinosa analisa a questão da criação, do “porque existe algo e não nada?”. Podem acusá-lo de ser mais um “sonhador da unidade fundamental de todas as coisas” – tal qual o faz Marcelo Gleiser com certa propriedade –, mas apenas acusar não basta: é preciso resolver a questão, é preciso encarar ao infinito face a face. E até hoje, que me desculpem os seguidores da bíblia e cientistas céticos, dentre todas as teorias acima citadas, somente ele avançou efetivamente nesta questão.

Se algo não surge do nada, nem mesmo flutuações quânticas no vácuo, nem mesmo um espaço vazio ou um pensamento, então há que existir algo de incriado, algo de eterno. Espinosa o chamou de Substância, “a Substância que não poderia criar a si mesma”... Ora, como sabemos que espaço e tempo estão intimamente conectados, falar em eternidade é falar em infinito.

Comparativamente, o núcleo de um átomo em relação à órbita de seus elétrons corresponderia a um pequeno inseto no centro de um estádio de futebol, uma mosca no meio do Maracanã. O resto é espaço vazio, ou preenchido por alguma parte dos 96% de matéria ou energia escura que não interagem com a luz e, portanto, jamais foram detectados pela ciência – postula-se sua existência pela observação do movimento das galáxias, na media em que falta bastante matéria para explicá-lo.

Seguindo nesse pensamento, sabemos que apenas em nosso horizonte cósmico existem mais estrelas (sóis como o nosso, cheias de planetas à volta) do que grãos de areia em todas as praias da Terra! E mesmo que nem uma única forma de vida exista em torno desses trilhões e trilhões de sóis, lembrem-se de que estamos falando apenas de nosso horizonte, de até onde nossa luz pode chegar. No “universo desconhecido” temos praticamente um infinito de possibilidades. É muito difícil afirmar qualquer coisa do tipo “não existe vida fora da Terra” ante à tal infinito.

Procuramos por agulhas num palheiro cósmico, mas não devemos esmorecer se a busca tem se mostrado árdua... Não devemos esmorecer ante o infinito, pois ele é tudo o que há, ele é a Substância que abarca a todos nós. Procuramos por versões conscientes dessa Substância, mas por vezes esquecemos que também somos formados por ela, que também estamos encharcados desse mar por todos os lados.

Por mais rara que seja a vida na Terra, ela não se compara à raridade da simples existência de tudo o que há. Como os 4% da matéria que interage com a luz, ou como a ínfima quantidade de elementos pesados que possibilitam a vida como a conhecemos em meio a um oceano de hélio e hidrogênio, somos tão raros quanto a própria Substância. E mesmo que sejamos poucos na Terra, nos confins de nosso horizonte cósmico e além, certamente seremos muitos – tantos quanto às estrelas em meio ao infinito.

Da próxima vez que se angustiarem com a escuridão da noite, com a idéia do nada e da morte vindoura, lembrem-se de que também temos tantos neurônios em nosso cérebro quanto estrelas no céu, lembrem-se de tudo isso que nos lembramos, e pensamos, e sentimos, e intuímos. Lembrem-se e afirmem para si mesmos:

Isto não é o nada.

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Crédito das imagens: Silent World, de Michael Kenna (os textos são meus)

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Isto não é o nada, parte 1

Em 1996 cientistas da NASA declararam que um meteorito vindo de Marte parecia trazer consigo sinais de vida. A pedra extraterrestre, chamada ALH84001, desprendeu-se de Marte após a colisão violenta de algum cometa ou asteróide a cerca de 16 bilhões de anos, e caiu na Terra por volta de 13 mil anos atrás, sendo finalmente descoberta na Antártica em 1984.

Houve forte repercussão na mídia, e até o então presidente americano, Bill Clinton, referiu-se a possibilidade da descoberta de vida extraterrestre: “Hoje a pedra 84001 nos fala de um passo de bilhões de anos e de uma distância de milhões de quilômetros. Nos fala da possibilidade de vida. Se essa descoberta for confirmada, será uma das maiores na história da ciência. Suas implicações serão profundas, e inspirarão ainda mais reverência pelo universo em que vivemos. Ao prometer respostas para algumas das questões mais antigas da humanidade, levanta outras ainda mais fundamentais.”

Hoje, no entanto, a maioria dos cientistas está convencida de que os sinais de vida no meteorito 84001 não são reais. Um dos métodos para se identificar atividades biológicas em amostras de meteoritos é buscar por minúsculas “marcas de vida” gravadas nas rochas. A dificuldade é que processos geológicos muitas vezes causam efeitos extremamente parecidos com atividade bacteriana. Embora não tenhamos o caso por encerrado, essa pedra não é a prova que tanto buscamos. Ao que sabemos por evidências físicas, continuamos sendo o único planeta com vida no Cosmos.

Obviamente a falta dessa evidência não impede que muitos cientistas continuem esperançosos em encontrá-la em breve, afinal o universo é um lugar bem grande. Em seu livro “The Fifth Miracle [O Quinto Milagre]” o físico Paul Davies diz que “se a vida vem de uma sopa pré-biótica com certeza causal, então as leis da Natureza escondem um subtexto, um imperativo cósmico que comanda: ‘Faça-se a vida!’... Essa visão deslumbrante da Natureza é profundamente inspiradora e majestosa. Espero que esteja correta. Seria maravilhoso se estivesse.”

James Gardner é um jornalista especializado em pesquisa científica que traduz esse sentimento em uma teoria consideravelmente bem fundamentada, a do Biocosmos Egoísta, a qual é elaborada no livro homônimo, e defendida com maior embasamento no livro “O universo inteligente” (Ed. Cultrix). Vejamos como ele a resume: “A essência da hipótese do Biocosmos Egoísta é que o universo que habitamos está no processo de ficar impregnado de vida cada vez mais inteligente – mas não necessariamente vida humana ou sua sucessora. Nessa teoria, a emergência da vida e da inteligência cada vez mais competente não é um acidente sem significado num cosmos hostil, em grande parte isento de vida, mas está no próprio âmago da vasta maquinaria da criação, da evolução cosmológica e da replicação cósmica.”

Há ainda outros cientistas que primeiro buscam por evidências antes de considerar tais hipóteses. Em “O universo vivo” (Ed. Larousse) o físico Chris Impey nos traz uma detalhada análise da astrobiologia – o estudo da vida no espaço. Ao contrário do que muitos possam pensar, este é um ramo oficial da ciência, e demonstra que muitos consideram com seriedade a possibilidade de acharmos além da Terra formas de vida simples como bactérias e extremófilos, capazes de sobreviver em condições geoquímicas extremas, como no subterrâneo de Marte ou no oceano gelado de Europa, uma das luas de Júpiter... Isso não significa que esperam encontrar tão cedo qualquer ser mais complexo do que uma ameba, tanto menos alguma espécie capaz de comunicar-se conosco.

Recentemente cientistas descobriram um planeta que possui o tamanho correto, a densidade correta e a distância correta de sua estrela para abrigar vida tal qual a conhecemos. Gliese 581 é uma estrela anã vermelha localizada a 20,3 anos-luz da Terra, na constelação de Libra. O Planeta G, sexto de seu sistema, orbita no meio do que se chama de “região habitável” na qual a água pode existir em forma líquida, e possui cerca de 1,5 vezes o tamanho da Terra, o que garante uma atração gravitacional para fazer com que esta água possa se acumular em lagos e mares.

“Pessoalmente, dada a propensão da vida como a conhecemos de brotar em qualquer oportunidade, eu diria que as chances de existir vida neste planeta beiram 100%” disse Steven Voght, professor de astronomia e astrofísica na Universidade da Califórnia ao Discovery News.

Em seu livro “Criação imperfeita” (Ed. Record), o físico brasileiro Marcelo Gleiser critica veementemente essa propensão “monoteísta e unificadora” presente em muitos cientistas, uma espécie de busca por códigos ocultos na Natureza, por uma mítica Teoria do Tudo; E, claro, ele discorda dessa noção de que a vida “tem a propensão de brotar em qualquer oportunidade”. Enfim, Gleiser confessa que já foi ele mesmo um “unificador” em busca desses mistérios ocultos do Cosmos, mas que terminou por aceitar que a vida é tão somente um evento raríssimo num universo violento e hostil, fruto de uma cadeia de assimetrias que data desde o Big Bang, quando a pequena assimetria entre a presença de matéria e anti-matéria possibilitou o surgimento de galáxias, estrelas, planetas e, eventualmente, da vida no planeta Terra – teoricamente um evento tão raro que temos pouca esperança de encontrar vida inteligente em nosso horizonte cósmico, quanto menos especular que o universo é uma espécie de Biocosmos Egoísta.

Gleiser defende que a vida é especial exatamente por aparentemente só existir aqui – que é rara, muito rara, e que por isso mesmo tem de ser valorizada e protegida. A espiritualidade de Gleiser se foca num “humanocentrismo cósmico”, mas que até onde sabemos não passa da atmosfera terrestre. Para a teoria de Gleiser fazer sentido, basta que continuemos a não encontrar vida extraterrestre nos séculos vindouros, o que será uma prova cada vez maior de que o universo não parece ser uma “fonte inesgotável de vida”.

Interessante e irônico comparar o pensamento de Gleiser com o do jornalista científico Fred Heeren. Em seu livro “Mostre-me Deus” (Ed. Clio), ele nos traz uma análise abrangente do estado da cosmologia atual, mas aqui e ali ele insiste em inserir analogias bíblicas, muitas delas forçadas, mas que não deixam de compor uma teoria interessante. Não vou entrar em detalhes, mas o mais interessante para nossa comparação é que Heeren diz que é exatamente porque até hoje não encontramos vida inteligente fora da Terra que a bíblia parece fazer todo o sentido! Ou seja, Deus parece ter escolhido exatamente este planeta, e somente ele, dentre trilhões e trilhões de outros, para criar a vida.

É muito comum em livros de divulgação científica vermos teorias sendo expostas a torto e a direito sem uma preocupação maior com sua lógica – pois isso seria filosofia e não ciência. A ciência depende afinal apenas de comprovação experimental, e enquanto esta não aparece, uma miríade sem fim de teorias são elaboradas... Gleiser, por exemplo, também critica com fervor o atual estágio da física teórica, em que se baseia quase que totalmente em teorias que não têm como ser testadas e, portanto, nem validades nem invalidadas. Temos nesse cenário, como maior expoente, a Teoria-M ou Teoria das Cordas, que postula que os componentes fundamentais da matéria são minúsculas cordas, e que é de sua vibração que são criadas partículas de maior ou menor massa. A Teoria-M é uma das tantas outras que buscam uma unificação das teorias físicas, uma mítica Teoria do Tudo tão criticada por Gleiser – na medida em que para ele, ela obviamente ainda está bem além de nosso alcance.

Na parte final, minha opinião sobre o assunto...

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Crédito das imagens: Silent World, de Michael Kenna (os textos são meus)

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20.7.10

Reflexões sobre a perfeição, parte 2

Continuando da parte 1

O paradoxo da perfeição

Espinosa nos será de valioso auxílio na definição mais aprofundada da perfeição:

“Quem decidiu fazer alguma coisa e a concluiu, dirá que ela está perfeita, e não apenas ele, mas também qualquer um que soubesse o que o autor tinha em mente e qual era o objetivo de sua obra ou que acreditasse sabê-lo. Por exemplo, se alguém observa uma obra (que suponho estar inconclusa) e sabe que o objetivo de seu autor é o de edificar uma casa, dirá que a casa é imperfeita e, contrariamente, dirá que é perfeita se perceber que a obra atingiu o fim que seu autor havia decidido atribuir-lhe. Mas se alguém observa uma obra que não se parece com nada que tenha visto e, além disso, não está ciente da idéia do artífice, não saberá, certamente, se a obra é perfeita ou imperfeita. Este parece ter sido o significado original desses vocábulos. Mas, desde que os homens começaram a formar idéias universais e a inventar modelos de casas, edifícios, torres, etc., e a dar preferência a certos modelos em detrimento de outros, o que resultou foi que cada um chamou de perfeito aquilo que via estar de acordo com a idéia universal que tinha formado das coisas do mesmo gênero, e chamou de imperfeito aquilo que via estar menos de acordo com o modelo que tinha concebido, ainda que na opinião do artífice, a obra estivesse plenamente concluída. E não aprece haver outra razão para chamar, vulgarmente, de perfeitas ou imperfeitas também as coisas da natureza, isto é, as que não são feitas pela mão humana.”

De acordo com Espinosa, somente as obras humanas podem ser – talvez – perfeitas, porque somente essas estarão algum dia concluídas... Observamos os quadros de Da Vinci ou as esculturas de Michelangelo e somos praticamente obrigados a admitir que ali não falta nenhuma pincelada, nenhuma lasca a ser lapidada. Essas obras são perfeitas não pela sua utilidade prática e/ou física, mas pela impressão que provocam na alma dos admiradores.

Já as obras naturais estão em constante afloramento. Tudo vibra, tudo se movimenta e se influencia mutuamente, tudo evoluí – a matéria rumo a desordem, e a vida rumo a alguma espécie de perfeição... Foi o próprio Darwin que afirmou que o desenvolvimento das espécies tendia a perfeição, e disse mais:

“Há grandeza nesta concepção de que a vida, com suas diferentes forças, foi alentada pelo Criador num curto número de formas ou numa só e que, enquanto este planeta foi girando segundo a constante lei da gravitação, desenvolveram-se e se estão desenvolvendo, a partir de um princípio tão singelo, infinidades de formas as mais belas e portentosas.”

A natureza é, portanto, um eterno “vir a ser”... Uma obra inacabada, sendo esculpida e imaginada pelas leis naturais desde que algo surgiu da substância primeira... A substância que não poderia ter criado a si mesma, e que por isso mesmo – como nos explica tão bem Espinosa em sua “Ética” – há de ter irradiado tudo o que há de si própria, como o pólen exalado pelas flores.

Quando se pensa sobre o início do universo, os primeiros momentos após o Big Bang, e se percebe que se não fosse por uma assimetria entre a matéria e a anti-matéria, além de várias outras assimetrias e/ou “ajustes” mais ocultos, não existiriam estrelas, nem planetas, e muito menos vida biológica, chegamos à conclusão de que nossas utopias acerca da perfeição talvez tenham sido um pouco apressadas...

Afinal, o que há de mais perfeito do que o vácuo, o vazio? Tudo ordenado. Nenhum som. Nenhum movimento brusco. Nenhum pensamento desordenado. Nenhuma luz... Apenas a perfeita escuridão do Grande Nada. Em realidade, nada seria mais terrível e assombroso do que esta perfeição.

Porém, por alguma razão, a substância primeira não irradiou a tudo de forma perfeita, absolutamente simétrica, ordenada... Assim como até hoje podemos perceber – através dos instrumentos que possibilitaram os experimentos da física quântica – que no seu estado mais fundamental a realidade é um baile frenético e caótico de partículas, nada nos diz que essa idéia de perfeição absoluta seja realmente perfeita!

A perfeição é um conceito humano. Como tal, talvez possa ser aplicado as grandes obras de arte, as mais belas músicas e poesias, a mais sofisticada literatura... Mas, no campo natural, tal conceito torna-se um paradoxo. O paradoxo da perfeição: quando o imperfeito é perfeito, e vice-versa.

Afinal, se Deus houvesse criado seres perfeitos, não seriam seres e sim máquinas, robôs programados para uma perfeição artificial... A perfeição da “benção divina”, e não da conquista própria, da edificação de nossa própria obra. O Cosmos é uma obra de arte, sim, não há duvidas... Mas não é humana, é divina – e como tal, ainda está sendo edificada (ao menos dentro do tempo dos homens).

Carl Sagan dizia que nós somos uma forma do Cosmos conhecer a si mesmo... Ao alcançarmos a consciência, chegamos ao estágio em que podemos caminhar com as próprias pernas, pensar por nós mesmos, e não mais apenas participar da criação como figurantes, mas como verdadeiros agentes criativos.

Aqueles que conheceram pouco da ciência talvez tenham se afastado de um deus humanizado, incompatível com a imensidão cósmica. Da mesma forma, aqueles que conheceram pouco da religião talvez tenham sido ludibriados por um deus que opera por barganhas – prometendo o céu a alguns de seus escolhidos –, incompatível com a infinita diversidade da vida.

Entretanto, aqueles que arriscaram olhar um pouco mais profundamente na noite de sua própria alma talvez tenham achado mais estrelas do que escuridão e vazio... Talvez tenham, como Espinosa, encontrado a evidência da substância primeira, aquela que não pode ter criado a si mesma. Aquela substância que, desde os primórdios do Cosmos, vêm tecendo uma bela teia imperfeita, mas que tende a perfeição...

A seguir, a busca da perfeição na ciência – seria a matemática uma arte?

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Crédito da foto: Kenneth Libbrecht/Visuals Unlimited/Corbis (cristal de gelo - não absolutamente simétrico, ademais belo)

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12.3.10

Deus e os astrônomos

Texto de Fred Heeren em "Mostre-me Deus" (editora Clio) com citações de Robert Jastrow e outros cientistas. Tradução de Soraya Bausells. As notas ao final são minhas.

Os cientistas honestos em relação à questão de onde a matéria e a energia se originaram admitem duas coisas: primeiro, que o problema é impossível de ser solucionado por meio da ciência [1]; segundo, que essa situação é extremamente frustrante para o cientista.

O astrônomo respeitado internacionalmente (e agnóstico declarado) Robert Jastrow admite que os cientistas foram “traumatizados” por terem se empenhado em solucionar um problema que deve permanecer para sempre além deles [2]. Em seu livro God and the Astronomers, Jastrow diz: “O desenvolvimento é inesperado porque a ciência vem tendo um sucesso extraordinário na investigação da cadeia de causa e efeito no tempo retroativo.

A situação viola uma “fé religiosa” profundamente arraigada nos cientistas na própria ciência, a crença de que a ciência deveria finalmente ser capaz de descobrir as forças e leis para explicar tudo [3]. Afinal de contas, Carl Sagan nos diz que a ciência é “aplicável a todas as coisas. Com essa ferramenta nós vencemos o impossível”. Mas Jastrow escreve:

“Considere a grandiosidade do problema. A ciência provou que o universo surgiu de uma explosão em determinado momento. Pergunta-se: Que causa produziu este efeito? Quem ou o que colocou a matéria e a energia dentro do universo?... E a ciência não pode responder essas perguntas, porque, de acordo com os astrônomos, em seus primeiros momentos de existência, o universo foi comprimido a um grau extraordinário e consumido pelo calor de um fogo além da imaginação humana [4].”

Jastrow diz que o universo começou “sob circunstâncias que parecem tornar impossível – não apenas agora, mas sempre – descobrir que força ou forças trouxeram o universo à existência naquele momento.”

Antecipando tais questões sobre o incompreensível momento da criação, Isaías nos diz que ninguém pode sondar o entendimento do Criador (Isaías 40:28). Mas quem ou o que é a causa desse efeito? A Bíblia levanta a questão: não deveríamos saber a resposta desde sempre? “Ergam os olhos e olhem para as alturas. Quem criou tudo isso?... será que você não sabe? Nunca ouviu falar? O Senhor é o Deus eterno, o Criador...” (Isaías 40:26a, 28a).

Ao comparar com a suposição alternativa de que a matéria e a energia de alguma forma sempre existiram, o físico britânico Edmund Whittaker diz: “É mais simples postular a criação ex nihilo – o Divino constitui a natureza a partir do nada.”

O físico Barry Parker concorda: “Nós com certeza temos uma alternativa. Poderíamos dizer que não houve uma criação e que o universo sempre existiu. Mas isso é ainda mais difícil de se aceitar do que a Criação [5].”

Após considerar a descoberta de que nosso universo teve um começo e que a ciência é incapaz de descobrir o que houve antes dele, o astrônomo Jastrow conclui seu livro:

“Para o cientista que viveu acreditando no poder da razão, a história termina como um pesadelo. Ele escalou as montanhas da ignorância; está perto de conquistar o ponto mais alto; à medida que se esforça para alcançar a última rocha, ele é recebido por um bando de teólogos que estavam sentados lá há séculos [6].”

***

[1] Por isso o agnosticismo é um caminho tão comum a maioria dos cientistas que só conseguem enxergar a realidade pelas lentes da ciência.

[2] Mas esta “angústia” é compartilhada por cientistas, filósofos e religiosos, desde que o homem foi capaz de se indagar “porque existe algo e não nada?” (essa pergunta é atribuída ao filósofo Lucrécio). Afinal: Ex nihilo nihil fit (Do nada, nada se faz).

[3] Certamente o autor usa o termo “fé religiosa” de forma sorrateira, ainda que entre parêntesis. Por mim, seria melhor usar o termo “convicção na ciência”, ou seja: a crença de que a ciência ainda tem muito a alcançar na capacidade de descrever a realidade (e decerto o tem, embora certamente será incapaz de descrever toda a realidade).

[4] Trata-se da Teoria do Big Bang, que é ainda incapaz de descrever o que ocorreu no universo antes do Tempo de Planck (um tempo muito, muito curto, após o “bang” inicial). Einstein disse certa vez, assim que se convenceu de que o universo realmente havia surgido de uma singularidade inicial: “[Quero] saber como Deus criou esse mundo. Eu não estou interessado nesse ou naquele fenômeno, no espectro desse ou daquele elemento. Eu quero conhecer Seus pensamentos, o resto são detalhes.” (citado por Nick Herbert em Quantum Reality – Beyond the New Physics, p. 177).

[5] Não necessariamente, mas mesmo que fosse, ainda assim não resolveria o problema inicial: há que existir um ser ou substância incriado(a) e eterno(a), em oposição ao nada. Este sim seria a causa primeira de tudo.

[6] Sempre digo que ciência e religião são duas lentes para se enxergar a realidade. Somente quando usadas em conjunto a realidade passa a ser percebida integramente, tanto em seu Mecanismo quanto em seu Sentido. É ignorância (ou muitas vezes puro sofismo) pretender que a realidade não tenha Sentido, e que tudo tenha surgido do nada sem nenhuma causa. Porém, também é ignorância pretender compreender a realidade sem o conhecimento detalhado de seus belos e elegantes Mecanismos. Se o cientista chegou no topo da montanha e encontrou um bando de teólogos, é porque precisará deles para seguir adiante; assim como os teólogos que lá estavam precisam dos cientistas.

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Crédito da foto: Wikipedia (nascimento de estrelas a bilhões de anos-luz da Terra)

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24.11.09

Reflexões sobre o nada, parte 3

Continuando da parte 2...

O Tao e o vazio em nós

O Caminho é vazio e inesgotável,
profundo como um abismo.
É como se fosse o ancestral das dez mil criaturas.
Suavizai o corte
Desfazei os nós
Diminuí o brilho.
Deixai que as rodas percorram os velhos sulcos.
Devemos considerar nosso brilho
a fim de que nos harmonizemos com a escuridão dos outros.
Como é puro e tranqüilo o Caminho!
Não sei de quem possa ser filho
pois parece ser anterior ao Soberano do Céu.

Verso 4 do Tao Te Ching, O Livro do Caminho Perfeito (tradução de Murillo Nunes de Azevedo)

Lao Tsé era um obscuro funcionário público da China antiga (entre 4 a 7 séculos A.C.), avesso a honrarias e estudioso de filosofia, que ao fim da vida desapareceu na fronteira do oeste, em direção a Ásia Central. Seu legado histórico, o Tao Te Ching, foi escrito a pedido de um guarda fronteiriço, que pediu que o filósofo lhe deixa-se alguns ensinamentos por escrito enquanto aguardava a liberação para prosseguir viagem. Independente de Lao Tsé ser mito ou personagem real, ou uma mistura de ambos (o que é o mais provável), o que nos importa efetivamente é sua sabedoria, que felizmente chegou até nós através do Livro do Caminho Perfeito.

Mais dia menos dia em nossas vidas, todos nos deparamos com este vazio que há em nós, o vazio do sentido da existência. Na ânsia por preencher tal vazio, e eliminar a angústia de se observá-lo, muitas vezes o abarrotamos com qualquer idéia superficial que resolva nosso problema de imediato: “devemos ser bons para ganhar o céu”, “somos filhos de Deus e devemos temê-lo, para fugir de sua punição”, “precisamos meditar por toda uma vida para alcançar a iluminação”, “a ciência e a racionalidade são os únicos caminhos para se explicar a existência”, “não há solução para a dor no mundo, então vamos apenas nos divertir enquanto for possível”, etc.

Não há problema em se seguir um caminho errado – contanto que prossigamos em alguma direção, mais dia menos dia chegaremos a algum beco sem saída que irá nos desviar um pouco mais em direção ao caminho sem fim. No entanto, os sábios deixam que as rodas percorram os velhos sulcos, aqueles percorridos pelos gigantes de outrora, que em suas carroças pesadas e etéreas deixaram-nos o rastro para o que é infinito, inesgotável, e vazio.

O abismo do ser, o vazio em nós, pode mesmo conter um monstro, mas somente se este for alimentado por nossos medos e traumas. Em nossa relação com o mundo, dificilmente percebemos a nós mesmos como parte de um todo, como seres divinos conectados ao que há de sagrado em todas as coisas, das partículas mais diminutas as galáxias mais antigas do Cosmos. Para tal percepção, é preciso suavizar o corte das opiniões dogmatizadas, o corte do preconceito, o corte da ignorância do mundo, e de nós mesmos, o que faz com que nos desconectemos do todo. E, desconectados, o vazio em nós, embora cheio de opiniões superficiais e inúteis, pode se tornar insuportável. No mundo moderno, há quem prefira dar fim a própria vida, na vã esperança de fuga deste vazio.

Há que se desfazer os nós dos traumas passados, de culpas, de medos, de desejos inúteis... Assim o fio condutor para a imensidão do vazio fica desimpedido, a conexão se restabelece, e a experiência com o divino se renova. Assim, vivemos no mundo sem nos apegar, sem termos nossos desejos ditados pelo pensamento alheio – estamos vazios e somos livres para preencher o vazio em nós. Desta vez, preencher de verdade, com parte da substância inesgotável que flui pelo universo, tal qual raios cósmicos carregados de energia.

O sábio que se harmoniza, que se basta em si mesmo, sabe que seu brilho aumenta, mas também sabe que deve ainda se harmonizar com a escuridão dos outros. Pois houve o dia em que ele estava na escuridão, e algum outro veio lhe falar da luz. Eis que o sábio exerce sua autoridade através de sua doçura e simplicidade - Afinal ele sabe que seguimos nessa mesma estrada por incontáveis eras e que, no fim, chegaremos todos de mãos dadas.

E este caminho infinito de seres, como é puro e tranqüilo, como é eterno e incomensurável! Não há como saber até onde possa ir, mas, sobretudo, não há como saber de onde veio. Anterior ao tempo, anterior a existência em si, anterior a todas as coisas... Preenchendo tudo o que há, inclusive aqueles que se fazem vazios para recebê-lo em toda sua plenitude, o Tao é a mesma substância, o mesmo fluido cósmico que filósofos, cientistas e espiritualistas têm reconhecido ao longo de nossa história. O incognoscível, o que parece ser anterior ao Soberano do Céu. O que se opõe ao nada.

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Crédito das imagens: [topo] Katie Putz (monumentos em torno do monte Tai Shan), [ao longo] Wikipedia (Lao Tsé)

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20.11.09

Reflexões sobre o nada, parte 2

Continuando da parte 1...

Por que existe algo, e não nada?

Outra grande questão filosófica e certamente existencial é a questão da existência em si. Não a existência de nós, seres humanos, ou deste planeta, ou das estrelas nos confins do universo, ou até mesmo do espaço-tempo como um todo... A questão é mais específica: porque afinal existe algo, e não nada?

Essa questão nos obriga a nos aproximar dos limites de nossa razão. Já dissemos que o nada não é o vazio a espera de ser preenchido, que o nada não pode existir já que obviamente alguma coisa existe. Então chegamos a dualidade coisa vs. não-coisa, que não deve ser compreendida como matéria vs. anti-matéria, ou qualquer outra coisa vs. alguma outra coisa qualquer. Esta coisa existe, é fato – e nesse caso, talvez sequer venha ao caso nos perguntar sobre o porque dela existir: se não existisse, não estaríamos aqui para fazer tal pergunta.

Ela compreende tudo que existe, toda matéria detectada e não-detectada, todas as galáxias e campos gravitacionais, todas as partículas em alvoroço quântico (seja em que dimensão ou universo estiverem) e, sobretudo, todos os pensamentos e idéias já formulados. Algo existe, algo incrivelmente infinito, eterno, mas que nos é profundamente desconhecido.

Em sua Ética, Benedito de Espinosa define de forma contundente, simples e genial o que seria esta coisa. Ele preferiu chamá-la de substância. Espinosa dizia que “uma substância não pode criar a si mesma”, e toda a razão e lógica estão ao seu lado. O grande apóstolo da razão era também cientista, e sabia muito bem que as substâncias apenas se transformam umas nas outras, e que absolutamente nada é criado ou aniquilado na natureza. Ora, se todas as bilhões e bilhões de partículas-substância do espaço-tempo não podem ter criado a si mesmas, e se derivam de alguma outra substância primordial, têm-se pela lógica que tal substância-primeira é a origem de tudo o que há. Não pode ter surgido do nada, pois nada pode surgir do nada. Não pode deixar de existir, pois o cerne do que compreendemos como “existir” depende dela. Não pode senão ser a substância primária de onde todas as outras se sub-dividiram e se transformaram.

Sim, Espinosa sabia. Sabia que no início de tudo, quando apenas esta substância fazia sombra a si mesma, nem mesmo o tempo e o espaço como o compreendemos existiam. Era a eternidade. A eternidade é a casa de tal substância, e graças as suas incessantes transformações, vivemos em um sistema-natureza onde o espaço-tempo nos possibilita ter a condição de viver em pelo menos três dimensões espaciais, e num fluxo incessante de tempo, o que possibilita nossa evolução.

Disso também se tira que estamos todos interligados. Como dizia o cientista Neil deGrasse Tyson: “Estamos todos conectados. Um ao outro, biologicamente; A Terra, de forma química; Ao universo, de forma atômica”. Tal é a profunda reflexão que mais dia menos dia chega a todo homem que observa a imensidão do Cosmos. Não necessariamente é preciso ser cientista para chegar a tal compreensão – Há mais de um século o indígena norte-americano, Chefe Seattle, chegou a uma conclusão bem parecida: "Sabemos que a terra não pertence ao homem. O homem pertence à terra. Todas as coisas são interligadas, como o sangue que nos une. O homem não tece a teia da vida – ele é apenas um fio dela. O que fizer à teia, fará a si mesmo."

Seja seguindo a teia do Chefe Seattle, ou aos átomos que apontam que somos poeira de estrelas longínquas, que explodiram em épocas remotas do universo, desejamos chegar ao mesmo lugar: ao local de onde fomos arremessados a incontáveis eras, e para o qual é nosso destino regressar. Este é o eterno retorno, o re-ligare... Porém, em nossa jornada de volta, passaremos de princípios inteligentes a deuses.

“Vós sois deuses”, dizia o rabi da Galiléia. No entanto, obviamente ainda somos deuses em formação, talvez quem sabe alunos do maternal na grande escola do Cosmos. Como fazer para vencer o vazio que há em nós, esta angústia de retornar para casa?

Ora, já dissemos que o vazio não é o nada. O vazio espera ser preenchido. O vazio é o lugar onde um deus em potencial pode se formar. O vazio se conecta a substância-primária – de alguma forma maravilhosa e incompreensível, sentimos que dentro de nós também arde uma fornalha cósmica. Lao Tsé não sabia dar nome a tal experiência, ao contato direto de tal substância incomensurável. Mas terminou por chamá-la simplesmente de Tao.

À seguir, o Tao e o vazio em nós.

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Crédito da foto: Descubra o Cosmos (NASA)

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18.11.09

Reflexões sobre o nada, parte 1

O que não existe nem nunca existiu

Ao longo da história filósofos têm se digladiado com a questão do nada. Não é para menos, já que grande parte das pessoas não compreende exatamente o cerne do problema: o nada não é um lugar vazio, ou um espaço em branco, ou a escuridão do vácuo no espaço profundo. O nada não existe. O nada nunca pode ter existido.

A ciência nos diz que a história do espaço-tempo é um conjunto gigantesco de ações e reações de partículas. No universo nada se perde e nada se cria, as coisas apenas se transformam, como dizia Lavousier. Coisas são formadas por partículas, em todo caso: a maça que Newton viu cair, era afetada pela gravidade, mas também era composta por partículas que formavam o fruto utilizando a energia proveniente do sol. O sol por sua vez também é afetado pela gravidade das outras estrelas da Via Láctea, além de exercer um campo gravitacional sobre os planetas próximos, como a Terra. Mas o sol também é formado por partículas que se aglutinaram, também por conta da gravidade. E todas as estrelas da Via Láctea, e todas as galáxias, se afastam ou se aproximam de acordo com reações gravitacionais. Não existe espaço para o nada neste universo. Ao menos desde o Big Bang, tudo obedece a elegantes leis de ação e reação.

O vácuo é um espaço não preenchido por qualquer matéria, nem sólida, nem líquida, nem gasosa, nem plasma, nem mesmo a matéria escura. Mesmo assim cada pequeno espaço dele é preenchido por trilhões de neutrinos e outras partículas a vagar pelo cosmos, assim como radiações de luz em diversas freqüências vibratórias, e campos gravitacionais. O vácuo possui energia, e suas flutuações quânticas podem dar origem à produção de pares de partícula e anti-partícula. O vácuo não pode ser o nada.

O vazio seria um espaço em que não houvesse nem matéria, nem campo e nem radiação. Mas no vazio haveria ainda o espaço, isto é, a capacidade de caber algo, sem que houvesse. No universo não existe vazio, pois todo o espaço, mesmo que não contenha matéria, é preenchido por campos gravitacionais e pela radiação que o atravessa, de qualquer espécie. Mas ainda que o vazio existisse no universo, não poderia ser o nada.

O nada não pode ser um espaço a ser preenchido. Em realidade, não pode nem mesmo ser um lugar ou dimensão onde a noção de tempo seja válida. No nada não pode existir o tempo, nem o tempo curto nem o longo. No nada não existe a noção de seqüência de eventos, e ainda que fosse um lugar a espera de ser preenchido, o evento do preenchimento nunca ocorreria, pois demanda que exista o tempo.

Nesse sentido, o nada se assemelha a noção de eternidade dos orientais. Porém, mesmo assim o nada não pode ser a eternidade, pois na eternidade residem as essências das coisas. Ainda que tais essências sejam totalmente imateriais e metafísicas, ainda assim seriam algo, e não nada. O nada não pode ser uma essência, ou idéia, ou conceito, ou pensamento... Nada existe no nada. Nada pode ter algum tempo existido no nada.

O nada não existe sequer como representação mental, ou lingüística. Quando se fala do nada, quando se menciona a palavra como conceito filosófico, obrigatoriamente estamos nos referindo ao conceito do não-existir, e nada mais. Ainda que tenhamos diversas interpretações do nada, nenhuma delas será válida. Nunca. Pois simplesmente não há o que ser interpretado.

Por isso mesmo o nada é um grande problema. Não porque exista, mas exatamente pelo contrário: como o nada não pode existir, nada pode surgir ou ter surgido do nada, nem mesmo este universo.

À seguir, porque afinal existe algo, e não nada?

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