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7.7.10

O homem que esquecia, parte 3

continuando da parte 2

A vida nas montanhas fez muito bem a Oliver. Caminhava quase todos os dias pelas trilhas até pedras com vistas belíssimas para os vales salpicados de bois aqui e ali, e nas noites de verão às vezes madrugava lá no alto, sozinho com sua luneta e uma garrafa de vinho... Com tudo isso passou a escrever não somente em prosa, mas em poesia, no seu Caderno do Amor.

As filhas preferiam vir visitá-lo de vez em quando do que ter de lidar com ele na capital. Em todo caso, a família chegou a um consenso de que era melhor simplesmente não mais relembrá-lo de sua amada Maria. Pensaram: “O luto já passou, assim ele vai muito bem.”

Seus livros cada vez vendiam mais, era agora reconhecido não somente como grande divulgador científico, mas também como um dos mais inovadores poetas dos últimos tempos. “Quem diria” – repetiam os críticos –, “um astrônomo que trata das estrelas como poesia”... A verdade é que qualquer cientista de mais idade que se metesse a escrever de forma não ortodoxa já chamaria atenção suficiente. Mas a outra verdade é que ele era mesmo um excelente poeta, pois em seu âmago sentia alguma tristeza obscura.

Ele preferia não comentar com ninguém, mas sempre que relia seu Caderno sentia que faltava alguma coisa... Era sobre isso que suas poesias tratavam, só que ninguém percebia. Ele olhava as estrelas, a constelação de Órion, e se perguntava se elas não queriam lhe dizer algo. Era quase como um “chamamento” – isso acabou acarretando uma depressão que ele também soube esconder dos irmãos e das filhas, pois que sempre foi muito inteligente – ou nem tanto assim...

Num fim de tarde estava encarando o abismo do alto de uma de suas pedras preferidas. Seus pensamentos eram um tanto confusos, mas já no início da idade que muitos chamam de “idosa”, acreditava que seria mais fácil, talvez, abreviar um pouco a vida... Queria deixar o vento carregá-lo, queria descobrir o que faltava em sua vida, o que havia esquecido, o que as estrelas tinham a lhe dizer...

Foi desperto abruptamente de seus devaneios por um latido de cachorro... Virou-se surpreso e viu o golden retriever um pouco mais acima nas pedras. Era o cachorro do Sr. Heinz, um judeu alemão que havia ido morar lá desde a fundação da cidade, fugindo da ignorância dos homens do norte. O Sr. Heinz era uma pessoa muito espiritualizada, e somente por isso Oliver se esquivava de conversar com ele – era o único que percebia sua depressão, disso tinha certeza.

“Suba aqui, Oliver. Vamos conversar. Eu sei que você quer me contar seu problema, vamos aproveitar o fim de tarde aqui de cima. As montanhas vão continuar onde estão por muito tempo ainda...” – Disse o velhinho.

Conversaram por quase duas horas. Tempo suficiente para Oliver lhe contar que apesar do seu amor pelas estrelas, apesar dos irmãos e das filhas adotivas, e mesmo apesar de seu estranho esquecimento, sentia que sua vida não era tão diferente assim das vidas dos outros. Seu problema era o cintilar das estrelas – ele sentia, ele sabia que elas queriam lhe dizer alguma coisa... Talvez o que não pudesse saber na vida, soubesse na morte.

“Ora, e o que é a morte, senão o eterno renovar das coisas que formam a vida? Você diz que não é tão diferente dos outros, e digo que não é mesmo. Todos morremos, como você, todas as noites. E todos renascemos, como você, todas as manhãs. A única diferença é que a sua experiência é um pouco mais intensa.”

“Um pouco mais intensa?! Mas eu esqueço de todos que conheci e amei desde a adolescência, esqueço até das minhas próprias filhas! Estou sempre perdendo e redescobrindo o amor. Nunca fui muito chegado a drama, mas sou obrigado a admitir que a minha vida é o maior drama do mundo!”

“Isso é o seu ego que admite. Em sua essência, você sabe muito bem que nunca perdeu o amor. Você perde memórias, mas não a capacidade de amar. A potencialidade de amar, em você, nunca diminuiu... Todo esse drama – ‘o maior drama do mundo’ – só serviu para te tornar uma pessoa mais e mais sensível e amorosa, basta ler suas próprias poesias para lembrar disso... Aliás, não que precise não é? Pois você nunca esqueceu de uma poesia sequer.”

Era isso, essa era a resposta! Oliver nunca se deu conta de que seu sofrimento tinha a ver não com o esquecimento, mas com o relembrar! Ele recordava de cada poesia que havia escrito, e suas poesias eram carregadas de sentimentos e emoções – ele estava se livrando de sua maldição, estava voltando a relembrar, lentamente, cada momento e cada emoção de sua vida... Voltou-se para o Sr. Heinz e perguntou, de olhos já marejados:

“Mas como eu posso abreviar esse processo? Como posso relembrar o que as estrelas estão a me dizer?”

“Ora, é muito simples. Até hoje você se maravilhou com as estrelas e as mensagens que sua luz nos traz a cada noite... Agora, basta apontar sua luneta para outra direção, para ler as mensagens que as estrelas de sua própria alma têm lhe trazido, mas que você deixou aí dentro – presas. É importante ler a mensagem da noite infinita, mas é ainda mais importante ler a mensagem do próprio ser em si.”

E desde então Oliver tem apontado sua luneta para a imensidão que se esconde dentro de si mesmo. Embora nunca tenha deixado de amar as estrelas lá fora, agora passou a amar as estrelas lá dentro... Particularmente a mais amada, e agora a que lhe traz as recordações mais doces e dolorosas: a terceira Maria.


Conto por Rafael Arrais (2010), inspirado em descrições clínicas dos livros de Oliver Sacks

***

“Estranho de se pensar, nenhum dia é como o dia que se foi e nenhuma noite como a noite que virá! Porque, então, temer a morte, que é noite e nada mais? Porque se preocupar, se o dia que virá trará uma nova face e um novo espírito?” – John Galsworthy

“Viver na memória dos que nos amam, é viver para sempre” – Carl Sagan

***

Crédito da imagem: Bryan Allen/Corbis

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4 comentários:

Anonymous Heverton disse...

Muito, muito bom o conto, acho que terei que ler mais algumas vezes para perceber toda sua profundidade. Parabéns.

12/7/10 10:24  
Blogger raph disse...

Muito obrigado Heverton...

Relendo ele após escrever, acredito que cada capítulo tenha uma reflexão que vale a pena ser analisada mais a fundo:

Parte 1: "Que importa, mesmo que fosse milionário não poderia comprar um observatório inteiro só para mim..."

Parte 2: "Em todo caso, é melhor amar e perder, amar e esquecer, do que nunca haver sequer amado!"

Parte 3: "Em sua essência, você sabe muito bem que nunca perdeu o amor. Você perde memórias, mas não a capacidade de amar. A potencialidade de amar, em você, nunca diminuiu..."

E digo isso de minha parte também, já que apenas por ter escrito não significa que compreenda exatamente tudo o que escrevi :)

Abs
raph

12/7/10 14:51  
Blogger Yara Rückert disse...

Muito bom o conto!!! como o Heverton,terei que ler mais algumas vezes para alcançar a sua maravilhosa essência!
Havia falado no Twitter que me lembrava Oliver Sacks porque li há pouco tempo "O homem que confundiu sua mulher com um chapéu" e o caso neurológico do personagem Oliver,homônimo do autor, me lembrou o livro,depois confirmei essa suposição com a nota do fim do conto.
Destaco porém,que diferente de Sacks que se prende mais a análise clínica,esta análise do amor é de uma sensibilidade linda,justamente por não resumir o amor a um simples fenômeno da química cerebral e sim como um sentimento que se renova,que não acaba.
Abs,

Yara

9/3/11 00:56  
Blogger raph disse...

Oi Yara,

Obrigado pela leitura. Sei que não é lá um texto muito curto para se ler na web, mas fico feliz que tenha chegado até aqui :)

Realmente, as descrições dos livros de Sacks são espetaculares, mas também "um soco na alma" muitas vezes...

Apesar de não se aprofundar desta forma nas descrições, em todo caso ele mesmo se considera um "cientista romântico". Se perceber, nas entrelinhas dos livros dele, existem muitas referências de espiritualidade (em geral), mas infelizmente ficam só nas entrelinhas mesmo.

Abs!
raph

10/3/11 09:43  

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