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23.11.10

Yeshuah, parte 4

continuando da parte 3

Texto de Júlia Bárány Yaari prefaciando a HQ "Yeshuah” de Laudo Ferreira (Ed. Devir) – As notas ao final são minhas.

[...] Jesus ensinava principalmente por parábolas, o que também configura uma novidade no judaísmo. Suas parábolas visavam ao choque e a rudeza, não sabedoria proverbial, levando os ouvintes por um terreno familiar e, em seguida, provocando o choque, para que saíssem da acomodação [1]. As parábolas derrubavam os muros da realidade comum para alcançar uma outra percepção, a percepção da presença do reino de Deus.

Com um estudo mais profundo e minucioso das tradições, lendas e folclores da época, a lenda de Jesus incorporou várias delas [2]. Dentre elas, vários milagres, datas, como a do Natal, o próprio nascimento e características pessoais. Quanto mais se lê os evangelhos como olhos críticos mas buscadores, tanto mais se adquire a convicção da profundidade das camadas que eles contêm: não só camadas históricas, mas camadas de simbolismo e de devoção fecunda.

A maioria dos estudiosos concorda que Jesus, de fato, curava as pessoas. Isso desafiava a ordem existente, mostrando que a cura de Jesus era uma alternativa para o Templo [3]. A exortação de Jesus para que as pessoas compartilhassem refeições com todos, os pobres e os marginais, também era uma quebra das divisões entre classes sociais. Tudo isso fazia dele um agitador popular [4].

Compartilhar refeição era o reino de Deus na terra. Uma forma de deixar entrar algo de fora para dentro. É preciso ressaltar ainda a relação diferente, chocante para a época, que Jesus tinha com as mulheres. Num meio que não permitia à mulher estudar as Escrituras, ler, escrever, que só o homem podia dar carta de divórcio: que o adultério era condenado só quando a mulher o cometia, Jesus andava pela Palestina acompanhado de mulheres e as considerava como iguais.

O Evangelho de Maria é o primeiro tratado do papiro de Berlim, que teria sido encontrado num antiquário da cidade de Achmim. Junto com o Evangelho de Tomé, de Pedro, de Bartolomeu, de Felipe, Nag Hammadi nos dá um aspecto diferente do cristianismo tradicional.

É atribuído a Míriam de Magdala [Maria Madalena], primeira testemunha da ressurreição e, por causa disto, considerada pelo apóstolo João como sendo, bem antes de Paulo e de sua visão a caminho de Damasco, a fundadora do cristianismo [5]. Ela é a “iniciada”, que entende os ensinamentos mais sutis de Yeshu [Jesus]. Ela é sua companheira, confidente, mulher. O Evangelho de Maria nos mostra que Jesus era capaz de intimidade com uma mulher, mão só carnal, mas afetiva, intelectual, espiritual. Assim ele podia salvar o ser humano em sua plenitude, introduzindo a consciência e o amor em todas as dimensões de seu ser. Mostra a humanidade de Jesus, ao mesmo tempo seu tamanho espiritual ou divino [6]. O Evangelho de Maria revela a forma de conhecer por meio da imaginação criadora, e não por conceitos intelectuais.

Como seria a história humana dos últimos vinte séculos sem Jesus? Se conseguirmos chegar ao âmago de sua mensagem não só com o intelecto mas também pela intuição, como nos sugere Maria, percebemos que ele não queria fundar uma nova religião nem uma nova Igreja, e sim propor uma nova forma de viver as relações humanas, baseada não mais no poder e sim na fraternidade.


Para quem gostou do texto, recomendo ler também a história em quadrinho “Yeshuah” de Laudo Ferreira (com arte-final de Omar Viñole), lançada em três partes pela Editora Devir, e para a qual este longo prefácio foi escrito.

***

[1] É bem interessante esta análise, e também profunda (“a segunda vista”). Se repararem, é uma prática comum dos grandes sábios. Sócrates, por exemplo, era também mestre nesta “técnica”.

[2] Em realidade os grandes mitos são extremamente persistentes. Estudiosos como Joseph Campbell, que já o definiram como “aquilo que não existe, mas existe sempre”, sabem muito bem que as culturas humanas sempre adaptaram os mitos (ao menos dos povos que não foram totalmente devastados por guerras ou doenças), visto que os reis e imperadores sempre souberam que é muito difícil “aniquilar” um mito.

[3] Interessante como nos dias de hoje as igrejas, principalmente as protestantes e evangélicas de países em desenvolvimento como o Brasil, promovem toda espécie de cura em seus templos. Mas, interessante notar, as curas sempre ocorrem apenas nos templos... Quão raros são os pastores capazes de curar em qualquer lugar, mesmo sem ter plateia ou câmeras de TV à volta. E ainda mais raros aqueles capazes de efetivar a verdadeira cura, a cura da alma.

[4] Quantas igrejas, tempos e ornamentação inútil construídos em seu nome nesses dois mil anos. Tivesse ele retornado, não seria aceito em quase nenhuma delas. Seria tão “marginal” quanto o foi em sua época.

[5] Também existem teses de que ela seria o “discípulo amado” e, portanto, autora do Evangelho de João, presente no Novo Testamento.

[6] Eu costumo dizer que comparar Jesus a Deus não é aumentar Jesus, pois ele foi um dos maiores ou talvez o maior sábio que caminhou pela Terra, e procuramos compreender a Deus por nossos parâmetros humanos. Porém, é diminuir muito a Deus, por razões óbvias.

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Crédito da imagem: Akiane Kramarik

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